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Os Cus de Judas

 

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Do que eu gostava mais no Jardim Zoológico era do rinque de patinagem sob asárvores e do professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipsesvagorosas sem mover um músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e botasbrancas, que, se falassem, possuíam seguramente vozes tão de gaze como as que nosaeroportos anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nosouvidos à maneira de fins de rebuçado na concha da língua.

Não sei se lhe parece idiotao que vou dizer mas aos domingos de manhã, quando nós lá íamos com o meu pai, osbichos eram mais bichos, a solidão de esparguete da girafa assemelhava-se à de umGulliver triste, e das lápides do cemitério dos cães subiam de tempos a tempos latidosaflitos de caniche. Cheirava aos corredores do Coliseu ao ar livre, cheios de esquisitospássaros inventados em gaiolas de rede, avestruzes idênticas a professoras de ginásticasolteiras, pinguins trôpegos de joanetes de contínuo, catatuas de cabeça à banda comoapreciadores de quadros; no tanque dos hipopótamos inchava a lenta tranquilidade dosgordos, as cobras enrolavam-se em espirais moles de cagalhão, e os crocodilosacomodavam-se sem custo ao seu destino terciário de lagartixas patibulares.

Os plátanosentre as jaulas acinzentavam-se como os nossos cabelos, e afigurava-se-me que, de certomodo, envelhecíamos juntos: o empregao de ancinho que empurrava as folhas para umbalde aparentava-se, sem dúvida, ao cirurgião que me varreria as pedras da vesículapara um frasco coberto de rótulo de adesivo; uma menopausa vegetal em que os caroçosda próstata e os nós dos troncos se aproximavam e confundiam irmanar-nos-ia namesma melancolia sem ilusões; os queixais tombavam da boca como frutos podres, apele da barriga pregueava-se de asperezas de casca. Mas não era impossível que umhálito cúmplice nos sacudisse as madeixas do ramos mais altos, e uma tosse qualquerrompesse a custo o nevoeiro da surdez em mugidos de búzio, que a pouco e poucoadquiriam a tranquilizador tonalidade da bronquite conjugal.

O restaurante do Jardim, onde o odor dos animais se insinuava em farraposdiluídos no fumo do cozido, apimentando de uma desagradável sugestão de cerdas osabor das batatas e conferindo à carne gostos peludos de alcatifa, encontrava-seordinariamente repleto, em doses equitativas, de grupos excursionistas e de mãesimpacientes, que afastavam com os garfos balões à deriva como sorrisos distraídos, aarrastarem pontas de guita atrás de si, tal as noivas volantes de Chagall a bainha dosvestidos. Senhoras idosas vestidas de azul, com tabuleiros de bolos na barriga,ofereciam travesseiros mais poeirentos do que as suas bochechas folhadas, perseguidaspelo fastio pegajoso das moscas. Cães esqueléticos de retábulo medieval hesitavamentre a biqueira dos empregados e as salsichas que sobravam dos pratos para o chão àlaia de dedos supérfluos, luzidios da brilhantina do óleo. Os barcos que pedalavam notanque ameaçavam a todo momento entrar vogando pelas janelas abertas, a oscilaremsobre ondas hostis de guardanapos de papel. E lá fora, indiferente à música fosca que osaltifalantes embaciavam, aos lamentos viúvos do boi-cavalo, à jovialidade depandeiretas cansadas dos excursionista e ao pasmo da minha admiração comovida, o professor preto continuava a deslizar imóvel no rinque de patinagem debaixo dasárvores com a majestade maravilhosa e insólita de um andor às arrecuas.

Se fôssemos, por exemplo, papa-formigas, a senhora e eu, em lugar deconversarmos um com o outro neste ângulo de bar, talvez que eu me acomodassemelhor ao seu silêncio, às suas mãos paradas no copo, aos seus olhos de pescada devidro boiando algures na minha calva ou no meu umbigo, talvez que nos entender numacumplicidade de trombas inquietas farejando a meias no cimento saudades de insetosque não há, talvez que nos uníssemos, a coberto do escuro, em coitos tão tristes como asnoites de Lisboa, quando os netunos dos lagos se despem do lodo do seu musgo epasseiam nas praças vazias ansiosas órbitas ferrugentas.

Talvez que finalmente mefalasse de si. Talvez que atrás da sua testa de Cranach exista, adormecida, uma ternurasecreta pelos rinocerontes. Talvez que, palpando-me me descubra de repente unicórnio,a abrace, e você agite os braços espantados de borboleta cravada em alfinete, pastosa deternura. Compraríamos bilhetes para o comboio que circula no jardim, de bicho embicho, o seu motor de corda, evadido de um castelo-fantasma de província, acenando depassagem à gruta de presépio dos ursos brancos, tapetes reciclados. Observaríamosoftalmologicamente a conjuntivite anal dos mandris, cujas pálpebras se inflamam dehemorroidas combustíveis. Beijar-nos-íamos diante das grades dos leões, roídos de traçacomo casacos velhos, a arregaçarem os beiços sobre as gengivas desmobiladas. Euafago-lhe os seios à sombra oblíqua das raposas, você compra-me um gelado depauzinho ao pé do recinto dos palhaços, bofetadas de sobrancelha para cima que umsaxofone trágico sublinha. E teríamos recuperado dessa forma um pouco da infância quea nenhum de nós pertence, e teima em descer pelo escorrega num riso de que nos chega,de longe em longe e numa espécie de raiva, o eco atenuado.

Lembra-se das águias de pedra da entrada do Jardim e das bilheteirassemelhantes a guaritas de sentinela onde oficiavam empregados bolorentos, a piscaremórbitas míopes de mocho na penumbra úmida? Os meus pais moravam não muito longe,perto de uma agência de caixões, mãos de cera e bustos do padre Cruz, que os uivosnoturnos dos tigres faziam vibrar de terror artrítico nas prateleiras da montra, inválidosdo comércio místicos que decoravam os topos dos frigoríficos sobre ovais de crochê, detal forma que o ronronar dos aparelhos se diria nascer dos seus esôfagos de barro,afligidos de indigestões de galhetas. Da janela do quarto dos meus irmãos enxergava-sea cerca dos camelos, a cujas expressões aborrecidas faltava o complemento de umcharuto de gestor. Sentado na retrete, onde um resto de rio agonizava em gargarejos deintestino, escutava os lamentos das focas que um diâmetro excessivo impedia deviajarem pela canalização e de descerem no jato das torneiras grunhidos impacientes deexaminador de Matemática. A cama da minha mãe gemia em certas madrugadas olumbago do elefante desdentado que tocava a sineta contra um molho de couves, numcomércio centenariamente inalterável à inflação, comandada pela asma do meu pai emassopros ritmados de cornaca. A mulher dos amendoins, a que faltava o cotoveloesquerdo, montava a sua indústria de alcofas nos baixos da nossa varanda, e narrava àminha avó em discursos verticais, de baixo para cima, as bebedeiras do marido, atravésde cuja violência explodiam capítulos de Máximo Gorki da Editorial Minerva. Asmanhãs povoavam-se e tucanos e de hibiscos servidos com as carcaças do pequenoalmoçoque abandonavam nos dedos a farinha ou o pó dos móveis por limpar. Amancha do sol da tarde trotava no soalho na cadência furtiva das hienas, revelando eescondendo os desenhos sucessivos do tapete, o relevo lascado do rodapé, o retrato deum tio bombeiro na parede, iluminado de bigodes, de que o capacete areado cintilavareflexos domésticos de maçaneta. No vestíbulo havia um espelho biselado que de noitese esvaziava de imagens e se tornava tão fundo como os olhos de um bebê que dorme, capaz de conter em si todas as árvores do Jardim e os orangotangos dependurados dassuas argolas à laia de enormes aranhas congeladas. Por essa época, eu alimentava aesperança insensata de rodopiar um dia espirais graciosas em torno das hipérbolesmajestáticas do professor preto, vestido de botas brancas e calças cor-de-rosa,deslizando no ruído de roldanas com que sempre imaginei o voo difícl dos anjos deGiotto, a espanejarem nos seus céus bíblicos numa inocência de cordéis. As árvores dorinque fechar-se-iam atrás de mim entrelaçando as suas sombras espessas, e seria essa aminha forma de partir. Talvez que quando eu for velho, reduzido aos meus relógios eaos meus gatos num terceiro andar sem elevador, conceba o meu desaparecimento nãocomo o de um náufrado submerso por embalagens de comprimidos, cataplasmas, chásmedicinais e orações ao Divino Espírito Santos, mas sob a forma de um menino que seerguerá de mim como a alma do corpo nas gravuras do catecismo, para se aproximar,em piruetas inseguras, do negro muito direito, de cabelo esticado a brilhantina, cujosbeiços se curvam no sorriso enigmático e infinitamente indulgente de um buda depatins.

Este anjo da guarda de gravata desde sempre substituiu dentro de mim a pagelavirtuosa da Sãozinha e as suas bochechas equívocas de Mae West de sacristia, envolvidaem amores místicos com um cristo de bigodinho à Fairbanks no cinema mudo dooratório das tias, que moravam em grandes casas escuras, com os baixos-relevos dossofás e dos móveis adensando a penumbra, onde as teclas dos pianos cobertos por xailesde damasco cintilavam a sua cárie de bemóis. Em cada edifício da Rua BarataSalgueiro, triste como a chuva num recreio de colégio, habitava uma parente idosaremando de bengala na vazante das alcatifas repletas de jarrões chineses e de contadoresde embutidos, que o mar de gerações de comerciantes de pera ali abandonara comonuma praia final. Cheirava a fechado, a gripe e a biscoito, e só as grandes tinasoxidadas, de pernas em forma de garras de esfinge, com a linha da água ausenteassinalada por uma orla castanha semelhante a um vinco de boné na testa, se meafiguravam vivas, procurando com as ávidas goelas desmesuradas as tetas de cobre dastorneiras, de que desciam, de quando em quando, lágrimas raras como gotas de argirol.Nas cozinhas idênticas ao laboratório de química do liceu, com um calendário dasMissões com muitos pretinhos na parede, criadas sem idade, que se chamavam todasAlbertina, preparavam canjas sem sal resmungando nos tachos pedaços de terço,destinados a condimentar o arroz branco. Nos esquentadores antiquíssimos,contemporâneos da marmita de Papin, as chamas do gás adquiriam a forma instável depétalas frágeis, oscilando à beira de um estoiro catastrófico que reduziria a cacosirreconhecíveis a última chávena de Sèvres. As janelas não se distinguiam dos quadros:no vidro ou na tela, as mesmas árvores de Outubro encolhiam-se como pilas transidasdepois de um banho de piscina, a que se enrolavam as serpentinas desbotadas de umcarnaval defunto.

As tias avançavam aos arrancos como dançarinas de caixinha demúsica nos derradeiros impulsos da corda, apontavam-me às costelas a ameaça poucosegura das bengalas, observavam-me com desprezo os enchumaços do casaco eproclamavam azedamente:

- Estás magro como se as minhas clavículas fossem mais vergonhosas que um rastro de bâton no colarinho.

Um pêndulo inlocalizável, perdido entre trevas de armários, pingava horasabafadas num qulquer corredor distante, atravancado de arcas de cânfora, conduzinho aquartos hirtos e úmidos, onde o cadáver de Proust flutuava ainda, espalhando no arrarefeito um hálito puído de infância. As tias instalavam-se a custo no rebordo depoltronas gigantescas decoradas por filigranas de crochê, serviam o chá em bules trabalhados como custódias manuelinas, e completavam a jaculatória designando com acolher do açúcar fotografias de generais furibundos, falecidos antes do meu nascimentoapós gloriosos combates de gamão e de bilhar em messes melancólicas como salas dejantar vazias, de Últimas Ceias substituídas por gravuras de batalha:

- Felizmente que a tropa há-de torná-lo um homem.

Esta profecia vigorosa, transmitida ao longo da infância e da adolescência pordentaduras postiças de indiscutível autoridade, prolongava-se em ecos estridentes nasmesas de canasta, onde as fêmeas do clã forneciam à missa dos domingos umcontrapeso pagão a dois centavos o ponto, quantia nominal que lhes servia de pretextopara expelirem, a propósito de um beste, ódios antigos pacientemente segregados. Oshomens da família, cuja solenidade pomposa me fascinara antes da primeira comunhão,quando eu não entendia ainda que os seus conciliábulos sussurrados, inacessíveis evitais como as assembleias dos deuses, se destinavam simplesmente a discutir osméritos fofos das nádegas da criada, apoiavam gravemente as tias no intuito deafastarem uma futura mão rival em beliscões furtivos durante o levantar dos pratos. Oespectro de Salazar pairava sobre as calvas pias labaredazinhas de Espírito Santocorporativo, salvando-nos da ideia tenebrosa e deletéria do socialismo. A PIDEprosseguia corajosamente a sua valorosa cruzada contra a noção sinistra de democracia,primeiro passo para o desaparecimento, nos bolsos ávidos de ardinas e marçanos, dofaqueiro de cristofle. O cardeal Cerejeira, emoldurado, garantia, de um canto, aperpetuidade da Conferência de São Vicente de Paula, e, por inerência, dos pobresdomesticados. O desenho que representava o povo em uivos de júbilo ateu em torno deuma guilhotina libertária fora definitivamente exilado para o sótão, entre bidês velhos ecadeiras coxas, que uma fresta poeirenta de sol aureolava do mistério que acentua asinutilidades abandonadas. De modo que quando embarquei para Angola, a bordo de umnavio cheio de tropas, para me tornar finalmente homem, a tribo, agradecida aoGoverno que me possibilitava, grátis, uma tal metamorfose, compareceu em peso nocais, consentindo, num arroubo de fervor patriótico, ser acotovelada por uma multidãoagitada e anônima semelhante à do quadro da guilhotina, que ali vinha assistir,impotente, à sua própria morte.

B

Conhece Santa Margarida? Digo isto porque, às vezes, na messe dos oficiaisdecorada com o mau gosto obstinadamente impessoal da sala de espera de um dentistade Moscavide (flores de plástico, oleografias imprecisas cujos arabescos monótonos seconfundem com o papel da parede, cadeiras hirtas semelhantes a quadrúpedesdesirmanados pastando num acaso sem simetria as franjas gastas dos tapetes), osmajores em reboliço abandonavam os copos de uísque, de cubos de gelo substituídospor dados de pôquer, para, eretos como soldados de chumbo barrigudos, saudarem aentrada de uma senhora que qualquer coronel subitamente urbano comboiava, deixandoatrás de si, perceptível na tremura dos galões, um rastro cochichado de cio de caserna,que se cristalizaria em esquemas explicativos no mármore venoso dos urinóis, destinadoà alfabetização dos faxinas. A masturbação era a nossa ginástica diária, êmbolosencolhidos nos lençóis gelados à maneira de fetos idosos que nenhum úterodesibernaria, enquanto, lá fora, os pinheiros e a névoa se confundiam numa tramainextricável de sussurros úmidos, sobrepondo à noite a noite pegajosa dos seus troncos,açucarados do algodão de feira popular da bruma. Como em pequeno na Praia das Maçãs, percebe, no fim de Setembro, quando nos deitávamos e o corpo se assemelhavaa uma sementinha perdida no colchão enorme, enrugada e trêmula, agitando osfilamentos peludos dos membros em espasmos assustados pelo som do mar lá em baixo,vinde de parte nenhuma, a retrair e a distender a bronquite pedregulhosa do seu pulmãoinvisível. Os relógios de cuco davam lugar a cornetas igualmente irritantes, a farda e apele convergiam numa carapaça única de quitina militar, os cabelos rapados e asformaturas traziam-me à memória as colônias de férias da infância e o seu cheiro a docee azedo de pouca água, feito de resignação vagamente indignada. Aos domingos, afamília em júbilo vinha espiar a evolução da metamorfose da larva civil a caminho doguerreiro perfeito, de boina cravada na cabeça como uma cápsula, e botas gigantescascobertas da lama histórica de Verdun, a meio caminho entre o escuteiro mitômano e osoldado desconhecido de carnaval. E tudo decorria, entretanto, na atmosfera de colégiointerno que os quartéis sutilmente prolongam, com os seus segredos, os seus gruposiniciáticos, os seus estratagemas de perversidade primária destinados a iludir avigilância de prefeitos dos comandantes, mais preocupados com o trunfo do brídge, decuja escolha dependeria o rumo tranquilo ou tempestuoso da digestão do jantar, do quecom as convulsões noturnas das camaratas perdidas atrás da caspa bolorenta dosplátanos, onde cães magros como galgos de Greco se uniam em coitos melancólicos,fixando-nos com olhos dolorosamente implorativos de freiras moribundas.

Em Mafra, sob a chuva, vi correr os ratos entre os beliches na tristezadesmesurada do convento, labirinto de corredores assombrados por fantasmas defurriéis. Em Tomar, onde os peixes sobem do Mouchão para vogarem ao acaso pelasruas em cardumes cintilantes, construí Jerônimos de paus de fósforo admirados pelasescleróticas amarelas dos paraquedistas com hepatite. Em Elvas, à ilharga de umaspirante gordo e inseguro como um pudim flan na borda de um prato, desejei evaporarmenas muralhas da cidade à maneira dos violinistas de Chagall no azul espesso da tela,batendo as desajeitadas asas de cotão das minhas mangas militares, até pousar em Parispara uma revolução de exílio feita de quadros abstrato e de poemas concretos, a que oDiário de Notícias da Casa de Portugal forneceria o lastro lusitano de anúncios decasamento castos como notários hipermétropes, e de missas do sétimo dia adoçadas pelosorriso sem carne dos mortos. E em Santa Margarida, aguardando o embarque, pastoreeilongas bichas de soldados a caminho de um dentista demente que despovoava gengivasuivando de felicidade assassina:

- Com os queixais da gajada não vai colega ter problemas - berrava-me ele,encostado à sua cadeira horrenda, reluzente de satisfação e de suor, a enterrar omaçarico em chamas da broca num maxilar apavorado.

