- E que tal?... monologava. Não é que estou há duas horas a pensar nisto?...
E não podia convencer-se de que ligava tão séria importância àquele casamento, procurando até capacitar-se de que tentara realizá-lo por uma espécie de compassiva indulgência para com Ana Rosa; entretanto, revolucionava-se todo só com a idéia de não levá-lo a efeito. "Ora adeus! também não morreria de desgosto por isso!... Não faltava bons partidos para fazer família!... dispor-se a procurar noiva!... Sim, nem lhe ficava bem insistir no projeto de casar com a prima!... No fim de contas aquela recusa grosseira, seca, o ofendia!... decerto que o ofendia!... Não! não devia pensar, nem por sombras, em semelhante asneira!... definitivamente não casaria com Ana Rosa!... Com qualquer, menos com ela! Nada! Como não, se aquilo já era uma questão de brios?..." Mas com este propósito, voltava-lhe, de um modo mais claro e positivo, uma grande admiração pelos encantos da rapariga, e um surdo pesar dissimulado, um desgosto hipócrita, de não poder possuí-la.
Manuel, a poucos passos, roncava com insistência incômoda; Raimundo, depois de virar-se muitas vezes na rede, ergueu-se fatigado, acendeu um charuto e saiu para a varanda. Um morcego, na curva do vôo, rogou-lhe com a ponta da asa, pelo rosto.
O luar entrava sem obstáculo ate à porta do quarto e estendia no chão uma luz branca. Raimundo encostou-se ao parapeito da varanda e ficou a percorrer com o olhar cansado a funda paisagem que se esbatia nas meias-tintas do horizonte como um desenho a pastei. O silêncio era completo; de repente, porém, a uma nota harmoniosa de contralto sucederam-se outras, prolongadas e tristes, terminando em gemidos.
O rapaz impressionou-se o canto parecia vir de uma árvore fronteira a casa. Dir-se-ia uma voz de mulher e tinha uma melodia esquisita e monótona.
Era o canto da mãe-da-lua. O pássaro levantou vôo, e Raimundo o viu então perfeitamente, de asas brancas abertas, a distanciar seus gorjeios pelo espaço. Considerou de si para si que os sertanejos tinham toda a razão nos seus medos legendários e nas suas crenças fabulosas. Ele, se ouvisse aquilo em São Brás lembrar-se-ia logo, com certeza, do tal pássaro que canta a finados. "Segundo a indicação do guia, continuava a pensar, a tapera amaldiçoada ficava justamente para o lado que tomara a mãe-da-lua. Devia ser naquelas baixas, que dali se viam. Não podia ser muito longe, e ele seria capaz de lá ir sozinho..." Veio distraí-lo destas considerações um frouxo vozear misterioso, que lhe chegava aos ouvidos de um modo mal balbuciado e quase indistingüível. Prestou toda a atenção e convenceu-se de que alguém contou toda a atenção e convenceu-se de que alguém conversava ou monologava em voz baixa por ali perto. Quedou-se imóvel a escutar. "Não havia dúvida! Desta vez ouvira distintamente! Chegara a apanhar uma ou outra palavra! Mas, onde diabo seria aquilo?..."
Foi ao quarto de Manuel, o bom homem dormia como uma criança; agora associava em vez de ressonar. Atravessou pé ante pé a varanda inteira- nada descobriu; voltou pelo lado oposto ao luar- ainda nada! "Seria
lã embaixo?..." Desceu, mas deixou de ouvir o sussurro. "Ora esta!... A coisa
era lá mesmo em cima!... Mas em cima não havia outros hóspedes, além dele
e Manuel, dissera-lhe 0 Cancela!..." Tornou a subir, mas desta vez pela escada
do fundo. "Oh! agora a coisa estava mais clara." Raimundo ouviu frases inteiras,
e queixas, lamentações, palavras soltas, ora de revolta, ora de ternura. "Era
de enlouquecer!... Quem diabo estaria ali falando?..."
- Quem está ai?! gritou ele, no último lance da varanda, com a voz um pouco alterada.
Ninguém respondeu, e o murmúrio misterioso caiou-se logo. Raimundo esperava todavia, possuído já de certa impaciência nervosa e com o ouvido ainda impressionado do estranho efeito da sua própria voz a perguntar no silêncio: "Quem está ai?" Decorreu um espaço que lhe pareceu infinito, e afinal reapareceu o vozear, agora porém muito
mais afastado, vindo do lado contrário ao lado em que ele estava. Encaminhou-se, tão em silêncio lhe foi possível, na direção da voz misteriosa, e notou satisfeito que esta ia gradualmente se alteando.
