- Olha a Leonília apaixonada! exclamou o Aguiar rindo muito.
- E por que não? perguntou ele a encará-lo firme. Por que não? Julgas que sou incapaz de um sentimento nobre e desinteressado?... Pois olha, filho, queres que te diga? No dia em que abandonei o meu banqueiro estava em véspera de receber das mãos dele alguma coisa que eqüivale a tanto como o que possuis, e não foi por isso que não o mandei passear, logo que entendi que o devia fazer!
- Ah! todos sabem que tu és mulher caprichosa...
- Caprichosa, não! Sou apenas mulher! Tenho coração, tenho nervos! Quando adoro um homem, sou capaz de tudo por ele, de tudo! compreendem? de tudo! Ainda que tivesse de quebrar todas as conveniências como quem quebra isto!
Assim dizendo, tinha arrancado do pescoço o seu colar e arremessava-o partido sobre a mesa.
Teobaldo compreendeu a intenção com que isso fora feito, e lançou sobre ela um olhar de ameaça.
- Que significa esse olhar? perguntou a cortesã. Não o compreendo.
- Tanto melhor para mim! disse o moço esvaziando o copo - porque não tenho a menor necessidade de ser compreendido por quem não o merece!
- Sempre o mesmo orgulho e a mesma vaidade! replicou Leonília.
- Ah! volveu aquele, rindo com desprezo. Estás à beira da praia e julgas-te em pleno oceano! Meu orgulho! conhecê-lo-ás depois, se te passar pela fantasia a idéia de experimentá-lo!
- Então! então! reclamou o Aguiar, nós não estamos aqui para discutir questões dessa ordem. Perante a pândega somos todos iguais. Faço anos e exijo que se lembrem um pouco de mim! Ainda não me fizeram um só brinde!
Leonília soltou uma risada e disse voltando-se para o festejado:
- Desculpa, filho, mas já não me lembrava que te devo o obséquio de teres feito anos hoje.
- Não repares, acrescentou Teobaldo, batendo com o seu copo no do outro rapaz. E - bebamos à tua saúde! - para que nunca te arrependas de tuas teorias sobre o dinheiro!...
- Obrigado! respondeu Aguiar, mas consente que eu te diga uma coisa com franqueza: Eu não faço anos hoje!
- Como assim?
- Perdoa-me, mais tarde o saberás!
Teobaldo olhou para o amigo, depois para Leonília e afinal sacudiu os ombros.
Já haviam comido a sobremesa e dispunham-se a tomar café, quando aquele deu por falta do Aguiar e da rapariga que este convidara para seu recreio.
- Para onde teriam ido? perguntou ele a Leonília.
- Foram-se embora. Chega-te mais para mim e ouve o que te vou dizer.
Teobaldo obedeceu.
- Sabes? disse da. Este jantar foi uma cilada que te armei; eu, só eu, podia fazer com que o Aguiar se achasse na intimidade em que o viste com aquela rapariga; em troca, ele empregou os meios para te arrastar até aqui.
- De sorte que eu servi de divertimento a vocês ambos?... Servi para objeto de especulação, fui negociado!
- É exato, respondeu ela, e creio que não levarás a tua birra ao ponto de me deixares aqui sozinha, em um hotel!...
- Mas por que não procederam de outro modo?
- Porque já te conheço e tenho plena certeza de que só assim havias de vir.
- E, se por gosto eu não teria vindo, para que obrigar-me então a vir à força?
- Porque antes assim do que nada. Para o amor todos os meios são bons.
- Pois saiba que errou nos seus cálculos, disse Teobaldo, indo buscar o chapéu; estou disposto a acompanhá-la até à casa, mas não subirei um só degrau de sua escada.
- Por que?
- Porque, para fazer da senhora a minha amante - sou pobre demais, e para ser o seu amant de coeur - sou muito rico e muito orgulhoso.
- Eu então só posso pertencer a um homem rico?
- De certo, porque é preciso muito dinheiro para comprar o luxo com que a senhora se habituou.
- Bem, volveu ela; já não precisa vir comigo. Adeus, Só lhe peço um obséquio...
- Qual?
- Vá amanhã à minha casa depois do meio-dia
- Fazer o que?
