A Anorexia Nervosa é um transtorno alimentar caracterizado por se limitar a ingestão de alimentos, devido à obsessão da magreza e um medo mórbido de ganhar peso. Não há uma perda do apetite e sim uma recusa em ganhar peso e se alimentar. A Anorexia interage diretamente com uma área de grande preocupação humana, que é o relacionamento entre nós e nosso corpo e entre nós e o que comemos.As pessoas, na grande maioria mulheres, com esse transtorno tem muito medo de ficarem gordas e este medo geralmente não se torna mais brando pela perda de peso. Na realidade, a preocupação com o ganho ponderal pode aumentar à medida que o peso real diminui.
Os indivíduos que estão anoréxicos apresentam uma imagem corporal distorcida. Muitas vezes acham que têm excesso de peso, embora estejam muito magros, ou, outras vezes, percebem-se magros, mas com certas partes de seu corpo, principalmente o abdômen, coxas e nádegas, “muito gordas”. Raramente um paciente que procura tratamento psicológico se queixa da perda de peso em si. Os pacientes com Anorexia Nervosa utilizam-se de várias técnicas para estimar seu peso. Assim pesam-se várias vezes ao dia, medem o corpo obsessivamente e o espelho passa a ser o “amigo-inimigo”. Para a anoréxica, a perda de peso é recebida como uma conquista fantástica e como um sinal de extrema disciplina. Já o aumento de peso vai significar fracasso e perda do autocontrole. Existem dois tipos de Anorexia Nervosa:
1- Tipo restritivo: o paciente consegue a perda de peso por meio de jejuns, dietas e exercícios excessivos.
2- Tipo Compulsão: pacientes que comem compulsivamente e fazem induções do vômito ou uso de laxantes, diuréticos e enemas.
A idade média para o aparecimento da Anorexia Nervosa é de 17 anos, com algumas variações entre 13 e 18 anos.O aparecimento da doença pode estar associado a algum acontecimento importante na vida do adolescente. A Anorexia Nervosa costuma começar com um emagrecimento acidental, devido a uma doença ou tristeza. Só se torna anorexia se o individuo passa a ficar viciado em perder peso e começar a usar isto para resolver outros problemas. A evolução da doença tem um curso variável.Alguns pacientes apresentam recuperação após episódio isolado, outros vivenciam um curso crônico por alguns anos.
A amenorréia em geral é conseqüência da perda de peso, como também a menarca, muitas vezes, é retardada em conseqüência da doença. Isso ocorre devido aos baixos níveis de estrógenos, que por sua vez, devem-se a uma redução da secreção de FSH (hormônio-folículo-estimulante) e LH (hormônio luteizante).Esses são os aspectos biológicos, que incluem alterações hormonais na fase da puberdade, bem como a dopamina, a serotonina, a noradrenalina e dos peptídeos opióides, ligados à regulação do comportamento alimentar, incluindo aspectos genéticos.O eletroencefalograma pode estar alterado em pessoas com Anorexia Nervosa, mostrando muitas vezes bradicardia sinusal ou outras formas de arritmia.O exame clínico desses pacientes, muitas vezes, apresenta queixas de intestino preso (constipação), dor abdominal, intolerância ao frio, pele seca...
Para compreendermos o movimento psicológico da anoréxica, se faz necessário compreender o profundo e complexo relacionamento das mulheres com o alimento. Desde os primórdios nos foi ensinado que o alimento é necessário para a vida, a saúde e a felicidade do lar. A comida é o meio pelo qual, nós mulheres, mostramos amor e cuidado com nossos filhos, maridos, amantes, amigos...Somos constantemente bombardeados com todos os tipos de programas e propagandas sobre os mais diversos tipos de alimentos, desde os naturais até os diet, sempre visando o bem estar familiar. Gastamos um tempo enorme entre planejar, comprar, fazer refeições, adequando-as a aspectos nutricionais como também observando os limites dentro do orçamento familiar. Tornamo-nos provedoras de alimentos, sempre com o intuito de agradar e demonstrar cuidado com os outros.
Cuidar da preparação do alimento está associado a um ato de amor. Logo, recusá-lo, pode estar associado há uma forte rejeição. As crianças aprendem isso logo cedo e de uma maneira muito rápida. Quando meninas aprendemos a comer para tranqüilizar nossas mães, nunca para nosso prazer e satisfação. Nossa auto estima e auto imagem se forma mais pela aprovação dos outros do que pela avaliação que fazemos de nós mesmas. A família aqui aparece representada pela figura do pai que é a autoridade e a mãe é quem cuida e alimenta. Logo, estaremos falando da função nutridora da família representada pela mãe.
