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Memorial de um Passageiro de Bonde

Amadeu Amaral

UM GRANDE EGOÍSTA O meu amigo Heráclides, de ordinário benevolente, ia ontem azedo, no bonde. Observava exemplos de aspereza e grosseria de maneiras, aos quais via um sinal meteórico de barbarização, uma prova da decadência do senso de humanidade, que outrora a religião alumiava ainda nos mais incultos.

Heráclides apontou-me, sucessivamente, um passageiro que deixara de ceder lugar a uma senhora, apesar dos olhos compridos que ela deitava para o seu lado; um menor que se desarticulava no banco, como uma letra gótica, e soltava grossas baforadas de fumo na cara dos vizinhos; um cidadão bem trajado que disse dois desaforos ferinos ao condutor porque este se atrapalhara numa questão de troco, e um homem gordo, escarrapachado como uma foca, as perninhas roliças largamente jogadas para os lados, a direita a premir uma pobre moça, a esquerda, a bater no joelho de um velho magro, que fazia horríveis esforços por ocupar apenas a metade do espaço a que tinha direito e que lhe era necessário.

- "Veja, Trancoso, veja: todo esse pessoal tem, no fundo da alma, um desprezo absoluto pelo bicho homem, uma indisposição latente e injuriosa contra o gênero humano em massa." - "Heráclides, estas pequenas coisas não têm a importância que você lhes quer dar." - "Não têm importância? Então você acha que nada significa, nada, aquilo que aflora à periferia das personalidades, normalmente, ordinariamente, como o efeito imediato e espontâneo de uma fermentação? Então, se essa gente que ai vai tivesse outro fundo, esse fundo estaria a borbulhar cá fora dessa maneira? Deite dois dedos de açúcar puro num copo, encha o copo de água; que é que vem à superfície? gases sulfúricos? fragmentos microscópicos de potassa? traços de ácido prússico? bavas de sal de azedas?" Curvei a cabeça, como quem cedia por ceder, para não discutir. Mas, no fundo, cedia completamente. Entretanto, não convém encorajar nos outros essas inclinações à clarividência.

Nada tão inútil nem tão deletério como enxergar demais.

Heráclides calou-se, com os olhos perdidos no filme que se desenrolava por fora do bonde.

Depois de uns minutos de silêncio, disse-me: - " Quero-lhe fazer um convite. Você não gostaria de entrar para o Clube dos Egoístas?" - E antes que eu pedisse explicação: "O Clube dos Egoístas, um grupo que fundamos, eu o Gabriel, o Tomasinho, o Tinoco, ali no fundo do bar Kauffman. Reunimo-nos todas as noites para conversar, ou para não conversar, apenas para beber o nosso chope. Só se exigem duas condições: cada um paga a sua despesa, e deve ser um indivíduo sem espécie alguma de generosidade." - "Que extravagância? Então pode entrar toda a gente." "Está enganado, redondissimamente enganado. Pois não vê que este mundo anda cheio de indivíduos que se sacrificam pelo próximo? pelo bem da Pátria? prosperidade da lavoura? pela educação nacional? Pelo futuro da indústria petrolífera ? pela religião? pela família? pela humanidade? Não vê como pululam, como se embatem, como fervem as manifestações de caridade, as obras pias, os organismos de previdência e auxílio mútuo, as campanhas contra a doença, a ignorância e o vício? Não percebe como há uma infinidade de pessoas feramente devotadas a todas as nobres causas? Pois, bem. Nós não nos preocupamos com essas causas: só nos preocupamos conosco mesmos. Só. Absolutamente só. Então, sucede que a nossa prosa, lá no bar, à noite, é deliciosa.

Cada um de nós é um poço de desencanto. Mas esse desencanto é um encanto. Tocamos com o dedo todas as misérias da hipocrisia e da mistificação. Intensificamos danadamente, com a nossa vida interior, a acuidade nevrálgica da nossa visão dos homens e dos acontecimentos.

Despojamo-nos de tudo que é vestimenta de idéias feitas, de preconceitos recebidos, de concepções correntes, de inclinações bem vistas. Somos homens diante de homens; homens, só homens, simplesmente, tristemente, heroicamente homens." - "Mas que é que tem isso com o caso de que vínhamos tratando?" - "Tem tudo. Tudo. Essa gente toda que você aí vê é gente que se desumaniza. É gente que não sabe ser egoísta. São anjos. Toda ela se move por puros ideais, por santas idéias, por altos princípios, por desígnios heróicos: batem-se, agitam-se, odeiam-se, caluniam-se, esgadanhamse por amor à família, por amor à pátria, por amor à ordem, por amor ao direito, por amor à cultura, por amor às letras, por amor à civilização e por amor ao próximo.

Por isso mesmo, nós mesmos os egoístas. Metidos conosco: nem filantropos, nem patriotas, nem heróis da família, nem paladinos de coisa alguma. Homens. Apenas homens. Lucidamente, miseravelmente e deliciosamente homens - livres e naturais como os peixes do fundo do mar.

Eu creio que a humanidade, hoje, não tinha nada melhor para fazer do que praticar e santificar o egoísmo - Você quer entrar para a tropa?" - "Quem sabe! Depende." Heráclides sorria, como a dizer: "Este ainda não está preparado", e de novo mergulhou no silêncio, fumando profundamente um cigarro de palha. E depois, meio assim como se falasse consigo mesmo: - "O curioso é que este nosso egoísmo, pelo que vejo, acaba mal." - "Por que?" - "Porque tende, naturalmente, muito naturalmente, a transformar-se na coisa mais séria neste mundo: em religião.

As almas descascadas ficam todas tão semelhantes! À atitude que elas assumem diante da infinita miséria da condição humana é tão inevitavelmente uma só, de raiz! Uma sede única de verdade e sinceridade se apodera das gargantas. E um sentimento entranhando de fraternidade acaba brotando por si mesmo, como o grelo das batatas.

Nós, insensivelmente, já nos vamos querendo tanto bem uns aos outros que precisamos de fazer tremendos esforços para não resvalar na sinistra comédia mundana da amizade e de galantaria! Porque nós, lá, não pretendemos ser senão irmãos." UM HOMEM PERFEITO O Sr. João Cesário da Costa é um homem sólido, solidamente refestelado na vida Tem rendas sofríveis, uma bela casa, uma saúde de ferro, um genro colocado na política. Suas ambições nada têm de temerárias nem de atormentadas: são plácidas; limitam-se, evidentemente, a poupar trabalhos e amofinações, a garantir e a entreter a aurea mediocritas ou o otium cum dignitate em que o Sr. Cesário vive desde mocinho.

Conversar com o Sr. Cesário é um exercício que reconforta e tonifica. A uma ausência absoluta de inquietações pensantes, reúne um otimismo tranqüilo. Quando alguma opinião, alguma frase, algum ato equivoco ou complicado cai no domínio de sua percepção, faz um gesto de quem lhe sentisse o mau cheiro, e afasta-o de si, num pudico movimento que não admite réplica.

É possível confabular com ele meia hora, uma hora, sem lhe ouvir outra cousa que considerações sobre o bom e o mau tempo, sobre a superioridade da roupa preta em relação à de cor, sobre a melhor maneira de preparar um molho de tomates, ou sobre as inconveniências de se viajar no estribo do bonde. Fala correntemente, com certa graça natural, acentuando, recortando, remexendo, saboreando com volúpia os ínfimos pormenores, como quem chupa os ossinhos de um frango assado.

O Sr. João Cesário faz-me, às vezes, o efeito de uma boa cadeira de balanço. Quando me sinto fatigado dos meus infindáveis solilóquios, que nada concluem, entreter um quarto de hora de conversação com este homem é o mesmo que trocar um cavalo aragano por uma cadeira fofa e embaladora. Não há senão o trabalho de fazer a cadeira balançar.

Tive ontem esse prazer. O Sr. João Cesário cumprimentou-me com a sua habitual bonomia temperada de autoridade: - "Como vai o bom amigo?" - "Bem, obrigado".

