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LIVRO DE UMA SOGRA

ALUÍSIO DE AZEVEDO

...ce travail offre un autre découragement: que de choses hardies, et que je n’avance qu’en tremblant, seront de plats lieux communs dix ans après ma mort...

Stendhal, Souvenirs d’Égotisme.

De volta da minha última peregrinação à Europa, depois de cinco anos de saudades do Brasil, foi que, pela primeira vez, senti todo o peso e toda a tristeza do meu isolamento e pensei com menos repugnância na hipótese de casar. Foi a primeira vez e também a última que semelhante veleidade me passou pelo espírito; daí a vinte e quatro horas tinha resolvido ficar eternamente solteiro.

Estava então com trinta e cinco anos. Dessa vez, como sempre me sucedia ao pensar no casamento, veio-me logo à idéia o meu amigo Leandro, e vou dizer por quê:

Leandro de Oviedo era, entre os meus companheiros da primeira juventude, o único que se conservou fiel à nossa amizade. Os outros tinham todos desaparecido; alguns simplesmente do Rio de Janeiro ou do Brasil, mas, ai! a melhor parte havia já desertado deste mundo, para nunca mais voltar.

Leandro foi sempre um rapaz bem equilibrado: coração generoso, caráter sério, inteligência regular, sobriedade nos costumes e tino para arranjar a vida. Do nosso grupo era ele o mais moço e também o mais forte e bem apessoado. Tinha excelente educação física, adquirida num colégio da Inglaterra; conhecimento perfeito da esgrima e jogos de exercício; destreza na montaria e plena confiança nos seus músculos.

Ainda não contava ele vinte anos quando o conheci, e a nossa intimidade foi apenas interrompida pelas minhas viagens. Fui eu o confidente da grande paixão que o levou a casar, quatro anos depois, com uma encantadora rapariga, filha da velha mais fantástica, mais diabólica, mais sogra, que até hoje tenho visto.

A fúria, para consentir nesse casamento, aferrou-se às mais leoninas exigências; impôs condições as mais humilhantes para o futuro genro. Já me não lembro ao justo quais foram elas, posso afiançar porém que eram todas originais e ridículas. Havia uma, entre tais cláusulas, de que nunca me esqueci, a da assinatura de certo documento, em que o desgraçado pedia à polícia não responsabilizasse ninguém pela sua morte, caso ele aparecesse assassinado de um dia para outro.

Mas Leandro estava irremediavelmente perdido de amores; e a moça era muito rica, e ele o que se pode chamar pobre. Não havia para onde fugir; sujeitou-se a tudo e - casou.

Ainda porém não tinha desfrutado o primeiro mês da sua lua-de-mel, e já a sogra achava meios e modos de interrompê-la, separando-o violentamente da noiva. E daí em diante o casal nunca mais teve ocasião de absoluta felicidade. O demônio da velha parecia não poder ver o genro ao lado da filha, e o pobre rapaz, que amava cada vez mais apaixonadamente a esposa, não lograva um segundo de ventura junto desta, sem ver surgir logo entre eles o terrível espetro. Não os deixava um instante sossegados, não os perdia de vista um só momento, rondava-os, fariscava-lhes os passos, como se vigiasse a rapariga contra um estranho mal-intencionado; perseguia o genro só pelo gostinho de atormentá-lo; contrariava-o nas suas mais justas pretensões de marido, azedando-lhe a existência, intrometendo-se na sua vida íntima, desunindo-o da mulher, sobre quem conservava os mais despóticos direitos.

Causava-me ele verdadeira compaixão.

Um dia vi-o entrar por minha casa, desesperado, aflito, e atirar-se a uma cadeira, soluçando. Sem que lhe apanhasse uma só palavra das muitas que os seus soluços retalhavam, consegui, de dois dos seus monossílabos mais estrangulados, perfazer a de "Sogra", e exclamei-lhe desabridamente:

- Mas com um milhão de raios! por que não te livras por uma vez dessa víbora?!

- Livrar-me, como?! De que modo?! perguntou-me o infeliz entre dois arquejos.

- Ora, como?! De que modo?! Seja lá como for! Foge, ou torce-lhe o pescoço! Atira-a no meio da baía! Sacode-a do alto do Pão de Açúcar!

- Impossível! Amo loucamente minha mulher, e minha mulher adora a mãe! Não consentiria em separar-se dela, nem mo perdoaria, se o tentasse!