Donald Winnicott fala dos relacionamentos nos primeiros estágios de vida entre mãe e bebê, no qual o bebê se percebe como uma extensão de sua mãe. É esperado que mãe e bebê, comecem a sair desse estado de fusão, no qual a mãe compreende intuitivamente as necessidades do bebê. O choro, os protestos, os gestos criativos, todos os pequenos sinais que o bebê faz para chamar a atenção de sua mãe, se perdem, se ela os satisfaz, alimentando-os antes. Perdem-se, pois ele precisa aprender a chamar atenção e dizer que está com fome. Essa experiência é fundamental para o desenvolvimento psíquico do bebê, no sentido de aquisição do poder, capacidade de agir e interagir no mundo, desenvolvendo a sua autonomia e compreensão. Para a criança só restam então duas alternativas: ficar num estado permanente de regressão e fusão com a mãe, ou encenar uma total rejeição, mesmo daquela suposta boa mãe.
Nesse processo a criança relaciona sua alimentação com o contato de sua mãe. O alimento é algo que a mãe decide por ela e não está ligada a sua necessidade de satisfação por comida. Todos os pais reconhecem o quanto é difícil viver com crianças que não se alimentam direito. As horas das refeições passam a ser momentos tensos, onde pais tentam convencer filhos a comer. Técnicas são desenvolvidas para que os filhos comam. As mães ficam desesperadas e se sentem rejeitadas quando os filhos não comem. A criança nesse processo aprende a controlar os pais. Ela se diverte com os recursos e batalhas inventadas na hora das refeições. O que pensar de uma adolescente que se recusa a comer?
Poderíamos hipotetizar que a mulher que está anoréxica desistiu de fingir que é independente. Todos os seus sentimentos infantis voltaram a aflorar. Na relação mãe e filha ela irá apresentar os sentimentos ambivalentes. Enquanto a alma grita por cuidados, ela se recusa a alimentar o corpo, ao mesmo tempo que seu desejo de ser autônoma, dona de sua vida, causa-lhe um conflito enorme.
A dificuldade da anoréxica em identificar sensações físicas, e, principalmente a fome, está diretamente ligada a um fracasso nesse processo anterior de aprendizagem. Elas não aprendem a gerenciar a própria vida, não sendo capaz de dirigi-la sozinha. Quando precisam demonstrar autonomia, sentem-se incapazes de enfrentar a realidade. Observamos no trabalho com anoréxicas, que a figura da mãe é central para elas. É a pessoa mais importante de suas vidas. Tendem a idealizar este relacionamento, embora apareçam sentimentos de carência em relação à mãe quando esta precisa dar atenção a outros membros da família.
Um grande número de jovens que se tornaram anoréxicas se encaixa, na descrição acima. Foram jovens dóceis, vivendo bem no ambiente familiar, sem raiva ou hostilidade. Geralmente vêm de famílias que possuem conforto material, mas são excessivamente controladoras e isso pode estar relacionado com o processo de alimentação.
As jovens anoréxicas sentem prazer e necessidade de ver os outros comendo mais do que elas. Preparam muitas vezes pratos deliciosos para os amigos comerem, mas não conseguem perceber que comem muito pouco e esse pouco também é exagerado. Desenvolvem comportamentos bizarros em relação aos alimentos. Muitas vezes para não comê-los e os outros não perceberem, passam a escondê-los dentro dos armários, enchem o prato de comida e a seguir jogam fora, sem que os outros vejam. A anoréxica perde o contato com a realidade em relação a peso e aparência. E não fala de sua magreza. Nega que tenha fome e resiste aos alimentos que gostaria de comer No tratamento, faz com que as pessoas que cuidam dela se sintam gordas e desleixadas.
A Anorexia Nervosa é um sintoma que surge em mulheres que não possuem autoconfiança e que têm dificuldade de estar no mundo.Não conseguem pedir ajuda e adotam estilos de vida muito austeros e autopunitivos. Muitas não se sentem atraídas por diversões e tendem a levar a vida de uma maneira séria demais. Às vezes se tornam retraídas, menos sinceras e talvez prefiram ficar sozinhas. Percebem o relacionamento social como estressante.
Compreender a alma da paciente anoréxica, talvez seja um dos trabalhos mais difíceis para um psicólogo. O processo terapêutico é sempre percebido como uma tentativa de coerção. Normalmente a paciente é levada pela família e não reconhece que precisa de tratamento. Desconfiam dos médicos e psicólogos vendo-os como inimigos que querem realimentá-los, fazendo–as perder a vontade de controlar seu peso.
