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Poemas Malditos

alvares de azevedo

Todo o vaporoso da visão abstrata não interessa tanto como a realidade da bela mulher a quem amamos. Cuidado, leitor, ao voltar esta página!

Álvares de Azevedo

Prefácio

Cuidado leitor, ao voltar esta página!

Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. Vamos entrar num mundo novo, terra fantástica, verdadeira ilha Barataria de D. Quixote, onde Sancho é rei, e vivem Panúrgio, sir John Falstaff, Bardolph, Fígaro e o Sganarello de D. João Tenório I—a pátria dos sonhos de Cervantes e Shakespeare.

Quase que depois de Ariel esbarramos em Caliban.

A razão é simples. É que a unidade deste livro funda-se numa binomia. Duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro, verdadeira medalha de duas faces.

Demais, perdoem-me os poetas do tempo, isto aqui é um tema, senão mais novo, menos esgotado que o sentimentalismo tão fashionable desde Werther e René

Por um espírito de contradição, quando os homens se vêem inundados de páginas amorosas, preferem Um conto de Boccaccio, uma caricatura de Rabelais, uma cena de Falstaff no Henrique IV de Shakespeare, um provérbio fantástico daquele polisson, Alfred de Musset, a todas as ternuras elegíacas dessa poesia de arremedo que anda na moda, e reduz as mordas de oiro sem liga dos grandes poetas ao troco de cobre, divisível até ao extremo, dos liliputianos poetastros.

Antes da Quaresma há o Carnaval.

Há uma crise nos séculos como nos homens. é quando a poesia cegou deslumbrada de fitar-se no misticismo, e caiu do céu sentindo exaustas as suas asas de oiro.

O poeta acorda na terra. Demais, o poeta é homem. Homo sum, como dizia o célebre Romano. Vê, ouve, sente e, o que é mais, sonha de noite as belas visões palpáveis de acordado Tem nervos, tem fibra e tem artérias—isto é, antes e depois de ser um ente idealista, é um ente que tem corpo. E, digam o que quiserem, sem esses elementos, que sou o primeiro a reconhecer muito prosaicos, não há poesia.

O que acontece? Na exaustão causada pelo sentimentalismo, a alma ainda trêmula e ressoante da febre do sangue, a alma que ama e canta porque sua vida f' amor e canto, o que pode senão fazer o poema dos amores da vida real? Poema talvez novo, mas que encerra em si muita verdade e muita natureza, e que sem ser obsceno pode ser erótico sem ser monótono. Digam e creiam o que quiserem. Todo o vaporoso da visão abstrata não interessa tanto como a realidade formosa da bela mulher a quem amamos.

O poema então começa pelos últimos crepúsculos do misticismo, brilhando sobre a vida como a tarde sobre a terra. A poesia puríssima banha com seu reflexo ideal beleza sensível e nua.

Depois a doença da vida, que não dá ao mundo objetivo cores tão azuladas como o nome britânico de blue devils, descarna e injeta de fel cada vez mais o coração. Nos mesmos lábios onde suspirava a monodia amorosa, vem a sátira que morde.

É assim. Depois dos poemas éticos, Homero escreveu o poema irônico. Goethe depois de Werther criou o Faust. Depois de Parisina e o Giaour de Byron vem o Cain e Don Juan—Don Juan que começa como Cain pelo amor, e acaba como ele pela descrença venenosa e sarcástica.

Agora basta.

Ficarás tão adiantado agora, meu leitor, como se não lesses essas páginas, destinadas a não ser lidas. Deus me perdoe! assim é tudo! até os prefácios!

Um cadáver de poeeta

Levem ao túmulo aquele que parece um cadáver! Tu não pesaste sobre a ferra: a terra te seja leve!

L. Uhland

I


De tanta inspiração e tanta vida

Que os nervos convulsivos inflamava

E ardia sem conforto.. .

O que resta? uma sombra esvaecida,

Um triste que sem mãe agonizava . .

Resta um poeta morto!

Morrer! e resvalar na sepultura.

Frias na fronte as ilusões—no peito

Quebrado o coração!

Nem saudades levar da vida impura

Onde arquejou de fome . . sem um leito!

Em treva e solidão!

Tu foste como o sol; tu parecias

Ter na aurora da vida a eternidade

Na larga fronte escrita. . .

Porém não voltarás como surgias!

Apagou-se teu sol da mocidade

Numa treva maldita!

Tua estrela mentiu. E do fadário

De tua vida a página primeira

Na tumba se rasgou...

Pobre gênio de Deus, nem um sudário!

Nem túmulo nem cruz! como a caveira

Que um lobo devorou!. . .

II

Morreu um trovador—morreu de fome.

Acharam-no deitado no caminho:

Tão doce era o semblante! Sobre os lábios

Flutuava-lhe um riso esperançoso.

E o morto parecia adormecido.

Ninguém ao peito recostou-lhe a fronte

Nas horas da agonia! Nem um beijo

Em boca de mulher! nem mão amiga

Fechou ao trovador os tristes olhos!

Ninguém chorou por ele... No seu peito

Não havia colar nem bolsa d'oiro;

Tinha até seu punhal um férreo punho...

Pobretão! não valia a sepultura!

Todos o viam e passavam todos.

Contudo era bem morto desde a aurora.

Ninguém lançou-lhe junto ao corpo imóvel

Um ceitil para a cova!. . nem sudário!

O mundo tem razão, sisudo pensa,

E a turba tem um cérebro sublime!

De que vale um poeta—um pobre louco

Que leva os dias a sonhar—insano

Amante de utopias e virtudes

E, num tempo sem Deus, ainda crente?

A poesia é de cerco uma loucura,

Sêneca o disse, um homem de renome.

É um defeito no cérebro.. Que doudos!

É um grande favor, é muita esmola

Dizer-lhes bravo! à inspiração divina,

E, quando tremem de miséria e fome,

Dar-lhes um leito no hospital dos loucos...

Quando é gelada a fronte sonhadora,

Por que há de o vivo que despreza rimas

Cansar os braços arrastando um morto,

Ou pagar os salários do coveiro?

A bolsa esvazia por um misérrimo

Quando a emprega melhor em lodo e vício!

