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Girândola de Amores

I O RAPTO

Clorinda acabava de pôr o seu véu de noiva e, de costas para o espelho, olhava por sobre o ombro a cauda do vestido

A velha Januária pregava-lhe com muita solicitude o último alfinete dourado, e, como representasse para ela o papel de mãe, repetia-lhe baixinho, com a voz comovida e os óculos embaçados pelas lágrimas, os invariáveis conselhos adequados à situação

Aos pés de Clorinda, ajoelhada no tapete, uma mucama arranjava-lhe cuidadosamente a barra do vestido, compunha e ordenava os folhos e desfazia e ajeitava as pregas do cetim

E a noiva, toda enlevada na cerimônia daquela roupa, sorria sem saber de quê e sentia enrubescerem-se-lhe as faces por uma delicada previsão do seu pudor

Estava linda assim toda de branco, com o seu longo véu de filó, que lhe envolvia o busto gracioso, deixando todavia perceber o doce relevo da cabeça, engrinaldada de pálidas flores de laranjeira

Tinha os olhos azuis, muito transparentes, a tez de uma brancura imaculada, os cabelos entre louro e castanho, os dentes adoráveis e a boca um mimo cor-de-rosa

Terminado o vestuário, a mucama saiu da alcova para saber se o noivo já tinha chegado. E a velhinha, a sós com a pupila, cruzou as mãos na cintura e ficou a olhar para ela, longamente, com a expressão carinhosa de quem se revê num filho

Ah! a pobre velha Januária também fora bem bonita e também fora noiva no seu tempo! Aquele corpinho vergado de existência e deformado pela velhice, provocara outrora desejos desenfreados e acendera em mais de um peito paixões tempestuosas

Triste viagem é a da vida, que termina sempre por um naufrágio; ou da qual ainda ninguém saiu sem levar a mastreação partida, o farol apagado, e as velas estraçalhadas pelos terríveis vendavais que se encontram no caminho. Um por um, vamos deixando esparsos pelas correntes revoltosas da existência todos os dotes com que nos amaram, e todos os bens com que íamos avassalando os corações alheios. E ao cabo da viagem, sem dentes, sem cabelos, sem brilho nos olhos, com a pele encarquilhada e as pernas trôpegas, ficamos a esperar o túmulo, esquecidos e desprezados no mundo, como o casco inútil do navio que naufragou na costa e vai aos poucos despindo as cavernas e mostrando a quilha

O contraste entre as duas mulheres que estavam na alcova — uma tão fresca e bela, outra tão fraca e decrépita, levava o espírito àquelas considerações

As duas quedaram-se a cismar por algum tempo; a velha embevecida a olhar para o passado; a moça a sonhar-se nas felicidades futuras. E como dois viajantes que se encontram no mesmo porto, um a partir, outro a voltar, as duas sorriam; mas o sorriso da que ia era todo de esperanças, enquanto o da outra só transpirava desilusão e cansaço

— Por que está tão triste, mãezinha? perguntou a moça, tomando as mãos da velha

— Nem eu sei... respondeu esta, procurando disfarçar o constrangimento. Talvez seja nervoso, mas sinto alguma coisa no coração, alguma coisa que me oprime! — Não se deixe levar por essas cismas!... Lembre-se de que hoje é o dia do meu casamento..

— É por isso mesmo... E acrescentou, mudando de tom: É verdade! E o noivo, já teria chegado? A mucama entrou na alcova para dizer que ainda não

Esta demora ia sendo já comentada, na sala de jantar pela madrinha de Clorinda e algumas amigas de D. Januária

— Não fora bonito da parte do noivo fazer-se esperar daquele modo! Eram já quatro horas da tarde e o casamento estava marcado para as cinco !..

Parou uma carruagem à porta, e quase todos correram a ver quem chegava

— Deve ser ele, considerou a madrinha, armando um sorriso. Mas teve logo de desarmá-lo, vendo entrar o comendador Portela, velho amigo da casa

O comendador entrou apressado, a pedir mil perdões pela demora

Queria vir antes, mas um negócio de alta importância exigira a sua presença

E, segundo o seu costume, pôs-se logo a falar de si, das suas grandes preocupações comerciais, do dinheiro que tinha naquele momento arriscado em várias transações perigosíssimas, e, afinal, da prosperidade da sua casa, do bom trato que dava aos seus empregados, do projeto de desenvolver certas indústrias e de criar certos estabelecimentos importantes

— Bons desejos não me faltam! afirmava ele a rir imodestamente

E, como se achasse ali em um meio relativamente acanhado, empertigava ainda mais a cabeça, remetia para a frente a barriga e com o polegar levantava pretensiosamente a gola condecorada de sua casaca

— Vai-se fazendo pela vida! vai-se fazendo! repisava ele, sempre com o mesmo riso

Deram cinco horas, e o noivo nada de aparecer! — É demais! exclamou a madrinha, que afinal perdera a paciência e abrira a falar abertamente contra aquela demora grosseira e imperdoável

Os ânimos foram-se a pouco e pouco sobressaltando. Havia já no comendador um risinho velhaco de má-fé, e a noiva, sem querer sair da alcova, sentiu avultar-lhe na garganta um novelo estranho que a sufocava

A madrinha expedira secretamente um portador à casa do noivo. O portador voltara, declarando que o Sr. Gregório, havia coisa de uma hora, saíra para a casa da noiva em companhia de um senhor velho e de boa aparência que o fora buscar. E declarou mais que na porta da rua estava um cocheiro, que viera da casa do Sr. Gregório, com a recomendação de esperá-lo aí

Ninguém mais se animou a dar palavra, à exceção da madrinha, que nunca perdia ocasião de falar mal dos homens

— Todos eles lêem pela mesma cartilha! considerou ela, trejeitando um ar desdenhoso. Bem fiz eu em nunca tomar a sério semelhante gente! Nada! Antes só do que mal acompanhada! Prefiro ficar solteira toda a vida! — Descanse, D. Josefina, que ninguém a contrariará! respondeu um sujeitinho magro e ativo, que parecia muito empenhado no bom êxito do casamento

Nisto foram interrompidos pelo padrinho do noivo, o dr. Roberto, que vinha da igreja, farto, como os outros que lá estavam, de esperar pelos desposados

— Pois se ele ainda nem apareceu por cá!... exclamou a madrinha, vermelha de cólera

— Não veio?! Gregório não apareceu ainda?! disse o doutor muito admirado. Parece incrível! — Pois é a pura verdade! — Ter-lhe-ia sucedido alguma coisa?! Estará ele doente?! — Se está doente não sei, gritou a terrível madrinha; em casa é que lhe afianço que não está, porque agora mesmo mandei lá saber! — Mas como então se explica tudo isto? Eu às três e meia estive com Gregório, e disse-me ele que ia preparar-se para o casamento

E o doutor, depois de refletir um instante, tomou o chapéu e saiu, com a intenção de procurar o amigo

Daí a pouco, todas as pessoas que esperavam pelos noivos na igreja invadiram a casa de D

Januária, e começou-se então a tratar francamente do escândalo

Clorinda desfez-se do véu e da grinalda, pediu à mãe adotiva que fechasse a porta da alcova, e depois atirou-se-lhe nos braços a chorar desorientadamente

Entretanto, Gregório, o causador inconsciente de todo aquele desgosto, acabava nessa ocasião de ser carregado, sem sentidos, por dois lacaios de libré escura, para uma sala de bela aparência, na Tijuca

Acompanhava-o um homem de uns cinqüenta anos, alto, magro, todo vestido de negro, barba inteira dividida no queixo, ar distinto e maneiras extremamente delicadas

Ao chegarem à sala, o homem magro disse aos lacaios que depusessem Gregório sobre um divã, e ordenou que um deles fosse chamar a condessa

Apareceu então uma senhora já velha, sumamente simpática, aspecto fino e bem educado

—Ei-lo! Disse o cavalheiro à condessa, apontando para Gregório, que, irrepreensivelmente vestido de casaca, continuava prostrado no divã. Os lacaios afastaram-se discretamente

— Ah! exclamou ela, correndo para o desfalecido. Estou agora mais tranqüila!..