- "Bem mesmo?" - "Assim, assim..." - "Por que?" - "Nada. Vou bem." - "E a família?" - "Bem." - "Sua irmã?" - "Agora bem." - "Ah! Esteve doente?" - "Coisa ligeira." - "Constipação, de certo." - "Justamente." - "O tempo é disso. Tudo por aí anda cheio de gripados. Em casa, todos mais ou menos perrengues." - "Que maçada!" - "Mas não há nenhum caso sério. Creio que o mais doente ainda sou eu." - "Não parece." - "As aparências. Tenho uma dorzinha de cabeça que não para, aqui, entre a fonte e a nunca, passando por cima da orelha, - vê neste ponto. Mas o pior é que o intestino anda funcionando meio à matroca, - de tudo, uma sensação de cansaço pelo corpo todo, essa sensaçãozinha amolante e gostosa de um corpo que está pedindo cama - ou rede, que é melhor... ah! ah!" - "E o senhor sai, apesar de tudo?" - "Ah! Não posso ficar preso - é inútil! - senão em último extremo. Acredito mesmo que a gripe, conseguindo resistir-se-lhe de pé, vai embora mais cedo. 8enti-lhe a visita há três dias, sábado.

Sábado à tarde. Disse à minha velha: "Por sua culpa, estou gripado." Ela ficou passada. "Por minha culpa, Cesário?" -"Sim, por sua culpa, porque me obrigou, ontem à noite, com aquele frio, a dar uma grande volta pelo bairro. Coitada, arranjou-me mais que depressa um escaldapés, uma camisa de flanela, umas meias de lá, um chá, e esteve a ponto de fazer promessa a Nossa Senhora da Penha. Mas eu exagerava. Gosto de brincar com a velha; nunca vi criatura mais medrosa, quando se trata de doenças em casa. Claro que apanhei porque tinha de apanhar..." - "Não se sabe como é que ela chega" - "Não, às vezes se sabe. Mas, no meu caso, não foi o tal passeio de noite. Digo que não foi porque, já antes de mim, o Alfredinho meu filho sentira a primeira bordoada. Só nos contou isso ontem à hora do chá. Demais, estou habituado a fazer voltas a pé, de noite, depois do jantar, quando não chove. É verdade que aquela noite tinha caído uma garoinha, coisinha de nada, ali pelas sete horas. Quando saímos às nove, o céu estava limpo como um prato. E que luar! Fomos até lá ao alto do morro, descemos pela avenida, passamos pela igreja..." - "Sr. Cesário, leu a notícia daquele crime?" - "Nem fale! Que coisa estúpida! Como se mata um homem pacato, trabalhador, boa pessoa! Aqui está um caso em que eu, jurado, não tinha contemplações. Então é assim? destrói-se um pai de família como quem acaba com uma cobra à-toa, por umas questõezinhas de nonada?" - "Havia uma questão de honra, alega o assassino." - "Honra, honra! Pusesse a mulher para fora de casa." - "Mas, ele amava a mulher." - "Qual, nada. O seu dever era esse, e nunca matar. Ninguém pode matar. A vida, quem a dá é Deus, e quem a pode tirar é só Deus".

- "Mas o senhor garantirá que não foi Deus quem a tirou à vítima por intermédio do assassino, como a podia tirar por meio do tifo ou do automóvel?" O sr. João Cesário não respondeu; nem pestanejou sequer. Puxou do lenço de linho, que trazia dobrado no bolso da direita, escarafunchou as ventas, tornou a assoar-se, dobrou e guardou o lenço. Em seguida tirou um outro de fina cambraia, que trazia alequeado no bolsinho de cima, e passou-o pelos lábios e pelas fossas. Por fim, arrumou-o de novo, calcou-o, e, numa despreocupação satisfeita: - "Pois é isso".

Pouco adiante, disse-me adeus, esperou o carro parar bem parado, desceu, voltou-se para mim a fazer uma última cortesia, e partiu, muito apertado no seu terno azul de risquinhas brancas, sopesando com graça a bengala de castão de ouro.

E havia em redor dele um halo de perfeição.

Eis aí um homem feliz. Acompanhei-o com um olhar de inveja, enquanto pude; mas acabei por me resignar. Coisas que não se aprendem, não se adquirem. Que fazer? Limitarmo-nos a admirar.

Este indivíduo, como tantos outros aparentemente insignificantes, é uma verdadeira maravilha da humanidade. Que assombrosa obra de inteligência e de técnica magistral, a composição deste mecanismo físico-psíquico, tão perfeitamente adaptado a todas as condições médias de uma navegabilidade tranqüila! Foi, sem dúvida, fabricado após uma série imensa de provas e após uma colheita e apreciação rigorosa de milhares de dados experimentais. Diga quem o quiser que é mero produto das forças inconscientes da natureza".

DE AMICITIA Ia eu muito macambúzio, no meu banco de trás, e nem sabia porque.

Lembro-me de que, em casa, quando me aprontava para sair me havia irritado por causa de uns incidentes minúsculos. Ao vestir o colete, o relógio caíra-me do bolso, e ficara suspenso pela cadeia; e algumas moedas que estavam no outro bolsinho despencaram para o soalho, rolando em todas as direções, como expressamente para me fugir. Quando eu passava a escova pelo chapéu, ela deixara pegada à copa uma lanugem de felpas impalpáveis, de seda ou de algodão, que tive de extrair à unha, uma por uma.

Saí quase a correr, e o casaco se me enganchou pelo bolso à maçaneta da porta. Libertei-me, empurrei a porta com um safanão, e ela, voltando, soltou um relincho tão triste, que me senti subitamente envergonhado da minha estúpida impaciência.

Que covardia e que ingratidão ser bruto com as coisas! É preciso, ao contrário, amá-las, no recanto em que vivemos, como as boas protetoras e inalteráveis amigas. O aspecto ordenado, limpo, benévolo e tácito dos objetos que me rodeiam, no meu quarto, parece refletir às vezes algo que não é bem deste mundo: um ambiente de estampa, uma atmosfera de história, um casulo de intimidades intangíveis, uma ilusão de permanência e de espiritualidade - enfim, um sonho, uma doçura, um perfume.

Ao tomar o bonde, porém, já eu pensava em coisas muito diversas daqueles incidentes. De modo que não sei porque fiz metade da viagem tão sombrio, a olhar para o mundo com uma espécie de terror inerte. A estupidez e o mal da vida se me revelavam com a evidência de um acidente brutal, como um sinistro imenso que se acabasse de produzir, ali, de repente, sob meus olhos.

"Hei de consumir os anos que me restam, como tantos que já passaram, a fazer duas e quatro vezes por dia este mesmo trajeto, a percorrer estas mesmas ruas, estas mesmas esquinas, estes mesmos postes, entre as mesmas caras, as eternas caras indiferentes insidiosas, malignas, sornas, fátuas, soberbas, hostis.

Hei de ir todos os dias à repartição, ver a cara regulamentar do chefe, ver as caras dos meus cinco ou seis auxiliares, uma tola outra escarninha, outra fútil e finória, outra bovinamente resignada e mortiça. E não hei de topar muitas vezes na minha frente com alguma cara aberta e sincera, alguma cara iluminada e boa, desfranzida e cordial, que me olhe firme e de chapa com uns olhos direitos e claros como duas espadas, límpidos e quentes como duas chamas.

Meu Deus, como pude viver até hoje deste jeito! Meu Deus como é que hei de viver ainda, sabei-me lá até quando, nesta triturante estupidez e nesta abjeção ignominiosa! Matai-me, senhor, matai-me logo. Ou então, dai-me uma sorte na loteria, que me permita sair por esse mundo, sem cuidados, livre, errante, como o homem que perdeu a sombra, durante os primeiros momentos de sua peregrinação." Ia engolfado nestes pensamentos amarelos, quando subiu e veio sentar-se a meu lado o Aurélio de Moura. Cumprimentou-me com afabilidade mais larga do que a habitual. Acolhi-o com prônubos alvoroços.

Auré1io perguntou-me solícito pelas minhas coisas, passando-me o braço pelo ombro, com um sorriso de páscoa. Deixei-me abraçar, comovidamente, e conversamos.

Este rapaz é dos que parecem apostados a pensar, no miúdo e no grosso, de modo radicalmente diverso do meu; mas esta circunstância, que em outras ocasiões me quizilava, então se me tornou mais um motivo de satisfação, como um bom molho ajuntado a um prato já de si excelente. Concedi tudo a Aurélio, pelo prazer de o ver trabalhar em liberdade. As coisas vulgares e as coisas estrambóticas que ele dizia, tudo me soava uma doce música.

"Fala, Aurélio! fala, fala tudo quanto quiseres. Agrada-me pensar que é para mim só que tu falas, que o teu espírito veio verter no meu a espuma generosa do seu mosto vivo - uma forma de confidência sem gravidade e sem segredo, mas indiretamente complexa e escancarada.

