O corpo foi depositado na capela. Era tal a insistência com que eu o acompanhava que passei por parente do morto. O meu cocheiro chegou mesmo a lançar me um olhar de consolação.
Ia a sair, mas hesitei. Despedi o tilbury e pus-me a passear em volta da capela, onde podia por entre as grades ver o cadáver deitado ao comprido sobre uma mesa de pedra.
Não sei por que eu me demorava ali, mas sei que me sentia atraído misteriosamente para aquele corpo.
Não podia lhe tirar a vista de cima. Olhei em torno de mim, estava só, o guarda se havia afastado, quando um grito me escapou dos lábios.
Pareceu-me ter visto o cadáver virar a cabeça de um para outro lado.
"Estou sonhando!..." disse comigo, mas resolvi observar, ainda que fosse preciso esconder-me no cemitério.
Pela seguinte carta verá V.Sª. que não era um sonho.
Sou de V.Sª.
Atº. Crº. e ven.or
* * *
Novas Revelações
Sr. Redator.
Como lhe disse à semana passada, não era um sonho o que eu via na capela do Cemitério de São Francisco Xavier.
O corpo havia mexido com a cabeça e repetira pouco depois o movimento como quem se debate na agonia de um pesadelo.
Quis gritar e chamar por alguém, mas não pude, faltou-me a voz, e fiquei chumbado à grade da capela, sem conseguir fazer um movimento.
Entretanto, a noite avultava rapidamente e quase que se não podia distinguir nada para dentro das grades. A lua, que não costuma faltar às cenas desta ordem, já lá estava no céu num transbordamento de luzes prateadas, que melhor faziam destacar as casuarinas e as pedras brancas dos mausoléus.
Um rumor surdo, gemebundo, levantava-se tristemente do chão e de tal forma se casava às sombras da noite, que parecia sair de dentro delas; dir-se-ia que a treva sussurrava derramando-se pelo vale, como uma enorme legião de espectros.
Com o luar não há claro-escuro; e essa divisão rápida da luz e da treva sempre me produziu no espírito os mais imprevistos e pavorosos efeitos.
Não sei por quê, mas eu, que sou um homem de verdadeira coragem, quando estou ao sol, tremo e fujo de tudo debaixo da mefistofélica influência da lua.
E, de mais a mais, num cemitério. - Calcule-se.
Aos meus olhos as campas se transformavam todas em grandes fantasmas saídos das sepulturas; os ciprestes eram frenéticos gigantes que conspiravam, debruçando-se uns sobre os outros, para se falarem em segredo, e logo depois se apartarem horrorizados com o que ouviam.
Imagine-se!
Ah! Nem sei como ainda me podia ter nas pernas! O suor escorria-me por dentro do colarinho; o sangue espolinhava-se-me no coração, a cabeça andava-me à roda, a arder.
E, cousa esquisita, quanto mais me ardia a cabeça, tanto mais frios sentia eu os pés e as mãos.
Um frio incômodo, que parecia penetrar na carne em forma de agulhas em brasa.
E esse frio foi se estendendo pelas pernas e pelos braços, até se apoderar da minha região intestinal. Então, como se me apertassem o ventre com um cinturão de aço, comecei a sentir cólicas e vontade de vomitar; faltava-me o ar nos pulmões e o peito parecia querer abrir-se para fora em duas folhas, como uma janela.
Entretanto, o corpo de Castro Matta acabava de erguer-se a meio sobre a mesa de mármore e circunvagava em torno de si os olhos espavoridos e cheios de inconsciência.
Com um supremo esforço fiz um movimento para fugir; ele deu por mim, levantou o braço descarnado e começou a chamar-me silenciosamente.
Depois ergueu-se de todo, lançou fora da mesa as pernas e saltou no chão, arrastando a mortalha que lhe haviam prendido ao pescoço.
E com o solene caminhar das figuras fantásticas de Goya, aproximou-se das grades em que eu estava.
O sangue agitou-se dentro de mim com mais força, o cinturão de aço parecia disposto a cortar-me de meio a meio pelo ventre, e os braços e as pernas principiavam-me a tremer convulsivamente.
Mais dous passos e estaria cara a cara com o maldito ressuscitado; nisto, porem. senti baterem-me de leve no ombro. Volto me - defronte de meus olhos estava um vulto de homem.
Era alto, magro, de cabelos pretos e barba à inglesa.
- Eu sou Castro Malta! - disse-me ele, batendo no peito com energia.
