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Antártida

A existência da Antártida já era cogitada séculos antes da sua descoberta. Desde 4 A.C. os antigos gregos imaginavam que haveria um continente ao sul que manteria o equilíbrio com a terras já conhecidas do norte.

Foi essa concepção de equilíbrio dos gregos que deu origem ao nome escolhido para o continente quando sua existência foi finalmente comprovada: "Antarktos", em grego (oposto de "Arktos", a constelação dos céus do norte).

A partir do século XV, diversos navegadores se aventuraram cada vez mais ao sul na esperança de encontrarem a decantada "Terra Australis", mas foi apenas no século XIX que o ser humano pela primeira vez pisou no continente Antártico.

A autoria dessa descoberta é polêmica até hoje: para os russos, quem descobriu foi Fabian von Bellingshausen, para os ingleses foi Edward Bransfield, e para os americanos foi Nataniel Palmer. Os três chegaram ao continente nos idos de 1820 e naturalmente os três reinvidicaram a descoberta.

A partir no século XIX foram realizadas várias expedições científicas à Antártida e ainda mais expedições nem tão científicas assim: caçadores de focas e baleias. 3As mais famosas expedições foram as dos exploradores Roald Amundsen (norueguês) e Robert Scott (inglês) que disputaram uma verdadeira corrida pela conquista do grau 180, o Pólo Sul geográfico. Scott e seus companheiros chegaram ao Pólo Sul no dia 17 de janeiro de 1912, apenas para encontrar uma barraca com a bandeira norueguesa e um bilhete de Amundsen, que já havia lá chegado 33 dias antes. Amundsen e seus companheiros percorreram 1500 km de distância e pegaram temperaturas de -56°C. Um dos fatores mais decisivos de sua vitória foi a escolha de se utilizar cães da Groenlândia e trenós como meio de transporte, e toda a sua experiência no manejo destes adquirida durante suas expedições na região ártica.

Scott, por sua vez, optou por pôneis, que se mostraram muito menos versáteis que os cães, inclusive em termos de sobrevivência: na falta de comida, um cão pelo menos pode se alimentar de um outro cão. A conquista de Amundsen de certa forma foi ofuscada pelo drama vivido pelo grupo de Scott após a chegada tardia ao Pólo Sul. O tempo piorou muito e na volta o grupo se viu num inferno verdadeiramente dantesco, com tempestades de neve escondendo as reservas estratégicas de comida deixadas na ida e o grupo lentamente morrendo de fome e frio. A equipe de resgate somente encontrou os corpos 8 meses depois, juntamente com o famoso diário de Scott que fez com que os seus dolorosos últimos dias virassem história (em 1975 a primeira estação construída no Pólo Sul foi batizada de "Amundsen-Scott").

Após a Segunda Guerra Mundial a rápida evolução da ciência fez com que interesse das nações pela Antártida se reavivasse, e durante o Ano Geofísico Internacional de 1957-1958 doze países estabeleceram mais de 60 estações para pesquisa científica na região.

A cooperação internacional vivenciada nesta ocasião inspirou cientistas e diplomatas a criarem em 1959 o Tratado Antártico, assinado pelos mesmos 12 países e ganhando posteriormente a adesão de outros. Desde 1961 a Antártida é regida pelas normas deste tratado, que suspendeu todas as reinvidicações territoriais no continente, mantendo-o aberto a qualquer país que nele deseje realizar pesquisas científicas.

A história do Brasil na Antártida

O primeiro brasileiro a pisar na Antártica foi o jornalista e médico Pernambucano Durval Rosa Borges, que visitou algumas bases americanas a fim de fazer uma reportagem para a revista "Visão". O primeiro brasileiro a visitar o Pólo Sul geográfico foi o meteorologista Rubens Junqueira Villela, em 1961.

O Brasil aderiu ao Tratado da Antártica em 1975, e com a criação do PROANTAR (Programa Antártico Brasileiro) alguns oficiais da Marinha passaram a fazer viagens à Antártida, com o apoio de ingleses e chilenos. Um desses oficiais foi o comandante e oceanógrafo Luiz Antônio Carvalho Ferraz, que veio a emprestar seu nome à primeira estação brasileira na Antártica, cujos primeiros 8 módulos foram implantados em 1984 na ilha do Rei George.

Somente em1982 o Brasil realizou a sua primeira expedição à Antártida, no navio Barão de Teffé. Desde então têm sido realizadas expedições antárticas todo ano, e hoje a Estação Comandante Ferraz já conta com 62 módulos, chegando a abrigar 40 pessoas no verão, sendo que 12 brasileiros já estão lá há um ano. Os estudos brasileiros na Antártida envolvem várias universidades e institutos de pesquisa que atuam nas áreas de Ciências da Vida, da Terra, da Atmosfera e Geofísica da Terra Sólida. Atualmente o Brasil conta com um novo navio para suas expedições antárticas, o Ary Rangel.

Geografia

A Antártica compreende inúmeras ilhas e o continente, a Antártida. Sua área é corresponde a 1.6 vezes o tamanho do Brasil. Isso no verão, porque no inverno a área do continente praticamente dobra de tamanho, por causa da grande quantidade de gelo que se forma no seu litoral.

O formato da Antártida é quase circular, com um braço (a Península Antártica) se estendendo na direção da América do Sul, terminando a apenas 1000 km do Cabo Horn (extremo sul das Américas). O continente é dividido em duas partes pela cadeia montanhosa Transantártica, com 2900 km de extensão. 90% do gelo de todo o planeta está na Antártica, cobrindo 99% do seu território e comprimindo o solo cerca de 1,6 km para baixo, fazendo com que a plataforma continental antártica seja cerca de três vezes mais profunda que a dos outros continentes.

Ao mesmo tempo essa grande camada de gelo faz dele o continente de maior altitude média. O limite convencional da Antártica é 60° de latitude sul, mas seu verdadeiro limite físico é a Convergência Antártica, o ponto do oceano onde as águas geladas da Antártica se encontram com as águas quentes no norte, que varia entre as latitudes 48° e 60° sul. A Convergência Antártica também constitui o limite entre o oceano Antártico e os oceanos Atlântico, Índico e Pacífico.

