Como são bons e alegres, que pois têm bom o estômago e puro o sangue! O bom estômago é a base de toda e qualquer felicidade possível.
Sem estar em perfeito estado o estômago, não pode haver alegria; 61 sem alegria não há saúde e, sem esta, que seria a virtude? A virtude é uma conseqüência da saúde e da alegria; a tristeza depõe contra a virgindade e contra o amor. E finalmente que são a virtude, a saúde e a alegria, senão a mais completa felicidade humana – a família? De mais – a beleza! Não será ela o conjunto dessas três qualidades reunidas? Não será a beleza a continuação da saúde, da alegria e da virtude? – Certamente que sim, como certamente é esta a única possível e verdadeira fortuna.
Logo, os filhos das grandes capitais são geralmente maus e duplamente desgraçados, que além da desgraça de o ser, têm ainda a, porventura maior, de conhecer que o são.
E todavia continuam a ir se torcendo dentro das suas jaulas de ouropel, a entulharem, com os esqueletos vivos – os hospitais, e com os mortos – os cemitérios.
Deixemo-los viver ou morrer.
3 Para onde e para que se dispunha Miguel com tanto afã? Ë o que vamos ver e o que necessariamente ficou concertado desde aquela singular entrevista na choupana de Sombra da Noite.
Prepararam-se como para uma pesca no alto-mar; Miguel abriu francamente a bolsa a Sombra da Noite, e este soube servir-se dela com inteligência e economia; fretara um barco grande de pescar, comprara provisões, salgara bastante peixe, empacotara lenha, bolacha e frutas secas, enchera duas talhas de água fresca, munira-se de bom vinho e aguardente, arranjara duas macas, alcatroara os competentes archotes de feno e com tal zelo e atividade se houve em tudo, que à meia-noite todo o necessário estava pronto.
O vento era favorável e já o barco se sacudia impaciente na praia.
Entre esta e o barco, grosso archote, coberto de resina, espalhava um clarão avermelhado e fumífero, parecia, refletindo na umidade da areia, uma brasa cuidadosamente colocada sobre uma lâmina de vidro.
De vez em quando interrompia a luz do archote o vulto negro de Sombra da Noite, carregado de mantimentos, que ia deixar a bordo; logo voltava com água pela cintura, subia de novo a ladeira e tornava a descê-la vergado com a carga. Seis ou sete carretos e dera por feito o carregamento.
Então armou a tolda no tombadilho, empurrou com cuidado as talhas para um lado, calçou-as e depôs, ao alcance da mão, a borracha de aguardente; abriu em seguida a escotilha, arrumou nela os fardos de víveres e subiu novamente à coberta; aí fez lume para disfarçar a umidade, estendeu um bom encerado, armou duas macas, e, tomando fôlego, que tudo isto o fizera cansar, disse em voz alta: 62 – Pronto, com os diabos! Depois, por sua conta e de sua idéia, assestou à proa quatro anzóis e duas redes de pescar. Feito isto, tirou vagarosamente tabaco de uma bolsa de couro, encheu bem o cachimbo, olhou em torno, procurando descobrir o que faltava e disse satisfeito: – Bom! Acendeu o cachimbo, voltou à praia e subiu para casa, cantarolando muito tranqüilamente e muito contente de sua vida.
Já lá estavam à espera Miguel e o cão.
O artista desprezara as roupas graves do professor e revestira a sua antiga e singela blusa de artista ambulante: tinha na mão o estojo da sua querida rabeca, uma faca de bainha na cintura, na algibeira todo o dinheiro que possuía e no coração toda a esperança que lhe restava, na cabeça... Ah! nessa, além das harmoniosas concepções, que um amor malfadado lhe inspirara outrora, apodrecia de há muito uma idéia sinistra e repugnante, dependurada da imaginação, como o cadáver contraído de um enforcado.
E, seguido dessa idéia, negra, como a sombra informe da sua própria desgraça, sentia alvejar, nas margens opostas do mar de Sicília, a roupagem transparente de um anjo, que o chamava de lá. Era isso a sua estrela; seguia-a indiferente a tudo mais que o cercava, via-a somente, só ela, luzir no fundo negro do seu futuro, como farol de única salvação possível.
Alvo, farol ou estrela, apagassem essa esperança e a vida para Miguel seria toda trevas e gelos.
– Roubem-na, pensava ele, e esta vida não será mais que uma enorme sepultura.
Castor dormia profundamente aos pés do amo.
– Pronto, patrãozinho! – disse Sombra da Noite, chegando a casa.
– Podemos ir? – Quando quiser – respondeu o pescador, tomando do chão a torcida acesa.
Miguel tomou o capote de um prego donde estava dependurado e, embrulhando-se, saiu, acompanhado de Castor, que, rápido, lhe tomou a frente e desceu a ladeira.
Sombra da Noite fechou por dentro a porta com a tranca de nogueira, foi ao outro quarto e fez o mesmo à porta do fundo e, depois de apagar o pavio, pisá-lo e metê-lo na algibeira, afastou de um canto do teto o choupo e, espremendo-se pela estreita abertura, saltou fora, exclamando: – Até a volta, se te encontrar viva ou se eu não estiver morto! Em cinco minutos, alcançou Miguel.
Chegados à praia, o homem tomou nos ombros o artista e carregou-o para bordo. Castor seguiu-os a nado.
Miguel agarrou-se ao portaló e pulou no barco, estendeu depois um braço e puxou Castor para dentro; o cão entrou todo a sacudir-se, 63 salpicando água do corpo. Sombra da Noite foi o último e fechou o portaló; em seguida, voltando para Miguel, apresentou-lhe o barco e os seus arranjos, explicando a serventia disto, elogiando aquilo, falando de tudo e dando a entender que tinha consciência do bom desempenho da sua comissão. Miguel distraidamente passeou a vista pelo interior do barco e declarou-se plenamente satisfeito.
Suspendeu-se a amarra, guindou-se a vela grande. O barco começou a embalar-se, movendo-se a princípio com dificuldade, como se tivesse acordado naquele instante, parecia mesmo que se espreguiçava; logo, porém, cedeu ao leme de Sombra da Noite, virou a favor do mar e entrou a navegar com vento em popa.
Partiram.
4 O barco atravessava descuidado o perigoso mar de Sicília, em demanda das praias napolitanas.
Quem o governava? O nordeste? O braço de pescador? A bússola? Uma estrela? Algum farol? A fé em Deus? O capricho do mar? Nada! Nem o braço mesquinho do homem, nem o dedo poderoso de Deus, nem a vontade de um, nem o querer do outro. Governava-o sim, um coração apaixonado.
O barco estremecia com o pulsar desse coração boêmio; o seu verdadeiro comandante era o amor, esse que não conhece tempestades nem bonanças, esse que é tranqüilo no sofrer e desensofrido na ventura, esse que sempre triunfa! O amor! Parecia demandar os portos de Nápoles, mas em verdade o que demandava ele era tão-somente a mais forte das fragilidades humanas, a mais heróica das fraquezas divinas, o mais diabólico dos anjos terrestres, o mais angélico demônio celeste: a mulher! Esse conjunto do que há de santo e do que há de tentação, esse amplexo do bem com o mal, esse beijo de Deus no homem, essa lágrima doce e venenosa de piedade e ciúme, esse motivo do inferno, esse mesmo inferno e esse paraíso, essa mocidade, essa riqueza, esse tudo, esse nada; a mulher! Ia em demanda de uma mulher, isto é, ia naufragado; uma mulher é sempre uma ilha desconhecida.