As senhoras do Movimento Nacional Feminino vinham por vezes distrair osvisons da menopausa distribuindo medalhas da Senhora de Fátima e porta-chaves com aefígie de Salazar, acompanhadas de padre-nossos nacionalistas e de ameaças do infernobíblico de Peniche, onde os agentes da PIDE superavam em eficácia os inocentes diabosde garfo em punho do catecismo. Sempre imaginei que os pelos dos seus púbis fossemde estola de raposa, e que das vaginas lhes escorressem, quando excitadas, gotas de MaGriffe e baba de caniche, que abandonavam rastros luzidios de caracol na murchidãodas coxas. Sentadas à mesa do brigadeiro, comiam a sopa com a ponta dos beiços talcomo os doentes das hemorroidas se acomodam no vértice dos sofás, deixando nosguardanapos de papel pegadas de copas de bâton de que se evolavam ainda desgostoscom as criadas e restos de tiradas patrióticas, e reencontrei-as no portaló do barco namanhã da partida, encorajando-nos com maços de cigarros Três Vintes e apertos de mãoviris em que as falanges, falanginhas e falangetas se articulavam entre si por intermédiodos anéis de brasão:

- Sigam descansados que nós na retaguarda permanecemos vigilantes.

E com efeito, observando bem, pouca coisa havia a recear de nádegas tão tristes, em relação às quais as cintas se conformavam com o papel secundário de fundas herniárias.

E depois, sabe como é, Lisboa principiou a afastar-se de mim num turbilhãocada vez mais atenuados de marchas marciais em cujos acordes rodopiavam os rostostrágicos e imóveis de despedida, que a lembrança paralisa nas atitudes de espanto. Oespelho do camarote devolvia-me feições deslocadas pela angústia, como um puzzledesarrumado, em que a careta aflita do sorriso adquiria a sinuosidade repulsiva de umacicatriz. Um dos médicos, dobrado no colchão do beliche, soluçava aos arrancos empalpitações irregulares de motor de táxi que se engasga, o outro contemplava os dedoscom a atenção vazia dos recém-nascidos ou dos idiotas que lambem longamente asunhas com os olhos extasiados, e eu perguntava a mim próprio o que fazíamos ali,agonizantes em suspenso no chão de máquina de costura do navio, com Lisboa a afogarsena distância num suspiro derradeiro de hino. Subitamente sem passado, com o portachavese a medalha de Salazar no bolso, de pé entre a banheira e o lavatório de quartode bonecas atarraxados à parede, sentia-me como a casa dos meus pais no Verão, semcortinas, de tapetes enrolados em jornais, móveis encostados aos cantos cobertos degrandes sudários poeirentos, as pratas emigradas para a copa da avó, e o gigantesco ecodos passos de ninguém nas salas desertas. Como quando se tosse nas garagens à noite,pensei, e se sente o peso insuportável da própria solidão, nas orelhas, sob a forma deestampidos reboantes, idênticos ao pulsar das têmporas no tambor do travesseiro.

Ao segundo dia alcançamos a Madeira, bolo-rei enfeitado de vivendascristalizadas a flutuar na bandeja de louça azul do mar, Alenquer à deriva no silêncio datarde. A orquestra do navio resfolegava boleros para os oficiais melancólicos comocorujas na aurora, e do porão onde os soldados se comprimiam subia um bafo espessode vomitado, odor para mim esquecido desde os meios-dias remotos da infância,quando na cozinha, à hora das refeições, se agitavam à volta da minha sopa relutante ascaretas alternadamente persuasivas e ameaçadoras da família, sublinhando cada colhercom uma salva de palmas festiva, até que alguém mais atento gritava:

- Cantem o Papagaio Loiro que o miúdo está a puxar o vômito.

Em resposta a este aviso terrível, todos aqueles adultos desatavam a desafinarem uníssono como no naufrágio do Titanic, de beiços arrepiados sobre os dentes deouro, uma criada batia tampas de tacho a compasso, o jardineiro fingia marchar devassoura ao ombro, e eu devolvia ao prato um roldão de massa e arroz que meobrigavam a reengolir, desta vez sem coro, sibilando em voz baixa insultos furibundos.Agora, percebe, estendido no convés numa cadeira de repouso, a sentir no progressivosuor do colarinho a implacável metamorfose do Inverno de Lisboa no Verão gelatinosodo Equador, mole e quente como as mãos do senhor Melo, barbeiro do avô, no meupescoço, na loja da Rua 1º de Dezembro, onde a umidade multiplicava o cromado dastesouras nos espelhos canhotos, o que com mais veemência me apetecia era que, talcomo nesses tempos recuados, a Gija me viesse coçar as costas estreitas de menino numvagar feito da paciência da ternura, até eu adormecer de sonhos lavrados pelo ancinhodos seus dedos apaziguadores, capazes de me expulsarem do corpo os fantasmasdesesperados ou aflitos que o habitam.

C

Luanda começou por ser um pobre cais sem majestade cujos armazénsondulavam na umidade e no calor. A água assemelhava-se a creme solar turvo a luzirsobre pele suja e velha que cordas podres sulcavam de veias ao acaso. Negrosdesfocados no excesso de claridade trêmula acocoravam-se em pequenos grupos,observando-nos com a distração intemporal, ao mesmo tempo aguda e cega, que seencontra nas fotografias que mostram os olhos voltados para dentro de John Coltranequando sopra no saxofone a sua doce amargura de anjo bêbedo, e eu imaginava adiantesdos beiços grossos de cada um daqueles homens um trompete invisível, pronto a subirverticalmente no ar denso como as cordas dos faquires. Pássaros brancos e magrosdissolviam-se nas palmeiras da baía ou nas casas de madeira da Ilha ao longe,submersas de arbustos e de insetos, nas quais putas cansadas por todos os homens semternura de Lisboa ali vinham beber os últimos champanhes de gasosa, à maneira debaleias agonizantes ancoradas numa praia final, movendo de tempos a tempos as ancasao tirmo de pasodoble de uma angústia indecifrável. Alferes pequeninos e de óculos,com ar competente de estudantes-trabalhadores escrupulosos, pastorearam-nos aossaltinhos na direção de carruagens de gado que aguardavam num pontão coberto dedetritos e de limos, pontão da Cruz Quebrada, lembra-se, onde os esgotos morremestendidos aos pés da cidade, cães idosos que bolsam no capacho vômitos de lixo: emtoda a parte do mundo a que aportamos vamos assinalando a nossa presença aventureiraatravés de padrões manuelinos e de latas de conserva vazias, numa sutil combinação deescorbuto heroico e de folha-de-flandres ferrugenta. Sempre apoiei que se erguesse emqualquer praça adequada do País um monumento ao escarro, escarro-busto, escarromarechal,escarro-poeta, escarr-homem de Estado, escarro-equestre, algo que contribua,no futuro, para a perfeita definição do perfeito português: gabava-se de fornicar eescarrava. Quanto à filosofia, minha cara amiga, basta-nos o artigo de fundo do jornal,tão rico de ideias como o deserto do Gobi de esquimós. De modo que, de cérebroexaurido por raciocínios complicados, tomamos ampolas bebíveis às refeições a fim deconseguir pensar.

Apetece-lhe outro drambuie? Falar em ampolas bebíveis dá-me sempre sede delíquidos xaroposos, amarelos, na esperança insensata de descobrir, por intermédio delese da suave e jovial tontura que me proporcionam o segredo da vida e das pessoas, aquadratura do círculo das emoções. Por vezes, ao sexto ou sétimo cálice, sinto quequase o consigo, que estou prestes a consegui-lo, que as pinças canhestras do meuentendimento vão colher, numa cautela cirúrgica, o delicado núcleo do mistério, maslogo de imediato me afundo no júbilo informe de uma idiotia pastosa a que me arrancono dia seguinte, a golpes de aspirina e sais de frutos, para tropeçar nos chinelos acaminho do emprego, carregando comigo a opacidade irremediável da minha existência,tão densa de um lodo de enigmas como pasta de açúcar na chávena matinal. Nunca lheaconteceu isto, sentir que está perto, que vai lograr num segundo a aspiração adiada eeternamente perseguida anos a fio, o projeto que é ao mesmo tempo o seu desespero e asua esperança, estender a mão para agarrá-lo numa alegria incontrolável e tombar, desúbito, de costas, de dedos cerrados sobre nada, à medida que a aspiração ou o projetose afastam tranquilamente de si no trote miúdo da indiferença, sem a fitarem sequer?Mas talvez que você não conheça essa espécie horrorosa de derrota, talvez que ametafísica constitua apenas para si um incômodo tão passageiro como uma comichãoefêmera, talvez que a habite a jubilosa leveza dos botes ancorados, balouçando devagarnuma cadência autônoma de berços. Uma das coisas, aliás, que me encanta em si, permita-me que lho afirme, é a inocência, não a inocência inocente das crianças e dospolícias, feita de uma espécie de virgindade interior obtida à custa da credulidade ou daestupidez, mas a inocência sábia, resignada, quase vegetal, diria, dos que aguardam dosoutros e deles próprios o mesmo que você e eu, aqui sentados, esperamos do empregadoque se dirige para nós chamado pelo meu braço no ar de bom aluno crônico: uma vagaatenção distraída e o absoluto desdém pela magra gorjeta da nossa gratidão.

O comboio cheio de malas e do receio tímido de estrangeiros em terradesconhecida, cuja lusitanidade se nos afigurava tão problemática como a honestidadede um ministro, rolou do cais para os musseques num gingar inchado de pombo. Amiséria colorida dos bairros que cercavam Luanda, as coxas lentas das mulheres, asgordas barrigas de fome das crianças imóveis nos taludes a olharem-nos, arrastando poruma guita brinquedos irrisóris, principiaram a acordar em mim um sentimento esquisitode absurdo, cujo desconforto persistente vinha sentindo desde a partida de Lisboa, nacabeça ou nas tripas, sob a forma física de uma aflição inlocalizável, aflição que um dospadres presentes no navio parecia compartilhar comigo, afadigado em encontrar nobreviário justificações bíblicas para massacres de inocentes. Encontrávamo-nos àsvezes, à noite, na amurada, ele de livro em punho e eu de mãos nos bolsos, para fitar asmesmas ondas negras e opacas em que reflexos ocasionais (de que luzes? de queestrelas? de que gigantescas pupilas?) saltavam como peixes, como se buscássemos,naquela escura extensão horizontal que as hélices do barco aravam, uma esclarecedoraresposta a inquietações informuladas. Perdi esse padre de vista (uma das minhas sinas,aliás, consiste em perder rapidamente de vista todos os padres e todas as mulheres queencontro) mas recordo com a nitidez de um pesadelo infantil a sua careta de Noéperplexo, embarcado à força numa arca de bichos com cólicas, que arrancaram àsflorestas natais das suas repartições, das suas mesas de bilhar e dos seus clubesrecreativos, para os lançar, em nome de ideais veementes e imbecis, em dois anos deangústia, de insegurança e de morte. Acerca da veracidade desta última, de resto, nãosobejavam dúvidas: grandes caixões repletos de féretros ocupavam uma parte do porão,e o jogo, um pouco macabro, consistia em tentar adivinhar, observando os rostos dosoutros e o nosso próprio, os seus habitantes futuros. Aquele? Eu? Ambos? O majorgordo lá ao fundo a conversar com o alferes de transmissões? Sempre que se examinamexageradamente as pessoas elas começam a adquirir, insensivelmente, não um aspectofamiliar mas um perfil póstumo, que a nossa fantasia do desaparecimento delasdignifica. A simpatia, a amizade, um certa ternura até, tornam-se mais fáceis, acomplacência surge sem custo, a idiotia ganha a sedução amável da ingenuidade. Nofundo, claro, é a nossa própria morte que tememos na vivência da alheia e é em facedela e por ela que nos tornamos submissamente cobardes.

Não quer passar ao vodka? Enfrenta-se melhor o espectro da agonia com alíngua e o estômago a arder, e esse tipo de álcool de lamparina que cheira a perfume detia-avó possui a benéfica virtude de me incendiar a gastrite e, em consequência, subir onível da coragem: nada como a azia para dissolver o medo ou antes, se preferir, paratransformar o nosso passivo egoísmo habitual num estrebuchar impetuoso, não muitodiverso na esseência mas pelo menos mais ativo: o segredo da famosa úlcera deNapoleão, percebe?, a chave que elucida Wagram e Austerlitz. E estes pires de coisaspequeninas, venenosas e salgadas, que o imperador nunca provou decerto, percorrerãoos nossos intestinos como pedrinhas de soda cáustica capazes de nos atirarem, a favorda guinada de uma cólica, para as mais loucas ou doces aventuras. Quem sabe seacabaremos a noite a fazer amor um com o outro, furibundos como rinocerontes comdores de dentes, até a manhã aclarar lividamente os lençóis desfeitos pelas nossasmarradas de desespero? Os vizinhos do andar de baixo cuidarão, atônitos, que trouxe para casa dis paquidermes que se entredevoram num concerto de guinchos de ódio e departo, e quem sabe se tal novidade despertará neles humores há muito tempoadormecidos, e os leve a engancharem-se à maneira das peças desses puzzles japonesesimpossíveis de separar, a não ser pela infinita paciência de um cirurgião ou a facaexpedita de um capador definitivo. É capaz de levar o pequeno-almoço à cama a cheirarjá a dentífrico Binaca e a otimismo? De assobiar pelos incisivos como os padeiros deantigamente, anjos enfarinhados de cesto ao ombro que substituíam as corujas cansadasdos guarda-noturnos, e cuja recordação constitui uma das menos melancólicas fatias dasminhas lembranças de infância? É capaz de amar? Desculpe, a pergunta é tola, todas asmulheres são capazes de amar e as que o não são amam-se a si próprias através dosoutros, o que na prática, e pelo menos nos primeiros meses, é quase indistinguível doafeto genuíno. Não faça caso, o vinho segue o seu curso e daqui a nada peço-lhe paracasar comigo: é o costume. Quando estou muito só ou bebi em excesso, um ramalhetede flores de cera de projetos conjugais desata a crescer em mim à maneira do bolor nosarmários fechados, e torno-me paegajoso, vulnerável, piegas e totalmente débil; é omomento, aviso-a, de se retirar à sorrelfa com uma desculpa qualquer, de se meter nocarro num suspiro de alívio, de telefonar depois do cabeleireiro às amigas a narrar-lhesentre risos as minhas propostas sem imaginação. No entanto e até lá, se não vêinconveniente, aproximo um pouco mais a minha cadeira e acompanho-a durante umcopo ou dois.

O comboio que fugiu conosco daquela Cruz Quebrada africana e da sua coroa deguindastes oxidados e gaivotas pernaltas acabou por depositar-nos numa espécie dequartel ao largo de Luanda, casernas de cimento a arderem no calor, onde o suorcrepitava na pele como bolhas de fervura. Nos alojamentos dos oficiais, cercados debananeiras de grandes folhas franjdas idênticas a asas de arcanjos em ruína, osmosquitos atravessavam a rede das janelas para produzirem no escuro, em conjunto, umrumor insistente e agudo em que o meu sangue, sorvido em bochechos rápidos efinalmente liberto de mim, cantava. Lá fora, um céu de estrelas desconhecidassurpreendia-me: assaltava-me por vezes a impressão de que haviam sobreposto umuniverso falso ao meu universo habitual, e que me bastaria romper com os dedos essecenário frágil e insólito para reingressar de novo no quotidiano do costume, povoado derostos familiares e de cheiros que me acompanhavam com a fidelidade dos cachorros.Jantávamos na cidade em esplanadas sórdidas repletas de soldados, entre cujos joelhoscirculavam de cócoras engraxadores miseráveis, lançando-lhes às botas soslaiosveementes de paixão, ou indivíduos sem pernas que estendiam timidamente manipançosesculpidos a canivete, equivalentes às Torres de Belém de plástico do meu país natal.Sujeitos brancos sebentos, de pasta sob o braço, trocavam dinheiro português pordinheiro angolano num vagar sabido de agiotas; ruas, que se pareciam todas com aMorais Soares, aproximavam-se e afastavam-se num labirinto atrapalhado a caminho dafortaleza; néon provinciano espalhava-se nos passeios em poças piscas de estrabismoalarajando. Ancorado na baía, o navio que nos trouxera duplicava o reflexo na águapreparando a partida: ia regressar sem mim ao Inverno e ao nevoeiro de Lisboa ondetudo prosseguia irritantemente na minha ausência com o ritmo do costume, permitindomeimaginar, despeitado, o que se seguiria de modo inevitável à minha morte e que era,afinal, o prolongamento da indiferença morna e neutra, sem entusiasmo nem tragédias,que eu tão bem conhecia, feita de dias cosidos uns aos outros numa fúnebre burocraciadesprovida de inquietações de labareda. Acredita nos sobressaltos, nos grandes lances,nos terramotos interiores, nos voos planados de êxtase? Desengane-se, minha cara, tudonão passa de uma mistificação ótica, de um engenhoso jogo de espelhos, de uma meramaquinação de teatro sem mais realidade que a cartolina e o celofane do cenário que a enformam e a força da nossa ilusão a conferir-lhe uma aparência de movimento. Comoeste bar e os seus candeeiros Arte Nova de gosto duvidoso, os seus habitantes decabeças juntas segredando-se banalidades deliciosas na euforia suave do álcool, amúsica de fundo a conferir aos nossos sorrisos a misteriosa profundidade dossentimentos que não possuímos nunca; mais meia garrafa e cuidar-nos-íamos Vermeer,tão hábeis como ele para traduzir, através da simplicidade doméstica de um gesto, atocante e inexprimível amargura da nossa condição. A proximidade da morte torna-nosmais avisados ou, pelo menos, mais prudentes: em Luanda, à espera de seguir dentro dedias para a zona de combate, trocávamos com vantagem a metafísica pelos cabaréssafados da ilha, um pega de cada lado, o balde de espumante Raposeira à frente, e apequena vesga do strip-tease a despir-se no palco no mesmo alheamento cansado comque uma cobra velha muda de pele. Acordei algumas vezes em quartos de pensãomanhosa sem haver entendido sequer como para lá entrara, e vesti-me em silênciobuscando os sapatos sob um soutien de rendinhas pretas no intuito de não perturbar osono de um vulto qualquer enrolado nos lençóis, e de que percebia somente a massaconfusa dos cabelos. De fato, e consoante as profecias da família, tornara-me umhomem: uma espécie de avidez triste e cínica, feita de desesperança cúpida, de egoísmo,e da pressa de me esconder de mim próprio, tinha substituído para sempre o frágilprazer da alegria infantil, do riso sem reservas nem subentendidos, embalsamado depureza, e que me parece escutar, sabe?, de tempos a tempos, à noite, ao voltar para casa,numa rua deserta, ecoando nas minhas costas numa cascata de troça.