- Oh! fez Raimundo consigo, maravilhado. Tinha ouvido bem claro o seu nome, e o de seu pai "José do Eito". Redobrou de atenção. "Estaria sonhando? Aquela vez infernal falava dubiamente de São Brás, do padre Diogo, de D. Quitéria e outras pessoas que ele não sabia quem eram. Com certeza ia ouvir alguma coisa a respeito de - sua mãe! - Seria a primeira vez! Oh! já não era sem tempo!..." Reprimiu a respiração; faz-se todo ouvidos; estava trêmulo, frio, nunca sentira comoção tamanha.
Mas a voz falou, falou, referindo-se aos acontecimentos maiores de São Brás, fazendo revelações, citando, um por um, todos os personagens, menos a mãe de Raimundo. Este, na treva, com o coração oprimido, estendia a cabeça, arregalava os olhos, arfando-lhe o peito. Nada. "Que desespero!" Mas a voz prosseguia, e ele escutava. De súbito, porém, caiou-se tudo e nada mais se ouviu que o piar longínquo das aves noturnas.
Raimundo esperou, estático e sôfrego, dois minutos, quatro, cinco. Foi inútil-a voz não reapareceu. "De sua mãe - nem uma palavra!... Maldita conspiração!..." No fim de meia hora percorreu de novo a varanda; não sabia que julgar daquilo, nem o que devia fazer, mas jurava descobrir tudo. "Oh! quem quer que falara estava perfeitamente a par da história de São Brás e havia de saber alguma coisa de sua vida!..." Foi à alcova, tomou o candeeiro, deu-lhe luz, percorreu os vários lados da varanda, entrou nos aposentos abertos, desceu, andou lã por baixo, às tontas, porque estava tudo atravancado de coisas, tomou a subir, sem conseguir nada, e, aborrecido, frenético, tomou ao seu quarto, diminuiu a luz e deitou-se, sem descalçar as botas.
Não fechara a porta, de propósito; estava alerta, ao primeiro n mor saltaria. Contudo cerrou as pálpebras; a fadiga da viagem pedia repouso; já era quase madrugada. Ia adormecer.
Mas, um leve e surdo ruído despertara-o. Raimundo encolheu-se na rede e insensivelmente se lembrou do revólver que tinha a seu lado; na porta desenhava-se, contra a claridade exterior, a mais esquálida, andrajosa e esquelética figura de mulher, que é possível imaginar. Era uma preta alta, cadavérica, tragicamente feia, com os movimentos demorados e sinistros, os olhos cavos, os dentes encarnados.
O rapaz, apesar da sua presença de espírito, teve um forte sobressalto de nervos; todavia, não se mexeu, na esperança de ouvir ainda alguma revelação; o espectro porém, olhou em torno de si, viu-o, sorriu, e tomou a sair silenciosamente.
Raimundo levantou-se de um pulo e precipitou-se atrás dele que fugiu na sua frente, como uma sombra. Atravessaram o primeiro lance da varanda, o segundo e o terceiro.
9.0pt;text-autospace:none'> O fantasma desapareceu pela porta do fundo, Raimundo acompanhou-o com dificuldade e, ao chegar lá embaixo, avistou-o já no pátio, a fugir-lhe sempre. O rapaz tinha contra si não conhecer o terreno; foi às apalpadelas e aos encontrões que conseguira atravessar a parte inferior da casa. Lá fora havia já perdido de vista a sombra fugitiva; olhou em tomo de si, caminhou à toa de um para outro lado, nervoso, irrequieto, voltando-se rápido ao menor mexer de galhos. Afinal, auxiliado pela lua, divisou em distancia o vulto sinistro, que se afastava, prestes a sumir-se nas meias-tintas da noite. Então abriu contra ele numa vertiginosa carreira de boas pernas; mas o vulto embrenhando-se no mato, desapareceu totalmente.
Entretanto, os primeiros sintomas do dia avermelhavam o horizonte e nos ranchos erguia-se já a escravatura para o trabalho das roças. As poucas horas em que Raimundo encostou a cabeça. para descansar um bocado, foram cheias de sonho.
Ao levantar-se pelas sete da manhã, aborrecido e quase em dúvida se sonhara toda a noite ou se, com efeito, vira e ouvira o singular espectro. Todavia, ao almoço. conversou-se alegremente sobre o fato, e o Cancela explicou que o fantasma devia ser alguma dessas muitas pretas velhas, agregadas aos ranchos das fazendas e que naturalmente estava bêbada. E contou que, nas noites de-tambor - elas costumavam dormir; por ali, no primeiro
rancho encontrado em caminho. Ali mesmo havia sempre uma súcia dessas pestes; apareciam e desapareciam, sem ninguém lhes perguntar donde vinham, nem para onde iam.
- São escravas fugidas? indagou Raimundo.