Entretanto, navegavam; entretanto, o vento e a noite corriam favoráveis e tranqüilos: a natureza é verdadeiramente fidalga, boa e orgulhosa; dá indiferentemente, não olha para quem recebe; favorece e passa distraída.
O barco corria rápido e macio, as enxárcias esticadas, a vela gorda de vento, a proa alta de cortadora, o casco trêmulo de ligeiro.
64 Miguel, de pé, esbelto, pensativo, com a rabeca em punho, quebrava da noite o silêncio encantado, com as vibrações harmoniosas de seu instrumento; gemia o arco apaixonado e as vagas alevantavam-se, convulsas e encapeladas, para o ouvir e admirar, e logo depois recaíam, deslocando-se magnéticas sobre as suas molas quebradiças.
E o barco embalava-se como um berço de gigante; e a música fugia com o vento, e Nápoles vinha pouco e pouco se aproximando.
5 Mal chegados, atracou o barco e saltaram os viajantes, seguidos do cão.
Sombra da Noite, por maior segurança, escolhera para o desembarque uma praia de pescaria, das muitas em que abunda Nápoles, e disfarçadamente vestido de pescador, carregava cantando à moda destes, o peixe que apanhara durante a viagem.
Seriam, quando muito, dez horas da noite, hora essa de se prepararem os pescadores para a pesca noturna em alto-mar.
Tudo estava pronto; viam-se as redes esticadas, amontoados os archotes e cheias as borrachas.
Dirigiram-se os dois e Castor para uma tasca fronteira à praia; aí, segundo o costume, esperavam os pescadores, com as competentes mulheres e filhos, a vez da maré, entretidos a cear ou a beber. Os recémchegados, que, a despeito da vontade e do disfarce, chamavam a atenção geral, foram-se assentando com afetada indiferença e bebendo com sofrível vontade.
Sombra da Noite tratou logo de se desfazer do peixe, arranjar pouso para a noite e ajustar preços; feito isto, saiu com o companheiro da tasca e, sempre acompanhados de Castor, desprezaram a praia e entranharam-se pela cidade.
Miguel não conhecia Nápoles e, carregado da sua rabeca, deixava-se ir acompanhando o guia; assim palmilharam muitas ruas, a princípio tomando para a esquerda, seguiram depois transversalmente, ora atravessavam uma rua estreita e deserta, ora uma larga e concorrida; até que afinal chegaram a um lugar espaçoso e arborizado; depois de ligeira hesitação, venceram o largo e meteram-se por uma bonita rua, larga, bem calçada e mais concorrida que as outras.
– É esta – disse o pescador sem parar. Miguel levantou os olhos para uma tabuleta e leu: Rua de Toledo. O coração bateu-lhe mais apressado.
Continuaram a andar, silenciosos. À proporção que o faziam, diminuía o número de transeuntes, era a noite que se adiantava. Uma vozeria confusa e alegre partia dos cafés e dos grupos rareados.
Castor, de cauda interrogativa e focinho baixo, ia na frente, farejando 65 sofregamente as pedras estranhas para o seu faro.
Nem sequer olhavam os viajantes para as preciosidades naturais e artísticas que se desenrolavam a seus olhos; contudo ali estava um artista, não sem alma para ver, sentir e admirar, mas tão tomado de suas preocupações, tão pasmado e absorvido por uma idéia fixa, que não lhe dava a alma pressa de regalar a sede do artista, quando o coração se ressequia à míngua de outro orvalho. Um artista, um lazzarone e um cão, isto é, o primeiro abstrato, o segundo rude e o terceiro irracional, são justamente as espécies mais refratárias ao belo, mas em verdade é que pareciam identificados pelo mesmo interesse e levados pelo mesmo fim, porque, igualmente apressados, caminhavam no mesmo compasso, se é que dois homens podem andar pelo compasso de um cão.
De repente Castor se pôs a ladrar contra um portão de ferro, que servia de vasta entrada para um jardim, em cuja casa muito se dançava e folgava. A música do baile absorvia os latidos do animal; este porém, ladrando cada vez mais, enfiava a cabeça e as patas pelos intervalos dos varões lanceados da grade.
Nas salas principais do edifício estorcia-se o baile em convulsões sensuais; da rua viam-se rodar vertiginosamente as cabeças muito frisadas e as espáduas nuas de alabastro e banhadas de luz.
Sombra da Noite parou, olhou com atenção para a fachada do edifício e calcando a cinza do cachimbo, disse secamente: – É aqui.
Miguel estava imóvel e distraído; tinha os olhos arregalados e as mãos frias; a luz imensa, a música, o luxo, o zunzum das sedas e veludos, ofuscavam-no, ao mesmo tempo que o enchiam de raivosa tristeza.
– Agora – disse o outro em voz baixa – podemos entrar por ali, sem risco de sermos vistos. Conheço uma ruazinha particular pertencente à casa e por onde é permitido ao povo transitar.
E arrancando o companheiro do labirinto de reflexões em que parecia perdido, foi com ele atravessando a frente do edifício. Miguel ia atrás, caminhava de cabeça baixa e passos lentos. Desse modo costearam o jardim pelo lado esquerdo, depois, embrenhando-se por uma sombria alameda de laranjeiras, Sombra da Noite disse ao companheiro: – Esta rua cerca toda a casa; caminhemos por aqui.
Quando chegaram ao meio da ruazinha, o guia parou novamente, acrescentando em segredo: – Daqui se vê perfeitamente o fundo de toda a casa. Aquela grande varanda em forma de arco, disse ele, apontando para a enorme balaustrada do andar superior, fecha toda a casa; por aí pouca gente pode agora transitar, porque naturalmente estão entretidos com a dança e com o jogo; os salões do baile são no centro, e a ele pertencem aquelas cinco janelas que o senhor viu da rua; dos lados estão os dois salões do jogo e dão 66 também para a rua aquelas duas outras janelas, que o senhor viu de cada lado, porém, compreende? É tudo resguardado pela varanda, onde agora não chegam os convidados. Estão no diabo da festa! Daqui a pouco se ouve o barulho que fazem, porque o vento leva contrário. Olhe agora para baixo, continuou Sombra da Noite, debruçando-se nos ombros de Miguel e acompanhando a descrição com o indicador da mão direita, olhe! Vê aquela grade de mármore? Na parte escura!... Está inteiramente sombreada pelo diabo da varanda do andar de cima...
– Onde estão aquelas vidraças de cor? – perguntou Miguel, todo atenção.
– Justo – disse o outro estendendo a palavra os lábios. – Também é o único aposento do andar de baixo que tem luz. Pois ali – continuou, abaixando misteriosamente a voz e chegando a boca ao ouvido de Miguel – é o aposento particular da filha do senhor Maffei!...
Miguel encostou-se à grade do jardim, segurou a cabeça com a mão e ficou a fitar embevecido as vidraças coloridas da janela. Sentia uma tempestade na alma; luziam-lhe ali na sombra os vidros iluminados do quarto de Rosalina, como um farol no alto-mar.