D

Não, não me dói nada, talvez um pouco a cabeça, uma insignificância, umaimpressão, uma tontura. Este rumor monótono de conversa, estes odores misturados, asfeições que se desarrumam e se deslocam no ato de falar atordoam-me: não conheçoninguém, não possuo o hábito destes tenplos exóticos em que se sacrificam não jávísceras de animais mas o próprio fígado, modernas catacumbas a que as lâmpadasvotivas das luzes raras e o murmúrio de reza das conversas conferem uma tonalidade dereligião sacrílega de que o barman é o bezerro de oiro, imóvel atrás do altar-mor dobalcão, cercado pelos diáconos dos frequentadores do costume, que erguem em seulouvor black-velvets rituais. As cruzes do timol substituem os crucifixos, jejuamos pelaPáscoa a fim de baixar as gorduras do sangue, comungamos aos domingos vitaminaspurificadoras, confessamos ao grupanalista os atropelos à castidade, e recebemos depenitência a sua conta mensal; nada mudou, como vê, salvo que nos consideramos ateusporque, em lugar de batermos com a mão no peito, bate o médico por nós com odiafragma do estetoscópio. Sinto-me aqui, percebe, como sentia em pequeno o meu paina igreja, nas missas pelos defuntos da família onde chegava invariavelmente a meio,plantado junto à pia de água benta, de mãos atrás das costas, Robespierre de canadiana adesafiar as caixas das esmolas e os olhos de barro triste dos santos. Pertenço sem dúvidaa outro sítio, não sei bem qual, aliás, mas suponho que tão recuado no tempo e noespaço que jamais o recuperarei, talvez que ao Jardim Zoológico de dantes e aoprofessor preto a deslizar para trás no rinque de patinagem sob as árvores, entre osguinchos dos bichos e a campainha do vendedor de gelados. Se eu fosse girafa amá-la-iaem silêncio, fitando-a de cima da rede numa melancolia de guindaste, amá-la-ia com oamor desajeitado dos exageradamente altos, mastigando o chiclets de uma folhapensativa, ciumento dos ursos, dos papa-formigas, dos ornitorrincos, das catatuas e dos crocodilos, e desceria trabalhosamente o pescoço pelas roldanas dos tendões paraesconder a cabeça no seu peito em trêmulas marradas de ternura. Porque, deixe-meconfidenciar-lho, sou terno, sou terno mesmo antes do sexto JB sem água ou do oitavodrambuie, sou estupidamente e submissamente terno como um cão doente, um dessescães implorativos de órbitas demasiado humanas que de quando em quando, na rua, semmotivo, nos colam o focinho aos calcanhares gemendo torturadas paixões de escravo,que acabamos por sacudir o pontapé e se afasta, a soluçar, decerto, interiormentesonetos de almanaque, chorando lágrimas de violetas murchas. Duas coisas, minha boaamiga, continuo a partilhar com a classe de que venho, desapontando o poster doGuevara, esse Carlos Gardel da Revolução, que pendurei sobre a cama a fim de que meproteja dos pesadelos burgueses, e que funciona um pouco para mim como uma espéciede joia magnética Vitaphor da alma: a emoção fácil que me faz fungar diante datelevisão da leitaria à hora da novela, e o medo arrepiado do ridículo. O que eu gostava,por exemplo,de conseguir, sem ostentação nem vergonha, coroar a minha calvícienascente de um chapéu tirolês de pena. Ou de deixar crescer a unha do dedo mínimo.Ou de entalar um bilhete de elétrico dobrado na aliança. Ou de atender os meus doentesvestido de palhaço pobre. Ou de lhe oferecer o meu retrato em coração de esmalte paravocê usar quando for gorda, porque será gorda um dia, descanse, todos nós seremosgordos, gordos, gordos e tranquilos, como gatos capados à espera da morte nas matinéesdo Odeon.

Porém, na época de que lhe falo eu tinha cabelo, bastante cabelo, enfim, algumcabelo se bem que aparado regularmente curto e escondido dentro do pires da boinamilitar, e descia de Luanda a caminho de Nova Lisboa na direção da guerra, através deinacreditáveis horizontes sem limites. Entenda-me: sou homem de um país estreito evelho, de uma cidade afogada de casas que se multiplicam e refletem umas às outras nasfrontarias de azulejo e nos ovais dos lagos, e a ilusão de espaço que aqui conheço,porque o céu é feito de pombos próximos, consiste numa magra fatia de rio que osgumes de duas esquinas apertam, e o braço de um navegador de bronze atravessaobliquamente num ímpeto heroico. Nasci e cresci num acanhado universo de crochê,crochê de tia-avó e crochê manuelino, filigranaram-me a cabeça na infância,habituaram-me à pequenez do bibelot, proibiram-me o canto nono de Os Lusíadas eensinaram-me desde sempre a acenar com o lenço em lugar de partir. Policiaram-me oespírito, em suma, e reduziram-me a geografia aos problemas dos fusos, a cálculoshorários de amanuense cuja caravela de aportar às Índias se metamorfoseou numa mesade fórmica com esponja em cima para molhar os selos e a língua. Já lhe aconteceusonhar de cotovelos apoiados num desses tampos horríveis e acabar o dia num terceiroandar de Campo de Ourique ou da Póvoa de Santo Adrião, a ouvir crescer a própriabarba nos serões vazios? Já sofreu a morte quotidiana de acordar todas as manhãs aolado de uma pessoa que mornamente se detesta? Irem os dois para o emprego no carro,olheirentos de sono, pesados já de decepção e cansaço, ocos de palavras, desentimentos, de vida? Pois imagine que de repente, sem aviso, todo esse mundo emdiminutivo, toda essa teia de hábitos tristes, toda essa reduzida melancolia de pisapapéisem que neva lá dentro, em que neva monotonamente lá dentro, se evaporava, asraízes que a prendem a resignações de almofada bordada desapareciam, os elos que aagarram a pessoas que a aborrecem se quebravam e você acordava numa camioneta, nãomuito confortável, é certo, e cheia de tropas, é verdade, mas circulando numa paisageminimaginável, onde tudo flutua, as cores, as árvores, os gigantescos contornos dascoisas, o céu abrindo e fechando escadarias de nuvens em que a vista tropeça até cair decostas, como um grande pássaro extasiado.

De tempos a tempos, no entanto, Portugal reaparecia sob a forma de pequenaspovoações à beira da estrada, nas quais raros brancos translúcidos de paludismotentavam desesperadamente recriar Moscavides perdidas, colando andorinhas de loiçanos intervalos das janelas ou pendurando lanternas de ferro forjado nos alpendres dasportas: quem levou séculos a semear igrejas acaba inevitavelmente, por reflexo, acolocar jarras de flores de plástico no tampo dos frigoríficos, do mesmo modo queTolstoi, agonizante, movia os dedos cegos no lençol repetindo o ato de escrever, com adiferença de as nossas frases se resumirem a boas-vindas de azulejo e a palavras deacolhimento desbotado no capacho da entrada. Até que ao fim da tarde, um fim de tardesem crepúsculo, com a noite a suceder-se abruptamente ao dia, chegamos a NovaLisboa, cidade ferroviária no planalto, de que guardo uma confusa lembrança de cafésprovincianos e de montras poeirentas, e do restaurante onde jantamos, de espingardaentre os joelhos, obsevados por mulatos de óculos escuros parados diante de cervejasimemoriais, cujas feições imóveis possuíam a consistência opaca das cicatrizes; durantetodo o bife senti-me como que no prefácio do massacre de S. Valentim, prestes atiroteios de Lei Seca, e levava o garfo à boca no aborrecimento mole de Al Capone,compondo nos espelhos sorrisos de crueldade manifesta; ainda hoje, sabe, saio docinema a acender o cigarro à maneira de Humphrey Bogart, até que a visão da minhaimagem num vidro me desiluda: em vez de caminhar para os braços de Lauren Bacalldirijo-me de fato para a Picheleira, e a ilusão desaba no fragor lancinante de um mitodesfeito. Meto a chava à porta (Humphrey Bogart ou eu?), hesito, entro, olho a gravurado vestíbulo (já definitivamente eu a olhá-la) e afundo-me no sofá no suspiro de pneuque se esvazia de uma Gata Borralheira ao contrário. Como quando sair daqui, percebe,ao ter acabado de lhe contar esta história esquisita e de ter bebido, em vagares decamelo, todas as garrafas visíveis, e me achar lá fora, ao frio, longe do seu silêncio e doseu sorriso, sozinho como um órfão, de mãos nos bolsos, a assistir ao nascer da manhãnuma angústia cremosa que a lividez das árvores macabramente sublinha. Asmadrugadas, de resto, são o meu tormento, gordurosas, geladas, azedas, repletas deamargura e de rancor. Nada vive ainda e, todavia, uma ameaça indefinível ganha corpo,aproxima-se, persegue-nos, incha-nos no peito, impede-nos de respirar livremente, aspregas do travesseiro petrificam-se, os móveis, agudos, hostilizam-nos. As plantas dosvasos avançam para nós tentáculos sequiosos, do outro lado dos espelhos objetoscanhotos recusam-se aos dedos que lhes damos, os chinelos sumiram-se, o roupão nãoexiste, e no interior de nós, teimoso, insistente, dolorosamente lento, caminha estecomboio que atravessa Angola, de Nova Lisboa ao Luso, a transbordar de homensfardados que cabeceiam contra as janelas à procura de um sono impossível.

Conhece o general Machado? Não, não se franza, não procure, ninguém conheceo general Machado, cem em cada cem portugueses nunca ouviram falar do generalMachado, o planeta gira apesar desta ignorância do general Machado, e eupessoalmentem odeio-o. Era o pai da minha avó materna, a qual, aos domingos, antesdo almoço, me apontava com orgulho a fotografia de uma espécie de bombeiroantipático de bigodes, dono de numerosas medalhas que tronavam no armário de vidroda sala juntamente com outros troféus guerreiros igualmente inúteis, mas a que a famíliaparecia prestar uma veneração de relíquias. Pois fique sabendo que durante anos,aborrecido e pasmado, escutei semanalmente, em folhetins narrados pela vozemocionada da avó, as proezas vetustas do bombeiro elevadas na circunstância a cumesde epopeia: o general Machado envenenou-me anos e anos o bife introduzinho na carneo mofo indigesto de uma dignidade hirta, cuja rigidez vitoriana me enjoava. E foiprecisamente esta criatura nefasta, de que as órbitas globulosas de prefeito ou de curame reprovaram da parede, recusando-me mesmo a absolvição dúbia que paira como um halo nos sorrisos amarelos dos retratos antigos, que construiu, ou dirigiu a construção,ou concebeu a construção, ou concebeu e dirigiu a construção do caminho de ferro emque seguíamos, de rebenta-minas na dianteira, chocalhando numa planície sem princípionem termo, mastigando as conservas da ração de combate num desapetite em quemorava já o medo pânico da morte, que durante vinte e sete meses cresceu na umidadedas minhas tripas os seus cogumelos esverdeados. Na messe de oficiais do Luso,espécie de Bairro da Madre de Deus de ruas geométricas e casas econômicas plantadono planalto dos Bundas, no espírito Portugal dos Pequeninos corporativo que fez doEstado Novo uma constante aberração por defeito ou por excesso, vi, pela primeira vezem muito tempo, cortinas, cálices, mulheres brancas e tapetes: a pouco e pouco aquilo aque durante tantos anos me habituara afastava-se de mim, família, conforto, sossego, opróprio prazer das maçadas sem perigo, das melancolias mansas tão agradáveis quandonada nos falta, do tédio à Antonio Nobre nascido da crença convicta de umasuperioridade ilusória. Por exemplo, a tristeza depois do jantar substituía as palavrascruzadas do jornal, e entretinha-me a preencher os quadradinhos em branco detrabalhosas elucubrações oscilando entre o idiota chapado e o vulgar profundo, limitesaliás entre os quais o pensamento lusitano se condensa, equivalentes metafísicos dosversos dos cravos de papel. Compreenda-me: pertencemos a uma terra em que avivacidade faz as vezes do talento e onde a destreza ocupa o lugar da capacidadecriadora, e creio com frequência que não passamos de fato de débeis mentaishabilidosos consertando os fusíveis da alma à custa de expedientes de arame. Inclusiveo estar aqui consigo talvez não passe de um expediente de arame que me salve da marébaixade desespero que me ameaça, desespero de que não conheço a causa, percebe, eque à noite me enrola no visco do seu lodo, me afoga de aflição e de receio, me molha obeiço de cima de um bigode de suor, me faz tremer os joelhos um contra o outro emcastanholas de dentadura postiça de porteiro adormecido. Não, a sério, o crepúsculochega e o coração acelera-se, palpo-o no pulso, as vísceras comprimem-se, a vesículadói-me, os ouvidos zumbem, qualquer coisa de indefinível e prestes a romper-se palpita,tenso, no meu peito: um dia destes, o porteiro dá comigo estendido nu no chão da casade banho, um fio de pasta de dentes e de sangue ao canto da boca, as pupilassubitamente enorme contemplando nada, a cheirar mal, sem cor, inchado de gases. Você lê no jornal, não acredita, volta a ler, verifica o nome, a profissão, a idade, e passadasduas horas esqueceu-se e virá aqui, como de costume, ancorar o seu silêncio numaenseada de copos, tilintar em cada mínimo gesto as pulseiras indianas que recordamuma Londres mítica perdida no nevoeiro do passado, na época em que Bod Dylan falavae as pernas das vendedoras do Selfridges eram quase tão atraentes como os sorrisos dos polícias.

Outro vodka? É verdade que não acabei o meu mas neste passo da minhanarrativa perturbo-me invariavelmente, que quer, foi há seis anos e perturbo-me ainda:descíamos do Luso para as Terras do Fim do Mundo, em coluna, por picadas de areia,Lacusse, Luanguinga, as companhias independentes que protegiam a construção daestrada, o deserto uniforme e feio do Leste, quimbos cercados de arame farpado emtorno dos pré-fabricados dos quartéis, o silêncio de cemitério dos refeitórios, casernasde zinco a apodrecer devagar, descíamos para as Terras do Fim do Mundo, a dois milquilômetros de Luanda, Janeiro acabava, chovia, e íamos morrer, íamos morrer echovia, chovia, sentado na cabina da camioneta, ao lado do condutor, de boné nos olhos,o vibrar de um cigarro infinito na mão, iniciei a dolorosa aprendizagem da agonia.