- Buscar a resposta do que acabou de me dizer
agora. Vai?
- Vou. Adeus.
Leonília saiu. meteu-se no carro e Teobaldo ainda ficou no hotel, a fumar charutos e a beber, multo enfastiado de sua vida.
Resolveu não ir, mas no dia imediato, quando deu por si, estava defronte da casa de Leonília.
Tencionava não entrar, mas uma grande confusão de vozes que vinha das salas, prendeu-lhe a atenção.
- Que diabo significa isto? pensou ele. Dir-se-ia que fazem leilão em cima.
Pelo corredor viam-se entrar e sair negros e galegos carregados de móveis; ao passo que um formigar de homens sem bigode, cabelo curto, de jaqueta, sem gravata e sem colete, enchia todos os aposentos da casa.
E" um leilão! não há dúvida!... considerou o rapaz, subindo até ao primeiro andar, e o seu raciocínio foi confirmado logo pela presença de um sujeito que, de martelo em punho, apregoava o preço dos móveis a um grupo de arrematantes:
- Vinte mil réis pelo espelho! É de graça, meus senhores! Vinte e cinco mil réis! Ninguém dá mais?.
Teobaldo, com esta música a perseguir-lhe os ouvidos, atravessou a sala e depois os quartos, até encontrar o criado que o recebera naquela noite do Lírico.
- Ah! é o Sr. Teobaldo?
- Sim, disse este.
- Aqui tem esta carta.
O rapaz tomou a carta, abriu-a e leu:
Mudei-me para Santa Teresa; agora já não tens razão para fugir de mim; espero-te, não te demores.
Tua LEONÍLIA
Vinha escrito o nome da rua e o número da casa.
Teobaldo sem ânimo de entestar com as idéias que lhe trouxe a leitura dessas poucas palavras, desceu à rua e, quase que maquinalmente, foi seguindo a indicação do bilhete.
Chegou às três horas ao lugar marcado; era uma casinha nova, muito modesta e pequenina, escondida entre meia dúzia de árvores e coberta de trepadeiras, que lhe davam um aspecto encantador.
Ele atravessou o pequeno jardim e bateu.
Leonília veio em pessoa abrir a porta.
Não parecia a mesma, tal era a transformarão porque passara; até a sua própria fisionomia parecia outra.
Trazia um singelo vestidinho de chita, apertado à cintura, que mal deixava perceber uma pequena parte do colo; os braços, porém, mostravam-se livres por entre a largura das mangas e o cabelo, enrodilhado sobre a nuca e seguro por um simples pente de tartaruga, já lhe não caía na testa como dantes, mas ao contrário dividia-se-lhe em dois bandós naturais fazendo ver uma fronte cor de mármore, cujos sutis reflexos de ouro mais pálida a torravam.
Por únicas jóias trazia ao pescoço a medalha que lhe dera Teobaldo e no dedo anular da mão esquerda uma aliança de casamento; em vez de caprichosos sapatos de peito aberto e grande salto, que ela até aí usava, tinha agora uma honesta botina, preta, de duraque, apenas guarnecida por um laço de fita da mesma cor.
O filho do barão, ao vê-la assim tão outra, ficou longo tempo a contemplá-la. perguntando com o gesto que significava aquela transformação.
Ela, em resposta ao pensamento dele, sorriu e disse, indo colocar-se-lhe ao alcance dos lábios:
- Estás satisfeito?
- Eu?
- Sim, creio que não poderás dizer agora o que disseste ontem.
- Mas tu és doida?... Não te compreendo, filha.
- Isto quer dizer que em resposta à tua frase de ontem, resolvi separar-me de tudo que me prendia ao passado; vendi o carro, a mobília, as jóias, as roupas, e, com o produto dessas coisas, suponho que terei um pequeno fundo de reserva para o dia em que me abandonares.
E passando-lhe o braço no ombro:
- Aqui nada há que te possa fazer corar!... Nada disto foi pago ainda e não o há de ser sem ordem tua; também é tudo tão pouco que não tens que recear pela despesa...
Ficaram ambos calados por um instante.
- Vem ver a casa comigo, disse ela afinal, puxando-o brandamente para fora da pequena sala. É um verdadeiro ninho de noivos pobres... Aqui tudo é simples quanto pode ser: mobília americana, louça de família... Vês?... tenho até uma máquina de costura...