Teria ele encontrado o porto? – Eu conheço – continuava Sombra da Noite, contendo Castor, que se queria precipitar pelas grades do jardim – tão bem estas casas, conheço toda a cidade de Nápoles, palmo a palmo! Que quer? Aqui fui criado, aqui brinquei, cresci e corri! Todas estas casas novas, que o senhor vê por cá, foram levantadas sobre as ruínas de um antigo convento de frades. Em pequeno ainda apanhei esse convento; estes lados eram os da vila, de negras paredes, muito altas e feias. Com os diabos! Parecia um cemitério! Hoje está tudo isto acabado, assim mesmo a única coisa que conservam do convento é um cruzeiro de pedra, que deve ter ficado para aquelas bandas – e indicava com os beiços o lado oposto à casa. – E se isso ficou, meu rico cavalheiro, foi porque não na puderam destruir e não por ser, como disfarçam eles, obra de grande arte e merecimento. Ora, quem não sabe que estes lugares não são bons?! Neste chão – dizia ele, batendo com o pé – há sangue mau de frades, que os irmãos matavam para lhes ficar com os haveres, e depois enterravam aí pela quinta, sem que a mais ninguém constasse. Todas as noites – continuava o velho, engolindo a saliva, cada vez mais aterrado – ao badalejar dos sinos grandes, aos sábados, à meianoite, os diabos dos frades levantavam-se das sepulturas e iam, rezando, rezando... agarrar-se à cruz, e cada um a puxa para o seu lado por penitenciar os seus pecados. Há uma força que a prende a este chão amaldiçoado! Dizem até - e há quem tenha visto! - que o cruzeiro falou!...
E eu acredito! – disse ele benzendo-se, todo trêmulo, com ambas as mãos.
67 6 Continuava Sombra da Noite a discorrer por diante, enquanto Miguel, sem sequer se aperceber disto, fitava, encostado, imóvel, aos varões do jardim, a claridade colorida e alegre das vidraças de Rosalina, cujo aspecto festivo contrastava com o sombrio das grades negras e lutuosas do cárcere interior do seu espírito.
Ignorado, corria-lhe em silêncio, dos olhos, o pranto morno copioso.
Por que chorava ele, tão bom e generoso, ao contemplar a fortunosa opulência da sua querida amiga? Não a desejava por acaso feliz? Não queria para ela todos os bens da terra e todas as bênçãos do céu? Sim! Mas é que no meio da opulência daquele orgulhoso viver se haveriam de humilhar a singela blusa e a rabeca do artista.
Desgraçado! Chorava porque era moço, porque não tinha vivido bastante para saber que a vida é uma enorme decepção; chorava porque Rosalina era o seu primeiro amor, e o primeiro amor do homem é tão selvagem e feroz, como deve o ter sido o primeiro homem da natureza.
Chorava porque a estrela que o conduzia na existência tingia-se de cores mundanas, em perda do celeste azul do seu fosforescer.
Era aquele chorar de Miguel um carpir triste e desesperançado sobre dois túmulos ainda mais tristes, sobre o de Rosalina e sobre o seu, porventura menos valioso que o dela; era chorar sobre o túmulo das recordações e sobre o das esperanças, o passado e o futuro, o nada e o nada.
E que mais é o nosso viver nesta espécie de mundo, senão uma ilusão entre dois nadas: o presente e o futuro? Dois nadas insondáveis e obscuros que fecham uma hipótese, chamada presente. Ontem saudades nebulosas; hoje mentiras e esterilidades; amanhã sonhos mal contornados. Eis a vida! E assim cismava Miguel, enquanto o companheiro, sem lhe dar pela indiferença, continuava a papaguear, acrescentando: – Não seria eu capaz de morar aqui, nem que me cobrissem de ouro! Meter-me com os demos das almas penadas, que...
Nisto avivou-se de repente a luz do quarto de Rosalina.
Miguel endireitou-se todo como uma cobra e prestou atenção.
Sombra da Noite calou-se de todo e ficou também a olhar para a janela iluminada, dizendo baixinho, depois de algum silêncio: – Entrou para o quarto...
Miguel chegou-se dele e disse-lhe imperiosamente: – Deixe-me só e vá esperar-me na tasca. Leve consigo Castor e tome dinheiro para o que for necessário.
Sombra da Noite retirou-se silenciosamente.
O artista continuou imóvel e abstrato a fitar a janela; depois, como se quisesse falar àquela claridade risonha e colorida que de lá vinha, ergueu inspirado o arco, colou com frenesi a rabeca ao ombro, e os sons 68 encantados, com que dantes comovera a sua amada, rebentaram plangentes e harmoniosos, como um coro de beijos e suspiros, soluçado pelos anjos.
Estaria ela no quarto? Estava, com efeito, pois era essa noite, justamente a mesma em que Rosalina, concertada com o cavalheiro de bigodes pretos, abandonava os salões da dança, para refugiar-se volutuosamente extenuada nos seus aposentos, e aí ouvira o murmurar choroso de uma harmonia esquisita e conhecida.
Era essa mesma a noite, mesma era também a música, a rabeca a mesma, mesmos o arco, o artista, o braço, a inspiração, só Rosalina! Só ela não era a mesma, que dantes se arrebatava com aquela música bela e inocente como o amor de duas crianças.
7 Miguel continuava a tocar inspirado.
A luz da alcova de Rosalina amortecia-se e as horas da noite foramse sucedendo, tristes, frias, uniformes e silenciosas como as brisas do outono.
Os últimos arrancos do instrumento confundiram-se com os primeiros estremecimentos da aurora. Quando Miguel chegou à tasca, era já dia alto; estava deserta a praia de pescadores, que não tinham ainda voltado da pescaria.
Ligeiro enfiou-se o artista pelo quarto onde se acomodara Sombra da Noite, depôs num canto a rabeca e precipitadamente escreveu num pedaço de papel ordinário o seguinte: “Rosalina: Não morri e desejo viver só para te amar. Estou resolvido a fazer tudo o que me ordenares, até mesmo a minha própria desgraça, se ela a ti for necessária; em troca disso, peço-te, com a alma de joelhos, meu amor, que me concedas amanhã à meia-noite, uma entrevista. O teu lenço, atado ao balcão da tua janela, será o sinal de que ainda te merece alguma coisa. O teu escravo – Miguel Rizio.” Escrito, dobrado e subscritado este bilhete, Miguel acordou Sombra da Noite, que dormia a sono solto.
– Entrega – disse-lhe ele – do melhor meio que te acudir, hoje à noite, esta carta a Rosalina, se não lhe puderes falar, faze ao menos porque lha chegue às mãos, mas sem falta hoje! Entendes? – Descanse! Que será entregue – disse Sombra da Noite, metendo o papel no bolso.
A missiva de Miguel chegou de feito às mãos de Rosalina, e, como vimos no capítulo em que justamente a deixamos, ela, acedendo ao pedido do ressuscitado amante, atara à meia-noite, como ele lhe pedira, o seu 69 lencinho de rendas francesas no marmóreo balcão da janela.
Feito o sinal, Rosalina voltara a reclinar-se tranqüilamente no divã, como quem se submete ao aborrecimento de qualquer cerimônia política; e, nessa dúbia postura, marcando com o pé o compasso dos segundos, dobrava e desdobrava o papel, que lhe chegara às mãos por intermédio de Sombra da Noite.
A pêndula marcara afinal a hora da entrevista. Um silêncio perfumado e volutuoso rescendia em torno de Rosalina, como uma auréola de desejos.
Há sempre nos aposentos da mulher bela um não-sei-quê de indizível e sedutor, que encanta e embriaga; uns perfumes de cabelos, de flores e de carnes, que lembram simpaticamente a curva macia e flácida de um bom seio de vinte e dois anos. Pode-se chamar a esse fluido esquisito o perfume do amor.
A claridade coalhada do globo de alabastro, a tepidez preguiçosa da atmosfera, o macio surdo do tapete, tudo, tudo juntamente desatinava e endoidecia os sentidos.