Mas, nesse instante a porta da capela abriu-se e o outro apareceu terrivelmente embrulhado na sua mortalha.
- Ah! - disse o segundo Castro, recuando de braços abertos, e logo em seguida caiu para trás, sem sentidos.
No entanto, o da mortalha se aproximou de mim e pediu-me que não me assustasse. como o outro, e fizesse o obséquio de dizer se eu era o guarda do cemitério.
- Não senhor - respondi -, sou um simples parente de um morto que se enterrou hoje.
- Ah! - exclamou o ressuscitado. - É parente de um colega meu, logo posso contar com o senhor!
E o ladrão dizendo isto nem parecia que tinha morrido na véspera e que por um triz estivera para ser metido dentro da terra.
"Muito forte deve ser o espírito deste sujeito" - pensei eu, a vê-lo sorrir defronte de mim, como se nada lhe houvesse acontecido de extraordinário.
Não me pude conter e perguntei-lhe se havia ficado impressionado com o que lhe sucedera.
- Não - disse-me ele muito naturalmente. - E até estimei a minha suposta morte. Daqui a pouco lhe direi a razão por quê. Se o senhor está resolvido a dar-me hospitalidade por esta noite, eu lhe contarei a minha história e verá o amigo que, nem só não devo estar triste em ter ressuscitado, como também não deveria ficar se tivesse morrido deveras.
- Bem - respondi. - Levá-lo-ei comigo para casa, tenho interesse igualmente em conversar com o senhor.
Interrompemos, porém, a conversa, para cuidar do sujeito que perdera os sentidos. O da mortalha abaixou-se, apalpou-lhe a testa e os pulsos, e exclamou depois:
- Ora esta!
- Que é? - interroguei.
- Pois você acredita? Este homem não se lembrou de morrer?...
- Morreu?
- Ora! Creio que até já fede! Este já não gustará mais farinha!
E voltando-se de todo para mim:
- Isto é o que se chama fortuna! A minha saída do cemitério, depois de estar inscrito nos livros dos mortos, iria talvez produzir grandes revoluções no outro mundo! Assim deixo alguém no meu lugar!
- Vai deixar esse homem no seu lugar?
- Certamente, e eu seria um asno se não aproveitasse a boa vontade com que o pobre rapaz morreu! Vou trocar o meu lugar com o dele. Eu era defunto e tinha uma mortalha: ele um vivo e tinha roupa. relógio e talvez dinheiro. Trocamos. Ele fica sobre a minha mesa de pedra e eu vou para a mesa do restaurant que o esperava. Já vê que não sou tão caipora, principalmente se atendermos para o fato de que o meu protetor tem a minha estatura e que o seu chapéu me serve.
Dizendo isto, o ressuscitado colocara na cabeça o chapéu do outro, que apanhara do chão e, agora, de cartola e amortalhado como estava. tinha alguma cousa de cômico e de horrível.
A graça é que eu, desde que me pus a confronta-los, achava os igualmente parecidos com a fotografia que me dera a Jeannite.
- Bem! tratemos de trocar as fatiotas - acrescentou o ressuscitado, despindo o outro.
E, daí a uma hora, o novo Castro Malta, competentemente amortalhado, ficava estendido sobre a mesa da capela; ao passo que o outro saia do cemitério pelo meu braço e dizia-me em ar de graça, consultando as algibeira:
- Relógio, corrente de ouro, cinqüenta e tantos mil-réis em dinheiro e livre, livre como as asas. Mas de tudo isso o que eu herdei de melhor daquele santo morto, foi este objeto!
E mostrou me um cartão que tirara da carteira.
- Um cartão de visita?
- Sim. De hoje em diante já não existo para os meus credores e para os meus inimigos. Morri! Este que aqui vai pelo seu braço, chama se...
E lendo o cartão:
- João Alves Castro Malta.
E acrescentou, fazendo parar um carro que passava:
- Durante a viagem lhe contarei tudo.
Sou de V.Sª.
Atº. Crº. e ven.or
***
Novas Revelações
Sr. Redator:
Vou tentar reproduzir aqui, com a maior fidelidade que me for possível, o significativo diálogo que se travou entre mim e o extraordinário ressuscitado, depois que deixamos o cemitério e nos metemos dentro do carro.