E, ajoelhando-se ao lado do divã em que estava o moço, tomou as mãos deste e ficou a observar-lhe a fisionomia

Gregório era uma bela figura de vinte e três anos. Feições puras bem conformado de corpo, um todo singularmente meigo e bondoso. O sono dava-lhe à fisionomia tal suavidade que o fazia parecer ainda mais moço do que era

A condessa, depois de contemplá-lo por algum tempo, com muita ternura, passou-lhe a mão pelos cabelos e beijou-o na fronte

— Veja, conde, disse ela ao homem vestido de preto; como é formoso! — É o retrato da pobre Cecília! respondeu aquele com um ar pensativo

E depois de uma pausa: — Onde o devemos acomodar? — Na sala amarela, disse a condessa, erguendo-se. O que me sobressalta um pouco é este sono. Não vá fazer-lhe mal..

— Pode ficar tranqüila, condessa, não lhe sucederá mal nenhum. E, se houvesse alguma novidade, bem sabe que o nosso médico é homem de inteira confiança

Gregório foi conduzido para a sala amarela e só voltou a si às dez horas da noite

Ao acordar, circunscreveu o olhar em torno. Todos os objetos que o cercavam lhe punham nos sentidos, ainda estonteados pelo sono, um estranho sabor de constrangimento e sobressalto

E, sem consciência do lugar em que estava, percorria demoradamente a vista pelas velhas tapeçarias suspensas da parede, pelos vários quadros, simetricamente dispostos nos intervalos das portas, e pelos móveis luxuosos, guarnecidos de metal amarelo, que pousavam elegantemente sobre a felpa macia do tapete, cintilando à luz aristocrática das velas. Seus olhos sindicavam de tudo aquilo com a insistência dos do juiz que interroga as testemunhas de um crime, mas nada correspondia ao inquérito, à exceção de um velho relógio de bronze, que, de um dos ângulos do aposento, lhe apontava as horas com o dedo de ouro e lhe dizia os segundos no seu coaxar monótono

— O quê?! dez horas?! perguntou-lhe Gregório, impaciente por alguma explicação

O relógio não respondeu, mas continuou a apontar para o X

— Dez horas! exclamou o rapaz, levantando-se de um pulo. Só então lhe passara pelo espírito a idéia lúcida do seu malogrado casamento

E todas as outras idéias, aproveitando a brecha que deixara a primeira, lhe invadiram turbulentamente o cérebro, como se até aí estivessem só à espera de que lhes abrissem a porta

Perturbou-se a princípio, mas tratou logo de reconstruir pacientemente tudo o que fizera nesse dia. Dividiu as horas e deu a cada uma a sua aplicação justa; determinou o tempo gasto com o padre, com o cabeleireiro e com as pessoas em companhia de quem esteve; chegou a lembrar-se do assunto de suas conversas, o que dissera a tal e tal amigo, e recordou-se expressivamente da impressão que lhe assaltava de vez em quando o espírito, sempre que se imaginava no momento feliz de apoderar-se da noiva

Esta idéia trouxe-lhe o mal-estar que nos causa a não realização de um projeto por muito tempo afagado. E Gregório, como se duvidasse ainda dos seus próprios raciocínios, procurou fixar bem nas horas que precederam de perto o momento em que lhe escapou a razão

Às três e meia entrara na casa em que morava nas Laranjeiras, a gritar para o Jacó, seu criado, que lhe desse imediatamente o fato da casaca e lhe aprontasse um banho morno. Às quatro e meia, na ocasião de sair para ir buscar a noiva, Gregório lembrava-se perfeitamente de que um homem, de modos graves e distintos, se lhe apresentara em casa, pretextando interessarse muito pelo futuro de Clorinda, falando sobre mil coisas concernentes ao casamento, entre muitos protestos de simpatia e de respeito. Esse homem depois insistiu com Gregório que aceitasse um lugar na sua carruagem e despediu a que já estava à porta. Gregório consentiu e tomou lugar ao lado dele. Recordava-se ainda de que, preocupado com a idéia do seu casamento, não atentara para a direção tomada pelo carro e que, em certa altura, na ocasião de abaixar-se para apanhar o claque que lhe caíra das mãos, o homem misterioso lhe passara rapidamente um lenço úmido no rosto, e Gregório perdera os sentidos

Só até aí chegavam as suas reminiscências. Havia por conseguinte em tudo aquilo um plano premeditado e posto em prática, do qual era ele a vítima, covardemente iludida e ludibriada. E Gregório por um impulso do orgulho, sentiu um estremecimento de cólera

Estava neste ponto, quando se abriu a porta do quarto, deixando passar um dos lacaios que vimos às ordens do conde

— V. Exa. ordena alguma coisa? perguntou o fâmulo, curvando-se humildemente

— Ordeno que me expliques o que faço aqui e onde estou! — Infelizmente não posso..

— Nesse caso abre as portas, e eu irei procurar quem me responda

— Infelizmente, também não posso franquear-lhe a saída..

— Visto isso estou preso?!..

— Não sei, não senhor

— Então que diabo sabes tu?! — Sei que estou aqui para servir a V. Exa

— Obrigado pela solicitude, mas confesso que preferia, antes de mais nada, uma explicação do que quer dizer tudo isto

E, depois de dirigir inutilmente mais algumas perguntas ao criado, declarou-lhe que podia retirar-se quando quisesse. E o pobre rapaz tomou a resolução de deixar que as coisas corressem por si

— Eu não terei certamente de ficar aqui o resto de minha vida, considerava ele; por conseguinte, o melhor é aguardarmos tranqüilamente os acontecimentos

O pior era a dúvida em que estava a respeito de Clorinda. Ter-lhe-ia também sucedido alguma coisa, ou, se nada sucedera, que não pensaria ela daquela estranha ausência de seu noivo?... E os amigos, e os padrinhos do casamento, e os convidados?!..

— Ora, que papel ridículo me obrigam a fazer! dizia ele, gesticulando sozinho; mas foi a pouco e pouco se habituando à sua estranha situação e, nestas circunstâncias, vestiu-se, calçou-se, acendeu um charuto, foi a uma biblioteca que havia no quarto, tirou um volume de versos e pôsse a ler, disposto a esperar pelo que desse e viesse

Reparou então que estava caindo de fraqueza e lembrou-se de que os sobressaltos do casamento não lhe permitiram jantar. Correu à campainha elétrica e tocou

Apareceu logo o mesmo criado de há pouco

— Dá-me o que cear, disse-lhe Gregório e acrescentou consigo: Ao menos ficarei entretido enquanto estiver comendo

O criado voltou com uma ceia, caprichosamente preparada, e perguntou que vinho usava Gregório

— Deixo isso à tua vontade. Traze o que entenderes

Terminada a refeição, apareceu de novo o criado, perguntando, em nome do Sr. conde, se Gregório podia recebê-lo naquela ocasião

— Pois não! respondeu o interrogado. Seja quem for esse Conde, ardentemente desejo entender-me com ele. Diz-lhe que estou absolutamente à sua disposição

Pouco depois penetrava o conde no quarto. Gregório mediu-o de alto a baixo, sem se poder furtar a certa impressão de respeito causada pelo ar do fidalgo

— Muito boas noites, disse este entrando

— Obrigado, respondeu o outro, curvando-se com delicadeza; mas, se me permite uma pergunta, tenha a bondade de dizer com quem tenho a honra de falar..

— Fala com o conde de S. Francisco, irmão da desventurada Cecília, falecida há quinze anos no convento de Santa Clara no Porto

— Minha mãe?! — Justamente, Sr. Gregório de Souto Maior; antes porém de lhe explicar as estranhas ocorrências desta tarde, tenho de declarar-lhe que foi para seu interesse que o constrangeram a entrar nesta casa. Era preciso evitar a todo transe o seu casamento com a menina Clorinda..

— Mas, por que, senhor? — Ouça-me primeiro, e depois compreenderá tudo

O conde puxou duas cadeiras, e convidou Gregório a assentar-se defronte dele

— É natural que não lhe seja agradável ouvir a maior parte do que lhe vou relatar, principiou o velho, dando uma expressão benévola às suas palavras; como é natural também que nunca o fizesse, se a isso não fosse eu agora forçado pelas circunstâncias; mas cumpro um dever, e tanto me basta para completa tranqüilidade da minha consciência..