Rosalina, encantadoramente reclinada no divã, pendente para trás a cabeça, mole, úmido o olhar, as narinas sôfregas, os lábios entreabertos e ressequidos, comprazia-se em ver, espiando pelo franjado sombrio das pestanas, o arfar volutuoso das carnes macias do colo. A garganta carnuda, pálida e estendida, tinha uns tons frescos e uns estremecimentos de carnes gordas de criancinha de peito; as covinhas dos cotovelos, os saltinhos das carnes dos dedos, as unhas cor-de-rosa, os dentes cor de leite, os cabelos lânguidos, serpenteados e frouxos, a respiração comprimida, a língua úmida e vermelha, como um pedaço de carne viva e ensangüentada, em cuja pontinha refletia a brancura ferina dos dentes, tudo, enfim, levantava com explosão a chama doida e selvagem dos desejos.
E, todavia, ela estava quieta e letárgica, nesse quase sonambulismo, que não é bem indiferença, mas um esquecimento de si mesmo, um doce abandono de forças, comparável ao estado comatoso, que sucede aos prazeres sensuais e cansativos, nesse dolce far niente de uma mulher rica, que é mais formosa para os outros do que para si, quando, súbito, no quadro escuro da janela, aberta de par em par, se desenhou o busto desgrenhado de Miguel.
Vinha transformado e pálido como uma caveira.
8 Miguel precipitou-se na alcova e caiu soluçando aos pés de Rosalina, comoção amarga e deliciosa o dominava, como nos bosques a tempestade domina a corça.
Ele gozava e sofria amargamente. Rosalina ali estava, ao alcance dos 70 seus lábios e de suas mãos, mas era Rosalina transformada; da primeira não existia mais que a formosura. E tanto assim, que aquela cena, em demasiado sentimental e trágica, começou a incomodá-la. Ela sentia-se interiormente arrependida de ter consentido nessa entrevista; contudo era inevitável; conhecia bastante o caráter do seu companheiro de infância, para, com razão, temer qualquer conseqüência má de uma recusa. De sorte que o melhor caminho a tomar era o da dissimulação e do dolo; não lhe faltariam certamente, para tal empresa, indústria e armas, que pois contava com a sua maleabilidade de florete e com a sua destreza de cobra. Quando não lhe era possível empregar a força, socorria-se às lágrimas e triunfava sempre.
Rosalina, apercebida com tais munições, pôs-se em guarda contra o temível inimigo, que tinha diante de si. Bem sabia quanto são perigosas e formidáveis a inexperiência e a virtude quando amam.
A verdadeira paixão é selvagem, grosseira e egoísta, porque a delicadeza, a civilidade e a sociabilidade são obras do homem ou meras convenções sociais, e a paixão é um monstro antediluviano, criado pela natureza. O amor saiu diretamente da boca de Deus para o coração do homem; é esse o nosso único ponto de contato com o incriado.
Esse verbo eterno não conhece leis, nem pátria, nem senhor, como não conhece subdivisão nem variedade, é um, único e eterno: É o verbo ser da natureza.
Deus criou-o para o mundo e não para o homem; este como a fera, o réptil como o passarinho, amam da mesma forma.
Foi pensando deste feitio que Rosalina cobriu de carícias a vítima que tinha aos pés, e fê-lo sentar-se prosaica e comodamente, numa magnífica cadeira de damasco. E, depois de haverem pingado um por um os segundos do estilo, abriu a falar, protetora e carinhosamente, do seguinte modo: – Oh! Como sou feliz e desgraçada por te tornar a ver, meu Miguel, porém se me encanta a tua presença, a situação que dela resulta me aniquila. Amo-te muito, mas é preciso seres prudente e teres – disse ela, sorrindo com intenção – muito juizinho... Eu já não contava contigo e tinha razões para isso; vi uma vez o precipício donde caíste, e tão terminante se me afigurou dele uma queda, que nunca mais me animei tornar a visitá-lo.
Porém tinha saudades tuas, acredita – disse ela suspirando – sinto-me loucamente satisfeita por te ter novamente a meu lado. Se soubesses o que fiz para ter notícias tuas! Mas, enfim, sou feliz, agora se...
– Porém, é que... – interrompeu Miguel – disseram-me que tu te ias casar com um fidalgo...
– É verdade – disse novamente suspirando Rosalina – e não há outro remédio, senão nos conformarmos com essa sorte escura.
Miguel fez um gesto de impaciência e reprimiu o que ia a dizer.
71 – Mas que pensas? – continuou Rosalina, mudando de tom e afetando um transporte – supões, porventura, que me fugiram repentinamente da memória os nossos juramentos e a nossa fortuna? Crês que me parece ser a riqueza o melhor dos bens? Julgas que não se pode converter em luto o que foi nossa esperança? Tens que sou muito feliz? Ingrato!... Oh! Não, Miguel! Sofri amargamente e mais sofro agora. Quanta vez não amaldiçoei tudo que me cercava! Quanta vez não trocaria por um daqueles pacíficos e religiosos serões de Lípari, todos os faustos, todos os esplendores destas festas, que me acabrunham e me matam?! Entanto, tinha-te por morto, nossa choupana por incendiada e minhas amigas de infância, sobre indiferentes, prevenidas contra mim! É preciso esquecer-me de tudo!...
Miguel escutava imóvel e pensativo.
Rosalina continuou, abaixando a voz: Meu pai está cada vez mais severo e mais ganancioso; agora toda a sua ambição é possuir um título qualquer de nobreza antiga, cuja realização só de mim confia; desde que um fidalgo arruinado, o Visconde de Cenis, com a mira no dote, me pediu em casamento...
– E tu consentes?! – perguntou arquejante Miguel – E tu vais ligar-te a esse infame especulador, mesmo sabendo que eu existo e só por teu amor o faço?!...
– Mas que queres, meu amigo? Não o desejo eu, ordena-mo meu pai! Nisto deves, antes de amaldiçoar o meu procedimento, pesar bem o sacrifício que vou fazer! Sabes certamente que não é a ambição e a vaidade que me conduzem, sabes o quanto te amo e o quanto me comprazeria viver contigo e só para ti; mas em semelhantes circunstâncias, nada fazer é fazer tudo. A minha recusa, sobre ser a desonra certa, seria talvez a morte de meu pai!... Quanto a mim... a não me poder ligar contigo, ninguém mais prefiro, tanto me dá de casar com o visconde como com outro qualquer. O que de tudo isto se conclui é que sou a mais desgraçada das mulheres: amo, sou amada; chegam-me os bens para viver e no entanto faltam-me amor e existência. Tu, meu pobre Miguel, sem o saber, vieste dar-me um golpe terrível e me foi difícil habituar à idéia de tua morte, ser-me-á impossível suportar a de tua ausência! Todavia, estou resignada; uma gota de mais ou de menos no vaso de minhas amarguras não prejudica, porque o líquido de há muito transbordou. Sejamos verdadeiramente corajosos, meu amigo, e saibamos ser dignos um do outro pelo sacrifício, soframos juntos... Se soubesses a noite que passei!... Quando ouvi aqui no jardim a mesma música, que embalou os meus primeiros sonhos de mulher e os meus últimos devaneios de criança... aquelas notas eram como o poema da nossa mocidade e do nosso amor. Como éramos então felizes e esperançosos!...
Muito chorei, meu amigo, quando me abriste esse livro apagado de recordações e saudades, chorei como não imaginas, e só se me afigurava 72 que aqueles sons errantes eram o teu espírito, baixado do céu para me amaldiçoar. Foi uma noite de pesadelos para mim!... Não dormi... Faltavame o ar... E tinha medo de abrir a janela... – E debruçando-se sobre Miguel exclamava: – Como sou desgraçada!...