- Em primeiro lugar - disse-me ele - vou contar-lhe com toda a franqueza a minha história, sem o que não poderia o senhor capacitar-se de que não sou precisamente um doudo: Nasci na cidade de Campinas, e, segundo me consta, meu pai, a quem não tive o gosto de conhecer, era um sujeito honrado e de bons costumes, o que aliás não lhe impediu de sucumbir a uma indigestão de lagostas, justamente quando minha mãe estava em vésperas de dar-me ao mundo. A morte de meu pobre pai precipitou um pouco este vulgaríssimo fenômeno fisiológico, obrigando minha desgraçada mãe a pagar com a própria existência o meu direito de fazer parte dessa cousa que se chama humanidade e a um lugar neste mesquinho inferno que se chama o mundo. Por conseguinte, apenas com um dia de vida já recebia eu os primeiros couces da fortuna, achando-me completamente desamparado e sem ter ao menos uma teta que me garantisse a subsistência. Foi então que um pobre cocheiro se compadeceu de mim e carregou-me para casa. O cocheiro era casado e sua mulher entregava-se ao modesto e honrado mister de criar bodes e cabras. Foi uma cabra a única ama-de-leite que eu conheci, e tal amor tomei desde então a esse benfazejo animal, que ainda hoje, quando por acaso o encontro na rua ou em qualquer parte, a vontade que tenho é de ferrar-lhe um abraço.
- Nada mais justo... - considerei eu.
- Mas - continuou o narrador - a desdita não quis que o meu protetor levasse ao cabo a obra de caridade que me estava reservada e fê-lo sucumbir, pouco depois da mulher e quando eu ainda não tinha mais do que cinco anos de idade.
"Passei então para as mãos de um tipo, o melhor dos que tenho conhecido no mundo, e que foi ao mesmo tempo o meu salvador e a minha perdição."
- A sua perdição?
" - Sim. Eu me explico: Pedro Melindroso, o homem que substituiu ao meu lado o cocheiro, era um filósofo, cujas teorias abstratas e metafísicas entraram muito profundamente pelo vasto terreno da loucura.
" Foi justamente por isso que ele me recolheu. Um dia viu-me chorando abraçado à cabra que me amamentara e escondeu-se para me espreitar.
" Eu, que me supunha a sós com a minha doce companheira de infância, exclamava deveras comovido à orelha do bicho: "Bebé! Bebé! (era este o tratamento que eu lhe dava) minha querida Bebé, não imaginas quanto te quero bem e quanto gosto mais de ti do que de todo o mundo!"
" O filósofo, saindo do seu esconderijo, veio ter comigo e perguntou-me se era verdade o que ouvira de minha boca.
" Eu, meio perturbado com a presença dele, respondi que sim e que não trocaria a minha querida Bebé por ninguém.
" - Quem é seu pai? - perguntou-me ele depois.
" - Não cheguei a conhecê-lo - respondi
" - E sua mãe?
" - Morreu quando me pôs no mundo.
" - E com quem você vive agora?
" - Com ninguém.
" - Você não tem casa?
" - Não.
" - Onde dorme?
" - Quase sempre no curral do Zé Coxo.
" - Onde come?
" - Onde encontro o que comer. E quando não encontro, peço.
" - E quando não lhe dão?
" - Roubo.
" - E não se vexa de roubar?
" - Não, porque não faço por maldade semelhante cousa, mas sim por não haver outro remédio.
" - E por que você não se mata?
" - Porque não quero.
" - E que espera você da vida?
" - Nada, não sei.
" - Quer vir comigo. para minha casa?
" - Vou, se me deixar levar Bebé.
" - Pois então acompanhe-me com ela.
" Desde esse dia principiei a ter de novo uma cama, um talher certo à mesa do filósofo e roupa lavada e engomada.
" - Você quer ser uma besta ou um homem instruído? - perguntou-me o Melindroso, meses depois de me haver tomado à sua conta. - Mas, desde já o previno de uma cousa - acrescentou ele. - Eu não admito meio-termo em questões de ilustração. Você no caso que não queira ser uma besta, há de ser um sábio. Escolha.
" - Quero ser um sábio.
" - Mas, veja bem, rapaz. Para ser um sábio é necessário que você tenha talento, paciência e coragem. Consulte o seu espírito e veja se pode contar com essas três qualidades.
" - Posso, sim senhor.
" - Tu tens talento? - volveu o filósofo, passando a tratar- me por tu, o que nele significava bom humor.
" - Tenho.
" - Pois então responde ao que te vou perguntar.
" - Pronto.
" - Que farias tu a um cão que te mordesse?