Gregório fez um gesto de assentimento e ouviu a escandalosa narração do seguinte: II CONFIDÊNCIAS “Tinha eu apenas dez anos de idade, principiou o conde, quando meu pai, cinco anos depois de enviuvar, recolheu em casa, nas suas terras do Alto Douro, uma senhora ainda moça, gentil de maneiras, cultivada no trato e no espírito, mas totalmente desamparada de recursos pecuniários

“O marido, pois que era casada, havia-se de tal modo incompatibilizado com ela, que a infeliz resolveu abandoná-lo e procurar, só por si, com o que sabia de música, desenho, inglês e francês, os meios de viver modestamente em qualquer província de Portugal ou do Brasil

“Chamava-se Helena

“Era uma criatura loura, franzina de corpo, feições muito expressivas e olhar inteligente

Parece que ainda estou a vê-la! “Meu pai, que a princípio só lhe confiara a educação primária dos filhos mais novos, foi, à proporção que se deixava tomar de simpatias pela professora, resignando em suas mãos primeiro a direção espiritual de minhas irmãs, depois o governo da casa, e afinal o governo absoluto do seu próprio coração. Escravizou-se

Desse cativeiro nasceu uma filha, que se converteu nos últimos encantos do pobre velho. E a contar de então, meu caro hóspede, se Helena já era senhora absoluta de todo o palácio, que não ficaria sendo com o nascimento da filha?... Sua vontade, incisiva e nervosa, conquistou e dominou desde o conde até ao último dos nossos lacaios

“As desavenças e os desgostos entre a família não se fizeram esperar: minhas duas irmãs, que se tornavam mulheres, foram as primeiras a reagir contra a ditadura que lhes queriam impor

Uma casou logo, para fugir ao jugo da falsa madrasta; a outra exigiu que a metessem em um convento, donde só saiu para unir-se ao homem que a tomou por esposa

“Meu pai não pôde sobreviver por muito tempo à ausência de minhas duas irmãs e à desorganização da sua casa, agravaram-se-lhe os padecimentos de que sofria, e faleceu pouco depois, legando à amante e à filha ilegítima uma boa parte dos seus bens

“Eu que por esse tempo fazia meus estudos em Coimbra, corri à casa paterna e tratei do inventário de meu pai

“Helena havia-se afastado já com a filha, que nessa ocasião teria quinze anos, e veio a casála alguns anos depois com um capitão de marinha, conhecido pela alcunha de “Leão Vermelho”

— Meu pai! exclamou Gregório

— Sim, confirmou o conde; o senhor é filho desse casal. Sua mãe, porém, foi abandonada na cidade do Porto pelo marido, ficando-lhe apenas do matrimônio, além dos desgostos de uma viuvez forçada, um filho de dois anos. O fim dessa pobre mulher já o senhor conhece naturalmente: foi o convento e a loucura

— Sim, disse Gregório

— Mas o que talvez não saiba, acrescentou o conde, é que, antes disso, teve ela ocasião de salvar a vida da pessoa com quem depois me casei

— Ah! — Foi a enfermeira incansável e desvelada da filha de um velho amigo de meu pai, a qual sem dúvida teria sucumbido sem a dedicação e os sacrifícios de Cecília

— E o filho, a criança de que o senhor falou? — Essa criança, logo que a mãe perdeu a razão, foi reclamada pela família de minha noiva, e, depois do meu casamento, veio em companhia de minha mulher para o Brasil, onde foi entregue aos cuidados de certa senhora

— A senhora que me educou, D. Florentina de Aguiar..

— Justamente, respondeu o conde

— E o capitão, o pai dessa criança?! — É de quem vamos tratar agora..

E o conde, tendo-se levantado, bebido alguns goles d’água e afagado a barba, continuou: — Leão Vermelho, depois de repudiar a mulher, o que a levou ao desespero da loucura, partiu para as Antilhas espanholas, levando consigo um marinheiro fiel e brioso, que sempre o acompanhara e tinha por ele uma adoração sem limites. Conheci esse valente marinheiro; chamavam-lhe “Tubarão”. Depois da viagem às Antilhas, Leão Vermelho meteu-se no Rio de Janeiro, e aí travou relações com uma Henriqueta, com quem pouco mais tarde veio a casar

— A casar?! Mas então minha mãe havia já morrido?!..

— Ainda não; e essa é a causa da perseguição que sofreu seu pai no Rio de Janeiro e da sua fuga rápida para Buenos Aires. Era bígamo. A segunda mulher ficou aqui no Rio com uma filha por nome Clorinda

— Clorinda! — A mesma com quem ontem ia o senhor casar..

— Clorinda, visto isso, é minha irmã?!..

— Perfeitamente, sua irmã

— E foi por isso que me conduziram para cá? — Isso foi uma das razões. A outra vai o senhor conhecer agora

E o conde, depois de uma pausa, acrescentou: — O senhor tem sem saber uma enorme riqueza à sua disposição

— Como assim? — A herança de seu pai

— De meu pai? Mas, perdão, meu pai morreu há seis anos em Montevidéu, e pobre

— Foi o que ele fez constar, para não ser perseguido, mas a verdade é que se passou a Portugal com o nome suposto de “João Brasileiro” e apenas há dois meses faleceu

— Meu pai ainda vivia? — Sim, eu e minha mulher, somos aqui os únicos senhores desse segredo. Sei de toda a vida de seu pai e acompanhava os seus últimos passos, porque a condessa muito se interessa por tudo o que diz respeito à falecida Cecília, sua mãe. Diga-me, não lhe consta que Clorinda recebesse uma mesada?..

— Pois não, confirmou Gregório; sei que a velha Januária recebia uma pensão misteriosa, da qual ela própria dizia não saber a procedência; como sei igualmente que esse dinheiro era o único recurso que tinham as duas para viver

— Esse recurso vai desaparecer com a morte de seu pai

— Pobre Clorinda! Mas eu, se deixo de ser seu marido, principio a ser seu irmão, e..

— Não se trata disso agora. Eu me encarrego de fazer continuar a mesada. Amanhã mesmo remeterei a primeira

— Mas..

— Não haja escrúpulos! É com o seu dinheiro que vou socorrê-las... Não lhe disse há pouco que o senhor tem uma fortuna à sua disposição?! Pois faça o favor de ler isto..

E passou-lhe um jornal português, indicando-lhe um certo ponto marcado a lápis

— Será possível?! exclamou o rapaz, lendo as primeiras palavras

— Leia tudo, disse o conde. E se estiver disposto a aceitar uma proposta, amanhã mesmo partirá comigo para a Europa

Gregório leu a notícia da morte de seu pai e a confirmação de que este deixara uma grande soma de bens, que seriam recolhidos pelos poderes competentes, até aparecer um filho, existente no Brasil, segundo declarações exatas

— E sabe o senhor a quanto montam esses bens? perguntou o conde ao rapaz. Excedem a quatrocentos contos fortes! — Bem, disse Gregório; amanhã mesmo principio a preparar-me. Vou a..

— Nada! contrariou o outro; nada disso! O senhor parte daqui mesmo; eu darei as providências necessárias para que não venha a faltar coisa nenhuma

— Mas preciso ao menos despedir-me do lugar em que trabalho; reunir os objetos que me possam servir para a viagem e dar a Clorinda uma explicação da minha ausência..

— É justamente o que não convém de forma alguma. Estas coisas decidem-se assim! E o conde calcou o botão da campainha elétrica

Veio o criado

— Prepara as minhas malas e previne à senhora de que lhe desejo falar ainda esta noite

O criado curvou a cabeça e saiu

— Mas eu hei de partir assim sem mais nem menos?... observou Gregório, ao último ponto contrariado

— É para o seu interesse, meu amigo: a perda de um paquete podia acarretar consigo a da ocasião. Lembre-se do velho provérbio indiano: “A fortuna só tem cabelos na frente da cabeça e é calva na nuca”; se a não agarrarmos de frente, ela se irá por uma vez e nunca mais a pilharemos

O senhor só sairá daqui para bordo! — Mas os meus interesses, os meus compromissos, que me esperam lá fora?..

— Tudo isso não vale a vigésima parte do tesouro que o reclama com urgência! — Mas uma coisa não elimina o outra; bem podíamos conciliar as duas e..

— Deixemo-nos de meias medidas, meu caro senhor; já lhe disse o que tinha a dizer; agora só me resta acrescentar que, nas condições apresentadas, estou pronto a acompanhá-lo; noutras, não! Lembre-se, porém, de que, sem o meu concurso, lhe será muito difícil chegar a qualquer resultado prático a respeito da herança de seu pai!..

