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DIALETO CAIPIRA

ADJETIVOS

abobado
espeloteado
filante
praciano

abombado
impacador
franquêro
saberete

atimboado
impipocado
mamóte
supitoso

bernento
inredêro
micagêro


catinguento
facêro
passarínhêro


catingudo

peitudo

23. São em menor número as palavras formadas por composição, e estas, na maior parte, pela justaposição de elementos com a partícula subordinante de:

dôr-d'-óio (olhos)
fruita-de-lobo

sangue-de-tatu
áua-de-açucre (água de açúcar)

sangue-de-boi
cordão-de-frade

rabo-de-tatu
mer-de-pau (mel)

arma-de-gato (alma)
pedra-de-fogo.

orêia-de-onça (orelha)
baba-de-moça

pente-de-mico
abobra-d'-áua

unha-de-gato
côro-de-arrasto (couro)

língua-de-vaca
pau-de-espinho

cachorro-do-mato
barriga-de-áua

gato-do-mato
tacuara-do-reino

pá-de-muleque
pimenta-do-reino

ôio-de-cabra
canário-do-reino

barba-de-bóde
quejo-do-reino


Por justaposição direta e por aglutinação:

quatro-pau(s)
tatu-canastra
quebra-cangaia
arranha-gato

cinco-nerva(s)
méde-léua(léguas)
mata-sete
passa-treis

mandioca-braba
vira-mundo
tira-prosa
quatróio(olhos)

abobra-minina
chora-minino
tira-acisma
minhócussu


Por prefixação:

entreparar descoivarar desaguaxado descoivarado

e outros vocábulos já citados quando tratamos da derivação.

24. Muitas palavras há, entre as portuguesas, que têm sofrido aqui mudanças mais ou menos profundas de sentido. Exemplos tomados entre os casos de mais pronunciada diferenciação:

ATORAR - partir à pressa, resolutamente; fugir.
CANA - cana de açúcar.
CAIERA - grande fogueira festiva.
CANDIERO - guia de carro de bois.
CAPADO, subst. - porco castrado.
DESMORALIZAR, v. trans. - fazer perder
o entusiasmo, o brio.
DESPOTISMO - enormidade.
INTIMAR - ostentar. Daí intimação e intimador.
FAMÍLIA (famia) - no plural, filhos.
FRUITA - jaboticaba (usada sem determinação, tem este único sentido).
FUMO - tabaco.
FINTAR - faltar dolosamente a uma dívida.
IMUNDÍCIA - caça miúda.
LOJA - armazém de fazendas a retalho.
MANGAÇÃO - vadiação.
MANCAR - vadiar
PIÃO - domador.
PINGA - aguardente de cana.
PILINTRA - casquilho.
PATIFE - medroso; sensível.
PANDÓRGA - desmazelado, moleirão.
PINHO - viola.
RANCHO - cabana de campo.
SCISMA - desconfiança; presunção.
SÍTIO - propriedade agrícola menor que a fazenda.
TABACO - rapé.

25. Outras palavras, conservando o seu sentido, ou sentidos, têm adquirido novos:

ÁGUAS - direção das fibras da madeira.
BABADO - folho de vestido de mulher.
DÔBRE - canto (de pássaro), repique (de sino).
DOBRAR - cantar (o pássaro), repicar (o sino).
ESTACA - cabide.
LADRÃO - desvio de uma regueira ou açude; broto de cafeeiro.
SANGRADÔ(URO) - ponto do pescoço do boi, ou outro animal, onde se embebe a faca ao matá-lo.
SÁIA - fronde que oculta o tronco desde o solo.
VIRGEM - poste de moenda.
SOLDADO - certo pássaro.
TOMBADÔ(URO) - lugar onde tombam as águas de um salto.
VAPÔ(R) - locomotiva

III. - MORFOLOGIA

FORMAÇÃO DE VOCÁBULOS

1. Como já mostrámos ("Lexicologia", "Formações próprias") o dialeto tem dado provas de grande vitalidade, na formação de numerosos substantivos e adjetivos, quer por composição, quer por derivação. De ambos os processos fornecemos muitos exemplos.