E

Gago Coutinho, a trezentos quilômetros ao sul do Luso e junto à fronteira com aZâmbia, era um mamilo de terra vermelha poeirenta entre duas chanas podres, umquartel, quimbos chefiados por sobas que o Governo Português obrigava a fantasiascarnavalescas de estrelas e fitas ridículas, o posto da PIDE, a administração, o café doMete Lenha e a aldeia dos leprosos; uma vez por semana eu sacudia o badalo do sino decapela pendurado no meio de um círculo de cubatas aparentemente desertas, no silênciocarregado de ruído que África tem quando se cala, e dezenas de larvas informesprincipiavam a surgir, manquejando, arrastando-se, trotando, dos arbustos, das árvoresdas palhotas, dos contornos indecisos das sombras, larvas de Bosch de todas as idadesem cujos ombros se agitavam, como penas, franjas de farrapos, avançando para mim àmaneira dos sapos monstruosos dos pesadelos das crianças, a estenderem os cotosulcerados para os frascos de remédio. O senhor Jonatão, o enfermeiro negro dadelegação de saúde nominal, que corria constantemente como os chineses do Tim-Tim,distribuía as pastilhas na majestade macabra de um ritual eucarístico para desenterradosvivos, alguns dos quais, já cegos, voltavam para ninguém as órbitas desabitadas,reduzidas a uma névoa azul-úmida de muco repugnante. Miúdos sem dedos, afligidosde moscas, agrupavam-se numa pinha muda de espanto, mulheres de feições de gárgulasegredavam-se diálogos que os céus da boca em ruína tornavam numa pasta de gemidos,e eu pensava na ressurreição da carne do catecismo, como pedaços de tripas e ergueremsedos buracos dos cemitérios num despertar vagaroso de ofídeos. Um pouco, percebe,como se toda esta gente pálida que cochicha curvada em atitudes de feto, enrolando-semutuamente em torno das nucas os tentáculos sem ossos dos braços, saísse de roldão aporta do bar, não para a noite domesticada e cúmplice da Lapa, feita do ressonarconjunto de bassets e de condessas, mas para um dia excessivo iluminado pelo solvertical das salas de operação dos ringues de boxe, que revelasse sem piedade asolheiras, as rugas, as pregas de cansaço, a murchidão dos seios, as expressões vazias quenenhum cognac mobila. O senhor Jonatão, regiamente instalado numa cadeiradesconjuntada, absolvia de tintura de iodo as feridas que lhe ofereciam pincelando-as deextremas-unções expeditivas, inúteis esconjuros contra a presença da morte, e eucirculava ao acaso de quimbo em quimbo assustando velhas esqueléticas acocoradas àentrada das palhoras, e de que as saias, demasiado largas par as suas ancas de ícones, seassemelhavam às mangas de papel que embrulham as palhinhas de refresco. E havia ocheiro de decomposição de mandioca a secar nas esteiras, a umidade, que se farejava noar, da chuva que crescia, excrementos secos como os cagalhões de cartão do Entrudo,ratos obesos remexendo o lixo, a chana horizontal ao longe atavessada por um riosinuoso e estreito como uma veia da mão, e os morcegos a aguardarem o crepúsculo nosvestígios de templo de Diana de uma casa de colono, afogada no capim sem cor doesquecimento.

Gago Coutinho era também o café do Mete Lenha, branco sopinha de massacujo esforço para falar o torcia de caretas de defecação, casado com uma espécie debotija de gascidla enfeitada de colares estridentes, sempre a queixar-se aos oficiais dosbeliscões com que os soldados lhe homenageavam as nádegas atlânticas, difíceis, aliás,de discernir numa mulher aparentada a um imenso glúteo rolando em que mesmo asbochechas possuíam qualquer coisa de anal e o nariz se aparentava a a inchaçoincômodo de hemorroida, café para refrescos inocentes nas tão compridas tarde dedomingo, e onde pela primeira vez o tenente, confidencial, abriu a carteira para memostrar a fotografia da criada, e revelou, recostando-se para trás no assento de ferro por demais exíguo para as duas omoplatas enormes, o produto sintético das meditações de uma vida:

- Sopeira em que o patrão não se ponha nunca chega a criar amor à casa.

No edifício sinistro do hospital civil, idêntico a uma pensão de provínciamoribunda de paredes empoladas por furúnculos de umidade, os doentes de paludismoestremeciam de febre nos degraus da entrada, no corredor, na sala de consulta, nocubículo destinado às injeções, à espera das ampolas de quinino na tranquilidadeimemorial dos negros, para quem o tempo, a distância e a vida possuem umaprofundeza e um significado impossíveis de explicar a quem nasceu entre túmulos deinfantas e despertadores de folha, aguilhoado por datas de batalhas, mosteiros e relógiosde ponto. Diante da secretária, espessa como um bunker, à qual instalava a minhaciência de manual, a miséria e a fome desfilavam manhã fora na serenidade monótonada chuva de Setembro, e a única resposta que a minha impotência me permitia eram aspastilhas de vitamina da tropa adoçadas por um sorriso de desculpa e de vergonha.Impedidos de pescar e de caçar, sem lavras, prisioneiros do arame farpado e das esmolasde peixe seco da administração, espiados pela PIDE, tiranizados pelos cipaios, osluchazes fugiam para a mata, onde o MPLA, inimigo invisível, se escondia, obrigandonosa uma alucinante guerra de fantasmas. A cada ferido de emboscada ou de mina amesma pergunta aflita me ocorria, a mim, filho da Mocidade Portuguesa, das Novidadese do Debate, sobrinho de catequistas e íntimo da Sagrada Família que nos visitava adomicílio numa redoma de vidro, empurrado para aquele espanto de pólvora numaimensa surpresa: sãos os guerrilheiros ou Lisboa que nos assassinam, Lisboa, osAmericanos, os Russos, os Chineses, o caralho da puta que os pariu combinados para nofoderem os cornos em nome de interesses que me escapam, quem me enfiou sem avisoneste cu de Judas de pó vermelho e de areia, a jogar as damas com o capitão idoso saídode sargento que cheirava a menopausa de escriturário resignado e sofria do azedumecrônico da colite, quem me decifra o absurdo disto, as cartas que recebo e me falam deum mundo que a lonjura tornou estrangeiro e irreal, os calendários que risco de cruzes acontar os dias que me separam do regresso e apenas achando à minha frente um túnelinfindável de meses, um escuro túnel de meses onde me precipito mugindo, boi feridoque não entende, que não entende, que não logra entender e acaba por enterrar o tristefocinho molhado nos ossos de frango com esparguete do rancho, do mesmo modo,percebe, que aqui, na sua companhia, me sinto cavalo de narinas enfiadas na alcofa devodka, mastigando o feno azedo do limão.

A seguir ao jantar os jeeps dos oficiais giravam de palhota em palhota hesitaçõesde pirilampos: o amor barato e rápido em compartimentos abafados, aclarados porpavios indecisos de petróleo que coloriam as paredes de barro de uma ilusão de capelas.Chegava-se de bisnaga antivenérea no bolso e aplicava-se a pomada através dabraguilha aberta à maneira de uma vulva de pano, sob o olhar indiferente de mulheresde dentes serrados em triângulo, acocoradas na cama no alheamento de perfil de certosretratos de Picasso, em cuja curva dos lábios flutuam Guernicas desdenhosas. Nomesmo colchão dormiam, em regra, os filhos, as galinhas e algum antepassadodecrépito perdido em pesadelos de múmia, rosnando os hieróglifos dos seus sonhos. Otenente fornicava de pala do boné para trás e pistola à cinta, com o impedido deespingarda em riste a vigiar as redondezas, o oficial de operações mandou vir ummáquina de costura do Luso e cozia bainhas de calça de madrugada ao lado de umanegra esplêndida, de enérgicos seios pendentes como os da loba de Roma, e o capitãodas damas, instalado ao volante, pedia a raparigas impúberes que o masturbassem,oferecendo em troca cartuchinhos de rebuçados de hortelã-pimenta: o branco chegou com um chicote, cantava o milícia na viola, o branco chegou com um chicote e bateu no soba e no povo, o branco chegou com um chicote e bateu no soba e no povo.

Se você soubesse o que é acordar com vontade de urinar a meio da noite numanoite sem lua, vir cá fora mijar e nada existir em torno, nenhuma luz, nenhuma caserna,nenhum vulto, só o ruído do seu chichi invisível e as estrelas congeladas na meia laranjado céu, afastadas demais, pequenas demais, inacessíveis demais, prestes a desaparecerporque a manhã surge de repente e é dia adulto, acordar a meio da noite e sentir naquietude e no silêncio, percebe?, o sono inumerável de África, e nós ali de pernasafastadas, em camisa e cuecas, minúsculos, vulneráveis, ridículos, estranhos, sempassado nem futuro, a flutuar na estreiteza assustada do presente, coçando a flor-docongodos testículos. Já nessa altura certamente você acostara neste bar, com o mesmocigarro na mão esquerda, o mesmo copo na mão direita e a mesma absoluta indiferençanos olhos, inalteravelmente imóvel, pássaro de pálpebras pintadas pousado no ramo dobanco a tilintar as pulseiras indianas na música precisa dos seus gestos. Gosto dos seusgestos, assim automáticos e lentos como os das figuras dos relógios prosseguindo o seutrajetozinho obstinado, acabava-se de urinar e as bolhas ferviam na terra como se abexiga, sabe como é, fosse uma chaleira a arder, voltava para dentro, e estendia-me nacama esmaltada de branco da enfermaria até o primeiro clarim me extrair emsobressalto dos meus vapores difusos.

De tempos a tempos chegavam visitas inesperadas ao cu de Judas: oficiais doEstado-Maior de Luanda, que o formol do ar condicionado conservava, quinquagenáriassul-africanas que beijavam os doentes em arroubos de cio da menopausa, duas atrizes derevista a agitarem a descompasso as pernas gordas num palco de mesas, acompanhadaspor um acordeão exausto; jantaram na messe ao lado do comandante reluzente deorgulho, cuja timidez se embrulhava nos sorrisos de um adolescente em falta, enquantoo tenente da criada lhes cirandava em torno, farejando os decotes num êstase mudo. Ocapelão, contrito, descia as pálpebras virgens sobre o breviário da sopa.

- Quarenta anos a acumular esperma - calculava o capitão idoso a medi-lo de longe.

- Se aquele gajo se vier afoga-nos a todos na água benta dos tomates.

As atrizes acabaram por dormi no posto da PIDE, vigiadas por agentes biliososcujas sobrancelhas se franziam de ameaças indecifráveis. Dizia-se que a mulher doinspetor, espanhola magra com aspecto de contorcionista decadente que se exprimia aosgritos numa linguagem de circo, torturava ela mesma os prisioneiros inventandomartírios sem sutiliza de Lucrécia Bórgia das Portas de Santo Antão. Mais tarde, naBaixa do Cassanje, ouvi falar do enforcamento de um ginga para edificação da sanzala,e dos negros que cavavam um buraco na mata, desciam para dentro, e aguardavampacientemente que lhes rebentassem a cabeça a tiro e os cobrissem de areia, puxandoum cobertor de terra por sobre o sangue dos cadáveres.

- Filhos da puta, filhos da puta, filhos da puta - repetia o tenente, siderado.

O branco veio com um chicote, cantava o milícia na viola, e bateu no soba e no povo.

F

Já reparou que a esta hora da noite e a este nível do álcool o corpo se começa aemancipar de nós, a recusar-se a acender o cigarro, a segurar o copo numa incertezatateante, a vaguear dentro da roupa oscilações de gelatina? O encanto dos bares, não é?,consiste em, a partir das duas da manhã, não ser a alma a libertar-se do seu invólucro terreste e a seguir verticalmente para o céu no esvoaçar místico de cortinas brancas dasmortes do missal, mas a carne que se livra, um pouco espantada, do espírito, e iniciauma dança pastosa de estátua de cera que se funde até terminar nas lágrimas de remorsoda aurora, quando a primeira luz oblíqua nos revela, com implacabilidade radioscópica,o triste esqueleto da solidão sem remédio. Se no observarmos bem, aliás, podemosprincipiar a entrever já o perfil dos nossos ossos, que as vírgulas das olheiras e o acentocircunflexo da boca disfarçam de sorrisos melancólicos de que pendem restos murchosde ironia idênticos ao braço inerte de um ferido. Talvez o tipo da mesa ao lado, que odécimo Carvalho Ribeiro Ferreira inclina dezassete graus para bombordo na rigidez deandor de uma torre de Pisa de casaco de veludo à beira de queda catastrófica, sejaAmedeo Modigliani a procurar no fundo do cálice um rosto assassinado de mulher,talvez Fernando Pessoa habite aquele senhor de óculos ao pé do espelho, em cujaaguardente de pera pulsa o volante comovido da Ode Marítima, talvez o meu irmãoScott Fitzgerald, que o Blondin assemelhava a um três quartos ponta irlandês, se sente aqualquer momento à nossa mesa e nos explique a desesperada ternura da noite e aimpossibilidade de amar, porque, sabe como é, o vodka confunde os tempos e abole asdistâncias, você chama-se na realidade Ava Gardner e consome oito toureiros e seiscaixas de Logans por semana, e, quanto a mim, o meu verdadeiro nome é MalcomLowry, sou escuro como o túmulo onde jaz o meu amigo, escrevo romances imortais,recomendo Le gusta este jardín que es suyo? evite que sus hijos lo destruían, e o meucadáver será lançado na última página, como o de um cão, para o fundo de um barranco.Viemos todos hoje ocupar a inocente Lapa cor-de-rosa imitada de Carlos Botelho damaré-baixa das nossas bebedeiras silenciosas, à superfície das quais cintila, de quandoem quando e by appointment of Her Majesty the Queen, o reflexo do gênio, e sobre asnossas cabeças ungidas tombam as línguas de fogo de Johnny Espírito Santo Walker:Utrillo, que amarrotava postais ilustrados enquanto pintava, Soutine, o dos meninos docoro e das casas torturadas, Gomes Leal e a sua inocente e tonitruante miséria demenino velho, e nós os dois observando, maravilhados, esta procissão de palhaçossublimes que uma música de circo acompanha. Pode parecer-lhe esquisito mas semprevivi rodeado de fantasmas numa casa antiga que era como que o espectro de si mesma,desde o portão flanqueado por ananases de pedra à mala dos ossos de Anatomia, queaguardava, arrecadada, a minha vez de a estudar, num perfume doce de incenso e degangrena. Gatos vadios escondiam-se nos ramos da figueira do quintal como frutosfurtivos, cujos olhos pingavam o leite verde de uma desconfiança rápida, nos vidros dasalamandra crescia a claridade opala dos versos de Cesário, e na sala o retrato deAntero, de uma dolorosa beleza que o gênio calcinava, opunha aos bigodes modestosdos avós o oceano em desordem da sua barba loira, onde naufragavam destroçosquebrados de tercetos. O meu pai, magro e anguloso como um mórmon, viajava à derivana poltrona, impulsionado pela chaminé de navio do cachimbo. a sombra inchavavolumes geométricos nos prédios vizinhos, desenhada por um Soulages triste. e eumasturbava-me no quarto sob a fotografia colorida da equipa do Benfica, na esperançade vir a ser um dia o Águas da literatura, que de cócoras, ao centro, desafiava o universocom o orgulho de mármore de um discóbulo triunfal.

No cu de Judas, oculto por uma farda de camuflado que me fornecia a aparênciaequívoca de um camaleão desiludido, adiava a minha partida para Estocolmo a bordo deum barco de papel impresso, para viajar de helicóptero, de balões de plasma entre osjoelhos, a recolher da mata os feridos das emboscadas, que sobreviventes estupefatoserguiam à maneira dos corpos brandidos dos náufragos. O furriel enfermeiro, a quem avista do sangue enjoava, ficava à porta da sala de operações improvisada, dobrado comoum canivete, a vomitar num banco o feijão do almoço, e eu, tenso de raiva, imaginava a satisfação da família se lhe fosse dado observar, em conjunto e de chapéu de aba largacomo na Lição de Anatomia de Rembrandt, o médico competente e responsável quedesejavam que eu fosse, consertando a linha e agulhas os heroicos defensores doImpério, que passeavam nas picadas a incompreensão do seu espanto: c’est un peu danschacun de ces hommes Mozart assassiné, dizia eu furioso dentro de mim, desbridandotibiais, rodando garrotes, regulando a botija de oxigênio, preparando os amputados paraseguirem para o Luso, assim que amanhecesse, na pequena avioneta da FAP, enquantoos maqueiros, no compartimento ao lado, procuravam as veias dos dadores, e o tenenteseguia inquieto os meus gestos numa ansiedade que se adensava. Nunca as palavras mepareceram tão supérfluas como nesse tempo de cinza, desprovidas do sentido que mehabituara a dar-lhes, privadas de peso, de timbre, de significado, de cor, à medida quetrabalhava o coto descascado de um membro ou reintroduzia numa barriga os intestinosque sobravam, nunca os protestos me surgiram tão vãos, nunca os exílios jacobinos deParia se me afiguraram tão estúpidos: se me perguntam porque continuo no Exércitorespondo que a revolução se faz por dentro, explicava o capitão de óculos moles e dedosmembranosos atrás do seu cigarro eterno, o capitão qu puxou da pistola para o pidemagrinho que atirara um pontapé a uma rapariga grávida e o expulsou da companhiindifetente às ameaças azedas do outro, o capitão de malas cheias de livros e de revistasestrangeiras que me contavam do que eu não sabia e a quem me juntei meses mais tardena ilha e arame de Ninda, ao pé do rio, para a travessia sem bússola de uma longa noite.