Clima

Que a Antártica é o lugar mais frio do planeta todo mundo sabe, mas o que pouca gente sabe é que ela também é o lugar mais seco. Apesar de todo aquele gelo acumulado, a precipitação média é irrisória (cerca de 50 mm/ano), e sob este parâmetro a Antártica é o maior deserto do mundo. Mesmo durante as terríveis nevascas que periodicamente flagelam a região, muita pouca neve realmente está caindo - a maior parte é neve que já caiu sendo levantada pelos fortes ventos da Antártica, os mais rápidos do planeta. Essas nevascas são perigosíssimas porque reduzem a visibilidade para menos de 1 m, e várias pessoas já morreram a poucos metros de seus abrigos por simplesmente não terem conseguido encontrá-los.

No inverno as temperaturas médias variam entre -70°C a -40°C no interior e -32°C a -15°C no litoral, e no verão entre -15°C a -35°C no interior e -5°C a 5°C no litoral, sendo a Península Antártica o local mais quente, ou melhor dizendo, menos frio.

Ecologia

Os únicos animais que de fato habitam o território antártico são algumas espécies de insetos. O litoral antártico, contudo, possui diversas espécies de maior porte, inclusive o maior animal de todos, a baleia azul. Esta e outras espécies de baleias que habitam a região se alimentam basicamente de krill, um pequeno crustáceo parecido com camarão que só é encontrado no Oceano Antártico.

Vivem também na região diversas espécies de focas, como a foca Leopardo e a foca de Weddell e leões-marinhos, e também espécies de golfinhos e aves-marinhas, algumas notórias como as orcas, ou "Hourglass", o albatroz errante, o petrel e a pomba antártica.

Mas o mais típico e numeroso habitante da Antártica sem sombra de dúvida é o pingüim. As espécies mais comuns são os pingüim adélia, macarroni, barbicha e o pingüim de bico vermelho. São animais extremamente dóceis e não se assustam com os humanos, mas mesmo assim o Tratado Antártico determina que humanos não se aproximem de pingüins e de qualquer outra espécie de animal a menos de três metros, para não estressá-los. Além dos pingüins, outra espécies de pássaros abundantes na Antártica são o petrel, o gaivotão, o binguá, a pomba antártica e o escua. Este último é uma gaivota rapineira que voa sobre as colônias do pinguins (algumas delas gigantescas, com cerca de 150 mil animais) e se alimenta de tudo que morre nessas colônias e também de pingüins novos. Por causa dos escuas, os pingüins formam creches. Enquanto os pais vão se alimentar, outros pingüins tomam conta dos filhotes.

Quanto à flora, somente musgos e líquens podem ser encontrados, em pequenas quantidades, nas diminutas regiões livres de gelo. A Antártica é considerada "o continente da ecologia", pois o próprio Tratado Antártico define a região como uma reserva natural. Afinal, a sua conservação é de vital importância para todo o planeta. Não podemos nos esquecer que lá está 68% da água potável da terra, que não pode ser poluída. Ao mesmo tempo, se essa água derreter demais, o nível dos oceanos subirá e poderá submergir cidades de todo o mundo. Além disso, a Antártica é o melhor lugar para se estudar fenômenos físicos e climáticos de grande influência sobre o ecossistema do planeta, como o buraco na camada de ozônio e o aquecimento terrestre. Tudo isso faz deste continente um grande laboratório natural onde os países trocam informações para melhor compreenderem a natureza..

Governo

A Antártica é regida pelas leis de um acordo internacional, o Tratado Antártico, que evitou que antigas reinvidicações territoriais por parte de algumas nações fossem resolvidas pela força. Este Tratado colocou em suspenso todas as reinvidicações territoriais já existentes e proibiu novas reinvidicações, determinando que toda a região ao sul da latitude 60° pode ser explorada por qualquer país, sem direito a posse, desde que com o objetivo de se realizar pesquisas científicas de propósitos pacíficos. Também pelo Tratado não podem ser realizadas manobras militares nem testes nucleares, e toda atividade científica deve ser informada e comprovada junto à comunidade internacional. O Tratado Antártico é um exemplo sem precedentes de uma respeitada e bem-sucedida cooperação internacional. Ainda que saibamos que a extrema adversidade das condições de vida na Antártida seja o maior fator de aproximação entre as nações.

Economia

Do século XIX até a década de 60 deste século, a maior atividade econômica empreendida na Antártica foi a caça de baleias e focas, várias espécies das quais até hoje estão em risco de extinção em virtude do verdadeiro massacre sofrido. Atualmente a pesca na Antártica está voltada para o krill e o atum.

Carvão, minério de ferro e outros minerais já foram encontrados na Antártica, e acredita-se que sob a sua plataforma continental existam grandes depósitos de petróleo e gás natural. O temor do desastre ecológico que a exploração desses recursos poderia causar fez com que em 1991 fosse estabelecido o Protocolo de Madri, proibindo a extração de minérios na Antártida nos próximos 50 anos.

População

Todos os residentes da Antártica são pesquisadores ou pessoal de apoio de diferentes nacionalidades que normalmente lá não permanecem por mais de um ano seguido.

A cooperação entre esses habitantes temporários é muito grande, pois grandes são as dificuldades de quem vive no gelo. Fora das estações as pessoas só andam em grupos, porque existem muitas fendas e lagos congelados. Se alguém cair na água do mar e não for socorrido em até três minutos e meio, pode ter choque térmico e parada cardíaca.

Durante o inverno a população é de cerca de 400 pessoas, número que aumenta cerca de sete vezes no verão. A primeira pessoa a nascer na Antártica foi Emilio Palma, filho de argentinos, em 1978.

Atividade Científica

Estudos importantíssimos têm sido realizados na Antártica.

Exemplos: Biólogos descobriram que o krill pode constituir uma fonte farta e barata de alimento nutritivo para toda a humanidade. Achados de fósseis comprovaram que a Antártida fazia parte do supercontinente original de Gondwana e forneceram importantes evidências para que se remontasse a seqüência da separação dos continentes.

Geólogos já coletaram milhares de meteoritos e até fragmentos lunares em ótimas condições de conservação. Glaciologistas descobriram grandes lagos de água doce (fontes potenciais de água potável para o mundo) no subsolo antártico. A camada de gelo acumulada durante milhares de anos na Antártida é um verdadeiro arquivo natural de onde glaciologistas e climatologistas obtêm importantes informações sobre as alterações climáticas e ambientais que o planeta já sofreu. Estudos psicológicos e sobre o sono são feitos durante o inverno, quando os habitantes da Antártica ficam isolados do mundo exterior. Por estas e muitas outras pesquisas, a Antártica representa o maior projeto científico da história da humanidade

Fonte: www.hollywood.com.br

Antártida

A Geografia do Continente Gelado e as Operações Brasileiras

No extremo Sul do planeta Terra há a última fronteira ao avanço e controle total do homem. Se já são tantas as dificuldades para a sobrevivência em um ambiente hostil, podemos imaginar o esforço maior para a permanência ininterrupta e definitiva. Tal território, sempre idealizado pelos antigos gregos, a cerca de 300 a.C., mas descoberto há pouco mais de um século é a Antártida.