E que venham aí falar-me em Tasso!

Culpar Afonso d'Este—um soberano!—

Por que não lhe dar a mão da irmã fidalga!

Um poeta é um poeta—apenas isso:

Procure para amar as poetisas!

Se na Franca a princesa Margarida,

De Francisco Primeiro irmã formosa,

Ao poeta Alain Chartier adormecido

Deu nos lábios um beijo, é que esta moça,

Apesar de princesa, era uma douda,

E a prova é que também rondós fazia.

Se Riccio o trovador obteve amores

—Novela até bastante duvidosa—

Dessa Maria Stuart formosíssima,

É que ela—sabe-o Deus!—fez tanta asneira,

Que não admira que um poeta amasse!

Por isso adoro o libertino Horácio.

Namorou algum dia uma parenta

Do patrono Mecenas? Parasita,

Só pedia dinheiro—no triclínio

Bebia vinho bom—e não vivia

Fazendo versos às irmãs de Augusto.

E quem era Camões? Por ter perdido

Um olho na batalha e ser valente,

As esmolas valeu. Mas quanto ao resto,

Por fazer umas trovas de vadio,

Deveriam lhe dar, além de glória

—E essa deram-lhe à farta—algum bispado,

Alguma dessas gordas sinecuras

Que se davam a idiotas fidalguias?

Deixem-se de visões, queimem-se os versos.

O mundo não avança por cantigas.

Creiam do poviléu os trovadores

Que um poeta não val meia princesa.

Um poema contudo, bem escrito,

Bem limado e bem cheio de tetéias,

Nas horas do café lido fumando,

Ou no campo, na sombra do arvoredo,

Quando se quer dormir e não há sono,

Tem o mesmo valor que a dormideira.

Mas não passe dali do vate a mente.

Tudo o mais são orgulhos, são loucuras!

Faublas tem mais leitores do que Homero. . .

Um poeta no mundo tem apenas

O valor de um canário de gaiola. . .

É prazer de um momento, é mero luxo.

Contente-se em traçar nas folhas brancas

De um Álbum da moda umas quadrinhas.

Nem faça apelações para o futuro.

O homem é sempre o homem. Tem juízo:

Desde que o mundo é mundo assim cogita.

Nem há negá-lo—não há doce lira

Nem sangue de poeta ou alma virgem

Que valha o talismã que no oiro vibra!

Nem músicas nem santas harmonias

Igualam o condão, esse eletrismo,

A ardente vibração do som metálico...

Meu Deus! e assim fizeste a criatura?

Amassaste no lodo o peito humano?

Ó poetas, silencio! é este o homem?

A feitura de Deus a imagem dele!

O rei da criação!. . .

Que verme infame!

Não Deus, porém Satã no peito vácuo

Uma corda prendeu-te—o egoísmo!

Oh! miséria, meu Deus! e que miséria!

III

Passou El-Rei ali com seus fidalgos.

Iam a degolar uns insolentes

Que ousaram murmurar da infâmia régia,

Das nódoas de uma vida libertina!

Iam em grande gala. O Rei cismava

Na glória de espetar no pelourinho

A cabeça de um pobre degolado.

Era um rei bon-vivant, e rei devoto;

E, como Luís XI, ao lado tinha

O bobo, o capelão e seu carrasco.

O cavalo do Rei, sentindo o morto,

—Trêmulo de terror parou nitrindo.

Deu d'esporas leviano o cavaleiro

E disse ao capelão:

"E não enterram

Esse homem que apodrece, e no caminho

Assusta-me o corcel?"

Depois voltou-se

E disse ao camarista de semana:

"Conheces o defunto? Era inda moço.

Faria certamente um bom soldado.

A figura é esbelta! Forte pena!

Podia bem servir para um lacaio."

Descoberto, o faceiro fidalgote

Responde-lhe fazendo a cortesia:

"Pelas tripas do Papa! eu não me engano,

Leve-me Satanás se este defunto

Ontem não era o trovador Tancredo!"

"Tancredo"! murmurou erguendo os óculos

Um anfíbio, um barbaças truanesco.

Alma de Tribouler, que além de bobo

Era o vate da corte—bem nutrido,

Farto de sangue, mas de veia pobre,

Caídos beiços, volumoso abdômen,

Grisalha cabeleira esparramada,

Tremendo narigão, mas testa curta;

Em suma um glosador de sobremesas.

"Tancredo!—repetiu imaginando—

Um asno! só cantava para o povo!

Uma língua de fel, um insolente!

Orgulho desmedido.. . e quanto aos versos

Morava como um sapo n'água doce. . .

Não sabia fazer um trocadilho. . ."

O rei passou—com ele a companhia.

Só ficou ressupino e macilento

Da estrada em meio o trovador defunto.

IV


Ia caindo o sol. Bem reclinado

No vagaroso coche madornando,

Depois de bem jantar fazendo a sesta,

Roncava um nédio, um barrigudo frade:

Bochechas e nariz, em cima uns óculos,

Vermelho solidéu... enfim um bispo,

E um bispo, senhor Deus! da idade média,

Em que os bispos—como hoje e mais ainda—

Sob o peso da cruz bem rubicundos,

Dormindo bem, e a regalar bebendo,

Sabiam engordar na sinecura;

Papudos santarrões, depois

Missa Lançando ao povo a bênção—por dinheiro!

O cocheiro ia bêbado por certo;

Os cavalos tocou p'lo bom caminho

Mesmo em cima das pernas do cadáver.

Refugou a parelha, mas o sota

—Que ao sol da glória episcopal enchia

De orgulho e de insolência o couro inerte,

Cuspindo o poviléu, como um fidalgo—

Que em falta de miolo tinha vinho

Na cabeça devassa, deu de esporas:

Como passara sobre a vil carniça

Reléu de corvos negros—foi por cima. . .

Mas desgraça! maldito aquele morto!

Desgraça!... não porque pisasse o coche

Aqueles magros ossos, mas a roda

Na humana resistência deu estalo. . .

E acorda o fradalhão...

"O que se sucede?

—Pergunta bocejando: É algum bêbado?

Em que bicho pisaram?"

