- O melhor é perguntar. O que fazias tu na rua do Conde por aquelas horas da noite? D. Bias, então, sentiu uma grande necessidade de expandir-se, de dizer a verdade toda inteira àquele homem que ele se habituara sempre a temer, que o dominava com todo o prestigio da sua força, e que estava ali, defronte dele, a crestá-lo com a chama insistente do seu olhar de fera.
E disse tudo. Disse como d. Pedro o chamara para uma empresa amorosa, como eles se tinham ido postar diante da casa de Branca, como o tinham visto a ele, Satanás, entrar e sair, como tinham entrado depois, como tinham garrotado e amordaçado d. Emerenciana, como o príncipe subira e estivera lá em cima a sós com Branca como a casa tinha sido assaltada pelo valente capitão das guardas, como ele, d. Bias, tinha fugido e vindo lhe pedir socorro.
- Miserável! praguejou o Satanás.
E, para saciar logo a sua sede de vingança, para dar aos músculos nessas grandes tempestades de idéias que lhe espatifava o cérebro, o escultor suspendeu d. Bias pela cintura e atirou-o com durindana e tudo para o meio da sala.
Depois saiu, possesso, louco de raiva, qual fera bravia em cio de vinganças.
D. Bias levantou-se, a mão aos copos da espada, numa compostura honesta de homem insultado, que exige uma reparação imediata e sanguinolenta.
- Por S. Tiago de Compostela! Os fidalgos não fazem assim! Brigam lealmente e não fogem como este Satanás de todos os infernos.
Lá fora Pallingrini foi-se acalmando com a frialdade da noite.
O vento caía-lhe sobre as faces como uma ducha, chamando-o à realidade da vida. E ele fez-se mais quieto, diminuiu o passo, que trouxera acelerado até então, e pôs-se a meditar.
Queria uma vingança, vingança completa, vingança de italiano.
Branca! Ela deveria estar em poder do príncipe. E era preciso reavê-la. Para isso não havia brutalidades e violências que produzissem resultado. Ele tinha necessidade de fazer-se manhoso e hipócrita. D. Pedro seria agora o seu mestre. Ele soubera tão bem compor a fisionomia traidora e fazer-se amigo e confidente naquela recente viagem a Santos, que bem valia a pena imitá-lo.
E, depois... depois, quando à força de vigilância e de astúcia ele tivesse descoberto o esconderijo onde o príncipe lhe guardava a filha, quando tivesse abraçado Branca, quando readquirisse a posse daquele amor imaculado e puro, ideal e santo de pai, depois... viria a luta, luta de gigantes, para a qual ele traria toda a energia do seu temperamento e toda a audácia nunca desmentida do seu viver.
Não lhe bastava a morte de d. Pedro. D. Pedro era valente. E, para ele, a morte era apenas esse fatal desenlace da vida que não assusta aos fortes e que o homem procura muitas vezes.
Para que matá-lo?! Embora o horóscopo fatídico da cigana aí estivesse a dizer que um dos dous devia morrer pela mão do outro, ele não queria matar o príncipe. Queria-o miserável e vencido, morto no seu orgulho, arrastando uns dias infaustos de vilipêndio, martirizado por essa angústia de abatimento que é o suplício dos fortes.
E, horrivelmente calmo, como o espetro sinistro das vinganças, ele cortou as trevas da noite com um gesto largo de ameaça.
X PARA VINGAR O Satanás vivia infeliz nas suas pesquisas para descobrir o paradeiro de Branca. Por mais que se fizesse a sombra de d. Pedro, por mais que o seguisse em todas as costumeiras migrações noturnas, por mais que se lhe pusesse debruçado sobre o espírito a acompanhar-lhe a sucessiva eclosão de idéias, não conseguira nunca descortinar um bocadinho desse mistério, que ficava para além sepulto no abismo apavorante dos segredos.
Vinham-lhe por vezes dúvidas, suspeitas de que d. Bias tivesse mentido, vontade de sujeitá-lo a um novo inquérito, planos de prendê-lo e de arrancar-lhe a verdade até mesmo pela tortura.
Mas d. Bias desaparecera. Ninguém mais o encontrava, nem lá na bodega do Trancoso, nem pelos outros lugares por onde ele gostava antigamente de passear a sua longa durindana ferrugenta. Fizera-se caseiro. E, ali nos fundos do convento do Carmo, enlevava-se todo no amor da sua encarcerada, contente da vida, porque a Domitila nada resolvia sobre a infeliz louca, porque davam-lhe bom repasto, e porque estava a seguro de um encontro com o escultor.
Falto dessas informações, desse caminho único para a descoberta da verdade, o Satanás tinha também, por vezes, ímpetos de interpelar o príncipe, de ir diretamente a ele para a luta suprema das vinganças paternas. Aproveitaria o ensejo de uma alta noite, naquela hora em que os dous costumavam estar sozinhos, e em que o vinho e a mulher fazem a palavra expansiva e franca, volutuosamente escorregando pela língua para o diálogo amigável das confissões. E então seria brutal, violento como um pai ultrajado que se arma com a plenitude dos seus direitos e com o instinto das suas obrigações.
Oh! ele bem saberia ritmar a grande vibração sonora das suas reclamações e dos seus discursos, ele bem saberia como falar com a voz repassada de confrangimento, pontuada de gritos e de imprecações. Para isso bastava que deixasse transbordar toda inteira a dor sofrida que lhe ia na alma.
Mas não convinha. D. Pedro não se sujeitaria a ouvi-lo, e nem tinha remédios para curar-lhe o sofrimento, porque não há bálsamo que chegue para suavizar a ferida feita nesse amor de pai, imaculado e puro, divinal e casto.
Por isso, ele, Satanás, queria a vingança.
Os sucessos políticos, cuja confidência lhe era diariamente feita e em que andava completamente envolvido, vinham servir-lhe, a mais não ser, nessa obra sinistra de vinditas que estava longamente planejando. Eles eram a apoteose do príncipe que o povo aclamava; podiam tornar-se a derrota do seu orgulho e a morte para sempre da sua individualidade sepultada nas trevas de um cárcere.
