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Poemas Malditos

Álvares de Azevedo

VII

—Que tens? desmaias?

Que tens, mancebo?

—Nada. É cedo ainda.

Não é ela ainda não. Chamei por ela. . .

Foi em vão. . . delirei. . .

—Por quem?

—A morte.

—Morrer! pobre de ti, ó meu poeta!

—Se a morte é sofrimento, eu sofro tanto,

Que a mudança do mal será consolo;

Se a morte é sono, meu cansado corpo

No descanso eternal deixai que durma.

—Eu também sofro. . . mas a morte assusta.

Eu mísera mulher nas amarguras

Descorei e perdi a formosura.

No amor impuro profanei minha'alma. ..

E nesta vida não amei contudo!

Não sou a virgem melindrosa e casta

Que nos sonhos da infância os anjos beijam

E entre as rosas da noite adormecera

Tão pura como a noite e como as flores;

Mas na minha'alma dorme amor ainda.

Levanta-me, poeta, dos abismos

Até ao puro sol do amor dos anjos!

Ó minha vida, minha vida pura,

Por que foram tão breves da inocência

Das crenças virginais os belos dias?

Chamei por Deus em vão. Sobre meu leito

Em vez do anjo do céu senti gelada

Sombra desconhecida vir sentar-se

Em beijos frios roxear meus lábios,

Em abraços de morte unir-me ao seio.

Douda! chamei por Deus! a meu reclamo

Veio o torvo Satã... Oh! não maldigas

A mísera que os seios inocentes

Entregou sem pudor a mãos impuras:

Eram taças de Deus... eu bem sabia!

Mas todo o pesadelo do passado

Foi uma horrenda sina... tudo aquilo

Escrevera Satã

VIII

—Fatalidade!

É pois a voz unânime dos mundos.

Das longas gerações que se agonizam

Que sobe aos pés do Eterno como incenso?

Serás tu como os bonzos te fingiram?

Sublime Criador, por que enjeitaste

A pobre criação? Por que a fizeste

Da argila mais impura e negro lado,

E a lançaste nas trevas errabunda

Co'a palidez na fronte como anátema,

Qual lança a borboleta a asas d'oiro

No pântano e no sangue?

Tudo é sina:

O crime é um destino—o gênio, a glória

São palavras mentidas—a virtude

É a máscara vil que o vício cobre.

O egoísmo! eis a voz da humanidade.

Foste sublime, Criador dos mundos!

IX

Tudo morre, meu Deus! No mundo exausto

Bastardas gerações vagam descridas.

E a arte se vendeu, essa arte santa

Que orava de joelhos e vertia

O seu raio de luz e amor no povo,

E o gênio soluçando e moribundo

Olvidou-se da vida e do futuro

E blasfema lutando na agonia.

Agonia de morte! Só em torno

No leito do morrer as almas gemem.

E o fantasma da morte gela tudo.

Por que um ardente amor não mais suspira

Notas do coração pelo silêncio

Da noite enamorada? A chama pura

Por que das almas se apagou nas cinzas

E a lira do poeta. se murmura

As ilusões de um mundo visionário,

Por que estala tão cedo? Vagabundo

Adormeci das árvores na sombra

E nos campos em flor errei sonhando,

Coroando-me dos lírios da alvorada.

Arvore prateada da esperança.

Sombra das ilusões, ó vida bela

E sempre bela, e no morrer ainda,

Por que pousei a fronte sobre a relva

A sombra vossa, delirante um dia?

Oh! que morro também! na noite d'alma

Sinto-o no peito que um ardor consome,

No meu gênio que apaga nas orgias,

Que foge o mundo, e o sepulcro teme . .

Exilei-me dos homens blasfemando,

Concentrei-me no fundo desespero,

E exausto de esperança e zombarias

Como um corpo no túmulo lancei-me,

Suicida da fé, no vício impuro.

X

E o mundo? não me entende. Para as turbas

Eu sou um doudo que se aponta ao dedo.

A glória é essa. P'ra viver um dia

Troquei o manto de cantor divino

Pelas roupas do insano.—Os sons profundos

Ninguém os aplaudia sobre a terra.

Para um pouco de pão ganhar da turba,

Como teu corpo no bordel profanas.

—Fiz mais ainda! prostituí meu gênio.

Oh! ditoso Filinto! ele sim pôde

Na miséria guardar seu gênio puro!

Nunca infame beijou a mão dos grandes!

Morreu como Camões, morreu sem nódoa!

Mas eu! A voz do vício arrebatou-me,

Fascinou-me da infâmia o revérbero .

Maldições sobre mim! Abre-te, ó campa!

Ali obscuro dormirei na treva

XI

O santa inspiração! fada noturna,

Por que a fronte não beijas do poeta?

Por que não lhe descansas nos cabelos

A coroa dos sonhos, e rebentam-lhe

Entre as lívidas mãos uma por uma

As cordas do alaúde no vibrá-las?

Ó santa inspiração! por que nas sombras

Não escuta o poeta à meia-noite

Os sons perdidos da harmonia santa

Que o pobre coração de amor lhe enchiam?

Eu fui à noite da taverna à mesa

Bater meu copo à taça do bandido.

Na louca saturnal beber com ele,

Ouvir-lhe os cantos da sangrenta vida

E as lendas de punhal e morticínio.

De vinho e febre pálido, deitei-me

Sobre o leito venal de uma perdida. . .