Registamos agora, aqui, um curiosíssimo processo de reduplicação verbal, corrente não só entre os caipiras de S. Paulo, mas em todo o país, ou grande parte dele.

Para exprimir ação muito repetida, usa-se uma perífrase formada com o auxiliar vir, ir, estar, andar, seguido de infinitivo e gerúndio de outro verbo. Assim: vinha pulá(r)-pulando, ia caí(r)-caindo, estava ou andava chorá(r)-chorando.

A explicação deste fenômeno alguns têm querido ir buscá-la ao tupi, "refugium" de tantos que se cansam a procurar as razões de fatos obscuros e complicados da linguagem nacional. Não nos parece que seja preciso apelar para as tendências reduplicativas daquela língua, em primeiro lugar porque. essas tendências são universais; em segundo lugar, porque se trata de palavras bem portuguesas, ainda que combinadas de maneira um tanto estranha; em terceiro lugar, porque há na nossa própria língua elementos para uma explicação, tão boa ou melhor do que a indiática.

É sabido que, no tempo dos autores quinhentistas, o uso do gerúndio nas perífrases (como anda cantando), era muito mais vulgar do que hoje. Atualmente, em Portugal, o povo prefere, quase sempre, a construção com infinitivo (anda a cantar). Assim, a concorrência decisiva entre os dois processos se pronunciou justamente após a descoberta do Brasil. A particularidade em questão é talvez legado genuíno dessa época de luta, no qual se reúnem a modalidade mais freqüente outrora, importada pelos primeiros povoadores, e aquela que depois veio a predominar. O nosso povo, - inculto, em grande parte produto de mestiçagem recente, aprendendo a custo o mecanismo da língua, - diante dos dois processos concorrentes, não atinou, de certo, com as razões por que se preferia ora um, ora outro, e acabou por combiná-los. Depois, como um efeito, - que não como causa da reduplicação, - os verbos assim combinados sofreram uma pequena evolução sematológica no sentido da intensificação do seu valor iterativo. Assim, temos, em esquema:


a virar


Port. - Vinha
a virá(r)

ou
(a) virá(r) virando

Dial. - Vinha
virando

virando

Corrobora esta hipótese o fato de que o nosso caipira, usando a todo o momento de perífrases com gerúndio de acordo com a velha língua, só muitíssimo raramente empregará, isolada, a forma popular portuguesa de hoje, - infinitivo com prep. Isto confirma que esta forma lhe terá causado estranheza desde cedo, originando-se daí a confusão. (19)

2. Várias formações teratológicas já foram apontadas e ainda o serão adiante, neste capítulo (Flexões de número). Queremos, aqui, deixar apenas registrados os seguintes processos de que ainda não tratamos:

a) A ETIMOLOGIA POPULAR tem sido fonte de numerosas formas vocabulares novas: de "guapê", voc. de origem tupi, fez-se aguapé, por se ver nele um composto de água e pé; de "caa-puan", mato redondo, ilha de mato, fez-se capão; de "caa-puan-era", capoeira; de cobrêlo, cobreiro (cobra suf. eiro); de torrão, terrão, etc.

b) Também a DERIVAÇÃO REGRESSIVA dá origem a outros termos: assim, de paixão, se fez paixa, por se tomar aquela forma como um aumentativo; de satisfação, por idêntico motivo, se tirou sastifa, com hipértese de s.

GÊNERO

3. O adjetivo e o particípio passado deixam, freqüentemente, de sofrer a flexão genérica, sobretudo se não aparecem contíguos aos substantivos: essas coisarada bunito, as criança távum quéto, as criação ficarum pestiado.

NÚMERO

4. Já dissemos algo sobre o som de s-z no final dos vocábs. (I, 24). Vamos resumir agora tudo o que se dá com esse som em tal situação.