E o Satanás sonhou primeiro com a reação portuguesa. As tropas lusitanas ainda estavam aqui, luzidias e valentes, bem afamadas na disciplina e respeitadas pelo povo.
Bem certo que Jorge de Avilez quietava-se irresoluto, não sabendo que partido eleger, receoso de optar entre as cortes e o príncipe herdeiro de Bragança. Para determiná-lo a uma reação pronta e imediata, o Pallingrini teve então uma dessas idéias diabólicas, que só a ele podiam acorrer. E numa carta incisiva que dirigiu ao general português, narrou a história de uns amores de d. Pedro, que tinha penetrado até a câmara nupcial do tíbio comandante lusitano.
Este, ferido em seus brios e em sua honra, louco de dores, preparou-se então para reagir. Mas abortou logo em princípio o movimento que projetara. A milícia, principalmente a milícia de Niterói, cercou a divisão lusa e obrigou-a a capitular e ir aquartelar-se na Armação, até que se aprestassem vapores para recambiá-la para a Europa.
O Satanás tratou então de aproveitar os elementos nacionais que se congregavam em torno da Sociedade Tenebrosa do Apostolado, e que desde o começo fundamentara o dogma do nativismo.
Aí iniciado, ele tornou-se um dos maiores propugnadores da idéia, tratando de aliciar adeptos e enredando o Rio de Janeiro numa vasta conspiração, a que faltava apenas um chefe, com coragem e audácia para fazer a Independência de uma só vez e completamente.
O seu principal trabalho, porém, trabalho surdo de alcoviteiro que intriga e sabe o segredo amoroso da alma humana, foi a rivalidade que estabeleceu entre a Domitila e a irmã. Dessa luta de mulheres que lutavam dentro do coração do príncipe, devia necessariamente resultar a devastação do campo de batalha.
E era isso o que ele queria, isso o que esperava como primeiro suplício na senda tormentosa de desgraças que estava preparando ao régio boêmio de Bragança.
D. Pedro era o Archonte Rei do Apostolado. Chefe supremo da poderosa sociedade, fora nela que encontrara o mais sólido apoio para as suas ambiciosas pretensões. E mal podia ele imaginar que dali mesmo partiria o primeiro golpe contra o seu poder.
Foi a própria Domitila quem o preveniu do perigo. D. Bias, que, temendo o Satanás, o considerava inimigo, começou também a freqüentar as sessões da Sociedade Tenebrosa e chegou ao conhecimento da trama que se urdia. A Domitila, possuidora do segredo, não hesitou: mais do que o seu despeito de amante enganada pôde o seu amor e pôde a sua ambição. Contou tudo ao príncipe.
Dai a dous dias, o Apostolado devia reunir-se em sessão magna.
O príncipe dispôs-se a golpear de morte nesse dia a instituição que o queria prender.
Foi numa segunda-feira. As sete horas da noite, ninguém diria, ao passar pelo velho quartel da Guarda Velha, que havia ali uma reunião de mais de quinhentas pessoas das mais altamente colocadas da política, do exército e do povo. A casa estava às escuras, com todas as janelas fechadas.
De quando em quando, um vulto chegava, embuçado, e batia três pancadas à porta. A porta abria-se, e o vulto entrava, perdendo-se no corredor escuro, depois das palavras sacramentais do santo e da senha.
- S. Pedro! - Amor e Fidelidade! A sala de sessão ficava ao fundo da casa. Chegava-se lá depois de percorrer três longos corredores, através do quartel.
Era uma enorme sala, toda forrada de tapeçaria negra e iluminada apenas por um enorme lustre negro que pendia do teto, e onde ardiam dezenas de velas. Ao fundo erguia-se um estrado, onde duas largas cadeiras e uma pequena mesa esperavam o Archonte Rei e o acólito. Sobre o estrado, no fundo negro da parede, destacava-se, bordado a vermelho, o símbolo da sociedade: um triângulo, cercado por uma facha, onde se lia - Soc. Ten. do Apos. - e em cujo centro ocultava o desenho de uma espada e de um machado, cruzando-se.
As cadeiras dos camaradas estendiam-se em quatro grandes semicírculos, pela sala negra, abafada, onde a voz ecoava longamente, não achando por onde sair. E reinava em tudo aquilo um pavor, que pesava na alma...
Já quase todas as cadeiras estavam ocupadas. Todos os camaradas vestiam túnica negra, com o símbolo vermelho ao peito.
Quando o Satanás entrou, a primeira pessoa que viu, foi d. Bias.
O fidalgo espanhol era a figura mais sinistra de toda a sala. Estava a um canto, encarapitado na cadeira, com os joelhos pontudos e salientando-se na túnica, e com um eterno movimento de queixos, como se estivesse murmurando uma oração. Quem o via, pensava que d. Bias estava rezando. Engano: d. Bias estava comendo biscoitos.
O Satanás parou e deixou cair pesadamente a mão sobre o ombro do carcereiro de Branca. D.
Bias ficou pálido como um cadáver, batendo os dentes e unindo as mãos, num gesto de súplica.
Mas, o Satanás fez-lhe um sinal de ameaça e foi sentar-se no seu lugar.
Ah! não tardava muito, não tardava muito! Em breve a porta se abriria, e ele apareceria, confiado e calmo, sem esperar que daquela casa partisse a sentença da sua condenação. E quando d. Pedro - o poderoso - se visse diante daquele oceano de quinhentas cabeças, todas agitadas de ódios, todas regularmente e implacavelmente sacudidas numa negação absoluta de apoio, ele, Satanás, o fraco, o vencido, o cão rafeiro, exultaria na sua fraqueza e na sua pequenez...