Comprimi-a no meu exausto peito.

Falei-lhe em meu amor, contei-lhe sonhos,

Do meu passado a dor, as glórias murchas

E os longos beijos da primeira amante...

Amor! amor! meu sonho de mancebo!

Minha sede! meu canto de saudade!

Amor! Meu coração, lábios e vida

A ti, sol do viver, erguem-se ainda,

E a ti, sol do viver, erguem-se embalde!

Ouvi, ouvi no leito da miséria

A pálida mulher junto a meu peito

Contar-me seus amores que passaram,

Falar-me de purezas, d'esperanças....

E soluçava a triste, e ardentes longas,

As lágrimas em fio deslizando

Eu vi caindo sobre o seio dela. . .

Oh! suas emoções, úmidos beijos,

Dos seios o tremor, aqueles prantos,

E os ofegantes ais eram mentira!

XII

Ah! vem, alma sombria que pranteias.

Por quem choras? Por mim?

Em vez de prantos

Deixa-me suspirar a teus joelhos.

Tu sim és pura. Os anjos da inocência

Poderiam amar sobre teu seio.

Aperta minha mão! Senta-te um pouco

Bem unida a minha alma em meus joelhos,

Assim parece que um abraço aperta

Nossas almas que sofrem. Revivamos!

O passado é um sonho—o mundo é largo,

Fugiremos à pátria. Iremos longe

Habitar num deserto. No meu peito

Eu tenho amores para encher de encantos

Uma alma de mulher Por que sorriste?

Sou um louco. Maldita a folha negra

Em que Deus escreveu a minha sina .

Maldita minha mãe, que entre os joelhos

Não soubeste apertar, quando eu nascia,

O meu corpo infantil! Maldita!

XIII

Escuta:

Sinto uma voz no peito que suspira.

É a alma do poeta que desperta

E canta como as aves acordando

Oh! cantemos! até que a morte fria

Gele nos lábios meus o último canto!

Um cântico de amor, ó minha lira!

Anália! Armia! aparições formosas!

Eu amei sobre a terra as vossas sombras,

O ideal que vos anima e eu buscava,

Vive apenas no céu! vou entre os anjos,

Entre os braços da morte amar com eles!—

XIV

O poeta a tremer caiu no lodo.

A perdida tomou-lhe a fronte branca,

Pô-la ao colo—era lívida—inda o fogo

Lá dentro vacilava agonizando,

Como flutua a claridão da lâmpada

Apagando-se ao vento.

E quando a aurora

Nos céus de nácar acordava o dia,

E nas nuvens azuis o sol purpúreo

Se embalava no eflúvio de ventura

Das flores que se abriam, dos perfumes,

Da brisa morna que tremia as folhas,

Macilenta a mulher no chão da rua

Sentada, a fronte curva sobre os seios

Embalava cantando aquele morto.

Na manta o encobriu. Medrosa a furto

A infeliz o beijou—o pobre amante

Que uma só noite pernoitou com ela

Para aos pés lhe morrer—e sem ao menos

Nas faces dela estremecer um beijo.

Alguém que ali passou, vendo-a tão pálida

Sentada sobre a laje, e tão ardente,

Chegou ao pé—ergueu ao malfadado

A manta.

Como súbito acordando

Disse a moça a tremer:

—Deixa-o agora.

Ele penou de febre toda a noite,

Deitou-se descansando sobre o leito...

Oh! deixa-o dormir.

—Mulher no peito

Sabes quem te dormiu?

—"Que importa o nome?"

Assim falava-me…

—Ai de ti, misérrima!

Um poeta morreu. Fronte divina,

Alma cheia de sol, fronte sublime

Que de um anjo devera no regaço

Amorosa viver. . . Morreu Bocage!

O Poema do Frade

(Fragmentos interligados)

Meu herói é um moço preguiçoso

Que viveu e bebia porventura

Como vós, meu leitor... se era formoso

Ao certo não o sei. Em mesa impura

Esgotara com lábio fervoroso

Como vós e como eu a taça escura.

Era pálido sim. . . mas não d'estudo:

No mais . . era um devasso e disse tudo!

Dizer que era poeta—é cousa velha!

No século da luz assim é todo

O que herói de novelas assemelha.

Vemos agora a poesia a rodo!

Nem há nos botequins face vermelha,

Amarelo caixeiro, alma de lado,

Nem Bocage d'esquina, vate imundo,

Que não se creia um Dante vagabundo!

O meu não era assim: não se imprimia,

Nem versos no teatro declamava!

Só quando o fogo do licor corria

Da fronte no palor que avermelhava,

Com as convulsas mãos a taça enchia.

Então a inspiração lhe afervorava

E do vinho no! eflúvio e nos ressábios

Vinha o fogo do gênio à flor dos lábios!

Se era nobre ou plebeu, ou rico ou pobre

Não vos direi também: que importa o manto

Se é belo o cavaleiro que ele cobre?

E que importa o passado, um nome santo

De pútridos avós? plebeu ou nobre

Somente a raiva lhe acordava o pranto.

Embuçada no orgulho a fronte erguia

E do povo e dos reis escarnecia!

Não se lançara nas plebéias lutas,

Nem nas falanges do passado herdeiras,

No turbilhão das multidões hirsutas,

Não se enlaivou da pátria nas sangueiras,

Nem da praça no pó das vis disputas!

Sonhava sim em tradições guerreiras,

Nos cânticos de bardo sublimado...