Se bem que se trate aqui de flexões, é impossível separar o que se passa com o s final, tomado como sinal de pluralidade, do que sucede com ele em outras circunstâncias; e dificílimo se torna reconhecer, em tais fatos, até aonde vão e onde cessam a ação puramente fisiológica, do domínio da fonética, e a ação analógica, do domínio das formas gramaticais. Porisso faremos aqui uma exposição geral dos fatos relativos ao s final:

a) Nos VOCÁBULOS ÁTONOS, conserva-se: os, as, nos (contração e pronome), nas. Aliás, há pronunciada tendência para tornar tônicos esses vocábulos; pela ditongação: ois, ais, etc. A conjunção mas tornou-se mais.

b) Nos OXÍTONOS, conserva-se, - salvo quando mero sinal de pluralidade: crúiz, retróis, nóis (nós), nuz (nóz), juiz, ingrêis, vêiz, (vez), dois, trêis, déiz, fáiz, fiz, diz, páiz (paz), pois.

Como sinal de pluralidade, desaparece: os pau, os nó, os ermão, os papé, as frô(r), os urubú. Excetuam-se os determinativos uns, arguns, seus, meus (sendo que estes dois últimos, quando isolados, perdem o s: estes carru são seu', esses não são os meu'). Há hesitação em alguns vocábulos, como péis ao lado de pé'. Réis conserva-se, por se ter perdido a noção de pluralidade (isto não vale nem um réis) ; semelhantemente, pasteis, pernís, cóis.

c) Nos vocábulos PARO e PROPAROXÍTONOS, desaparece: um arfére, os arfére; o pire, os pire; dois home; os cavalo, os lático; nóis fizémo, vamo, saímo.

Quando o s pluralizador vem precedido de vogal a que se apoia, desaparece também esta: os ingrêis (ingleses), as páiz (pazes), às vêiz (vezes), as côr (cores).

Excetuam-se os determinativos, que conservam o s: u"as, argu"as, certos, muitos, estes, duas, suas, minhas, etc. assim como o pronome eles, elas. Quando pronominados, porém, os determinativos podem perder o s: Estas carta não são as minha.

5. De acordo com as regras acima, - e abstraindo-se das flexões verbais, - a pluralidade dos nomes é indicada, geralmente, pelos determinativos: os rei, duas dama, certas hora, u"as fruita, aqueles minino, minhas ermá, suas pranta.

6. O qualificativo foge, como o subst., à forma pluralizadora: os rei mago, duas casa vendida, u"as fruita verde, as criança távum queto. Abrem excepção apenas algumas construções, quase sempre expressões ossificadas, em que há anteposição do adjet.: boas hora, boas tarde.

7. Esta repugnância pela flexão pluralizadora dá lugar a casos curiosos. A frase exclamativa "há que anos!", equivalente a "há quantos anos!", sofreu esta torção violenta: há que zano! (ou simplesmente que zano!) Ouve-se freqüentemente bamozimbora. Não se deve interpretar como bamos+embora, mas como bamo+zimbora, pois o som de z, resultante originariamente da ligação de vamos com embora, passou a ser entendido pelo caipira como parte integrante da segunda palavra; tanto assim que diz: nóis bamo, e diz: êle foi zimbora. Prótese semelhante se dá em zóio (olhos), zarreio (arreios), com o s do art. def. plur. - Outro caso curioso é o que se dá com a expressão portuguesa uns pares deles, ou delas, que o nosso caipira alterou para uns par dele e u"as par dela. A frase - Vai-me buscar uns pares deles, ou delas, assim se traduzirá em dialeto: Vai-me buscá uns par-dele, ou u"as par-dela, como se par-dele e par-dela fossem as formas do masculino e do feminino de um simples substant. coletivo.

GRADAÇÃO

8. As flexões de grau subordinam-se às regras gerais da língua. Apenas algumas observações:

a) QUANTIDADE - O aumentativo e o diminutivo têm constante emprego, sendo que as flexões vivas quase se limitam a ão ona para o primeiro, inho inha, ico ica para o segundo.