Teobaldo olhava para tudo aquilo, como se assistisse à representação de uma comédia; afigurava-se-lhe que, uma vez caído o pano do teatro, Leonília tornaria logo ao primitivo estado.
- Então? perguntou esta, - não me dizes nada? Ficas assim, mudo, como se nada disto te interessasse?.
- É que ainda não voltei a mim, filha. Estou pasmo!
- Pois então prepara-te para ouvir o mais extraordinário: do princípio do mês que vem em diante vou trabalhar em casa do Gabardan.
- Que Gabardan?
- Aquele cabeleireiro da rua Direita.
- Tu?
- Sim. Meu pai, que era francês como já sabes, foi o primeiro cabeleireiro aqui da corte; eu aprendi a trabalhar com ele e, até o dia em que lhe fugi de casa, tinha as honras da sua primeira discípula; ninguém me excedia na oficina!... E juro-te que, se voltar ao serviço, hei de sair-me tão bem ou melhor do que nesse tempo! Ah! não calculas! eu fazia muito mais do que todas as minhas companheiras e apresentava sempre trabalho muito limpo; já ganhava um belo ordenado!
- É admirável! respondeu o rapaz.
- Ora, prosseguiu Leonília, o Gabardan há muito que me fala em entrar para a casa dele; hoje lhe mandei dizer que aceito e, do princípio do mês que vem cm diante, é natural que...
- De sorte que tencionas fazer uma completa regeneração...
- Só depende de ti...
- É por conseguinte uma regeneração por meio do amor?
- Não! O amor servirá apenas para dar o primeiro impulso; depois o interesse e a ambição se encarregarão do resto.
- A ambição?
- De certo; trabalhando com vontade, é natural que apareçam lucros e com estes a febre de prosperar. Então, todo o meu ideal será ter uma boa casa, uma firma bem acreditada, um capital seguro e, para conseguir tudo isso, é indispensável uma conduta exemplaríssima; é necessário que não possam dizer a mais pequenina coisa contra mim. Compreendes?
- Sim, senhora; o plano é engenhoso e faz honra ao teu espírito, mas convém saber se terás bastante energia e bastante perseverança para realizá-lo...
- Não me conheces!
- Oh! se conheço!... Vocês, pobres filhas do vicio, são como os ingleses: por mais que viagem, por mais que se demorem nos países estrangeiros, tem sempre o sentido, a alma e o pensamento voltados para a pátria! Veio-te agora a fantasia de dar um passeio pelo amor, mudaste de roupa, tiraste as jóias, tomaste para disfarce esse modesto vestidinho de chita, e desferiste afinal o vôo; mas, se quiseres falar com franqueza, hás de confessar, minha querida, que a tua alma não se prende a esta pobre casinha sem espelhos, sem tapetes e sem as fosforescências do luxo; tua alma ficou lá donde partis-te! Apenas trouxeste a imaginação para uso da viagem! Eu seria capaz de apostar a cabeça em como a tua primeira idéia, quando resolveste fazer tudo isto, não foi o amor, nem a ambição, mas pura é simplesmente calcular o efeito que semelhante fantasia iria produzir sobre as tuas companheiras e sobre os teus admiradores!... - Que dirá fulana quando souber?... Que dirão fulanos e beltranos?... Com certeza hão de achar-me original, caprichosa, uma verdadeira heroína de romance..." E, se manhã suceder que as tuas companheiras e os teus amantes, em vez de enxergarem na tua regeneração uma fantasia original, entendam que te regeneraste por necessidade, que te fizeste sóbria e modesta por já não poderes ser extravagante e opulenta; se eles julgarem assim, filha, juro que a tua mal-entendida vaidade de cortesã despertará furiosa, e então tu, para provares que não és inferior a nenhuma das tuas competidoras, voltarás fatalmente ao primitivo estado!
- Cala-te!
- Ah! bem sabes, minha Leonília, que as recaídas são sempre muito mais perigosas do que a própria moléstia!..
- És cruel!
- Não; sou apenas sensato!
- E de que pretendes me convencer com a tua sensatez?