" - Dava-lhe com uma pedra.
" - E a um que te lambesse os pés?
" - Nada.
" - Bem. Vejamos agora se tens coragem. Dá-me um soco.
" Eu não esperei segunda ordem e ferrei-lhe um murro na barriga.
" - Bom - disse o filósofo. - Estou satisfeito e, quanto às provas de paciência reservo-as para mais tarde. Amanhã principiarás a estudar comigo. E daqui a alguns anos saberás tudo que é dado alcançar ao* conhecimento humano.
* No original, o.
" No dia seguinte o meu protetor começou a ensinar- me simultaneamente as seguintes matérias. Gramática Portuguesa, Francesa, Latina e Grega; Aritmética, Geografia, Física e Astronômica, Música, Desenho e Ginástica.
" É inútil dizer que de tudo isso só me ficara na cabeça uma confusão diabólica, o que aliás não desanimara o meu singularíssimo professor, nem o fazia retirar de mim a progressiva confiança que eu lhe inspirava.
" E todos os dias apresentava-me um novo livro e dizia-me:
" - Lê isto! É bastante que leias; não procures compreender, procura decorar. A cabeça é como a terra, não tem necessidade de conhecer a semente que recebe no seio; a natureza se encarregará de cumprir com os seus deveres. A tua inteligência é a natureza e os livros que te dou são a semente. Decora-os e mais tarde a planta brotará, sem que tu próprio descubras a razão por quê.
" Eu obedecia. Dos meus seis anos até aos vinte e um, li nada menos do que dez mil volumes de diversos assuntos.
" Meu professor nada me ensinava a fundo, nem consentia que eu me inclinasse para nenhuma especialidade.
" - Não - dizia-me ele -, um verdadeiro sábio não deve ter especialidade. Tu deves saber um pouco de tudo e quase nada de todas as cousas. É preciso que entendas tanto de Teologia como de Botânica, como de Arquitetura, como da Arte Culinária, como de Economia Política, como de Literatura e do resto. Quero que a tua inteligência se derrame em torno de ti, pelo universo e não que ela se encanalize pelo tubo de uma especialidade.
" Prefiro a extensão à profundeza; prefiro o estudo da humanidade ao estudo do homem; prefiro o estudo do homem ao estudo de um órgão ou de um osso; prefiro o estudo de um osso ao estudo particular de uma molécula, e prefiro o estudo de uma molécula ao de um átomo ou à especialidade de não estudar cousa nenhuma.
" - Vês? - prosseguiu ele - é a isto que nos conduz a especialidade - a zero. A especialidade é o meio de ir apertando as cousas até reduzi-las a nada. Ser especialista e não ser cousa alguma vem a dar na mesma, porque nada adianta conhecer um elo de uma cadeia, quando a gente não conhece a cadeia inteira. Nada adianta conhecer a folha de uma árvore, quando não se conhece a árvore. Depois que saibas tudo sinteticamente, dar-te-ei licença para os teus estudos concretos; antes não, não admito que te demores defronte de nenhuma ciência particular.
" Este sistema educativo do meu singular protetor, que nesse tempo eu supunha um sábio e que depois verifiquei não passar de um louco, esse sistema fez com que eu aos vinte e dous anos, quando me achei de novo abandonado no mundo, não encontrasse meios de ganhar a vida.
" Entendia de tudo e nada sabia ao certo. Tentei todas as profissões, experimentei-me em todas as carreiras - nada. Sabia Medicina e não podia curar; sabia Direito não podia advogar; Engenharia e não era engenheiro; Pintura e não era pintor; Arquitetura e não era construtor; enfim entendia de tudo e não era nada.
" Então fiz-me boêmio e filósofo; principiei a aceitar a vida como esta se apresentasse, sem me preocupar com o dia seguinte."
- Foi nessas condições - acrescentou ele - que conheci uma velhusca, viúva de um farmacêutico, chamada Leonarda.
- Aquela que estava presa? - perguntei.
- Justamente.
"Minha sogra" - disse eu comigo; e dispus-me a continuar a ouvir o ressuscitado, cujas revelações foram-se-me tornando cada vez mais interessantes, como verá V. Sª. pela outra carta que lhe hei de mandar para a futura Semana.
Sou de V.Sª.