Nos nomes próprios de uso mais generalizado, há grande número de formas consagradas: Pedrão, Pedróca, Zé, Zezico, Zéca, Zêquinha, Juca, Juquinha, Jica, Jéca (José); Quim, Quinzinho, Quinzóte (Joaquim); Joanico, Janjão, Zico, (João); Totá, Totico, Tonico (Antônio) Mandá, Manduca, Maneco, Mané, Manécão, Manéquinho (Manuel); Carola (Carolina); Manca, Maricóta, Mariquinha, Mariquita, Maruca, Maróca (Maria); Colaca, Colaquinha (Escolástica); Anica, Aninha (Ana) ; Tuca, Tuda, Tudinha, Tudica (Gertrudes).

O emprego do aumentat. e do dimin. estende-se largamente aos adjetivos e aos próprios advérbios: longinho, pertinho, assimzinho, agórinha. Acompanham estas últimas formas particularidades muito especiais de sentido: longinho equivale a "um pouco longe"; pertinho, a "bem perto, muito perto"; assinzinho, a "deste pequeno porte, deste pequeno tamanho"; agorinha, a "neste mesmo instante", "há muito pouco", "já, daqui a nada".

Dir-se-ia existir qualquer "simpatia" psicológica entre a flexão diminutiva e a idéia adverbial. São expressões correntes: falá baxinho, parô um bocadinho, andava deste jeitinho, vô lá num instantinho, falô direitinho, ia devagarinho, fartava no sírviço cada passinho, etc.

b) COMPARAÇÃO - As formas sintéticas são freqüentemente substituídas pelas analíticas: mais grande, mais piqueno, mais bão, mais rúm e até mais mio, mais pió.

c) SUPERLATIVIDADE - Quase inteiramente limitada às formas analíticas.

FLEXÕES VERBAIS

9. PESSOA - Só se empregam correntemente as formas da 1.ª e 3.ª pessoas. A 2.ª pessoa do sing., embora usada às vezes, por ênfase, assimila-se às formas da 3.ª: Tu num cala essa bôca? Tu vai? A 2.ª do plur. aparece de quando em quando com suas formas próprias, no imperativo: oiai, cumei.

10. NÚMERO - O plural da 1.ª pessoa perde o s: bamo, fômo, fazêmo. Quando esdrúxula, a forma se identifica com a do sing.: nóis ia, fosse, andava, andasse, andaria, fazia, fizesse, fazeria. Nas formas do preter. perf. do indic. dos verbos em ar, a tônica muda-se em e: trabaiêmo - trabalhamos, caminhêmo = caminhamos.

O plural da 3.ª modifica-se: quérim, quiríum, quizérum, quêirum; ándum, andávum, andárum, ándim. No pres. do indic. de pôr, ter, vir, as formas da 3.ª pessoa são: ponham, tenham, venham.

11. MODOS E TEMPOS - 0 fut. imperf. do indic. exprime-se com as formas do presente: eu vô, nóis fazêmo, ele manda, por "eu irei", "nós faremos", "ele mandará". Entretanto, dubitativamente, empregam-se as formas próprias, às vezes modificadas: Fazerêmo? - Fazerá? - Não sei se fazerei - Quem sá' se fazerão! Será verdade? Sei lá se irei!

12. Com o condicional se dá coisa parecida. Correntemente, é expresso pelas formas do imperf. do indic.: eu dizia, ele era capáiz; mas: Dizeria? - Não sei se poderia - Seria verdade?

13. Aparecem não raro formas próprias do imperativo, do sing. e do plur., - anda, puxa, vai, andai, correi, trabaiai; são, porém, detritos sem vitalidade, que se empregam sem consciência do seu papel morfológico, de mistura com as formas da 3.ª pessoa, únicas vivas e correntes.

PRONOMES

14. Tu tem emprego puramente enfático, ligando-se a formas verbais da 3.ª pessoa: tu bem sabia, tu vai, tu disse, Vóis (vós) já não se ouve, senão, talvez, excepcionalmente.

15. Os casos oblíquos nos, vos têm emprego muito restrito: na maior parte das vezes preferem-se-lhes as formas analíticas pra nóis, pra você. Vos já não corresponde a Vós, mas a vacê: - v. já deve de sabê, porque eu vos disse muntas vêis.