- Histórias!

- Além de que, sabes qual é hoje a minha posição na Praça do Rio de Janeiro; não é das piores! mas sabes também que só agora começo a colher o resultado de enormes sacrifícios feitos para obtê-la!... Pois bem, tudo o que sou, devo a minha sogra! O capital é dela! O crédito foi ela quem mo deu! Um rompimento seria a minha ruína completa!

- Oh, diabo!

- É o que te digo! Vê tu que posição a minha!

- Então, meu amigo, só te restam os extremos - resignação ou... suicídio!

Ele, ao que parece, resignou-se.

Um ano depois encontramo-nos em Paris.

- Olá! bradei-lhe. - Fugiste...

- Qual! Estou de passeio. Minha sogra mandou-me passear...

- Expulsou-te de casa?...

- Não. Mandou-me passear por algum tempo. Eu volto...

- Ah! compreendo! quer que a filha se distraia um pouco pela Europa. Dou-te os meus parabéns!

- Não! vim só.

- Hein?! E tua mulher?

- Ficou.

- E tua sogra acompanha-te?...

- Ah! não!

Fiz-lhe, intrigado, ainda algumas perguntas, a que ele respondeu com reserva, procurando evitá-las. Percebi que me não queria falar francamente, talvez por medo do ridículo, e não insisti.

Jantamos em companhia um do outro, e desde então pegamos de ver-nos todos os dias. Fizemos juntos uma viagem à Suíça, e a nossa amizade revigorou-se com essa jornada; ficamos inseparáveis até que ele, meses depois, deixou a Europa para tornar ao Brasil.

E eu, agora, aqui no Rio de Janeiro, ao acordar da primeira noite, passada no detestável Freitas-Hotel, senti cair-me em cima, com o peso de mil arrobas, todo o negrume da minha solidão. A idéia da solidão fez-me pensar em Leandro.

É verdade! Que fim teria ele levado?...

- Vou vê-lo! deliberei, saltando da cama.

Procurei o endereço da sua atual residência. "Tijuca. Alto da Serra". Era longe, mas o dia estava magnífico. Por que pois não ir? Enquanto lá estivesse disfarçaria ao menos o meu tédio de celibatário. Leandro era afinal o meu melhor amigo; além do que, apetecia-me à curiosidade saber notícias do seu casamento e da sua fenomenal sogra. Não nos víamos havia quatro anos. Como seria agora a sua existência? Que fim teria ele dado ao demônio da bruxa?...

Vesti-me, almocei, saí, dei um passeio pela rua do Ouvidor e tomei o tramway da Tijuca. Na raiz da serra procurei informações sobre a casa de Leandro; deram-nas na mesma cocheira que me alugou uma vitória para lá subir.

Às cinco e meia da tarde entrava na residência do meu amigo. Uma deliciosa chácara, com o seu cottage ao fundo, na fralda da montanha, escondido entre árvores floríferas e cercado por um jardim de rosas e camélias. Adivinhava-se logo, desde o portão da rua, haver ali todo o conforto e regalo que nos podem proporcionar os maravilhosos arrabaldes do Rio de Janeiro. Toquei o tímpano na varanda. Fizeram-me entrar para a sala de espera; não mandei o meu cartão intencionalmente, e, quando Leandro chegou e deu comigo, soltou uma sincera exclamação de prazer.

Atiramo-nos nos braços um do outro.

- Que bela surpresa! - bradou ele. - Não sabia que tinhas chegado!

- Cheguei ontem. E tu como vais por aqui? A senhora como está? E tua sogra, que fim levou?

- Minha mulher não está aí. Saiu na minha ausência com os filhos e com o velho César. Não sei para onde foram... Mas vai entrando! vai entrando!

- Estão espairecendo naturalmente por aí perto, aventei, passando para a sala de visitas.

- Talvez, mas talvez não. Não sei! Pode ser que voltem já e pode ser que se demorem. Desconfio que foram fazer uma viagem...

- Como? Pois tu não sabes se tua mulher foi fazer uma viagem, ou se está passeando pela vizinhança da casa?... Ora esta!

- Não, filho, não sei. Temos uma vida muito especial. Ela às vezes me foge, ou eu lhe fujo. Levamos três, quatro dias fora, uma semana, um mês até, longe um do outro, visitando parentes e amigos, ou simplesmente passeando, viajando...