"Senhor bispo"

Diz o servo da Igreja, o bom cocheiro

Ao vigário de Cristo, ao santo Apóstolo

Isto é—dessa fidalga raça nova

Que não anda de pé como S. Pedro,

Nem estafa os corcéis de S. Francisco:

"Perdoe Vossa Excelência Eminentíssima;

É um pobre diabo de poeta,

Um homem sem miolo e sem barriga

Que lembrou-se de vir morrer na estrada!"

"Abrenúncio! —rouqueja o Santo Bispo—

Leve o Diabo essa tribo de boêmios!

Não há tanto lugar onde se morra?

Maldita gente! inda persegue os Santos

Depois que o Diabo a leva!. . ."

E foi caminho.

Leve-te Deus! Apóstolo da crença,

Da esperança e da santa caridade!

Tu, sim, és religioso e nos altares

Vem cada sacristão, e cada monge

Agitar a teus pés o seu turíbulo!

E o sangue do Senhor no cálix d'oiro

Da turba na oração te banha os lábios

Leve-te Deus, Apóstolo da crença!

Sem padres como tu que fora o mundo?

É por ti que o altar apóia o trono!

E teu olhar que fertiliza os vales

Fecunda a vinha santa do Messias!

Leve-te Deus ou leve-te o Demônio!

V


Caiu a noite, do azulado manto,

Como gotas de orvalho, sacudindo

Estrelas cintilantes.—Veio a lua

Banhando de tristeza o céu noturno:

Derrama aos corações melancolia,

Derrama no ar cheiroso molemente

Cerúlea chama, dia incerto e pálido

Que ao lado da floresta ajunta as sombras

E lança pelas águas da campina

Alvacentos clarões que as flores bebem.

A galope, de volta do noivado,

Passa o Conde Solfier, e a noiva Elfrida.

Seguem fidalgos que o sarau reclama.

Elfrida

—Não vês, Solfier, ali da estrada em meio

Um defunto estendido?—

Solfier

—Ó minha Elfrida,

Voltemos desse lado: outro caminho

Se dirige ao castelo. É mau agouro

Por um morto passar em noites destas.

Mas Elfrida aproxima o seu cavalo.

Elfrida

—Tancredo vede! é o trovador Tancredo!

Coitado! assim morrer! um pobre moço!

Sem mãe e sem irmã! E não o enterram?

Neste mundo não teve um só amigo?—

"Ninguém, senhora—respondeu da sombra

Uma dorida voz—Eu vim, há pouco,

Ao saber que do povo no abandono

Jazia como um cão. Eu vim, e eu mesmo

Cavei junto do lago a cova impura."

Elfrida

—Tendes um coração. Tomai, mancebo,

Tomai essa pulseira Em oiro e jóias

Tem bastante p'ra erguer-lhe um monumento,

E para longas missas lhe dizerem

Pelo repouso d'alma...

O moço riu-se.

O desconhecido

—Obrigado. Guardai as vossas jóias.

Tancredo o trovador morreu de fome;

Passaram-lhe no corpo frio e morto,

Salpicaram de lodo a face dele,

Talvez cuspissem nesta fronte santa

Cheia outrora de eternas fantasias,

De idéias a valer um mundo inteiro!...

Por que lançar esmolas ao cadáver?

Leva-as, fidalga—tuas jóias belas!

O orgulho do plebeu as vê sorrindo.

Missas... bem sabe Deus se neste mundo

Gemeu alma tão pura como a dele!

Foi um anjo, e murchou-se como as flores,

Morreu sorrindo como as virgens morrem!

Alma doce que os homens enjeitaram,

Lírio que profanou a turba imunda,

Oh! não te mancharei nem a lembrança

Com o óbolo dos ricos! Pobre corpo,

És o templo deserto, onde habitava

O Deus que em ti sofreu por um momento!

Dorme, pobre Tancredo! eu tenho braços:

Na cova negra dormirás tranqüilo. . .

Tu repousas ao menos!. . . —

No entanto sofreando a custo a raiva,

Mordendo os lábios de soberba e fúria,

Solfier da bainha arranca a espada,

Avança ao moço e brada-lhe:

"Insolente!

Cala-te, doudo! Cala-te, mendigo!

Não vês quem te falou? Curva o joelho,

Tira o gorro, vilão!"

O desconhecido

—Tu vês: não tremo.

Tu não vales o vento que salpica

Tua fronte de pó. Porque és fidalgo,

Não sabes que um punhal vale uma espada

Dentro do coração?—

Mas logo Elfrida:

"Acalma-te, Solfier! O triste moço

Desespera, blasfema e não me insulta.

Perdoa-me também, mancebo triste;

Não pensei ofender tamanho orgulho.

Tua mágoa respeito. Só te imploro

Que sobre a fronte ao trovador desfolhes

Essas flores, as flores do noivado

De uma triste mulher . . E quanto às jóias,

Lança-as no lago. . .Mas quem és? teu nome?"

O desconhecido

—Quem sou? um doudo, uma alma de insensato,

Que Deus maldisse e que Satã devora;

Um corpo moribundo em que se nutre

Uma centelha de pungente fogo,

Um raio divinal que dói e mata,

Que doira as nuvens e amortalha a terra!. .

Uma alma como o pó em que se pisa;

Um bastardo de Deus, um vagabundo

A que o gênio gravou na fronte—anátema!

Desses que a turba com o dedo aponta. . .

Mas não; não hei de sê-lo! eu juro n'alma,

Pela caveira, pelas negras cinzas

De minha mãe o juro... agora há pouco

Junto de um morto reneguei do gênio,

Quebrei a lira à pedra de um sepulcro. . .

Eu era um trovador, sou um mendigo .

Ergueu do chão a dádiva d'Elfrida;

Roçou as flores aos trementes lábios;

Beijou-as. Sobre o peito de Tancredo

Pousou-as lentamente...

—Em nome dele,

Agradeço estas flores do teu seio,

Anjo que sobre um túmulo desfolhas

Tuas últimas flores de donzela!—

Depois vibrou na lira estranhas mágoas,

Carpiu à longa noite escuras nênias,

Cantou: banhou de lágrimas o morto.

De repente parou—vibrou a lira

Co'as mãos iradas, trêmulas... e as cordas

Uma per uma rebentou cantando...