16. Outras formas pronominais: a gente, u"a pessoa (ambas correspondentes ao francês on) ; você e suas variantes, todas muito usadas, vacê, Vancê, vossuncê, vassuncê, mecê, ocê.

17. Um fato que merece menção, apesar de pertencer mais ao linguajar dos pretos boçais do que propriamente ao dialeto caipira: a invariabilidade genérica do pronome ele, junta à invariabilidade numeral. Quando se trata de indicar pluralidade, o pronome ele se pospõe ao artigo def. os, e tanto pode referir-se ao gênero masculino, como ao feminino: osêle, zêle fóro zimbora - eles (ou elas) foram-se embora.

IV. - SINTAXE

1. A complexidade dos fenômenos sintáticos, ainda pouco estudados no dialeto, - apenas enumerados às vezes, - não permite por ora sequer tentativas de sistematização. Só depois de acumulado muito material e depois de este bem verificado e bem apurado é que se poderão ir procurando as linhas gerais da evolução realizada, e tentando dividi-lo em classes.

O material que conseguimos reunir é pouco, e ainda não estará livre de incertezas e dúvidas; mas foi colhido da própria realidade viva do dialeto, e tão conscienciosamente como o mais que vai exposto nas outras partes deste trabalho.

FATOS RELATIVOS AO SUJEITO

2. Há no dialeto urna maneira de indicar o sujeito vagamente determinado, isto é, um indivíduo qualquer de uma classe ou indivíduos quaisquer de uma classe. Exprime-se por um substantivo no singular sem artigo: Cavalo tava rinchando - Macaco assubiô no pau - Mamono tá rebentano (Um cavalo estava a rinchar, rinchava - Um macaco assoviou, macacos assoviaram no pau - O mamono está, os mamonos estão rebentando).

3. Convém acrescentar, porém, que a supressão. do art. def. antes do sujeito, mesmo determinado, não é rara: Patrão não trabaia hoje -Pai qué que eu vá - Chuva tá caíno.

4. Quando o sujeito é algum dos coletivos gente, família, etc., o verbo aparece freqüentemente no plural: Aquela gente são muito bão(s) - A tar famía são levado da breca - A cabocrada tão fazeno festa.

Encontra-se esta particularidade, igualmente, no falar do povo português, e vem de longe, como provam numerosos exemplos literários. Um de Camões (Lus., I, 38):

Se esta gente que busca outro hemisfério,
Cuja valia e obras tanto amaste,
Não queres que padeçam vitupério.

Outro, de Duarte N. ("Orig.", cap. 2.º):

...com hu"a gente de Hespanha chamados indigetes...

5. As cláusulas infinitivas dependentes de para têm por sujeito o pronome oblíquo mim, nos casos em que o sujeito deveria ser eu: Êle trôxe u"as fruita pra mim cumê(r).

Este, como muitos outros, como quase todos os fatos da sintaxe caipira e popular de S. Paulo, repete-se nas outras regiões do país. Um exemplo dos "Cantos populares" de S. Romero:

Ora toque, seu Quindim.
Para mim dansar.

PRONOME

6. O pronome ele ela pode ser objeto direto: Peguei ele, enxerguei elas.

Este fato é um dos mais generalizados pelas diversas regiões do país. Dele se encontram alguns exemplos em antigos documentos da língua; mas é claro que o brasileirismo se produziu independentemente de qualquer relação histórica com o fenômeno que se verificou, sem continuidade, no período ante-clássico do português.

7. O pronome oblíquo o a perdeu toda a vitalidade, aparecendo quase unicamente encravado em frases ossificadas: Que o lambeu! etc.

8. Sobre as formas nos e vos, ver o que ficou dito na "Morfologia".

9. De lhe só usam os caipiras referido à pessóa com quem se fala. Assim, dizem eles, dirigindo-se a alguém: - Eu já le falei, fulano me afianço que le escrevia, i. é, "eu já lhe falei" (ao senhor, a você), "fulano me assegurou que lhe escrevia" (a você, ao senhor).

Pode dizer-se, pois, que o pronome lhe, conservando a sua função de pronome. da "terceira" pessoa gramatical, só se refere, de fato, à "segunda" pessoa real.