Fala Aurélio! Achas que os postes de fios elétricos deviam ser pintados de escarlate? Muito bem. Achas que o Brasil precisa urgentemente ser invadido pelo argentarismo estrangeiro, que é necessário matar todos os leprosos e que as mulheres não devem mais aprender a ler nem escrever? Continua, Aurélio; tens razão, porque me divertes e porque confias na minha tolerância. Continua sempre. Pensas que a música é a mais insignificante das artes e que a poesia deverá ser proibida por decreto? Fala, fala....

A mim tu tens a coragem de dizer tudo, e isto significa que tu avalias afetuosamente a minha capacidade de ouvir todos os destampatórios honestos e de levar a sério todas as tolices sinceras. Com efeito, nada mais interessante do que uma opinião, essa coisa rara, essa coisa inútil e preciosa.

Mas, na verdade, o que ora mais me interessa não são as tuas opiniões, é o fato de mas expores nessa confiança tranqüila e ridente, sem reservas e sem receios, à sombra da frondosa Amizade, - a bela, a santa, a benéfica Amizade, o único dom dos deuses desmemoriados, que nunca mais se lembrariam de nós, os pobres humanos, ou que, tendo-no-la dado, entenderam ter-nos feito a maior oferta compatível com o nosso egoísmo e a nossa ruindade".

Entrementes, Aurélio discorria. Asseverava, por último, que higiene pública é apenas o negócio dos médicos higienistas e dos fabricantes de aparelhos higiênicos.

- "Sim, talvez tenhas razão".

- "Bem, eu salto aqui, seu Felício. Mais uma vez, obrigado pela passagem".

Eu tinha-lhe pago a passagem.

"Ora, ora!" - "Não você nem sabe que favor me fez. Saí de casa sem um níquel. Mas, quando vi você neste bonde, lá da esquina da alameda, disse cá comigo, estou garantido. E eis aí por que você teve de me aturar todo esse tempo! Como sabe, esta linha não é a que mais me convém. Mas quem não tem cão... Obrigadinho. Ciao!".

- "Té logo, Aurélio..." PROBLEMAS Hoje, o bonde vinha cheio, e tive de ceder o meu lugar a uma senhora. Esta, ao invés de me agradecer, parece que ficou ligeiramente arrufada com a minha gentileza.

Creio que a ética do bonde manda que, ao ceder o lugar, o passageiro não dê a isso a mais ligeira aparência de um ato de cortesia faça-o friamente, como por uma obrigação regulamentar.

Deve ser isso.

Mas será? Eis aí um dos inumeráveis problemas psicológicos que o bonde depara. O bonde é um saco de víspora: é só meter a mão, remexer, pegar, lá vem o problema psicológico.

Infelizmente, esses problemas vão ficando cada vez mais obscuros, à medida que cresce o número dos psicologistas, número infinito, hoje em dia, só comparável ao dos sociólogos. Se o futuro do Brasil dependesse da psicologia da sociologia, estava garantido; e só nos restava lamentar que não pudéssemos viver mais uns cinqüenta ou cem anos, para assistir ao grande fogo de vistas dos resultados. Estupenda coisa a ciência! Há dias, vi o Sr. João Cesário a conversar atentamente com um mocinho sisudo e altivo. Este falava em coisas difíceis: mentalidade primitiva - formação alógena - metabolismo racial - camadas de aluvião - idealismo hipocondríaco - teorias de Comte e Spencer - obras de Le Play, Fouillet, Tarde, Novicow, Pareto, memórias de Schwaartzemberg e Perikowski, de Astrinaieffe e Dragobsen. De repente, despediu-se e desapareceu veloz, como uma motocicleta.

Corria, provavelmente, a endireitar algum erro perigoso de técnica social, que estivesse para desabar sobre nós. Digno bombeiro da Ciência! Neste ínterim, perguntei assombrado ao Sr. Cesário: - "Quem é este menino? Que sábio!" - "Nem tanto. Muito estudioso, isso sim. Especializou-se - não sabe? É apenas sociólogo".

Senti-me absolutamente acalcanhando com ver um menino que, ainda longe dos trinta anos já havia conseguido ser um sociólogo, apenas. Senti necessidade de esquecer aquilo.

Montesquieu disse que não havia aborrecimentos que não lhe passassem com meia hora de leitura. Não sei se isto provará a virtude da leitura ou antes de Montesquieu. A mim, muitos aborrecimentos me desaparecem com a decifração de problemas ou com jogos de paciência.

Armei logo uma série de dificuldades através dos miolos, e depois mergulhei em cogitações para as desmanchar uma por uma.

Foi o que fiz hoje. Não tendo mais em que me ocupar, comecei a extrair e remexer os problemas que o bonde me oferecia, abundante corno pedreira.

Por que é que os nossos conhecidos sempre nos aparecem nos bancos de trás à hora da cobrança das passagens? Por que é que as senhoras apeiam voltadas para o lado traseiro do carro? Por que é que os condutores, quando recebem as passagens, vêm com cara de cobradores de contas atrasadas? Por que é que não se pode tirar um lenço ou abrir uma cigarreira sem despertar a atenção vigilante do vizinhos? Por que é que, ao contrário, se a gente sofre e tosse com o fumo de um cigarro alheio isso não é percebido nem pelo vizinho fumante? Por que é que, quando lemos, há sempre um passageiro a querer por força descobrir o que vamos lendo? Por que é que os homens, quando pedem licença para passar, são mais atenciosos à entrada do que à saída? Por que é que o lavador de pratos ou o vendedor de bananas trata os condutores como se estes fossem os trintanários de seus coches? Por que é que o passageiro acha graça nas grosserias ou desaforos do condutor, desde que não são com ele? Por que é que, encontrando um amigo distraído e pagando-lhe a passagem, ele imediatamente nos pergunta como vai a família? Por que é que só assobiam no bonde indivíduos inteiramente desprovidos de memória musical? Por que é que, se chove, há sempre, ao nosso lado ou à nossa frente, um passageiro que não tolera cortinas arriadas? Por que é que tantas senhoras gordas, não permitindo que se lhes toque de leve com o dedo, não fazem contudo nenhuma cerimônia para se amesendar em cima de nossa perna? Por que é que há tanta comoção no bonde, se este pega uma galinha, e não há nenhuma por causa do homem enfermo, aleijado e decrépito que vai no carro? Por que é que os moços bonitos e os célebres ficam sentados de viés? Por que é que temos tanta paciência para perder duas horas numa pane difícil de automóvel, e nenhuma para sofrer dois minutos de parada do bonde num desvio? Por que é que as senhoras, ao pagar a passagem, custam tanto a encontrar o dinheiro na bolsa? Por que é que o bonde estimula em certos indivíduos a vontade de comer amendoim torrado e tremoços? Por que é que as pessoas mais desocupadas e mais pachorrentas se tomam de pressa e de nervos quando o bonde vai chegando ao ponto final? Por que é que nos dói mais termos perdido o nosso bonde do que o ter um amigo perdido o trem - ou mesmo uma perna? ESCOTEIRO Ainda revejo nitidamente aquele escoteirinho que entrou hoje no bonde pela mão do venerando papai. Um feixinho de ossos, olhos brancos, lábio pendente, postura curva e bamba de aluno de catecismo. Retrato ideal do menino dócil e bem comportado.

Se o inflexível progenitor lhe falava, respondia com respeitoso sorriso, sorriso frágil e distante, virando para a cara fiscalizadora uns olhos de animalzinho perfeitamente domesticado.

O pai, sem dúvida, muito satisfeito com esse rebento esperançoso, tão automático na obediência e na penúria de vida. O pequeno chamava-lhe papai. Coitadinho! Devia chamar-lhe progenitor.

Progenitor é o nome que na verdade calha a esta espécie de autores de vidas alheias.

Impiedosamente solícitos, eles parasitam as suas misérrimas criaturas. Polvos agarrantes, colantes e triturantes, abusam do direito de ser senhores de almas. Estão cheios da crença surda de que o melhor que podem fazer a seus filhos é formá-los à sua semelhança.

Parecem orgulhosos de ter mudado o empirismo da paternidade numa especialização técnica.

Têm o ar de pais de família diplomados.

Já não lhes bastam as luzes da Pedagogia, da moral, da Religião, da Medicina, da Gramática e do don't. Renovas achegas até na Sociologia. A Psicologia vai-se-lhes impondo como um evangelho (tanto mais cômodo quanto se pode abrir em qualquer lugar e ler de corrida ou salteado). Creio que a heráldica e o cálculo integral também têm que ver com a matéria.

Progenitores! progenitores! homens respeitáveis, sapientes e pendentes, sagazes e tenazes.