Mas nas épicas sombras do passado.

O presente julgava um mar de lama

Onde vis ambições se debatiam,

Ruína imunda que lambera a chama,

Cadáver que aves fétidas roíam!

Tudo sentiu venal! e ingrata a fama!

Como torrentes trépidas corriam

As glórias, tradições, coroas soltas

De um mar de infâmias às marés revoltas!

Não quisera mirar a face bela

Nesse espelho de lodo ensangüentado!

A embriaguez preferia: em meio dela

Não viriam cuspir-lhe o seu passado!

Como em nevoento mar perdida vela

Nos vapores do vinho assombreado

Preferia das noites na demência

Boiar (como um cadáver!) na existência!

Uma vez o escutei: todos dormiam—

Junto à mesa deserta e quase escura:

Lembranças do passado lhe volviam;

Não podia dormir! Na festa impura

Fora afogar escárnios que doíam. . .

Não o pode: dos lábios na amargura

Ouvi-lhe um murmurar. . Eram sentidas

Agonias das noites consumidas!

Olvidei a canção: só lembro dela

Que d'alma a languidez a estremecia:

Como um anjo num sonho de donzela

Sobre o peito a guitarra lhe gemia!

E quando à frouxa lua, da janela,

Cheia a face de lágrimas erguia,

Como as brisas do amor lhe palpitavam

Os lábios no palor que bafejavam!

Amar, beber, dormir, eis o que amava:

Perfumava de amor a vida inteira,

Como o cantor de Don Juan pensava

Que é da vida o melhor a bebedeira. . .

E a sua filosofia executava. . .

Como Alfred Musset, a tanta asneira

Acrescento porém… juro o que digo!

Não se parece Jônatas comigo.

Prometi um poema, e nesse dia

Em que a tanto obriguei a minha idéia

Não prometi por certo a biografia

Do sublime cantor desta Epopéia.

Consagro a outro fim minha harmonia

Por favor cantarei nesta Odisséia

De Jônatas a glória não sabida

Mas não quero contar a minha vida.

Basta! foi longo o prólogo confesso!

Mas é preciso à casa uma fachada,

A fronte da mulher um adereço,

No muro um lampião à torta escada!

E agora desse canto me despeço

Com a face de lágrimas banhada,

Qual o moço Don Juan no enjôo rola

Chorando sobre a carta da Espanhola.1

Mas eu sei: que senti o amor ardente

Convulsivo bater num peito exausto!

Sei: que senti a lágrima tremente

Como na insana palidez o Fausto!

Quando o sono fugia às noites minhas

Como às nuvens do inverno as andorinhas.

Bebi-a essa tristeza, essa doença

Que nos escalda lágrimas sombrias,

Que nos revolve sós na vaga imensa

Do Oceano das internas agonias!

Que empalidece a face e morte lenta

Nos estampa na fronte macilenta.

Ah! virgem das canções, entre vapores

És pura e bela sim, porém teus lábios

Me fazem delirar como licores

Que afervoram-nos tépidos ressábios!

Quando em teu colo vou deitar-me agora

Teu palpitar as faces me descora!

E cedo morrerei: sinto-o, nas veias

O meu sangue se escoa vagaroso

Como um rio que seca nas areias,

Como donzela, que desmaia em gozo!

Teus lábios, fada minha, me queimaram,

E as lânguidas artérias me esgotaram!

Mas que importa nas sombras da existência

Se mentiu-me o sonhar quando eu sentia

Um dos pálidos anjos de inocência

Pousar-me a face ao peito que gemia,

Se num sonho de amor, em noite bela

Nos suspiros do mar amei com ela!

Era uma lua pálida e sombria

Que seu leito nas ondas embalava

Na mão de neve a face lhe pendia;

E nos sonhos a virgem se enlevava!

E, que estrelas no céu! e que ardentia!

Que perfume seu véu estremecia!

E que sonhos, meu Deus! e que ventura!

E que vento de amores palpitava

Na escuma do batel a vaga pura

E lascivos suspiros lhe arrulhava!. . .

E em torno mar e céu—a noite bela,

Nos meus braços a inânida donzela!

Ah! virgem das canções, aos brancos lírios

Por que tão cedo me chover na infância

O mágico sereno dos delírios

Que adormece, embalsama na fragrância?

E do amor entre os lânguidos conselhos

Minha fronte embalar nos teus joelhos?

Por que tão cedo o vinho da harmonia

Nos beiços infantis correu-me aos sonhos,

Entornou-me essa nuvem que inebria,

Que gela o riso aos lábios meus risonhos?

Tão quedo o sono meu, por que turvá-lo,

E de ilusões esplêndidas povoá-lo?

E tão cedo! por que encher meu leito

Destas sombras suaves, delirantes?

E na harpa adormecida de meu peito

Suspirarem-me sons tão ofegantes?

E por que não deixar o meu sentir

Da infância d'oiro nos frouxéis dormir?

E assim eu morrerei: co'a sede ainda

Amargosa no lábio ressicado!

Cansando os olhos na extensão infinda,

Perguntando se a crença do passado

Também verei no lodo revolvida. . .

E como tu sufocarei a vida!...

É sombrio, confesso-vos, meu canto:

E obscuro demais, o que é defeito!

Mas é um sonho apenas que recanto,

Que em noite longa me gelou no leito—

Sonho de febre, insano pesadelo

Que à fronte me deixou pálido selo!