Suas diferenças são marcantes em relação ao seu par, no pólo Norte, em todos os sentidos. O mais importante é o fato de a Antártida ser realmente um continente, enquanto que o Ártico é apenas uma calota de mar congelado. As diferenças geográficas são muito importantes para se avaliar os diversos comportamentos climatológicos e oceanográficos entre os dois hemisférios da Terra. Devemos dar ênfase a estas características geográficas para o estudo da região. Enquanto que no pólo Norte há o Ártico, como um mar congelado com espessura de gelo próxima de 10 metros, cercado de continentes por todos os lados, com estreitas faixas de oceanos livres, o pólo Sul se caracteriza por ser exatamente o oposto. Temos um continente de fato, a Antártida, cercada de oceano livre por todos os lados, o Oceano Circumpolar Antártico.

Este é um motivo chave para os deslocamentos dos fluidos geofísicos do planeta: os oceanos e a atmosfera. Com a ausência de perturbações causadas pela presença de massas continentais, os fluidos poderão formar fenômenos consideráveis

O NOME DO CONTINENTE

Embora obscurecido pela Idade Média, o conhecimento de que a Terra era esférica já era sabido pelos antigos Gregos. Chegou-se a calcular o raio do planeta com pouca margem de erro, quando o diretor da biblioteca de Alexandria, Eratóstenes, em 331 a.C. descobriu anotações interessantes sobre a posição de sombras durante um solstício de verão boreal na cidade de Siena (às margens do mar Vermelho, Egito antigo).

Outras observações da esfericidade da Terra eram bem claras durante os eclipses lunares. Os antigos conheciam as terras do Norte e sabiam da existência das regiões geladas do Ártico e das regiões quentes equatoriais próximas no continente africano. Imaginando a simetria de um corpo celeste esférico, concluíram que deveria haver uma região fria na outra extremidade do planeta. Como sobre o pólo Norte há a estrela polar (Polaris), pertencente constelação da Ursa Menor, a região fria do Norte recebeu o nome de Arktus (há grafias Arktikus), que significa Ursa Menor. Então, pela derivação e simetria, a conclusão que se chegou foi da existência de uma região fria ao Sul.

Assim nasceu o nome Anti-Ártico, ou contrário da Ursa Menor. Formou-se as palavras derivadas "antártico", usada como adjetivo e o substantivo "Antártica", para nomear o continente. Mas nem sempre a língua portuguesa foi fiel às origens gregas, daí a formação do substantivo latino Antártida.

Como lembrou muito bem Ulisses Capozoli, Prof. Aristides Pinto Coelho e outros escritores, os quais eu mesmo defendo: a grafia Antártida soa muito mais interessante e poética, pois remonta um mistério de "continente perdido" como a lendária Atlântida e que faz justiça a ele em toda a sua plenitude, mesmo porque, não existe uma Ártica. Só por este fato, a Antártida já se torna ímpar! Uma explicação mais palpável pode se basear no fato de que a Antártida é o único continente polar do planeta.

Além do mais, estas terras continuam sua deriva, como todas os outras da Terra e, num futuro distante, deixará de ser a antípoda da região ártica. Oficialmente, nos primeiros documentos que tramitaram no Congresso Nacional, adotou-se o nome Antártida também. Atualmente, o governo brasileiro adotou o termo Antártica para descrever o continente nos seus trabalhos e documentos. Notoriamente, ambos os modos de estão corretos. É muito comum encontrar nos jornais e livros a grafia Antártida. Em Portugal, a grafia utilizada é Antárctida que poderia ser considerada a mais correta.

A DESCOBERTA

Desde tempos remotos, a Terra Australis Nondum Cognita era grafada nos mapas antigos como sendo uma região existente, porém não descoberta. É difícil oficialmente dizer quem foi o explorador, ou melhor dizendo, a expedição, que encontrou o continente. Diversos países, inclusive o Brasil, participaram de expedições de ataque às regiões sub-polares e polares. Contudo, com a tecnologia dos séculos XVIII e XIX, tais jornadas eram muito críticas e trabalhavam no limite extremo entre a vida e a morte.

Podemos fazer uma idéia de como tais missões eram perigosas quando comparamos com os dias atuais. Se mesmo hoje é muito difícil de se prestar socorro a um acidente nos mares antárticos, ou mesmo sobre o continente, imaginemos há mais de 100 ou 200 anos atrás. Os expedicionários realmente tinham um espírito aguçado de aventura. Infelizmente, nem todos possuíam uma visão ecológica e científica acurada. Avaliando a História, podemos dizer duas coisas interessantes de um grande personagem no descobrimento antártico. Seu nome é Belligshausen.

Embora haja muita controvérsia sobre os descobridores da Antártida, sumariamente, avaliando-se todos os documentos registrados da época, podemos atribuir, com muito mais certeza, o encontro das terras antárticas ao comandante Thaddeus Bellingshausen, chefe de duas expedições antárticas russas iniciadas na data de 1819.

Naqueles tempos de descobertas, tais expedicionários saíam em suas missões para ficarem mais de 2 anos percorrendo as regiões dos mares gelados, fazendo retornos breves para recarga de suprimentos e reparos de avarias. Normalmente, tais retornos eram feitos na Austrália, Nova Zelândia, Argentina e Brasil. Havia uma corrida mundial entre muitas nações para o descobrimento das terras austrais. Muito antes de Bellingshausen, diversos outros exploradores tentaram encontrar o continente. Em 1768, o jovem comandante inglês James Cook, a bordo do Endeavour, já partira para as águas do Sul. Porém, somente na sua segunda viagem, no comando do Resolution, em 1772, é que ele conseguiu chegar ao ponto Sul máximo até aquela época.

Tal marca só seria batida em 1933, na expedição do almirante americano Richard Bird. É quase uma fatalidade Cook não ter descoberto a Antártida, pois avançou até o paralelo 71º10'S, mas na longitude 160º54'W, ou seja, penetrou na região mais profunda e exaurida de terras da Antártida, o mar de Ross. Se não fosse por esse fato, sua expedição teria descoberto o continente já no século XVIII.