Tinha fogo no crânio, e sufocava.

Passou a fria mão nas fontes úmidas,

Abriu a medo os lábios convulsivos,

Sorriu de desespero—e sempre rindo

Quebrou as jóias as lançou no abismo.

VI

No outro dia, na borda do caminho

Deitado ao pé de um fosso aberto apenas,

Viu-se um mancebo loiro que morria. . .

Semblante feminil, e formas débeis,

Mas nos palores da espaçosa fronte

Uma sombria dor cavara sulcos.

Corria sobre os lábios alvacentos

Uma leve umidez, um ló d'escuma,

E seus dentes a raiva constringira...

Tinha os punhos cerrados. . . Sobre o peito

Acharam letras de uma língua estranha. . .

E um vidro sem licor. . . fora veneno!. . .

Ninguém o conheceu; mas conta o povo

Que, ao lançá-lo no túmulo, o coveiro

Quis roubar-lhe o gibão—despiu o moço. . .

E viu. . . talvez é falso. . . níveos seios. . .

Um corpo de mulher de formas puras. . .

Na tumba dormem os mistérios de ambos;

Da morte o negro véu não há erguê-lo!

Romance obscuro de paixões ignotas

Poema d'esperança e desventura,

Quando a aurora mais bela os encantava,

Talvez rompeu-se no sepulcro deles!

Não pode o bardo revelar segredos

Que levaram ao céu as ternas sombras;

Desfolha apenas nessas frontes puras

Da extrema inspiração as flores murchas. . .

Idéias íntimas

(Fragmento)

La chaise ou je m'assieds, la natte ou je me couche, La table ou je t'écris,…………………………….

Mes gros souliers ferrés, mon bâton,, mon chapeau. Mes livres pêle-mêle entassés sur leur planche………

De cet espace étroit sont tout l'ameublement.

Lamartine, Jocelyn

I

Ossian o bardo é triste como a sombra

Que seus cantos povoa. O Lamartine

É monótono e belo como a noite,

Como a lua no mar e o som das ondas

Mas pranteia uma eterna monodia,

Tem na lira do gênio uma só corda,

Fibra de amor e Deus que um sopro agita:

Se desmaia de amor a Deus se volta,

Se pranteia por Deus de amor suspira.

Basta de Shakespeare. Vem tu agora,

Fantástico alemão, poeta ardente

Que ilumina o clarão das gotas pálidas

Do nobre Johannisberg! Nos teus romances

Meu coração deleita-se. . . Contudo

Parece-me que vou perdendo o gosto,

Vou ficando blasé, passeio os dias

Pelo meu corredor, sem companheiro,

Sem ler, nem poetar. Vivo fumando.

Minha casa não tem menores névoas

Que as deste céu d'inverno. . . Solitário

Passo as noites aqui e os dias longos;

Dei-me agora ao charuto em corpo e alma;

Debalde ali de um canto um beijo implora,

Como a beleza que o Sultão despreza,

Meu cachimbo alemão abandonado!

Não passeio a cavalo e não namoro;

Odeio o lansquenê. . . Palavra d'honra:

Se assim me continuam por dois meses

Os diabos azuis nos frouxos membros,

Dou na Praia Vermelha ou no Parnaso.

II

Enchi o meu salão de mil figuras.

Aqui voa um cavalo no galope,

Um roxo dominó as costas volta

A um cavaleiro de alemães bigodes,

Um preto beberrão sobre uma pipa,

Aos grossos beiços a garrafa aperta. . .

Ao longo das paredes se derramam

Extintas inscrições de versos mortos,

E mortos ao nascer. . . Ali na alcova

Em águas negras se levanta a ilha

Romântica, sombria à flor das ondas

De um rio que se perde na floresta. . .

Um sonho de mancebo e de poeta,

El-Dorado de amor que a mente cria

Como um Éden de noites deleitosas....

Era ali que eu podia no silêncio

Junto de um anjo. . . Além o romantismo!

Borra adiante folgaz caricatura

Com tinta de escrever e pó vermelho

A gorda face, o volumoso abdômen,

E a grossa penca do nariz purpúreo

Do alegre vendilhão entre botelhas

Metido num tonel... Na minha cômoda

Meio encerado o copo inda verbera

As águas d'oiro do Cognac fogoso.

Negreja ao pé narcótica botelha

Que da essência de flores de laranja

Guarda o licor que nectariza os nervos.

Ali mistura-se o charuto Havano

Ao mesquinho cigarro e ao meu cachimbo.

A mesa escura cambaleia ao peso

Do titânio Digesto, e ao lado dele

Childe Harold entreaberto ou Lamartine.

Mostra que o romanismo se descuida

E que a poesia sobrenada sempre

Ao pesadelo clássico do estudo.

III

Reina a desordem pela sala antiga,

Desce a teia de aranha as bambinelas

À estante pulvurenta. A roupa, os livros

Sobre as cadeiras poucas se confundem.

Marca a folha do Faust um colarinho

E Alfredo de Musset encobre às vezes

De Guerreiro ou Valasco um texto obscuro.

Como outrora do mundo os elementos

Pela treva jogando cambalhotas,

Meu quarto, mundo em caos, espera um Fiat!

IV

Na minha sala três retratos pendem.

Ali Victor Hugo. Na larga fronte

Erguidos luzem os cabelos loiros

Como c'roa soberba. Homem sublime,

O poeta de Deus e amores puros

Que sonhou Triboulet, Marion Delorme

E Esmeralda a Cigana e diz a crônica

Que foi aos tribunais parar um dia

Por amar as mulheres dos amigos

E adúlteros fazer romances vivos.

V

Aquele é Lamennais—o bardo santo,

Cabeça de profeta, ungido crente,

Alma de fogo na mundana argila

Que as harpas de Sion vibrou na sombra,

Pela noite do século chamando

A Deus e à liberdade as loucas turbas.

Por ele a George Sand morreu de amores,

E dizem que. . . Defronte, aquele moço

Pálido, pensativo, a fronte erguida,

Olhar de Bonaparte em face Austríaca,

Foi do homem secular as esperanças.

No berço imperial um céu de Agosto

Nos cantos de triunfo despertou-o. . .