Atº. Crº. e ven.or
***
Novas Revelações Oitava Carta
Sr. Redator:
Chegado que fui a casa, em companhia do ressuscitado, disse a este que entrasse, acendi duas velas, ofereci-lhe uma cadeira e dispunha-me a ouvir com toda a atenção o fio de sua narrativa, quando ele me observou que estava a cair de fome e precisava refazer as forças com duas ou três costeletas antes de principiar de novo o diálogo.
" Isso agora é que é o diabo!" - disse eu comigo, lembrando-me de que, depois que minha mulher abandonara aquela casa, nunca mais se acendera o fogão.
O ressuscitado, como se adivinhasse o meu pensamento, lembrou que fôssemos cear a um restaurante.
- Não - respondi eu -, é melhor ficarmos aqui. Temos de conversar longamente e precisamos para isso de toda a liberdade. Eu me encarrego de arranjar o que comer, é um instante! Fique o amigo à minha espera; não me demorarei muito.
E, antes que ele apresentasse alguma objeção, saí gritando-lhe:
- Até logo.
- Veja se não se demora, hein? Tenho o estômago a gemer.
Saí de casa, meti-me no carro que havíamos deixado à porta, e fui comprar, ao primeiro hotel que encontrei, o necessário para uma ceia.
- Trouxe vinho? - perguntou-me o hóspede, logo que me viu voltar.
- Trouxe.
- Quantas garrafas?
- Duas.
- É pouco.
- Pouco?
- Decerto. Uma garrafa de vinho não chega para nada!...
- Mas eu trouxe duas...
- Uma não se conta!
- Não compreendo!
- São teorias do meu educador. E desculpe não entrar por enquanto em maiores explicações, porque já não me posso ter de fraqueza.
Dizendo isto, o meu singular hóspede havia já desembrulhado a cesta dos comestíveis, e tirava de dentro o conteúdo, exclamando a cada peça:
- Bravo! Um frango assado! - Um pedaço de roast-beef, esplêndido! - Ostras de forno, magnífico!
- Queijo de Minas, soberbo! - Pastéis de camarão, divino! - Uma lingüiça, ótimo!
- Creio que chega - disse eu.
- Pelo menos remedeia - afiançou o ressuscitado, atirando para longe o chapéu e cravando os dentes no frango. - O amigo algum dia já passou meia semana sem comer? - perguntou-me ele.
- Não me lembro.
- Pois aqui está quem já atravessou uma semana inteira, sem meter para a boca um grão de arroz. Tenho curtido muito boa fome nesta heróica Cidade de São Sebastião. Aqui onde me vê, conheço todas ai delícias da miséria!
- Ninguém o diria, atendendo para esse bom humor de que dispõe o amigo.
- Ah! Mas é que eu encaro o mundo de um ponto de vista muito filosófico. Não me preocupo absolutamente com a vida, nem com a morte. Que m‘importa a mim que as cousas corram deste ou daquele modo? Que m‘importa que chova ou que faça frio? Acaso desejo conservar a existência?
- O senhor é um homem singular!...
- Não, sou apenas um indiferente, sou uma sombra! Sei que nada valemos, sei que tudo isto que nos cerca desaparecerá dentro de certo tempo, sei que nós todos vivemos para cumprir uma lei indefectível da natureza, e deixo-me por conseguinte governar como um verdadeiro instrumento. Não tenho vontades, não tenho querer. Aceito a vida, aceito os fatos, sejam eles quais forem, sem lhes perguntar donde vieram, que significam ou qual o fim a que se destinam. Que diabo me pode suceder com este sistema? - A morte? - Puff! estou me ninando para ela! - O descrédito? Mas que diabo vem a ser isso? Não aspiro posição alguma na sociedade, não pretendo nada de meus semelhantes; vivo, porque assim o determinaram os mistérios da criação; não me mato, porque seria uma maçada, e deixo correrem as cousas como elas bem entendam!
- Mas a sua filosofia não o impedirá de sofrer física e moralmente, quando for acometido por alguma dor...
- Dor?
- Então, também nega a dor?
- Decerto. Sofrem apenas os que desejam sofrer.
Ora essa! Então se eu lhe pisar o melhor calo, o senhor não dá por isso?
- Pode ser que sinta a pressão do seu pé sobre o dedo em que se acha o calo, mas juro-lhe que não experimentarei com isso impressão mais agradável ou desagradável do que se me dessem um beijo.
- Então por que exigiu o senhor que eu fosse buscar isso com que está se regalando? Se a fome não o incomodava, para que satisfazê-la?