– Peço-te – continuou ela, depois de algum silêncio, com a voz ainda trêmula do choro – que partas; e, se não me podes remediar o mal, que não o agraves... Parte, meu amigo, e evita tornares-me a ver. Para salvar meu pai é preciso sermos mutuamente rigorosos. Sê de todo nobre e generoso; salva a quem te quis perder! Perdoa do alto do teu coração a esse pobre velho, que não tem culpa de ter nascido ambicioso e mau.. Ele é o culpado de tudo; é verdade, mas também a ele devo a minha existência e todos os cuidados que tenho recebido; devemos-lhe a felicidade que já gozamos, é justo que suportemos agora o sacrifício que ele nos impõe... Perdoa! Sim? Perdoa, Miguel!...
E Rosalina, meiga, encarava com chorosa ternura o olhar sombrio de Miguel.
O moço ergueu-se com impetuosa feição. Metamorfose assustadora operou-se-lhe na fisionomia: os olhos fechavam-se lentamente e lentamente se abriam; um sorriso de amargurada desconfiança encrespava-lhe os lábios. Debruçou-se brandamente sobre Rosalina e, recolhendo-lhe as mãos frias, disse-lhe com delicadeza: – É então teu pai o único obstáculo de nossa felicidade? – É – disse ela.
– Então, adeus! – e beijou-lhe a fronte.
– Que vai fazer? – Obedecer-te.
– Como? – Partindo.
– Para onde? – Não sei.
– Quando? – Já.
E Miguel saiu tão rápido como houvera entrado.
Rosalina levantou-se, foi até a janela e percebeu ainda o vulto do artista desaparecer por entre a rede de galhos e folhas sombreadas pela noite; encostou-se ao balcão de mármore, olhou para o tempo e disse, fechando a janela e abrindo preguiçosamente a boca: – Até que enfim! Depois entrou para a sua alcova, correu o cortinado, mirou-se num espelhinho de mão, desprendeu os cabelos e tocou a campainha, chamando a criada para a despir.
Daí a meia hora, Rosalina, mais encantadora que nunca, adormecia sorrindo para o imenso cristal de Veneza, que com arte refletia o seu corpo 73 esculturalmente formoso, atufando-se nas amplas e alvíssimas cambraias do leito, semelhante a Vênus transformando-se das espumas do oceano.
9 Depois dessa noite Miguel vivia para uma idéia; fosse qual fosse ela deveria de ser negra e amarga, porque amargo era o seu sorrir e negras as sombras do seu olhar.
Já por várias vezes lhe perguntara o guia se era tempo de regressarem para a ilha; Miguel, porém, desviava a cabeça, como se alguma coisa o prendesse ainda em Nápoles e deixava-se ir ficando. Alguma coisa o prendia de feito: era essa idéia.
Todas as tardes, quando para o Ocidente, o crepúsculo vespertino esfogueava as nuvens mais baixas do horizonte, ele, espantadiço e calado, tomava para as bandas da casa de Maffei e, como um espírito perseguidor e maligno, rondava-lhe o jardim e o quintal, procurando sempre confundir-se com a escuridade movediça das folhagens.
E, mais tarde, quando de todo a noite carbonizava a natureza e com as suas sombras o favorecia, então, mais seguro e confiado, atravessava o foragido as ruas relvosas do jardim e, pisando cauteloso, apalpando sorrateiro as trevas, comprimindo a respiração e procurando minguar o seu vulto, ora desaparecia nas moitas de roseiras, ora nos jasmineiros e caramanchões em flor, para reaparecer aqui e além, como o veado doméstico, que passeia nos quintais do amo, procurando a solidão e o silêncio.
Aí deixava-se passar ignorado as noites. E quando porventura via iluminada a janela de Rosalina, quedava-se horas esquecidas a contemplála, extático e embevecido.
Assim sucedeu até o sábado, dia de recepção em casa de Maffei.
Nessa noite o palácio escancarava as suas largas bocas a novos convidados, como insaciável monstro, que não se farta de tragar reputações alheias; devia ser duplamente rica essa festa, porque, sobre ser sábado, era também aniversário do nascimento de Rosalina; circunstância esta de que não se esquecera o deslembrado amante e o fazia aguardar, com impaciência e desassossego, esse faustoso dia.
Efetivamente preparava-se a festa ameaçadora e esplêndida; dobrouse a orquestra e multiplicou-se o número de garrafas; eminentes artífices incumbiram-se de magnífica iluminação e fogos de artifício, que ocupassem a varanda e a parte principal do jardim; um quiosque, levantado defronte da janela do quarto da festejada, dar-lhe-ia, ao romper da alva, um harmonioso bom-dia.
Chegada a hora, as salas, as varandas, os quartos, o andar inferior, tudo se encheu de gente. Era tudo confusão e bulício; por todos os lados 74 fosforesciam luzinhas de variadíssimas cores; por toda a parte, música e perfumes, flores em profusão, gelados e vinhos, cantos e versos, mimos e ramilhetes, danças e jogos, florões e murtas; enfim, por toda parte e de todas as coisas rebentavam e erveciam alvoroçadamente o prazer, o riso, a loucura e o amor.
Rosalina lá estava resplandecente, como alvo brilhante de todos aqueles faustos e grandezas; via-se cercada de aduladores, que a crivavam de galanteios e lisonjas; e assim festejada, querida, requestada, adulada, tinha-se ela por feliz no meio desse círculo de ferro dourado, que o dinheiro traça incômodo na sociedade.
A festa crescia e redobrava de entusiasmo com o progredir tenebroso da noite; regorjeavam frenéticos os instrumentos; pulsava doido o sangue com o ansiar nervoso da valsa; a embriaguez familiarizara-se e gritava a bel-prazer, rindo a desvergonhada, com a boca aberta e o gesto descomposto.
10 Todavia, enquanto tão ruidosamente crepitava o baile, Miguel, ignorado e só, nos fundos tenebrosos do jardim, espiava afoitamente a turbulência da festa, escondido como um réptil nos grutescos de uma fonte artificial.
Quem de perto lhe pudesse observar a figura, notar-lhe-ia no olhar desvairado e redondo, uma impaciência feliz, um raio de sinistro contentamento, que lhe iluminava a fisionomia com o mesmo luzir fúnebre da lâmina da guilhotina no rosto do condenado.
Subitamente o escondido endireitou-se, colou cuidadosamente o ouvido à parede e pôs-se a escutar silenciosamente, sentiu passos.
Era alguém que, fugindo à agitação das salas, procurava refugiar-se no jardim e descansar o seu aborrecimento, sozinho e tranqüilo nos bancos de pedra, que pitorescamente guarneciam um aprazível chafariz de jaspe.
Miguel viu chegar um vulto e estremeceu reconhecendo-o; os seus olhos reverberaram com mais vermelhidão; os seus lábios semi-abertos sussurraram alguns sons confusos e ásperos, enquanto o recém-chegado, satisfeito de si, esfregava as mãos, saboreando o aspecto festivo e luxuoso do edifício; depois, o vulto sentou-se meditativo no banco de pedra e permaneceu algum tempo de cabeça baixa e gesto concentrado.
Profundo devia ser esse meditar que lhe não dava de perceber os passos abafados de Miguel, que, como uma pantera, se encaminhava das sombras da gruta para ele, sem lhe arredar de cima os olhos ardentes e raiados.
O artista, ao chegar às costas do vulto, estacou e entrou consigo a contemplá-lo em atencioso silêncio, indicando, com um movimento 75 afirmativo de cabeça, o bom resultado de suas observações; alguns segundos depois, chegou-se mais dele e de rijo tocou-lhe com a mão no ombro.
