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Home  O Homem Aluísio De Azevedo - Página 9  Voltar

O HOMEM

Foi ter à janela da saleta contígua à sua alcova e ficou a olhar abstratamente lá para fora. O dia acordava, estremunhado, remanchão, preguiçoso, sem ânimo de abrir de todo as pálpebras sonolentas, espiando por entre as cambraias da neblina: não havia linhas de horizonte, não havia contornos definidos; era tudo uma acumulação de névoas, onde mal se pressentiam apagadas sombras. Nem viva alma se destacava; nem um só trabalhador passava para o serviço; a pedreira transparecia apenas, como se estivesse mergulhada dentro de uma grande opala derretida. E, aos olhos de Magdá, tudo aquilo principiou de afigurar uma natureza em embrião, um mundo ainda informe, em estado gasoso; alguma coisa que já existia e que ainda não vivia: um ovo ainda não galado por Deus.

Mas, daí a pouco, no fundo desse caos opaco, no âmago daquela albumina, a montanha começou a bulir, a mexer-se como um corpo em gestação, e depois a agitar-se como um feto que quer nascer.

A infeliz delirava lá.

E ela distinguiu que o imenso feto, sequioso de vida, espedaçava a crisálida e, erguendo a cabeça, sacudia cá fora, à luz do dia, a treva dos seus cabelos; e nessa cabeça, Magdá enxergava olhos que eram ternos e humanos, e lábios que sorriam de amor. E viu em seguida o gigante erguer os braços e romper as nuvens de alto a baixo, e pôs-se de pé, altivo e risonho, tocando com a fronte nas estrelas que a cingiam e constelavam de régio diadema.

E reconheceu logo o seu amante.

— Oh, enfim! exclamou num brado de contentamento, estendendo-lhe os braços e pedindo-lhe entre lágrimas de gozo, que sem demora a arrebatasse lá para a outra vida ideal da fantasia. Nessa ocasião, porem, outro gigante inda maior assomara para além das bandas do oriente, e este agora vinha formidável e terrível, armado da cabeça aos pés, irradiando fogo; e, só com o dardejar e reluzir do seu escudo, desmaiavam no céu as densas tímidas e palpitantes, fugia a lua assustada, e a terra tremia toda como a noiva na primeira noite das bodas.

Então Magdá viu entristecida a ciclópica figura do seu amado abalar-se e estremecer também, depois ir empalidecendo, até volver-se de novo montanha, agora resfraldada de gazes cor de pérola, que se rasgavam e desteciam aos raios do sol nascente; enquanto ao redor surgiam aqui e acolá pontas de igrejas e ângulos de chalets esmaltados pela aurora, e repontavam grupos de árvores e saiam no chão manchas verdes que logo se transformavam em hortas e jardins, e alvejavam curvas tortuosas que se desfaziam em ruas e caminhos, e pontos negros que eram carroç5es de lixo, e outros menores e ligeiros que eram carrocinhas de pão; e pareciam vacas a tilintar o chocalho à porta das chácaras; e homens de jaquetão à balega e chapéu desabado apregoando perus, frutas ou garrafas vazias; e lavadeiras com imensas trouxas de roupa na cabeça; e pretas e pretos carregando altos tabuleiros de verdura ou de carne fresca. E ouviam-se vozes de gente, choro e riso de crianças. latir de cães, cantar de galos, rodar de seges; um esfalfado zunzum de mundo gasto e enfermo, que acorda contra a vontade, inalteravelmente, como na véspera, para vegetar mais um dia de tédio, à espera da morte.

E Magdá afastou-se da janela e fechou-a com ímpeto, cheia de horror e cheia de nojo pelo mundo.

— Oh, que miséria! Oh, que miséria, meu Deus!

E cerrou os olhos para não ver nada, e tapou os ouvidos para nada ouvir; mas, apesar disso, sentia, nauseada, que ali estava a sua alcova de doente, o seu leito impregnado de moléstia. a mesinha de cabeceira coberta de abomináveis frascos de remédio; a enfermeira, a Justina, ressonando a um canto, sobre um colchão, de papo para o ar, a boca aberta, o peito almofadado, meio à mostra, e uma perna, brutalmente gorda, aparecendo estirada por entre os lençóis.

E isto era a vida! — Que horror! que horror! — Que abjeção! — Que porcaria!

E Magdá saiu do quarto para não espancar com os pés a criada, para não esbofetear a sua própria sombra; furtando-se daquilo, tudo desorientada, inconsolável, com ânsias de desertar do mundo, de fugir de si mesma, do seu próprio corpo, da sua própria alma. E, no entanto — as saudades do filho a crescerem, a crescerem-lhe por dentro, cada vez mais, alastrando como hera florida e viçosa por entre ruínas.

E nada de chegar o sonho ou o delírio! — Que desespero!