O comandante Belligshausen, seguindo pelas recém descobertas ilhas Shetland do Sul, encontrou a península Antártica. Isto só ocorreu depois de diversas tentativas de ultrapassar as barreiras de gelo que cercavam sua flotilha constantemente (navios Vostok e Mirnyi). Pode-se dizer que a data mais correta para se atribuir descoberta é 28 de janeiro de 1821.

Antártida
Toponímia geral da Antártida. A navegação da frota russa do Cap. Bellingshausen navegava sempre além dos 60ºS. Sendo assim, encontrou a península Antártica em 28 de janeiro de 1821. O mar à Oeste da península recebe o seu nome. Note também que o continente não é centrado no Pólo Sul. Cerca de 90% dele pertence Antártida Oriental.

CARACTERÍSTICAS PECULIARES

O continente Antártico é especial pelos mais diversificados motivos. Inicialmente levaremos em conta os fatores geográficos mais comuns referentes à Antártida.

Foi um continente que derivou do Norte para o Sul nestes milhões de anos de evolução terrestre, saindo de uma região tropical. Por este motivo, já comportou florestas e animais. A existência disto foi comprovada por estudos geológicos da região que mostraram excelentes reservas de carvão, petróleo e madeira petrificada. Além disto, há reservas de diversos minerais cuja quantificação excede muitas reservas exploradas em outras regiões do mundo. Metais como ferro, cobre e outros preciosos são abundantes em pontos isolados. Por estas poucas características, a Antártida já se torna uma área de relativo interesse econômico.

Contudo, estes não são produtos de fácil obtenção. Talvez por isso, e se afirma que somente por isso, elas ainda não tenham sido exploradas de fato. O clima e o tempo tornam impraticáveis, economicamente, tais atitudes.

Antártida
Figura em projeção polar para comparação do território brasileiro em relação ao continente antártico. O Brasil tem cerca de 60% do tamanho da Antártida, sem contar os mares que congelam durante o inverno. Pode-se concluir algumas coisas interessantes: Nosso país é muito grande, o que dificulta sua ocupação, além de ter muitas barreiras naturais; a Antártida é bem maior, acrescida de todos os problemas impostos por condições críticas de tempo e clima. Se até nos tempos atuais, o expansionismo de ocupação é um

Porém, a maior riqueza da Antártida é a sua água. Cerca de 90% da reserva de água doce potável está congelada no continente. Sabe-se que, em futuro próximo, a maior dificuldade da humanidade será a obtenção de água potável. Provavelmente até guerras serão travadas pela posse de ecossistemas que sustentem a vida. Aos olhos dos visionários, a Antártida se tornou uma região estratégica de futuro muito promissor. Essa reserva se encontra por praticamente todo o continente, com cerca de 14 milhões de km2 e que quase duplica, no inverno, quando seus mares congelam e recebem a neve precipitada, alcançando marcas de mais de 20 milhões de km2 (não podemos esquecer que o Brasil tem um pouco mais de 8,5 milhões de km2 e a América do Sul, cerca de 17,6 milhões). Toda a neve precipitada vai se tornando gelo com o passar dos dias. Em meses, esse gelo se concentra, formando camadas mais compactas e se aprofundando. Desta maneira, a Antártida se torna um congelador da história do nosso planeta. Em cada camada de gelo estão aprisionadas pequenas amostras da atmosfera. Os glaciologistas perfuram o gelo e conseguem estipular diversos parâmetros da atmosfera primitiva (cerca de 200 parâmetros, atualmente).

Pode-se avaliar o gelo de 900 mil anos atrás, em certas áreas da calota polar, descobrindo concentrações dos principais gases atmosféricos, por exemplo. Só por este fato, consegue-se reconstruir boa história da atmosfera do planeta. É um marco de registro importantíssimo.

É notório de se imaginar que essa neve não pode formar acúmulos de gelo eternamente. Com o estudo obtido por marcadores feitos em geleiras e, mais modernamente, utilizando-se satélites, percebeu-se que estas se movem do interior do continente para o litoral, sendo este deslocamento bem semelhante ao de um rio. A velocidade de deslocamento pode ser de um metro por ano a impressionante marca de três metros por dia. Quando chega a região costeira, a geleira atinge o mar. Nesta interface, surgem rachaduras gigantescas que formam os icebergs. Então, pode-se dizer que cada iceberg é um gelo, que um dia foi neve, a muitos milhares de anos atrás e que agora é devolvido ao ciclo hidrológico. Cada iceberg é um retorno na máquina do tempo do nosso planeta. Contudo, os icebergs antárticos diferem totalmente dos seus pares do Ártico. Enquanto no hemisfério Norte eles são pontudos, derivados de rachaduras de geleiras próximas ao mar, na Antártida imperam os tabulares, originados da quebra do talude congelado sobre os oceanos. Com isto, os icebergs antárticos podem facilmente se tornarem tão grandes como estados brasileiros. Em minha missão à Antártida, em 2001/2002, tive a oportunidade de rastrear, pelo satélite russo da série Meteor, dois tabulares muito maiores que a Ilha Rei George (vide texto abaixo) local onde se situa a estação brasileira.

Antártida
Icebergs tabulares imperam nos mares antárticos. Muitos deles são maiores que cidades e até pequenos estados brasileiros. A preocupação maior com estes gigantes de gelo errantes é a sua rota. Algumas chegam ao litoral Sul do Brasil.

Antártida
A Antártida é o continente com a maior altitude média. Chega a cerca de 2.200 metros, ou seja, se todo o continente fosse nivelado, quando se chegasse ao litoral, encontraríamos uma muralha com esta altitude. Contudo, a maior parte é composta de gelo, com espessuras além de 4000 metros. Note os principais acidentes geográficos, como as montanhas Transantárticas (ao centro) e os Antartandes (formação da península Antártica, à esquerda). Em geral, todo o litoral é composto por barreira orográfica. A parte central é chamada de platô Antártico, composta por diversos domos gelados.

Outro fato de grande curiosidade é a posição do Sol durante as estações sazonais do ano. Para entender os conceitos astronômicos, devemos recorrer ao método clássico de estudo da Astronomia, onde a Terra é fixa e tudo se move ao seu redor (sistema geocêntrico). Sob este ponto de vista, um observador sobre a linha do Equador verá o Sol "caminhar" de Leste para Oeste a cada 24 horas, oscilando 23º27' mais para o Norte ou mais para o Sul, conforme a estação do ano.