O vulto voltou-se súbito e, encarando o rosto transformado do artista, desviava vagarosamente o seu, aterrado pela fixidez sinistra dos olhos cavos e luzentes, que pareciam querer devorá-lo; Miguel inclinou-se para ele a rir-se surdamente, com esse rir que exprime o contentamento da vingança que se vai fartar, o rir do faminto que depois de longa viagem descobre o que comer.
O vulto, segurando-se com a mão fria na pedra ainda mais fria do banco, continuava a retrair-se, como atacado de cólicas horríveis; torpor aviltante corria-lhe pelos membros frouxos e enervados e transpirava-lhe no gesto suarento o medo com todas as suas cores mais vergonhosas.
Contemplavam-se os dois, trêmulos... um de raiva, o outro de medo.
11 O que tremia de medo era Maffei.
O conforto da riqueza e o roçar áspero dos anos puíram-lhe o vigor primitivo; o remorso, também colaborando nessa obra de destruição, acabara por extinguir-lhe a força moral, que dantes lhe luzia feroz no olhar.
Sentia-se apequenado em presença de Miguel a quem tinha por morto.
O vulto transformado da sua vítima, que já em sonhos o houvera perseguido, aparecia-lhe agora, real, palpável, como se fora a própria imagem do remorso; afigurava-se-lhe Miguel salvo naquele instante, saindo do mar; parecia-lhe até ver a umidade do cabelo e sentir-lhe o cheiro do sangue.
O olhar fixo e desvairado do moço refletia-se-lhe na consciência, como uma luz condenatória e daí persistia a fitá-lo, queimando-lhe por dentro os ossos do cérebro; o sorrir cadavérico de Miguel derramava-se como um filtro de ironias pelos membros lassos do velho e o fazia estremecer; era um sorrir trágico de caveira a fitá-lo com os dentes ameaçadores e ferozes.
A imobilidade do moço impunha ao outro a mesma imobilidade, e no entanto a arrogância daquele não incutia neste o mesmo sentimento; Maffei, ao contrário, cada vez mais se desapercebia de ânimo e forças.
Enquanto isto sucedia no jardim, o baile continuava a folgar indiferente.
Miguel, afinal, chegando à cara pálida de Maffei a boca arreganhada, rebentou medonha e cavernosamente: – Velho amaldiçoado! Mau! Ambicioso! És o único obstáculo de minha ventura! És a minha asa negra! O meu pesadelo! A minha raiva! A minha desgraça! O meu ódio! O meu mal! O meu crime! Queres, bruto, 76 regenerar-te? Queres por uma vez abaixar este braço, que a tua maldade levantou sobre a tua cabeça, velho estúpido?! Dá-me a mão de tua filha. Já! Peço-ta de joelhos, cão! Responde!... Queres?!...
Maffei estremeceu como se fora acordado de um sonho mau por uma chuva de pedras. As palavras de Miguel despertaram-no, chamando-lhe o sangue à cabeça com o efeito de uma aluvião desencontrada de bofetadas, voltou a si e fez um movimento para erguer-se.
– Responde! – gritou asperamente Miguel, descarregando-lhe com força nos ombros os punhos impacientes e nervosos. – Responde! – E o obrigou a ficar sentado. – Responde! – Nunca! – atroou energicamente Maffei e ergueu-se de ímpeto! Miguel, porém, em meio da resposta, rápido abarcara-lhe o pescoço, encravando-lhe pelas carnes as unhas doidas e assanhadas. Um ronco surdo e gutural fundiu-se confusamente na turbulência aguardentada do.
baile.
E o moço não desgarrava da vítima as unhas envenenadas pela cólera velha e sedenta de vingança, continuava a asfixiá-la.
Como uma lagarta no fogo o velho torcia-se, esforçando-se por gritar e erguer-se. Embalde! Miguel lograra pôr-lhe um joelho de bronze sobre o esôfago e, empregando com bruteza toda força do corpo, oprimia-o contra a pedra do banco.
Roxidão apoplética cobriu a cara e as unhas do pai de Rosalina; um suor abundante e úmido escorria-lhe da cabeça, inundando as mãos frenéticas do assassino.
E o roncar moribundo e bestial do velho, mal casado com o ranger dos dentes do moço, contrastava com a turbulência folgazã e sensual da dança, da embriaguez e do jogo, que além fermentavam nos salões do baile, como fermentam as larvas numa podridão.
Miguel, no fim de algum tempo, desgarrou saciado a presa e o cadáver do antigo pescador caiu-lhe pesado e retorcido aos pés, gosmando pelas ventas e por entre os dentes um muco grosso e esbranquiçado.
O moço contemplava-o sorrindo, a limpar tranqüilamente as mãos úmidas e pegajosas nas fraldas da sua blusa. Depois, abaixou-se e fitou satisfeito o corpo de Maffei, observando minuciosamente se estava bem morto, mexia-lhe com as pálpebras, passava-lhe os dedos no vítreo ensangüentado dos olhos e esbugalhava-os mais, puxava-lhe as barbas empastadas de gosma, mexia-lhe com a língua e afinal bem certo que estava morto escarrou-lhe com desprezo à cara e em seguida ergueu-se, empurrando-o desdenhosamente com o pé.
Isto feito, fugiu.
Ao chegar à rua, parou, tomou com ambas as mãos o peito e respirou livremente o ar da noite, como quem se livrasse de um peso horrível.
– Finalmente! – disse ele e correu à tasca.
77 Sombra da Noite dormia. Acordou-o.
– Partamos – disse ele.
– Para onde? – Para qualquer parte! E desapareceram.
12 O baile continuava indiferente e animado.
A ausência de Maffei não se fizera sentir e só algum curioso observador dizia distraidamente: – Oh! Maffei está hoje mais do que nunca concentrado!... Não há quem o veja!...
E disto não passava.
Somente no dia seguinte, pela manhã é que o jardineiro, todo banhado em lágrimas, participara ter encontrado no jardim o cadáver do querido amo.
Houve grande alvoroto na casa e, tanto esta como a família do morto, se cobriram de luto. No dia seguinte, os jornais de Nápoles noticiavam ter sucumbido o muito honesto e muito nobre proprietário da Rua de Toledo, fulano de tal Maffei, vítima de uma congestão cerebral, que o acometera na véspera. Enterrado o cadáver não se falou mais em tal. Rosalina tratou de suspender, por algum tempo, os bailes e de substituir os teatros e passeios pelas palestras nos serões.
Daí nasceu um murmurar contra ela e o cavalheiro de bigodes pretos, se com ou sem razão, não sei; o que posso dizer e até afiançar é, que por várias vezes, houve quem o visse sair pela madrugada do andar inferior da casa cinzenta da Rua de Toledo. Calúnias, talvez inveja, com certeza! Com o correr dos dias foi o luto perdendo pouco a pouco a cor carregada, de sorte que no fim de um ano desaparecera inteiramente e com ele cansou a dor de doer e os olhos cansaram de fingir. E voltara a alegria, como volta a primavera, matizando de flores e risos os corações e os lábios.
Como um noivo passivo, o nobre Visconde de Cenis gastava todos os serões em companhia da rica herdeira, e exteriormente já se tinha como coisa resolvida o casamento dele com Rosalina.
Em breve a filha do pescador seria a excelentíssima senhora viscondessa de Cenis e o visconde seria o herdeiro legitimo dos bens do falecido Maffei.
Qual das duas partes faria melhor aquisição? Uma levava uns restos de homem e o título de visconde e a outra um dote avultado e uma mulher prostituída. Estas ruindades fundidas deveriam dar um resultado satisfatório para ambos e talvez para a sociedade, que, em vendo dinheiro, faz como as crianças: fecha os olhos e abre a boca.