As águias de Wagram e de Marengo

Abriam flamejando as longas asas

Impregnadas do fumo dos combates,

Na púrpura dos Césares, guardando-o.

E o gênio do futuro parecia

Predestiná-lo à glória. A história dele?

Resta um crânio nas urnas do estrangeiro. . .

Um loureiro sem flores nem sementes. ..

E um passado de lágrimas. . . A terra

Tremeu ao sepultar-se o Rei de Roma.

Pode o mundo chorar sua agonia

E os louros de seu pai na fronte dele

Infecundos depor... Estrela morta,

Só pode o menestrel sagrar-te prantos!

VI

Junto a meu leito, com as mãos unidas,

Olhos fitos no céu, cabelos soltos,

Pálida sombra de mulher formosa

Entre nuvens azuis pranteia orando.

É um retrato talvez. Naquele seio

Porventura sonhei doiradas noites:

Talvez sonhando desatei sorrindo

Alguma vez nos ombros perfumados

Esses cabelos negros, e em delíquio

Nos lábios dela suspirei tremendo.

Foi-se minha visão. E resta agora

Aquela vaga sombra na parede

—Fantasma de carvão e pó cerúleo,

Tão vaga, tão extinta e fumarenta

Como de um sonho o recordar incerto.

VII

Em frente do meu leito, em negro quadro

A minha amante dorme. É uma estampa

De bela adormecida. A rósea face

Parece em visos de um amor lascivo

De fogos vagabundos acender-se. . .

E com a nívea mão recata o seio. . .

Oh! quantas vezes, ideal mimoso,

Não encheste minh'alma de ventura,

Quando louco, sedento e arquejante,

Meus tristes lábios imprimi ardentes

No poento vidro que te guarda o sono!

VIII

O pobre leito meu desfeito ainda

A febre aponta da noturna insônia.

Aqui lânguido a noite debati-me

Em vãos delírios anelando um beijo...

E a donzela ideal nos róseos lábios,

No doce berço do moreno seio

Minha vida embalou estremecendo. . .

Foram sonhos contudo. A minha vida

Se esgota em ilusões. E quando a fada

Que diviniza meu pensar ardente

Um instante em seus braços me descansa

E roça a medo em meus ardentes lábios

Um beijo que de amor me turva os olhos.

Me ateia o sangue, me enlanguesce a fronte,

Um espírito negro me desperta,

O encanto do meu sonho se evapora

E das nuvens de nácar da ventura

Rolo tremendo à solidão da vida!

IX

Oh! ter vinte anos sem gozar de leve

A ventura de uma alma de donzela!

E sem na vida ter sentido nunca

Na suave atração de um róseo corpo

Meus olhos turvas se fechar de gozo!

Oh! nos meus sonhos, pelas noites minhas

Passam tantas visões sobre meu peito!

Palor de febre meu semblante cobre,

Bate meu coração com tanto fogo!

Um doce nome os lábios meus suspiram,

Um nome de mulher . . e vejo lânguida

No véu suave de amorosas sombras

Seminua, abatida, a mão no seio,

Perfumada visão romper a nuvem,

Sentar-se junto a mim, nas minhas pálpebras

O alento fresco e leve como a vida

Passar delicioso. . . Que delírios!

Acordo palpitante . . inda a procuro;

Embalde a chamo, embalde as minhas lágrimas

Banham meus olhos, e suspiro e gemo. . .

Imploro uma ilusão. . . tudo é silêncio!

Só o leito deserto, a sala muda!

Amorosa visão, mulher dos sonhos,

Eu sou tão infeliz, eu sofro tanto!

Nunca virás iluminar meu peito

Com um raio de luz desses teus olhos?

X

Meu pobre leito! eu amo-te contudo!

Aqui levei sonhando noite belas

As longas horas olvidei libando

Ardentes gotas de licor doirado,

Esqueci-as no fumo, na leitura

Das páginas lascivas do romance. .

Meu leito juvenil, da minha vida

És a página d'oiro. Em teu asilo

Eu sonho-me poeta, e sou ditoso,

E a mente errante devaneia em mundos

Que esmalta a fantasia! Oh! quantas vezes

Do levante no sol entre odaliscas

Momentos não passei que valem vidas!

Quanta música ouvi que me encantava!

Quantas virgens amei! que Margaridas,

Que Elviras saudosas e Clarissas

Mais trêmulo que Faust eu não beijava,

Mais feliz que Don Juan e Lovelace

Não apertei ao peito desmaiando!

Ó meus sonhos de amor e mocidade,

Por que ser tão formosos, se devíeis

Me abandonar tão cedo... e eu acordava

Arquejando a beijar meu travesseiro?

XI

Junto do leito meus poetas dormem

—O Dante, a Bíblia, Shakespeare e Byron -

Na mesa confundidos. Junto deles

Meu velho candeeiro se espreguiça

E parece pedir a formatura.

Ó meu amigo, ó velador noturno,

Tu não me abandonaste nas vigílias,

Quer eu perdesse a noite sobre os livros,

Quer, sentado no leito, pensativo

Relesse as minhas cartas de namoro!

Quero-te muito bem, ó meu comparsa

Nas doudas cenas de meu drama obscuro!

E num dia de spleen, vindo a pachorra,

Hei de evocar-te num poema heróico

Na rima de Camões e de Ariosto

Como padrão às lâmpadas futuras!

XII

Aqui sobre esta mesa junto ao leito

Em caixa negra dous retratos guardo.

Não os profanem indiscretas vistas.

Eu beijo-os cada noite: neste exílio

Venero-os juntos e os prefiro unidos

—Meu pai e minha mãe.—Se acaso um dia

Na minha solidão me acharem morto,

Não os abra ninguém. Sobre meu peito

Lancem-os em meu túmulo. Mais doce

Será certo o dormir da noite negra

Tendo no peito essas imagens puras.

XIII

Havia uma outra imagem que eu sonhava

No meu peito na vida e no sepulcro.

Mas ela não o quis rompeu a tela

Onde eu pintara meus doirados sonhos.

Se posso no viver sonhar com ela,

Essa trança beijar de seus cabelos

E essas violetas inodoras, murchas,

Nos lábios frios comprimir chorando,

Não poderei na sepultura, ao menos,

Sua imagem divina ter no peito.

