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LIRA DOS VINTE ANOS

alvares de azevedo

O LENÇO DELA

Quando, a primeira vez, da minha terra

Deixei as noites de amoroso encanto,

A minha doce amante suspirando

Volveu-me os olhos úmidos de pranto.

Um romance cantou de despedida,

Mas a saudade amortecia o canto!

Lágrimas enxugou nos olhos belos...

E deu-me o lenço que molhava o pranto.

Quantos anos, contudo, já passaram!

Não olvido porém amor tão santo!

Guardo ainda num cofre perfumado

O lenço dela que molhava o pranto...

Nunca mais a encontrei na minha vida,

Eu contudo, meu Deus, amava-a tanto!

Oh! quando eu morra estendam no meu rosto

O lenço que eu banhei também de pranto!

RELÓGIOS E BEIJOS — TRADUZIDO DE HENRIQUE HEINE —

Quem os relógios inventou? Decerto

Algum homem sombrio e friorento:

Numa noite de inverno, tristemente

Sentado na lareira ele cismava,

Ouvindo os ratos a roer na alcova

E o palpitar monótono do pulso.

Quem o beijo inventou? Foi lábio ardente,

Foi boca venturosa, que vivia

Sem um cuidado mais que dar beijinhos...

Era no mês de maio. As flores cândidas

A mil abriam sobre a terra verde,

O sol brilhou mais vivo em céu d’esmalte

E cantaram mais doce os passarinhos.

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