Calei-me, por falta absoluta de palavras, e comecei a desconfiar que a sogra afinal acabara por derreter os miolos do meu pobre amigo. Era de esperar!

Depois de uma pausa, aproximei-me dele e perguntei-lhe, em voz soturna, olhando para os lados:

- E a serpente?...

- Que serpente?!

- Ora, qual há se ser? A fúria infernal, o diabo de saias, tua sogra!

- Coitada!

E Leandro soltou um grande suspiro.

Escancarei os olhos e a boca, sem compreender.

- Coitada!... repetiu ele, com um novo suspiro. - Já não existe...ah! infelizmente já não existe!...

Recuei aterrado; senti o sangue gelar-se-me nas veias. Que estava eu ouvindo, meu Deus? que estava dizendo o mísero rapaz? Oh! agora já não havia a menor dúvida - era um caso perdido!

- Regenerou-se afinal... interroguei-lhe, fingindo sangue-frio, e sem me aproximar muito desta vez.

- Não zombes, meu amigo! A memória de minha sogra é hoje para mim tão sagrada, ou mais, do que a memória de minha própria mãe!...

- Mas, espera! quantas sogras então tiveste tu?... perguntei-lhe receando também já um pouco pelo meu juízo.

- Uma só.

- E essa, a que te referes agora, é aquela mesma, a célebre? aquele terror, aquela moléstia, aquele mal que te roía a existência? aquele diabo, a quem devias o implacável inferno em que te vi espernear de desespero?...

- A mesma, Leão. Simplesmente eu, nesse tempo, era injusto...

- Aquela que, só pelo gostinho de contrariar, se metia entre ti e tua mulher, cortando-lhes no meio as carícias e perturbando-lhes o amor?...

- Não a compreendia nessa época. O imbecil era eu!

- Aquela, que te trazia suspensa sobre a cabeça uma ameaça de morte?...

- Fazia-o, porque era adoravelmente boa!

- Aquela, que te não permitiu fosses o dono do primeiro beijo de teu filho?...

- É verdade, a mesma!

- Aquela fúria?

- Era uma santa!

E ficou muito sério, com o rosto compungido e contrito.

Até hoje ainda não sei como não caí para trás, fulminado.

Meti as mãos nos bolsos das calças, abri as pernas à marinheira, ferrei o olhar no tapete do chão, apertei os lábios, arregacei as sobrancelhas, e embatuquei.

- Sim, senhor!...

Estava preparado para ver, sem me alterar, o meu estimável amigo Leandro de Oviedo atirar as mãos para o chão e pôr-se a percorrer a sala de pernas para o ar.

Que digo? Poderia ver sem pestanejar, o retrato da própria sogra de Leandro desprender-se do seu caixilho dourado, e vir dar-lhe um beijo, ou dançar um fandango entre nós dois.

Naquele instante nada me causaria abalo!

* * *

Mas, ao fim do jantar, reanimado por um velho e generoso Barbera, pedi ao meu paradoxal amigo que me explicasse o milagre daquela sua tão absoluta inversão de pontos de vista. Sempre queria ouvir!

- Não te darei uma palavra e terás a mais satisfatória explicação do mistério, disse-me ele. - Dormes aqui, não é verdade? Dormes decerto!

- Mas...

- Podias até passar alguns dias comigo. Isto por cá é muito aprazível nesta época. Onde estás morando?

- No Freitas.

- Ora! Não te largo esta semana! Seria desumanidade deixar-te ir! Hospedado no Freitas!...

- Mas é que... não contava com isto... Vou sem dúvida incomodar tua família...

- Qual! Minha família não sei quando virá... Tu agora não tens ainda com certeza o que fazer... De resto não ficas totalmente preso: podes ir à cidade quando quiseres; trazer de lá ou mandar buscar o que precisares. Olha! aqui pelo menos estás livre de qualquer febre! e podemos dar magníficos passeios, a cavalo e de carro, pela Floresta, à Vista Chinesa, à Gávea. Amanhã mostro-te as minhas estrebarias; se ainda conservas gosto pelo gênero, encontrarás o que ver.

Confessei-me vencido, mesmo porque sentia já a curiosidade excitada.

Jogamos à noite uma partida de bilhar e, às onze horas, na ocasião de recolher à câmara que me destinaram, exigi de Leandro a prometida explanação do milagre.

- Entra para o teu quarto, que lá ta levarei, respondeu ele, afastando-se.