Aludindo a um terceiro indivíduo, o caipira dirá: Eu já decrarei pr'a ele, fulano me garantiu que escreveu pr'a ele.

10. J. Mor. (1.º vol), tratando do emprego de formas pronominais nominativas como complemento seguido de prep. (no aragonês, provençal, valenciano, etc.), diz:

De construção semelhante encontram-se exemplos nos "Cantos populares do Brasil", interessante publicação do sr. Sílvio Romero:

Yayá dá-me um doce,
Quem pede sou eu;
Yayá não me dá,
Não quer bem a eu.

É possível que no Norte elo país se encontre essa construção. Em S. Paulo o caipira diz: Não qué bem eu, sem prep., ou não me qué bem eu. Aliás, isto é fato isolado. A regra, quando se trata da primeira pessoa, e usar dos casos oblíquos: Não me qué, não me obedece, não me visitô.

CONJUGAÇÃO PERIFRÁSTICA

11. Na conjugação perífrástica o gerúndio é sempre preferido ao infinitivo precedido de preposição, vulgar em Portugal e até de rigor entre o povo daquele país. (J. Mor., cap.. XX, 1.º vol.). Aqui se diz, invariavelmente: - Anda viajando - Ia caindo, estão florescendo, ao passo que, em Portugal, especialmente entre o povo, se diz em tais casos: "estou a estudar", "anda a viajar", "ia a cair" ou para cair", etc.

O nosso uso é o mesmo dos quinhentistas e seiscentistas, dos quais se poderia citar copiosíssima exemplificação. Escrevia frei Luís de Sousa na "Vida de Dom Frei Bartolomeu", de perfeito acordo com a nossa atual maneira:

"... ia fazendo matéria de tudo quanto via no campo e na serra para louvar a Deos; offereceu-se-lhe á vista não longe do caminho... um menino pobre, e bem mal reparado de roupa, que vigiava umas ovelhinhas que ao longe andavam pastando.

12. A ação reiterada, contínua, insistente, é expressa por uma forma curiosíssima: Fulano anda corrê-corrêno p'ras ruas sem o quê fazê - A povre da nha Tuda véve só chorá-chorano despois que perdeu o marido (V. "Morf.", 1).

TER E HAVER

13. O verbo ter usa-se impessoalmente em vez de haver, quando o complemento não encerra noção de tempo: Tinha munta gente na eigreja - Tem home que não gosta de caçada - Naquêle barranco tem pedra de fogo.

14. Quando o complemento é tempo, ano, semana, emprega-se às vezes haver, porém, mais geralmente, fazer: Já fáiz mais de ano que eu não vos vejo - Estive na sua casa fáiz quinze dia.

15. Haver é limitado a certas e raras construções: Há que tempo! - Há quanto tempo foi isso? - Num hai quem num saiba. Nessas construções, o verbo como que se anquilosou, perdendo sua vitalidade.

Restringimo-nos, entretanto, neste como em outros pontos, a indicar apenas o fato, sem o precisar completamente, por falta de suficientes elementos de observação.

Vem a propósito referir que a forma hai, contração e ditongação de há aí (por "há i", que se encontra em muitos documentos antigos. da língua) só é empregada, que saibamos, nestas condições:

- quando precede ao verbo o advérbio não, como no exemplo dado acima;

- quando o verbo termina a proposição: É tudo quanto hai - Vô vê se inda hai.

"CHAMAR DE"

16. O verbo chamar, na acepção de "qualificar", emprega-se invariavelmente com de: Me chamô de rúin - Le chamava de ladrão.

O verbo chamar (diz, referindo-se a Portugal, J. Mor., cap. XXVIII, 1.ª volume) não se usa hoje com tal construção nem na linguagem popular nem na literária. mas teve-a em outro tempo, do que se encontram exemplos, como no seguinte passo de Gil Vicente, vol. II, p. 435:

Se casasses com pàção,
Que grande graça seria
E minha consolação!
Que te chame de ratinha
Tinhosa cada meia hora
etc.