Mas a hora aproximava-se. O acólito - Máximo Régulo - fora tomar o seu lugar no estrado. Um sino vibrou três pancadas, agudas e rápidas. Todos se levantaram. Um grande silêncio pesou na sala. A porta abriu-se de par em par. E, só, vestido como os outros, na túnica negra e simples de camarada, d. Pedro entrou serenamente empunhando a sua insígnia de Archonte Rei - um bastão de marfim, marchetado de ouro. A fisionomia do príncipe não revelava a menor agitação interior. Caminhou até à mesa.
- Deus te guarde, camarada! elevou-se a voz do acólito.
- Leve-te o diabo, traidor ! - soou no grande silêncio da sala apavorada a voz soturna do príncipe.
E, antes que alguém tivesse tempo de voltar a si da surpresa, d. Pedro abriu a pasta que se achava sobre a mesa revolveu os papéis, guardou-os consigo.
E, erguendo o bastão, gritou: - Saiam! XI ÀS CLARAS Quando o príncipe saiu de dissolver a Sociedade Tenebrosa do Apostolado, onde penetrara com a mesma audácia de Cromwell no parlamento inglês, o Satanás foi acompanhá-lo, já precavido de respostas contra as naturais recriminações que devia receber, desejoso de não se desligar nunca daquele cuja queda vivia preparando.
D. Pedro, sombrio e taciturno, caminhando para o Paço, apressadamente, não lhe dizia sequer uma palavra. E os dous seguiam, como nas noitadas de sempre, um ao lado do outro, muito amigos para os raros transeuntes que os viam e que deles respeitosamente se afastavam.
E, chegados que foram a régia habitação, penetraram, como sempre, por uma porta escusa, situada por baixo do passadiço que ligava o palácio ao velho convento do Carmo.
Nada, enfim, parecia indicar qualquer alteração na vida de ambos. A mesma ceia, que os esperava todas as noites, estava servida num aposento contíguo, térreo e um pouco úmido, espaçoso e cheio de armários.
Sentaram-se.
Depois da primeira libação, d. Pedro encheu novamente os copos, e, erguendo o seu, disse, maliciosamente, com um sorriso triste de homem que assistiu ao despedaçamento das próprias ilusões: - A tua amizade! Satanás.
- A nossa! - Sim. À nossa. Eu acredito na reciprocidade de sentimentos entre nós. Liga-nos um mesmo destino. E já a velha feiticeira do Valongo tinha profetizado que algum dos dous devia morrer pela mão do outro.
E acrescentou: - Mas, dize-me cá uma cousa! Por que me odeias tu? - Senhor! - Não. Não negues. Nem é próprio de ti, nem eu acreditaria nas tuas afirmações e nos teus protestos.
O Satanás fez um gesto vago e incerto de significação.
- O teu ódio! continuou o príncipe, eu o tenho sentido de certo tempo a esta parte, pertinaz e insistente sobre mim. Eu o reconheci até no teu andar e na tua voz, por essas longas noites que temos vivido juntos derradeiramente.
- Qual, senhor! Eu sou novamente vítima de intrigas. O príncipe bem sabe que foi sempre invejada a confiança que me dispensava. E agora, como das outras vezes, seja-me permitido esperar que eu saia desta aventura reabilitado, como sempre me tem acontecido, na sua estima.
- Bem vontade tinha eu que assim fosse. Tu não sabes como é triste e amargo o brusco despedaçar das amizades longamente cimentadas. Tu não sabes como faz sofrer o espetáculo da ingratidão humana.
- Mas nesse caso, basta-lhe querer, basta-lhe examinar os fatos, para reconhecer que a minha dedicação nem por um momento deixou de acompanhá-lo. Eu estava, é certo, lá no Apostolado, mas lá estava para bem servi-lo.
- Não, Satanás! Tu lá não estavas para me servir... Mas também não é essa a grande acusação que te faço, não é por isso que venho falar-te do teu ódio.
- Então! por quê? - Por quê? Mas não basta, por acaso, esse teu olhar; olhar que espeta, quando o olhar do amigo tem veludo e maciez para o repouso da nossa individualidade toda inteira? - Senhor! - Não, fez o príncipe. - Não protestes. Escuta-me.
E d. Pedro, nervoso, agitado, começou a passear pelo quarto o seu grande vulto esbelto de homem bem feito.
Depois, voltando a mesa, ele parou, um pé sobre a cadeira e o queixo repousando sobre a mão longa e fina de fidalgo. E pôs-se a olhar demoradamente para o Satanás.
Este nem se movia, impassível e quieto. Refluíra-lhe para o cérebro, numa pertinaz concentração de idéias, toda a força vital do seu querer. E estava meditando, estava procurando o desenlace desta cena que vinha perturbar-lhe a serenidade vingadora dos planos longamente projetados. Sentia por vezes ímpetos de atirar para longe a máscara da comédia, que a força das circunstâncias o obrigava a representar; desejos de ser ele mesmo nobre e altivo, como sempre fora.
Mas a imagem de Branca perpassava-lhe pela imaginação, destacando-se da treva absoluta do mistério como um pedido solene de vingança. E ele retesava os músculos na rigidez suprema da calma, porque a hipocrisia era a única arma que podia manejar contra aquele príncipe, desde o momento em que lhe não bastava a morte de um homem para fazer o sossego e a paz da sua vida, sempre condenada para a dor.
D. Pedro, porém, continuou: - Escuta-me, Satanás! Eu primeiro quero dizer-te todo o sofrimento que me vai na alma com esse fúnebre desenlace infalível da nossa velha amizade. Porque eu muito te amei. Foste tu quem me ensinou o manejo das armas, quem acordou em mim esse velho instinto belicoso e aventureiro que fez a glória dos meus avós remotos, mas que os Braganças de agora iam esquecendo no espólio da sagrada herança de família. A ti eu devo enfim ser o que sou - esse rei cavaleiro da raça de Francisco de França, que muitos Pavias podem derrear mas que sai sempre incólume, abroquelado na sua valentia para salvar a sua honra.
E o príncipe fez uma pausa longa e demorada.
- Devo-te isso tudo, acrescentou depois. - Mas tudo isso te tenho pago em confiança e amizade.