E pouco depois voltava, trazendo com todo o carinho um pequeno estojo de ébano. Abriu-o defronte de mim com uma chavezinha de prata, e tirou de dentro um livro preciosamente encadernado.

Mostrou-me o livro, em silêncio, cheio de gestos e desvelos religiosos. Na capa, entre guarnições de ouro e pedras finas, havia um delicadíssimo esmalte, retratando em miniatura o busto da sogra. Estava a primor, com o seu distinto e singelo penteado de cabelos brancos, com as suas lunetas de cristal, e com aquele sutil sorriso malicioso, que lhe conheci noutro tempo.

- Não poderia dar-te maior prova de amizade, do que te confiando este sagrado tesouro, disse-me Leandro. - É um manuscrito de minha sogra. Começa a lê-lo hoje antes de dormir, e depois, quando o tenhas concluído, conversaremos a respeito da mãe de minha mulher...

Tomei nas mãos, cuidadosamente, a sedutora relíquia, examinei-a deveras intrigado, depu-la de novo no seu estojo, agradeci a Leandro o obséquio, impaciente por vê-lo pelas costas.

Logo que me pilhei sozinho, fiz em três tempos a toilette, aninhei-me na cama, cheguei para perto da luz do velador, e, com uma volúpia repassada da mais legítima curiosidade, abri a primeira página e comecei a leitura.

Mal sabia eu que grande influência ia exercer esse manuscrito sobre minha vida... E como hoje posso publicá-lo, não ponho nisso a menor dúvida.

É o que se segue:

II

Manuscrito de Olímpia

La nature a des perfections pour montrer qu’elle est l’image de Dieu, et des défauts pour montrer qu’elle n’en est que l’image.

PASCAL, Pensées.

Órfã de pai e mãe, tinha eu dezoito anos de idade, quando passei das mãos de meu tutor para as mãos do estimado e simpático Dr. Virgílio Xavier da Câmara, que me recebeu por esposa na igreja de São João Batista em Botafogo.

Meu noivo contava vinte e sete anos.

Éramos ambos de boa família, ambos muito bem relacionados, ambos sadios, ambos até bonitos. Ele - médico, inteligente e trabalhador, conservando intacto um patrimônio de quarenta contos, que herdara ainda criança; gênio feliz, costumes irrepreensíveis, nada de vícios perigosos e nada de paixões de qualquer gênero, nem mesmo desses perturbadores sonhos de glória ou dessas ambições descomedidas, que nos fazem sacrificar às vezes a doce tranqüilidade do presente garantido, pela hipotética e fascinadora conquista de um nome no futuro incerto. Eu, pelo meu lado - inocente e pura, educada sob os mais austeros exemplos de moral e virtude, tendo feito a minha aprendizagem doméstica sem prejuízo dos meus pequenos dotes sociais; sabendo coser, como sabendo bordar; dirigir o serviço dos criados, governar uma casa, como sabendo tocar piano, receber visitas e dançar uma valsa; e mais: tinha boa ortografia, alguma leitura, que não era composta só de maus romances, um pouco de francês, um pouco de inglês, um pouco de desenho, sessenta contos de dote, princípios religiosos bem regulados, caráter sereno, temperamento garantido por hereditariedade natural, seguros hábitos de asseio, alinho e gosto no vestir, que nada deixavam a desejar, quanto à elegância, mas que jamais roçavam, nem de leve, pelos arrebiques do janotismo equívoco.

Eis como nós éramos os dois. E eu - meiga e delicada; e meu marido - extremoso e forte.

Casamo-nos por inclinação de parte a parte, com o aplauso de ambas as famílias, depois de um calmo namoro de seis meses, regular e honesto, abençoado por todos os nossos parentes e amigos.

Não se poderia, pois desejar casamento mais equilibrado, nem se poderia conceber um par mais harmonioso, e até mais simétrico.

Não obstante, apesar de que nunca transigi dos meus deveres conjugais; apesar de que meu marido prosperou sempre de fortuna na sua carreira médica e, depois, na sua carreira política; apesar de que ele era bom, e apesar de que sempre nos estimamos; apesar de tudo isso, tanto ele como eu fomos igualmente muito desgraçados, enquanto nos não separamos; fomos os dois um casal de infelizes amarrados um ao outro pelo duro e violento laço do matrimônio; fomos dois calcetas, seguros na mesma corrente de ferro, condenados a suportar a existência eternamente juntos.