- De que não acredito em semelhante reabilitação!
- Nem no meu amor?
- Nesse acredito. Não que ele dure muito tempo, mas acredito que ele exista agora. Toda a mulher ama sempre; algumas dedicam-se a um só homem durante a vida - são as constantes; outras gostam de variar - são as do gênero a que pertences. Mas, no fim de contas, todas elas amam, naturalmente, sem esforço, por uma fatalidade orgânica, sem haver nisso outro mérito mais do que se obedecessem a qualquer uma das funções fisiológicas do seu corpo.
- Pois então no amor que te consagro, cujas provas reais acabo de dar-te, pão há mérito algum?...
- Não digo isso, filha! há um mérito relativo no que acabas de fazer; apenas sustento que o amor, qualquer que ele seja, não me causa entusiasmo nem admiração de nenhuma espécie. Se não me amasses, amarias a outro; amas-me, não porque eu seja forte, inteligente ou bom. mas sim por uma razão multo simples - porque és mulher! O caso seria para espantar. se em vez de te apaixonares por mim, te apaixonasses por uma estatua ou por uma árvore ou por um elefante ou por esta bengala!
- Enganas-te! Amo-te, não pelo simples fato de ser mulher. mas porque tu reúnes em ti todos os dotes que nos seduzem; és nobre e altivo como um príncipe; és forte e corajoso como um homem; és belo como uma estátua; original como um gênio; e espirituoso como um parisiense; e tudo isso reunido: força, altivez, beleza, espírito e 0riginalidade, tudo Isso é o que eu amo e o que faz de mim a tua escrava!
- Logo, se eu fosse feio, estúpido e fraco, não me amarias?
- Não, decerto.
- E é esse amor que entendes tu, deve me entusiasmar?... Tem graça'
- Por que?
- Nada conheço mais egoístico, mais buxo e mesquinho do que semelhante amor! No fim de contas não é a mim que amas, é a ti própria; não é a mim a quem pretendes contentar, é ao teu próprio gosto, e ao teu próprio coração! Se te sacrificas por mim, se me preferes a tudo e a todos, não é porque eu goze muito com isso, mas sim porque tudo isso é necessário para a tua felicidade; e se me desejas o bem, é ainda para que a minha ventura se reflita sobre ti; é para que tu a possas desfrutar, para que a possas saborear com delícia!., Não achas que isto é exato?...
- E conheces porventura algum amor que não esteja nessas condições? perguntou Leonília. Olha em terno de ti; procura em todos os corações um amor que não tenha sempre por base o mesmo egoísmo!
- O amor materno... respondeu Teobaldo, transpondo com a amante o portão da chácara e indo assentar--se ao lado dela sob um caramanchão. A mãe ama sempre o filho, seja este feio, estúpido ou mau.
- Mas só ama o próprio, o seu, é esta idéia de propriedade só por si é já egoísmo. Vai dizer a qualquer mãe que faça pelos filhos dos outros o que a natureza lhe inspira por aquele que lhe saiu das entranhas; ela te responderá que "quem pariu Mateus que o embale". E se há uma dedicação sem a menor sombra de altruísmo é essa justamente, porque a mãe nunca ama o filho pelas qualidades que ele possui, mas tão somente porque ele é uma continuação dela, porque ele é um pouco de sua carne e porque é a conseqüência palpitante, por bem dizer a personificação do amor de quem a possuiu. No filho ela se vê a si e vê também o homem a quem amou; isto é, vê todos os gozos, todas as egoísticas venturas de que há pouco falavas; e, meu amigo, se penetrares no âmago de todas as outras afeições, hás de sempre encontrar lá dentro a mesma mola feita de egoísmo.
- E o amor filial?
- Não existe.
- Como não existe?
- Não existe, porque o amor filial é a convivência, é o hábito, é o primeiro beijo que recebemos, é a canção que nos embalou o berço, é a lágrima que se juntou à nossa primeira lágrima, o sorriso que se fundiu com a nossa primeira alegria e, mais tarde, é a recordação de tudo isso! Separa ao nascer um filho dos braços maternos e dir-me-ás depois qual é o amor que ele sente pela mãe. E assim são pouco mais ou menos todos os afetos; uns amam para gozar, outros por hábito, outros simplesmente por necessidade.