- Porque ela assim o quer; isso não é comigo, é com o meu estomago, que funciona por conta própria, sem me consultar absolutamente. Apenas o que eu faço é auxiliá-lo, emprestando-lhe outros membros e outros órgão. Por exemplo.
E tomou um pastel de sobre a mesa:
- O estomago deseja este pastel, para quê - não sei, nem quero saber, mas precisa dele e reclama-o. Eu, que faço? Agarro no pastel. levo-o à boca...
E, mastigando:
- Mastigo-o... Engulo-o e agora cada um que se arranje!
- E se o senhor não tivesse o pastel à mão?
- Teria outra coisa. Se não fosse hoje, amanhã ou depois ou daqui a oito dias. Com a diferença, porém, que daqui a oito dias, se não me aparecesse um pastel, ou cousa semelhante, lançar-me-ia às orelhas do primeiro cidadão que me passasse ao alcance dos dentes.
- Bem - observei, já farto de ouvir as extravagantes teorias do meu ressuscitado. - Deixemos por ora a sua filosofia e vamos tratar do que nos interessa.
- A mim nada interessa - atalhou ele.
- Perdão, mas não se trata só do senhor.
- Sim, mas eu só trato de mim...
- Pois faça o favor de abrir uma exceção nos seus costumes e responda às perguntas que lhe vou fazer.
- Ah! Isso não me incomoda e até me diverte. Quer conversar, não é verdade? Pois converse pr’aí, gosto muito de falar, porque falar é uma coisa excelente, não demanda nenhum esforço, não demanda dinheiro, nem paciência, nem energia, nem instrução. A gente abre a boca e deixa que a palavra saia, assim como agora. Vê? Eu não faço o menor esforço para dizer tudo isto... Tenho o estômago cheio, a cabeça um pouco atordoada pelo que já falta de vinho nessas garrafas; ninguém conta com a minha vida ou com a minha morte; posso, por conseguinte, levar aqui a falar deste modo, enquanto houver o que arder nos castiçais e enquanto o sono usar dos seus direitos de não* fazer-me adormecer.
* No original, e,
- Bem - disse eu -, mas o que eu desejo não é ouvi-lo falar e sim ouvir certos esclarecimentos que me são necessários. Diga-me, por exemplo, como chegou o senhor a travar as suas relações com a viúva do farmacêutico.
- Pois não! Uma noite, não sei que horas eram nem que dia da semana, achei-me cansado e morto de fome. Tinha caminhado por muitas ruas e não encontrava uma casa aberta. Afinal, dobrando para um largo, vi luz numa casinha de duas janelas. Fui até lá, bati. Perguntaram-me o que queria. - "Quero falar ao dono ou dona da casa." Apareceu uma velhusca. - "Quem é? - Sou eu! Faça o favor de abrir! - Que deseja? - Comer!" Iam-me fechar a porta na cara, mas não dei tempo para isso, e penetrei na casa. - Não se assuste!’’ - disse à velha, que parecia tremer de medo. - "Não se assuste, não lhe farei o menor mal". E, vendo que a mesa estava servida com um resto de ceia. assentei-me e comecei a comer com o mesmo apetite com que devorei o frango de ainda há pouco. Depois tomei uma garrafa e enxuguei-a. Feito o que, abri uma porta, que dava para uma alcova, e estendi-me sobre uma boa cama que encontrei.
- E a velhusca?
- A velhusca a principio quis ir chamar a Polícia, mas, à vista do meu sangue-frio e talvez do ar pacífico de minha fisionomia, contentou-se em acompanhar-me os movimentos e afinal até já me achava graça. Dormi lá essa noite, dormi perfeitamente e, como, no dia seguinte, a velhusca me deu almoço, deixei-me ficar até que as pernas me pediram exercício. Fui então passear, mas logo que me senti cansado, voltei à casa da velhusca, e assim fui fazendo até que ela já não podia estar por muito tempo separada de mim, e já pagava as cousas de que eu ia precisando e já me dava dinheiro, charutos, garrafas de cerveja e balas.
- Depois?
- Depois começou a aconselhar-me que trabalhasse...
- E o senhor?
- Eu contei-lhe a minha história, falei-lhe no Melindroso e disse que não tinha elementos para ganhar a vida e que estava disposto a ir passando à mercê do acaso, até que um bonde ou uma febre de mau caráter se lembrasse de levar-me ao cemitério.
- Mas o fato da sua prisão?
- Ah! Vou contar-lhe tudo pelo miúdo.