Os batuques dos luchazes eram concertos de corações pânicos, taquicárdicos,retidos pelas trevas de galoparem sem controlo na direção da própria angústia, como,por exemplo, as minha pernas se aproximam a tremer das suas sob o tampo cúmplic damesa. As órbitas dos tocadores aparentavam-se a ovos cozidos fosforescentes, sempupila, iluminados pelas fogueiras de palha destinadas a esticar a pele de cabrito dostambores, ou pelas nádegas que balouçavam, suspensas do nada, à laia das lanternas deum comboio que se afasta. Cada palhora, flanqueada de uma miniatura idênticadestinada ao deus Zumbi, senhor dos antepassados e dos mortos, adquiria os contornosinformes da inquietação e do terror, onde nos cabiris somavam os seus latidos de medoao choro das crianças e aos cacarejos interrogativos das galinhas, pássaros imperfeitosreduzidos a um destino de churrasco. O escuro cavava-se de galerias, de corredores, dedegraus que os sons penetravam numa procura desesperada, folheando sombras,deslocando rostos, remexendo as gavetas vazias do silêncio em busca do eco de simesmos, tal como por vezes nos encontramos, aterrados e surpresos, nos objetosesquecidos nas prateleiras dos armários a lembrarem-nos quem fomos numa insistênciacruel. O suor dos corpos, gordo e sumarento, possuía textura diversa das tristes gotasarrepiadas que me desciam a espinha, e sentia-me melancolicamente herdeiro de umvelho país desajeitado e agonizante, de uma europa repleta de furúnculos de palácios ede pedras da bexiga de catedrais doentes, confrontado com um povo cuja inesgotávelvitalidade eu entrevira já, anos antes, no trompete solar de Louis Armstrong, expulsandoa neurastenia e o azedume com a musculosa alegria do seu canto. A essa hora, na minhacidade castrada pela polícia e a censura, as pessoas coagulavam-se de frio nas paragensdos autocarros, a soprarem adiante da boca o vapor de água dos balões das legendas deuma história de quadradinhos que o Governo proibia. Em tronco nu, o meu pai deviabarbear-se ao espelho do quarto de banho nos gestos rápidos e precisos do costume,dentro do útero da minha mulher uma criança prestes a nascer socav às cegas as gradesde carne da sua prisão, a minha mãe estendia o braço sonolento para o tabuleiro dopequeno-almoço, na grande cama preta que sempre constituiu para mim como que osímbolo do lar. Pensei que nunca soubera de fato mostrar-lhes quanto gostava deles, portimidez ou por pudor, e a ternura tantos anos reprimida trazia-me à boca o sabor amargo do remorso e o desgosto de haver frustrado as suas pequenas esperanças ao transformara minha vida numa sucessão sem nexo de cambalhotas desastrosas. Planosgrandiloquentes, em que Freud, Goethe e S. Francisco de Assis convergiam e secombinavam, começaram a grelar-me na cabeça arrependida, à laia de feijões noalgodão molhado das experiências do liceu, milagres de algibeira para Lavoisiersmongoloides: se regressasse vertical, jurava eu a mim mesmo num fervor de peregrinode Compostela, afadigar-me-ia a construir, a partir do meu nada confuso, a digna estátuade bronze do marido e do filho ideais, talhado segundo o modelo das pagelas dosmortos no missal da avó, criaturas repletas de qualidades e virtudes à Santa Teresinha edas quais conhecia apenas os sorrisos resignados. Talvez até que me inscrevesse nosescuteiros a fim de pastorear, de apito, calções e autoridade paciente, um grupo deadolescentes borbulhosos atavés do Museu dos Coches, ou vagueasse pelas esquinas àcata de anciões de bengala com dificuldade em atravessar. Far-me-ia irmão doSantíssimo, clarinete de filarmônica, colecionador de dentaduras postiças no intuito deexpulsar do insuportável sossego dos serões o meu eterno e deletério desejo de evasão.Calaria para sempre a vozinha interior que na cabeça me reclama, teimosa, proezas deZorro. E ao termo de dolorosa enfermidade suportada com resignação cristã econfortado com os sacramentos da Santa Madre Igreja, ingressaria por meu turno napanteão do missal da avó a juntar-me a uma extensa galeria de chatos bondosos,apontado como exemplo a netos indiferentes, que considerariam com enfado a absurdamornidão da minha existência.

G

Ninda. Os eucaliptos de Ninda nas demasiadamente grandes noites do Leste,formigantes de insetos, o ruído de maxilares sem saliva das folhas secas lá em cima, tãosem saliva como as nossas bocas tensas no escuro: o ataque começou do lado da pistade aviação, no extremo oposto à sanzala, luzes móveis acendiam-se e apagavam-se nachana num morse de sinais. A Lua enorme aclarava de viés os pré-fabricados dascasernas, os postos de sentinela protegidos por sacos e toros de madeira, o retângulo dezinco do paiol; à porta do posto de socorros, estremunhado e nu, vi os soldadoscorrerem de arma em punho na direção do arame, e depois as vozes, os gritos, osesguichos vermelhos que saíam das espingardas a disparar, tudo aquilo, a tensão, a faltade comida decente, os alojamentos precários, a água que os filtros transformavam numapapa de papel-cavalinho indigesta, o gigantesco, inacreditável absurdo da guerra, mefazia sentir na atmosfera irreal, flutuante e insólita, que encontrei mais tarde noshospitais psiquiátricos, ilhas de desesperada miséria de que Lisboa se defendiacercando-as de muros e de grades, como os tecidos se previnem contra os corposestranhos envolvendo-os em cápsulas de fibrose. Internados em enfermariasdesconjuntadas, vestidos com o uniforme dos doentes, passeávamos na cerca de areia doquartel os nossos sonhos incomunicáveis, a nossa angústia informe, os nossos passadosvistos pelo binóclo ao contrário das cartas da família e dos retratos guardados no funtodas malas sob a cama, vestígios pré-históricos a partir dos quais poderíamos conceber,como os biólogos examinando uma falange, o esqueleto monstruoso da nossa amargura.

Ocorria-me que quando a notícia da alta chegasse pelo rádio ser-nos-ianecessária uma penosa reaprendizagem da vida, à maneira dos hemiplégicos queexercitam o esparguete difícil dos membros em aparelhos e piscinas, e que talvezpermanecêssemos para sempre incapazes de andar, reduzidos à cadeira de rodas de uma resignação paralítica, a observar a simplicidade do quotidiano como o Chaplin dosTempos Modernos as máquinas pavorosas que implacavelmente o trituram: sair oporteiro e a falsa indulgência dos médicos, construída do cartão pintado de uma boavontade postiça, encontrar pouco a pouco, ladeira abaixo, a manhã geométrica da cidadeque os azulejos decepam em losangos desbotados, penetrar numa leitariafantasmagórica para o primeiro galão livre, ver os reformados do dominó na eternapostura dos jogadores de cartas de Cézanne, e sentir que se deixou irremediavelmentede pertencer a esse mundo nítido e direto onde as coisas possuem consistência de coisas,sem subterfúgios nem subentendidos, e os dias nos podem ainda oferecer, sabe como é,apesar das anginas, dos cobradores e da letra do carro, a surpresa de vigésimo premiadode um sorriso que se não pediu. Você, por exemplo, que oferece o ar assépticocompetente e sem caspa das secretárias de administração, era capaz de respirar dentrode um quadro de Bosch, sufocada de demônios, de lagartas, de gnomos nascidos decascas de ovo, de gelatinosas órbitas assustadas? Estendido numa cova à espera que oataque acabasse, olhando as hirtas silhuetas de chapéu alto dos eucaliptos idênticas afúnebres testemunhas de duelo, de G3 inútil no suor das mãos e cigarro cravado na bocacomo palito em croquete, descobri-me personagem de Becket aguardando a granada demorteiro de um Godot redentor. Os romances por escrever acumulavam-se-me no sótãoda cabeça à maneira de aparelhos antiquados reduzidos a um amontoado de peçasdíspares que eu não lograria reunir, as mulheres com quem me não deitaria ofereceriama outros as cosas afastadas de rãs de aula de Ciências Naturais, onde eu não estaria paraas esquartejar com o canivete ávido da minha língua, o filho por nascer constituiriaapenas a cristalização improvável de ma distante tarde de Tomar, num quarto de messede oficiais de janela escancarada para a praça, com o sol coalhado nas acácias e nóscelebrando na cama a liturgia ardentes de um desejo cedo demais desaparecido. Tomar:colchões que rangem como solas, abraços rápidos, o pênis a pique úmido de sede,grosso de veias, vermelho em flor de Pessanha, a mão que o friccionava contra os seios,a boca que o bebia, os calcanhares a lavrarem-me as nádegas, o silêncio exausto, demarionetas desabitadas de dedos, de depois. Hoje, quando a encontro, é como seobservasse o retângulo pálido que as molduras imprimem nas paredes sem que nosconsigamos lembrar do desenho da tela, e tento em vão discernir, por detrás das feiçõesenvelhecidas e sérias, compondo a custo uma expressão de camaradagem benigna quenunca foi sua, o rosto jovem e alegre que amei, fechado sobre o seu próprio prazer comouma corola noturna. E todavia, percebe?, é desse modo que ela permanece em mimapesar da usura dos anos e do azedume das reconciliações frustradas, das feridas dasmentiras mútuas e do desencanto do afastamento definitivo: a rapariga morena e magra,de grandes olhos graves, que conheci na praia, a observar as ondas na majestadelongínqua dos carnívoros indiferentes, que parecem de súbito ausentar-se emmeditações dolorosas e imóveis, enxotando-nos para o canto de sombra das inutilidadesesquecidas. Lembra-se da voz de Paul Simon?

Ninda: o milho encostado ao arame folheava toda a noite as páginas ressequidas,o feiticeiro sorvia o pescoço das galinhas degoladas numa voracidade brutal. O capitão eeu jogávamos xadrez na mesa da sala de jantar, entre migalhas e cascas, avançando umpeão interrogativo e reticente semelhante a um dedo que palpa a medo uma borbulha infectada, ou conversávamos cá fora, sentados em cadeiras curvas de tábuas de barril,julgando aproximativamente no escuro a posição do outro através do eco devolvido dasnossas próprias vozes, morcegos aflitos que se procuram: no meu desordenado MuseuGrévin interior de médicos e poetas, onde Vesálio e Bocage discutiam pormenoresanatômicos picarescos e clandestinos sob as castas vistas reprovadoras do generalFernandes Costa dos sonetos do Almanaque Bertrand, a quem roubei sem vergonha, nainfância, versos que cintilavam brilhos de vidro de metáforas de pacotilha que meencantavam, um impetuoso fluxo de barbudos iluminados penetrou de roldão, a entoaralternadamente a Internacional e a Marselhesa, substituindo-se, autoritários, ao doutorJúlio Dantas, ao doutor Augusto de Castro e a mais algumas dezenas de criaturasquitinosas, a bichanarem em sofás Império dramas históricos bordados no ponto de cruzde diálogos de tremoço. O capitão apresentou-me de passagem um Marx que meconsiderou de longe resmungando economias ininteligíveis no segredo do colarinhos,Lenine a conspirar, de cabeleira postiça, no meio de um grupo de sobrecasacas ardentes,Rosa Luxemburgo coxeando comovida nas ruas de Berlim, Jaurès assassinado a tiro norestaurante, de guardanapo ao pescoço, à maneira dos gânguesteres de Chicago arodopiarem, mortos, nas cadeiras do barbeiro, num estilhaçar de espelhos e de frascos, eeu imaginei-me a entrar casa adentro com eles para assistir ao fugir espavorido dosparentes na direção da zona de influência dos seus ícones corporativos, estendendo paraos vampiros socialistas que lhes arreganhavam a ameaça tremenda da nacionalizaçãodas porcelanas familiares, as tranças de alho esconjuratórias das pagelas da Sãozinha. Opelotão que saía à noite para proteger o quartel, alapado nas matas rasas que cresciam,amarelentas, na areia, torcidas de anemia, aproximava-se no escuro, passava sob alâmpada coberta de um abat-jour de insetos, dispersava-se sem ruído nas cabanas dascasernas, onde a profundidade do sono se media pela intensidade do cheiro dos corpos,amontoados ao acaso como nas fossas de Auschwitz, e eu perguntava ao capitão O quefizeram do meu povo, O que fizeram de nós aqui sentados à espera nesta paisagem semmar, presos por três fieiras de arame farpado numa terra que nos não pertence, a morrerde paludismo e de balas cujo percurso silvado se aparenta a um nervo de nylon quevibra, alimentados por colunas aleatórias cuja chegada depende de constantes acidentesde percurso, de emboscadas e de minas, lutando contra um inimigo invisível, contra osdias que se não sucedem e indefinidamente se alongam, contra a saudade, a indignaçãoe o remorso, contra a espessura das trevas opacas tal um véu de luto, e que puxo paracima da cabeça a fim de dormir, como na infância utilizava a bainha do lençol para medefender das pupilas de fósforo azul dos meus fantasmas.

Diga-me lá: como é que você dorme? Deitada de bruços, de polegar na boca,num abandono em que se prolongam ainda restos hesitantes da fragilidade infantil, oude pala negra nos olhos e rolhas de borracha nas orelhas à laia das artistas decadentes docinema americano ou das mulheres fatais desesperadas de solidão e de champanhe, depesadelos povoados de divórcios, de cirurgiões plásticos e de ganidos de pelos de arameparecidos com a caricatura de Audrey Hepburn? Acho que deve ler poetas esotéricosantes de apagar a luz, sujeitos de bigode complexo que aqui vêm às vezes esconder asua mediocridade intransigente atrás de um gin-fizz, admirados por raparigas sem peito,fumando Gauloises amarrotados na sofreguidão desgrenhada com que as velhas dosasilos devoram a fatia de pão-de-ló dos domingos. Deve ter uma gravura de Vieira daSilva na parede do quarto e o retrato do cineasta sem talento, com quem mantém umarelação desiludida, à cabeceira, deve acordar de manhã num torpor de crisálidatitubeante eternamente entre a larva e a borboleta, a tropeçar às cegas para a cozinha naesperança insensata de que o primeiro nescafé, bebido à pressa entre caçarolas sujas, lhegaranta que existe de fato, eficiente e de colete, na gerência de uma qualquer multinacional de sabonetes, o research executive sabiamente terno, de têmporasgrisalhas e gravata Pestana & Brito, que o seu horóscopo lhe promete. Pela minha parte,sabe como é, não peço tanto à vida: as minhas filhas crescem numa casa de que cadavez menos me recordo, de móveis bebidos pelas águas de sombra do passado, asmulheres que encontrei depois abandonei-as ou abandonaram-me numa tranquiladecepção mútua em que não houve sequer lugar para esse tipo de ressentimento que écomo que o sinal retrospectivo de uma espécie de amor, e envelheço sem graça numandar demasiado grande para mim, observando à noite, da secretária vazia, aspalpitações do rio, através da varanda fechada cujo vidro me devolve o reflexo de umhomem imóvel, de queixo nas mãos, em que me recuso a reconhecer-me, e que teimaem fitar-me numa obstinação resignada. Talvez que a guerra tenha ajudado a fazer demim o que sou hoje e que intimamente recuso: um solteirão melancólico a quem se nãotelefona e cujo telefonema ninguém espera, tossindo de tempos a tempos para seimaginar acompanhado, e que a mulher a dias acabará por encontrar sentado na cadeirade baloiço em camisola interior, de boca aberta, roçando os dedos roxos no pelo cor-denovembroda alcatifa.

H

Escute. Olhe para mim e escute, preciso tanto que me escute, me escute com amesma atenção ansiosa com que nós ouvíamos os apelos do rádio da coluna debaixo defogo, a voz do cabo de transmissões que chamava, que pedia, voz perdida de náufragoesquecendo-se da segurança do código, o capitão a subir à pressa para a Mercedes commeia-dúzia de voluntários e a sair o arame a derrapar na areia ao encntro da emboscada,escute-me tal como eu me debrucei para o hálito do nosso primeiro morto nadesesperada esperança de que respirasse ainda, o morto que embrulhei num cobertor ecoloquei no meu quarto, era a seguir ao almoço e um torpor esquisito bambeava-me aspernas, fechei a porta e declarei Dorme bem a sesta, cá fora os soldados olhavam paramim sem dizer nada, Desta vez não há milagre meus chuchus, pensei eu, fitando-os,Está a dormir a sesta, expliquei-lhes, está a dormir a sesta e não quero que o acordemporque ele não quer acordar, e depois fui tratar dos feridos que se torciam nos panos detenda, nunca os eucaliptos de Ninda se me afiguraram tão grandes como nesta tarde,grandes, negros, altos, verticais, assustadores, o enfermeiro que me ajudava repetiaCaralho caralho caralho com pronúncia do Norte, viemos de todos os pontos do nossopaís amordaçado para morrer em Nida, do nosso triste país de pedra e mar para morrerem Ninda, Caralho caralho caralho repetia eu com o enfermeiro no meu sotaqueeducado de Lisboa, o capitão apeou-se da Mercedes num cansaço infinito, segurava aarma à laia de cana de pesca inútil, o povo da sanzala espreitava receoso lá de baixo,escute-me como eu escutava o rápido latir aflito do meu sangue nas têmporas, o meusangue intacto nas têmporas, pelos buracos da varanda via o capitão a passear de umlado para o outro apertando o viático de um copo de uísque contra o peito, falandosozinho, cada um conversava sozinho porque ninguém conseguia conversar comninguém, o meu sangue no copo do capitão, tomai e bebei ó União Nacional, o corpo domorto crescia no quarto até rebentar as paredes, alastrar pela areia, alcançar a mata embusca do eco do tiro que o tocou, o helicóptero transportou-o para Gago Coutinho comoquem varre lixo vergonhoso para debaixo de um tapete, morre-se mais nas estradas dePortugal do que na guerra de África, baixas insignificantes e adeus até ao meu regresso,o furriel arrumou os instrumentos cirúrgicos na caixa cromada, os canivetes, as pinças, os porta-agulhas, as sondas, sentou-se ao meu lado nos degraus do posto de socorros,espécie de vivenda pequenina para férias de reformados melancólicos, mordomosidosos, governantas virgens, os eucaliptos de Ninda não cessavam de aumentar, estamosos dois aqui sentado agora como ele e eu nesse tempo, Abril de 71, a dez milquilômetros da minha cidade, da minha mulher grávida, dos meus irmãos de olhos azuiscujas cartas afetuosas se me enrolavam nas tripas em espirais de ternura. Foda-se, disseo furriel que limpava as botas com os dedos, Pois é, disse eu, e acho que até hoje nuncative um diálogo tão comprido com quem quer que fosse.