Não teve o Dante mágoa mais profunda

Quando na sombra ergueu o condenado,

De um crânio carcomido a boca imunda

E enxugou-a em cabelo ensangüentado:

E contou sua lívida vingança

Na mansão da eternal desesperança!

Nem mais estremeceu quando o passado

Do túmulo na sânie revivia. . .

Quando o velho rugindo sufocado

De fome e raiva ainda se torcia. . .

Como quando as crianças se mordiam,

E ardentes, moribundas, pão! pediam!

Quando contou as noites regeladas

E o ar da podridão. . . e a fome impura

Saciando nas carnes desnervadas

De seus filhos. . . de sua criatura!

Como a pantera emagrecida come

Os filhos mortos p'ra cevar a fome!

Acordei ao tremer de calafrios

Com o peito de mágoas transbordando;

Enxuguei com a mão suores frios

Que sentia na face porejando!

E um dia o pesadelo que eu sentira

Mesclou-se aos moles sons de minha lira.

Mesclou-se como ao vinho um ditirambo,

Ao farfalhar de Pança 3 um velho adágio,

Às alvas flores se mistura o jambo

E um ósculo de amor em um naufrágio.

—Creio que vou dizer alguma asneira. . .

Como o nome de Deus à bebedeira!

Escrevi o meu sonho. Nas estâncias

Há lágrimas e beijos e ironias,

Como de noite muda nas fragrâncias

Perde-se um ai de ignotas agonias!

Tudo é assim—no sonho o pesadelo,

—Em almas de Madona quanto gelo!

É assim o viver. Por noite bela

Não durmas ao relento na janela

Contemplando o luar e o mar dormente.

Poderá apanha-te de repente

Fria constipação, febre amarela,

Ou alguma prosaica dor num dente!

Vai, c'oa mão sobre o peito macilento

Curvado como um velho peregrino,

Vai, tu que sofres, implorar—sedento

Um remédio de amor a teu destino!. . .

Um doutor sanará o teu tormento

Com três xícaras d'óleo de rícino

Eu vi, eu vi um tipo de Madona

Que os ares perfumava de beleza:

Que suave mulher! ah! não ressona

Uma virgem de Deus com tal pureza!

Era um lago a dormir... na flor sereno!

Porém sua água azul tinha veneno!

E agora—boa-noite! eu me despeço

Desta vez para sempre do poema:

Como soberbo sou, perdões não peço.

Mas como sou chorão, deixai que gema,

Que dê largas a est'alma intumescida

Na dor de tão solene despedida!

Que prantos! que suspiros sufocados!

Se eu gostasse dos versos eloqüentes,

Como eu descreveria bem rimados

Do meu peito os anélitos frementes!

Porém nos seios eu sufoco tudo,

Porque da mágoa o serafim é mudo.

Silêncio, coração que a dor inflama!

Além do escárnio, sons! quero o meu leito

Das lágrimas banhar que a dor derrama!

Quero chorar! quero chorar! meu peito!

Dizer adeus ao sonho que eu sentira,

Sem profanar as ilusões na lira!

Eu não as profanei! guardo-as sentidas

Nas longas noites do cismar aéreo,

Guardo-as na esperança, nas doridas

Horas que amor perfuma de mistério!

Sem remorso, nem dor, aos sonhos meus

Eu posso ainda murmurar—adeus!!

Ah! que na lira se arrebente a corda

Quando profana mão os sons lhe acorda!

E o pobre sonhador a fantasia,

O sonho que ama e beija noite e dia

Não saiba traduzir, quando transborda

Seu peito dos alentos da harmonia!

Que não possa gemer a voz saudosa

Como o sopro dos ventos avendiços,

Como a noite que exala-se amorosa!

Como o gemer dos ramos dobradiços!

Para exprimir os pensamentos meus

Nos cantos melancólicos do adeus!

Adeus! . . é renunciar numa agonia

A esperança que ainda nos palpita;

Sentir que os olhos cegam-se, que esfria

O coração na lágrima maldita!

Que inteiriçam as mãos, e a alma aflita

Como Ágar no deserto ora sombria!

Sentir que tudo em nós se gela e chora,

E o coração de lágrimas se vela!

E a natureza além revive agora,

E a existência por viver, mais bela

Novas delícias, novo amor revela

Do luzente porvir na roxa aurora!

Sentir que se era poeta... à brisa errante

Bebendo eflúvio que ninguém respira,

Pressentindo à donzela palpitante

Os enlevos, os ais, e o sonho amante

Que nos beija no berço sussurrante,

E o perfume que a música transpira!

Adeus! é uma gota de mistério

Que Deus nos orvalhou como sereno!

É a dor volutuosa—o bafo aéreo

Que derrama perfumes e veneno!

E a cisma que rola, que resvala,

Que os pensamentos no desejo embala!

Saibo do céu que aviva na lembrança

Que é um filho de Deus o moribundo

A quem se fana a tímida esperança!

Que é dos anjos irmão e que é no fundo

Do Oceano do viver, que o vagabundo

A pérola do amor talvez alcança.

E as crenças sentir uma por uma

Que se adormecem e o batel da vida

No Oceano escuro cobre-se d'escuma

E se afunda no mar e dolorida

A alma do marinheiro empalecida

Ao arrebol da morte se perfuma!

Adeus! tudo que amei! o vento frio

Sobre as ondas revoltas me arrebata,

Além a terra perde-se o navio

Trilha nos mares sobre um chão de prata!