Oh, mas precisava ver o filho no mesmo instante, readquiri-lo; matar aquele desensofrido desejo que a devorava com exigência de um vício profundo, adquirido na primeira idade; precisava refugiar-se nele — no seu Fernando — no seu amado, que era todo casto, amoroso e lindo, que era todo ideal e puro, e nada tinha deste mundo e com esta vida, estúpidos ambos, e ambos dessorados por enfermidades e por paixões de toda a casta, infames, monstruosas e mesquinhas!

Correu à mesa dos medicamentos, rebuscou entre os vidros o de láudano, apoderou-se dele com avidez e tomou uma grande dose.

No fim de algum tempo, viu, porém, que nem assim lhe acudia o sono ou a letargia. — Que suplício! — Apenas ficava estonteada, presa de tênue vertigem, que de quando em quando lhe apagava a luz dos olhos. Entrou no mesmo estado pelo dia alto, muito abstrata, andando por toda a casa como uma sonâmbula. Ao lanche das duas horas da tarde, o pai quis detê-la no seu lado e obrigá-la a conversar; ela escapou-lhe por entre os dedos e fugiu em silêncio para o andar superior, olhando a espaços para trás, desconfiada.

Agora, neste momento, não sentia nada, absolutamente nada, que a incomodasse; nem enxaquecas, nem dores na espinha, nem dormência nas pernas; já não a perseguiam o gosto de sangue e o cheiro de magnólia; via-se leve, como se estivesse oca, vaporosa, aeriforme; sentia-se capaz de voar e de manter-se sobre uma pluma sem a abater. E dava-se ainda um outro fenômeno bem curioso: a vida real parecia-lhe agora o sonho, e o sonho afigurava-se-lhe a vida real; os fatos verdadeiros embaralhavam-se-lhe na mente, confundiam-se uns com os outros, fragmentavam-se, difundiam-se, escapavam; ao passo que os mais insignificantes pormenores da sua vida fantástica lhe permaneciam inteiros no espírito, claros e seguros à memória, como os cantos de um poema decorado na infância.

Queria lembrar-se do que, acordada, fizera na véspera; do que fizera havia poucos instantes, e não conseguia rememorar coisa alguma; enquanto que ainda lhe cantavam no ouvido, bem lúcidas e sonoras, as mais remotas palavras de Luiz, e ainda sentia nos lábios a impressão dos últimos beijos de seu filho. Recordava-se de toda a sua existência fictícia, instante por instante; poderia narrá-la inteira, seguida; descrevê-la de princípio a fim, sem lhe esquecer um episódio; e, no entanto, estranhava a sala em que estava, sem poder determinar que casa era aquela e donde tinham vindo aqueles objetos que a cercavam.

Volvia surpreendida os olhos em torno de si, alheia ao lugar; nada, de quanto a sua vista lobrigava, lhe trazia à razão a sombra mais sutil de uma reminiscência. Afinal, deu com um dos grandes espelhos que havia erguidos sobre os consolos, e mirou-se, deixando escapar uma longa exclamação de pasmo.

Desconhecera-se.

Aproximou-se mais da sua lívida e descarnada imagem, profundamente abismada de se ver tão feia. Virou-se de um para outro lado e voltou-se para trás, procurando quem era aquela múmia, aquela horrorosa criatura que se refletia lá no espelho.

— Não! não! murmurou, sem se alterar e até sorrindo. — A que aparece lá não sou eu. É impossível

E sacudia com a cabeça, punha a língua de fora, arregalava os olhos. O vidro reproduzia tudo.

— Mas não, não é possível que seja eu, insistia a desgraçada, fugindo da sua sombra e gritando, a correr pela sala: — Eu tenho sangue nos lábios, brilho nos olhos, frescura na pele! meus peitos são carnudos e suculentos como duas mangas picadas por passarinho! meu corpo é todo cheio e torneado como o da novilha que foi coberta e ainda não pariu! Eu sou a mais formosa entre as mulheres da terra, por isso meu amado me escolheu entre todas! Quando eu vou ter com ele, ando depressa, sacudindo as saias, e a barra do meu vestido rescende que nem a baunilha e a trevo-cheiroso

Justina acudiu aos lascivos gritos da senhora. O Conselheiro não foi logo, porque nessa ocasião fazia a sesta no divã do seu gabinete.

— Então que é isso, minh'ama?...

— Não! não! aquela que ali estava não era eu!... Bem sei que isto não passa de uma extravagância de sonho!...

— É porque vosmecê está muito fraca... Quer que lhe vá buscar o caldinho?....

Magdá não respondeu; olhava fixamente para as suas mãos angulosas e desfeadas. Depois, com uma careta de repugnância, tenteou-se toda e ficou a tomar nos dedos a magreza das suas coxas.

Mas riu-se logo, repetindo, a apalpar-se:

— Que sonho extravagante! Que sonho engraçado!

E ia de novo ao espelho e apontava para a sua figura, e ria--se a bandeiras despregadas, como ébria.

— Que sonho! Que sonho!

— Então, minh'ama, posso ir buscar-lhe o caldinho?..

Magdá pôs-se muito séria e correu para junto da criada, como se só então tivesse dado pela sua presença.

— Heim? Que é?

— Pergunto se vosmecê quer tomar o seu caldo?...