O psicólogo deverá deixar bem claro á paciente e aos seus familiares que o objetivo do tratamento não é fazê-la engordar. O corpo da anoréxica é responsabilidade dela, mas, ao mesmo tempo, lembrá-la de que isto vai ocorrer quando for necessário. Na família considera-se o corpo da anoréxica responsabilidade de sua mãe. Uma das reivindicações básicas da anoréxica é que ela e mais ninguém pode controlar seu corpo. Como criança, ela bate o pé e internamente e externamente constrói suas barreiras. Ela não deverá comer para satisfazer as necessidades dos outros que não agüentam vê-la magra, mas sim, porque o seu corpo é parte da mulher que está ali e merece ser acalentado.
O conflito entre cura e estar doente deve ficar claro entre paciente e terapeuta. O papel do terapeuta não é fazê-la acreditar que sabemos exatamente como ela se sente, mas sim ajudá-la a entrar no processo de identificação dos seus próprios sentimentos que a levaram a se tornar anoréxica.
É importante que a paciente seja capaz de dividir as suas próprias percepções de vida. Contar em detalhes como é o seu mundo e só poderemos ter certeza de como ele é se ela o assim fizer. Mulheres anoréxicas são extremamente sensíveis às reações dos outros. Todos os seus sentimentos podem ter sucumbido na preocupação com a comida e a maneira de conseguir evitá-la. É um processo detalhado que inclui delicadeza e paciência. Recaídas são freqüentes. Terapeuta e paciente trabalham juntos com o material que o cliente apresenta, visando interpretá-lo para a cliente poder transformá-lo.
A anorexia também representa uma tentativa de auto suficiência. A necessidade de ser magérrima, conseguir um corpo perfeito onde mulheres falham, indica uma busca de perfeição mais profunda e ampla, que é movida pela insegurança. Vive com medo que descubram sua incompetência.
O ganho de peso ou a desistência do sintoma não quer dizer cura. A anoréxica tem vivido num mundo de fome e renúncia. Num primeiro momento, a sua alimentação passa a ser um caos. O paciente entra em pânico e acha que todos os seus temores em relação à perda de controle se realizam.Com a ajuda psicológica isso se equilibra e o paciente passa a aprender como comer. Desiste de estar só e perfeita.
Finalmente não insista para que ela coma. Isto não adianta. Evite comentários do tipo..olha, como você era bonitinha”....Não pergunte por que ela está fazendo aquilo...ela também não compreende o que está acontecendo.
O importante é que se compreenda que a anorexia não é uma doença e sim uma reação à condição feminina . Sempre há uma resposta , por mais dolorosa que ela seja. Poderemos ficar mais vulneráveis do que antes , mas não precisaremos mais nos esconder na magreza , na tristeza e na infelicidade . Caminharemos dentro de um processo onde se possa ter mais autonomia e liberdade .
Fonte: virtualbooks.terra.com.br
Anorexia nervosa é um transtorno alimentar no qual a busca implacável por magreza leva a pessoa a recorrer a estratégias para perda de peso, ocasionando importante emagrecimento. As pessoas anoréxicas apresentam um medo intenso de engordar mesmo estando extremamente magras. Em 90% dos casos, acomete mulheres adolescentes e adultas jovens, na faixa de 12 a 20 anos. É uma doença com riscos clínicos, podendo levar à morte por desnutrição.
Neste tipo a perda de peso é conseguida principalmente através de dietas, jejuns ou exercícios excessivos. Durante o episódio atual, esses pacientes não se desenvolveram compulsões periódicas ou purgações.
É quando o paciente se envolve regularmente em compulsões de comer seguidas de purgações durante o episódio atual de anorexia. A maioria dos pacientes com Anorexia Nervosa que comem compulsivamente também fazem purgações mediante vômitos auto-induzidos ou uso indevido de laxantes, diuréticos ou enemas. Alguns pacientes incluídos neste subtipo não comem de forma compulsiva, mas fazem purgações regularmente mesmo após o consumo de pequenas quantidades de alimentos. Aparentemente, a maior parte dos pacientes com o Tipo Compulsão Periódica/Purgativo dedica-se a esses comportamentos pelo menos 1 vez por semana.
Comparados os dois grupos, os pacientes com Anorexia Nervosa, Tipo Restritivo, são menos graves e têm melhor prognóstico que aqueles com o Tipo Compulsão Periódica/Purgativo. Esses últimos estão mais propensos a ter outros problemas de controle dos impulsos, a abusarem de álcool ou outras drogas, a exibirem maior instabilidade do humor e a serem sexualmente ativos.
A. Recusa a manter o peso corporal em um nível igual ou acima do mínimo normal adequado à idade e à altura (por ex., perda de peso levando à manutenção do peso corporal abaixo de 85% do esperado; ou fracasso em ter o ganho de peso esperado durante o período de crescimento, levando a um peso corporal menor que 85% do esperado).