Não foi possível! Quebramos a cadeia, arrancamo-nos da grilheta. O governo nomeou-o para uma honrosa comissão fora do Brasil; aproveitamos o ensejo e separamo-nos. Tínhamos dois filhos, um de cada sexo; a menina ficou comigo e o menino seguiu com ele.

Ao contrário do alvitre jurídico, entendi sempre que, na separação de cônjuges, mormente abastados, o filho ou filhos varões devem acompanhar o pai, e a filha ou filhas devem ficar ao lado da mãe, porque esta é sem dúvida mais apta, que um homem, para zelar pela boa educação e pureza de uma menina; ao passo que aquele outro pode, melhor que a mulher, dirigir e encaminhar a vida de um rapaz.

O contrato moral e íntimo do nosso apartamento foi ainda mais digno e mais sincero do que o contrato público e material da nossa união. Não nos preocupou a questão de dinheiro, porque éramos já bastante ricos, e podíamos ficar ambos pecuniariamente independentes. Obriguei-me a não macular jamais o nome que ele me dera, e esse preceito foi por mim cumprido à risca; ele, pelo seu lado, comprometeu-se a se não descuidar nunca de nosso filho, e assim o fez, durante os curtos anos que viveu ainda o meu pobre Gastãozinho.

Separamo-nos bons amigos, mas, ai de nós! depois de grandes desavenças domésticas e brigas de cada instante, que fizeram até aí da nossa vida um triste inferno, e que para sempre nos tornaram incompatível a existência em comum. O que nos valeu foi o nosso espírito. Num momento lúcido compreendemos tudo, encaramos a sangue-frio a situação; e abraçamos com coragem o único partido digno de nós. Se continuássemos a viver juntos, teríamos chegado às últimas degradações da falta de respeito um pelo outro e talvez ao crime. É possível que Virgílio me batesse, ou me matasse, num dos nossos muitos ímpetos de irreprimível cólera nervosa. Só os casados, só estes, poderão calcular e compreender quanto nos injuriamos os dois, quanto nos aviltamos, por palavras e gestos, nessas secretas e constantes lutas. O arrependimento chegava sempre, porém tarde, e nunca aproveitava para impedir novas crises; o arrependimento só servia para mais nos rebaixarmos aos nossos próprios olhos, com a consciência da nossa degradação. Mais do que as rixas, os seqüentes amores na confirmação das pazes, deixavam-nos humilhados e corridos de vergonha; e este fato, só por si, a deprimente certeza da nossa ignomínia, era já um novo rastilho pronto e aceso para uma nova explosão de cólera.

Afinal, o contacto, ou a só presença de qualquer dos dois, tinham se tornado absolutamente insuportáveis para o outro. Às vezes, sem razão, não podia demorar a vista sobre meu marido: irritavam-me nervosamente os seus gestos mais simples e naturais. Uma ocasião, em que o contemplei pelas costas, assentado à sua mesa de trabalho, todo embebido no que estava fazendo, com a cabeça baixa, um gorro de seda preta, os ombros envolvidos num xale que lhe escondia o pescoço, desejei-lhe a morte, e tive de fugir dali para não disparatar com ele.

Mas por quê? por que razão eu, que sem dúvida estimava e compreendia meu marido, não podia às vezes suportá-lo?... por que razão ele, que me amava, não pôde continuar a viver junto de mim?

Por quê?

Eis o difícil de explicar, e eis do que, tendo estudado minuciosamente o meu próprio coração e o coração de meu marido, e depois de uma longa e paciente observação de todos os instantes da vida de casados que nós dois tivemos, tirei a base e a substância da minha filosofia sobre o amor conjugal e os meios práticos de obter-lhe a duração.