78 Entanto, quando o visconde se retirava da sala de honra, abria a noiva a porta privada da alcova, para o outro, que, se em verdade não era tão nobremente visconde, tinha, em compensação, um bom par de bigodes pretos, que valiam por um brasão.
Afora estes, roda imensa de adoradores incensava infrutiferamente, noite e dia, a formosa e rica órfã, mas embalde procurava ela, nos cantos empoeirados do seu coração, alguns restos de respeito e amizade séria para aquela gente que, a despeito da sua boa vontade, só lhe aparecia pelo prisma do interesse e da especulação. No fim de contas tão embotadamente desgraçados eram os adoradores, como o objeto da adoração, que se aqueles amavam por cobiça, este o não podia fazer por desconfiança, e infeliz, muito infeliz da mulher que não ama, – o amor é o caminho da maternidade.
O próprio moço dos bigodes não passava para Rosalina de uma fantasia de igual criminalidade de outros muitos, que, com a mesma amorosa indiferença, entrelinha a desregrada rapariga; e tanto assim era que, sendo por ele pedida em matrimônio, recusara-se, dizendo cinicamente que o casamento era a única parte ascendente de sua vida por onde poderia trepar em algum tempo à nobreza, e por isso não a barateava assim tão facilmente.
O dos bigodes, cujo empenho único era enriquecer, vendo malogrado em Nápoles os seus planos de abastecimento, deu-se de velas para Milão, sua pátria, em busca de nova fortuna, depois de ter chamado a amante de ingrata e perjura.
Rosalina riu-se da saída aparentemente romanesca do cavalheiro dos bigodes e insensivelmente o substituiu por outro.
O visconde em ruínas, esse, coitado! É que não desistia, nem era preterido; barreira firme, rochedo inalterável, recebia impassível e com verdadeira coragem, digna da nobreza de sua ilustre raça, os embates tempestuosos daquele pélago de lama. Coitado! A desonra lhe seja leve!...
E neste estado deplorável de coisas decorria o tempo, sem outro fato de notar, além do que se vai seguir.
13 Ia uma dessas noites quentes de verão, em que a natureza parece adormecida aos beijos ardentes do sol; em que as águas dos lagos são mornas como a brisa, que acaricia os píncaros abrasados das montanhas, e a lua se ergue vermelha, como uma chaga viva.
Uma dessas formosas noites napolitanas, em que tudo se converte em volúpia e cansaço, em que se derretem os corações e volatilizam-se os beijos para vagarem pelo espaço, como um bando de mariposas sensuais.
Noite de sonhos ardentes e dores indefinidas! Noite feliz para o 79 mancebo e perigosa para a donzela!...
As mulheres estremecem ao tato dos amantes e as criancinhas torcem-se no berço, acometidas de precoce irritabilidade; o olhar transforma-se em boca que beija; o hálito em palavra que excita; a palavra em corpo que morde, afaga, queima e estreita.
Abraçam-se nos montes os pinheiros e os ciprestes nos cemitérios; entrelaçam-se as flores no campo; amam-se feras nos covis; nos ares os passarinhos e os reptis no charco.
A natureza toda transforma-se numa mulher de trinta anos, de carnes brancas e palpitantes, sofre nessa noite da nevrose, tem ataques histéricos, estrebucha, grita, contorce-se e solta, de vez em quando, suspiros prolongados e gemidos volutuosos.
E quando, pela volta da madrugada, à brisa fresca e cor-de-rosa da manhã, adormecem os membros frouxos e fatigados dos amantes, levantase da terra um murmúrio suave e trêmulo para o céu: é a música dos beijos! 14 A alcova de Rosalina rescendia a amor. O amor tem o seu perfume especial que se aspira pelo coração; esse perfume, à semelhança dos do Oriente, quando não mata, embriaga, mas sempre encanta.
A bela italiana, perseguida pelo calor da noite, refugiara-se sozinha no seu ninho, como a lebre que foge ao caçador, e arremessando negligentemente as roupas para o chão, envolvera-se nas cambraias do leito, rolando de um para outro lado, como uma serpente no cio.
Extenuada, caíra a moça nessa prostração mofina que precede o sono, e só de vez em quando dava acordo de si para refrigerar-se com um gole de orchata, que à cabeceira do leito estava preparada num copo de cristal. Isto feito, recaía no mesmo entorpecimento, com as pálpebras pesadas e os olhos descerrados pelo calor; mais parecia uma bela produção artística do que uma realidade. Quando quieta, difícil seria de dizer o que mais era, se uma estátua animada, se uma mulher de mármore.
Súbito, assomou na janela uma cabeça, depois um busto, e finalmente um homem, vestido de blusa, pulou na sala com a ligeireza de um gato.
O barulho fez Rosalina voltar-se e soltar um grito que queria dizer: – Miguel!...
O recém-chegado parou, levando aos lábios o dedo em sinal de silêncio; ela respondeu a esse sinal com um outro que o intimava a aproximar-se.
O artista obedeceu, encaminhando-se sombriamente para o leito.
– És livre agora?!... – disse-lhe, caindo de joelhos aos pés.
A moça não respondeu e sorriu.
80 – Fala, meu anjo!... não percamos tempo, dize-me se és já livre ou se...
– Ouve! – interrompeu Rosalina, fingindo dificuldade no falar. – Ouve. Desde que morreu meu pai, uma fraqueza doentia me tem de tal modo perseguido, que me suponho irremediavelmente perdida; posso dizer que tenho vivido neste leito, donde não conto levantar-me com vida.
– Uma viagem te restabelecerá totalmente – disse Miguel inquieto.
– Ah! – suspirou Rosalina. – Uma viagem!... É porque não sabes, meu bom amigo, que, com a morte de meu pai, ficamos na extrema miséria; que ele, coitado! passou uma vida de opulência, superior ao que possuía, e morreu de tal modo endividado, que não nos será fácil a nós salvar honradamente seu nome, e a mim continuar a viver sem a difamante proteção de algum estranho! Bem fiz por salvar a situação, e confesso que me supunha mais forte e generosa, de que realmente sou! E Rosalina começou a tossir, oprimindo o peito com as mãos.
– E eu – continuou a suposta doente, com a voz cada vez mais trêmula – fazia-me forte, aceitando a proposta salvadora e tremenda de um velho rico e doente, que se propunha resgatar o nome de meu pai, casandose comigo. Era um futuro triste, porém honesto. Cedi, Miguel, cheia de esperança e resignação, porém depois de medir bem o sacrifício não tive ânimo para arrostá-lo. Urgia contudo tomar uma deliberação qualquer; o tempo passava e o dia do leilão da casa e dos móveis não tarda a anunciarse.
O momento fatal chegou!... Amanhã tenho de entregar tudo, tudo! E serei...
– Então! – interrompeu Miguel, em cujo olhar acabava de nascer o contentamento e a esperança – havias te esquecido de mim? Ingrata! Não te quis ao menos parecer que a tua riqueza era um obstáculo sério à minha ventura! Oh! Como sou feliz em ver-te novamente pobre! Iremos juntos para Lípari, onde serás minha esposa, e então seremos felizes, muito felizes! Quanto é bom ser pobre! Olha! – disse ele chegando-se carinhosamente para ela e sorrindo, com os modos satisfeitos, de quem se preza de saber arranjar bem as coisas. – Vendido tudo por cá, todas estas grandezas e todo este luxo, em pouco poderá ficar a dívida; por esse tempo já estarás em Lípari, caso-me contigo e serei legalmente o único devedor do que não se puder pagar com o resultado da venda; e daí, com o meu trabalho e principalmente com a minha vontade, crê, conseguiremos ir pouco a pouco resgatando o nome de teu pai. Oh! Como seremos felizes!...