Uma vez que o observador se desloca para latitudes polares, em direção Antártida, verá, durante os meses do ano, o Sol se inclinar cada vez mais, passando mais tempo no céu, durante o solstício de verão e menos tempo, durante o solstício de inverno. Quando chegar justamente sobre o Círculo Polar Antártico, em 66º33'S, o observador verá o último dia perfeito, nas transições dos solstícios. Nesta data, haverá um dia com 24 horas (verão) e uma "noite" também com 24 horas (inverno). Contudo, por efeitos reflexivos da atmosfera, esta noite, de fato, não ocorre. O que se observa é um amanhecer no horizonte muito curioso, pois o Sol não nasce, dando um breve cintilar às 12h, retornando imediatamente para baixo do horizonte. Uma vez atravessado o círculo polar, outros efeitos astronômicos surgem que tenderão a se aproximar das mesmas sutilezas do que se observa exatamente sobre o Pólo Sul.

Se for verão, o Sol permanece acima do horizonte, nas 24 horas do dia. Se for inverno, ele estará abaixo do horizonte, determinando a noite polar. Novamente, chama-se a atenção para os efeitos reflexivos da atmosfera. Só teremos noite, efetivamente, quando o centro do disco solar estiver além dos 108º de distância zenital. Por esta razão, mesmo sobre o pólo, em 90ºS, teremos apenas quatro meses de dia pleno, quatro meses de noite plena e quatro meses de nascer e ocaso do Sol, divididos em dois meses para cada evento (com acentuação nas duas últimas e duas primeiras semanas, respectivamente).

Este efeito ocorre porque o movimento aparente do Sol, nesta latitude, é de um "parafuso" no céu, conforme correm as estações do ano. Vale lembrar que na entrada do verão, sobre o pólo Sul, o Sol alcança a sua maior altura, com apenas 23º27', permanecendo as 24 horas do dia girando ao redor do observador.

Por este motivo, os antigos exploradores denominavam a Antártida como a "Terra das Longas Sombras".

Antártida
Observador sobre a linha do Equador (0º).

Antártida
Sobre o Trópico de Capricórnio (23º27’S).

Antártida
Próximo ao círculo polar (<66º33'S)

Antártida
Sobre o Círculo Polar Antártico (66º33'S)

Diversas posições do observador sobre as latitudes Sul do planeta Terra, até o Círculo Polar Antártico. As linhas circulares indicam o movimento do Sol em 24 horas. A distância das linhas de solstício (verão e inverno) da linha central (equinócios) é fixa no arco de grau de 23º27'. Este valor representa a linha da Eclíptica da Terra (inclinação em relação ao plano de transição ao Sol).

Antártida
Sobre o pólo Sul (90ºS).

Antártida
Sol abaixo do horizonte, no inverno

Antártida
Alvorada longa, ao chegar a primavera

Antártida
Sol acima do horizonte, no verão

Antártida
Crepúsculo longo, ao chegar o outono

Antártida
Distância zenital do Sol e os crepúsculos

INTRODUÇÃO AO CLIMA E TEMPO DA ANTÁRTIDA

É redundante dizer que o clima antártico é frio, aliás, muito frio. Porém, essa idéia fundamentada na mente das pessoas que vivem em países tropicais ou de médias latitudes, como os brasileiros, é muito vaga. Muitos acham que se estivessem na Antártida, logo em um primeiro momento, iriam encontrar um frio extremo. Este é um conceito errado. A região costeira da Antártida pode alcançar temperaturas inclusive positivas. Há uma interação muito forte entre a região costeira fria e os mares, relativamente mais quentes. Portanto, a costa antártica, principalmente os arquipélagos sub-antárticos, possui temperaturas que variam entre 5º a -25ºC, dependendo da época do ano e de que sistema sinóptico meteorológico estiver operando na área.

Mas afinal qual é esse sistema sinóptico meteorológico que atua na área da Antártida?

Pertencentes à fauna meteorológica, os ciclones extratropicais são as principais entidades que atuam na região costeira e mares adjacentes de todo o continente antártico. Realisticamente, são eles os responsáveis pela troca de energia das regiões de médias latitudes, com as regiões sub-polares, ou seja, convertem quase que a totalidade da energia térmica, do ar mais aquecido, em energia cinética (de fortes ventos) quando tentam transpor o ar mais frio.

Forma-se um vórtice de proporções planetárias (daí o termo sinóptico = visão simultânea) que caracteriza o transporte de ar, as vezes mais aquecido, as vezes mais frio, sobre um observador em superfície, conforme o ciclone ET se desloca. Portanto, nas proximidades da costa antártica, o frio não é extremo. Os valores de baixas temperaturas estão mais ligados a parte interior do continente e às grandes cadeias montanhosas. Deve-se levar em conta também que todo o continente têm uma altitude média muito elevada.

O platô Antártico, localizado no centro do continente, possui altitude de mais de 4.000 metros. Nesta região central, em altitude, o ar superior converge, assim, há subsidência com o transporte deste ar para a superfície.

Desta maneira, forma-se um anticiclone muito grande e semi-permanente no platô Antártico. Como o escoamento do ar no anticiclone é divergente, teremos condições propícias para a formação de ventos intensos muito frios, em superfície, que caminham para o litoral. Porém, não podemos esquecer que a grande declividade, entre o alto platô central até a costa ao nível do mar, serão fatores determinantes para o surgimento dos mais intensos ventos frios catabáticos (que descem as montanhas).

As temperaturas da Antártida continental oscilam na média de -60,0ºC, no inverno, e -28,2ºC, durante o verão. A umidade relativa é muito baixa na parte continental, mas extremamente alta na área costeira. Dentre os fenômenos atmosféricos mais interessantes temos a chuva de diamantes (dust diamond) que ocorre quando o vapor d'água sublima, ao atingir seu ponto de saturação, em valores negativos de temperatura de ponto de orvalho. Também podemos observar as situações de Blanqueio, onde o branco total do gelo faz o observador perder toda a noção de profundidade.

Para os aviadores, temos o Céu d'água, onde o mar liso e o céu se fundem em uma brancura completa, com Sol baixo e o Whiteout, situação onde nuvens, neve, gelo e geleiras se fundem numa completa "escuridão branca". Neste caso, o observador perde completamente as referências.