O Cancela respondeu que não. Os mocambeiros formavam grupo a parte; nunca apareciam publicamente, viviam escondidos nos seus quilombos e só se mostravam na estrada real para atacar os viajantes. Os agregados eram pretos forros, forros em geral com a morte de seus senhores, e que habituados desde pequenos ao cativeiro não tendo já quem os obrigasse a trabalhar e não querendo sair do sertão, ficavam por ai ao Deus dará, pedinchando pelas fazendas um bocado de arroz para matar a tome, e um pedaço de chão coberto para dormir; Simples vagabundos, que não faziam mal a ninguém.
- Olhe, continuou ele, de São Brás tínhamos aqui a principio três que andavam p'r'aí sem fazer nada. Dois morreram e eu enterrei-os, o terceiro não sei se ainda existe, é uma preta idiota. Talvez a que o senhor doutor viu esta noite.
E, como Raimundo pedisse mais informações, acrescentou que ela as vezes passava meses inteiros na fazenda; os pretos gostavam de ouvi-la cantar e vê-la dançar. Doida varrida! estava sempre resmungando ia consigo; mas que, de tempos áquela parte, não aparecia, era bem possível que o pobre-diabo tivesse Já esticado a canela ai pelo mato.
Falou-se também da mãe-da-lua. Cancela contou velhas anedotas de estrangeiros que se perderam nas matas, seguindo o canto original daquele pássaro. Depois trataram de interesses; e fechou-se o negocio da fazenda - Raimundo estava por tudo, contanto que lhe não demorassem a partida -- ardia de impaciência por visitar São Brás.
Não obstante, o Cancela instava com os dois hóspedes para que se demorassem uma semana, ou, pelo menos, alguns dias
Manual disparatou: Que loucura! Pois ele podia lá passar dias longe do seu armazém?:..
Então que partissem pela manhã seguinte.
Nada! Havia de ser naquela mesma noite! Para que diabo agüentar sol pelo caminho, quando tinham um luar que nem dia?...
O jantar demorava-se e Raimundo mal podia conter a sua contrariedade. S6 às três horas da tarde conseguiram levantar acampamento.
- Leve-nos a São Brás, disse ele ao guia, logo que se acharam fora do portão da fazenda.
- A São Brás? Deus me livre.
E o caboclo, depois de benzer-se, perguntou para que diabo iam a São Brás.
- Ora essa! Não é de sua conta! Leve-nos!
-A São Brás não vou!
- Essa é melhor' Não vai! Então que veio você fazer conosco senão guiar-nos?
- Sim senhor, mas é que a São Brás não vou, nem amarrado!
- Vá para o inferno! Iremos nós! Ó se'or Manuel, o senhor não sabe o caminho?
- Verdade, verdade, o homem não deixa de ter sua razão! . No fim de contas que diacho vai fazer o amigo àquela tapera?...
- É boa! Ver o lugar em que nasci..
- Tem razão, mas...
- Se não quiser ir, vou só!
- Mas o senhor sabe que...
- Contam bruxarias do lugar, e há quem acredite nelas... Faço-lhe, porém, a justiça de não supô-lo desses...
Os cavalos ganhavam a Estrada Real.
- Homem, disse Manuel, lá saber o caminho, eu sei, e o guia, se não quisesse vir, poderia esperar-nos ao pé da cruz, mas... confesso-lhe: tenho meu receio dos mocambeiros... além disso... quem, como eu, ouviu as últimas palavras de meu irmão...
- De meu pai?! exclamou Raimundo vivamente. Oh! Conte-me isso!
- O senhor há de rir-se.. São coisas que parecem asneira... Hoje, os moços não acreditam em nada! Mas é que certas palavras, ouvidas da boca de quem vai morrer... mexem com a gente... não acha? fazem um homem ficar assim meio aquele! Olhe, meu amigo, eu digo-lhe aqui entre nós, e o senhor não se mace, seu pai não teve a vidinha lá muito sossegada, não! Depois que casou, neo se dava com pessoa alguma, e nem a própria sogra queria saber dele... vivia como que abandonado! Eu era nesse tempo principiante no comércio e quase que não podia arredar pé do trabalho, contudo, aqui vim três vezes; porém creia que não gostava de cá vir!... Era uma tal tristeza!... Doía-me de ver o José tão desprezado, tão triste, que parecia estar a cumprir uma sentença! Viajante nenhum aceitava o pouso em São Brás; preferiam dormir; ao relento e as cobras! Contavam que alta noite ouviam-se constantemente gritos horríveis na fazenda, pancadas por espaço de muitas horas, correntes arrastadas; os escravos morriam sem saber de quê! Enfim, o cônego Diogo, que era o vigário desta freguesia, confessa que nunca lhe soube dar volta! E olhe, coitado! meteu-se-lhe em cabeça abençoar e proteger São Brás, e quase ia sendo vitima da sua dedicação! até ficou assim a modo de aluado! E, foi tão perseguido por cá, que o pobre homem viu-se obrigado a abandonar a paróquia! Ainda hoje, quando lhe toco nisso, benze-se todo! Pois pode crer o senhor que ele era o mais íntimo amigo de meu irmão e o único talvez que ultimamente lhe freqüentava a casa; entretanto, compreenda-se lá, seu pai, já por último não o queria ver nem pintado! e, nos delírios das suas febres, estava sempre a ver fantasmas e a gritar como um doido que queria dar cabo do padre! "Quero matar o padre! - Tragam-me o padre! - O padre é que é o culpado de tudo!" Este fulano padre era o cônego! Eu não quis nunca falar nestas coisas ao compadre, porque, cismático como é, podia agastar-se comigo!...