E tu, entretanto, só porque um dia eu fui roubar-te a amante, tu te fizeste mesquinho e vil, indigno da minha companhia, porque não tens coragem de lutar frente a frente contra mim, porque te embuças no anonimato covarde das conspirações.
E mais violento: - Eu posso ser amigo do meu adversário. Mas desprezo o hipócrita que maquina nas trevas.
- Pois bem, senhor! cartas na mesa, disse o Satanás levantando-se.
- E assim que eu gosto de jogar as partidas.
- Então, diga-me primeiro: onde está minha filha? - Tua filha! Quem é tua filha? - Quem é minha filha! gargalhou Satanás na sua gargalhada louca de velhas armaduras que rangiam. - Quem é minha filha! E resfolegou longamente, para continuar depois: - Miserável sedutor! hipócrita tu mesmo! mentiroso e covarde! D. Pedro avançou para o escultor.
Este deteve-o, porém, com um gesto forte de comando.
E prosseguiu: - Eu vi-te, sem desonra para ninguém, penetrar na câmara nupcial destes fidalgos. Queriam ouro e brasões heráldicos, e tu levavas-lhe uma cornucópia toda inteira para lhes satisfazer a ganância e as aspirações. Eu vi-te descer ao mais baixo dos bordéis, onde a moeda de prata chega muitas vezes para saciar os apetites de um homem. Somente houve um lugar onde eu nunca te conduzi, cuja porta eu defenderia contra os teus pedidos e contra as tuas ameaças.
Era o asilo da inocência e da candura. E foi lá que tu foste buscar minha filha! - Tua filha! Tua filha! Mas fala! Eu não te entendo.
- Covarde! Tu me dizias ainda há pouco que eu me escondia para conspirar! E que fazes agora? E que fizeste tu? O príncipe recuou dous passos, subjugado pelo olhar do Satanás.
E este continuou ainda, imprecativamente: - Sim, eu te odiava e te acompanhava, colava-me a ti como a tua sombra, porque quero saber onde ocultas a minha filha, a pálida e meiga filha dos meus amores, que todos deviam adorar de joelhos, e que tu profanas com o teu hálito envenenado de crápula.
- Mas eu não sei de tua filha, e nem sabia que ela era tua...
- Tanto te rebaixaste que chegas a mentir! Amar Branca deveria ser entretanto a purificação das almas perdidas. Aquela criança tem tanta inocência e tanta candura, que o seu amor deve chegar para o perdão de Deus caindo sobre os infernos como bálsamo caindo sobre feridas.
Mas tu, miserável que és, e miserável que nasceste! tu não pudeste te redimir nas asas brancas daquele anjo, que sempre e sempre parece remontar-se para os céus. E te acovardas, e tremes perante a voz vingadora do pai que se ergue contra ti, como a verdade possante da justiça.
- Cala-te, bradou d. Pedro. - Por Deus! Cala-te, Satanás! - Ah! tens medo de me ouvir! Tens medo que eu te escarre ao rosto toda a tua infâmia! - Cala-te, repetiu o príncipe desembainhando a espada e investindo contra o outro, cala-te! O Satanás precaveu-se a tempo e aparou o bote com a sua arma de boa lâmina florentina.
E a luta começou então hercúlea e titânica. Mestres ambos e conhecedores dos segredos da esgrima, eles digladiavam-se silenciosamente, muito calmos, na grande exuberância vital das suas paixões.
Ouvia-se apenas o estuar das respirações arquejantes.
Mas, de repente...
XII FERIDO! ... Branca apareceu à porta, com os olhos desmedidamente abertos, os cabelos soltos sobre o vestido malcuidado e roto. Muito pálida, de olheiras roxas, aparecendo de súbito na moldura da porta, a filha de Pallingrini parecia um fantasma.
Por detrás dela, percebia-se a fisionomia de d. Bias, com a pêra trêmula, oscilando no queixo, e os bigodes arrepiados por um calafrio de medo.
Assim que terminara, dissolvida pelo príncipe, a sessão do Apostolado, d. Bias fora um dos primeiros a sair. Pusera-se a caminho para o Carmo, onde Branca continuava prisioneira. E, ruas afora, d. Bias pensava nela, monologando: - Amo-a! (levantava um braço), idolatro-a (e levantava o braço), idolatro-a! (e levantava uma perna), venero-a (e agachava-se todo).
De espaço a espaço, um lampião de azeite projetava na rua uma larga toalha de luz. E a sombra de d. Bias estendia-se fantástica, desconjuntada, sacudida de gestos frenéticos, numa pantomima macabra.
- O flor mimosa! pérola divina! (punha os dedos na boca, enviando através da noite um longe beijo apaixonado) o meu peito é uma frágua! (dava um murro no peito). Ah! como é que eu, que tenho vencido tantos homens (segurava a durindana), não te consigo vencer! (abria os braços desoladamente).
Um homem que passava gargalhou, vendo a gesticulação de d. Bias: - O borracho! vai cozinhar a bebedeira! O fidalgo espanhol tornou a si: estava diante da tasca do Trancoso. Por hábito, as suas pernas tinham-no trazido até ali, ao Piolho, quando o seu destino era o Carmo. D. Bias, porém, não quis perder a viagem. Parou de pernas abertas, passou três vezes a mão pela testa, suspirou: No bay como una libación, A un aflito corazon.
E entrou na bodega, onde ficou duas horas afogando os suspiros no pichel.
Quando saiu, fraqueavam-se-lhe as pernas. Andava tudo à roda.
- Caramba! que há um terremoto! Mas não tremas, terra, que não te faço nada! E, ao luar, cai aqui, levanta acolá, caminhou para as bandas do Carmo, mandando ás estrelas a sua voz avinhada: Si de tu hermosura quieres Una copia con mil gracias, Escucha, porque pretendo Yo pintarla! Amor labró de tus cejas Dos arcos para su alaja, Y debajo ba descubierto Quien lo mata! Eres dueña...