XIV

Parece que chorei . Sinto na face

Uma perdida lágrima rolando. . .

Satã leve a tristeza! Olá, meu pajem,

Derrama no meu copo as gotas últimas

Dessa garrafa negra...

Eia! bebamos!

És o sangue do gênio, o puro néctar

Que as almas de poeta diviniza,

O condão que abre o mundo das magias!

Vem, fogoso Cognac! É só contigo

Que sinto-me viver. Inda palpito,

Quando os eflúvios dessas gotas áureas

Filtram no sangue meu correndo a vida,

Vibram-me os nervos e as artérias queimam

Os meus olhos ardentes se escurecem

E no cérebro passam delirosos

Assomos de poesia. . . Dentre a sombra

Vejo num leito d'oiro a imagem dela

Palpitante, que dorme e que suspira,

Que seus braços me estende. . .

Eu me esquecia:

Faz-se noite, traz fogo e dous charutos

E na mesa do estudo acende a lâmpada...

Boêmios

(Ato de uma comédia não escrita)

Totus mundus agit histrionem (proverbio do tempo de Shakespeare)

Prólogo

Levanta-se o pano até o meio. Passa por debaixo e vem até a rampa um velho de cabeça calva, camisola branca, carapuça frígia coroada de louros. Tem um ramo de oliveira na mão. Faz as cortesias do estilo e fala:

Dom Quixote! Sublime criatura!

Tu sim foste leal e cavaleiro,

O último herói, o paladim extremo

De Castela e do mundo. Se teu cérebro

Toldou-se na loucura, a tua insânia

Vale mais do que o siso destes séculos

Em que a Infâmia, Dagon cheio de lodo,

Recebe as orações, mirras e flores,

E a louca multidão renega o Cristo!

Tua loucura revelava brio.

No triste livro do imortal Cervantes

Não posso crer um insolente escárnio

Do Cavaleiro andante aos nobres sonhos,

Ao fidalgo da Mancha—cuja nódoa

Foi só ter crido em Deus e amado os homens,

E votado seu braço aos oprimidos.

Aquelas folhas não me causam riso,

Mas desgosto profundo e tédio à vida.

Soldado e trovador, era impossível

Que Cervantes manchasse um valeroso

Em vil caricatura, e desse à turba,

Como presa de escárnio e de vergonha,

Esse homem que à virtude, amor e cantos

Abria o coração!

Estas idéias

Servem para desculpa do poeta.

Apesar de bom moço, o autor da peca

Tem uns laivos talvez de Dom Quixote.

E nestes tempos de verdade e prosa —

Sem Gigantes, sem Mágicos medonhos

Que velavam nas torres encantadas

As donzelas dormidas por cem anos—

Do seu imaginar esgrime as sombras

E dá botes de lança nos moinhos.

Mas não escreve sátiras: apenas

Na idade das visões—dá corpo aos sonhos.

Faz trovas, e não talha carapuças.

Nem rebuça no véu do mundo antigo,

P'ra realce maior, presentes vícios.

Não segue a Juvenal, e não embebe

Em venenoso fel a pena escura

Para nódoas pintar no manto alheio.

O tempo em que se passa agora a cena

É o século dos Bórgias. O Ariosto

Depôs na fronte a Rafael gelado

Sua c'roa divina, e o segue ao túmulo.

Ticiano inda vive. O rei da turba

É um gênio maldito—o Aretino.

Que vende a alma e prostitui as crenças.

Aretino! essa incrível criatura,

Poeta sem pudor' onda de lodo

Em que do gênio profanou-se a pérola

Vaso d'oiro que um óxido sem cura

Azinhavrou de morte homem terrível

Que tudo profanou co'as mãos imundas,

Que latiu como um cão mordendo um século,

E, como diz um epitáfio antigo,

Só em Deus não mordeu, porque o não vira.

Como ele, foi devasso todo o século.

Os contos de Boccaccio e de Brantôme

São mais puros que a história desses tempos.

Tasso enlouquece. O Rei que se diverte

—O herói de Marignan e de Pavia

Que num vidro escrevera do palácio

Femme sovem varie, mas leviano

Com mais amantes que um Sultão vivia,

Mandava ao Aretino amáveis letras,

Um colar d'oiro com sangrentas línguas,

E dava-lhe pensões. O Vaticano

Viu o Papa beijando aquela fronte.

Carlos V o nomeia cavaleiro,

Abraça-o e—inda mais—lhe manda escudos.

O Duque João Médicis o adora,

Dorme com ele a par no mesmo leito.

É um tempo de agonias. A arte pálida,

Suarenta, moribunda, desespera

E aguarda o funeral de Miguel Angelo

Para com ele abandonar o mundo

E angélica voltar ao céu dos Anjos.

Agora basta. Revelei minh'alma.

A cena descrevi onde correra

Inteira uma comédia em vez de um ato,

Se o poeta mais forte se atrevesse

A erguer nos versos a medonha sombra

Da loucura fatal do mundo inteiro.

Boas-noites, platéia e camarotes;

O ponto já me diz que deixe o campo.

O primeiro galã todo empoado,

Cheio de vermelhão, já dentro fala:

Estão cheios de luz os bastidores.

Uma última palavra: o autor da peca,

Puxando-me da túnica romana,

Diz-me da cena que eu avise às Damas

Que desta feita os sais não são precisos;

Não há de sarrabulho haver no palco.

É uma peça clássica. O perigo

Que pode ter lugar é vir o sono;

Mas dormir é tão bom, que certamente

Ninguém por esse dom fará barulho.

O assunto da Comédia e do Poema

Era digno sem dúvida, Senhores,

De uma pena melhor; mas desta feita

Não fala Shakespeare nem Gil Vicente.

O poeta é novato, mas promete.

Posto que seja um homem barrigudo

E tenha por Talia o seu cachimbo,

Merece aplausos e merece glória.

Ato único

A cena passa-se na Itália no século XVI. Uma rua escura e deserta. Alta noite. Numa esquina uma imagem de Madona em seu nicho alumiado por uma lâmpada.

Puff dorme no chão abraçando uma garrafa. Níni entra tocando guitarra. Dão 3 horas.