— Que caldo?

— Ora essa O seu caldinho das três horas.

— Três horas!

— Da tarde, minh'ama. Eu lho trago já.

E Justina saiu, resmungando: — Coitada! Inda ontem tão senhora de si e já hoje dá para não dizer coisa com coisa!... Mas isto há de passar, é fraqueza talvez!... ela, coitadinha, ainda não meteu nada p'ra o estômago!...

Daí a um instante voltava à sala.

— Prove, minh'ama, para ver como está seu apetite!

E esfriava o caldo com a colher, soprando-lhe em Magdá sorvia automaticamente as colheradas que levava à boca.

— Você onde estava?... perguntou a senhora.

— Na cozinha. Porque, minha'ama?

— E ontem, à noite?

— No casamento de minha mana...

— Sua mana?...

— A Rosinha, como não?

— Com quem ela casou?

— É boa! Com o Luiz! Pois minh'ama já se não lembra...

— Luiz? Quem é o Luiz?...

— Olhe agora! E' o filho da tia Zefa, o moço ali da pedreira...

— Ah!... Um de corpo nu, com a cara molhada de suor...

— Que trouxe vosmecê ao colo, quando minh'ama subiu ao morro... Minh'ama conhece-o, como não?

Justina dizia estas coisas com a paciência de quem conversa com um alienado de estimação; e a outra olhava para ela sem pestanejar, interrompendo a sua imobilidade apenas para sorver as colheradas de caldo.

— Um descalço, prosseguiu Magdá; um que tem cabelos no peito; a carne rija como pedra; branca de marfim; a boca cheirando a murta!... Conheço! oh, se conheço!... Pois, se lhe quero tanto bem!... E por onde anda agora esse ingrato...

— Está em casa, minh'ama... Ele hoje não foi ao serviço, porque se casou, mas...

— Ah! Ele casou-se...? Que homem!

— Casou-se ontem, sim senhora, mas amanhã está fino para o trabalho!

— Ah! Ele amanhã não fica na cama!...

— Não fica, não senhora.

— Casou-se! Pois diga-lhe que venha aqui com a noiva; quero dar-lhes um presente, um bom presente de núpcias. Traga-os, não se esqueça; ouviu?

— Sim senhora. E quando?

— Quando quiserem vir.

— E a que horas, minh’ama?

— A qualquer hora, contanto que venham.

Nisto entrou o Conselheiro, e> a um sinal trocado secretamente com a criada, esta lhe respondeu em voz baixa:

— Agora... depois do caldo, está melhorzinha, sim senhor.

— Era debilidade... pensou o velho e, aproximando-se da filha, perguntou, tomando-lhe as mãos:

— A minha flor como se sente agora?... Já está mais disposta a conversar com o seu papai?...

Ela olhou para ele, estendeu-lhe o rosto e recebeu sorrindo um beijo na testa.

— Vamos dar uma volta pela chácara... propôs o pobre homem, tomando-a pela cintura e amparando-lhe o corpo sobre seu peito.

Magdá deixou-se levar, sem dizer palavra e, enquanto andou lá por baixo, esteve sempre muito entretida, ligando grande interesse a tudo que encontrava, nem como se houvesse recuperado a vista naquele momento, depois de uma cegueira de nascença. Correu tudo, revistou todo o jardim e todo o porão da casa; e cada objeto, que seus olhos topavam, a não serem os produtos puramente da natureza, despertava-lhe espantos de criança: um regador de folha, pintado de encarnado, causou-lhe enorme curiosidade: deteve-se alguns minutos a contemplá-lo, muito admirada, sem conseguir compreender o que era aquilo; um chapéu velho, de copa alta, atirado ao chão, fez-lhe medo; parecia-lhe um bicho. O Conselheiro viu-se martirizado por um não acabar de perguntas verdadeiramente infantis, a que ele respondia com paciência de santo.

Quando, já ao dobrar da tarde, Justina a recolheu à alcova, ela assentou-se na cama e deu para fitar o seu crucifixo, indiferentando-se a tudo mais.

Era a letargia que enfim chegou.

Desta Vez a imagem não cresceu, conservou-se do mesmo tamanho, apenas se despregou da cruz e ficou, posto que suspensa, na posição de quem se espreguiça. O papel da parede foi a pouco e pouco se convertendo em um fundo de verdura esbranquiçada, cujos planos iam lentamente se formando e acentuando com as precisas gradações dos tons3 entretanto, o Cristo continuava sempre do mesmo tamanho, num desses planos, como por um efeito de perspectiva.. Afinal, destacaram-se árvores, plantas, uma paisagem inteira e o Cristozinho, deixou de espreguiçar-se e pegou de andar por entre a mata, com a tranqüilidade de quem passeia nos seus quintais.

Só então foi que Magdá percebeu que estava observando tudo isto de uma janela e apressou-se a olhar em torno de si.

Ah! exclamou, reconhecendo a sua adorada habitação da ilha. — Enfim Ora, graças a Deus!

Lá estavam os seus objetos de arte, a sua mesa, o seu piano.