E, depois de uma pausa
- Ora, já vê o meu amigo que, apesar de não acreditar em almas do outro mundo, tenho as minhas razões para...
Raimundo procurava disfarçar a preocupação em que o punham as palavras de Manuel, e declarou que, se este não estava disposto a ir a São Brás, que se ficasse com o guia, ele iria só.
- Mas saiba, disse, que ao caboclo perdôo o medo, porque enfim não está na altura de certas verdades, mas ao senhor...
- Eu neo tenho medo de coisa alguma, já disse!...
- Receia sempre que o diabo lhe saia ao encontro, compreendo!
E o rapaz fingiu uma gargalhada, para intimidar o companheiro.
- Não, mas é que...
- Ora deixe-se de histórias! O senhor não me parece um homem!...
Manuel cedeu afinal, e os dois tomaram a direção da .tapera.
Fizeram em silêncio todo o caminho; Raimundo por muito comovido e Manuel por amedrontado.
Instintivamente, pararam em respeitável distância.
- Creio que chegamos! arriscou o moço.
E, avançando alguns passos, disse ao outro:
- Lá está ela!
- Ó de casa! gritou Manuel.
Só o eco respondeu.
Adiantaram-se mais e Raimundo gritou por sua vez, com o mesmo resultado.
- Ande, senhor Manuel! Estamos a quixotear... Aqui não há viva alma!...
Mais alguns passos e estavam defronte da tapera.
Eram os restos de uma casa térrea, sem reboque e cujo madeiramento de lei resistira ao seu completo abandono.
Ia anoitecer. O sol naufragava, soçobrando num oceano de fogo e sangue; o céu reverberava como a cúpula de uma fornalha; o campo parecia incendiado.
Como era preciso aproveitar o dia, os dois viajantes apearam-se logo, cada qual prendeu o seu cavalo, e introduziram-se na varanda da casa por uma brecha que cortava de alto a baixo o primeiro pano de parede. Essa parte estava completamente arruinada e cheia de mato; os camaleões, as osgas e as mucuras fugiam espantados pelos pés de Raimundo, que ia galgando moitas de urtiga e capim-bravo.
Lá dentro a tapera tinha um duro aspecto nauseabundo. Longas telas de aranha pendiam tristemente em todas as direções, como cortina de crepe esfacelado; a água da chuva, tingida de terra vermelha, deixara, pelas paredes, compridas lágrimas sangrentas que serpeavam entre ninhos de cobras e lagartos; a um canto descobria-se no chão ladrilhado um abominável instrumento de suplício, era um tronco de madeira preta, e os seus buracos redondos, que serviam para prender as pernas, os braços ou o pescoço dos escravos, mostravam ainda sinistras manchas arroxeadas.
Os dois seguiram adiante, penetrando o interior da casa. Ao transporem cada porta fugia na frente deles uma nuvem negra de morcegos e andorinhas. O solo, empastado de excremento de pássaros e répteis era pegajoso e úmido; o telhado abria em vários pontos, chorando uma luz morna e triste; respirava-se uma atmosfera de calabouço. De um charco vizinho a casa palpitava, monótono como um relógio, o rouquenho coaxar das rãs. Os pássaros passavam de uma para outra árvore, cortando o silêncio da tarde, com os seus gemidos prolongados e agudíssimos; do fundo tenebroso da floresta vinham de espaço a espaço o gargalhar das raposas, e os gritos sensuais dos macacos e sagüins. Era já o concerto da noite.
Manuel, um tanto comovido, contemplava demoradamente as ruínas que o cercavam, procurando descobrir naqueles restos mudos e emporcalhados, a antiga residência de seu irmão. Nada lhe trazia à lembrança uma nota ainda viva do passado.
- Vejamos agora por aqui... disse ele, passando, seguido pelo sobrinho, a um quarto, cujas janelas tinham as folhas despregadas e prestes a desabar. Era este o quarto de José...
E pôs-se a meditar.