Antártida
Imagem de Satélite de órbita estacionária, geossíncrona GOES-8 (já fora de serviço, substituído pelo GOES-12). O canal de observação desta imagem é o infravermelho, pois permite observar o planeta mesmo na ausência de luz solar. A região ilustrada é o Sul da América do Sul, Norte da península Antártica e o trecho de mar conhecido por estreito de Drake. Na atmosfera observamos um ciclone extratropical gigante que é classificado como sinóptico. Note que este fenômeno meteorológico é muito maior que os furacões (ciclones tropicais) que ocorrem nos E.E.U.U., por exemplo. Este, em especial, tem cerca de 2.200 x 1.500km

Antártida
Dia calmo, ensolarado e raro na Antártida. Normalmente a região costeira é atribulada permanentemente devido a passagem de alta freqüência dos ciclones extratropicais. Note, nesta fotografia, que mesmo com mar espelhado e ausência de ventos, o perigo meteorológico espreita. Observe a nebulosidade sobre as montanhas. Expedicionários em terra ou helicópteros que por ventura estivessem passando ali, estariam sujeitos ao Whiteout. Este fenômeno meteorológico é característico de regiões árticas e também recebe a alcunha de "Escuridão Branca". Quem estiver dentro dele perde a noção de espacialidade. Expedicionários se perdem e aeronaves colidem com o solo. Com a modernidade dos instrumentos de navegação, o problema foi abrandado, mas não eliminado

Antártida
Outros dois exemplos de Whiteout. Na fotografia da esquerda, não é possível encontrar o final da geleira Domeiko, ilha Rei George, e o início da nebulosidade. A fotografia da direita mostra o mesmo efeito, sobre a geleira Stenhouse e Ajax, abrandado por nebulosidade de teto obscurecido.

Em suma, analisando as diversas condições do tempo, pode-se dizer que a climatologia antártica é muito dinâmica. Por um lado, na faixa do litoral e oceano Circumpolar Antártico, agem os ciclones extratropicais e ciclones extratropicais polares. Enquanto que na área continental imperam, em média, escoamentos catabáticos originados do interior para o litoral. Mas tal simplicidade aparente esconde muitos mistérios, ainda a serem descobertos e avaliados. Estamos muito longe de descobrir todos os mecanismos da atmosfera antártica.

Estes preceitos nos levam a pensar se as questões referentes ao "Aquecimento Global" são reais ou especulações, longe de chegarem ao consenso verdadeiro do que se passa em nosso planeta. Alguns fatos são tratados com a mínima relevância, como por exemplo, tomemos o cinturão de ciclones ET's que operam na área costeira da Antártida. Estes, são bem mais eficientes, desproporcionalmente muito maiores e atuam em número mais elevado que seus pares do hemisfério Norte. Este é um fato pouco discutido e que é de suma importância quando verificamos as trocas energéticas dos dois hemisférios. Quando o assunto é trópico X pólos, a eficiência da "máquina térmica" do hemisfério Sul é bem melhor. Isto só poderia resultar em maior aquecimento do hemisfério Norte, durante os longos períodos de maior atividade solar.

Dentre diversos problemas referentes ao assunto, o de maior implicância é o fato de que o IPCC não admite a presença do vapor d'água e das nuvens dentro do sistema climático, ou seja, este órgão da ONU simplesmente despreza o principal agente de efeito estufa natural do planeta, altamente suscetível às variações de temperatura global. Para o IPCC a atmosfera da Terra é SECA!

Antártida
Anomalias de temperatura de 1978-2000, obtidas por sensoriamento remoto espacial. Note que o hemisfério Norte indica leve aquecimento, contudo, o mesmo não se pode dizer do hemisfério Sul. Além disto, os erros inerentes às medidas de satélite estão na ordem de 0,5 a 1,0ºC, ou seja, dentro dos valores das próprias anomalias (Fonte: CHRISTY, SPENCER, Global Temperature Report, Universidade do Alabama em Huntsville, 2003)

Algumas estações costeiras da Antártida têm demonstrado leve aquecimento da ordem de 0,05 a 0,1ºC em 20 anos. Porém, deve-se lembrar que os anos de 1970 foram os mais frios e praticamente todo o oceano Austral (abaixo de 60ºS) permanecia congelado durante os invernos. Com a crescente atividade solar até a virada do século, de 2000 até 2002, muita energia entrou no sistema e foi armazenada nos oceanos. Estes, transferiram esta carga mais lentamente para os mares antárticos, refletindo no degelo ou menores áreas congeladas nos invernos destes referidos anos. Contudo, a atividade solar agora entrou na sua fase decrescente, ou seja, nos próximos 10 anos uma quantidade menor de energia entrará no sistema, o que causará resfriamento. É muito provável que as plataformas de gelo sobre o mar voltem a adquirir extensas áreas novamente.

Antártida
Julho de 2007, pleno inverno na baía do Almirantado, ilha Rei George. Há mais de 10 anos que a enseada e a baía não congelavam completamente. O ano de 2007 tem sido o mais frio, no Norte da península Antártida, desde que se começaram os registros de temperatura, em 1941 (Fonte: METEORO 2007)

Antártida

Mosaico produzido por imagens de diversos satélites de órbita polar. Esta é a maior prova da dinâmica climatológica do hemisfério Sul. Um continente está próximo ao pólo, cercado por oceanos livres e nenhuma barreira orográfica por todos os lados. Esta posição geográfica permite a total liberdade de movimentos dos fluidos geofísicos da Terra: oceanos e atmosfera. Nesta imagem, obtida por canal infravermelho, notamos a Antártida cercada por ciclones extratropicais. Estes fenômenos formam uma barreira de proteção e convertem boa parte da energia térmica, das médias latitudes, em energia cinética (de fortes ventos). A Antártida, em contrapartida, cede ar mais frio para resfriar o hemisfério Sul. Este eficiente mecanismo de troca permite com que a Antártida não se resfrie continuamente e que as médias latitudes não se aqueçam em demasia (FONTE: WISCONSIN, 2006).

OCEANOGRAFIA ANTÁRTIDA

O oceano Circumpolar Antártico possui uma das maiores correntes oceânicas da Terra e de longe uma das mais velozes. Em certos trechos, como o estreito de Drake (passagem entre o oceano Pacífico e Atlântico no Sul da América do Sul e Norte da península Antártica) pode alcançar velocidades da ordem de 60km por dia. Tal corrente é conhecida como Corrente Circumpolar Antártica (CCA) e caminha próxima à linha de Convergência Antártica, aos 60ºS (o local em que se pode dar a volta toda ao redor da Antártida por mar).