— Ah! agora sim.. era outra coisa!... prosseguia, considerando o próprio corpo, afagando-o por vê-lo novamente belo e forte; mas, tocada por uma idéia que a fez estremecer, correu ligeira ao fundo do quarto, onde havia um berço.

— Ah! ah! Cá está ele! Cá está o meu ladrãozinho!

Fernando dormia; Magdá tomou-o nos braços, ergueu-se no ar o seu lindo corpinho nu e, vendo que ele agitava as pernas, rabujando zangado, chamou-o para os lábios e devorou-o de beijos.

O manhoso, assim que se pilhou no colo, pôs-se a rir.

— Coitadinho... balbuciou ela, rindo também, com as lágrimas nos olhos.

E levou-o para a janela. O pequenino, logo que deu com o Cristo que continuava a passear por entre as árvores, gritou sacudindo os seus bracinhos feitos de roscas gordas.

— Papá! Papá!

E, ao que parece, o Cristo lhe ouviu a voz, porque veio então se aproximando, aproximando, fazendo-se homem, até chegar à janela.

Não era mais o Cristo; era o moço da pedreira.

XX

Passou a noite toda inteira na ilha, muito sossegada, muito feliz ao lado do marido. Lá não havia sobressaltos nervosos, nem infundados temores, nem súbitos esquecimentos do que se fizera pouco antes; lá a vida era boa, corredia, larga e tranqüila. Como de costume, fizera o seu bocado de música, leram, jogaram e conversaram: ela contou-lhe, rindo e chasqueando, os seus últimos sonhos — o casamento dele com Rosinha — o desafio à guitarra. Cantou:

"Tu a amar-me e ou a amar-te,

Não sei qual será mais firme!

Eu como sol a buscar-te;

Tu como sombra a fugir-me."

— Parece que ainda estou te ouvindo, meu amigo.

— Sonhadora!

— Ah, mas via-me tão magra, tão escaveirada, tão amarela, que metia pena!

Ele achava graça, ria.

— Magra, tu! que tens este corpo!...

E apertava-lhe a polpa do braço com os seus dedos vigorosos.

— Mas não imaginas, meu querido, a má impressão que me fazia o demônio do sonho; era tudo como se fosse verdade: eu sentia e via como te estou vendo aqui!

— Estavas então muito feia...?

— Horrorosa! Se aquilo não passasse de pura ilusão — matava-me! acredita que me matava!

— Que vaidade, Magdá!

— Ora, no fim de contas sou mulher; além disso, prezo menos por mim a minha beleza do que por tua causa...

O rapaz agradeceu com uma carícia. E os dois continuaram a palestrar. Vieram à baila as saudades que Magdá sentira do filho e os seus tormentos por julgar-se longe dele.

— Estava como louca, disse a visionária; lembra-me bem de que, numa ocasião em que me fazia a passear pelo braço de meu pai na chácara da Tijuca, vi um regador de folha pintado de encarnado; pois queres acreditar que eu não podia atinar com o que aquilo era?...

— Tem graça!

— O que mais me admira, porém, de tudo isto, é que eu sonhe com todas as pessoas da minha convivência: contigo, com papai, com a nossa criada Justina, com a família desta, e jamais com meu filho... Nunca sonhei com ele!

— Como não, se não pensas noutra coisa enquanto dormes? Pelo menos assim acabas de o afirmar...

— Sim, mas nunca o vejo a meu lado...

— Vem a dar na mesma.

E assim cavaqueando, foram até à hora do chá, às dez, depois da qual, Magdá deu de mamar ao seu bebe. Em seguida lavou-se, tomou a sua roupa de alcova e afinal recolheu-se à cama com o marido, muito prosaicamente, a cantarolar um estribilho banal, feliz na convicção de que tinha ali mesmo a seu lado, ao mais curto alcance, tudo de quanto precisava para satisfazer as suas necessidades de mulher moça.

Foi então que ela tornou a si, na vida real. Estivera dezesseis horas em estado letárgico; havia caído em torpor às cinco da tarde e só acordara às nove da manhã do dia seguinte. Tomou a custo uma colherinha de xarope, que lhe deu a Justina, de um frasco novo que acabava de ser aberto, e ficou a olhar para a criada, fixamente, sem expressão, como uma figura de cera.

— Minh'ama ainda se lembra do que me disse ontem?...

— Que foi?

— Que eu falasse à Rosinha para vir cá, junto com o marido.

— Ah! lembro-me perfeitamente...

— Pois eles estão aí fora...

Magdá conservou-se estática; não teve a mais ligeira contração no semblante. A criada acrescentou, depois de vesti-la:

— Quer vosmecê que eu os faça entrar para esta saleta aí ao pé?...

— Pois bem.

Justina saiu do quarto, nadando em satisfação, e desceu de carreira à chácara, onde o Luiz a esperava ao lado da mulher.