Sou de V.Sª.
Atº. Crº. e ven.or
***
Novas Revelações
Sr. Redator:
O singular homem, que eu tinha defronte dos olhos, narrou-me do seguinte modo o fato da sua prisão em companhia de minha sogra.
- Um ano depois que eu me relacionara com essa velhusca sublime, cuja forma o protetor acaso, ou Providência, escolhera para vir ao meu socorro, achei-me com ela, a Providência, passeando no pequeno jardim que existe defronte da Estação de Pedro II, quando um carregador me perguntou que fazíamos ali.
" - Creio que vou tomar um cálix de vermouth - respondi eu. - Porquê?
" - Nada - resmungou o carregador. - É cá uma coisa!
" E afastou-se.
" Poucos minutos depois, saboreava o meu vermouth ao lado da velha Providência, quando um urbano* se aproximou de nós e perguntou como eu me chamava.
* Urbano: soldado da Policia.
" - João Alberto Castro Matta - disse eu.
" - E esta senhora? - interrogou o urbano.
" - Dona Leonarda da Conceição Meloso.
" - Pois queiram acompanhar-nos.
" - Para quê?
" - Saberá na Estação.
" A velhusca ao receber esta ordem perdeu os sentidos e eu, que não me alterei, pus-me a rir nas barbas do urbano.
" - Você está se rindo de mim? - perguntou-me este.
" - Assim o creio - afirmei, soltando uma gargalhada.
" O urbano puxou pelo refle e ia dardejá-lo sobre a minha cabeça, quando de um salto lhe tomei a arma das mãos, arrojei-a para longe e investindo de cabeçadas contra o agressor, fi-lo cair dentro de um tanque do jardim.
" Em seguida, despejei o meu cálice de vermouth sobre a testa de Dona Leonarda, chamei um carro, meti-me com ela dentro e mandei tocar para casa.
" Mas o conflito com o urbano havia atraído muita gente e em breve era o meu carro escoltado por uma porção de soldados. De sorte que, ao chegarmos, eu e a minha velhusca, à Rua da Misericórdia, um morcego* abriu-me violentamente a portinhola da sege e intimou-me a que me rendesse no mesmo instante à prisão.
* Morcego: guarda-noturno.
" - Bem respondi -, irei. Tanto se me dá ser preso, como não ser. Mas, peço-lhes que me deixem ao menos acompanhar primeiro esta senhora a sua casa.
" - Nada! - bradou um sujeito, com ares de autoridade, o qual acabava de surgir defronte de mim: - Nada! Sua cúmplice irá também. Sigam!
" E, gritando para um praça: - Não os larguem e levem-nos quanto antes à Estação.
" Fomos os dous conduzidos à presença de uma nova autoridade, e, ato contínuo, mandaram-nos para a Casa de Correção, onde nos engaiolaram em células separadas.
"Eis aí, como fui preso. Depois sobreveio-me uma espécie de desfalecimento nervoso, do qual só tornei a mim na capela do Cemitério, naquela triste situação que já o amigo conhece perfeitamente."
Sr. Redator, à vista desta declaração do ressuscitado, concluí que a Jeannite, dando as providências para que o amante e mais a sua miserável cúmplice fossem apanhados pela Polícia, tinha motivado esse ridículo engano.
Calculei que, em vez da filha, tivessem prendido a mãe e, em vez do amante de minha mulher, tivessem prendido o amante de minha sogra.
E assim foi. Notando-se, porém, que a terrível Jeannite tanta gente pôs na pista dos perseguidos e tantas providências deu para os apanhar, que, na ocasião em que um Castro Malta era recolhido à Casa de Detenção com uma mulher, outro já lá estava com outra.
Os empregados da Casa, segundo deduzo do que lhes ouvi no dia do singular enterro, não se achavam muito a par da verdade e, tanto assim, que uns me diziam que o Castro Matta ou Malta havia seguido moribundo para a Santa Casa da Misericórdia, e outros afirmavam que o legítimo Castro Malta estava engaiolado na Detenção.
Perplexo com as novas revelações do ressuscitado, deliberei esclarecer por uma vez os acontecimentos e, no dia seguinte à minha conversa com ele, atirei-me de novo para a Casa de Correção.
- Então? - Perguntei ao empregado que já me havia fornecido as primeiras informações - que noticias me dá o senhor do Castro Malta?