— Mas, Sr. conde, objetou Gregório; se eu fizer o que V. Exa. me aconselha, fico absolutamente sem recursos: abandono meu emprego, abandono tudo! — E que falta lhe podem fazer essas coisas? E o conde, depois de uma pausa, disse com a mais resoluta calma: Enfim, senhor, eu sigo amanhã no paquete que parte para a Europa, quer ou não quer acompanhar-me?! — Bem! respondeu Gregório, inspirado pelo ar resoluto do conde. Estou às suas ordens! — Neste caso, vou apresentá-lo à minha família, que irá também

O rapaz consertou rapidamente o laço da gravata, passou a mão pelos cabelos, e, pouco depois, em companhia do conde, era anunciado nos aposentos da condessa

Ao chegar à porta sentiu logo um doce perfume de paz honesta. Tudo ali era castamente tranqüilo; havia na atmosfera o aroma grave de flores secas, esquecidas no fundo de uma velha gaveta de família. Os móveis, o tapete, os quadros e as cortinas revelavam a mesma sobriedade de gosto, o mesmo recato de simpatias, as mesmas inclinações finas e aristocráticas

Não se encontravam ali as fantasias baratas do luxo moderno; não havia as fragilidades douradas da falsa opulência; tudo era bom e sincero. O biscuit não substituía o mármore, o gesso pintado não tomava o lugar do bronze e o cromo litográfico não fazia as vezes da aquarela e da pintura a óleo. Cada objeto dizia sinceramente a sua espécie e a sua qualidade

Predominava em tudo a mesma singeleza bem educada. Nada de arrebiques, nada de frisos de pinho envernizado, nada de guarnições impertinentes. As boas gravuras inglesas e as magníficas águas-fortes destacavam-se perfeitamente da nudez austera das paredes. Os móveis de madeira sem lustro tinham cada um a sua utilidade imediata. Não havia os preguiçosos divãs que conduzem à volúpia e ao dolce far niente; não havia as dúbias cadeiras que obrigam o corpo a uma posição enervante e sem-cerimônia

Gregório transpôs a porta daquele santuário, inteiramente penetrado pela alma misteriosa que daí se evaporava, como o perfume religioso de um templo

A condessa, assentada junto à mesa, lia um grosso volume de capa azul à luz vermelha de um candeeiro de alabastro. Vestia uma roupa inteira e afogada de casimira indiana, e tinha a cabeça resguardada por uma touca de renda de Valença. Não se lhe via luzir uma jóia. Ao lado dela, em uma cadeira mais baixa, bordava a filha, toda preocupada com o seu trabalho

Maria Luísa, é este o nome da menina, teria dezessete anos, não travessos e ruidosos, mas angélicos e tranqüilos, como tudo o que a cercava. À luz do candeeiro destacava-se bem a sua cabecinha loura, redonda, encimada pelas tranças, que a envolviam à moda das velhas estátuas. Sentia-se o azul dos seus olhos por debaixo das pálpebras abaixadas sobre o trabalho

Não houve o menor alvoroço com a entrada de Gregório. A condessa marcou com uma fita a página que lia, e pousou devagar o livro sobre a mesa; depois estendeu a mão para o moço e, com um sorriso muito amável, ofereceu-lhe um lugar perto de si, enquanto o conde o apresentava às duas senhoras

— Minha mulher e minha filha, disse o velho, indicando as duas

Gregório cumprimentou-as, possuído de um forte sentimento de respeito, e foi sentar-se ao lado da condessa

— Até que afinal o temos conosco, disse ela, descansadamente. E, voltando-se mais para ele, acrescentou, fazendo um ar sério: Fui muito amiga de sua mãe! Era uma excelente pessoa; entre outros obséquios, devo-lhe a vida! — O Sr. conde já teve a bondade de contar-me isso mesmo, sustentou Gregório um pouco perturbado

— Sim, volveu a condessa, eu própria lhe havia recomendado que o fizesse

E depois de dar a entender à filha que se retirasse: — Não temos tempo a perder. O conde naturalmente já lhe falou sobre a herança de seu pai, não é verdade? — Sim, minha senhora

— E está disposto a partir? — Amanhã mesmo

— Bem, neste caso darei daqui a pouco as providências para a viagem; por enquanto falemos do senhor..

III POLÍCIA E CÓCEGAS Justamente no dia do malogrado casamento de Gregório, o Dr. Ludgero, então chefe de polícia da Corte, acabava de entrar na casa de sua residência à rua da Ajuda, quando o ordenança lhe entregou, por mandado do ativo delegado Benevides, a parte de um grande crime, que nessa mesma tarde se havia cometido nos armazéns de rapé do popular fabricante Paulo Cordeiro

Ludgero levantou-se incontinenti da mesa, tomou apressado o chapéu e a bengala, meteu-se no carro e disse ao cocheiro que tocasse para a ladeira da Conceição

O carro parou à entrada de uma espécie de corredor, que conduzia sinistramente a um lugar apertado, sujo e abafado pelo teto. Era aí que a polícia detinha os cadáveres complicados em qualquer crime. Ainda não existia o Necrotério

Fazia péssima impressão entrar naquela pocilga da morte, cujo aspecto repulsivo dizia todos os mistérios da miséria humana. Constava de um pequeno quarto, estreito e úmido, com duas mesas de pau. Havia também, na parede do fundo, uma cruz negra, que abria na sombra os braços, muito triste, como se estivesse em vão à espera do seu crucificado

Sobre uma das mesas, jazia, glacial e rígido, o corpo ensangüentado de um homem branco

Ao lado, dentro de um caixão de forma especial e com as tábuas ensebadas pelo hábito de carregar os despojos das autópsias, viam-se matérias informes, de uma cor estranha e repugnante, dentre as quais sobressaíam vísceras humanas, gordas e brancas como carne de porco, e um crânio, cerrado ao meio, deixando transbordar a massa compacta dos miolos. Em torno de tudo isto zumbiam moscas

Veio à porta receber o chefe de polícia um homenzinho magro e amarelo, tão feio e tão morto de fisionomia, que lembrava os próprios defuntos que lhe cabia vigiar

O ofício comera-lhe o pavor natural que todo o homem sente à vista da morte, e familiarizara-o com as degradações pavorosas da carne sem vida. Dava-se perfeitamente bem no meio de tudo aquilo: ali comia, ali dormia e ali amava. Quando pilhava algum dinheiro para comprar luz, corria à venda a bebê-lo de aguardente, e à noite deixava-se ficar no escuro com os inalteráveis companheiros de casa, que seguro não o incomodariam durante o sono

O Ludgero disse-lhe alguma coisa; e o guarda, sem nada responder, conduziu-o para defronte da mesa em que estava o cadáver

Então o chefe de polícia armou as suas lunetas de vidro graduado, e ficou a observar o morto por algum tempo

Era um defunto comprido, magro, com barbas empastadas de sangue pelo lado inferior

Estava descalço e tinha o corpo nu, ligeiramente esverdeado. O assassino rasgara-lhe a garganta à faca e puxara o golpe até às regiões dérmicas do tórax

O chefe mandou chamar o escrivão e o médico, procedeu ao corpo de delito, e, depois de apoderar-se de um farrapo de casimira cinzenta, encontrado na mão direita do morto, meteu-se de novo no carro, e tomou o caminho da Secretaria de Polícia, que nesse tempo era ainda na rua do Sabão

Aí procurou logo o delegado, com quem conversou algum tempo, terminando por entregarlhe o farrapo de casimira e recomendar-lhe que procedesse às preliminares do inquérito no local do crime, e desse as providências para as competentes pesquisas

Nessa ocasião acabava de chegar o Caixa da Casa Paulo Cordeiro, sobre quem recaía o prejuízo causado pelo roubo que dera lugar ao crime. O delegado tomou-o de parte, e os dois ficaram a falar a meia voz

O chefe entretanto passara à sala de audiência, onde, entre outras pessoas, foi introduzida uma senhora ainda moça, de boa aparência, que dizia querer soltar um escravo seu, preso na véspera

O chefe ouviu-a com toda a atenção, chamou um empregado e mandou lavrar o alvará de soltura. A senhora levantou-se, e agradeceu, mas, na ocasião em que transpunha a porta para sair, foi detida por uma frase que ouvira destacada da conversa do delegado