— Daí a pouco eram estes dois conduzidos à presença da filha do Conselheiro. O rapaz trazia a sua fatiota nova do casamento conservando a gravata de cetim; a outra um vestido de fustão branco, sarapintado de florinhas azuis e cheirando à malva. Era ele agora quem estava muito vexado, e Rosinha não. Esta, ao contrário, resplandescia de contentamento expansivo; abria-lhe as pétalas da boca um sorriso largo de rosa ao desabrochar. Era a alegria vitoriosa da carne dos vinte anos, o riso da vontade satisfeita, o canto alegre da pomba depois do primeiro arrulho.

O sorriso do Luiz já era outro; um sorriso de sonso, de felizardo consciente da largueza da sua fortuna e da escassez do seu próprio merecimento. Não levantava o rosto e não olhava de frente como a esposa; tinha os olhos em terra e torcia e destorcia entre os dedos calejados o seu chapéu novo de abas largas; todo ele envergonhado de ser tão feliz, envergonhado como um pobre-diabo que é surpreendido a comer às escondidas um manjar delicadíssimo e digno da boca de príncipes.

Magdá ainda mais o confundia, porque não lhe tirava a vista de cima; considerava-o da cabeça aos pés; parecia estudar-lhe os menores traços da fisionomia, como se intimamente o comparasse com alguém.

— Então, com que sempre se casaram...? perguntou afinal, mordendo o lábio inferior e achinezando. os olhos.

Os dois, que até aí guardavam um silêncio espesso, apressaram-se a responder juntos, dando um pequeno passo para a frente:

— Casamos, sim senhora.

— E desde quando se gostam? Há muito tempo já?...

— Ora há que tempo!... resmungou Luiz, olhando de soslaio para a mulher.

Esta soltou uma risadinha e disse:

— Eu ainda bem não tinha acabado a muda e já ele andava atrás de mim..

— E agora... estimam-se deveras?...

Os manganões não responderam, olharam um para o outro, apertando os beiços, e afinal duas gargalhadas espocaram ao mesmo tempo, sem que ambos pudessem mais trocar um olhar entre si; esfogueados por aquele riso escandaloso, aquele riso que denunciava o que só eles, os brejeiros, lá sabiam.

Houve um silêncio, em que Magdá parecia meditar, muito séria; depois — fez um quase imperceptível movimento de ombros e ordenou à criada que fosse lá em baixo buscar uma garrafa de vinho: "Vinho bom, heim?"

Justina saiu correndo e de passagem atirou aos noivos um gesto que dizia: "Vocês agora é que vão ver o que é uma boa pinga!"

A histérica passou ao quarto de dormir e foi buscar o frasco de xarope de Easton, aberto havia pouco; enquanto Luiz, vendo-se a sós com a mulher, ferrou-lhe um beliscão na cinta.

— Fica quieto! segredou a moçoila, indicando com o polegar a porta por onde saíra a filha do Sr. Conselheiro.

Esta tornou a aparecer e propôs-lhe, com uma das mãos escondida atrás das costas:

— Porque não entram aí para essa outra sala!... Sentem-se lá... Estejam à vontade...

Os dois seguiram, um após outro, para o compartimento contíguo, e a enferma acompanhou-os com estranho olhar, em que havia um duro ressaibo de cólera invejosa. Chispava-lhe na pupila o mesmo rábido fulgor com que ela vira uma vez matrimoniar-se o casalzinho de rolas da sala de jantar e com que, de outra, fitara a voluptuosa miniatura do "Amor e Desejo", que seu pai tanto estimava.

Justina voltou, trazendo uma bandeja com uma garrafa já aberta e três copos.

— Agora vai buscar doces e biscoutos, encomendou-lhe a senhora.

A criada depôs a bandeja sobre a mesa do centro e saiu de novo. Então Magdá, com muita calma, sem lhe tremer nem de leve a mão, encheu um dos copos de vinho e despejou no restante da garrafa todo o xarope do frasco; em seguida ia a chamar os noivos, mas deteve se; tomou novamente a garrafa, mirou-a contra a luz, provou do vinho na ponta da língua e, satisfeita com o resultado do seu exame, tornou à alcova, trouxe outro frasco do xarope ainda intacto, abriu-o e fez deste o mesmo que com o primeiro.

— Agora sim, disse baixinho, sacolejando a garrafa., e acrescentou em voz alta, dirigindo-se para a sala próxima, enquanto enchia tranqüilamente o segundo e o terceiro copo:

— Olá! Venham daí beber à minha saúde.

Os desgraçados acudiram logo de pronto. Magdá apoderou-se do copo que havia enchido antes e ofereceu-lhes com um gesto amável os outros.

Luiz e Rosinha deram-se pressa em lançar mão cada um do seu.

— Então, vá! Para que sejam muito felizes disse a histérica, levando o vinho à boca. — Bebam tudo! bebam tudo!

Os dois obedeceram, enxugando de um trago o liquido, com uma pequena careta, que não puderam reprimir.

— Que tal? perguntou Magdá.

— Bom, muito obrigado, respondeu o cavoqueiro; mas, franqueza, franqueza, achei-o a modo que muito doce e muito azedo ao mesmo tempo...