B. Medo intenso de ganhar peso ou se tornar gordo mesmo com o peso abaixo do normal.
C. Perturbação no modo de vivenciar o peso ou a forma do corpo, influência indevida do peso ou da forma do corpo sobre a auto-avaliação, ou negação do baixo peso corporal atual.
D. Nas mulheres pós-menarca, amenorréia, isto é, ausência de pelo menos três ciclos menstruais consecutivos. (Considera-se que uma mulher tem amenorréia se seus períodos ocorrem apenas após a administração de hormônio, por ex., estrógeno).
Não se conhecem as causas fundamentais da Anorexia Nervosa. Há autores que evidenciam como causa a interação sociocultural mal adaptada, fatores biológicos, mecanismos psicológicos menos específicos e especial vulnerabilidade de personalidade.
Aspectos biológicos incluem as alterações hormonais que ocorrem durante a puberdade e as disfunções de neurotransmissores cerebrais, tais como a dopamina, a serotonina, a noradrenalina e dos peptídeos opióides, sabidamente ligados à regulação normal do comportamento alimentar e manutenção do peso, além dos aspectos genéticos.
Vários trabalhos apontam para uma predisposição genética no desenvolvimento da anorexia. Estudos demonstram uma taxa de concordância muito maior em gêmeos monozigóticos em comparação com gêmeos dizigóticos (56% contra 5%). Parentes de primeiro grau de pacientes com anorexia exibem um risco de aproximadamente 8 vezes maior de apresentar a doença do que a população geral.
Os modelos de sistemas familiares procuram identificar determinados padrões de funcionamento familiar alterado, por exemplo, minimização de conflitos, envolvimentos da criança em tensões familiares, pais ausentes, mães que competem com as filhas, etc. Porém, estes fatores hoje são vistos mais como mantenedores do comportamento do que como causais.
Em cerca de um terço dos pacientes com Bulimia Nervosa ocorre Abuso ou Dependência de Substâncias, particularmente envolvendo álcool e estimulantes. O uso de estimulantes freqüentemente começa na tentativa de controlar o apetite e o peso. É provável que 30 a 50% dos pacientes com Bulimia Nervosa também tenham características de personalidade que satisfaçam os critérios para um ou mais Transtornos da Personalidade (mais freqüentemente Transtorno da Personalidade Borderline).
Evidências preliminares sugerem que os pacientes com Bulimia Nervosa, Tipo Purgativo, apresentam mais sintomas depressivos e maior preocupação com a forma e o peso do que os pacientes com Bulimia Nervosa, Tipo Sem Purgação.
Uma das primeiras dificuldades é a que diz respeito à aderir o paciente ao tratamento, pois, como imos, a negação da doença é muitas vezes parte integrante do quadro. As pacientes com anorexia nervosa em geral desconfiam dos médicos, os quais elas percebem como inimigos e interessados apenas em realimentá-las, em fazê-las perder a vontade de controlar seus pesos. Portanto, o médico deve encorajar hábitos alimentares normais e ganhos de peso sem que isto se torne o único foco do tratamento.
Dependendo das condições clínicas da paciente, é necessário, muitas vezes em função de uma caquexia, proceder a internação da paciente para restabelecimento de sua saúde em ambiente hospitalar. A família deve ser orientada sobre a gravidade do problema, sobre falsas expectativas e de que a cura não será fácil.
Se o tratamento é em regime de hospitalização procede-se à correçào hidroeletrolítica, dieta hipercalórica mesmo contra a vontade da paciente, correção de possíveis alterações metabólicas e início do tratamento psiquiátrico.
Psicologicamente deve-se abordar o caso cognitivamente e/ou comportamentalmente, encorajando a adoção de atitudes mais sadias por parte da paciente, que é recompensada com elogios e diminuição de situações aversivas como restrição de sua mobilidade. A psicoterapia individual é indicada visando a modificação do comportamento, das crenças e dos esquemas falhos de pensamento.
A psicofarmacoterapia é indispensável e, normalmente, se faz às custas de antidepressivos, notadamente com tricíclicos que tenham como efeito colateral também o estímulo do apetite e o ganho do peso, como é o caso da maprotilina, amitriptilina ou clomipramina. Havendo necessidade de sedação (quase sempre há), recomenda-se que seja feita com neurolépticos e, preferentemente, com aqueles que também aumentam o apetite, como é o caso da levomepromazina.
Mesmo após a melhora é bom ter em mente que as recaídas são freqüentes. No caso da internação, a taxa de recidiva imediata é superior a 25%. Portanto o acompanhamento destas pacientes deve-se fazer por anos.
Fonte: www.conteudoglobal.com