Raimundo olhava para tudo com uma grande tristeza, infinita, sem bordas, mas fechada que nem um horizonte de névoas. "Como seria seu pai?..." pensava ele, sem uma palavra, como seria esse bom homem, que nunca se descuidara da educação do pobre Raimundo?... Quantas vezes, naquele quarto, talvez junto a uma daquelas janelas, olhando para a quinta, não pensaria o infeliz no querido filho, que tinha tão longe dos seus afagos?... E sua mãe?... Sua pobre mãe desconhecida, estaria ali, ao lado dele, ou, quem o sabia? escondida, envergonhada, a chorar as faltas em algum desterro humilhante?...
- Aqui, disse Manuel, batendo no ombro do companheiro, nasceu o senhor, meu amigo, e viveu os seus primeiros anos...
Raimundo sentia um desejo doido de perguntar pela mãe, mas não se achava com animo; temia agora uma inesperada decepção, uma agonia inédita, que o esmagasse de todo; receava alguma verdade implacável e fria, rija, de aço, que o atravessasse de lado a lado, como uma espada. Até ali, ninguém lhe falara nela. "É que, sem duvida, havia em tudo aquilo um segredo de família, alguma paixão vergonhosa, uma falta horrível, talvez um crime abominável, que ninguém ousava revelar! E, no entanto, Raimundo tinha plena certeza de que aquele homem, que ali estava em sua presença, ao alcance de suas palavras, sabia de tudo e poderia. se quisesse, arrancá-lo para sempre daquela maldita incerteza!.. Quem seria ela?... essa estranha mãe misteriosa, por quem ele sentia um amor desnorteado?... Alguma senhora, bonita sem dúvida, porque causava crimes; criminosa ela própria, por amor, a inspirar loucuras a seu pai, a acender-lhe uma paixão fatal e romanesca, cheia de sobressaltos e de remorsos! E desse amor secreto e criminoso, desse adultério, que sem dúvida causou a morte de seu pai, nascera ele!... Mas, por que não lhe contavam tudo com franqueza?... Por que não lhe diziam toda a verdade?... Oh! devia ser um segredo infernal, para o esconderem com tamanho empenho!..." E, acabrunhado por estes raciocínios, humilhado pela dúvida de si próprio, miserável e triste, Raimundo percorria a casa, em silêncio.
Despertou-o de novo a voz de Manuel:
- Vamos à capela, antes que anoiteça de todo.
Entraram primeiro no cemitério. Estava arrasado. Manuel apontou para uma velha sepultura, e disse ao outro com respeito:
- Ali está seu pai!
Raimundo chegou-se para o túmulo, descobriu-se, e procurou ler na carneira alguma inscrição que lhe falasse do morto. Absolutamente nada! o tempo apagara da pedra o nome de seu pai. Ali só havia um pedaço de mármore carunchoso e negro. Deixara de ser uma tabuleta, era uma tampa. O rapaz sentiu então, mais do que nunca, pesar-lhe dentro dalma, como uma barra de chumbo, todo o mistério da sua vida; compreendeu que sobre
esta havia também uma pedra silenciosa e negra; compreendeu que o seu passado nada mais era do que outra sepultura sem epitáfio.
Enovelou-se-lhe na garganta um godilhão de soluços e Raimundo sentiu a necessidade de ajoelhar-se defronte do silêncio daquele túmulo.
Manuel afastara-se discretamente, tossindo, para disfarçar a sua comoção. O moço enxugava as lágrimas, agora abundantes e fartas; depois encaminhou-se para uma outra cova mais adiante, abrigada por uma frondosa mangueira. Estava já vazia e com a lousa fora do lugar. Naturalmente, os parentes do cadáver haviam retirado dali os ossos para alguma igreja da capital. A posição da lápida da árvore serviram de resguardo ao epitáfio; Raimundo passou o lenço por ama dele e conseguiu ler o seguinte: "Aqui jazem os restos mortais de Quitéria Inocência de Freitas Santiago, filha extremosa, esposa exemplar; Casou em 15 de dezembro de 1845 e faleceu em 1849. Orai por ela."
- Não há dúvida que, além de bastardo, descendi de uma tremenda vergonha! Meu nascimento combina aproximadamente com estes algarismos...
E, tendo monologado estas palavras, chegou ao fundo do cemitério e achou-se defronte de uma capela. Entrou, galgando três degraus escalavrados. Uma coruja fugiu espavorida. A luz triste da lua filtrava-se já pelas aberturas do telhado, mas pelas janelas entrava de rojo o quente lusco-fusco do crepúsculo. Raimundo, ao chegar à sacristia, estacou e estremeceu todo: o vulto esquelético e andrajoso, que lhe aparecera à noite, como um fantasma, ali estava naquela meia escuridão, a dançar uns requebros estranhos, com os braços magros levantados sobre a cabeça. O rapaz sentiu gelar-lhe a testa um suor frio e conservou-se estático, quase duvidoso de que aquilo que tinha defronte de si fosse uma figura humana.