ORAÇÕES RELATIVAS

17. Nas orações relativas não se emprega senão que. Nos casos que, em bom português, reclamam este pronome precedido de preposição, o caipira desloca a partícula, empregando-a no fim da frase com um pronome pessoal. Exemplos:

A casa em que eu morei ......... A casa... que eu morei nela

O livro de que falei .......... O livro... que eu falei dele.

A roupa com que viajava ......... A rôpa... que viajava cum ela.

18. Freqüentemente se suprimem de todo a preposição e o pronome pessoal, e diz-se: a casa que eu morei, o livro que eu falei, ficando assim a relação apenas subentendida.

19. Os relativos o qual, quem e cujo são, em virtude do processo acima, reduzidos todos a que:

O cavalo com o qual me viram aquele dia.

O cavalo que me virum cum êle aquêle dia.

A pessoa de quem se falava

A pessoa que se falava dela

O homem cujas terras comprei

O home que eu comprei as terra dele.


Em Portugal observa-se entre o povo idêntico fenômeno, isto é, essa tendência para a simplificação das fórmulas das orações relativas. Lá, porém, tais casos são apenas freqüentes, e aqui constituem regra absoluta entre os que só se exprimem em dialeto, - regra a que se submetem, sem o querer, até pessoas educadas, quando falam despreocupadamente.

20. Outra observação: lá, o relativo quem precedido de a se resolve em lhe, e aqui só se substitui por pra ele. Assim a frase - "o menino a quem eu dei meu livro" será traduzida, pelo popular português: "o menino que eu lhe dei um livro"; pelo nosso caipira: o minino que eu dei um livro pra ele (ou prêle).

Seria mais curial que, em vez de pra ele, se dissesse a ele; mas há a notar mais esta particularidade, que o nosso povo inculto prefere sempre a primeira preposição à segunda.

NEGATIVAS

21. Na composição de proposições negativas, o adv. já, corrente em português europeu, é de todo desconhecido no dialeto. Em vez de "já não vem", "já não quero", diz à francesa, ou à italiana, o nosso caipira (e com ele, ainda aqui, toda a gente está de acordo, por todo o país): num vem mais, num quero mais.

Esta prática é tão geral (diz, referindo-se ao Brasil, J. Mor., cap. XXX, 1.º vol.) que os próprios gramáticos não sabem ou não querem evitá-la. Assim, Júlio Ribeiro, na sua Gramática Portuguesa, escreve: "Hoje não é mais usado tal advérbio". Entre nós dir-se-ia: "já não é usado" ou "já não se usa tal advérbio".

A observação é em tudo exata. Só lhe faltou acrescentar que, como tantas outras particularidades sintáticas de que nos ocupamos, também desta há exemplos antigos na língua, e talvez até em Gil Vicente, que J. Mor. tão bem conhecia e a cada momento citava. Eis um exemplo, onde, pelo entrecho, mais pode ser tomado como negativo:

ANJO - Não se embarca tyrannia
Neste batel divinal.
FIDALGO - Não sei porque haveis por mal
Qu'entre minha senhoria.
ANJO - Pera vossa fantasia
Mui pequena he esta barca.
FIDALGO - Pera senhor de tal marca
Não há hi mais cortezia?

Um exemplo bem positivo de J. B. de Castro, "Vida de Cristo", (liv, IV):

"Meu pae, contra Deus e contra vós pequei e não mereço que me chameis mais vosso filho..."

22. O emprego de duas negativas - ninguém não, nem não, etc., assim contíguas, - vulgar na sintaxe portuguesa quinhentista, mas hoje desusado na língua popular de Portugal, e na língua culta tanto lá como cá, - é obrigatório no falar caipira: Nem eu num disse - Ninguém num viu - Ninhum num fica.

Deste uso no séc. XVI pode-se apresentar copiosa exemplificação.

23. Mas há fato mais interessante. A negativa não repetida depois do verbo: não quero não, não vou não, parece puro brasileirismo. Encontra-se, porém, repetidas vezes em Gil V., como neste passo:

Este serão glorioso
Não he de justiça, não.
(Auto da Barca do Purg.)