- Em guarda! berrou ele, interrompendo a cantiga, e recuando, ao ver um vulto negro postado na rua, à sua espera.
Sacou da bainha a durindana. Mas o vulto continuava imóvel. D. Bias tremeu: - Nobre fidalgo! eu não faço mal a ninguém... deixe-me passar em paz! Como o vulto não se mexesse, d. Bias animou-se a caminhar um pouco. O vulto era um poste de lampião. D. Bias gingou, destemido e bravo: - Caramba! que se fuera un hombre...
E seguiu.
Eres duena del lugar, Vandolera de las almas, Iman de los alvedrios, Linda albaja...
Abo! abo! abo! Un rasgo de tu hemosura, Quisiera yo retratarla, Que es estrella, es cielo, es sol; No, es sino el alva...
Abo! Abo! abo! Ao chegar ao Carmo, d. Bias enveredou às cambalhotas pelos corredores. De repente, estacou.
Uma voz triste cantava, no vasto silêncio do convento adormecido. Era a voz de Branca: E nas asas de um suspiro, Que te vai meu coração...
D. Bias ficou quieto, na treva, muito furioso consigo mesmo por estar se comovendo.
Mandei cercar de saudades...
Uma lágrima caiu no bigode de d. Bias.
Mandei cercar de saudades As bordas do teu caixão...
Um soluço irrompeu do peito de d. Bias.
Fica em tua sepultura Velando minha paixão...
E d. Bias, chorando como um cabrito desmamado, abriu a porta e entrou na prisão de Branca, murmurando: - Pela senhora de Valladolid! nunca mais bebo, caramba! Que eu, quando bebo, é isto: fico um bolas! Branca, assim que viu d. Bias entrar, correu para ele, de braços abertos: - Paulo! Paulo! Paulo! D. Bias abriu também os braços, com um grande derretimento amoroso na face. Ela abraçou-o: ele deixou-se abraçar. Ela beijou-o: ele deixou-se beijar.
- Amo-te! amo-te!... murmurou a louca.
D. Bias não pôde mais. Atirou-se de joelhos, mas embaraçou a espada nas pernas, e estirou-se no chão a fio comprido.
- Eu também te amo, donzela! Levantou-se, agarrando-se às saias da moça, pôs-se de joelhos, e com a voz embargada pelos soluços: - Donzela! vamos procurar teu pai! Que ou meu tetravô não foi lugar-tenente do Cid ou tu te hás de chamar d. Branca de Bias! Vamos, donzela, vamos procurar teu pai! E, sem refletir, bêbado de amor e de Cartaxo, arrastou a moça para fora do quarto.
Sim! ele não era homem para essas bandalheiras. Ora, já se tinha visto? um fidalgo das Espanhas fazer sofrer uma donzela que amava! nada! ia ao pai! ia ao pai! O Satanás devia estar no Paço, com o príncipe. Chegava lá, entregava-lhe a filha, desmanchava toda aquela pouca vergonha, atirava-se aos pés do príncipe e bradava-lhe. - Perdão! O príncipe perdoavalhe, ele pedia ao Satanás a mão da filha, o Satanás concedia-lha, casavam, seriam felizes, amar-se-iam, teriam muitos filhos... Oh! muitos filhos! muitos filhos! e a sua família não morreria com ele, e aquele nome de Bias, tão célebre na história da Espanha e nas bodegas dos Mansanares, continuaria a sua marcha triunfal, através dos séculos, boquiabrindo as gerações faturas! Era este o sonho que bailava, entre os vapores do vinho, na cabeça de d. Bias, enquanto arrastava Branca pelos corredores do Carmo.
Na rua, quis dar-lhe o braço: ela desatou a correr pela rua do Carmo.
D. Bias voava: - Oh! não me fujas, sonho de poeta! Era uma cousa fantástica, pela rua deserta aquela corrida vertiginosa de uma mulher de cabelos soltos e de um fantasma negro, que berrava como um possesso: - Donzela! virgem! menina! Branca tropeçou e caiu. D. Bias tomou-a nos braços, e seguiu para o Paço. Agora, Branca continuava a abraçá-lo, a chamá-lo de Paulo.
D. Bias encontrou aberta a pequena porta lateral, muito sua conhecida, por onde o príncipe costumava entrar a desoras. Dessa porta partia um corredor que ia ter a uma sala do rés-dochão.
Havia luz nessa sala. E, mesmo de longe, d. Bias ouviu um retinir de armas.
À porta, pararam. Muito pálida, de olheiras roxas, com os olhos desmedidamente abertos e os cabelos soltos sobre o vestido malcuidado e roto, a filha de Pallingrini parecia um fantasma: e, por detrás dela, percebia-se e fisionomia apavorada de d. Bias, com a pêra trêmula, oscilando no queixo, e os bigodes arrepiados por calafrio.
D. Pedro e Satanás não tiveram tempo de suspender o combate. Branca atirara-se para eles.
Mas, d. Bias muito cansado e muito excitado, atirara-se também, agarrando-a. E a espada de d.
Pedro cravou-se no ombro direito do fidalgo espanhol, que se deixou cair, urrando: - Estou morto! O Satanás, reconhecendo a filha, tomou-a nos braços, de um salto, e fugiu com ela. E só ficaram na sala o príncipe de pé, imóvel, sem saber o que devia fazer, e d. Bias estendido no chão, sem dar acordo de si.
Não foi longa a hesitação do príncipe. Fez vibrar uma campainha. Um criado fiel apareceu.
- Vai já buscar curativos.
E, ficando só, d. Pedro abaixou-se, levantou d. Bias, estendeu-o no sofá.
O descendente do lugar-tenente de Cid voltou a si, jurando que tinha morrido. O criado curou-o.
A ferida não era muito grave: a lâmina tinha encontrado a omoplata e não pudera penetrar muito. Mas d. Bias afirmava que tinha morrido, e enchia a sala de lamentações.