Todavia, a múmia se aproximava dele, a dar saltos, estalando os dedos ossudos e compridos. Viam-se-lhe os dentes brancos e descamados, os olhos a estorcerem-se-lhe convulsivamente nas órbitas profundas, e a caveira a desenhar-se em ângulos através das carnes. Ora erguia as mãos, descaindo a cabeça; ora fazia voltas, sapateando e dando pungas no ar.
De repente deu com Raimundo e precipitou-se para ele de braços abertos. Na primeira impressão o rapaz recuava com repugnância, mas, caindo logo em si, aproximou-se da louca e perguntou-lhe se conhecia quem morara naquela fazenda.
A idiota olhou para ele, e riu-se sem responder.
- Não conheceste o José da Silva ou José do Eito?
A preta continuou a rir. Raimundo insistiu no seu interrogatório mas sem obter resultado algum. A doida o considerava fixamente, como que procurando reconhecer-lhe as feições; de súbito, deu um salto sobre ele, tentando abraçá-lo; o rapaz não tivera tempo de fugir e sentiu-se em contacto com aquele corpo repugnante. Então num assomo nervoso repeliu-a bruscamente. Ela caiu para trás, estalando os ossos contra os tijolos do chão.
Raimundo saiu de carreira para reunir-se a Manuel, porém a idiota alcançou-o, já no cemitério, e arremessou-se de novo contra ele.
- Não me toques! gritava o moço, com raiva, levantando o chico
Manuel acudiu correndo:
- Não lhe bata, doutor! Não lhe bata, que é doida! Conheço-a!
- Mas, se ela não me quer deixar!... Sai! Sai, diabo! Olha que te
Manuel mostrava-se agoniado e surpreso.
- Já! disse ele, intimidando a louca. Já pra dentro!
A preta retomou-se humildemente.
- Quem é ela? perguntou Raimundo, lá fora, tratando de montar. O senhor disse que a conhecia.
Essa pobre negra... respondeu Manuel hesitante, foi escrava de seu pai. Vamos!
E puseram-se a caminho.
Voltaram ambos impressionados da tapara. Manuel tentara por duas vezes uma conversa que não vingara no ânimo acabrunhado do companheiro; Raimundo respondia maquinalmente às suas palavras, ia muito preocupado e aborrecido. Na dúvida da sua procedência e com a certeza do seu bastardismo, vinha-lhe agora uma estranha suscetibilidade; não sabia por que motivo, mas sentia que precisava, que tinha urgência, de uma explicação cabal do que levou Manuel a recusar-lhe a filha. "Com certeza estava ai a ponta do mistério!"
Ele o que queria era penetrar no seu passado, percorrê-lo, estudá-lo, conhecê-lo a fundo; encontrara até então todas as portas fechadas e mudas, como a sepultura de seu pai; embalde bateu em todas elas; ninguém lhe respondera. Agora um alçapão se denunciava na recusa de Manuel; havia de abri-lo e entrar, custasse o que custasse, ainda que o alçapão despejasse sobre um abismo.
E, tão dominado ia pela sua resolução que, ao passar pelo cruzeiro da Estrada Real, nem só deu por ele, como pelo guia que logo se pusera a caminho.
- Ó meu amigo! gritou-lhe o tio Isto também não vai assim!... Despeça-se deste lugar!
E apeou-se, para depor aos pés da cruz um galho de murta.
Raimundo voltou atrás e, depois de um grande silencio, fitou Manuel e perguntou-lhe. externando um retalho do pensamento que o dominava:
- Ela será, porventura, minha irmã?...
- Ela, quem?
- Sua filha
O negociante compreendeu a preocupação do sobrinho.
- Não.
Raimundo tomou a mergulhar no pau} da sua dúvida e das conjeturas, procurando de novo o motivo daquela recusa, como quem procura um objeto no fundo dágua; e a sua inteligência, de outras vezes tão lúcida e perspicaz, sentia-se agora impotente e cega, às apalpadelas, às tontas, desesperada, quase extinta, nas lamacentas e misteriosas trevas do pântano.