Níni: Olá! que fazes, Puff? dormes na rua?

PUFF, acordando. Não durmo... Penso.

Níni: Estás enamorado?

E deitado na pedra acaso esperas

O abrir de uma janela? Estás cioso

E co'a botelha em vez de durindana

Aguardas o rival?

Puff: Ceei à farta

Na taverna do Sapo e das Três-Cobras.

Faço o quilo; ao repouso me abandono.

Como o Papa Alexandre ou como um Turco,

Me entrego ao farniente e bem a gosto

Descanso na calcada imaginando.

Níni: Embalde quis dormir. Na minha mente

Fermenta um mundo novo que desperta.

Escuta, Puff: eu sinto no meu crânio

Como em seio de mãe um feto vivo.

Na minha insônia vela o pensamento.

Os poetas passados e futuros

Vou todos ofuscar... Aqui no cérebro

Tenho um grande poema.

Hei de escrevê-lo,

É certa a glória minha!

Puff: A idéia é boa:

Toma dez bebedeiras—são dez cantos.

Quanto a mim tenho fé que a poesia

Dorme dentro do vinho. Os bons poetas

Para ser imortais beberam muito.

Níni: Não rias. Minha idéia é nova e bela.

A Musa me votou a eterna glória.

Não me engano, meu Puff, enquanto sonho:

Se aos poetas divinos Deus concede

Um céu mais glorioso, ali com Tasso,

Com Dante e Ariosto eu hei de ver-me.

Se eu fizer um poema, certamente

No Panteon da fama cem estátuas

Cantarão aos vindouros o meu gênio!

Puff: Em estátua, meu Níni! Estás zombando!

É impossível que saias parecido.

Que mármore daria a cor vermelha

Deste imenso nariz' destas melenas?

Níni: Estás bêbado, Puff. Tresandas vinho.

Puff: O vinho! És uma besta; só um parvo

Pode a beleza desmentir do vinho.

Tu nunca leste o Cântico dos Cânticos

Onde o rei Salomão, como elogio,

Dizia à noiva—Pulchriora sunt

Ubera tua vino!

Níni: É sempre um bobo

Puff: E tu és sempre esse nariz vermelho

Que ainda aqui na treva desta rua

Flameja ao pé de mim. Quando te vejo,

Penso que estou na Igreja ouvindo

Missa Dita por Cardeal.

Níni: És um devasso.

Puff: Respondo-te somente o que dizia

Sir John Falstaff, da noite o cavaleiro:

"Se Adão pecou no estado de inocência,

Que muito é que nos dias da impureza

Peque o mísero Puff?" Tu bem o sabes:

Toda a fragilidade vem da carne,

E na carne se eu tanto excedo os outros,

Vícios não devem meus causar espanto.

Minha alma dorme em treva completíssima

Pela minha descrença... E tu, maldito,

Por que sempre não vens esclarecer-me

Com esse teu farol aceso sempre,

Cavaleiro da lâmpada vermelha

As trevas de minh'alma?

Níni: Que leproso!

Puff: Sou um homem de peso. Entendo a vida;

Tenho muito miolo, e a prova disto

É que não sou poeta nem filósofo,

E gosto de beber, como Panúrgio.

Se tu fosses tonel, como pareces,

Eu te bebera agora de um só trago.

Níni: Quero-te bem contudo. Amigos velhos

Deixemo-nos de histórias. Meu poema…

Puff: Se falas em poema, eu logo durmo.

Níni: Uma vez era um rei…

Puff: Não vês? eu ronco.

Níni: Quero a ti dedicar minha obra-prima;

Irás junto comigo à eternidade.

Teu retrato porei no frontispício.

Meu poema será uma coroa

Que as nossas frontes engrinalde juntas.

Puff: Pensei-te menos doudo. O teu poema

Seria uma sublime carapuça.

Mas, já que sonhas tanto, olha, meu Níni,

Tu precisas de um saco.

Níni: Impertinente!

Puff: Dá-me aqui tua mão. Sabes, amigo?

Passei ontem o dia de namoro;

Minhas paixões voltei à nova esposa

Do velho Conde que ali mora em frente.

Estou adiantado nos amores.

A cozinheira, outrora minha amante,

Meus passos guia, meus suspiros leva.

Mas preciso, com pressa, de um soneto.

Prometes-me fazê-lo?

Níni: Se me ouvires

Recitar meu poema…

Puff: Eu me resigno.

Declama teu sermão, como um vigário.

Mas o sono ao rebanho se permite?

(Entra um criado correndo.)

Roa-me o diabo as tripas, se não vejo

Ali correr com pernas de cabrita

O criado do cônego Tansoni.

Níni: Onde vais, Gambioletto?

Gambioletto: Vou à pressa

Ao doutor Fossuário.

Puff: Acaso agora

O carrasco fugiu?

Níni: Quem agoniza?

Gambioletto: O Reverendo e Santo Sr. Cônego,

Deitando-se a dormir depois da ceia

No colo de Madona la Zaffeta,

Umas dores sentiu pela barriga,

Caiu estrebuchando sobre a sala...

Morre de apoplexia.

Níni: O diabo o leve!

Gambioletto: E o médico, Srs.!

(Sai correndo.)

Puff: Venturoso!

Sempre é Cônego... Níni, dulce et decus

Pro patria mori É doce e glorioso

Morrer de apoplexia! Quem me dera

Morrer depois da ceia, de repente!

Não vem o confessor contar novelas,

Não soam cantos fúnebres em torno,

Nem se forca o medroso moribundo

A rezar, quando só dormir quisera!

Venturosos os Cônegos e os Bispos,

E os papudos Abades dos conventos!

Eles podem morrer de apoplexia!

E se morre pensando—coisa nova!

Quem nunca no viver cansou-se nisso;

Se eles morrerem pensando, ante seus olhos,

No momento final sem ter pavores,

Inda corre a visão da bela mesa!

A não morrer-se como o velho Píndaro,

Cantando, sobre o seio amorenado

De sua amante Grega, oh! quem me dera

Cair morto no chão, beijando ainda

A botelha divina!

Níni: Que maluco!

A estas horas da noite, assim no escuro

Não temes de lembrar-te de defuntos?