Adeus! tudo que amei, que me retrata

Inda a saudade ao terno desvario!

Meu céu! minhas montanhas verdejantes!

Cetim azul da lânguida baía!

Manhas cheias de brisas sussurrantes,

Noites cheias de estrelas e ardentia!

Oh! noite de luar! oh! melodias

Que nas folhas gemeis,; ventos errantes!

Vales cheirosos onde a infância minha

Virgem peregrinou entre mil sonhos!

Noites, luas, estrelas da noitinha

Que os lábios entrebristes-me risonhos,

E orvalháveis de morno sentimento

A aberta flor do coração sedento!

Silêncio que eu amei, que eu procurava

Na varanda romântica e sombria,

Sorvendo dentro em mim ar que sentia

Na fresca viração que se acordava!

Suspirando a cismar nessa atonia

Que de amor minhas pálpebras banhava!

Sobre as colunas o luar batendo

E nas palmeiras úmidas tremendo

Filtrava-me sossego, e o mole engano

Em que se abisma o pensamento insano,

Que empalece da noite os sons bebendo

E harmonias escuta no Oceano!

E vós, águas do mar, que me embalava

Ao som dos remos da gentil falua!

Onde a fronte de escumas se banhava,

E à morta luz da vagabunda lua

Cismava como a nuvem que flutua

Do escravo à nênia estranha que soava!

Oh! minha terra! oh! tarde recendente

Que embalsamando vens com teus cabelos

Derramados à luz! O sol ardente

Como os lábios do amor! luares belos

Como das flores de laranja o cheiro

Que perfumam da noiva o travesseiro!

E adeus, vós que eu amei, que inda sentidas

As ilusões me acordam na tristeza!

Que inda choro nas minhas despedidas!

Belas dos sonhos! anjos de beleza!

Morenas a quem banha a morbidezza!

Como as rosas da noiva empalecidas

Ai todos vos sonhei cândidos seios

Onde amor pranteara delirante!

Onde gemera em derretido enleio

Como em seios de mãe sedento infante!

Águas místicas aonde estrelas santas

Deixaram trilhos das argênteas plantas!

Como o triste Alcion vagueia errante

Nas frias primaveras do Oceano

E ama as alvas, a noite sussurrante,

Tardes, ondas e sol e leviano

Na leviana afeição embriaga insano

A existência nos seios o inconstante!

Eu todos vos amei! cri no mistério

Que o libertino Don Juan levava,

Nas noites profanadas do adultério,

Quando a alma sedenta evaporava!

E a vida como um alaúde aéreo

A todos os alentos entregava!

Terra do amor! ó minha mãe! na vida

Se o fado me levar em mágoa lenta—

Sempre nesta saudade esmorecida

Que de tristes lembranças se alimenta!—

Na morte a minha fronte macilenta,

Inda a ti volverei qual flor à vida!

Viverei do que foi—dos sonhos meus!—

Da seiva do passado hei de essa flor

Regar das quentes lágrimas do amor!

E quando a luz apague-se nos céus

E o frio coração à dor sucumba

Inda murmurarei—adeus!—da tumba,

O Poema de um louco

(Fragmento de "O Conde Lopo")

There is something which I dread It is a dark, a fearful thing.

. . . . . . . . .

That thought comes o'er me in the hour Of grief, of sickness, of sadness 'Tis not the dread of death! 'tis more —It is the dread of madness.

Lucretia Davidson

I

Foi poeta: cantou, e o estro em fogo

Crestou-lhe o peito, devorou seus dias

E a febre ardente desbotou-lhe a fronte

Em dores sós, em delirar insano.

Foi poeta: cantou, sonhou: a vida

Canto e sonhos lhe foi. Amor e glória

Com asas brancas viu sorrindo em vôos.

Foi-lhe vida sonhar: e ardentes sonhos

A fronte lhe acenderam, lhe estrelaram

Mágico da existência o firmamento.

Cantou, sonhou—amou:: cantos e sonhos

Em amor converteu-os. De joelhos

Em fundo enlevo ele esperou baixasse

Alguma luz do céu, que amor dissesse—

Anjo ou mulher! embora que ele a amara

C'o fogo queimador que o consumia

Com o amor de poeta que o matava!

Anjo ou mulher—embora! e em longas preces

Noite e dia o esperou—Mísero! Embalde!

Sonhou—amou—cantou: em loucos versos

Evaporou a vida absorta em sonhos—

E debalde! ninguém chorou-lhe os prantos

Que sobre as mortas ilusões já findas

Pálido derramara—

Amou! E um peito

Junto ao seu não ouviu bater consoante

C'os amores do seu! Ninguém amou-o

E nem as mágoas lhe afogou num beijo! —

E morreu sem amor.—Bateu-lhe embalde

O pobre coração em loucas ânsias.

Passou ignoto, solitário e triste

Entre os anjos do amor, só viu-lhe risos

Em braços doutros—e invejosa mágoa

Essa alheia ventura só lhe trouxe.

Nunca a mão dele de uma fronte branca

A alva coroa fez cair da virgem—

Jovem, solteiro, sem consórcio d'alma

Entre as rosas da vida—mas nenhuma

Nem deu-lhe um riso—nem do moço pálido

No imo d'alma guardou uma saudade!

Mas se à terra saudades não deixara

Não levou-as também—do peito o orgulho

Que ninguém quis amar, ninguém amou.