Tenazes sobretudo. Tenazes de ferro! Só lhes falta um pouco de bom senso e um pouco do senso de humanidade. E apenas perdem o direito a esse nome simples, vivo, saboroso e místico de pai.

Pai! palavra elementar e profunda irmã de ar, água, pão, sol, dor, alegria, esperança, coisas fundamentais e essenciais, belas e terríveis como tudo quanto nos supera, tudo quanto nos vivifica, nos vê passar, e continua. Palavra de ressonâncias externas, com barulhos de lágrimas e anseios de amor, de melancolia e de piedade.

Mas também isso tende a desaparecer sob a capa de chumbo do cientificismo, do tecnicismo e do pedantismo esmiuçador e complicador, pragas que vão devorando todas as boas coisas deste mundo triste, como aquelas vacas que devoravam vacas, no sonho do faraó.

Os persas, de há dois mil anos, segundo o testemunho de Heródoto, não queriam que seus filhos aprendessem nada mais que três coisas: montar a cavalo, manejar o arco e dizer a verdade. Era um programa completo de educação individual e geral, utilitária e idealista, física e psíquica, individual e social.

Montar a cavalo - eis a primeira necessidade. Todos temos de ser cavaleiros, de guiar uma besta e de nos servir dela. Manejar o arco - arma franca, simples e forte, ato de habilidade, de sangue frio, de coragem viril e leal, abertamente praticado à luz do sol, em cima do cavalo. Dizer a verdade - condensação última e por feita de todos os deveres, dos mais sérios, mais ásperos, mais agoniantes e esporeantes deveres da vida comum. da atividade intelectual que quer pairar no alto e ser fecunda, da sublimação moral que pretende chegar à retidão, à simplicidade e ao fulgor definitivo.

Mas estas sínteses divinatórias se vão tornando impossíveis. Tudo é sabença, é técnica, é pedantologia, é complicação.

Diante daquele pai e daquele filho, fiquei a pensar na sorte das belas idéias e no irônico destino dos inventores.

O escotismo nasceu do exemplo dado pelos boys sul-africanos na guerra contra os ingleses.

Ágeis e robustos, trepando às árvores como serelepes, arrastando-se por chãos e pedregais como lagartixas, varando lagoas como filhotes de hipopótamos, espertos e pândegos como gorilazinhos, prudentes como tartarugas, teimosos como porcos do mato, eram ótimos exploradores e espias de campanha.

Num contato combinado com a áspera natureza e a necessidade multiforme e imperiosa, ganhavam uma força de paciência, de coragem e de desprendimento, uma flexibilidade e rapidez de senso prático, uma destreza de espírito, que, em suma, constituíam uma bela moralidade agreste e saudável, natural como a respiração ou como as funções digestivas.

Desconheciam as intemperanças da paz e da praça, o beberete, o estupefaciente, a literatura desalmada, a gula, o dinheiro, o luxo, o mercantilismo, a cabotinagem, a intriga, a maledicência, o espirito, o eretismo sentimental e sexual. Sóbrios, tácitos, incisivos. Da civilização, só assimilavam a fina flor; da barbárie, a masculinidade sadia, generosa e jovial.

Um general britânico viu isso, franziu impressionado o sobrolho, curvou a cabeça, parafusou.

Por que não transplantar essa espontânea florescência da casualidade viva para os domínios da educação social? Voltando à Inglaterra, criou o escotismo. Era o remédio indicado para sanear várias fontes de podridão, que iam minando a fibra do old Tom.

O mundo todo pegou a fórmula e aplicou-a. Mas, geralmente, a fórmula só. O eterno prestigio das receitas não podia falhar: a receita pareceu esplêndida. Bela receita! E a receita voou para todos os cantos do mundo, como a última descoberta para limpar chapéus de palha, para curar defluxos ou para compor obras de arte geniais e vendáveis.

O resultado ei-lo aí: uma quantidade de coelhinhos guardanacionalizados; uma escola de virilidade, de independência, de selfcontrol e de ânimo benfazejo, mudada numa triste e gélida pedagogia, regular, burocrática, higiênica, ginástica, homenageativa, sob programazinhos variados que são sempre a mesma coisa. E tudo comandado a toques de apito, entremeado de discursos e - supremo horror! - tudo meticulosamente, implacavelmente mecanizado pela sapiência mensuradora dos técnicos.

Ah! os terríveis técnicos, os tenebrosos técnicos, iscados até à medula por esse flagelo do século, o tecnicismo anti-séptico, esterilizador de toda bactéria de entusiasmos e instintividades turbulentas e regenerativas! Essa, a marcha inevitável de todas as altas idéias quando descem ao campo da realização, que é o da degradação. Esse, o irônico destino que aguarda os sonhos de todos os inventores, concepções luminosas cujo arcabouço lógico se transmite e se propaga, mas cuja alma lírica e divinatória permanece no altiplano das possibilidades incompreendidas.

Esta alma é incomunicável, como a alma do Vesúvio é estranha aos hábeis artistas que cá por baixo, colhem a lava resfriada para talhar nela as suas eternas, invariáveis figurinhas.

UM HOMEM PERFEITO Tenho-me encontrado muito com o Sr. Cesário, ultimamente. O Sr. Cesário, às doses espaçadas e discretas, faz bem. É desingurgitante, refrescativo, uma coisa assim entre o sal de frutas e sorvete de copinho. Mas, todos os dias, em todas as viagens, é demais.

Aquilo que, de quando em quando, e por momentos, nos encanta como um livro novo, folheado a furto, com a continuação se converte num símile dessas revistas atrasadas e revistas que se nos oferecem na sala de espera do dentista ou na loja do barbeiro.

Mas tudo tem o seu lado aproveitável. O lado aproveitável do Sr. Cesário é que ele me dá lições de estilo, do estilo estabilizado e conspícuo que convém às relações públicas entre funcionários e pessoas colocadas. Ele não é, mas devia ser diretor de uma repartição.

Fala como um bom minutador de ofícios. Tem a serena compenetração de autoridade, o senso das hierarquias, o tato diplomático, o respeito das fórmulas e a impersonalidade de julgamentos que se requer num chefe acabado. Por esse aspecto burocrático, o seu contato é útil. Boa pedra de amolar. O mau é que às vezes amola demais.

Que rico fundo de idéias honestas ele possui! Em poucos dias, assim como quem não se aplica, durante quinze ou vinte minutos de bonde, fiz uma boa coleta de opiniões do meu distinto amigo.

O que não lhe faltam são opiniões. O Sr. Cesário é um homem eminentemente opinativo sem contudo ser opiniático. Já houve mesmo um indivíduo maldoso, de cujo nome nem me quero lembrar, que uma vez mo definiu com escarninho intento, nestes termos: "um filho dileto da Opinião Pública." O Sr. Cesário sentencia, por exemplo que "tudo nesta vida é questão de ponto de vista." Afirma, acentuando o tom de convicção, a corrigir a aparente leveza da frase paradoxal, que "o senso comum é o que há de menos comum entre os homens". Também costuma declarar, com um gesto fisionômico de aguda intuição, que "tudo é relativo".

Acerca de moral, só lhe ouvi por enquanto um conceito genérico nitidamente formulado: "Inteligência sem caráter é droga".

Sobre o Além, a vida e a morte, a crença, e assuntos correlatos, costuma ser mais explícito, provavelmente porque a sua situação de amigo do vigário da paróquia e de irmão do Santíssimo lhe tem permitido certa familiaridade com o mistério.

Concede que o Outro Mundo seja coisa duvidosa, mas acha que, em todo caso não convém brincar. A esperança e o temor que se ligam ao Além são necessários e são insubstituíveis.

O que lhe repugna é o inferno. Nesse, acredita "porque é seu dever de católico nato e praticante acatar as injunções da Igreja". Mas, afinal, o verdadeiro inferno parece que "e aqui mesmo" - "se bem que não se devam aceitar certos exageros de pessimismo".

Ontem, o Sr. Cesário saiu-se com esta frase: "Deixe falar, a religião é um freio, como dizia padre Miguel, meu padrinho." As suas opiniões sociais e políticas são do mesmo feitio enxuto e corrente: Todas as formas de governo são boas, desde que haja honestidade.

O nosso povo não estava preparado para a República.

Governar é uma questão de bom senso e de recursos.

É um grande mal a oposição sistemática.

Cada povo tem o governo que merece; mas nem sempre.

A política de hoje é eminentemente econômica.

A maior das nossas necessidades é a educação, - em termos.

O brasileiro é muito inteligente, mas indisciplinado e vadio.

Não há questão social no Brasil, pais novo, aberto a todas as iniciativas.