Parou, e protegida por um reposteiro, prestou toda a atenção

— É o que lhe digo, Sr. delegado, repisava o queixoso. Nada podemos fazer sem primeiro ouvirmos o rapaz

— Mas onde mora esse Gregório? — Mora nas Laranjeiras

— Em que se ocupa? — É zangão da praça

— O senhor viu-o hoje? — Nem hoje, nem ontem

— E ele então sabia que o senhor recebeu ontem à tarde os vinte contos de réis? — Foi a única pessoa estranha ao negócio, que soube disso

— Bem, disse o delegado; escreva o nome e a moradia desse rapaz, e deixe tudo mais por minha conta

A mulher que os escutava, aproveitou o momento em que os dois se afastaram, para sair do seu esconderijo e descer precipitadamente a escada

À rua tomou um carro e seguiu para a casa de Clorinda. Pelo sobressalto em que ia e pelo ar de dolorosa ansiedade espalhado em todo o seu rosto, pálido e simpático, conhecia-se facilmente que a pobre mulher estava sob a influência de uma grande emoção

Antes porém de voltarmos com ela à casa da noiva, que em tão triste situação deixamos no primeiro capítulo, cumpre dizermos alguma coisa a respeito deste novo personagem

Imagine o leitor uma mulher cheia de corpo, um tanto baixa, porém esbelta e garrida; dê-lhe um par de olhos castanhos, vivos e graciosos, uma boca risonha, um narizinho arrebitado, uns cabelos da cor dos olhos, um pescoço carnudo e bom torneado; e terá o leitor, pouco mais ou menos, a figura simpática que se dirigia para a casa de Clorinda

Chamava-se Júlia Guterres; fora atriz por muito tempo e afinal, a instâncias do homem com quem casara, teve de abandonar por sua vez o palco

O marido faleceu cinco anos depois do casamento, deixando à viúva um legado que lhe assegurava o resto da vida

Júlia Guterres reuniu o que possuía, vendeu alguns bens que lhe não convinham, alugou o prédio em que morara com o marido, dispôs de alguns escravos, comprou um belo chalezinho na Tijuca, e meteu-se aí, com a intenção de envelhecer tranqüilamente

Foi nessa casa que ela travou relações de amizade com Gregório. Viram-se os dois à primeira vez por ocasião do batizado da filha de uma amiga. Gregório teria então vinte anos, gozava de alguma fama de estróina e figurava na vida romântica de uma tal Olímpia, a quem o leitor mais tarde virá a conhecer perfeitamente

Um dia, sentia-se ela aborrecida e nervosa, sem saber o que tinha, nem o que queria; tudo nessa ocasião parecia enfastiá-la profundamente. Vestiu-se, mas não teve a coragem de sair; abriu um livro e não leu uma página sequer; acendeu um cigarro e arremessou-o logo pela janela

Nisto entrou o criado no seu quarto e disse-lhe que o Sr. Gregório a procurava

— Não estou em casa! respondeu a senhora, de mau humor

Mas, quando o criado ia a sair, acrescentou consigo: — Que idéia!..

E mandou que se abrisse a porta ao rapaz. O chalezinho da viúva compunha-se de poucas peças. Havia a sala de visitas, uma alcova, a sala de jantar, um gabinete de trabalho e mais dois ou três pequenitos cômodos de utilidade secundária

Mas tudo isto estava disposto e mobiliado com muito apuro e muita preocupação de gosto

Desde o jardim, à entrada, que se mostrava logo sentimento artístico na escolha e colocação dos jarros e das estátuas; sentia-se a mão caprichosa que encaminhara as hastes das trepadeiras para as grades da janela, e confrangera as parasitas a se encaracolarem pitorescamente pelos troncos colunares das palmeiras e pelos seixos grotescos do repuxo

O aspecto rico das plantas, os canteiros moldurados de grama e desenhando pequeninas ruas de cascalho, diziam muito bem com o chalezinho alegre, a rir por entre a exuberância da verdura, e todo ele enfeitado de cores e arabescos, ao sabor particular das chácaras fluminenses; sabor que resulta naturalmente da fisionomia característica das paisagens da Corte

Quem, com efeito, atravessa as províncias do norte do Brasil e procura compreender o caráter quente das suas múltiplas paisagens, onde predominam os rios e as planícies, chegando ao Rio de Janeiro não se pode furtar à estranha mas agradável impressão que produz ao espírito esta bela cidade, com a sua opulência de palmeiras, a sua variedade pompadouriana de folhagens, a sua pedra original, que aparece por toda a parte, e as suas montanhas, tristes e silenciosas, que se vão perder no céu por entre nuvens

Gregório penetrou na sala de Júlia, tomado já de certo desânimo: ele há tanto fazia por agradar àquela mulher, e ela sempre a desdenhar dos seus protestos, a chamar-lhe criança e a rir dos seus desgostos, dos seus suspiros, das suas atitudes apaixonadas

— Meu amigo! disse-lhe uma vez a viúva; o senhor perde o seu tempo! já não vivo de ilusões! passou a época dos sonhos! hoje, toda a minha felicidade consiste na certeza de que não tenho absolutamente a quem dar satisfação de meus atos! — Mas quem deseja escravizá-la? perguntou em resposta, Gregório, procurando pôr uma intenção sutil nas suas palavras. Quem é? — Quem? interrogou ela, abrindo para o moço apaixonado seus belos olhos de cor híbrida

Quem?! O senhor, meu querido sonso. Ande lá! Tenho muito medo destes inocentes!... parece que não são capazes de quebrar um prato, entretanto..

E fazendo um gesto de graciosa impaciência: — Homem, menino! mudemos de conversa! Falemos antes de D. Olímpia..

Gregório fez que não ouviu este nome e insistiu em que a viúva acabasse a sua frase

— Já nem me lembra o que queria dizer..

— E até onde pode chegar o espírito da tirania! Bem! não a importunarei mais! Adeus

— Vai suicidar-se ou vai para a casa de Olímpia?! perguntou a viúva, com um espanto exagerado. Se vai suicidar-se, previna, que preciso preparar o sentimento! — Não me fale desse modo! Para que há de fingir aquilo que não é?! Sei que a senhora tem muito e muito coração! Não se queira fazer indiferente e cínica, quando possui aliás tesouros de amor e de ternura..

— Mau!... replicou ela; o senhor vai por mau terreno..

— Por quê?..

— Porque já se tinha despedido e deixa-se ficar

— Nesse caso..

— Adeus

— Até quando, ingrata?..

— Até à primeira ausência da lua

E a viúva fechou a porta com uma risada

Depois deste significativo tiroteio, Gregório fez ainda duas ou três tentativas de assédio, mas de todas elas saiu derrotado. É por conseguinte de supor que ele não contasse já absolutamente com o triunfo, quando a criada lhe foi dizer à porta do chalé que a senhora consentia em ser vista

Entrou vacilante e um pouco entalado na dúvida de mais algum desbaratamento. Júlia recebeu-o sem perturbação. Estava prostrada sobre uma otomana de cetim e aí se deixou ficar, com os olhos meio cerrados de preguiça ou de tédio, as pernas cruzadas indolentemente, e a cabeça esquecida sobre duas almofadas

— Vim importuná-la mais uma vez..

— Não. Assente-se e converse. Traz-me alguma novidade? Que há por esse mundo do espírito? — Trago-lhe um novo poeta, Teófilo Dias, conhece? — Dê cá

E a viúva abriu o livro e leu algumas estrofes

— Que tal o acha?..

Ela não respondeu e ficou com os olhos cravados no teto; depois pousou-os de novo sobre o livro e continuou a leitura

Gregório foi a pouco e pouco se aproximando e tomou-lhe uma das mãos. Ela consentiu ou não deu por isso, muito empenhada na leitura

Gregório recolheu a mãozinha que tinha entre as suas e levou-a aos lábios com a sofreguidão de um faminto

Ela continuou a ler

Gregório aproximou-se mais e, todo vergado para a frente, chegou os lábios à cabeça da viúva e beijou-lhe a polpa macia do pescoço

— Então? Que é isso! Deixe-me! disse ela, erguendo-se melindrada e deixando escapar o livro das mãos

Gregório levantou-se também, mas prendeu a viúva nos braços

— Não seja assim! Perdoe! disse ele com a voz cheia de súplica. Tenha pena de mim! Repare que sofro deveras por sua causa..