A parte de estudos na área da Oceanografia Física da Antártida é vasta. Existem interações entre correntes profundas do leito dos três oceanos do planeta e as águas superficiais ao redor da Antártida. No Atlântico, por exemplo, alternam-se águas provenientes de afundamento da costa antártica para a base do Atlântico, caminhando para o Norte e ao mesmo tempo em uma profundidade intermediária.

Em contrapartida, águas do Atlântico Norte, passam entre essas duas correntes e se ligam à CCA, na passagem ao Sul da África. Tais movimentos de massas d'água são responsáveis por diversos processos. Cabe a Oceanografia Química, a Biológica e a Geológica desvendar um emaranhado de segredos por trás desta dinâmica dos oceanos e sua interação com a CCA. Tais conexões indicam como tudo no planeta está interligado. Outros exemplos são os estudos de densidade e salinidade, gases dissolvidos nos mares antárticos, migrações de cetáceos, além da interação ar-mar.

Antártida
Imagem de realce computadorizada ilustra a temperatura dos oceanos. A Corrente Circumpolar Antártica percorre continuamente, de Oeste para Leste, a faixa próxima da latitude dos 60ºS (na imagem, a interface entre o azul e roxo). Da mesma maneira que os ciclones extratropicais fazem seu papel de troca térmica na atmosfera, as misturas de massas de água oceânica também o fazem, porém, com menor velocidade. Contudo, cumprem um papel muito mais importante. Águas frias absorvem mais dióxido de carbono (comumente chamado de gás carbônico). Este sorvedouro de gases irá iniciar uma das mais fantásticas e gigantescas cadeias alimentares. Muito dióxido de carbono dissolvido na água do mar permite gerar muito plâncton e algas. Por sua vez, aumentam-se as populações de crustáceos como o Krill, que prefere águas frias. Daí por diante, migram-se as aves aquáticas, em especial os pingüins. Focas de todos os tipos também migram para a Antártida. Finalmente, chegam os grandes cetáceos, as baleias, como a Azul, Mink e Orca. Esta última, conhecida por "assassina", é o topo da cadeia alimentar, atacando todos os animais inclusive, outras baleias. É importante lembrar que nenhum animal é nativo da Antártida. Todos viajam ao continente durante o verão, excetuando-se os pingüins imperadores, que preferem o período de inverno

Contudo, o estudo da Oceanografia em geral na Antártida é bem mais dificultado exatamente pela ação hostil dos ciclones extratropicais que agem na região.

Torna-se muito mais difícil executar os procedimentos operacionais de coleta e análise, nas embarcações expostas aos elementos. Muitos destes estudos centram-se nas ilhas adjacentes à Antártida, por oferecerem relativo abrigo ou proximidade de alguma estação científica, como é o caso do Brasil

Antártida
Oceanografia Biológica e Geológica. Lançamento de van Veen na enseada Martel, baía do Almirantado, interior da ilha Rei George. Os animais encontrados na Antártida são únicos àquele nicho. Sua adaptação às condições de baixa temperatura não encontram pares em outras espécies do planeta. Resistência ao frio e a alta concentração de oxigênio nas águas são fatores estudados pelos biólogos

Antártida
A Oceanografia Física se importa com perfis de temperatura e salinidade, dentre outros. Nesta fotografia, temos o lançamento da Roseta, espécie de suporte que recebe diversos aparelhos CTD's (que medem temperatura, salinidade e outros parâmetros). Descobrir a estratificação das massas de água superficial, sub-fundo e fundo permitem estabelecer os fluxos de calor, solubilidade e interação com a atmosfera

Um continente de máximos em todos os sentidos, a Antártida se torna única no encanto que oferece pela poesia de sua beleza, a fascinação pela grandiosidade da primeira descoberta que leva, ao espírito humano, a sensação da exploração de um mundo novo, longínquo, alienígena, incomum.

Contudo, deve-se alertar que todo este cenário é frágil e deve ser preservado, a todo custo, da ação predatória do homem. Os registros nos mostram que nos tempos dos séculos XVIII, XIX e XX, a maior ação humana na região foi a de destruição. De milhares a milhões de animais foram mortos pela ganância.

Pode-se dizer que boa parte da economia mundial nasceu da morte de centenas de baleias, muitas da região antártica. Várias espécies de focas foram quase extintas para a obtenção de peles, óleo e carnes. É espantoso caminhar pelas praias da ilha Rei George/25 de Mayo e ver as centenas de ossadas das baleias mortas. A mentalidade humana precisa mudar.

A Antártida precisa ser respeitada, pois muitos dos mecanismos de interação global passaram a ser estudados com mais atenção somente no final dos anos de 1990. Muito há de se descobrir ainda. As teleconexões entre sistemas meteorológicos, efeitos globais, interação ar-mar, ainda estão sob avaliação e novas teorias surgem. Um gigantesco mecanismo entre as diversas áreas do conhecimento mostram que todas são engrenagens importantes de uma máquina não totalmente conhecida. Deve-se chamar a atenção principalmente no que tange às diferenças do hemisfério Sul da Terra e o papel fundamental da presença da Antártida neste contexto. Será que a elevação da temperatura global poderá formar ciclones extratropicais mais fortes, com ventos mais intensos? Sabe-se que a equação do balanço do carbono global mostra um déficit.

Para onde estaria indo esse carbono?

Águas frias são sorvedouros de gás carbônico atmosférico. A CCA é um dos maiores sorvedouros deste carbono. Em contrapartida, os plânctons utilizam o gás carbônico e começam uma espetacular cadeia alimentar que termina com a migração dos grandes cetáceos para a CCA. São questões interessantes que ainda precisam ser respondidas e que formarão muitas outras no meio do caminho. Para isso, apela-se para que a consciência do homem tenha a visão suprema de manter intacto tão grandioso ecossistema.

Estação Antártica Comandante Ferraz

O imperador Dom Pedro II era um homem de visão. Graças a ele o Brasil se modernizou, mas principalmente se destacou entre as nações do mundo. Em se tratando de Antártida, em 1882 foi realizada uma missão sub-antártica quando a corveta Parayba se lançou aos mares bravios dos arredores do estreito de Drake, mesmo sobre grande protesto da imprensa e de diversos políticos. Mais de cem anos depois o Brasil finalmente chegou à Antártida. Poderia ter partido muito antes, pois convites não faltaram. Diversas expedições, incluindo a de Bellingshausen, ofereceram vagas aos cientistas da época para participarem das descobertas, já que muitas destas viagens faziam parada obrigatória nos portos do Brasil.