- O Castro Malta - respondeu-me o empregado - enterrou-se hoje pela manhã no Cemitério de São Francisco Xavier. A prisão desse vagabundo, a quem Deus haja, motivou também a injusta prisão de um inocente que, ontem mesmo, mal se verificou o engano, foi posto em liberdade com uma rapariga que o acompanhava; ficando uma velhusca que viera com o que faleceu.
- Bonito! - disse eu. Os senhores podem limpar as mãos à parede!
- Porquê?
- Porque fizeram asneira! Porque soltaram o legítimo Castro Malta e a legítima cúmplice do Castro, e ficaram aí com uma pobre desmiolada, que nada tem com o negócio!
- Como?! Explique-se!
- Ora! Fizeram-na bonita! A mulher que os senhores soltaram é minha esposa, é a legítima amante do legitimo Castro Malta; a outra, coitada! é minha sogra, uma douda, cujo crime único foi meter-se com um boêmio que a estas horas deve ainda estar deitado em minha cama, a digerir uma ceia que lhe dei ontem.
- Perdão! - volveu o empregado policial. - Perdão! O senhor não pode ter em casa o amante da velhusca que ainda cá está presa, porque esse desgraçado foi daqui muito mal para a Misericórdia, morreu, e enterrou-se hoje pela manhã.
- Engana-se, quem se enterrou foi o verdadeiro Castro Malta, o amante de minha mulher, aquele que fora para aqui recolhido com uma rapariga morena, de olhos pretos e cabelos lisos, isto é, com minha esposa! Ora essa!
- Pois eu lhe vou mostrar o que prova que o homem da velhusca morreu e está enterrado na sepultura nº.... Ora espere! Posso até lhe dizer o número da sepultura...
- É inútil - observei. - É inútil. Sei donde parte o seu engano e receio, tentando esclarecê-lo, tornar mais embrulhada toda esta história.
- Não! Se há novos enganos, convém pô-los a limpo. Fale, fale por quem é, meu amigo.
- Pois então saiba que o sujeito, que foi na qualidade de defunto para o Cemitério de São Francisco, não era um cadáver.
- Como assim?
- Estava perfeitamente vivo.
- Impossível! Pois se ele foi enterrado hoje, às nove horas da manhã, e aqui estão os documentos.
- Não foi a ele que enterraram. Foi ao outro.
- Que outro?
- O tal Castro Malta, aquele que um dia antes fora solto com a mulher que o acompanhava.
- Mas, como?
- Muito facilmente.
E eu contei ao empregado da Casa de Correção o que assisti no cemitério.
- Jesus! - exclamou ele depois. - Que trapalhada, minha Nossa Senhora! Que trapalhada! Como diabo agora poderemos sair desta?...
- É exato! - confirmei. - O negócio está malparado!
- Quer saber de uma cousa? - acrescentou o empregado. Faça-me um obséquio - não toque nisto a pessoa alguma. Finja que não sabe de nada! Se não se der uma palavra sobre o caso, ninguém descobrirá a verdade e a história cairá no esquecimento! Que importa um Castro Malta de menos ou de mais? Se não está enterrado o verdadeiro, foi alguém enterrado por ele. Tanto valem seis como meia dúzia! Ao passo que, se formos a mexer nessa embrulhada, a cousa pode complicar-se cada vez mais e redundar em prejuízo de todos nós. Promete que não dará uma palavra sobre isso?
- Prometo.
- Bem. Nesse caso vou falar ao Chefe para pôr na rua a velhusca, e fica terminada a questão.
Coitado! Mal sabia ele que então é que ela, a questão, ia deveras principiar!
Minha sogra, logo que se pilhou solta, jurou que havia de vingar-se daquela maldita Polícia, que, sem mais nem menos, lhe arrancara dos braços o homem amado e, segundo ela supunha, mandaram-no para a Misericórdia e daí para o cemitério - morto.
- Ah! Isto não há de ficar assim! - bradava Dona Leonarda, quando me encontrou por acaso na rua. - Isto não há de ficar assim! Pois então prende-se a gente deste modo, e deste modo se dá cabo de um homem! A quem me hei de dirigir sei eu! Tenho alguns conhecidos na imprensa, graças a Deus! E meu compadre Quintino há de mostrar-lhes de quantos paus se faz uma canoa! Hão de ver o bom e o bonito! Súcia de trapalhões!
E, como verificará V.Sª. pela seguinte carta, não era debalde que o demônio da velha dizia aquilo.
Sou de V.Sª.
Atº. Crº. e ven.or
***
Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br