Somos um povo em formação.

A boa administração depende da estreita harmonia dos poderes.

A mulher deve permanecer no seu posto de rainha do lar.

A esmola deprime e nada adianta.

O empregomania e o bacharelismo são dois males nacionais.

A retórica é outro vício brasileiro.

A dissolução dos costumes caminha a passos de gigante.

O Brasil é uma terra de poetas.

A maior das nossas desgraças é a crise de caráter.

"A lavoura é a coluna mestra do nosso sistema arterial".

Ontem, acertou de falarmos a respeito de literatura, a propósito de um romance de Macedo, que Cesário me pedira emprestado. Declarou que não era para ele, mas para a senhora. Não gosta senão de romances históricos e instrutivos, como os de Júlio Verne e Vítor Hugo.

Passou a expender idéias sobre outros ramos. Não perde tempo com poesias, mesmo porque não as entende. Os dramas e tragédias já não são para os nossos dias; ninguém mais se resolve a ir ao teatro para ficar triste; e para tristezas bastam as da vida. O teatro deve ser humorístico e moral.

Os Lusíadas, a seu ver, foram feitos especialmente para exercícios de análise. A obra pode ser muito boa, mas para quem gosta. De resto, o Sr. Cesário está convencido de que todos os clássicos, que aliás nunca leu, são cacetes e intragáveis. Parece mesmo pensar que eles escreveram expressamente para deixar modelos de boa linguagem gramatical. E, um destes dias, exclamou com recacho de homem-do-seu-tempo: "Quais clássicos, quais nada! A língua também evolui, entendeu?" Acha que a língua italiana é a mais suave, quando bem pronunciada; mas que a mais útil, na atualidade, é a inglesa. Quanto à nossa, acredita que seja a mais difícil de todas, a mais "cheia de dúvidas e encrenquinhas". Pois se o próprio Rui Barbosa, a "Águia de Haia", levou a vida inteira estudando português.

O que aí fica é resultado de uma colheita muito irregular, mas já basta a caracterizar as qualidades fundamentais deste sólido e harmonioso espírito.

Quanto às expressões, o Sr. Cesário tem todas, todas quantas se acham consagradas pelo gosto das classes respeitáveis.

Se fosse capaz dos trabalhos seguidos, regulares e minuciosos da Filologia, eu poderia tomar o meu amigo como um compêndio vivo das filtrações eruditas e literárias de segunda mão na mentalidade média da burguesia nacional, e explorá-lo metodicamente. Daria para um belo estudo de Psicologia Idiomática, cheio de conseqüências para o literato, para o glotologista, para o educador, e até para o alienista, - um belo estudo que, sem dúvida, não seria lido senão pelos indivíduos que a Providência destacasse para lhe meterem a lenha.

As expressões frias do Sr. Cesário são algo de suculento e de opíparo. Algumas, as menos repolhudas, as meãs, ele as profere com plena serenidade. Mas como aprecia igualmente as mais pomposas, sempre arranja lá um jeitinho de as empregar, soltando-as com um certo ar brincalhão ou irônico, que lhe dá por vezes o aspecto original de um homem que acha graça nas crepitações do próprio pensamento.

Já lhe apanhei, não há muito, sem lhe mexer nas molas, referências às "trevas da ignorância", ao "santuário do lar", ao "punhal da calúnia", à "máscara do anonimato" e ao "dédalo das paixões". Foi um dia em que estava impressionado com a onda de crimes, suicídios e poucavergonhas que por aí vai "num crescendo assustador". Falava com tal abundância e tal veemência, que cheguei quase a desconfiar que me tivesse na conta de um dos responsáveis.

De uns dias para cá, tenho subitamente guiado o fio e dado o tom à conversação, e o Sr.

Cesário se desata em chuveiros de preciosidades.

A propósito de política, lançou zargunchadas certeiras aos "eternos descontentes", que "vivem a semear a cizânia" com seus "cantos de sereia". Mas também, por um estríqueto "dever de imparcialidade", não podia deixar de "verberar o impatriotismo de certos homens colocados no galarim, que transformam em vacas de leite os postos de sacrifício a eles confiados pelo povo, a eterna besta de carga".

Terminou resumindo-se numa sentida peroração: "Enfim, meu caro amigo! é a tal crise de caráter.

"Mas que quer? Nem a majestade da religião escapa a esse referver de paixões subalternas! Até no seio das irmandades se intromete a politicagem rasteira! Até lá, indivíduos sem entranhas vão pondo a garra, com. pés de lã, e... Homem! paremos por aqui.

"O tempora!" De onde pude inferir que o Sr. Cesário andava às voltas com algum desaguisado na paróquia.

A um espírito assim ricamente organizado não podia faltar um certo aparelho de erudição leve.

Consegui os seguintes indícios, apanhados foneticamente, como convém a coisas pescadas nas águas vivas da elocução oral: "Laborônia vince - Cosivá ilmondo - Senon évéro... - Lemondemarche - Arraite! - Tâimismónei - Savá sandire - Via crúcis - Tante grácie, cabalhero! - Por mares nunca dantes navegados - Festim de Baltazar - Ciumento como um Otelo - As trevas da Idade Média - Crueldade neroniana - Justiça imanente - Psicologia das multidões Os meio intelectuais - O poverélo de Assis - As lições da sociologia - A ciência de Ádan-Esmite - O último romântico - Os tonéis da Danaide - Vá derrétro!" Enfim, grande caçador de frases perante o Eterno! O BONDE E A RUA O bonde da tarde, hoje, foi demorado por uma qualquer manifestação popular, que lhe barrou a passagem. Os viajantes, depois de satisfeita a primeira curiosidade, obra de segundos, começavam a dar sinais de irritação, quando um orador entrou a trovejar. Essa obstrução pareceu a todos insuportável, e todavia não durou mais de cinco ou seis minutos.

Sempre é verdade que a medida real do tempo é o nosso desejo.

Isto me faz lembrar o meu colega Sinfrônio de Mendonça, que, outro dia, lá na repartição, ao inaugurar-se o retrato do chefe, quis à viva força ler um discurso. E leu, prevenindo os ouvintes: "É curtinho senhores, tenham paciência".

Esta esfarrapada desculpa com que se costumam cobrir os oradores intempestivos baseia-se toda num passe finório com as noções de tempo - a do tempo mecânico e objetivo e a do tempo psicológico ou subjetivo. Quando dizem que a peça é curta, é porque lhe aplicam a medidarelógio, como se fosse esta a que importasse aos ouvintes como se não fosse, por exemplo, uma verdade universal que o pequenino sermão de ouro que nos aborrece é dez ou mil vezes mais comprido do que a interminável lenga-lenga que nos lisonjeia.

O nosso relógio interior tem também dois mostradores, um grande e outro pequeno, mas o grande é que dá medida prática dos minutos desagradáveis, que aí correspondem às horas, e o pequeno marca a duração das horas amenas, que nele são minúsculas frações - quando o ponteiro não está engasgado.

O tempo real é conforme ao ícone que dele deixaram os gregos - um velho decrépito que naturalmente se arrasta quando caminha por seus pés, mas que também voa como um pássaro, porque tem asas, e quando bate as asas rejuvenesce.

RUFINA O homem é um ser tão mesquinho, que onde quer que ele se ajunte logo lhe sobrevem, pelo número, uma alma coletiva, embora muito rudimentar.

A multidão que se ensardinhava em redor do orador tinha visivelmente a sua; toda ela se agitava num só ritmo, gritava com uma só voz e se enchia de braços erguidos como um só bicho a eriçar-se numa só contração momentânea. O bonde também a possuía mas indiferente, comodista e escarninha.

Uma contava o seu tempo pelo mostrador pequeno, a outra media o dela pelo quadrante maior.

Eram duas entidades inconciliáveis, vivendo em duas esferas distintas e irredutíveis da duração.

As duas almas se olhavam sem se compreender: nem a da rua se aplacava, nem se inflamava a do bonde. Dois mundos com trajetórias opostas, um em ebulição, outro frio.

Um começo de automática hostilidade pairava entre um e outro. Viesse um pequeno impulso, e os dois sistemas talvez se engalfinhassem com cega violência, como dois içás colocados rosto a rosto mecanicamente assumem o papel de inimigos de morte, e se agarram e se estraçalham com um santo e inconsciente heroísmo.

Não me esquecerei tão cedo de um casal de namorados que vinha hoje no bonde.