Contudo, antes tarde do que nunca, os brasileiros chegaram ao território para fincar nossa bandeira, pois as regras do tratado antártico diziam que só teriam direito ao território, as nações que produzissem pesquisas e instalassem estações permanentes até o prazo do ano 2000.

Várias pessoas se esforçaram para concretizar esse sonho. Algumas no mundo civil, com a criação do Instituto Brasileiro de Estudos Antárticos - IBEA, sob protesto dos militares da época, nos anos de 1970. Contudo, muitos militares apoiavam o instituto e defendiam sua posição de interesse na Antártida. Entre eles, o capitão-de-mar-e-guerra, comandante Ferraz, cujo nome é atribuído a nossa estação. Em fevereiro de 1984 é inaugurada a Estação Antártica Comandante Ferraz - EACF na Ilha Rei George / 25 de Mayo, na península Keller, baía do Almirantado. Infelizmente o comandante Ferraz não pode ver a concretização de seu sonho, pois morreu 2 anos antes. De lá para cá, 25 anos se passaram e o Programa Antártico Brasileiro - PROANTAR, executa suas missões todos os anos, sob auxílio de diversas instituições nacionais, como USP, CNPq, PETROBRÁS, Marinha do Brasil - MB e a Força Aérea Brasileira - FAB, organizadas pela Comissão Interministerial para os Recursos do Mar - CIRM, através da sua secretaria, SECIRM.

Antártida
Teoria da Defrontação. Como foi utilizada para a disputa do hemisfério Norte, os países Sulamericanos reivindicaram a sua utilização para a Antártida. A disputa ficou amainada com a assinatura do Tratado Antártico e a formação do SCAR (FONTE: CONTI, 1984).

Vista do Módulo de Meteorologia, para Nordeste, sentido Ferraz, em seis instantes meteorológicos diferentes. Ao fundo, enseada Martel, baía do Almirantado e geleiras Stenhouse (esq.) e Ajax (dir.).

Antártida
Dia raro na Antártida, calmaria de ventos, brilho solar, ausência de tempos significativos (06/12/2001)

Antártida
Céu nublado, com teto baixo (cerca de 400 metros). O vento na enseada Martel desloca os growlers (pequenos blocos de gelo) originados na base das geleiras. Há pouco brilho solar (24/12/2001)

Céu encoberto, com teto próximo dos 350 metros, a mudança de tempo é rápida na Antártida e chega em menos de três horas, o que exige atenção dos meteorologistas de serviço (12/12/2001).

Antártida

Céu encoberto, nevoeiro glaciar, mesmo com vento beirando 40 Nós (74km/h). A visibilidade fica ao redor de 3.000 metros. Ventos de quadrante Leste amontoam os growlers na praia de Ferraz. Isto dificulta as atividades dos botes e embarcações que trafegam para o navio Ary Rongel (10/12/2001).

Antártida

Antártida
Geleira Stenhouse, ilha Rei George. A borda tem cerca de 150 metros de altitude e seu domo, 600 metros.

Antártida
Greta em geleira. O maior perigo para os expedicionários em superfície. Uma greta pode ter mais de 50 metros de profundidade facilmente.

Antártida
Iceberg com praia e piscinas. Algumas colônias de pingüins habitam estas ilhas de gelo flutuante

Antártida
Iceberg à deriva entre a ilha Rei George e a ilha Elephant. Verificamos sua altura de mais de 150 metros ao aproximarmos

Antártida
Foca Leopardo (perigosa).

Antártida
Bebês de Elefantes marinhos.

Antártida
Foca de Weddell jovem (mansa).

Antártida
Focas Caranguejeiras (arredias).

Antártida
Pingüim Rei (raro na pen. Antártica)

Antártida
Pingüins Antárticos

Antártida
Pingüim Papua

Antártida
Casal de Skuas, aves rapineiras.

Antártida
Baleia Jubarte emerge.

Antártida
Aranhas do Mar.

Antártida
Estrela Sol

Antártida
Campo de Musgos

Diferenças Marcantes entre os Pólos

Antártida

Continente (Mega-arquipélago)
Circunavegável
Eficiência termodinâmica: ciclones ET atuam em condições excelentes
Calota de gelo: > 4.000 metros;
Altitude média: 2.200 metros.

Temperaturas Médias

Antártida

Inverno: – 76,0ºF ou – 60,0ºC
Verão: – 18,0ºF ou – 28,2ºC

Antártida
Icebergs Tabulares gigantes

O Ártico

Mar congelado (adicionado, sazonalmente, à grandes ilhas);
Não permite circunavegação;
Eficiência termodinâmica: ciclones ET atuam nas pequenas áreas de oceano livre;
Calota de gelo: ~10 metros;
Altitude média: ~5 metros.

Temperaturas Médias:

Antártida

Inverno: – 40,0ºF ou – 40,0ºC
Verão: 32,0ºF ou 0,0ºC

Antártida
Icebergs Piramidais pequenos

No período de 1882-1883 aconteceu o I Ano Polar (I IPY) que realizou diversas pesquisas em ambos os pólos do planeta, lembrando que os pólos geográficos ainda não haviam sido conquistados. Depois de 60 anos, a comissão científica internacional abriu o II Ano Polar (II IPY) realizado em 1932-1933, uma vez que já se passaram quase 30 anos da conquista dos pólos.

Finalmente, em 1957 até 1959 aconteceu o Ano Geofísico Internacional (IGY) que realizou diversas atividades de pesquisa na Antártida, como a conquista dos pólos geográfico, magnético, inacessibilidade relativa e frio. Em comemoração aos 125 anos do I IPY e 50 anos do IGY, em 2007, iniciou-se o III Ano Polar (III IPY) que visará realizar diversas pesquisas em ambos os pólos até março de 2009.

As principais metas serão a conquista definitiva do pólo da inacessibilidade, missão esta sob responsabilidade da China e o aprofundamento das pesquisas sobre "aquecimento global". Contudo, pela contaminação inerente aos propósitos que o IPCC deseja obter destas pesquisas, chamamos a atenção para os resultados que estão por vir. Acreditamos que um olhar muito crítico deva ser lançado aos mesmos, nos próximos anos.

Antártida
Antártida

Antártida
O Ártico

REFERÊNCIAS

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Fonte: www.geografia.fflch.usp.br

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