A viúva abaixou a cabeça e ficou a pensar

Esta transição desconcertou um tanto o pobre namorado

— Então?! disse ele afinal; em que pensa?..

— É o diabo... resmungou a bonita viúva, como se falasse só consigo. É o diabo!..

— O diabo o quê?... perguntou Gregório com o ar muito infeliz

— Você tem vinte anos e eu tenho mais de trinta! — Oh! exclamou ele

— Oh! não! protestou ela; você no fim de contas é uma criança e eu sou mais que uma mulher!..

— Lá vem a mania de chamar-me criança! — Mas se é! — E quer responsabilizar-me por uma falta de que não sou culpado?! — Culpada seria eu se não pensasse um pouco! — Júlia! — Não! Não! — Meu amor! — Então?! — Eu te adoro! — Tenha juízo! — Tu me pões louco! — Mas contenha-se, ou chamo a criada! — Julinha! — Solte-me o braço! Pior! Não faça cócegas! Mas Gregório não respeitou a ordem; e Júlia, sem poder sustentar a sério, abriu a rir, a rir muito, a torcer-se toda nas mãos do rapaz, e afinal caiu prostrada na otomana, sem forças para nada, a chorar de riso, nervosamente, sem poder falar

E tudo felizmente acabou em pura galhofa

IV CORAÇÃO DE MULHER Entre a cena pitoresca das cócegas e a sensaborona e triste cena do frustrado casamento de Gregório, medeia o período dos amores deste com a simpática viúva da Tijuca. Foram dois belos anos, durante os quais o amor teve tempo para percorrer toda a órbita do seu caprichoso sistema planetário, fazendo, já se sabe, as cabriolas que o endemoninhado costuma dar sempre que se apanha em revolução

Dois anos! Oh! nesse lapso o amor tem tempo para muita coisa! Com as asas de que dispõe, pode ir ao zênite da paixão, pairar um pouco no espaço e precipitar-se afinal no pélago morno da indiferença e do tédio

Todavia, se isto era aplicável a Gregório, não o era certamente à outra parte interessada — a viúva. Em questões de amor é com efeito muito difícil encontrar dois partidos iguais; em geral, um quer e o outro apenas consente

E o mais curioso é que a mulher é quase sempre quem representa a parte mais ativa e mais importante no conflito

Entre o amor da mulher e o amor do homem há uma diferença capital: o amor do homem tende a diminuir com o tempo; e o da mulher, quanto mais vive, mais avulta e mais espalha e aprofunda as suas raízes pelo coração. É que em geral o homem, à semelhança do fogoso corcel, que dispara na arena com todo o fogo da carreira, gasta logo no princípio do tiro a melhor parte da atividade de que dispõe, e começa a minguar de forças; ao passo que a mulher, partindo vagarosamente, vai pouco e pouco se animando na luta, e deixa-se afinal arrebatar pelo ardor e pelo entusiasmo

O homem, à proporção que desvenda os mistérios do coração da sua amante, à proporção que lhe vai devassando a alma e penetrando familiarmente por todas as sutilezas e todos os esconderijos do seu caráter, do seu gênio, do seu temperamento e da sua ternura, sente desfalecerlhe no sangue o primitivo impulso, e só continua a amar por hábito ou por gratidão. Violada a última gaveta da alma de uma mulher, o homem cai prostrado pela indiferença

Doces e apaixonadas Margaridas! se quiserdes conservar a adoração de vossos inconsistentes sacerdotes, correi duas voltas à fechadura e guardai bem convosco as preciosas chaves! O homem gosta de ser iludido: meia verdade o prende, a verdade inteira o repele. A mulher, ao contrário, só chega a amar deveras depois de muito conviver, depois de muito se identificar com o homem a quem se deu. E se alguma grande desgraça os torna solidários das mesmas dores e das mesmas lágrimas; se ela tem ocasião de pôr à disposição do amado a meiga substância da sua abnegação, do seu sacrifício e do seu heroísmo, então o que era amor se converte em fanatismo, e a mulher deixa de ser amante para ser escrava submissa

O homem principia sempre por dar o seu amor e acaba, quando este se esgota, por oferecer a sua amizade. A mulher, não! a mulher começa por estimar, e a sua estima vai se consolidando, vai se encarecendo, até que se transforma em amor veemente, fecundo e duradouro

Foi isso justamente o que sucedeu com a viúva a respeito de Gregório — partiram do mesmo ponto, ela a passo, ele a galope; mas, quando a primeira se sentia arrebatada pelo ardor da carreira, já o outro jazia prostrado de cansaço, a suplicar, por amor de Deus, que o deixassem em repouso. E daí as conseqüências — o ciúme, o despeito, a raiva, o desespero, a sede de vingança

Mas a mulher, coitada! parece que veio ao mundo predestinada para o sacrifício e para a dedicação. Uma vez presa pelo sentimento, ou pela sensualidade, quanto mais a fazem sofrer, quanto mais a pisam e maltratam, tanto mais ela estremece e adora o objeto do seu amor

Cimo certas plantas aromáticas, que mais recendem quanto mais são trituradas, a mulher que ama, se logra uma folga no cativeiro com que se oprime o seu verdugo, não é para gemer, é para beijar-lhe os pés e repetir-lhe que o adora

Júlia, nestas condições, soube que Gregório ia casar. Seu ímpeto instantâneo foi correr ao primeiro homem e oferecer-se para ser amada aos olhos do ingrato que assim tão cruelmente a apunhalava. Esqueceu-se de tudo, posição, interesses, tranqüilidade, para só pensar nessa vingança absurda, que lhe parecia tão necessária à sua cólera como o vinho a um ébrio

E cega, desvairada, às tontas, queria deixar bem patente que a traição de Gregório não a atormentava, e que ela se sentia, como nunca, feliz e indiferente

— Sofrer?... mas por quê?! monologava a infeliz, a rir forçadamente, com a voz entalada na garganta. Acaso não previa eu tudo isto?... não é ele moço, livre e cheio de esperanças? A mim que importa pois seu casamento? Que se case quantas vezes quiser! Que faça o que entender! Mas os soluços rebentavam com explosão, e a mísera deixava-se cair sobre o divã, a chorar apaixonadamente, sacudida por um formidável desespero

Depois, sem que ela as chamasse, vinham de enfiada as recordações dolorosas do seu amor

Os episódios felizes de outrora lhe enchiam agora o coração com uma argamassa de desgostos

Via Gregório em todas as situações venturosas de outro tempo; sentia-lhe perfeitamente o cheiro dos cabelos, a luz dos olhos e a doçura embriagadora dos seus beijos. E perseguida, aguilhoada por estas idéias, queria fugir de si mesma, escapar à própria memória, esconder-se das reminiscências que lhe rugiam de dentro; mas todo o seu passado, em alvoroço, se enroscava por ela, a chupá-la para si, como um enorme polvo. Definitivamente era indispensável uma vingança! Era preciso inventar um cúmplice, um instrumento, uma arma, com que pudesse fulminar o infame! Pobre visionária! Não calculava que o verdadeiro amor só sabe perdoar e não conhece os segredos do ódio e da maldade. Não sabia que o lábio que conserva o calor dos beijos que o aqueceram, não se pode converter rapidamente em lâmina fria de vingança. E tanto assim, que foi bastante lhe constar um mês depois desse desespero, o crime de que suspeito o objeto do seu amor, para esquecer-se dos planos de vingança e só se lembrar de correr a prevenir Gregório e afastá-lo de qualquer perigo

Foi nessa resolução que a vimos partir rapidamente da polícia para a casa de Clorinda. Sabia a viúva que era naquela tarde o casamento; Gregório estaria lá com certeza... Que lhe importava o desespero de ver a mulher que a preterira? que importava o espetáculo de uma felicidade que a humilhava e enlouquecia de dor? que lhe importava tudo isso, contanto que o seu Gregório não sofresse coisa alguma, contanto que ele fosse prevenido a tempo do grave perigo que o ameaçava? O carro de Júlia parou à porta da noiva. A viúva conchegou para o colo as pontas do seu mantelete de seda preta, e subiu resolutamente as escadas da rival

— A noiva?! perguntou ela à primeira pessoa que encontrou. Não se queria entender com Gregório, por um natural impulso de ressentimento

A noiva estava no quarto e não podia receber ninguém

— Mas é também para o interesse dela que lhe desejo falar. Trata-se de Gregório! — Como?! Do noivo?! — Sim

— Oh! nesse caso, entre! E a pessoa gritou logo para os que estavam na sala de jantar: — Temos notícias do noivo! Júlia foi conduzida para a alcova de Clorinda, enquanto os outros curtiam de fora a mais impaciente e viva curiosidade. Ao encarar a noiva do amante, sentiu a viúva percorrer-lhe no corpo um vivo estremecimento de ódio, mas a idéia do perigo em que estava Gregório, acalmoulhe o sangue

Clorinda, entretanto, a quem disseram que a recém-chegada trazia notícias de seu noivo, precipitou-se ao encontro de Júlia, exclamando aflita: — Que sucedeu com Gregório?! Diga-me por piedade! — Como?! Pois já sabe que lhe ia suceder alguma coisa?!..