Não o fiz por mim, mas só por minha filha, a minha Palmira, a flor mimosa dos verdadeiros encantos da minha vida de moça, o ser único a quem neste mundo dei, até certo momento da velhice, todo inteiro o meu coração, a quem dei todo o meu amor, sem a mais ligeira reserva de ternura e se a menor hipocrisia nos sorrisos e nos beijos. Amei-a mesmo antes que ela nascesse, amei-a cada vez mais durante a existência, e creio que ainda a amaria sempre depois da sua morte. Nunca neste amor descobri as falhas de tédio, de cansaço, e até de absoluto enjôo, que infelizmente, logo desde o começo da minha vida conjugal, descobri no amor que eu votava ao meu bom e querido esposo. No meio do maior aborrecimento, no mais ingrato instante das horas de desânimo, a presença de minha filha era sempre uma consolação e um repouso; nunca beijo nenhum que ela me deu foi inoportuno; nunca as suas carícias chegaram fora de propósito, e nunca deixaram de produzir em minha alma o mesmo delicioso efeito de suave refrigério. Entretanto, quantas vezes, ainda na lua-de-mel, não me revoltei contra mim mesma e não amaldiçoei as rebeldias do meu coração, por não poder evitar que, a despeito da minha traiçoeira afabilidade externa, o enojo repelisse no meu íntimo as carícias que nessa ocasião me dava meu marido?!

Ah! ele não percebia a verdade, porque eu com uma hipocrisia, que nesse tempo acreditava honesta e generosa; uma hipocrisia, que eu supunha fazer parte dos meus deveres de boa esposa, obrigava meus olhos, meus lábios, meus braços, meu corpo inteiro, a mentirem, representando sem vontade essa coisa inconfessável, ignóbil, que me tinham feito acreditar, secretamente, que era "o amor". Que blasfêmia! e mais - que era "o matrimônio". Que desilusão!

Oh! quantos sorriso, quantos suspiros de volúpia e quantos beijos dados por mentira, meu Deus! Oh! quanto me prostituí nos braços de meu marido!

E que vergonha, que repugnância, dele e de mim própria, não me assaltaram quando descobri que com Virgílio se dava a mesma coisa a meu respeito; e que ambos nós, procurando iludir um ao outro, representávamos cada qual no seu transporte a mesma degradante comédia de amor? Quantas vezes percebi que seu espírito bocejava de tédio, enquanto seus lábios me cobriam de beijos fervorosos?

Mentirá todo aquele e mentirá toda aquela que disser que a presença de sua esposa, ou que a presença de seu marido, lhe foi sempre agradável; e mentirá, se não confessar que muita vez se prestou a satisfazer os desejos do cônjuge com sacrifício de todo o seu ser.

Éramos já dois desgraçados, e dali em diante começamos a ser duas vítimas e dois verdugos recíprocos, chumbados à mesma dor e à mesma crueldade, a torturarem-se, a devorarem-se num estreito abraço de extermínio.

Oh! definitivamente não podíamos continuar a viver juntos! E no entanto, eu amava meu marido, e sei que era amada por ele. Nenhum casal até hoje se estimou e respeitou mais do que nós no foro íntimo da sua alma. Juro que tínhamos em segredo um pelo outro a maior e mais sincera consideração, e que ambos, de parte a parte, apesar dos constantes atritos, fazíamos de cada qual o mais alto e digno conceito. Mas juro também que muita vez me senti verdadeiramente desgraçada nos seus braços, e ele nos meus; e que por último, muitas e muitas vezes nos injuriamos, com as mais duras palavras de desprezo, quando, no fundo da consciência, julgávamos mutualmente o contrário do que blasfemávamos.

Que singular monstruosidade!

E não me venham dizer que nos amávamos só com a razão e não com os sentidos. Vou copiar fielmente um fragmento das notas póstumas de meu esposo, onde o contrário se acha bem demonstrado. O que adiante se segue escreveu ele já depois da nossa disjunção, longe de mim, na Itália, poucos anos antes de morrer.

Descobri essas notas entre os papéis do seu espólio. Sem as transcendentes revelações que elas me depararam, é natural que nunca chegassem minhas pesquisas filosóficas a qualquer resultado, e nunca me animasse eu a empreender este doloroso manuscrito.

Atenção! É Virgílio quem agora fala:

III

"...................................................................

Sim! minha mulher foi a única mulher que amei. Em meio do maior enjôo da vida doméstica, sentia eu perfeitamente, no âmago da minha consciência, que nenhuma outra valia tanto como Olímpia, quer no físico, quer no moral e até no intelectual; sentia que, se ela não fosse minha esposa, minha companheira obrigada de cama e mesa, de todo o instante, havia de desejá-la apaixonadamente; sentia, adivinhava que, se eu viesse um dia a deixar de possuí-la, como fatalmente sucedeu, havia de sofrer muito, como efetivamente sofri, sem nunca mais encontrar mulher que a substituísse ou que lograsse fazer-me-la esquecer.

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