Beijarias até uma caveira,

Se espumante o Madeira ali corresse!

Puff: Os cálices doirados são mais belos;

Inda porém mais doce é nos beicinhos

Da bela moca que sorrindo bebe

Libar mais terno o saibo dos licores...

Eu prefiro beijar a tua amante.

Níni: Tens medo de defuntos?

Puff: Um bocado

Sinto que não nasci para coveiro.

Contudo, no domingo, à meia-noite. . .

Pela forca passei, vi nas alturas,

Do luar sem vapor à luz formosa,

Um vilão pendurado. Era tão feio!

A língua um palmo fora, sobre o peito,

Os olhos espantados, boca lívida,

Sobre a cabeça dele estava um corvo...

O morto estava nu, pois o carrasco

Despindo os mortos dá vestido aos filhos,

E deixa à noite o padecente à fresca.

Eu senti pelo corpo uns arrepios. . .

Mas depois veio o animo... trepei-me

Pela escada da forca, fui acima,

E pintei uns bigodes no enforcado.

Níni: Bravo como um Vampiro!

Puff: Oh! antes d'ontem

Passei pelos telhados sem ter medo,

Para evitar um pátio onde velava

Um cão—que enorme cão! —subindo ao quarto

Onde dorme Rosina Belvidera.

Níni: Ousaste ao Cardeal depor na fronte

Tão pesada coroa?

Puff: A mitra cobre.

Dizem que a santidade lava tudo;

Depois. . . o Cardeal estava bêbado…

A propósito, sabes dos amores

Do capitão Tybald? O tal maroto

Não sei de que milagres tem segredo

Que deu volta à cabeça da rainha.

Níni: Por isso o pobre Rei anda tão triste!

Puff: Spadaro, o fidalgote barba-ruiva,

Contou-me que espiando p'la janela

Do quarto da rainha os viu Caluda!

Níni: E o Rei que faz? Não tem lá na cozinha

Algum pau de vassoura ou um chicote?

Puff: El-Rei Nosso Senhor então ceava.

Níni: Santo Rei!

Puff: E demais é bem sabido

Que El-Rei só reina à mesa e nas caçadas.

Níni: Nunca perde um veado quando atira.

Puff: Ele caça veados! Má fortuna!

Não o cacem também pela ramagem!

Níni: Com língua tão comprida e viperina

Irás parar na forca.

Puff: Níni, escuta.

Assisti esta noite a um pagode

Na taverna do Sapo e das Três-Cobras.

Era já lusco-fusco e eu entrando

Dou com Frei São José e Frei Gregório,

O Prior do convento dos Bernardos

E mais uns dous ou três que só conheço

De ver pelas esquinas se encostando,

Ou dormidos na rua a sono solto. . .

Que soberbo painel! Faze uma idéia!

Um banquete! fartura! que presuntos!

Que tostados leitões que recendiam!

Numa enorme caldeira enormes peixes,

Recheados capões fervendo ainda,

Peus, olhas-podridas, costeletas

Esgotara o talento a cozinheira!

Abertos garrafões; garrafas cheias;

Vinho em copos imensos transbordando;

Na toalha, já suja, debruçados

Aqueles religiosos cachaçudos

De boca aberta e de embotados olhos.

Gastrônomos! ali é que se via

Que é ciência comer, e como um frade

Goza pelo nariz e pelos olhos,

Pelas mãos, pela boca, e faz focinho

E bate a língua ao paladar gostoso

Ao celeste sabor de um bom pedaço!

Depois! era bonito! Frei Gregório

Co'a boca de gordura reluzente,

Farto de vinho, esquece o reumatismo,

Esquece a erisipela já sem cura,

Canta rondós e dança a tarantela.

Arrasta-se caindo e se babando

Aos pés da taverneira De joelhos

Faz-lhe a corte cantando o Miserere

Principia sermões, engrola textos,

E a gorda mão estende ao nédio seio

Da bela mocetona. . . a mão lhe beija,

A mão que o cetro cinge de vassoura. . .

Chora, soluça e cai, estende os braços,

Ainda a chama, e cantochão entoa

Era de rir! os velhos amorosos,

Uns de joelhos no chão, outros cantando

Estendidos na mesa entre os despojos,

Outros beijando a moça, outros dormindo.

Ela no meio deslambida e fresca

Excita-os mutuamente e os rivaliza,

Passa-lhes pelo queixo a mão gorducha...

Corre o Prior a soco um Barbadinho,

Atracam-se, blasfemam, esconjuram,

Um agarra na barba do contrário,

Outro tenta apertar o papo alheio...

Abraçam-se na luta os dous volumes

E rolam como pipas. No oceano

Assim duas baleias ciumentas

Atracam-se na luta... Que risadas!

Que risadas, meu Deus! arrebentando

Soltou o pobre Puff vendo a comédia!

Níni: Ouve agora o poema…

Puff: Espera um pouco,

A taverna do canto não se fecha,

Está aberta. Compra uma garrafa …

Bom vinho tu bem sabes! Tenho a goela

Fidalga como um rei. Não tenho dúvida

Mentiu a minha mãe quando contou-me

Que nasci de um prosaico matrimônio

Eu filho de escrivão!. . . Para criar-me

Era—senão um Rei—preciso um Bispo!

Níni (Vai à taverna e volta): Eis aqui uma bela empada fria,

Uma garrafa e copo.

Puff (quebrando o copo): O Demo o leve!

Eu sou como Diógenes. Só quero

Aquilo sem o que viver não posso.

Deitado nesta laje, preguiçoso,

Olhando a lua, beijo esta garrafa,

E o mundo para mim é como um sonho.

Creio até que teu ventre desmedido

Como escura caverna vai abrir-se,

Mostrando-me no seio iluminado

Panoramas de harém, Sultanas lindas

E longas prateleiras de bom vinho!

Níni: Dou começo ao poema. Escuta um pouco:

I

Havia um rei numa ilha solitária,

Um rei valente, cavaleiro e belo.

O rei tinha um irmão.—Era um mancebo

Pálido, pensativo. A sua vida

Era nas serras divagar cismando,

Sentar-se junto ao mar, dormir no bosque

Ou vibrar no alaúde os seus gemidos.

Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br