— Mas o que é?! Diga! diga depressa! — Ele então não está cá?!..

— Não! Ainda não apareceu! — Não apareceu?! exclamou a viúva, empalidecendo. Oh! Nada consegui evitar! Foi preso! — Quem?! interrogou a noiva. Quem? Gregório?! Gregório preso! mas por quê, senhora?! Explique-se! explique-se, por amor de Deus! E Clorinda, vendo o abatimento em que caía a outra, sacudiu-a com força: — Então, senhora?! Que há?! Diga! Mas a viúva continuava na sua prostração e repetia como num delírio: — Preso! Nada consegui! — Ó senhora! explique-se por uma vez! Não vê o estado em que me acho? Não vê que tenho olhos cheios d’água? não vê como tremo? não vê como sofro?! — E que me importa a mim o seu sofrimento?! também eu sofro e já padeci bastante! Sua mágoa tem saída; a minha não. Se Gregório voltar, é para os seus braços e não para os meus!..

Que vale por conseguinte a sua tristeza de criança, comparada à dor enorme que neste momento me dilacera o coração?! — Eu não a compreendo! observou a noiva

— Nem se pode compreender nada disto na sua idade, como também na sua idade ainda não se pode avaliar a força indominável e fatal de um verdadeiro amor! Criança! O amor nos quinze anos é pouco mais que o último folguedo da meninice, atrás dele não existe um passado, existe quando muito uma boneca! — Senhora! — Oh! Não vim cá para disputar seu noivo; vim com a intenção de salvá-lo; nada consegui

Paciência! Volto resignada com a vontade de Deus! Clorinda segurou-a pelo braço

— Mas, por piedade, explique-me o que há? diga-me o que foi feito de Gregório! — É acusado de roubo e assassinato! declarou a viúva, finalmente

— Ah! gritou a outra, como se só esperasse por aquela frase para ter a confirmação de uma terrível suspeita

E caiu de costas

O quarto encheu-se logo. Todos queriam saber o que havia. D. Januária correu a apoderar-se da filha, e os mais principiaram a cruzar entre si olhares interrogativos e desconfiados

Júlia, sem dar mostras do que se passava em torno de si, afastou-se distraidamente e saiu a dizer entre dentes: — Preso e acusado! Preso talvez para sempre! E ao entrar no carro que a esperava na porta, abriu a soluçar com desespero

Recolheu-se a casa, mas não pôde sossegar. A dúvida sobre o destino de Gregório trazia-lhe o espírito em doido sobressalto. Era urgente obter notícias dele naquela mesma noite, fosse de quem fosse, custasse o que custasse, contanto que Júlia soubesse o que era feito do seu Gregório! E nesta impaciência percorria toda casa; ora ia à janela, ora de um quarto para outro

Chamou duas vezes a criada para mandar à polícia, mas, receando complicar ainda mais a situação, resolveu nada fazer. Afinal pediu a capa e o chapéu, e deliberou sair. Eram já oito horas da noite

— Lá embaixo talvez conseguisse saber alguma coisa a respeito de Gregório... calculava a viúva, descendo comovida a escadinha do chalé. Mas ao chegar ao jardim, soltou um grito: pareceu-lhe haver distinguido, encostado ao muro e meio escondido na sombra, o vulto de um homem que a observava atentamente

— Ângela! bradou ela para dentro da casa. Ângela! traze luz! E não pôde acrescentar mais nada, porque as pernas lhe tremiam já e a voz se lhe embaraçava na garganta

A criada, também, já possuída de susto, apareceu com uma lanterna

Júlia não se havia enganado. Escondido nas moitas do jardim, estava um homem, que logo se dirigiu humildemente para ela, com o chapéu na mão

— Ah! interjeicionou a viúva, recuando aterrada

— Não se assuste, minha senhora, disse o desconhecido, com muita brandura. Eu não faço mal a ninguém... Sou um pobre velho inofensivo..

E Júlia, ainda não de todo calmada, viu-lhe com efeito as longas barbas e os cabelos brancos

— Mas o que fazia você aí? perguntou ela com dificuldade. Fiquei sobressaltada deste modo!..

— Perdoe, minha senhora, foi sem sequer... respondeu o velho

— Mas, enfim, que deseja? — Eu vinha dar um recado de certo moço que foi preso agora à noite..

— Gregório?! exclamou a viúva, perturbando-se toda. Oh! fale! fale! Diga o que é! — Mas ele me recomendou que só desse o recado a certa moça, com quem tem relações há coisa de dois anos..

— Sou eu mesma! Fale! — A senhora então é a viúva Júlia Guterres, a mesma que esteve na secretaria de polícia hoje à tarde?..

— Sou. Pode dar o seu recado! Mas o velho, em vez de obedecer, endireitou o corpo, avançou dois passos, e soprou em um apito que trazia consigo

— Que é isto?! perguntou Júlia, de novo aflita

— A senhora está citada para depor hoje mesmo na polícia o que sabe a respeito de certa pessoa! E o falso velho dirigiu-se a um soldado, de quatro que acudiram ao seu apito, e ordenou-lhe que acompanhasse aquela senhora à presença do chefe na secretaria de polícia

— Sim, Sr. delegado! respondeu a praça

— Bom! agora vamos nós à casa da noiva! acrescentou o disfarçado às praças que restavam, tirando as barbas e a cabeleira

E seguiram para a casa de Clorinda

Júlia entretanto, caminhava resignadamente para a polícia. Não proferiu durante o caminho uma única palavra. Aquela situação, se por um lado a constrangia, por outro lhe alegrava o espírito, prometendo pôr a limpo tudo o que havia a respeito de Gregório

O chefe recebeu-a em um gabinete onde já esperava por ela; fê-la assentar-se, disse-lhe que podia descansar, e, depois de chamar o escrivão e ordenar que se preparasse, principiou O seguinte interrogatório: V DEPOIMENTOS — Seu nome, minha senhora? perguntou o chefe de polícia à viúva

— Júlia Guterres, respondeu esta, sem titubear

— Seu estado? — Viúva

— Profissão? — Vivo dos meus rendimentos

— Quais são eles? — Tenho ações, prédios e escravos

— Conhece Gregório de Souto Maior? — Muito

— Desde quando? — Há dois anos

— E essa pessoa em que lhe diz respeito? — Em tudo

— Como assim? Tenha a bondade de explicar-se

— Eu o amo! — Perdão, observou o Dr. Ludgero, limpando no lenço as lunetas, que acabava de desarmar do nariz; pergunto se essa pessoa se acha porventura implicada de qualquer forma em seus interesses..

— De que espécie de interesses fala o senhor? — Dos interesses pecuniários

— Absolutamente, respondeu Júlia com um gesto de impaciência

— E quais são os seus interesses em que ela se acha implicada? Sim! Visto ter a senhora, quando lhe falei dos interesses pecuniários, lembrando outros, é porque..

— Referia-me aos interesses de meu coração, de minha felicidade! — Ah! — Posso dizê-lo abertamente, porque sou livre e senhora de minhas ações; peço-lhe todavia que não insista nesse terreno... Há certas coisas na existência de uma mulher, que lhe não poderiam ser arrancadas do coração sem um grande abalo do pudor, ou talvez de dignidade!..