Gente do povo, gente humilde, dessa que não transpôs ainda o limite em que o indivíduo ignorante e simples começa a ver e a querer copiar atitudes, maneiras e atos de uma camada superior. Era, portanto, de uma espontaneidade inocente e quase animal a ternura com que os dois se enlaçavam, tecendo cada um, em redor de ambos, uma teia isolante de carícias, - mãos dadas, olhos compridos, falas em tom velado e plácido, e um permanente sorriso da mais pura e imbecil felicidade.

Ele, um latagão carpintejado à larga; ela, uma bezerrinha forte e carnuda, com uma pele esticada e quente e uns cabelos ásperos e crespos de lavadeira tostada ao sol. Simpáticos.

Talvez belos, não tanto dessa "beleza do diabo" (dizem os italianos), mero efeito da mocidade e da saúde, como dessa espécie de beleza promissiva, que não entra pelos olhos, que se entrevê, que é como um esboço deixado de mão quando se encaminhava para a forma perfeita.

O meu prazer foi imaginar que o latagão era eu, que a moça era Rufina. Estávamos entregues um ao outro.

Tinha-me apropriado dela com a naturalidade com que me apropriaria do meu duplo, se ele surgisse a meu lado. Fechara-a no âmbito da minha personalidade e um desdobramento, um acréscimo, uma projeção do meu ser.

Que me importava o seu passado? A mulher que se ama não tem passado. Nasceu na véspera.

É a objetivação de um acontecimento interior. Não é um ser: é um fato. É um episódio novo de uma história que vem de longe. A história, com o seu ritmo, a sua lei, a sua necessidade, a sua marcha, o seu destino, engloba, arrasta, dissolve e tinge de sua cor tudo quanto colhe através do seu derrame fluvial.

A mulher que se ama começou com o nosso amor; como disse o catalão Maragall da poesia.

... tot just ha començat i es plena de virtuts inconegudes.

De repente, o casal desceu. O rapagão foi o primeiro à saltar, e, instintivamente, voltou-se com galante dónaire e estendeu a mão à juvenoa.

Esta pulou rápida e leve, como se tivesse recuperado instantaneamente uma aptidão perdida.

Nesse momento, aquele tosco rapaz, cabouqueiro ou lavrador, nos seus sapatões entorroados, sob o seu chapéu sujo, e aquela moça que mal e superficialmente se alindara, como uma batata apenas cozinhada e descascada, me deram a impressão de duas criaturas saturadas por séculos de galantaria e de cultura.

Eram duas sementes, e já me pareceram duas flores. Eram dois bichos do chão e pareceramme dois pássaros esguios.

O amor gera e regenera desde que surde. A função generatriz não é um acidente da sua história, nem é a causa da sua aparição: amar e gerar é tudo um, e produz partos mais temporãos e mais estranhos do que os do ventre. Tudo começa ou recomeça, e todas as fecundidades se concentram na carne e na alma dos amantes, e o próprio mundo aparece de repente refeito, banhado das claridades e tocado da magnificência de um gênesis.

Rufina...

Ora, ora, Rufina, uma simples passageira de bonde com quem eu, passageiro de bonde, me encontrei duas vezes por acaso! O SONETO Deus de misericórdia, como eu tenho pena dos poetas, meus irmãos! Apesar de ser eu o pobre da irmandade.

Pelo trabalho que me tem custado o soneto que empreendi há três meses, calculo as torturas em que voluntariamente se enredam os que ainda fabricam esses objetos de arte.

Dizem, que há indivíduos que sonetizam com facilidade, sem prejuízo da perfeição. Não descreio disso. Mas essa espontaneidade para fazer um soneto só se adquire depois de muito e duro labor de aprendizagem e prática do soneto. Também os ginastas fazem com a máxima facilidade e economia de esforço os mais complicados e arriscados giros no trapézio, na barra e nas argolas, - e isso está muito longe de provar que tais habilidades lhe sejam naturais como a nós outros o uso do guarda-chuva ou o trepar no estribo dos bondes.

Quanto a mim, vou desistir de concorrer aos futuros florilégios. Mas, em vez de fazer como o outro, que despreza essa forma de poesia, alegando que é velha de seiscentos anos, que o mundo está cheio de sonetos, e que os sonetistas são muito mais numerosos do que os poetas, continuo a achar que a fabricação deste gênero de peças é um útil e nobre exercício de engenho, além de ser o mais justificável dos quebra-cabeças.

Quanto a serem milhões os que se produzem, hoje em dia, em todo o mundo, e contarem-se pelos dedos os capazes de sobreviver, não vejo nisso razão para se condenar o soneto. É igualmente certo que o mundo produz cada dia milhões de rosas, e que essas rosas ainda vivem apenas, como no tempo de Malherbe, - d'un matia - isto é, três ou quatro dias; contudo, daí não se segue que a rosa se tenha tornado indigna do nosso apreço. Ao contrário, a brevidade fatal da sua melindrosa vida é um dos elementos do sutil encanto que elas desprendem, como um outro perfume.

Cosa bella e mortal...

Creio que não há nada mais difícil, ou pouco haverá, do que armar, travar e concluir um soneto de modo que ele fique cheio e redondo como uma bola maciça. Digo bola, porque o soneto, graficamente quadrilateral, é mentalmente esférico. Não tem na sua transcendente realidade, princípio nem fim: o termo aparente é que, a certa luz, se pode considerar começo, porque ninguém se inicia na compreensão justa da peça antes de ter chegado ao "final", antes de haver este lançado a projeção anímica do seu conteúdo até às primeiras palavras do primeiro verso.

Assim, todas as partes idealmente se alongam num único sentido, e repassam sobre si mesmas, girando em redor de um eixo gerador, buscando mecanicamente a esfericidade a que tendem as massas em revolução.

Será isso poesia pura? Parece que não é. Mas, dado que se saiba o que venha a ser poesia pura, é evidente que essa essência, como certas substâncias delicadas e voláteis, precisa sempre de uma liga mais ou menos grosseira para subsistir.

De resto, a mim pouco me importa o nome da coisa, ou os quadros em que ela entre ou deixe de entrar. Quando, aí pelos caminhos, eu topo com uma bela teia de aranha, estendida ao sol da manhã como uma roupa de fada, para que se lhe seque o relento da noite, a mim pouco se me dá de saber se aquilo está bem construído, se não está, se o material é puro ou impuro (a natureza sabe o que seja puro ou não o seja), e se a aranha devia ou não devia fazer outra coisa.

Aceito-lhe a teia como está; e se ela palpita e cintila ao sol, toda tecida de filetes impalpáveis colhidos ao luar, às fosforescências noturnas, às azulejantes fluências matinais do córrego, à casca metálica dos besouros e se ela parece bulir no mato como um enxame de estrelinhas tontas, - paro, olho, sorrio, vou andando, e ainda volto a vista para trás. Aquilo é bonito, e acabou-se.

No soneto, como os fizeram Petrarca ou Santa Teresa, Du Bellay ou Shakespeare, a liga em que se aprisiona a essência de poesia é sutil e engenhosamente intelectual. Todos os bons sonetos são obras-primas de engenho discursivo, tocadas de um raio de poesia. Puzzle, envernizado de sonho. Gaiolas dialéticas nas quais, pelo menos, parecem revolutear penugens do pássaro que fugiu, - o tal pássaro fantástico da poesia verdadeira.

Engenho, eis o que me tem faltado para levar a cabo a minha obra-prima. Também tem faltado oportunidade. Feitas as quadras no bonde, entendeu o meu subconsciente que no bonde eu havia de fabricar os tercetos.

Fora daí, no meu gabinete, na repartição, no teatro, não me acode nem fiapo de idéia; mas no bonde nem sempre consigo a calma nem os vagares indispensáveis a esta classe de serviço.

Como este mundo anda desconsertado! Mas ainda bem. Se os homens tivessem tempo para meditar, decerto deixariam de fazer muitas asneiras - das pequenas; mas como as premeditariam grandes e terríveis! Hoje, depois de várias tentativas, entrei no bonde decidido a conquistar o meu sossego.

Dei logo de cara com o Sr. João Cesário, esse risonho pirata que infesta a nossa linha e assalta pobres passageiros para lhes arrancar o único money que eles têm, o tempo. Mas o Sr. Cesário não me viu, porque estava despojando a um outro. Fui para o banco mais plebeiamente preenchido, entre uma preta de xale e um cabo de polícia.

Cerrei os olhos, evoquei a imagem flutuante e delgada de Gabriela, recordei as quadras, fui avançando o pé pelo escuro da inspiração informe.