—Foi-lhe quimera o amor, não mais lembrou-o,

Tentou-o ao menos. —E que importa um morto?

— Doido é quem geme em lagrimar estéril—

Quando o luto findou e alegre o baile

Corre entre flores no valsar, quem lembra

O defunto que é podre no jazigo?

—Morrera-lhe o sonhar—por que chorá-lo?

E morreu sem amor! E ele contudo

Tinha no peito tanto amor e vida!

Alma de sonhos, tão ardentes, cheia!

E anelante do amor do peito—em outro

Em horas ternas efundir em beijos!

E às vezes quando a fronte pela febre

Pesada e quente sobre as mãos firmava,

Quando esse delirar febril da insônia

Em vertigens travava de sua alma,

Um negro pensamento lhe passava

Como um fuzil no cérebro fervente,

E pensava dos loucos no delírio,

Na escura treva da vertigem tonta!

Temia—a morte não—mas—a loucura.

Invocação

Variações em todas as cordas

I

Alma de fogo, coração de lavas,

Misterioso Bretão de ardentes sonhos

Minha musa serás—poeta altivo

Das brumas de Albion, fronte acendida

Em túrbido ferver!—a ti portanto,

Errante trovador d'alma sombria,

Do meu poema os delirantes versos!

II

Foste poeta, Byron! a onda uivando

Embalou-te o cismar—e ao som dos ventos

Das selváticas fibras de tua harpa

Exalou-se o rugir entre lamentos!

III

De infrene inspiração a voz ardente

Como o galope do corcel da Ucrânia

Em corrente febril que alaga o peito

A quem não rouba o coração—ao ler-te?

Foste Ariosto no correr dos versos,

Foste Dante no canto tenebroso,

Camões no amor e Tasso na doçura,

Foste poeta, Byron!

Foi-te a imaginação rápida nuvem

Que arrasta o vento no rugir medonho—

Foi-te a alma uma caudal a despenhar-se

Das rochas negras em mugido imenso.

Leste no seio, ao coração, o inferno,

Como teu Manfred desfraldando à noite

O escurecido véu.—E riste, Byron,

Que do mundo o fingir merece apenas

Negro sarcasmo em lábios de poeta.

Foste poeta, Byron!

IV

A ti meu canto pois—cantor das mágoas

De profunda agonia! —a ti meus hinos,

Poeta da tormenta—alma dormida

Ao som do uivar das feras do oceano,

Bardo sublime das Britânias brumas!

1

Foi-te férreo o viver—enigma a todos

Foi o teu coração!

Da fronte no palor fervente em lavas

Um gênio ardente e fundo:

O mundo não te amou e riste dele

—Poeta—o que era-te o mundo?

Foste, Manfred, sonhar nas serras ermas

Entre os tufões da noite—

E em teu Jungfrau—a mão da realidade

As ilusões quebrou-te!

Como um gênio perdido—em rochas negras

Paraste à beira-mar.

Do escuro céu falando às nuvens—solto

O negro manto ao ar!

O mar bramiu-te o hino da borrasca

E em pé—no peito os braços—

O riso irônico—vinha o azul relâmpago

T'esclarecer a espaços.

A fonte nua o rorejar da noite

Frio—te umedecia

E acima o céu—e além o mar te olhava

C'os olhos da ardentia!

2

As volúpias da noite descoraram-te

A fronte enfebrecida

Em vinho e beijos—afogaste em gozo

Os teus sonhos da vida.

E sempre sem amor, vagaste sempre

Pálido Dom João!

Sem alma que entendesse a dor que o peito

Te fizera em vulcão!

3

Da absorta mente os sonhos te quebrava

Do mundo o sussurrar.

E foste livre refazer teu peito

Ao ar livre do mar.

E quando o barco d'alta noite aos ventos

Entre as vagas corria

E d'astro incerto o alvor te prateava

A palidez sombria,

Era-te amor o pleitear das águas

Nos rochedos cavados—

E amargo te franzia um rir de gozo

Os lábios descorados!

E amaste o vendaval, que as folhas trêmulas

Das florestas varria—

E o mar—alto a rugir—que a ouvi-lo, a fronte

Altiva se te erguia!

E amaste negro o céu—o mar—a noite

E entre a noite—o trovão!

Num crânio zombador brindaste aos mortos.

Cantor da destruição

4

E um dia as faces desbotou-te a morte

De alvor, frio e letal

Deram-te em presa aos vermes—Mas que importa

Se é teu nome imortal?

Se foste sobranceiro na peleja

Como o foras nos cantos—

Se o grego litoral e o mar que o banha

Por ti beberam prantos?

Se do levante as virações correndo

Nos mares orientais

Deram-te nênias no sussurro trêmulo,

Byron, se o nome teu lembra um espírito

Das glórias decaído

E fez-te o coração os teus poemas

De coração perdido,

Se co'a dor de teus hinos simpatizam

Duma alma os turvos imos

E o teu sarcasmo queimador consola

E contigo sorrimos?

5

Vem, pois, poeta amargo da descrença

Meu Lara vagabundo—

E co'a taça na mão e o fel nos lábios

Zombaremos do mundo!

O Livro de Fra. Gondicário

(Fragmentos em ritmo de poesia em prosa)

I

Era em Veneza. O sol descaía, no manto rubro do crepúsculo, como um rajá da Índia fulgente de jóias nos estofos de damasco do seu divã—e o mar ao longe cintilava numa esteira de rubis e lantejoulas como o fagulhar da queimada a estorcer-se pelos verdumes crepitantes da montanha.