E, de tudo isso, vinha-lhe um grande mal-estar. Depois da negativa de Manuel, Ana Rosa afigurava-se-lhe uma felicidade indispensável; já não podia compreender a existência, sem a doce companhia daquela mulher simples e bonita, que, no seu desejo estimulado, lhe aparecia agora sob mil novas formas de sedução. E, na sua fantasia enamorada, acariciava ainda a idéia de possuí-la, idéia, que, só então o notava, dormira todas as noites com ele, e que agora, ingrata, queria escapar-lhe com as desculpas banais e comuns de uma amante enfastiada. Oh! sim! desejava Ana Rosa! habituara-se imperceptivelmente a julgá-la sua; ligara-a a pouco e pouco, sem dar por isso, a todas as aspirações da sua vida; sonhara-se junto dela, na intimidade feliz do lar, vendo-a governar uma casa que era de ambos, e que Ana Rosa povoava com a alegria de um amor honesto e fecundo. E agora, desgraçado-olhava para toda essa felicidade, como o criminoso olha, através às grades do cárcere para os venturosos casais, que se vão lá pela nua, de braço dado, rindo e conversando ao lado dos filhos. E Raimundo antejulgava perfeitamente que aquele empenho de Manuel em negar-lhe a filha, longe de arredá-la do seu amor, mais e mais o empurrava para ela, ligando-a para sempre ao seu destino.
- Terá sua filha alguma secreta enfermidade, que levasse o mé
dico a proibir-lhe o casamento? Terá algum defeito
orgânico?...
- Oh! com efeito! O senhor tortura-me com as suas perguntas'. . creia que, se eu pudesse dizer-lhe a causa de minha recusa, tê-lo-ia feito desde logo! Oh!
Raimundo não pôde conter-se e disparatou, fazendo estacar o seu cavalo.
- Mas o senhor deve compreender a minha insistência! Não se diz assim, sem mais nem menos, a um homem que vem, legitima e constenciosamente, pedir a mão de uma senhora, que a isso o autorizou. "Não lha dou, porque não quero!" Por que não quer? "Porque não! Não posso dizer o motivo!..." P boa! Tal recusa significa uma ofensa direta a quem faz o pedido! Foi uma afronta à minha dignidade. O senhor há de concordar que me deve uma resposta, seja qual for! uma desculpa! uma mentira, muito embora! mas, com todos os diabos! e necessária uma razão qualquer!
- É justo, mas...
- Se me dissesse: "Oponho-me ao casamento, porque antipatizo solenemente com o seu caráter". Sim senhor! Não seda uma razão plausível, mas estaria no seu direito de pai, mas o senhor...
- Perdão! eu não podia dizer semelhante coisa depois de o haver elogiado por várias vezes, e ter-me declarado, como repito, seu amigo e seu apreciador...
- Mas então?! Se é meu amigo, que diabo! diga-me a razão com franqueza! tire-me, por uma vez, deste maldito inferno da duvida! declare-me o segredo da sua recusa, seja qual for, ainda que uma revelação esmagadora! Estou disposto a aceitar tudo, tudo! menos o mistério, que esse tem sido o tormento da minha vida! Vamos, fale! suplico-lhe por... aquele que caiu assassinado!-E apontou na direção da cruz. Era seu irmão e dizem que meu pai... Pois bem, peço-lhe por ele que me fale com franqueza! Se sabe alguma coisa dos meus antepassados e do meu nascimento, conte-me tudo! Juro-lhe que lhe ficarei reconhecido por isso! Ou, quem sabe? serei tão desprezível a seus olhos, que nem sequer li e mereça tão miserável prova de confiança?...
- Não! não! ao contrário, meu amigo! Eu até levaria muito em gosto o seu casamento com a minha filha, no caso de que isso tivesse lugar!... E só peço a Deus que lhe depare a ela um marido possuidor das suas boas qualidades e do seu saber; creia, porém, que eu, como bom pai, não devo, de forma alguma, consentir em semelhante união. Cometeria um crime se assim procedesse!...
- Com certeza há parentesco de irmão entre ela e eu!
- Repare que me está ofendendo...
- Pois defenda-se, declarando tudo por uma vez!
- E o senhor promete não se revoltar com o que eu disser?...
- Juro. Fale!
Manuel sacudiu os ombros e resmungou depois, em ar de confidencia:
- Recusei-lhe a mão de minha filha, porque o senhor é... é filho de uma escrava...
- Eu?!
- O senhor é um homem de cor!... Infelizmente esta é a verdade...
Raimundo tomou-se lívido. Manuel prosseguiu, no fim de um silêncio:
23.3pt;text-autospace:none'> - Já vê o amigo que não é por mim que lhe recusei Ana Rosa mas e por tudo! A família de minha mulher sempre foi muito escrupulosa a esse respeito, e como ela é toda a sociedade do Maranhão! Concordo que seja uma asneira; concordo que seja um prejuízo tolo! o senhor porém não imagina o que é por cá a prevenção contra os mulatos!... Nunca me perdoariam um tal casamento; além do que, para realizá-lo, teria que quebrar a promessa que fiz a minha sogra, de não dar a neta senão a um branco de lei, português ou descendente direto de portugueses!... O senhor é um moço muito digno, muito merecedor de consideração, mas... foi forro à pia, e aqui ninguém o ignora
- Eu nasci escravo?!...
- Sim, pesa-me dizê-lo e não o faria se a isso não fosse constrangido, mas o senhor é filho de uma escrava e nasceu também cativo.