— É que a gente não está acostumada... explicou Rosinha com um pigarro.

Nesse momento, Justina reaparecia, trazendo os biscoitos; porém, tanto o rapaz, como a noiva, pasto se servissem logo, não podiam comer, que lhes principiavam os queixos a emperrar. E amargava-lhes a boca e ardia-lhes a garganta de um modo muito esquisito.

Pediram água.

Justina não se achou com ânimo de gracejar e correu em busca do que eles reclamavam.

— Sentem alguma coisa? inqueriu Magdá tranqüilamente.

— Uma apertura aqui... disse Rosinha com dificuldade, levando a mão às têmporas e depois à nuca.

— Também a mim dói-me a cabeça... confirmou o cavoqueiro em voz alterada.

— Sentem-se, aconselhou a senhora. — Fiquem a gosto...

E sorriu.

Fez-se um silêncio gélido, em que se ouvia pendular na alcova de Magdá o seu pequeno regulador de bronze; mas no fim de alguns instantes os pobres noivos, que pareciam cada vez mais sobreexcitados, puseram-se a mexer com a mandíbula inferior, contraindo os músculos da face e daí a pouco tinham rápidos estremecimentos convulsivos, que lhe agitavam o corpo inteiro, de instante a instante, violentamente.

Luiz quis falar e não pôde; apenas gorgolejou uns bufidos guturais.

Magdá ria-se, olhando as caretas convulsivas que ele e a mulher faziam. Esta, agoniada, levava simultaneamente as mãos à garganta e ao estômago, sem poder gritar, tão contraída tinha já o laringe.

Repetiam-se os espasmos com mais intensidade, acompanhados de feias agitações tetaniformes. O cavoqueiro estorcia-se na cadeira, rilhando os dentes e tomado de uma ereção dolorosíssima.

Quando Justina voltou, encontrou-os por terra, a estrebuchar; roxos, as pupilas dilatadas os membros hirtos, os queixos cerrados.

A criada soltou um grito, atirou com a bilha de água e os copos e saiu a berrar.

Com este barulho, Luiz teve um acesso mais forte e retesou-se todo, vergando-se para trás, a ponto de encostar a cabeça na coluna vertebral.

E roncava, escabujando horrorosamente.

— Que é isto?! exclamou o Conselheiro, invadindo o aposento, seguido por Justina, que parecia louca.

— Stchio!!! fez Magdá, pondo o dedo nos lábios e arregalando os olhos. — Não façam espalhafato!... Deixem tudo por minha conta...

— Jesus! Que aconteceu? gritou o pai, fazendo-se cor de mármore e tentando levantar do chão o trabalhador. Não pôde. Luiz estava duro como uma estátua.

O pobre velho, a tremer, desorientado, precipitou-se sobre a mesa e descobriu os frascos de xarope.

— Ah! explodiu, arrancando os cabelos. — Meu Deus! meu Deus! Envenenou-os!

— Que extravagância!... dizia Magdá com uma risada. — Que extravagância!!! Meu marido há de achar graça!...

O Conselheiro corria de um para outro lado, atônito, e, percebendo que os envenenados iam morrer, pediu socorro em altos brados.

Justina havia fugido para a rua e gritava:

— Acudam! Acudam!

Entretanto, Rosinha e Luiz agonizavam ao lado um do outro; a boca muito aberta e as ventas arregaçadas à falta de ar.

Em breve, a casa foi assaltada por uma porção de gente. A mãe e a avó do cavoqueiro entraram na carreira, terríveis, desgrenhadas, estralando com os tamancos no soalho — os braços nus, a saia enrodilhada na cintura a bramirem chorando; ao passo que o Conselheiro deixava-se estrangular pelos soluços, atirado ao fundo de uma poltrona, com o rosto escondido entre as mãos.

Havia cm todos os estranhos um lívido assombro de terror. Surgiram pálidas figuras curiosas e assustadas, espiando pelas portas; só bem distintos se ouviam os noivos e os rugidos da tia Zela e da velha Cust6dia, que iam, rápido, farejando a casa toda, sala por saia, tontas e assanhadas como duas leoas rebuscando os filhos que lhes roubaram.

Uma onda feroz e atroadora invadiu os aposentos de Magdá; mas de súbito assomou por entre ela o sobretudo alvadio do Dr. Lobão que, atropeladamente, abriu caminho com três murros, e foi colocar-se defronte da criminosa, quando esta ia já ser alcançada pelas duas feras.

O populacho do cortiço e os trabalhadores da pedreira queriam acabá-la, ali mesmo, a unhas e dentes; porém o médico, muito esbofado, porque viera da rua lá a passo de lobo, o chapéu de castor no alto da cabeça, o suor a inundar-lhe o pescoço, os olhos faiscantes, mostrava os punhos e refilava as prezas, rosnando contra quem se aproximasse da "sua enferma".

Estava formidável; metia medo! Nunca homem nenhum defendeu, nem a própria amante, com tamanha dedicação.

Ninguém ousou tocar em Magdá.