— Compreendo perfeitamente, respondeu o chefe de polícia, colocando de novo as lunetas; mas a senhora deve saber que eu, no lugar em que estou, cumpro um dever sagrado! A justiça, minha senhora, tem por obrigação do cargo violar friamente todos os recintos e todos os segredos. Quanto não me custa ouvir às vezes os pormenores de uma desgraça vergonhosa ou de alguma negra miséria de família? Mas assim é preciso; eu aqui não sou um homem, sou simplesmente um instrumento da Lei. Tenha pois a bondade de abrir o coração e dizer-me tudo o que sabe a respeito de Gregório, que me poupará dessa forma o sacrifício de torturá-la com o meu interrogatório

— Mas o que quer o Sr. que lhe diga?... Do que serve a minha pobre opinião a respeito de uma pessoa, a quem acabo de confessar que adoro?... Gregório, por pior que fosse para os outros, seria sempre para mim o ideal dos homens! O senhor, que naturalmente conhece o coração da mulher, deve compreender o que há de sincero e verdadeiro nas minhas palavras. Nós quando amamos, desejamos por tal modo descobrir boas qualidades e brilhantes dotes no objeto do nosso amor, que, seja ele a mais ruim das criaturas, nos aparece, à luz maravilhosa de nossa dedicação, radiante e belo como o sol! — Conclui-se do que a senhora acaba de dizer, que, apesar de supor Gregório o melhor dos homens, não sustentará que ele seja incapaz de cometer um crime..

— Não tive semelhante idéia! Considero Gregório com os defeitos da sua idade e do seu temperamento. Ele seria capaz de cometer qualquer leviandade, qualquer tolice, mas nunca uma infâmia!..

— Sabe do que o suspeitam? — Ouvi vagamente dizer, aqui mesmo, que se trata de um roubo e de um assassínio

— E o que mais sabe a esse respeito? — É justamente por não saber mais nada, que lhe vou pedir o obséquio de dizer o que há

Constou-me agora à noite que ele fora preso, mas tudo isso é tão vago e tão incerto que..

— Conhece este anel? E o chefe passou a Júlia um anel de homem com pedra de cornalina

— Sim, disse ela a examiná-lo; parece-me que o reconheço. É o mesmo ou é muito parecido com um que dei a Gregório no dia de seus anos

— Este anel foi encontrado no lugar do crime e corrobora as suspeitas sobre Gregório

— Valha-me Deus! exclamou Júlia; mas pode não ser o mesmo!..

— Temos ainda um outro corpo de delito. Examine bem este farrapo de casimira e queira ver se lembra de ter visto algum dia Gregório vestido com um paletó da cor desta fazenda

A viúva tomou nas mãos o farrapo que lhe passou o chefe, e ficou a examiná-lo atentamente

— Então?.. disse a autoridade, vendo que ela não respondia. Lembra-se? — Não sei. Sr. doutor; é isto uma circunstância tão pequena, que foge inteiramente da memória..

— É destas pequeninas circunstâncias que se tiram as conclusões lúcidas sobre qualquer crime, minha senhora; não podemos desprezar nada. Tenha a bondade de declarar se recorda de ter visto Gregório algum dia vestido desta fazenda

— Ele usava freqüentemente roupas escuras, mas algumas vezes, muito poucas, a passeio no campo ou de volta de um jantar de amigos, creio que o vi vestido de cor alvadia..

— Mas desta cor, precisamente desta, não o viu nunca, minha senhora? — Não me recordo absolutamente, Sr. chefe

— Ele era pródigo, extravagante? — Para ser pródigo é preciso ter fortuna, e Gregório vivia do que ganhava com o trabalho..

— Não sabe se ele gostava de prazeres ruidosos?..

— Não; ao que suponho, não

— Nunca o viu ébrio?..

— Nunca! — Recebeu dele muitos obséquios? — De que espécie?..

— Obséquios de valor, em presentes, em dádivas de preço..

— Os objetos que conservo dele, só têm valor para mim, porque vieram de suas mãos..

— Ele então não despendia muito com a senhora?..

— Não havia necessidade disso..

— Em que qualidade freqüentava a sua casa? — Na qualidade de meu amigo, a quem me aprouve franquear toda a minha existência e todo o meu coração

— Desejava vê-lo ainda?..

— Com muito gosto! — Sabe onde ele está? — Disseram-me hoje que estava preso

— Sabe que de tinha um casamento marcado para hoje à tarde? — Sei, respondeu a viúva, deixando transparecer o desgosto que lhe causava tal pergunta

— E sabe o resultado desse casamento? — A noiva esperou inutilmente; Gregório não apareceu

— E por que ele não apareceu? — Naturalmente porque o haviam prendido..

— Entretanto, ele não foi preso. Escondeu-se ou fugiu, justamente pouco depois do crime

— Não se sabe então onde ele está?! — Não, minha senhora, respondeu friamente o Dr. Ludgero, levantando-se, e acrescentou: — Bem, por ora nada mais temos a perguntar. Pode retirar-se e esperar que a citem para um novo interrogatório

Júlia saiu e a segunda testemunha foi introduzida no gabinete do chefe

Era o velho Jacó, criado de Gregório

— Espere um instante, disse a autoridade, indo até à porta, por onde vira passar um polícia secreta

— Então?... perguntou a este em voz baixa; descobriu alguém que possa esclarecer o negócio?..

— Sim, Sr. chefe

— Quem é? — A menina do Bandolim, uma mocinha italiana, que, em companhia do irmão, toca bandolim no café de Java

— Ah! fez o Dr. Ludgero

Antes de prosseguirmos, é necessário, porém, dar dois dedos de explicação a respeito do que há de comum entre a menina do Bandolim e o suspeito Gregório

Uma noite, sete horas em ponto, o nosso herói, vestido com esmero e correção de quem deseja agradar a olhos exigentes, meteu-se no bonde em caminho da cidade, e só apeou para tomar o da Tijuca. Escusado dizer que não era o rico panorama do arrabalde o que atraía o moço àquelas horas. E não menos escusado é declarar que espécie de ímã o puxava para ali com tanta força

Em certa altura Gregório saltou em terra defronte de um chalé, pintadinho de novo e meio apadrinhado do sol, pela folhagem de algumas árvores; apadrinhado durante o dia, bem entendido, porque durante a noite o padrinho era um formidável cão negro, que bradava armas a todo o vulto, suspeito ou não, que passasse pela esquina

E tanto assim que, mal Gregório se aproximou do portão, já o tal padrinho ladrava a bom ladrar

— Está quieto, Netuno! exclamou o moço, fazendo vibrar a campainha

Veio logo a criada e Gregório perguntou: — Ela está em casa? Este modo de saber se a pessoa que vamos a visitar está em casa, prova alguma coisa, prova, pelo menos, que Gregório era já tão familiar da criada quanto o era de Netuno, e por conseguinte que aquela visita poderia ter todos os méritos, menos o da novidade

— Saiu, respondeu a criada, abaixando o rosto

O moço não retorquiu, mas também não se foi; ficou a sacudir a perna, apoiado na bengala, assobiando

A criada, com o rosto metido entre dois varais da grade, em que se sustinha com ambas as mãos, esperava que ele resolvesse qualquer coisa

— Então saiu, hein?... insistia Gregório, interrompendo o assobio e bamboleando a perna com mais força

— É, disse a criada, bocejando

E os dois ficaram calados por algum tempo; afinal Gregório mostrou tomar uma resolução e acrescentou: — Ora vá dizer-lhe que eu bem sei que ela está em casa..

— Minha ama saiu! sustentou a criada, a rir-se

— Homem, faça o que lhe digo! — Gentes! Ela não está!..

— Você então não quer ir?! Bem..

E Gregório fez o movimento de quem se afasta, levando uma intenção de vingança

— Eu vou ver! exclamou a criada, largando os varais do portão

Gregório voltou logo, como se fosse puxado por todo o corpo

A criada desapareceu nas sombras duvidosas do jardim e, pouco depois, ouviu-se o som de uma voz de mulher que parecia ralhar dentro do chalé

Gregório sorriu sozinho e retomou o fio da música que assobiava

Quando havia gasto já uns dois minutos de assobio, abriu-se uma das janelas do chalé e desenhou-se contra luz da sala a figura simpática da viúva

— Já voltou?! disse Gregório, transpondo o portão e indo postar-se debaixo da janela

— Você não disse que não voltava mais aqui?! perguntou a outra por sua vez

E como Gregório não respondesse:

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