Escute: antes disso houvera a perna do Ferreira, ou seja, a ausência da perna doFerreira que uma antipessoal transformou num saco agonizante, as coxas esfarrapadasdo cabo Mazunguidi, das quais até ilhós de atacador retirei, o penso de frescura damanhã na minha testa perplexa, chegar ao alpendre do posto de socorros com a camisamanchada de sangue e receber como um insulto a claridade indiferente do dia. Se arevolução acabou, percebe?, e em certo sentido acabou de fato, é porque os mortos deÁfrica, de boca cheia de terra, não podem protestar, e hora a hora a direita os vaimatando de novo, e nós, os sobreviventes, continuamos tão duvidosos de estar vivosque temos receio de, através da impossibilidade de um movimento qualquer, nosapercebermos de que não existe carne nos nossos gestos nem som nas palavras quedizemos, nos apercebermos que estamos mortos como eles, acomodados nas urnas dechumbo que o capelão benzia e de que se escapava, apesar da solda, um odor grosso deestrume, urna do cabo Pereira, urna do Carpinteiro, urna do Macaco, que uma minaassassinou a cinquenta metros de mim, o saco de areia esmagou-lhe as costelas contra ovolante no carro tombado de lado, quis fazer massagem cardíaca e o peito era mole esem ossos e estalava, as palmas premiam um pasta confusa, bastou um estrondo paratornar o Macaco um fantoche de serradura e de pano, o capitão sumiu-se no casinhotoda messe e voltou com mais uísque no copo, a chana desbotava-se anunciando a noite, oenfermeiro sempre a repetir Caralho caralho caralho veio acocorar-se ao pé de nós,todos dizíamos Caralho de boca fechada, o capitão segredava Caralho ao copo deuísque, o oficial de dia colocou-se em sentido diante da bandeira e os seus dedos, queajeitavam a boina, gritavam Caralho, os cães vadios que nos roçavam os tornozelosgemiam Caralho nos implorativos olhos molhados, olhos de cães tão suplicantes comoos desta gente aqui, úmidos de resignação e de estúpida meiguice, olhos flutuando àderiva acima dos cognacs, olhos acusando os próprios rostos defuntos, desertos e semnuvens como os dos quadros de Magritte, dezenas de manequins de cera ocuparam estebar oscilando feições compridas de cavalos de loiça, mulheres e homens em cujadesilusão defensiva e maligna me recuso a reconhecer a imagem fragmentária da minhaprópria derrota, por teimar em pertencer ao grupo das sarças ardentes onde a melancoliaapaixonadamente devagar se consome em labaredazinhas magoadas, e depois, sabecomo é, a noite chegou de imprevisto à maneira de uma cortina de teatro cobrindo depregas de ausência os atores exaustos, o motor da luz principiou a trabalhar num ruídode táxi, a lâmpada messe empalidecia e corava, empaledecia e corava, empalidecia ecorava, sentei-me defronte do capitão, na mesa que o Bichezas pusera num ápice deprestidigitador, os alferes comiam em silêncio, de queixo no prato, idênticos a alunosem falta, cada um mastigava sozinho separados por quilômetros de irrecuperáveldistância, formávamos a cada jantar a anti-Última Ceia, o desejo comum de não morrerconstituía, percebe?, a única fraternidade possível, eu não quero morrer, tu não queresmorrer, ele não quer morrer, nós não queremos morrer, vós não quereis morrer, eles nãoquerem morrer, o primeiro-sargento, magro, grisalho, mesuroso, interrogativo, perfilouseà porta numa continência sem fim guardando na mão livre um maço de papéis paraassinar até o capitão atentar nele, erguer a cabeça, proferir Porra e o sujeito se sumir apavorado com a sua pasta preciosa, o capitão pousou os talheres em cruz e disse Cadavez mais isto me parece um absurdo formidável e eu pensei Acabada a cerimônia cátemos o Ite, missa est do padre, Deo Gratias e dá-me a benção que por mim me piro já,saio o arame e sigo mata fora com um pedaço de mandioca no bolso como osguerrilheiros, um pedaço de mandioca a cheirar ao caixão do Carpinteiro apodrecendo,branco, no meu bolso, levantei-me a fim de ver a pedra-pomes da lua na chana e veiomede súbito à ideia o sorriso de Gagarine no regresso, Quando eu chegar que sorrisofarei?, perguntei alto, os alferes voltaram-se espantados para mim e o capitão estendeu obraço para a garrafa de uísque, como de manhã, gorduroso de sono, se palpa a mesa decabeceira à procura do esguicho horrível do despertador para calar a sua campainhadolorosamente estridente, a furar-nos os ouvidos com a lâmina imperiosa de um berrode metal.

Escute: em 61 eu fugia diante da polícia no Estádio Universitário, chusmas deestudantes em debandada na direção da cantina, o meu irmão João chegou a casa muitosério e disse Parece que mataram um tipo, a polícia de choque avançava de capacetenuma fúria de bastões e de coronhas, automóveis da PIDE giravam em carrossel pelasFaculdades, o Salazar espetava o dedo, única coisa, decerto, que ele alguma vezespetou, na televisão, ventres calvos aplaudiam-no com fervor beato de sacristia,infelizmente o general Delgado era velho demais para Nuno Álvares e o Mestre de Avisum conezinho de pó na Batalha, a guerra ou Paris e agora escolhe que o Capado éeterno, a segunda parte do segredo de Fátima é a garantia da eternidade do Capado,durante a viagem a orquestra do navio tocava tangos mofentos para bodas de prata,embarquei a 6 de Janeiro e na noite do fim do ano tranquei-me no quarto de banho parachorar, um bolo-rei impossível de engolir entupia-me a garganta, empurrei-o achampanhe e ele tombou na barriga no som dos pedregulhos no poço do jardim do avô,plof!, provocando círculos concêntricos no lago da canja do jantar, o poço sob asárvores ao pé do muro para a estrada onde se ia fumar às escondidas, o caseiro tirou ochapéu e explicou respeitosamente a coçar a cabeça O que a gente precisa é que venhaalguém tomar conta de nós o menino não acha?, e se vier alguém tomar conta de nós oque pensa você que começaria por fazer, levar-me para sua casa, levá-la para minhacasa, lavar-nos os dentes, estender-nos na cama, e falar-nos em voz baixa atéadormecermos, falar-nos de serenidade e alegria até adormecermos, falar-nos doprimeiro de Maio de 74 que os políticos inquinavamjá da massa folhada sem recheiodos seus discursos veementes, mas onde crescia nas ruas uma irresistível fermentaçaode esperança, os ministros do Caetano borravam-se de medo na Madeira, os pidesborravam-se de medo em Caxias, um festa de labaredas vermelhas alastravatriunfalmente em Lisboa, quiero que me perdones los muertos de mi felicidad, losmuertos de mi felicidad no cacimbo de Angola, seis meses de cacimbo enevoado ecapim amarelo a arder ao longe, perdoe-me os morros da minha felicidade quando lheseguro na mão, quando os meus joelhos apertam os seus, quando a minha boca vai tocarna sua e os olhos se fecham devagar como corolas noturnas, todos os meus ontens seencontram presentes neste beijo, talvez que as múmias do bar se esfarelem como osvampiros à aproximação do dia num concerto de dobradiças que se quebram, todos osmeus ontens, percebe?, O que a gente precisa, menino, garantia o caseiro, é que venhaalguém tomar conta de nós, Foda-se, disse o furriel de queixo nos joelhos a limpar asbotas com o dedo, o corpo do primeiro defunto inchava sob o cobertor, na realidadetodo o cais é uma saudade de pedra, Maria José, e aí começamos a perder-nos, trêsgarrafas de uísque por mês a cada oficial para acender a lampadazinha votiva docoração mecânico que teima, o sargento passou por mim e fez a décima nonacontinência da última meia hora, Boa noite senhor doutor, desapareceu no escuro a caminho da sua confusão de impressos, instalado na cadeira de tábuas de barril lembreimedo soldado a dormir a sesta na gaveta de chumbo e do apontador de metralhadora achamar Cabrões de merda aos cabrões de merda que para aqui nos mandaram,professores patetas penteado e preciosos, Cabrões de merda, cabrões de merda, cabrõesde merda, o diretor do Hospital Militar de Tomar mandou chamar-me a anunciou O meuamigo foi mobilizado para Angola, era em Agosto e a claridade da manhã fervia, verde,nas janelas, a cidade flutuava na luz, o reflexo do Mouchão tremia na água, mobilizadopara Angola num batalhão de Artilharia, Pai, fui mobilizado para Angola num batalhãode Artilharia, na voz pequenina com que comunicava as reprovações na Faculdade, ocapitão veio sentar-se na outra cadeira de barril e os cubos de gelo tiniam como moedasnuma algibeira no escuro, O rapaz chegou já morto, disse-lhe eu, e nenhum truque deilusionismo médico o safou, fez-me uma impressão danada ver-lhe os cabelos loiros,parecia-se comigo aos vinte anos, Os tipos emboscaram-se a dois metros da picada,disse o capitão, havia sangue deles nos arbustos, marcas de arrastarem corpos deferidos, a pedra-pomes da luz encalhou nos eucaliptos, enredada nos ramos, o capitãolevantou-se, a cara dele aparentava-se à de Edward G. Robinson num filme de FritzLang, começou a afastar-se numa marcha de sapo no sentido do armazém dovagomestre, perguntei Onde é que você vai?, o vulto respondeu-me continuando a andar Pendurar os tomates na arrecadação, doutor, se quiser dê-me também os seus que já nãoprecisamos dos gajos para continuar aqui.

I

Porque camandro é que não se fala nisso? Começo a pensar que o milhão equinhentos mil homens que passaram por África não existiram nunca e lhe estoucontando uma espécie de romance de mau gosto impossível de acreditar, uma históriainventada com que a comovo a fim de conseguir mais depressa (um terço de paleio, umterço de álcool, um terço de ternura, sabe como é?) que você veja nascer comigo amanhã na claridade azul pálida que fura as persianas e sobe dos lençóis, revela a curvaadormecida de uma nádega, um perfil de bruços no colchão, os nossos corposconfundidos num torpor sem mistério. Há quanto tempo não consigo dormir? Entro nanoite como um vagabundo furtivo com bilhete de segunda classe numa carruagem deprimeira, passageiro clandestino dos meus desânimos encolhido numa inércia que meaproxima dos defuntos e que o vodka anima de um frenesim postiço e caprichoso, e astrês da manhã vêem-me chegar aos bares ainda abertos, navegando nas águas paradas dequem não espera a surpresa de nenhum milagre, a equilibrar com dificuldade na boca opeso fingido de um sorriso.

Há quanto tempo de fato não consigo dormir? Se fecho os olhos, uma rumorosaconstelação de pomboss levanta voo dos telhados das minhas pálpebras descidas,vermelhas de conjuntivite e de cansaço, e a agitação das suas asas prolonga-se nos meusbraços em tremuras hepáticas, apenas capazes de um tropeçar desajeitado de galinha, aspernas enrolam-se na colcha numa umidade de febre, por dentro da cabeça uma chuvade Outubro tomba lentamente sobre os gerânios tristes do passado. Em cada manhã, aoespelho, me descubro mais velho: a espuma de barbear transforma-me num Pai Natal depijama cujo cabelo desgrenhado oculta pudicamente as rugas perplexas da testa, e aolavar os dentes tenho a sensação de escovar mandíbulas de museu, de caninos malajustados nas gengivas poeirentas. Mas por vezes, em certos sábados que o sol oblíquoalegra de não sei que promessas, suspeito-me ainda no sorriso um reflexo de infância, e imagino, ensaboando os sovaços, que me despertarão rêmiges entre o musgo dos pelos, e sairei pela janela numa leveza fácil de barco, a caminho da Índia do café.

Como na tarde de 22 de Junho de 71, no Chiúme, em que me chamaram ao rádiopara me anunciar de Gago Coutinho, letra a letra, o nascimento da minha filha, rômio,alfa, papá, alfa, rômio, índia, golf, alfa, paredes forradas de fotografias de mulheres nuaspara a masturbação da sesta, mamas enormes que começaram de súbito a avançar e arecuar, segurei com força as costas da cadeira do cabo de transmissões e pensei Vai-medar qualquer merda e estou fodido.

O Chiúme era o último dos cus de Judas do Leste, o mais distante da sede dobatalhão e o mais isolado e miserável: os soldados dormiam em tendas cônicas na areia,partilhando com os ratos a penumbra nauseabunda que a lona segregava como um frutopodre, os sargentos apinhavam-se na casa em ruína de um antigo comércio, quandoantes da guerra os caçadores de crocodilos por ali passavam a caminho do rio, e eudividia com o capitão um quarto do edifício da chefia do posto, através de cujo tetoesburacado os morcegos vinham rodopiar por sobre as nossas camas espiraiscambaleantes de guarda-chuvas rasgados. Sessenta pessoas encerradas na sanzalaalimentavam-se em latas ferrugentas dos restos de comida do quartel, mulheresacocoradas sorriam para a tropa o riso vazio das efígies das canecas de loiça, a que asbocas sem incisivos conferiam uma profundidade inesperada, e o soba, septuagenárioem farrapos reinando sobre um povo côncavo de fome, trazia-me à lembrança umavelha amiga aristocrática da minha mãe que vivia com os cães e as filhas num andardesabitado de móveis, de pegadas retangulares dos quadros nas paredes desertas e afalta das terrinas assinalada por uma aus~encia de pó nas prateleiras dos armários. Umenxame de credores impacientes, padeiro, leiteiro, mercearia, talho, etc., agitava´se àvolta dela brandindo ameaçadoramente faturas por pagar, as criadas exigiam aos gritosos ordenados em atraso, antigos lutadores de feira, de fato macaco, destroçados pelaerosão marinha do bagaço, empurravam pelas escadas, a caminho do prego, o piano decauda que soltava de tempos a tempos o ganido de protesto de um lá desafinado. Emajestosamente alheia aos credores, às criadas, à amentosa partida do piano, aoscachorros que urinavam no tapete numa sem-cerimônia medieval, a amiga, instaladanum sofá de que as molas atravessavam o veludo como as clavículas das mulas idosas ocouro gasto dos seus ombros, mantinha a postura soberba das princesas exiladas, paraquem os relógios rodam para trás, marcando horas que já foram.

Como ela, o soba morava num passado de muitas mulheres e muitas lavras, naépoca em que a sua gente, do Ninda ao Quando, plantava na mata a mandioca que osDakotas agora queimavam na tentativa de dificultar o avanço dos guerrilheiros que daZâmbia progrediam para o planalto do Huambo, com o objetivo de envolverem a poucoe pouco as cidades do Sul: sentado na cadeira de braços precárias, que eu levara daenfermaria para lhe oferecer, e cujo esmalte branco cintilava diamantes de trono com oúltimo sol, o luchaze, distraído dos gaviões que lhe cobiçavam os pintos em elipses degula, vagueava ao acaso pela chana um olhar de Santa Helena, que a memória de glóriassuntuosas petrificava. A guerra reduzira-o ao ofício insólito de costureira do quartel, domesmo modo que os condes russos guiavam táxis nos romances de Ohnet, e instalava àtarde, diante da cubata, uma máquina de costura antiquíssima que se assemelhava aosnavios de rodas do Mississipi, na qual passajava as calças rasgadas da tropa nos gestosteatrais de um ilusionista pouco convicto da eficácia dos seus dons, tal como eu pensoque a minha mão, a afagar insistentemente a sua mão imóvel, não conseguirá mais queuma rápida noite sem ternura.

O trabalho dos outros, que me proporciona a confortável situação de espectado sem responsabilidade, fascina-me: em miúdo demorava-me horas maravilhadas na oficina do sapateiro vizinho, cubículo onde pairava uma sombra fresca de latada,frequentado por cegos de Greco que, de bengala de listras entre os joelhos, conversavamcom o vulto desfocado que batia sola ao fundo, atrás de uma muralha de botas,arrotando o bafo inseticida do tinto. Os cabeleireiros dos drugstores, a desenharem emtorno de nucas obedientes bailados de ademanes que se evaporam, levam-me a colar onariz às cortinas numa imensa sofreguidão de pasmo. O movimento das agulhas detricot da minha mãe, segregando camisolas num tinir de floretes domésticos, possuipara mim o inesgotável encanto do fogo na lareira ou do mar, cuja monotonia semprediversas me hipnotiza. E após alguns meses de guerra, que assinalava traçando cruzesraivosas em todos os calendários ao alcance, após a perna do Ferreira e a morte do caboPaulo, professor primário que todas as noites, oblíquo de vinho, dissertava aos berros,diante da messe de oficiais, discursos prolixos acerca das equações de segundo grau,cercado por uma matilha de cães ignorantes a ladraem furibundos no escuro, ocupava osfins de tarde assistindo aos arrancos exaustos da máquina de costura do soba, de que oscotovelos agudos de bielas se assemelhavam aos de um corredor de marcha no termo deuma prova excessiva. Quando me chamaram ao rádio, o aparelho acabava de seengasgar na deglutição da camisa de um alferes, tossia linhas, botões e pedaços detecido por diversos orifícios ferrugentos, e o soba, de mãos na cabeça, aflitíssimo,pulava à volta daquela geringonça venerável como Buster Keaton em torno das suasinvenções catastróficas.