- Ouve, servidor fiel: ficas agora autorizado a dizer a todo o mundo que viste d. Bias às portas da morte e que não o viste tremer. Somos todos assim na família: morremos todos por amor e sem chorar. Meu tetravô, lugar-tenente de Cid, morreu na batalha de Bácaras. Viu-se cercado por quatro bárbaros, que lhe vibraram quatro estocadas, que se lhe meteram todas quatro no coração; pois o herói não caiu. Mandou chamar o tabelião, fez testamento, confessou-se, e só morreu quando achou que já podia morrer.
- Bem! mas durma, sossegue! - Ouve! digo-te eu que me ouças! - Foi esse o único meu avô que não morreu por causa do amor: minto - morreu por causa do amor da pátria. Meu pai, por exemplo, morreu mártir do amor: amava minha mãe, queria casar com ela, não pôde casar, e morreram os dois virgens um do outro!... Oh! o amor! o amor! o amor! E, já quase adormecido, prostrado de fadiga, d. Bias tartamudeou ainda com uma voz chorosa: - Homem não há nada por aí que se coma? XIII ESTÁTUAS O Satanás ao sair do Paço, levando consigo a filha, parou um momento no largo, procurando apertar o coração para lhe conter as palpitações.
Ah! parecia incrível aquilo... tê-la de novo, louca embora, embora desonrada, mas tê-la enfim, poder de novo apertá-la nos braços, purificá-la com o batismo dos seus beijos, tentar à força de carinhos e de afetos restituir-lhe a razão e a felicidade.
O outro vencera... que importava? O essencial para ele era possuir de novo a filha.
Amanhecia. Perto o mar cintilava espumando contra o cais. Passavam negros descalços, nus da cintura para cima, carregando os tigres, barris cuidadosamente fechados e ainda assim empestando o ar. O largo começava a encher-se de trabalhadores e catraieiros.
O Satanás compreendeu que era preciso sair dali. Podia causar suspeitas a sua presença naquele lugar, ao lado de uma mulher, cujo estado de loucura se via logo no desvario do olhar, no desalinho das roupas, no desordenado dos gestos.
E, arrastando consigo a filha, caminhou para o cais.
Um catraieiro acorreu logo: - Uma canoa, patrão? - Sim e depressa.
Mas, o catraieiro um brutamontes espadaúdo e barbado, de camisa de flanela branca listrada de azul, olhava agora com desconfiança para o Satanás. Via-se que hesitava, com receio de se ver comprometido em algum crime: receava conduzir aquele homem suspeito e aquela mulher de fisionomia estranha e de vestido ensangüentado, porque o pouco sangue perdido por d. Bias caíra sobre ela.
- Então! que é que esperas? - Eh! patrão! quem é você? - Homem, vamo-nos embora e deixa-te de falar, bruto! - gritou-lhe o escultor, metendo-lhe na mão uma moeda de ouro.
Não hesitou mais o catraieiro. Saltou para a canoa e ajudou a descer Branca e o pai.
- Pr'a onde arriba, patrão? - Para a Lapa. Depressa.
Daí a pouco, saltavam os dous, pai e filha, na praia da Lapa, e entravam, por uma porta baixa, numa casa espaçosa, cheia de janelas.
Era o atelier do Satanás.
Sentia-se, desde a entrada, um cheiro incômodo de mofo, um ar abafado de casa longo tempo fechada, onde ninguém mora, onde ninguém vai. Ao entrar na sala principal, foi necessário que o escultor corresse imediatamente a abrir as janelas, tão forte, tão sufocante era o cheiro do gesso mofado.
Havia muito tempo que o Satanás não entrava ali. O seu tempo andava ocupado em outras cousas, nas correrias noturnas com o príncipe, nas conjurações, nas vigílias vagabundas pelas tavernas e pelas casas de batota. Pallingrini era um nevrótico. Passava meses inteiros na convivência única do copo e da espada, numa boêmia infernal, cheia de bebedeiras e de duelos, sem se lembrar da sua arte. De repente, vinha ao atelier, fechava-se lá oito dias, começava com entusiasmo uma estátua, um busto, trabalhava com ardor, numa impaciência febril, numa alucinação doentia, aborrecia-se, atirava ao chão a pá de modelagem, dava um pontapé no camartelo, e voltava a atirar-se à vida airada, deixando a obra incompleta.
A sala era toda envidraçada. Enchiam-na, cobertos de pó, estragados pela umidade e pelo sol, os esboços do escultor.
Nada acabado, nada completo. Aqui um projeto de digladiador, sem cabeça, levantava-se, cheio de manchas de mofo, esticando os músculos atléticos. Adiante, uma cabeça de mulher, anjos de asas quebradas, grupos disformes, misturados com instrumentos de trabalho, ossos humanos, caveiras e manequins. Uma estátua do príncipe, modelada em gesso, estava atirada a um canto, partida pelo meio.
Foi para aí, para essa casa povoada de estátuas, que o escultor levou a filha: e ela também parecia uma estátua tão fria e tão branca como as outras, arrastando-se pelo atelier, durante os dous dias que se seguiram ao do malogrado duelo.
Foi debalde que o Satanás formou em torno da filha uma atmosfera de cuidados e de carinhos.
A vida desaparecia aos poucos, visivelmente, daquele corpo consumido pela febre. E era o que torturava mais o escultor: ver que ela teria de morrer, sem voltar à razão, sem conhecê-lo, sem pela última vez chamá-lo - pai! No terceiro dia, mais fraca do que nunca, Branca amanheceu ardendo em febre. Tinha a pele abrasada, os olhos vermelhos, o corpo sacudido de calafrios.
- Paulo! meu Paulo! gemia de instante a instante...