Entretanto, outro facultativo cuidava de Luiz e Rosinha, mas sem resultado; os infelizes expiraram penosamente meia hora depois da intoxicação.

Afinal, chegaram as autoridades policiais. Fez-se o corpo de delito. Os cadáveres foram carregados para a sala do fundo. Expeliu-se o povo, fechou-se a casa e postaram-se soldados à porta.

Conduzida Magdá à presença de suas vítimas, interrogaram-lhe se ela conhecia aqueles mortos.

— Pois não!... perfeitamente, respondeu a alucinada.

E acrescentou, segurando os cabelos do moço da pedreira: — Este é o meu querido esposo bem amado, pai de meu filho, senhor poderoso na terra e descendente de Deus; matei-o e mais a essa outra que aí está, porque ele me traiu com ela!

XXI

Magdá, acompanhada pelo pai e pelo médico, foi nesse mesmo dia conduzida à Casa de Detenção.

Delirou por todo o caminho. Afigurava-se-lhe que o carro em que iam era um barco e a rua um grande rio deslizado entre paredes de verdura.

— Mais depressa! mais depressa! exclamava a insensata aos dois falsos tripulantes que tinha ao lado.

— Não deixem dormir os remos!

— Há de ser difícil encontrar semelhante ilha... observou um deles.

— E eu duvido muito que a encontremos... considerou o outro.

— Ah! disse a filha do Conselheiro, notando que o rio se alargava. — Talvez que apareça agora!...

— Mas isto já é o mar!... contrapôs um daqueles.

— Pois é justamente no mar que ela está... confirmou a desvairada.

— No mar? Pois a senhora quer viajar em pleno mar com um barquinho tão à toa?...

— Não faz mal! respondeu a senhora. — Não faz mal! Vamos adiante!

— É que é muito arriscado! Podemos levar o diabo!

— Procuremos! Procuremos!

— Procurar uma ilha como quem procura uma casa!...

— Não tenham medo! Vamos para a frente!

E o barco, embalançado agora pelas águas do alta mar, proejava errante; ora batido para a direita, ora para a esquerda; ora avançando, ora recuando, à procura da ilha encantada. Magdá, erguida de pé, os cabelos soltos ao vento, concheava a mão sobre os olhos e procurava descobrir ao longe, nos limbos do horizonte, algum ponto negro que lhe desse uma esperança.

— Por aqui não há ilha nenhuma!... objurgou um dos mareantes. — E' loucura continuarmos a procurá-la!...

— Mas como se chama esse tal demônio de ilha? perguntou o outro.

— Não sei, não sei como se chama, a "Ilha do Segredo" talvez, ou talvez nem tenha nome; porém juro-lhe que ela existe, porque é lá que eu vivo há muito tempo, é lá que moro com minha família! Procuremos! Procuremos! Eu lhes darei todas as minhas jóias, eu lhes darei, senhores, tudo o que possuo, menos meu filho! Não parem! não hesitem, por amor de Deus!

Com estas palavras os remadores pareciam criar novo ânimo.

— Espera! gritou um deles, no fim de algum tempo. — Há terra naquela direção!

— E, se me não engano é com efeito uma ilha... acrescentou o companheiro.

— Pois vamos lá! Vamos lá! suplicava a histérica, esfregando as mãos com impaciência.

— Mas como é longe!.

— Eu já nem sei por onde andamos!...

— Não desanimem! Não desanimem! Agora pouco falta! Vamos! — Um pequeno esforço!

Enormes vagalhões erguiam-se de todos os lados; o horizonte aparecia e desaparecia quase sem intermitência; o barquinho, tão depressa rastejava pelo fundo de abismos tenebrosos, como se alcantilava deslizando no claro dorso de espumosas montanhas; entretanto — seguia, seguia sempre, agora sem mais auxílio de remos, como se fosse levado por uma correnteza.

A ilha aumentava rapidamente defronte dos olhos de Magdá.

— É ela mesma! É ela! exclamava a louca. — Já daqui enxergo a colina, toda emplumada de bambus

E alçava os braços para o céu, rindo e chorando de alegria. — É ela! E' a minha querida prisão! É o meu ninho adorado! Vou tornar a vê-la! Vou habitá-la de novo! Que ventura, que ventura suprema!

E avançavam, cada vez mais aceleradamente, arrastados pelas águas. Em menos de um minuto avistavam-se já as palmeiras da campina; via-se rebrilhar ao sol o areal da praia; destacavam-se caminhos de verdura, e o teto da habitação surgia por entre massas de arvoredo.

Mas já ninguém podia resistir ao ímpeto da carreira que levava o barco; o miserável precipitava-se agora vertiginosamente como se fosse arrebatado por uma, pororoca.

— Agüenta! Agüenta! berravam os catraeiros.

— Estamos perdidos!

— Agüenta!

— Proteja-nos Deus!

— Valha-nos a Virgem!

Os marinheiros tinham a feroz catadura de quem vê a morte face a face. Praguejaram maldições, blasfêmias; depois abriram a chorar, como duas mulheres.