24. Também o trivial nem nada, depois de uma preposição negativa, tem antecedentes que remontam pelo menos a Gil V.:

Sam cappellão d'hum fidalgo
Que não tem renda nem nada.
(Farsa dos Almocreves).

CIRCUNSTÂNCIA DE LUGAR

25. O lugar para onde é indicado com auxílio da preposição em: Eu fui im casa - Ia na cidade - Joguei a pedra n'agua - Chego na janela - Vortô no sítio.

Deste fato, comum a todo o Brasil, e ao qual nem sempre escapam os próprios escritores que procuram seguir os modelos transoceânicos, se encontram numerosos exemplos em antigos documentos da língua, e ainda há vestígios nas expressões usuais: cair no laço, caí em mim, sair em terra (J. Mor., cap. XXIV, 1.º vol.).

CIRCUNSTÂNCIA DE TEMPO

26. Os complementos de tempo são, na linguagem portuguesa de hoje, empregados quase sempre com uma preposição (a, e em), destinada a estabelecer uma espécie de liame que satisfaça o espírito do falante. Assim, dizemos: "Fui lá numa segunda-feira" - "No dia 5 ele virá" - "Anda por aqui a cada instante", etc.

O caipira atem-se mais à tradição da língua. Ele dirá: Fui lá u"a segunda-f\êra - Dia 5 ele vem - Anda por aqui cada passo - Mando notícia quarqué instante - Nunca está im casa hora de cumida.

Compare-se com os seguintes exemplos, entre outros citados por J. Mor. (cap. XXV, 1.º vol.)

E o dia que fôr casada
Sahirei ataviada
Com hum brial d'escarlata -
(Gil V.)

Esta ave nunca sossega,
He galante e muito oufana;
Mas a hora que não engana
Não he pega.
(Gil V.)

Aquel dia que os romãos foram vençudos veerom a Rei Artur hu"as mui maas novas.
("Demanda do Santo Graal").

CIRCUNSTÂNCIA DE CAUSA

27. Como o povo em Portugal (J. Mor., cap. XXVI, 1.º vol.) o nosso caipira usa a fórmula por amor de para exprimir circunstância de causa. "Hei de ir a Régoa no domingo pr amor de ver se compro os precisos" - é exemplo citado por Júlio Moreira. Em frase semelhante o caipira diria quase identicamente: "Hei d'i na vila dumingo pramór de vê se compro os perciso". Poderia, também, dizer simplesmente: mór de vê, ou ainda mó de vê.

28. Outra fórmula caipira: por causo de, com o mesmo valor de por causa de. Essa alteração de causa em causo deve-se, talvez, a confusão com caso (que o caipira mudou em causo).

É de notar que em Gil V. se encontra por caso. O mesmo poeta escreveu freqüentemente "caiso" (subst.), o que mostra que talvez se dissesse também "por caiso", e quem sabe se até "por causo", como o nosso caipira.

V. - VOCABULÁRIO

O QUE CONTÉM ESTE VOCABULÁRIO

Este glossário não se propõe reunir, como já dissemos em outro lugar, todos os brasileirismos correntes em S. Paulo. Apenas regista vocábulos em uso entre os roceiros, ou caipiras, cuja linguagem, a vários respeitos, difere bastante da da gente das cidades, mesmo inculta.

Quanto a esses próprios vocábulos, não houve aqui a preocupação de indicar todos quantos constam das nossas notas. Deixamos de lado, em regra geral, aqueles que não temos visto usados senão em escritos literários, e por mais confiança que os autores destes nos merecessem.

Iguais reservas tivemos com os nomes de vegetais e animais. Alguns destes, dados por diversos autores como pertencentes ao vocabulário roceiro, nunca foram por nós ouvidos, talvez por mera casualidade. Não os indicamos aqui. Outros, e não poucos, estão sujeitos a tais flutuações de forma e a tais incertezas quanto à definição (o que é muito comum na nomenclatura popular), que, impossibilitados, muitas vezes, de proceder a mais detidas averiguações, preferimos deixá-los também de lado por enquanto.

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