Gabriela, como ficou assentado, era uma jovem que tinha perdido todas as ilusões, coitada! Por necessidade de rima e falta de espaço, não foi possível precisar de que ilusões se tratava, sendo certo que em tudo, na vida, a ilusão desempenha um papel muito sério e ninguém pode jamais gabar-se de as haver perdido por completo. Já se disse mesmo que o homem vive de ilusões. Mas essa imprecisão de idéias é muito própria da poesia; e tem a vantagem de dar largueza bastante para as imaginações se moverem ao sabor de cada temperamento.

Gabriela perdera as suas ilusões de moça ardente e sequiosa, porque se atirara aos chamarizes e às insídias do mundo com excessiva sofreguidão e nenhuma cautela. Isto ficou registado na segunda quadra.

Agora, os tercetos é que eram elas! Conviria acentuar que, tendo perdido as suas ilusões, a menina estava como quem tivesse perdido a túnica através de matos e pedernais, ou em luta com bichos assanhados. Esta idéia é velha, mas pondo-se-lhe um revestimento novo, ainda serve. As comparações poéticas essenciais, referentes às verdadeiras situações em que se pode encontrar uma alma nesta vida, são bem pouco numerosas, no fundo; e os poetas, por mais que façam, hão de sempre voltearlhes em redor.

Hoje, aí vais....................

........... inteiramente nua ........................................

Repeti essas palavras vinte vezes, preenchendo os espaços vagos da pauta com sílabas soltas sem significação nem consistência, só para acentuar o ritmo e provocar a idéia. Uma espécie de massagem sobre um tumor maduro.

Mas na verdade o tumor ainda estava um tanto verde. O que sobretudo me impedia de chegar a um resultado, era o final.

O soneto, hoje estou disso convencido, tem uma causa final - o fecho deve ser achado antes do mais. É o verdadeiro princípio. Então, tudo para lá se encaminha, como no ovo se forma com segurança e tranqüilidade o pinto prefigurado.

Enquanto eu ia fazendo estas reflexões, o bonde se aproximava mais depressa do termo, e tive de adiar mais uma vez a conclusão da minha tarefa poética.

Mas hei de concluí-la. Tenho diante de mim todo o resto da minha vida. Tudo me indica que ainda poderei vir a ser o Arvers de um soneto, não direi tão acabado, mas pelo menos tão difícil de acabar.

Sainte-Beuve disse que il existe chez les trois quarts des hommes un poète mort jeune à qui l'homme survit. Mas isso não é um achado: a poesia sempre foi tida como particular companheira da juventude, nos homens e nos povos. O mais curioso é que muitos trazem consigo poetas que nunca chegaram a nascer e que são como revenants do futuro.

UM HOMEM PERFEITO O Sr. João Cesário da Costa apareceu-me hoje muito loquaz e prazenteiro. Sentou-se a meu lado, palpou as minhas disposições auditivas, notou que eram boas, e deixou escapar a loqüela, primeiro às gotas espaçadas, depois às gotas que já quase se ligavam num fio, por fim jorro franco.

Principiou por falar do tempo, que estava "lindíssimo e convidativo." Daí deslizou para considerações acerca do nosso clima e do europeu, das nossas estações e das européias.

Descambou então para o elogio da nossa "terna primavera" e da nossa "natureza exuberante".

Isto o levou ao fatídico paralelo entre a natureza e o indígena; e Cesário revelou gravemente que, segundo a opinião de Humboldt, no Brasil tudo é grande, menos o homem.

Mostrei-me consternado por isso, e Cesário caiu no domínio da educação, cujo principal objetivo, no Brasil, devia consistir em debelar a empregomania, o bacharelismo e a macaqueação do estrangeiro. Quando chegamos ao ponto, o meu amigo, depois de ter passado pela política, ia bordando comentários em roda do vestido feminino e deplorando a subversão da família.

Enquanto ele orava, eu vinha-lhe mentalmente acompanhando a curva das associações de idéias e avaliando as vastas etapas que fazia através da matéria pensável, metido nas botas de sete léguas da imaginação discursivas.

É assim, justamente, que os homens práticos pensam, desde que saem do crédulo habitual das preocupações profissionais. Tomam as suas associações espontâneas e os seus estados vulgares de sentimento como legítimas formas de cogitação. E têm um grande desdém pelos poetas - sendo que poetas são todos quantos não se contentam com essa moagem perpétua de idéias feitas e de idéias que nunca se acabam de fazer.

Na verdade, isto é eminentemente prático. Nada mais é preciso para viver, e viver bem, e prosperar, e fazer jus a um mausoléu de cinco metros de altura, com cúpula guardada por um anjo de magoado semblante e grandes asas, talhado em mármore branco pelo melhor marmorista da cidade.

João Cesário tem um mérito, além de muitos outros: não é uma edição, nem mesmo uma edição barata de Acácio, versão portuguesa e pacata de Mr. Prudhomme e variedade conservadora do farmacêutico Homais.

Acácio, Prudhomme e Homais eram homens de princípios ou de ideais, ao passo que Cesário não tem convicções arreigadas: é um bom homem, arranjado, comodista, amigo da boa roupa, da boa mesa e da boa prosa, com ambições modestas e com um grande tato instintivo do que lhe pode ser útil e agradável. Incapaz das parlapatices de Prudhomme, da compenetração respeitosa de si próprio que distinguia Acácio, e de aziumados sectarismos à maneira de Homais.

Apenas se encontra com eles no terreno do lugar-comum. Mas o lugar-comum não é privativo destes ou daqueles, é a terra de ninguém onde todo o mundo, uns mais amiúde, outros mais de longe em longe e mais a medo, faz as suas incursões e as suas colheitas.

De resto será o lugar-comum coisa tão desprezível? Não, o lugar-comum é necessário. Faz parte das forças da natureza. É da natureza do espírito humano a necessidade de cunhar uma espécie de moeda divisionária das idéias, que possa andar pelas próprias mãos dos que não tenham capitais e que presta enorme serviço a toda a gente.

Se se quer encarar o caso na sua verdadeira latitude, o ponto de vista escolar, estilístico, literário, é de uma insuficiência absoluta, e por sua estreiteza e vetustez bem merece figurar também na categoria dos lugares- comuns elegantes.

O abuso desse ponto de vista crítico e aristocrático vai espalhando nos espíritos inclinados às letras e às idéias um terror excessivo e doentio do ominoso pecado. E com isso chega a criar freqüentemente uma espécie de Acácios às avessas, que repelem boas idéias por serem velhas, sem sempre forjar novas que sejam boas, e esquecem-se da corrente e desempenada linguagem da conversação, e embrulham em formas rebuscadas os mais fugitivos e ambíguos fiapos de pensamento, como quem fizesse gaiolinhas de metal dourado para guardar pernilongos.

A grande e imponente maioria dos humanos não dá nenhum apreço às idéias por si mesmas.

Estas, quando caem na circulação geral, perdem toda a sua virtude abstrata, empastam-se na grossa praticidade e na violenta concreteza dos valores vitais imediatos. Descem do plano lógico para o biológico. Rousseau disse que pensar é um ato contra a natureza, e os atos contra a natureza ela os pune empeçando-os ou desviando-os, reassimilando-os e recolocando-os na órbita dos seus próprios fins.

As idéias, na marcha geral e normal da vida, têm um valor tão puramente instrumental, oportunístico e subalterno como as armas, os utensílios, os aparelhos e todas as coisas que prolongam os nossos meios naturais de ação. É preciso que um homem esteja pervertido pela literatura e análogas manias, para ter a fantasia de inventar idéias, pelo simples prazer de criar instrumentos originais. Se a faca e o martelo já foram inventados há milhares de anos, e prestam ótimo serviço, para que é que o Sr. Cesário havia de imaginar um traste novo e aperfeiçoado, só para cortar uns cipós ou para bater uns pregos de quando em quando? Não seria econômico. Enorme desproporção entre o esforço e o resultado.

Com um pequeno arsenal de lugares-comuns, Cesário está dispensado de gastar inutilmente largas somas de tempo e de trabalho. Põe a sua provisão no bolso, cada dia, conforme as necessidades, e sai para os seus negócios, para os seus prazeres de sociedade, para as suas demandas, para a sua descansada pescaria de proveitos possíveis, nas horas vagas. Surte-se com a suave facilidade de quem completa, em casa a sua toilette habitual, pondo meia dúzia de charutos na carteira, um lenço de sobressalente no bolso da calça, um canivete no bolsinho do colete.

Dá-se bem com o sistema, e a sociedade ainda melhor. Ganha esta um homem afável, serviçal, maneiro, de fácil e macio contato, simples de utilizar.