O Satanás torcia as mãos, alucinado, à beira do leito. Ao cair da tarde, a febre baixou: e ela ficou serena, com um longo filete de sangue ao canto da boca, murmurando sempre: - Paulo! meu Paulo! O Satanás abriu as janelas: extinguia-se já o fogo do ocaso. A noite crescia sobre o mar. Um dilúvio de cinzas invadiu o céu. Tudo cinzento. Longe, no ponto em que o céu beijava as águas, a primeira estrela erguia a pálpebra de ouro. E uma grande tristeza saía de tudo, velando tudo para os funerais do dia. Ainda uma vez a voz de Branca suspirou dentro: - Paulo! meu Paulo! O Satanás, à janela, soluçava, com o rosto escondido nas mãos. Mas, de repente, uma gritaria confusa soou lá fora. Um magote do povo aproximava-se entre aclamações: a alma brasileira andava na rua, exultando e cantando, na aurora da emancipação. E aos ouvidos do escultor chegou distintamente a aclamação popular: - D. Pedro! D. Pedro! D. Pedro! - Paulo! meu Paulo! - gemia a pobre louca na sua agonia.
O Satanás foi ajoelhar-se aos pés do leito. Oh! era demais! era demais! o outro vencia, aclamado e forte, enquanto ela, a sua filha, morria! - D. Pedro! D. Pedro! - gritava o povo mais perto.
- Paulo! meu Paulo! - ouviu-se a voz de Branca, ainda uma vez.
A voz saía-lhe agora difícil e fraca, soluçante, como um gemido, da boca que a hemoptise pintava a carmim, e que na alvura polar da sua face parecia a poética e misteriosa flor das neves da Lapônia.
- D. Pedro! D. Pedro! Todo o corpo da moribunda estremeceu, inteiriçaram-se-lhe os braços, vidraram-se-lhe os olhos.
Um último suspiro lhe saiu da boca: - Paulo! - e ficou imóvel.
O Satanás atirou-se de bruços, com um grande grito de desespero. E o povo passava justamente sob as janelas do atelier: e a aclamação troou, violenta e vitoriosa, invadindo a sala: - D. Pedro! D. Pedro! D. Pedro! O temperamento do Satanás reagiu logo contra a sua grande dor sagrada.
Morta... Que lhe restava fazer? renunciar a luta, fugir para longe, para muito longe da terra maldita onde sofrera tanto, e ir preparar nas trevas do seu exílio voluntário, a obra sinistra da vingança, fazê-la amadurecer longamente, até que soasse a hora oportuna para fazê-la rebentar aos pés do príncipe... Mas não quis partir sem levar a filha consigo. Não a levaria viva, mas modelada na pedra dura, que, nas suas alucinações ele procuraria aquecer e animar, a custa de beijos e de abraços.
E atirou-se desesperadamente ao trabalho. Todo o seu talento, estragado e consumido pelo ócio e pelas orgias, voltou como por encanto, ao apelo da dor suprema que lhe vergastava a alma. Ao toque dos seus dedos, o gesso dócil se submetia, obedecendo-lhe aos caprichos da inspiração.
Toda a noite e toda a manhã seguinte, o escultor trabalhou sem descanso. O atelier, abandonado e poeirento, encheu-se de alegria e de vida. O sopro do trabalho animava tudo aquilo; e quando, de madrugada, o sol entrou vitoriosamente pelas janelas, vindo encontrar o artista embebido na sua obra piedosa, as estátuas pareciam sorrir...
Pouco a pouco, da massa informe do gesso, Branca saia, ressuscitada pelo amor do artista.
Cercaram-lhe a fronte as ondas do cabelo, rasgaram-se-lhe os olhos, arqueou-se-lhe a boca dum sorriso inocente, empinou-se-lhe o colo virginal.
E ela aparecia assim aos olhos do escultor e ao coração do pai, tão pura e tão bela, como naqueles tempos felizes em que o alcoviteiro do príncipe ia purificar-se, ao seu lado, no pequeno santuário da rua do Conde...
Quando a estátua ficou pronta, o estatuário ajoelhou-se. Duas lágrimas rolaram pelas suas faces: e ele rezou, talvez pela primeira vez na vida.
Mas, acabada a oração, o Satanás transfigurou-se: era outra vez o mesmo espírito forte, o mesmo ousado e diabólico espírito da vingança e do ódio.
Levantou-se, olhou para o mar que se estendia infinito e calmo, ergueu o braço num juramento solene de nunca esquecer e nunca perdoar...
No outro dia, o Satanás fazia-se de vela, a bordo de um navio negreiro, para longe das terras do Brasil; e Branca ficava sob a lápide fria de uma sepultura do cemitério do Carmo, transformando a sua carne moça na seiva que mais tarde rebentaria em rosas na terra que ela purificara com a sua rápida passagem.
XIV O ESQUELETO Assim muito aclamado pelas massas populares que lhe iam agradecer a carta de liberdade, d.
Pedro desanuviou-se das tristezas que por alguns momentos o ensombraram com o caso de Branca.
De toda essa história tenebrosa que o fizera cruzar armas contra o Satanás não percebia grande cousa. Ficava-lhe apenas na memória o vago delineamento incerto de uma criança que ele supusera amante do escultor e que fora sua por uma noite sombria e treda como nas aventuras daquele tempo. E ficava-lhe principalmente nos quartos baixos do palácio o magro fidalgo das Espanhas que se aproveitava da ferida para prolongar o seu apetite e as suas bravatas.
D. Bias fortunava-se de fato um homem feliz. Servia-se do ferimento como indelével e irrecusável atestado de bravura inscrito no pergaminho da sua pele. E servia-se mais ainda do cozinheiro do Paço a quem estava constantemente pedindo bifes e bifes e outras esquisitas guloseimas.
Gesticulava, gritava e berrava.
Inimigo da solidão, rodeava-se dos criados a quem vivia contando as aventuras complicadas em que se metera. E tanta fertilidade tinha a sua irrequieta imaginação de espanhol, que conseguia sempre forjar mais um caso para o serão de cada noite, e mais um episódio para a conversa de cada dia.
E tantas fez que em torno dele formou-se uma reputação de espírito e bom humor.
D. Pedro quis vê-lo.
Entrou-lhe no aposento muito sério, com a compostura solene e grave de um imperador que também gosta da troça, mas deseja conservar a sua força moral.