E o céu sorria vermelho como os lábios de uma rosa aberta, e as nuvens passavam lentas como galeotas desertas nas praias de Stambul a Soberana, e as brisas roçavam pelas águas suspirosas como os beijos a furto dos lábios vermelhos da Odalisca pela fronte escura do Califa adormecido à sombra dos romaes de Granada a Mourisca, e como o correr da pátena d'oiro nos festins Romanos pelos lábios das Bacantes coroadas das eras de saturnal—e as falas da mulher no devassar da orgia, pelos ouvidos indiferentes do ébrio de vinho e volúpias.

E a tarde era louçã como o amanhecer de fadas e um anoitecer de lua quando o corpo de Febe a nua desmaia no lençol azul dos mares.

E a tarde era louçã como esses beijos a furto nos carnavais Italianos no lacre de uns lábios risonhos dentre as rendas bordadas da máscara de veludo—era louçã e bela com seu dossel carmesim e seus lírios roxos, com seu horizonte de fogos furta-cores—e suas nuvens de púrpura e crisólito—de neves e sangue—e seu mar cintilante como o manto de veludos estrelados da rainha do Adria, se alvoroçando ao desflorar das aragens da tarde, que aí se perdia no além azulado das montanhas.

Era numa dessas belas ruas de Veneza, onde por entre as casarias vermelhas espelha-se o ondular das águas, como a lamina de um montante de Damasco . .. Não lhe sei o nome. Entrevia-a apenas no deslumbre de um devaneio, sonhei-a, criei-a pelo meu sonho com suas visões de mulheres, seus suspiros de alaúde e de mandara, seus hálitos embalsamados.

Era numa rua de Veneza.—À porta de um palácio estava sentado um vulto embuçado num manto branco.

Era uma dessas feições soberbas do mar além do Me" diterrâneo desses Almogávares denegridos que nas horas do Combate ao reluzir da folha curva do Iatagã aos raios do meio-dia, aos brados guerreiros pelo Alá dos Bárbaros, se acardumam soberbos em torno dos Adaís do deserto.

Um daqueles bustos altivos que o mancebo poeta talvez entreviu no sonho de Otelo, o negro.

Era uma fronte larga e abassanada avultando sob as pregas do Caftã branco, uns olhos vivos como os dos chacais nas noites sem estrelas, uivando ao redor das tendas da caravana,—o bigode basto e negro—e a barba longa ondando sobre o embuço do albornoz selvagem.

O que aí fazia o Árabe nem o sei talvez—o sonho não m'o preveniu.

Parecia-me apenas que uma nuvem negra lhe corria pela fronte como uma sombra na face cor de aço de um lago em noites pardacentas—e seus olhos inquietos se perdiam nos longes do Canal.

Sonhava? E entrevia nos aléns as paragens do oásis, com seu manto de relvas e seus quiosques de sombrios palmares onde o Bulbul Z da Arábia gorjeia os amores das rosas? e entre os verdumes o branquear das tendas da tribo, o reluzir das lanças dos Spahis Cavaleiros, o relinchar das éguas reluzidas esquias dos Agas valentes

Sonhava? E entrevia no fresco de algum arvoredo, na margem sombria da cisterna do deserto, o roupão branco e o turbante caído, e o manto acetinado de cabelos pelos seios nus,—alguma Gulnare ou Rachyma,

Iantha ou Juana a Espanhola—flor de romã aberta mais viva no transplantar do harém, pérola colhida nas praias floridas da Espanha, Grécia ou Itália?

Sonhava? E entrevia nuns olhos úmidos de mulher lágrimas por eles, nos seios torneados e altivos onde um suspiro flutua e morre, algum anseio de volúpia, algum rever lânguido das ebriedades no aperto do seio do amante?

Mas não.—Não era talvez o colo envolto de pérolas da escrava, e os olhares longos da Espanhola, e o cravo dos lábios da Grega na sesta do palmar—Não era talvez o amor da filha das barracas nômadas do Islamita, nem saudades bélicas da terra dos tamareiras

A noite caía—e o céu faiscava de aljôfares—e a lua se erguia atrás dos desenhos fantásticos, e das cúpulas brancas da catedral de S. Marcos—como a noiva ao través do seu véu de virgem—fitando seus longos olhares sobre a cidade dormida num leito de pedra.

II

A lua se erguera, pálida como a Febe antiga, a ninfa desmaiada de Delos, depois das longas noites em que ao fresco dos arvoredos ela contemplava o sossegado dormir de Céfalo — e seus raios brancos escorriam pela frente dos palácios como a melena das algas gotejantes nos penhais

Um vulto apareceu numa das sacadas do palácio. Dava-lhe o luar em cheio no rosto pálido.—A fronte alta e descarada sombreavam-lha os longos cabelos negros e reluzentes.—Um manto de veludo o embucava—Havia aí nessa figura escura um não sei que de belo; havia ai nessa descor desfeita, no desalinho dos cabelos, umas sombras misteriosas, que travavam de vencida o olhar.— Disséreis Childe Harold... a unidade convergente de todos os sonhos do poeta—a sombra de Byron que lhe corria em todas as idéias—como a imagem pensativa e melancólica de Karl Moor em todas as criações de Schiller.