Espere um instante, deixe-me encher o copo. Quer chupar a rodela de laranja ecuspi-la a seguir no cinzeiro, idêntica a uma fatia baça e seca de sol de Outubro, chuparaa laranja, de olhos baixos, para se poupar a si mesma o espetáculo derisório da minhacomoção, comoção de bêbedo, às duas da manhã, quando os corpos se principiam adeslocar como limpa-para-brisas, o bar é um Titanic que naufraga e as bocas caladasentoam hinos sem som, abrindo-se e fechando-se à laia dos beiços tumefatos dospeixes? Há qualquer coisa, sabe como é, de galeão espanhol submerso nesta sala,povoado dos cadáveres à deriva da tripulação que uma claridade sublunardiagonalmente ilumina, cadáveres que flutuam sem aderir às cadeiras, entre duas águas,a ondularem os braços sem ossos num vagar de limos. Até os empregados se tornamdemorados, sonolentos, criando raízes no balcão à maneira de corais estupefatos que obarman estimula por vezes ao dar-lhes a cheirar o frasco de sais de uma aguardente depera, salvando-os dessa forma de um coma vegetal. E aqui estamos nós, afogadostambém, franzindo de tempos a tempos as vieiras das pálpebras, polvos de aquárioborbulhando palavras que a música de fundo dissolve num murmúrio de surdina demaré, você a escutar-me com a tranquila paciência das estátuas (que língua falariam asestátuas, se falassem, que frases se segredam à noite no silêncio oco, de sarcófago comescarradores, dos museus?), você a escutar-me, dizia, e eu contando-lhe da chamada aorádio para ouvir de Gago Coutinho, palavra a palavra, a notícia do nascimento da minhafilha, agarrado às costas da cadeira do cabo de transmissões e a pensar Vai-me dar umacamueca e estou fodido.

Eu tinha-me casado, sabe como é, quatro meses antes de embarcar, em Agosto,numa tarde de sol de que conservo uma recordação confusa e ardente, a que o som doórgão, as flores nos altares e as lágrimas da família emprestavam um não sei quê defilme de Buñuel enternecido e suave, depois de breves encontros de fim-de-semana emque fazíamos amor numa raiva de urgência, inventando uma desesperada ternura emque se adivinhava a angústia da separação próxima, e despedimo-nos sob a chuva, nocais, de olhos secos, presos um ao outro num abraço de órfãos. E agora, a dez milquilômetros de mim, a minha filha, maçã do meu esperma, a cujo crescimento detouperia sob a pele do ventre eu não assistira, irrompia de súbito no cubículo das transmissões, entre recortes de revistas e calendários de atrizes nuas, trazida pelacegonha da vozinha nítida do furriel de Gago Coutinho, explicando, alfa, bravo, rômio,alfa, charlie, ômega, o abraço do batalhão.

Mille baisers pour ma fille et ma chère petite maman: a minha avó mostrou-meum dia um pedaço de papel frágil como folha de herbário, telegrama em que o avô, naguerra de França, respondia ao parto da minha mãe, e lembrei-me, olhando umafotografia onde uma rapariga e um cão se lambiam mutuamente o intervalo das coxas,de um homenzinho calado, de cabelos brancos e aparelho auditivo, sentado na varandada casa de Nelas a mirar a serra, lembrei-me dos fins de tarde na Beira, em Setembro, naépoca recuada em que a família se agrupava à minha volta e à volta dos meus irmãosnuma espécie de retábulo enternecido e protetor, lembrei-me do sorriso da minha mãe,que tão poucas vezes vi sorrir depois, e do ramo de trepadeira que todas as noites batiacontra a janela, chamando-nos para misteriosas proezas de Peter Pan. E agora,encostado ao arame, sozinho, a fim de que me não vissem as lágrimas, encostado aoarame do Chiúme e assistindo ao descer do morro até à chana e, para lá da chana, à matade morrer do Leste, à mata de morrer magra e pálida do Leste, pensava na minha filhadesconhecida num berço de clínica, entre outros berços de clínica que se espiam atravésda vigia de navio, pensava na filha que tanto desejara como testemunho vivo de mimpróprio na esperança de que, por intermédio dela, me redimisse um pouco dos meuserros, do meus defeitos e das minhas falhas, dos projetos abortados e dos sonhosgrandiloquentes a que me não atrevia a dar forma e sentido. Talvez que ela escrevesseum dia os romances que eu tinha medo de tentar e encontrasse para eles a cor e o ritmoexatos, talvez que ela lograsse com os outros a relação próxima e quente e generosa queeu ao mesmo tempo desejava e temia, talvez que nos fosse possível um entendimentopacientemente conquistado que de certa forma me justificasse, e que a mãe dela, duranteanos, aguardara em vão. A pieguice, sabe como é, substitui com frequência em mim odesejo genuíno de mudar, e vou ferindo imperturbavelmente as pessoas em nome dessaespécie peculiar de autocomiseração e arrependimento que reveste a maior parte dasvezes a forma de um egoísmo feroz. A lucidez que a segunda garrafa de vodka meconfere é de tal maneira insuportável que, se não se importa, passamos à claridadetamisada do cognac que tinge a minha mediocridade interior do lilás de uma solidãoaflita, que ao menos parcialmente me justifica e me perdoa. Não sucede o mesmoconsigo? Nunca teve vontade de se vomitar a si própria? À medida que envelheço e quea necessidade de sobreviver se vai tornando menos urgente e aguda, apercebo-me commaior nitidez de que... Mas aqui está o cognac: ao segundo gole, vai ver, a ansiedadeprincipia a mudar de rumo, a existência recobra a pouco e pouco uma tonalidadeagradável, recomeçamos lentamente a apreciar-nos, a defender-nos de nós mesmos, aser capazes de continuar a destruir. Com este penso a 90 graus no esôfago sinto-me livrepara retomar a minha narrativa no ponto onde há momentos a deixei: estamos em 71, noChiúme, e a minha filha acaba de nascer. Acaba de nascer e a essa hora as senhoras doMovimento Nacional Feminino devem estar pensando em nós sob os capacetesmarcianos dos secadores dos cabeleireiros, os patriotas da União Nacional pensam emnós comprando roupa interior preta, transparente, para as secretárias, a MocidadePortuguesa pensa em nós preparando carinhosamente heróis que nos substituam, oshomens de negócios pensam em nós fabricando material de guerra a preço módico, oGoverno pensa em nós atribuindo pensões de miséria às mulheres dos soldados, e nós,mal agradecidos, alvos de tanto amor, saímos do arame em que apodrecemos paramorrer por perversidade de mina ou emboscada, ou deixamos negligentemente filhossem pais a quem ensinam a apontar com o dedo o nosso retrato ao lado da televisão, emsalas de estar onde tão-pouco estivemos. O alferes Eleutério, pequenino e enrugado, com quem fora ter à mata, numa Mercedes, quando um dos seus homens perdera aperna numa antipessoal e se torcia, ainda consciente, na areia, pousou a mão, sem falar,no meu ombro, e foi essa, percebe?, uma das raras vezes em que até hoje me acheiacompanhado.

J

Deixe-me pagar a conta. Não, a sério, deixe-me pagar a conta e tome-me pelojovem tecnocrata ideal português 79, inteligência tipo Expresso, isto é, mundana,superficial e inofensiva, cultura gênero Cadernos Dom Quixote, ou seja, prolixa,esquisita e fininha, opção política Fox-Trot, Pedras d’El Rei e Casa da Coimida, umagravura de Pomar, uma escultura de Cutileiro e um gramofone de campânula noapartamento, mantendo uma relação emancipada, sinuosa e repleta de curtos-circuitostempestuosos com uma arquiteta paisagista, que, ao deixar à noite as lentes de contatono cinzeiro, perde com esse strip-tease de diotiras o encanto brumoso do olhar dasatrizes americanas de Nicholas Ray, para se transformar numa nudez sem mistério deCampo de Ourique, à procura, às apalpadelas, na carteira, da embalagem deMicroginon. Devíamos todos usar suspensórios para que a alma nos caísse um poucomenos sobre os calcanhares, aconselhava Vidalie aos amigos num bar que Maio de 68deixara intacto, do mesmo modo que as marés poupam, sem que se saiba bem porquê,certos rochedos da praia, e talvez que assim cessássemos de tropeçar nas dobras dascalças dos nossos projetos maquilhados, com tão mau hálito se vistos de perto. Hápouca coisa em que ainda acredito e a partir das três da manhã o futuro reduz-se àsproporções angustiantes de um túnel onde se penetra mugindo a dor antiga que se nãoconsegue sarar, antiga como a morte que dentro de nós cresce, desde a infância, o seumusgo pegajoso de febre, convidando-nos à inação dos moribundos, mas existe tambémsabe como é, essa claridade difusa, volátiel, onipresente, apaixonada, comum aosquadros de Matisse e às tardes de Lisboa, que como o pó de Africa atravessa as frinchas,as janelas cerradas, os intervalos moles que separam uns dos outros os botões dacamisa, a parede porosa das pálpebras e a textura de vidro assassinado do silêncio, e nãoé impossível que a beleza inesperada de uma rapariga jovem, ao cruzar-se conosco semnos ver no restaurante em que a cabeça da pescada nos fita do prato com órbitas deorgasmo implorativo, nos toque de súbito da franja de milagre de uma cólica de desejo ede alegria. É esse instante de surpresa, esse Natal inesperado, esse júbilo no fundo semmotivo que possivelmente aguardamos aqui, neste bar que desejaríamos habitado do paide Huckleberry Fynn e das suas bebedeiras furibundas e geniais, imóveis comocamaleões à espera da mosca de uma ideia, e mudando de cor conforme a tonalidade doálcool que engolimos. Como eu mudei de cor quando, ao entrar de manhã na casa debanho, dei com o oficial catanguês a lavar os dentes, as gengivas, o céu da boca, alíngua, a cara toda, com a minha escova:

- Bonjour, mon lieutenant - borbulhou ele num riso enorme que lhe escorria, em baba cor-de-rosa, pelo queixo.

Tinham arribado dias antes ao Chiúme, uma companhia inteira de negrospequeninos e cabeçudos, de lenço vermelho ao pescoço, cujos bigodes por ajardinar lhesconferiam a aparência falsamente intelectual dos saxofonistas do Festival de Jazz deCascais, gênios da semifusa que o mínimo Bem Webster excomungaria, comandadospor um alferes de meia-idade que se apresentou como primo de Tchombé, exprimindosenum francês de disco Linguaphone a girar na rotação errada:

- J’ai très bien connu Mobutu, mon lieutenant - avisou-me ele a puxar escarro dedesprezo das grutas de Altamira dos pulmões -, il était caporal comptable à l’arméebelge.

Reunidos e armados pela PIDE, constituíam uma horda indisciplinada epetulante a que a emissora da Aâmbia chamava “os assassinos a soldo dos colonialistasportugueses”; não faziam prisioneiros e regressavam da mata aos berros, com os bolsoscheios de quantas orelhas lograssem apanhar; apoderaram-se das mulheres da sanzalaperante o desespero resignado do soba, cada vez mais perdido na contemplação dachana, apoiando o cotovelo e o que lhe restava da alma na sua máquina de costuradefinitivamente avariada e que principiava a assemelhar-se a uma baleia morta na praia;eriçavam-se constantemente em exigências e amuos de hóspedes de luxo a esporearemde ameaças a solicitude dos empregados, recusavam serviço numa arrogância dediretores-gerais que se cuidam confundidos com o porteiro, e o primo de Tchombé,impávido, banqueteava-se de ratos assados sob os nossos soslaios de vômito, e lavava aseguir os dentes satisfeitos com a minha escova, justificando-se numa simplicidadedesarmante:

- Excusez-moi, mon lieutenant, je pensais qu’elle était à tout de le monde.

- Sôr pide manda mais que os tropa - verificava o soba numa incredulidadedesolada, apontando os paisanos brancos que vinham de tempos a tempos conspirar comos catangueses nos cantos do arame, cujo inspetor o tenente levantara uma ocasião, namesse de Gago Coutinho, pelo pescoço, por haver insultado de cobarde um oficial quenão estava presente:

- Ponha-se lá fora, seu sacana.

Mas logo do Comando de Zona os brigadeiros, autoritários, deram a entender que quem entrasse em conflito com os heroicos patriotas da dêgêésse correria alguns riscos militares desagradáveis, e o tenente embarafustou pelo meu quarto a rodopiar de indignação:

- Tão cabrões são uns como os outros, doutor, e quem anda aqui a foder o coirosomos nós. Veja lá se me arranja uma doençazita decente que tenho nojo do caralhodesta guerra.

Eu estava de passagem na sede do batalhão, a caminho de Luanda e das férias deLisboa, estendido na cama na sesta do almoço, a sentir como um feto o peso doesparguete na barriga.

- Uma doença, doutor - insistia o tenente -, anemia, leucemia, reumatismo,cancro, bócio, uma doençazeca, uma doença de merda que me passe à reserva: o quefazemos nós aqui? Você já se perguntou o que fazemos aqui? Pensa que alguém nosagradece, não, porra, escute lá, pensa que alguém nos agradece? Ainda por cima,imagine o meu azar, recebi ontem carta da minha mulher a participar-me que a criada sedespediu, foi-se embora, pirou-se: não estava lá o rapaz para pôr o selo na pequena e oresultado viu-se. Vá por mim, doutor, sopeira em que o patrão não se ponha nuncachega a criar amor à casa. Tinha-lhe comprado meias de renda pretas e cuecasvermelhas, as cores da Artilharia, a minha mulher saía cedo para o emprego, ela traziameo pequeno-almoço à cama com as meias e as cuecas, boa como o milho, levantava olençol, olhava e dizia Ai senhor tenente que hoje está tão grande. Ó doutor, só queriaque provasse aquela competência. E os modos? E a delicadeza? Nunca lhe ouvi nenhumpalavrão, era sempre: o coiso. O seu coiso isto, o seu coiso aquilo, dê-me o seu coiso,senhor tenente, gosto tanto do seu coiso, meta o seu coiso na minha coisinha. Que é queme responde a isto, hã?

De olhos fechados, com a voz enorme do tenente a rebolar pelo quarto, eu pensava: há onze meses que não vejo cortinas, nem tapetes, nem cálices, nem alcatrão, e era como se essas quatro ausências constituíssem a base elementar de qualquer espéciede felicidade, há onze meses que só vejo morte e angústia e sofrimento e coragem emedo, há onze meses que me masturbo todas as noites, como um puto, a tecer variaçõesadolescentes em torno das mamas das fotografias do cubículo de transmissões, há onzemeses que não sei o que é um corpo ao pé do meu corpo e o sossego de poder dormirsem ansiedade, tenho uma filha que não conheço, uma mulher que é grito de amorsufocado num aerograma, amigos cujas feições começo inevitavelmente a esquecer,uma casa mobilada sem dinheiro que não visitei nunca, tenho vinte e tal anos, estou ameio da minha vida e tudo me parece suspenso à minha volta como as criaturas degestos congelados que posavam para os retratos antigos.

- Amanhã sigo de bimotor para Luanda. Quer que dê uma tranca na sopeira por si?

E de novo a baía, as palmeiras, os pássaros brancos pernaltas, os cafés dosmilitares, os homens de pasta sebenta que trocavam dinheiro a vinte por cento nasesplanadas, o jogo de ancas das mulatas, os engraxadores, os aleijados, a indescritívelmiséria dos musseques, as putas do Bairro Marçal iluminadas de viés pelos faróis dosjeeps, os sujeitos das roças de café nos cabarés da Ilha, a palparem bailarinas decrépitascom órbitas globulosas de sapos, cidade colonial pretensiosa e suja de que nunca gostei,gordura de umidade e de calor, detesto as tuas ruas sem destino, o teu Atlânticodomesticado de barrela, o suor dos teus sovacos, o mau gosto estridente do teu luxo.Não te pertenço nem me pertences, tudo em ti me repele, recuso que seja este o meupaís, eu que sou homem de tantos sangues misturados por um esquisito acaso de avós detoda a parte, suíços, alemães, brasileiros, italianos, a minha terra são 89.000 quilômetrosquadrados com centro em Benfica na cama preta dos meus pais, a minha terra é onde oMarechal Saldanha aponta o dedo e o Tejo deságua, obediente, à sua ordem, são ospianos das tias e o espectro de Chopin a flutuar à tarde no ar rarefeito pelo hálito dasvisitas, o meu país, Ruy Belo, é o que o mar não quer.

Pássaros brancos, traineiras que saíam para a pesca ao início da noite. Ahospedeira que me marcara o lugar no avião apareceu de repente a entregar-me umpapelinho dobrado enquanto eu me debatia com a complicação do cinto:

- Você tem olhos azuis. Venha ter comigo quando voltar.