Falou no ferimento, mostrando-se muito sentido com o acontecimento, lamentando-se do ocorrido, mas sem uma alusão ao Satanás.
- Ora senhor, ora senhor, isto não foi, não foi nada, explicou d. Bias. - O ferro entrou-me apenas dez polegadas no braço. Uma ninharia! - Sim. Não foi nada, mas podia ser fatal.
D. Bias respondeu com um forte oscilar desprezível de ombros. Que não se importava. Que já estava acostumado àquelas cousas.
- Em todo caso posso garantir-te que não tinha vontade nenhuma de te matar.
- Ora senhor! Por quem é não falemos mais nisso. Eu até já vou me esquecendo de que fui ferido. A força do hábito, sabe, a força do hábito! - Com que então tens sido ferido muitas vezes? - Nem contas há que as possa enumerar.
E narrou: - De uma, lá nas Espanhas, voltava eu muito sossegado de três duelozinhos pequeninos em que tinha morto os quatro adversários quando me saiu à frente um piquete de cavalaria comandado pelo irmão dos cinco rapazes que eu acabava de remeter para os infernos.
- E brigaste contra todo o piquete? - Qual briguei! qual nada! Matei-os a todos sem exceção de um cavalo.
- Mas então não foste ferido! - Fui, sim, senhor! Quando não havia mais adversários contra quem pelejar, caiu uma tempestade e veio um raio com tanta força que...
- Foste queimado? - Qual queimado! Senhor! Feri-me eu mesmo com a minha espada indo a desviar-me do raio.
- E onde? - Já não me recordo mais. Mas, caramba! que aquilo, sim, foi um golpe bem dado e de mão de mestre. Voou um braço para aqui, uma perna p'ra ali e a cabeça não sei para onde.
- Diabo! Pois tu te fizeste assim em pedaços? - Qual eu! qual nada! Senhor. Foi o inimigo.
- Mas que inimigo? - Ah! Eu não sei.
D. Pedro não pôde conter uma gargalhada e saiu.
Saiu, alegre da vida, cantarolando umas cantigas brejeiras. E teve uma idéia. A idéia de fazer uma caçoada com d. Bias, de pregar-lhe um bom susto. Deviam ser interessantes a cara e as falas do aventuroso cavaleiro das Espanhas, quando lhe aparecesse diante de si um fantasma ameaçador e tétrico que contra ele investisse numa encenação apavorante de tragédia. E, nas boas disposições de espírito em que estava, d. Pedro tratou logo de preparar a pilhéria.
Vieram-lhe a princípio dúvidas para escolha entre diversos projetos que se lhe apresentaram à imaginação. Mas, à noite, quando se despedia da cigana, lá no circo do Valongo, resolveu-se, enfim, e pediu ao Vampa que lhe vendesse um esqueleto articulado, que havia a um canto da parede e de que o saltimbanco se servia nas suas mágicas e pantomimas.
Trouxe-o, ruas afora por aquela noite escura, debaixo da capa, como um mistério, bem junto a si, como uma profanação.
E, quando entrou no Paço, antes de cear, foi logo ao quarto de d. Bias.
Segurando o esqueleto pela coluna vertebral, mal envolveu-o na capa, o bastante para esconder-se a si e para permitir que o descendente do soldado de Cid Campeador pudesse ver toda a horrível conformação espetral do fantasma.
D. Bias dormia.
Uns pratos vazios, muito lambidos e uma garrafa escorropichada, atestavam que o valente cavaleiro andante das aventuras contadas acabara de cear; lautamente, mais lautamente do que era permitido supor a quem o visse magro e esgalgado, um esqueleto ele mesmo. Acordou e gritou.
Sobre o peito descansa-lhe a ossadura descarnada da mão do esqueleto. E a olhá-lo, com o grande olhar tenebroso e mau das caveiras, estava um vulto bem junto a si, debruçado sobre o seu leito. Gritou.
Gritou e retorceu-se todo na cama, nu e esquelético, envolto na mortalha alvadia do lençol, fantasma contra fantasma.
D. Pedro ria-se.
E largou o esqueleto que então caiu todo inteiro sobre d. Bias.
Foi, nesse momento, um espetáculo diabolicamente nunca visto e nunca sonhado até então.
Por entre os lençóis e a capa, no belo contraste do preto e branco, debatiam-se os dous. D. Bias a contorcer-se todo, a querer desvencilhar-se desse novo companheiro de dormida, animava-o, fazia-o viver, emprestava-lhe movimento.
- Por Dios! choramingava o espanhol, por Dios! Não me faça nada! Deixe-me em paz, tenha pena de mim! E fazia-se súplice, e queria erguer-se para ficar de joelhos, para pedir piedade, para comprometer-se a tudo quanto o fantasma quisesse, para tornar-se submisso e escravo, enfim, com tanto que o deixasse viver.
E com os movimentos que tentava, o esqueleto movia-se também, recolhia o braço num amplexo que horripilava o outro, intrometia a perna entre as do fidalgo das Espanhas, ligava-selhe enfim numa bela conjunção amorosa.
D. Bias soluçava. A voz desaparecia-lhe até.
Foi preciso que o príncipe, já farto do espetáculo, interviesse e separasse os dous.
- Caramba! fez d. Bias. Eu tinha medo porque era um esqueleto e não havia contra quem lutar! E mais calmo depois, achou uma boa compensação no convite para a ceia de d. Pedro que este tinha mandado trazer para o quarto.
Não comia entretanto com toda a sua habitual voracidade. O esqueleto, que ficara sobre o leito, incomodava-o.
Levantou-se, e escondeu-o dentro de um armário.
- Se o esquecem agora, e se o descobrem daqui a cem anos... lembrou o príncipe.
D. Bias mastigou barulhentamente um grande naco de carne; e depois, olhando muito sério para o armário, disse: - Caramba! que boa peça vou eu pregar às gerações futuras!
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