Multipliquem-se estes homens exemplares por mil, e veja-se que incalculável benefício não seria, que harmônica estabilização de um tipo social indígena, que precioso reforço de cidadãos bem construídos, normalizados, estandardizados, sem mistérios e sem surpresas, sólidos, garantidos, de uso limitado mas seguro e preciso, - como a louça inglesa, como a cutelaria de Manchester, como o presunto holandês, como o óleo de fígado de bacalhau, como o fósforo Jonkonpings, como as camisas do Porto! Foi essa multiplicação de um tipo modesto mas viável e bom que fez aquela coesão e aquela estabilidade magnífica da sociedade britânica, - o seu núcleo resistente, a sua massa harmônica e firme, a deslocar-se através da história com o ímpeto regular de um imenso exército em marcha.

Suponham-se agora estes inumeráveis Cesários preocupados todos com fabricar idéias e esmaltá-las sob formas graciosas e cortantes. Que calamidade! Ganharíamos, talvez, algumas jóias do espírito, mas, em troca, que multidão de intelectuais neurastênicos, incertos, cáusticos, insociáveis, prisioneiros eternos de si mesmos, despidos de tolerância e de benignidade, sacrificando tudo por uma frase de espírito, inadaptáveis a todo esforço comum, inimigos de toda disciplina obscura e de todo devotamento discreto e silencioso, e enfim grandes criadores efetivos de mal-estar, de desinteligência e de estéreis, inacabáveis veleidades e agitações no seio da massa e no das moças! MÃE Pobre mulher, aquela boa e sincera mãe que vi ontem, tão mansa, tão entregue ao seu pequenino! Era bonita, mas como que o ignorava. Estava tão despreocupada no bonde como se estivesse em sua casa. 'Trazia o filhinho ao regaço, e brincava-lhe com uma das mãozinhas, fazendo-a saltar, arremessando-a e abaixando-a, aos pequenos tapas, como uma bola. O pequeno ria-se de quando em quando, e a cada risada o rosto da mãe tomava uma expressão forte, escultural de felicidade plena e remansosa.

A certo momento, pegou a criança pelo tronco, pô-la em pé sobre os joelhos, e começou a sacudi-la como a pregar-lhes sustos. Fazia-lhe, ora, uma cara de surpresa cômica, arregalando os olhos; ora, uma cara de cólera, carregando as sobrancelhas, afuzilando o olhar; ora, uma cara de choro desconsolado, em que todos os músculos se relaxavam e as pálpebras e os cantos da boca descaíam.

Jogral do seu pequerrucho, essa mãe se esquecia de si, se despojava de todas as preocupações habituais, concentrava toda a sua vida naquele ser único, pequenino e fragílimo.

Era um simples brinquedo em poder do seu bebê, - brinquedo todo cheinho de amor, como outros o são de serragem.

Mas, por que, deuses imortais e impossíveis! por que seria necessário que essa mãe, resumindo o mundo em seu filho, trabalhasse tão obstinadamente por gravar nele os gestos eternos da loucura humana? Gestos de fúria, de terror, de cupidez, de despeito, de ciúme, - toda a mímica do inferno mundano, - formas para ele ainda vazias, mas nas quais se irá pouco a pouco vertendo e solidificando a substância do seu pequeno Eu rarefeito e disperso? Ama-o como a um anjo, e luta por fazer dele apenas um destes vasos de miséria, de impureza e de sofrimento! Belo e medonho, o amor de mãe. Suavíssimo e terrível. A sombra dos seus gestos, branda como a dos ramos, prolonga-se até o horizonte da vida, onde a sombra enorme da Fatalidade passa arrastando pelos cabelos a sombra da Ilusão.

RUFINA E O SONETO Pobre Rufina! Tão juvenilmente graciosa e linda ainda há dois meses... Parecia arder em mocidade e beleza como uma pedra preciosa. Agora, dá-me a idéia de uma pérola moribunda.

É assim este mundo; um resfriado, uma pleurisia, três semanas de cama - e eis um corpo e uma alma completamente modificados, e uma vida clara e leve como um regato da montanha mudada num ribeirão turvo do vale triste! Viajei hoje com ela. Descorada e descarnada, metida num vestido escuro e pobre, era apenas uma sombra da outra Rufína. Disse-me coisas graves sobre a vida. Queixou-se das suas ilusões malucas, que a conduziram até há pouco através das almas e das coisas como através de uma festa, para, de repente, a abandonarem entre essas duas megeras - a Solidão e a Necessidade.

Chegou a falar-me de Deus, e, entre dois acessos de tosse, perguntou-me, com a simplicidade suprema de quem pedia uma informação: - "Será que ele me aceita?" Em que embaraço me pôs: Pedir a mim, pecador encoscorado, um raio de esperança e consolação - porque era evidentemente o que pedia, na simplicidade triste daquela pergunta! Valeria o mesmo querer refrescar os lábios em febre com o suco de uma pêra de campainha elétrica.

Tive ímpetos de endereçar ao vigário da nossa paróquia. Mas o santo homem estava já tão acostumado a lidar com almas em pena! Era possível que não lhe desse maior atenção, que a tratasse com desdenhosa bonomia, como fazem certos médicos, excepcionalmente, com os clientes pobres: "Isso não é nada. Está nervoso. - Dor no cogote, Há de ser mau jeito. - Febre, é? Uhn... - Qual! não tem importância. Apareça um dia lá no consultório".

Não, não a mandaria ao vigário, poderia vir de lá com as feridas banhadas em bálsamo suavíssimo, e poderia vir com elas envenenadas de despeito e de revolta.

Eu estava para lhe dizer que sim, que Deus a receberia nos seus braços com paterno carinho, porque nada pode ser mais agradável ao Senhor de toda a sabedoria e de toda a misericórdia do que uma alma despojada de mundanidades, nua, na plena e corajosa nudez da humildade, do desengano e do arrependimento.

Quando, porém, decidia estas dúvidas de consciência e preparava esta resposta, Rufina ergueu-se, fez soar a campainha, despediu-se e esgueirou-se. Fiquei a vê-la do bonde, que estacionara por um momento. Reprochava-me com raiva as minhas eternas indecisões de animal imprestável.

Ela foi para a calçada, e pôs-se a caminhar de um jeito meio automático, direita, impassível, num passo miúdo e rígido de boneca mecânica, a cabeça pensa para um lado - como quem caminha com indiferença, de alma vazia, para a última renúncia ou para a morte...

Pude saber depois que ia à costureira.

Somos todos horrendamente egoístas. Nunca tive como hoje a sensação do que valem todas essas florescências admiráveis da vida nobre, as belas idéias, os ideais formosos, os sentimentos altos e delicados.

Nem bem Rufina desaparecera de minhas vistas, aquilo de eu a ter comparado mentalmente a uma alma despojada de mundanidades, nua, inteiramente nua, voltou a borboletear-me no espírito como um remorso gostoso. E lembrei-me logo daquele meu soneto parado entre os andaimes; como uma dessas igrejas que levam anos a construir e ficam anos à espera de recursos.

Agora, concluiria a obra. Aferrei-me a ela pelo resto da viagem.

Rufina, de passagem por mim tocando-me de leve, pusera-me em movimento a engenhoca da poesia, como quem toca inadvertidamente num pé de "mimosa pudica", ou como quem sacode sem o querer um relógio engasgado, fazendo-o trabalhar.

É essa a finalidade dos outros, no sistema especial da nossa vida de cada um: pôr em movimento algum dos relógios engasgados que temos conosco.

O caso é que concluí o soneto. A bem dizer não o concluí no bonde: acabei de concluir na repartição, apesar de um parecer urgente que me atenazou o dia. Mas a inspiração é assim: quando vem, vem de fato, e não há urgências que se lhe oponham.

Agradeci ao destino o ter-me deparado Rufina, não só porque daí proveio a conclusão do soneto, como porque me permitiu banir dele a tal Gabriela. Eu já andava seriamente implicado com essa negrinha vagabunda, caçada na sarjeta do noticiário. Decididamente, não dava nada.

Logo o primeiro verso: Já não tens ilusão, oh Gabriela! era de uma inépcia absoluta. Que é que tinha o público que ver com esse nome próprio. E, além do mais, um decassílabo frouxo, - que é ainda pior do que uma frouxidão de bom senso. Pude substituí-lo com vantagem. E o resto - foi uma sopa: A UMA TUBERCULOSA Já nenhuma ilusão tua alma estrela; Nenhuma abrolha em teu caminho triste.

Tudo te é negro: e em tudo quanto existe, só o que existe de mau se te revela.

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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