Raimundo abaixou a cabeça. Continuaram a viagem. E ali no campo, à sombra daquelas árvores colossais, por onde a espaços a lua se filtrava tristemente, ia Manuel narrando a vida do irmão com a preta Domingas. Quando, em algum ponto hesitava por delicadeza em dizer toda a verdade, o outro pedia-lhe que prosseguisse francamente, guardando na aparência uma tranqüilidade fingida. O negociante contou tudo o que sabia.
- Mas que fim levou minha mãe?... a minha verdadeira mãe? perguntou o rapaz, quando aquele terminou, Mataram-na? Venderam-na??? O que fizeram dela?
- Nada disso; soube ainda há pouco que está viva... E aquela pobre idiota de São Brás.
- Meu Deus! exclamou Raimundo, querendo voltar à tapera.
- Que é isso? Vamos! Nada de loucuras! Voltarás noutra ocasião!
Calaram-se ambos. Raimundo, pela primeira vez, sentiu-se infeliz; uma nascente má vontade contra os outros homens formava-se na sua alma ate ai limpa e clara; na pureza do seu caráter o desgosto punha a primeira nódoa. E, querendo reagir, uma revolução operava-se dentro dele; idéias turvas, enlodadas de ódio e de vagos desejos de vingança, iam e vinham, atirando-se raivosos contra os sólidos princípios da sua moral e da sua honestidade, como num oceano a tempestade açula contra um rochedo os negros vagalhões encapelados. Uma só
palavra bolava à superfície dos seus pensamentos: "Mulato". E crescia, crescia, transformando-se em tenebrosa nuvem, que escondia todo o seu passado. Idéia parasita, que estrangulava todas as outras idéias.
- Mulato!
Esta só palavra explicava-lhe agora todos os mesquinhos escrúpulos, que a sociedade do Maranhão usara para com ele. Explicava tudo: a frieza de certas famílias a quem visitara; a conversa cortada no momento em que Raimundo se aproximava; as reticências dos que lhe falavam sobre os seus antepassados; a reserva e a cautela dos que, em sua presença, discutiam questões de raça e de sangue; a razão pela qual D. Amância lhe oferecera um espelho e lhe dissera: "Ora mire-se!" a razão pela qual diante dele chamavam de meninos os moleques da rua. Aquela simples palavra dava-lhe tudo o que ele até aí desejara e negava-lhe tudo ao mesmo tempo, aquela palavra maldita dissolvia as suas dúvidas, justificava o seu passado; mas retirava-lhe a esperança de ser feliz, arrancava-lhe a pátria e a futura família; aquela palavra dizia-lhe brutalmente: "Aqui, desgraçado, nesta miserável terra em que nasceste, só poderás amar uma negra da tua laia! Tua mãe, lembra-te bem, foi escrava! E tu também o foste!"
- Mas, replicava-lhe uma voz interior, que ele mal ouvia na tempestade do seu desespero; a natureza não criou cativos! Tu não tens a menor culpa do que fizeram os outros, e no entanto és castigado e amaldiçoado pelos irmãos daqueles justamente que inventaram a escravidão no Brasil!
E na brancura daquele caráter imaculado brotou, esfervilhando logo, uma ninhada de vermes destruidores, onde vinham o ódio, a vingança, a vergonha, o ressentimento, a inveja, a tristeza e a maldade. E no circulo do seu nojo, implacável e extenso, entrava o seu país, e quem este primeiro povoou, e quem então e agora o governava, e seu pai, que o fizera nascer escravo, e sua mãe, que colaborara nesse crime. "Pois então de nada-lhe lhe valia ter sido bem educado e instruído; de nada lhe valia ser bom e honesto?... Pois naquela odiosa província, seus conterrâneos veriam nele, eternamente, uma criatura desprezível, a quem repelem todos do seu seio?.." E vinham-lhe então, nítidas 3 luz crua do seu desalento, as mais rasteiras perversidades do Maranhão; as conversas de porta de botica, as pequeninas intrigas que lhe chegavam aos ouvidos por intermédio de entes ociosos e objetos, a que ele nunca olhara senão com desprezo. E toda essa miséria, toda essa imundícia, que ate então se lhe revelava aos bocadinhos, fazia agora uma grande nuvem negra no seu espírito, porque, gota a gota, a tempestade se formara. E, no meio desse vendaval, um desejo crescia, um único, o desejo de ser amado, de formar uma família Um abrigo legítimo, onde ele se escondesse para sempre de todos os homens.
Mas o seu desejo só pedia, só queria, só aceitava Ana Rosa, como se o mundo inteiro houvera desaparecido de novo ao redor daquela Eva pálida e comovida, que lhe dera a provar, pela primeira vez, o delicioso veneno do fruto proibido.