E Magdá sorria com a idéia de que, se expirasse afogada, o seu cadáver seria levado pelo oceano aos braços do milagroso amante, que a faria ressuscitar imediatamente.

Os dois homens rezaram, para morrer.

Redobrou a fúria da corrente. O barco rodopiava, que nem um tronco que a voragem sorveu. Magdá já não sentia ponto de apoio, já não via ninguém a seu lado, arrebatada por um turbilhão de vagas que a sufocavam.

Remoinhou nessa aflição alguns instantes; de súbito, ouviu um estrondo de onda que espoca e sentiu-se rolar na praia, cuspida numa golfada de espumas.

Correu até onde nascia a relva e deixou-se cair aí, prostrada.

Assim esteve longo tempo, descansando ofegante sobre a grama fresca e macia, completamente nua, os olhos fechados; toda ela penetrada por um capitoso perfume de magnólia. Este aroma, que dantes tanto a importunava, dava-lhe agora inefáveis consolações; era esse o perfume da sua ilha querida; esse o aroma do paraíso de amor, onde nascera o ente que ela mais estremecia no mundo.

Todavia a prostração não a deixava ainda correr ao encontro do filho; e seus lábios estalavam de sede pelos beijos dele, e toda ela ardia na impaciência da saudade.

— Maldito abatimento!

Entardeceu. Um vento fresco agitava agora os carnaúbais em melancólicos sussurros; a patativa gemia na mata, chamando o companheiro; e toda a ilha se apurpurava na fúlgida congestão do sol poente.

Magdá ergueu-se a meio na relva, admirada de que o marido ainda não tivesse dado por falta dela e não fosse à sua procura: "Não era aquela a hora em que todos os casais se recolhiam ao aconchego dos ninhos?..."

Ficou a cismar.

— Teria acontecido alguma desgraça?... disse consigo. E então, a idéia do envenenamento de Luiz e Rosinha veio-lhe à lembrança com o pânico de um sonho pressago.

Teve um arrepio. Recordou-se de os ter visto mortos, ao lado um do outro, lívidos e enrijados pela estricnina Seu coração encheu-se com um pressentimento horrível. Levantou-se logo e tomou aflita a direção da casa.

A porta estava aberta. Foi entrando.

Achou tudo deserto e silencioso.

Estremeceu aterrada.

— Luiz! gritou ela.

Ninguém respondeu.

— Luiz! Ó Luiz!

A sua voz perdia-se nos surdos murmúrios da tarde.

Sem ânimo de fazer uma conjetura, correu ao berço do filho.

Encontrou-o vazio.

Apalpou-lhe as roupas, levou-as à face — nenhum calor as aquecia.

Estremeceu de novo. E, já aturdida. mais pálida do que a estrela da manhã, foi a todos os cantos da casa, gritando pelo filho e chamando pelo esposo.

Nada! nada!

Saiu a correr; entranhou-se na mata, percorreu vales e montanhas; cercou doidamente a ilha inteira, gritando e chorando.

Não encontrou ninguém! ninguém!

Tornou pelos caminhos andados; bateu de novo todos os recantos da ilha, e voltou à casa, possessa, estrangulada de soluços.

— Roubaram meu filho! Roubaram meu filho!

E pôs-se a quebrar tudo que pilhava ao primeiro alcance. Arremessou por terra e de encontro às paredes, as jarras, o tinteiro, estatuetas e faianças; atirando depois consigo mesma ao chão, estrebuchando, torcendo-se em arco, encostando a cabeça nos calcanhares, a espumar entre dentes e a espolinhar-se como um hidrófobo. Em seguida começou a engatinhar, firmada nas mãos e nos joelhos, resbunando prolongadamente, com o pescoço estendido, a boca virada para o alto:

— Fernando! Fernando!

Corriam-lhe lágrimas pela face. De repente, ergueu-se e caiu de novo em fúria, a querer dar cabo de tudo; então sentiu que vigorosos pulsos a agarravam por detrás e enlaçavam-lhe os braços.

— Fernando! Fernando!

E tentava morder os que a seguravam, arremetendo com a cabeça para os lados.

Mas um homem suspendeu-a pelas costas e outro lhe enfiou pelos pés uma abominável mortalha de linho cru, que se lhe estreitava até ao pescoço, tolhendo-lhe o corpo inteiro.

E Magdá, em vão tentando debater-se na camisola de força, foi entre policiais, conduzida para uma célula nos braços do Dr. Lobão, que praguejava, furioso, por lhe não permitirem as leis carregá-la consigo no mesmo instante para a sua casa de saúde.

Ficou lá dentro sozinha, a roncar como uma fera encarcerada. O pai viu fecharem-lhe a jaula, mais sucumbido do que se aquela porta fosse a lousa de um túmulo.

— Está perdida para sempre! soluçou o desgraçado, resvalando no colo do médico,

O esquisitão fez que limpava o suor da testa, para disfarçar duas lágrimas rebeldes que lhe saltavam dos olhos escandalosamente.

F I M

Fonte: www.biblio.com.br

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