- Estás iludida, replicou Teobaldo, acendendo um charuto. Eu, pelo menos, tenho em minha vida uma afeição que se constituiu sem o concurso de nenhuma dessas circunstâncias; tenho um amigo, cuja única boa qualidade que possui e que me leva a estimá-lo, é ser bom; bom, não só para comigo, mas para todos, todos, seja lá quem for!
- Um amigo?
- Sim, o Coruja; não o conheces e bem provável que não chegues nunca a conhecê-lo.
- Por que não?
- Porque ele teria medo desse teu espírito diabólico e profanador. É uma alma imaculada, que se retrai e fecha ao mais leve rumor de tudo que é feliz, espetaculoso e barulhento, com a mesma facilidade com que se abre para tudo aquilo que chora e sofre. É uma triste criatura que vive silenciosamente para a dedicação e para o amor. Tanto é capaz de sacrificar-se pelo bom, como pelo mau; um estúpido ou um gênio, uma mulher monstro ou uma mulher encantadora, todos lhe merecem a mesma ternura, desde que há uma lágrima a estancar ou a mais ligeira sombra de sofrimento a desfazer. É capaz de despir o paletó para cobrir um cão que tem frio, e fica triste se em sua presença decepam uma árvore qualquer.
- É um santo, disse Leonília, a rir.
- Não, volveu Teobaldo; é simplesmente um homem feliz.
E, depois de descrever o tipo do amigo:
- Tenho inveja dele. Confesso.
- Tu?!
- Sim; tenho-lhe inveja...
- Ora essa!...
- Calculo quanto não gozará ele com ser tão dos outros e tão pouco de si mesmo; calculo a infinita volúpia da sua abnegação; o prazer supremo de não ter um vício, a consciência de não ter cometido uma ação má durante toda a sua vida.
- Há de haver um pouco de exagero de tua parte...
- Qual! Não disse a metade do que ele é...
- Que entusiasmo! Parece que o estimas mais do que a mim!...
- Pudera! resmungou o rapaz, disposto a continuar o elogio do Coruja; mas foi interrompido pelo criado, que os chamava para jantar.
Teobaldo tinha as vezes dessas expansões; dava para discorrer com entusiasmo sobre alguém que na ocasião o impressionava; ao passo que no dia seguinte seria capaz de fazer o mesmo por uma pessoa completamente oposta.
Do meio para o fim do jantar, jantarzinho de hotel, porque nesse dia ainda não se havia acendido o fogão da casa, ele se mostrou menos pessimista a respeito do amor das mulheres e mais disposto a corresponder com os carinhos ao sacrifício de Leonília; entretanto, quando esta lhe falou em viverem juntos, Teobaldo protestou energicamente
- Não! Isso não era possível!
Ele tinha lá as suas aspirações, precisava fazer carreira e não estava resolvido a começar com o pé esquerdo.
- És um ingrato!... queixava-se ela, enxugando as lágrimas. És um ingrato! Até aqui fugias de mim, Porque eu não era só tua; pois abandono tudo, venho meter-me neste canto e tu, mesmo assim, declaras abertamente que não queres morar comigo!... Oh! isto também é demais! Já passa à maldade!
- Não, filha; é impossível morarmos juntos! Não posso. Hei de aparecer-te de vez em quando, sempre, talvez todos os dias, mas...
- És um homem mau, um egoísta.
E multiplicaram-se as recriminações. Afinal Teobaldo, apesar do firme propósito em que estava de muscar-se depois do jantar, resolveu não ir; ficou.
- Também que diabo! seria crueldade deixá-la ali, naquela casa, em companhia de um criado admitido na véspera.
E de mais, pensava ele, que posso eu recear?... Quando a coisa se torna perigosa, mando-a plantar batatas!
Voltou de lá As três horas da tarde do dia seguinte.
- Mais um dia perdido! considerava ele amargamente ao entrar em casa já ao cair da noite e depois de ter jantado em companhia de amigos.
Ainda no corredor foi detido pelo Coruja, que lhe disse com reserva:
- Acho bom que não subas agora! Aquela sujeita do Almeida, a Ernestina, está aí A tua espera. Não subas!