Mas como te houveste tão injusta em não te lembrares de mim!... Em Lípari levantaremos novamente uma casa, sob as oliveiras que te viram nascer, minha Rosalina, e sozinhos, ao som das brisas que te embalaram em pequenina, e do mar que te ama ainda, e dos cantos dos passarinhos que voltarão ao nosso teto hospitaleiro, viveremos em companhia da boa Ângela, que te estremece como mãe. Sabes mais!... Castor ainda vive!... – 81 disse o moço satisfeitíssimo, batendo palmas – Ainda vive! Achei-o na noite do incêndio e conservo-o comigo; é um bom e generoso companheiro! Oh! Ele também virá porque, não sabes? Foi ele que primeiro descobriu pelo faro que tu moravas aqui. Coitado! Como te cobrirá de festas quando te vir! Oh! Mas é preciso que te decidas a partir! Vamos! Não é assim? Dize!... Estás pobre?... Tanto melhor! Ninguém se lembrará de te perseguir!... Partamos, meu amor! E Miguel, satisfeito como uma criança, beijava as mãos, os pés, o cabelo e a fronte de Rosalina. Parecia louco.
Ela o observava com um sorriso de afetada desesperança, que mascarava enorme surpresa; parecia-lhe aquilo um sonho; nunca esperara tanto do amor de Miguel; sentia-se conscienciosamente arrependida de se ter fingido pobre, antes falasse com franqueza, porque a situação perigava progressivamente.
– Diabo! – dizia consigo. – Ele me adora apesar de tudo! Que volta darei a esta cena tão difícil e ridícula? E assim pensando, fingia fadar-se em contemplar silenciosa o amante, enquanto meditava astuciosamente outro meio mais seguro de fugir-lhe; porém fundo e estranho ressentimento principiava a minguar-lhe o ânimo, em presença daquela vontade de ferro, daquela firmeza de afeto, daquele amor indelével que tudo cometia indiferente, contanto que o deixassem existir pela mulher, que o próprio coração escolheu para ídolo.
Neste estado e maquinando ainda uma engenhosa saída, fitou Rosalina os olhos abrasados e felizes de Miguel, e, apartando deles os próprios, passeava-os, aparentemente enfraquecidos, pelo quarto, à procura da idéia; quando o acaso deparou-lhe o copo de orchata, sobre o velador à cabeceira do leito.
– Ah! – fez ela.
– Que tens!... – acudiu Miguel.
– Nada meu amigo, sinto-me mal...
– Tudo isso – volveu Miguel, beijando-lhe as mãos – desaparecerá com a nossa futura felicidade! Reanima-te e ordena o que queres que te faça! Aqui tens um escravo! Vamos, meu amor... Fala! Como se eu fosse teu pai, minha filhinha! – Já não tenho vontade nem desejos...meu bom amigo – respondeu ela, retorcendo os olhos – porque não posso contar com a existência...
– Rosalina!... – disse Miguel – Não te deixes levar por essas idéias tão más!... Confia em mim e espera de Deus! Não desanimes, que tens muita vida e a nossa ilha tem muitas flores que te esperam... Havemos de correr juntos pela primavera os caminhos sombreados e ervecidos; subiremos de mãos dadas as encostas dos montes e os píncaros dos rochedos; havemos de...
Rosalina parecia já não escutar; torcia-se na cama, a ranger os dentes 82 uns contra os outros, e retorcendo os olhos derivava olhares desencontrados.
– Rosalina! Rosalina!... Que tens!... Meu Deus! Acudam! – exclamava Miguel.
– Silêncio! – disse ela, tapando-lhe brandamente a boca com os dedos cor-de-rosa. – Não faças bulha e ouve, que é necessário falar. Ainda há pouco me vedaste concluir o que te contava; ouve o resto. Dizia-te eu, que era necessário abraçar qualquer partido, porque o tempo urgia e o dia da entrega se aproximava... Pois bem, meu bom Miguel, não tive ânimo de me resolver a casar com o velho rico e...
– E... – disse Miguel trêmulo de impaciência.
– Chegou a véspera do dia maldito!... Amanhã os credores tomam conta de tudo!...
– Não importa! – Mas é... – acrescentou chorando Rosalina – que eu não resisti a tamanha provação! Fui covarde!... Confesso! Mas eu sou mulher, perdoa!...
– Acaba!...
– Vês este copo? – continuou ela, torcendo-se toda e indicando a cabeceira do leito.
– Céus!...
– Ainda há pouco estava cheio de... veneno... eu... – E reclinando-se nos braços de Miguel acrescentava, espatifando as palavras: – Não tenho, Miguel, de vida... mais do que alguns... instantes...
Miguel quis levantar-se para chamar alguém.
– Não chames pessoa alguma!... – disse ela agarrando-o com força. – Isso só alcançaria fazer-me morrer desacreditada. Foi Deus que te mandou para me ajudares a morrer! Foi um bom anjo que te conduziu! Eu já contava contigo! Oh! Não morria sem tu chegares! Como Deus é bom! Obedece-o e depois... retira-te...
Miguel forcejava contudo por erguer-se, mas desfaleciam-lhe as forças; vertigem doida acometeu-lhe de pronto a cabeça. Quis gritar, a língua apegara-se-lhe; quis soluçar, o pranto enovelou-se na garganta ofegante, trêmulo, com os olhos injetados de sangue, ria-se nervosamente e chorava ao mesmo tempo; as pernas negavam-lhe já o apoio, cambaleou; tentou ainda uma vez erguer-se, as pernas vergaram-se de todo e ele caiu no regaço de Rosalina; queimava o olhar, fumegava o hálito! A sua respiração era um soprar doido de labaredas! – Não chames por ninguém! – disse-lhe ela com dificuldade, e carinhosamente o tomou entre os braços; depois, inclinando frouxamente a cabeça para trás, fechou devagarinho as pálpebras e murmurou sons inarticulados e trêmulos.
– Rosalina! Rosalina! – vozeava o moço arrastando a língua entre soluços.
83 Rosalina pendeu de todo a cabeça para trás, deixou cair sem ação o braço fora do leito; e um suspiro doloroso partiu-lhe dos lábios. Ficou extática.
Miguel tinha a cabeça no colo da desfalecida e permanecia imóvel como ela; lembrando ambos tão unidos, tão modos e tão pálidos, Pigmalião e sua amante de mármore.
Assim decorreu uma hora de pedra: fria, pesada e estúpida.
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Rosalina, por fim, impacientou-se e, sorrateiramente levantando a cabeça e desembaraçando-se dos abundantes cabelos pretos, disse quase imperceptivelmente: – Miguel... não partes?...
Miguel não respondeu.
– Não partes? – repetiu Rosalina, levantando um pouco mais a voz.
Ainda o mesmo silêncio.
Então, como a noiva, que vai, entre desejosa e envergonhada, provocar novas carícias do amante, ergueu ela com as mãos diáfanas a cabeça mole que lhe repousava no colo e encarou-a.
Grito de terror e remorso rompeu-lhe inteiriço das entranhas.
Miguel estava morto. Então, uma lágrima cristalina e santa, desprendendo-se do coração, rolou pura pelas faces da mulher. Chorou pela primeira vez! Aquela lágrima valia o poema inteiro da sua existência! Era o transunto do seu arrependimento! Era o perdão dos seus crimes! Chorou! Chorou uma lágrima de mulher, e por isso que vinha de Deus! Rosalina amou pela primeira vez – aquele cadáver.
Fonte: www.dominiopublico.gov.br