Ao Luar

Esperaba, desperado.

III

Era—a do vulto da janela—uma dessas feições que os Sóis do meio-dia parecem ter avivado com o primor de seus lumes—e o fogo de seus verdes.—Ler-se-lhe-ia em cada traço, nos cabelos corridos e ondados, no bigode negro, nos olhos acesos e até nessa morena descor, que pelas válvulas das veias desse homem borbulhavam os fervores de Sarraceno, fundidos na branquidão, de fleugma das raças loiras do Norte—e nos vestígios dos bustos varonis dos soberbos Romanos.—Não havia engranar-se: era um Espanhol ou um Siciliano.

Ao certo contudo ninguém sabia quem era o Conde Tancredo.—Donde vinha, onde ia, como vivia—calava-o ele.—Sua vida era um mistério—para uns era um doidejar de mancebo leviano, rebuçado nas orgias' dormindo nos haréns venais do lupanar, embriagado nos seios torneados na fluidez de cores de um corpo que freme nos abraços seminus das cinturas acetinadas no fresco dos cabelos das Frinés belas.

Para outros essa vida louca e perdulária—o isolado de seu palácio fechado durante o dia, o frenesi dos banquetes, o tumultuar das ceias fascinantes pelo quedar das horas mortas—a figura desse palácio mudo, como um fantasma de pedra, durante o dia—e refletindo de noite nas águas esverdeadas seus vinte olhos de luz—parecia acobertar algum crime: era um tapete de felpos séricos e flores turcas sobre uma nódoa ainda úmida de sangue.

Era contudo de nobre raça, uma dessas feições onde logo se adivinha a nobreza de herança—frontes soberbas onde melhor que nos brasões heráldicos se lê o senho do orgulho dinástico. O Conde Tancredo era assim.

Era um homem de estranhas usanças.—Muitos o viram passar do riso mais alegre à spleenalgia mais sombrosa, do volver mais doce de olhos ao cintilar injetado de sangue de um olhar de cólera muda.

E quando dormia—muitas vezes a amante das noites se erguera de seu lado, fria e pávida,—ao ouvir os gemidos cavernosos de seu peito, e os gritos de raiva rangendo entre seus dentes cerrados—no volver da mão negra de um pesadelo.

Isso que uns chamavam sonambulismo acordava em outros idéias de que a palidez desse homem podia ser um crime, e seus pesadelos um remorso.

IV

O mancebo desaparecia às vezes do balcão da sacada — e suas passadas ressoavam pelo salão escuro—outras reaparecia na janela, estendendo olhares ávidos aos aléns do Canal.

O Árabe sentado no mármore da escadaria, parecia também esperar.

Disséreis contudo que a pessoa que ele esperava parecia não ser a mesma que inquietava tanto o Conde. A direção de seus olhares era oposta inteiramente.

Cada vez, contudo, que o rosto do mancebo embranquecido pela chuva de luzes lívidas da lua aparecia na sombra de seu manto negro, como no fundo escuro de um painel de Téniers ou Van-Dyck—a fronte escura do escravo se erguia—seu olhar brilhava mais ardente —e ele parecia dizer:

—Ele espera também!

V

A noite ia límpida e bela—as virações corriam medo no deslizar das ondas. Fazia-se tarde—só se ouvia às vezes o estalar das águas no cair dos remos reluzentes de umidez, dalguma gôndola solitária, passando muda e negra nas águas.

A noite ia-se límpida e bela.—O ar respirava a bafagem dos laranjais em flor. Entre o ramalhar das folhas, ao sussurrar das ondas, exalava-se às vezes a cantilena monótona do barqueiro—ou o descante ao longe de alguma barca iluminada.

VI

O céu se escurecia sob o crepe das nuvens que avultavam no horizonte, em ondas negras. A lua sumira seu fantasma ebúrneo sob as cortinas da escuridão.

Gotas mornas de chuva começavam a cair…

Davam nesse instante 10 horas em S. Marcos.

Os dois vultos—o da janela e o da escadaria

permaneciam ansiosos.

Uma gôndola escura dobrou o canal—e aproximava-se lenta como uma ave negra aquática, com a cabeça sob a asa, resvalando em seu dormir pelo vidro das águas.

A gôndola vinha sempre—o mancebo permanecia imóvel na escada.

A gôndola parou no cais defronte do palácio

—Aí—aí—disse uma voz argentina de mulher. .

O conde ficou imóvel como bebendo a doçura daquela voz—o Árabe como despertado por ela foi até o cais…

Nesse momento uma forma peregrina de mulher saltava em terra com seus pés mimosos nuns mágicos e curtos sapatos de cetim, envolta numa manta de seda, cujas franjas lhe cobriam o rosto como uma máscara, mas não tanto que algumas doiradas mechas de cabelo lhe não sobressaíssem entre elas…

—É ela—disse o moço pálido, desaparecendo da janela.

—Não é ela—murmurou em sua língua bárbara o selvagem filho do deserto, voltando a embuçar-se no albornoz e a recostar a fronte escura no frio das pilastras de pedra.

—Ide—disse ela ao gondoleiro, atirando-lhe uma moeda de oiro. . .

A gôndola partia quando ela passava o peristilo do palácio.

—Adeus, Ali—disse ela, batendo-lhe com o leque. —Não falas, estátua?

A face queimada do estrangeiro não se moveu.

Sonhava? Esperava?

Talvez ambas as coisas.

FIM

Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br

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