- Está aí? perguntou Teobaldo deveras contrariado. Que diabo quer ainda de mim essa mulher?
- Não sei; diz o Caetano que ela já aí está há quatro horas.
- Ora esta! E, logo hoje, que eu precisava dormir!
- Recolhe-te mais tarde; ela talvez não se demore.
- Qual! Vou despachá-la! Verás!
E, enquanto subia a escada acompanhado pelo amigo:
- Não faltava mais nada!... Estou mesmo muito disposto a aturar mulheres!... Já me bastam as maçadas que me dão as outras! Além dela ninguém me procurou?
- Depois de eu chegar, não.
Teobaldo tinha por costume perguntar sempre se alguém o procurara na sua ausência. É que esperava que a fortuna viesse um belo dia ao encontro dele, como vinham as mulheres; era uma espécie de vaga confiança no acaso; um modo preguiçoso de desejar ser feliz.
Assim, quando pilhava dinheiro, arriscava algum na roleta ou na loteria.
Foi de mau humor que ele entrou na sua pequena sala, abriu a porta com um empurrão e dirigiu-se de cara fechada para a rapariga, que o esperava.
- Teobaldo! exclamou esta, querendo lançar-se-lhe nos braços.
- Perdão! disse o perseguido, afastando o corpo. Não estou disposto a dar abraços; venho incomodado. Faça o favor de dizer o que deseja, mas que seja breve!
- Oh! não te reconheço! Não pareces o mesmo!...
- Diz muito bem! Eu com efeito já não sou o mesmo. Grandes transformações se deram na minha vida. - Adiante!
- Compreendo; é que amas a outra!
- Ai, ai, ai, minhas encomendas! gritou o rapaz, sem poder dominar a impaciência. Teremos ainda discussões sobre o amor? Mas, minha senhora, há uma porção de dias que não ouço falar em outra coisa! Estou farto! o que se pode chamar farto! Oh!
Ernestina pôs-se a chorar.
- Então, então! resmungou ele; deixe-se de asneiras e diga o que a trouxe.
- Ah! já não me posso iludir; amas a outra!
- Engana-se! Não amo mulher alguma!
- Nem a mim?
- Mas que lembrança foi essa a sua de vir aqui? Há mais de dois anos que nos separamos, creio que sem protestos e sem juramentos!... E vê-la assim, sem mais nem menos, tirar-se dos seus cuidados e...
- É que então eu não era livre, não podia acompanhar-te: vi via meu marido!
- Marido?
- Sim. O Almeida afinal enviuvou, casou-se comigo, e três meses depois faleceu nos meus braços.
- Que não casasse... respondeu Teobaldo, rindo.
- És cruel!
A mesma frase da outra, pensou ele, com um suspiro de tédio.
Ernestina circunvagou os olhos em torno de si, para certificar-se de que estava a sós, e acrescentou:
- Um dia ofereceste-me a tua proteção, não é verdade? Venho reclamá-la...
- Sim, mas é que os tempos se mudaram; já não tenho com que proteger ninguém, nem a mim mesmo! Estou na espinha!
- Teobaldo! eu não vim pedir-te esmola!
- Então diga o que veio pedir.
- Vim em busca de amor! Para esquecer-me de ti fiz o que era possível; nada consegui e cá estou, disposta a afrontar o último sacrifício, contanto que fique ao teu lado. Amo! e, dizendo isto, tenho dito tudo!
- Sim?... perguntou o rapaz, apertando os olhos. Mas não me fará o obséquio de dizer que culpa tenho eu disso?
- Não sei; amo-te, e nós, as mulheres, quando amamos deveras, somos capazes de tudo!
- Pois se é capaz de tudo, veja se consegue deixar-me em paz!
- Menos isso!
- Pois, olha, filha, custa-me a confessar, mas acredite que estou em uma tal situação que não me é possível absolutamente pensar em mulheres. Não imagina! Acho-me com a vida muito atrapalhada; falta-me tempo para tudo; os dias fogem-me por entre os dedos como se fossem minutos. Se a senhora é minha felicidade, não queira ser a primeira a criar-me novos obstáculos. Já tenho tantos!
- Não! Quero apenas saber se amas a uma outra mulher.
- Não! já lhe disse que não, e acrescento que se não amo, é porque não posso, é porque não tenho jeito, não tenho tempo, e é porque agora me faltam recursos para isso! Está satisfeita?
- Pois, se não amas a outra, juro-te que hei de, A força de dedicação, fazer-me amada por ti! Verás!
- Aconselho-lhe que não tente semelhante coisa! Perderia o seu tempo! O que não falta por aí são rapazes em muito melhores circunstâncias do que eu. Experimente e verá!
- Mas se só a ti desejo e amo? Se ninguém é belo, forte, inteligente como tu?
- Sempre a mesma cantiga! exclamou Teobaldo. Malditos dotes! Afinal, preferia ser mais feio do que o Coruja!
- Não blasfemes!
- Qual blasfemes, nem qual histórias! Quer saber de uma coisa? Errou a pontaria. Veio buscar amor? Pois bem - não há!
E, passeando de um lado para outro furioso:
- Oh! oh! é demais! Não tenho obrigação nenhuma de aturar isto! Apre!
Ernestina defronte daquele transbordamento de cólera, principiou a soluçar, dizendo que era a mais desgraçada das mulheres; que amava um homem que a tratava daquele modo, e, enfim, que - se Teobaldo não estivesse disposto a ser mais generoso, ela daria cabo da vida.
- Faça o que entender, minha senhora!
- Tu serás a causa. de minha desgraça!
- Paciência!
- Malvado!
- Não acho! A senhora é infeliz porque me ama; não me amasse!
Ela então lançou-lhe os braços em volta do pescoço e abriu a dizer entre beijos:
- Não! não é possível que sejas tão mau! Sei que dizes tudo isso para me experimentar! Amo-te, adoro-te! Estou disposta a afrontar tudo!
Teobaldo desembaraçou-se das mãos dela grosseiramente, foi buscar o chapéu, enterrou-o na cabeça e saiu, dando-se aos diabos.
A pobre rapariga, depois do esforço que fizera para dete-lo, deu ainda alguns passos, muito ofegante, até à porta e afinal caiu sem sentidos. Esta crise era promovida pelo despeito e em grande parte pela ausência do jantar.
Coruja, que no seu quarto aprontava com pressa um trabalho para o dia seguinte, ouviu-lhe o baque da queda e correu a socorre-la.
- Que significa isto? perguntou ele, erguendo-a do chão e indo depo-la sobre a cama de Teobaldo, que ficava na alcova próxima.
- Fugiu-me! disse a infeliz, abrindo os olhos e soluçando com mais ânsia; - fugiu-me, depois de dizer que não me amava e que nunca me amaria!
- Pois ele disse isso!... murmurou André, sem saber o que devia fazer, muito perturbado com aquelas lágrimas e com aquele desespero.
- É um ingrato! É um homem mau! exclamava ela nas curtas intermitências do choro. É um malvado.
- Veja se consegue ficar tranqüila... aconselhava o professor a acarinhá-la. Faça por isso...
E, com uma idéia:
- Mas, agora reparo, a senhora está aqui há um bom par de horas e naturalmente precisa comer. Vou arranjar-lhe qualquer coisa.
- Não se incomode.
- É que por essa forma a senhora ficará pior. Vamos, procure tranqüilizar-se enquanto lhe arranjo a ceia.
Ela aceitou afinal e o Coruja afastou-se.
No fim de um quarto de hora voltava ele com uma bandeja nos braços.
- Veja se consegue sempre meter alguma coisa no estômago, dizia a arranjar a mesa; eu lhe farei companhia. Vamos.
Ernestina arrastou-se ainda muito chorosa até à mesa e, entre suspiros, principiou a comer. O Coruja ao seu lado desfazia-se em solicitudes, sem aliás conseguir animá-la.
- Oh! mas é que dói muito semelhante ingratidão! exclamava ela com a boca cheia. Um rapaz, por quem eu seria capaz de dar a vida, tratar-me deste modo, dizer-me cara a cara o que me disse e, afinal, sair como saiu, desprezando-me, nem que se eu fosse um cão tinhoso!
- É que ele estava hoje de mau humor, coitado! arriscou André. Há de ver que amanhã já a tratará de outro modo...