L

Às quatro da manhã os espelhos são ainda suficientemente misericordiosos ouopacos para nos não devolverem o rosto amarrotado e encolhido das noites sem sono,que os olhos baços animam de desânimo pisco: o excesso de luz do aeroporto impediamede me confrontar nos vidros com a minha silhueta hesitante, inclinada como umacana de pesca para o peixe gordo da mala, com a gravata que as muitas horas de aviãohaviam decerto desviado da bissetriz dos colarinhos, tranformando-a num trapo molecomo os relógios de Dali, com as rugas que se acumulavam em torno das pálpebras, àmaneira dos vincos concêntricos de areia dos jardins japoneses; entre o homem quevoltava sozinho da guerra à sua cidade e caminhava através de cachos de estrangeirosindiferentes, e nós que nos dirigimos para a saída do bar ao longo de um corredor denucas e perfis cuja monótona diversidade os aproxima dos manequins da Baixa,petrificados em acenos imóveis de uma inutilidade patética, há apenas a diferençainsignificante de alguns mortos na picada, cadáveres que você não conheceu, as nucas eos perfis nunca viram, os estrangeiros do aeroporto ignoravam, e que, portanto, são inexistentes, inexistentes, percebe?, inexistentes, inexistentes como a sua ternura pormim, esse rápido sorriso sem afeto que quase não chega a nascer, a mão quieta queaceita com indiferença os meus dedos, a coxa inerte que a minha coxa ansiosamenteprime. O seu corpo escapa-se-me como os mesmbros se nos escapam com o sextodrunfo, independentes de nós, flutuando gestos de polvo a que falta o arame dos ossos, epor dentro da sua cabeça giram pensamentos indecifráveis de que me sinto expulso,condenado a permanecer, de pé e á espera, no capacho da entrada dos seus soslaiosirônicos, à maneira, sabe como é, de uma lata de conservas de que se não tem a chave.Lembra-se dos pescadores de fim-de-semana da muralha da Marginal, a estenderemtoda a noite para o fio o anzolzinho obstinado e feliz? Pois bem, se você pousassedevagar a cabeça no meu ombro, se a sua anca friccionasse a minha até saltar, doencontro de ambas, a chama de sílex de uma ereção contente, se as suas pestanasumedecessem de súbito, ao fitarem-me, de consentimento e abandono, poderíamostalvez achar em nós o mesmo subterrâneo júbilo que a pele contém a custo, o mesmodenso prazer de expectativa e esperança, a mesma alegria que se alimenta de si própriacomo a manhã devora, nas suas pregas claras, o cintilante coração do dia. Poderíamosenvelhecer perto um do outro e da televisão da sala, com a qual constituiríamos osvértices de um triângulo equilátero doméstico protegido pela sombra tutelar do abatjourde folhos e de uma natureza-morta de perdizes e maçãs, melancólica como osorriso de um cego, e encontrar na garrafa de Drambuie do aparador um antídotoaçucarado contra a conformação do reumático. Poderíamos friccionar-nos mutuamenteos bicos de papagaio com bálsamo Menopausol, pingar em uníssono, no termo dasrefeições, as mesmas gotas para a tensão, e aos domingos, depois do cinema, graças aoúltimo beijo do filme indiano do Avis, unirmo-nos em abraços espasmódicos de recémnascidos,a soprar pelas dentaduras postiças bronquites aflitas de chaleira. E eu, deitadode costas no colchão ortopédico reduzido a uma tábua dura de faquir a fim de preveniras guinadas da ciática, lembrar-me-ia do jovem saudável e ardente que há muitos anosfui, capaz de repetir sem azia o frango na púcara, para quem o horizonte do futuro nãoera limitado pelo perfil de cordilheiras dos Andes de um eletrocardiograma ameaçador,a regressar da guerra de África para conhecer a filha, numa dessas madrugadas deNovembro tristes como a chuva num pátio de colégio, durante a lição de Matemática.

A voz feminina, vinda de nenhum lado, que anuncia em três línguas a partidados aviões, flutuava, imaterial, por sobre a minha cabeça, idêntica a uma nuvem deDelvaux, até se dissolver a pouco e pouco numa espuma de sílabas em que os nomes decidades estranhas ecoavam, São Salvador, La Paz, Buenos Aires, Montevidéu, edifíciosde cem andares que as maças de Adão dos elevadores percorrem de contínuo para baixoe para cima em deglutições incessantes, vomitando funcionários escuros, de bigodes,cujos sorrisos se abrem como cortinas sobre dentes de oiro de uma amabilidadecarnívora. Nesses países veementes, onde os golpes de Estado e os tremores de terra sesucedem numa cadência teatral destinada a tentar despertar (sem êxito) o desinteressesonâmbulo de um público de cantores de tango que esperam, desde o desastre deGardel, a Cumparsita que os acorde, poderia iniciar, entre um cacto e uma Dolores, aexistência generosa do Camilo Torres que grita em mim, sob sucessivas camadascórneas de egoísmo e de preguiça, a sua indignação apaixonada. Dezenas de SierrasMaestras aguardavam as minhas barbas e o meu charuto, e resolveria tranquilamenteproblemas de xadez, encostado a uma árvore, a fazer tremer de medo ditadoresbarrigudos protegidos pelos óculos Ray-Ban e as pastilhas elásticas da CIA. Oempregado da Alfândega, magrinho intolerante que suspeitou decerto em mim oguerrilheiro em embrião, vasculhou-me a mala num azedume minucioso em busca demetralhadoras libertárias.

- Trago um feto de oito meses escondido no meio das camisas - informei-oamavelmente para lhe aguçar a irritação e o zelo. Possuía o aspecto desiludido efrenético de quem se estende ao lado de uma esposa frígida, que apenas o pulmão deaço do folhetim do rádio mantém viva.- Vocês vêm de Angola convencidos que são uns grandes homens mas isto aquinão é o mato, seu tropa

- E a voz dele, a articular as palavras numa entoação Assimil,trouxe-me de súbito à lembrança o professor de Português do liceu, sujeitoexageradamente cuidado, de unhas polidas e anel de monograma, que recitava TomásRibeiro em bicos de sapatos de verniz, puxando do fundo do esôfago tremuras deemoção arrebatada:

Palram pega e papagaio
E cacareja a galinha.
Os ternos pombos arrulham,
Geme a rola inocentinha.

- Se fosse, dava-lhe um tiro nos tomates.

O burocrata idoso que seguia à minha frente voltou-se para trás assarapantado,uma senhora disse para outra Chegam todos assim lá de África, coitadinhos, e eu sentique me olhavam como se olham os aleijados que rastejam de muletas nas cercanias doHospital Militar, sapos coxos fabricados pela estupidez do Estado Novo, que ao fim datarde, no Verão, escondiam os cotos envergonhados nas mangas das camisolas, pombosdoentes pousados nos bancos do jardim da Estrela, ou misturando-se com as prostitutasque na Rua Artilharia Um roçam as ancas ossudas pelos Mercedes a diesel deconstrutores civis de fósforo nos dentes, a suarem de cio sob os chapéus tiroleses. Oempregado da Alfândega, que recuara dois passos de pavor, aguardava, encostado àparede, que eu varresse à metralhadora os sacos de viagem empilhados no balcão,sangrando cuecas e peúgas pelos buracos das balas. O burocrata idoso, assarapantado,tocou-me respeitosamente no ombro:

- O feto que traz na mala está num frasco?

Uma fieira de táxis imóveis alongava-se diante do aeroporto, sob a noite e achuva, solenes como nos cortejos de enterro, pilotados por cabeças que se distinguiammal no escuro dos estofos, mas que deviam fungar as sinusites perpétuas dos infelizesresignados. O halo de claridade dos candeeiros aparentava-se às auréolas fumosas dossantos nos quadros das igrejas, e eu pensei, fitando as trevas desabitadas e murchas queuma aurora improvável desbotava, Afinal é isto Lisboa, na mesma desilusão incrédulacom que visitara a casa de Nelas, muitos anos depois, e descobrira compartimentosexíguos e sem mistério onde tinha deixado enormes salas reboantes percorridas pelosopro de epopeia da infância.

Sentado no banco traseiro do carro, com os estalos do contador a pularem-mecomo soluços no esôfago, eu procurava desesperadamente reconhecer a minha cidadeatravés dos vidros cobertos de verrugas de água que deslizavam lentamente para baixonum vagar de estearina, e descobria apenas, na tremura precária dos faróis, perfisrápidos de árvores e casas, que se me afiguravam imersas na atmosfera uniforme desolitária viuvez devota comum a certas terras de província, quando o cinema do centroparoquial não emite um filme piedoso acerca da escassez de vocações. A minhalembrança grandiosa de uma capital cintilante de agitação e de mistério copiada de Johndos Passos, que alimentara fervorosamente durante um ano nos areais de Angola,encolhia-se envergonhada defronte de prédios de subúrbio onde um povo de terceirosescrituráriosressonava entre salvas de casquinha e ovais de crochê. Um grupo de homens de oleado regava camarariamente a rua na esperança obstinada de quenascessem crisântemos miraculosos do alcatrão, poetas da aurora mascarados deescafandristas, os primeiros cães, esqueléticos como galgos do Escurial, farejavam nasmolduras vazias dos umbrais a ideia de um osso. Dentro em breve, sabe como é,mulheres de sapatos de homens e homens sem sapatos desceriam das barracas junto aocemitério para magras rapinas ávidas nos caixotes do lixo, vasculhando sobras decomida nas latas de conserva e nas garrafas quebradas: os pobrezinhos das minhas tias,a quem no Natal se ofereciam através do prior, demiurgo da caridade anual, fatias debolo-rei, palavras evangélicas e medicamentos fora do prazo de validade, rodeados defilhos, de piolhos e de gritos, personagens de Vittorio de Sica à deriva no Pátio das Cantigas.

- Merda de país de merda - declarei eu para o chauffeur, o qual me respondeucom um soslaio desconfiado no retrovisor que lhe reduzia o rosto a um par de pupilasmiúdas e hostis, a que o espelho conferia a agudeza protuberante dos reflexos metálicos.Dois bilhetes postais colados ao tablier, um representando Nossa Senhora de Fátima e ooutro Santa Teresinha do Menino Jesus, ladeavam um letreiro a escantilhão que exigiacom secura que se depositassem as pontas de cigarro numa espécie de bolsa marsupialde alumínio alojada como uma verruga nas costas do banco dianteiro. Estou fodido, umirmão do Santíssimo, pensei eu. E acrescentei alto, no intuito de apaziguar a indignaçãode cruzada do católico:

- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo - tentando imitar o majestoso sotaquebeirão dos cardeais-patriarcas, em cujos gestos lentos de turíbulo se escondemdesconfianças ossificadas de camponês a quem os comboios confundem.

- A mim, os caminhos de ferro fazem-me sonhar - expliquei ao pagar aocondutor diante do velho portão franqueado de ananases de pedra: o homem consideroumenum imenso espanto incrédulo esquecido do dinheiro, e foi como se tivesse emNovembro a revelação do Natal.

A Travessa do Vintém das Escolas, o beco, o muro alta da casa, o pátio dafábrica de curtumes onde latia constantemente um cachorro desesperado, o céu cor-deleiteda chuva, os ramos secos da buganvília sobre o muro: cheguei, vou subir a escada aarrastar a mala atrás de mim, abrir a porta, entrar, dissolver-me nos teus braços há tantotempo sós, ver nascer a manhã na janela estreita do teto, ao teu lado, assistir à chegadade anjo do padeiro, vou tocar a tua pele, as tuas pernas, o intervalo macio e tenro ecôncavo das coxas, o espaço claro que separa os seios e possui o brilho nacarado decertas conchas secretas que a vazante exibe com o orgulho de um tesouro, vou entrar emti devagar, até ao fundo, apoiado nos braços estendidos para assistir à alegria gritada doorgasmo, ao rosto a rodopiar na almofada coberto de uma elipse de madeixas, às órbitasde repente cegas, de repente opacas, que as pestanas escurecem de franjas trêmulas deparamécia. É difícil falar disto assim, percebe?, junto ao porteiro do barsimultaneamente intransigente e obsequioso, que exige a gorjeta numa subserviênciaperemptória de assalto à mão armada, curvando para mim os galões da manga à maneirado elefante do Jardim Zoológico a estender a tromba mole para o molhe de cenouras dotratador. É difícil, compreende?, tanto mais que não encontro no bolso uma moedasequer para satisfazer os apetites autoritários da criatura que principia a franzir assobrancelhas na hostilidade sem nuances dos grandes animais irados, pronto aespezinhar-me com as patas enormes dos sapatos numa fúria elementar de paquiderme,e a transformar-me os braços em arabescos torcidos Arte Nova idênticos às hastessabiamente oxidadas dos candeeiros, capazes de arrancarem das calvícies cintilaçõeslunares. De modo que trepei os degraus com a mala a arrastar atrás de mim à laia deuma cauda incômoda e uma explosão de lágrimas a inchar, enovelada, na garganta,

encontrei uma mulher numa cama e uma criança num berço dormindo ambas na mesmacrispação desprotegida feita da fragilidade e abandono, e fiquei parado no quarto com acabeça cheia ainda dos ecos da guerra, do som dos tiros e do silêncio indignado dosmortos, a escutar, sabe como é, os sonos que se entrelaçavam numa rede complicada dehálitos, um tornozelo da minha mulher sobrava, pendente, dos lençóis, e eu comecei aafagá-lo de leve até ela acordar, afastar os cobertores sem uma palavra, e me receberinteiro na cova morna do colchão. A voz gorda do tenente, rebolando de muito longe,repetia Pôr o selo na patroa, pôr o selo na patroa, pôr o selo na patroa, doutor é precisopôr o seloa na patroa, os capitães vindos de sargentos jogavam as damas na messe, oFerreira cicatrizava o coto da perna que já não tinha, no Luso, e eu sentia-me a fazeramor por todos eles, entende, a vingar o sofrimento e a angústia de todos eles numcorpor aberto como uma corola noturna, a cerrar-se devagar sobre os meus rinsexaustos.

Talvez que um dia, se nos conhecermos melhor, lhe mostre o retrato que guardona carteira da minha filha de olhos verdes que mudam de tonalidade quando chora, e setornam da cor do mar intratável do equinócio a saltar a muralha num tricot zangado deespuma, lhe mostre o seu sorriso, a sua boca, o seu cabelo loiro, a filha que sonhei novemeses nos suores de Angola porque a gente é que somos de verdade e o resto nunca queexistiu, dizia o Luandino, a gente é que somos de verdade, ela e eu, o seu corpo alto, assuas mãos tão parecidas com as minhas, a infatigável curiosidade das suas perguntas, asua inquietação aflita acerca do meu silêncio ou da minha tristeza, a gente é quemsomos de verdade resto tudo é mentira, lhe mostre a expressão séria da minha filha quenão vi inchar na barriga crescida da mãe, a filha para quem eu era uma fotografia que seaponta com o dedo e me encarava com a raiva com que se recebem os intrusos, euchegado de África deitado com ela no meu colo tardes a fio, sorrindo um para o outro oriso de entendimento antigo e sábio que as crianças de quatro meses herdaram dosálbuns e demoram anos e anos a perder, Está a dormir a sesta e não quero que oacordem, declarei eu para os soldados, o capelão cirandava em torno da urna a desenharcruzes com os dedos, o tenente resmungava Caralho de guerra caralho de guerra caralhode guerra, sou paisano de novo por uns dias e viajo na geografia mansa do teu corpo, norio da tua voz, na sombra fresca das tuas palmas, na penugem de peito de pomba do teupúbis, mas eu e Xana e tu chuva de sábado é que somos ainda a verdade, o choro súbitoda nossa filha na noite dos lençóis a acordar-nos, os biberões aquecidos na cozinha emnoites de angústia e de esperança, não, oiça, hoje, quando me deito, o futuro é umnevoeiro fechado sobre o Tejo sem barcos, só um grito aflito ocasional na bruma,viverei muito tempo dentro dos teus gestos, minha filha, a família veio ver-me com acuriosidade com que se assiste a salvo a um tremor de terra, uma derrocada, umsuicídio, um desastre, um homem de bruços no chão junto a um automóvel amarrotado,um epilético aos saltos no passeio, um cardíaco abraçado ao coração na mercearia, asrugas graves do meu pai, as piadas dos tios, discursos bêbedos do cabo Paulo que umamina levou, e de repente o avião da partida, a minha mulher encostada a uma colunasem falar, nenhum cuspo na boca, sabe como é, a língua seca como a das galinhas, asluzes da minha cidade lá de cima. Vi passar o boingue em que ias da janela da sala esenti um aperto que nem quê.

M

Para sua casa ou para a minha? Moro por trás da Fonte Luminosa, na Picheleira,num andar de onde se vê o rio, a outra banda, a ponte, a cidade à noite estilo impressodesdobrável para turistas, e sempre que abro a porta e tusso o fim do corredor devolveem eco o meu pigarro e vem-me como que a sensação esquisita, percebe?, de me dirigirao meu próprio encontro no espelho cego do quarto de banho onde um sorriso triste meaguarda, suspenso das feições como a grinalda de um carnaval que acabou. Já lheaconteceu observar-se quando está sozinha e os gestos se atrapalham numa desarmoniaórfã, os olhos procuram no seu reflexo uma companhia impossível, a gravata de bolasnos confere o aspecto derisório de um palhaço pobre a representar o seu número semgraça para um circo vazio? Costumo sentar-me em alturas como essas no chão do quartodas minhas filhas, que de quinze em quinze dias me visitam espalhando migalhas ecromos nos compartimentos desertos, e cujos sonos vigio numa solicitude comovida, atropeçar em pernas de bonecas, em livros de quadradinhos e em berços de baquelite,dispostos na alcatifa segundo um código misterioso que tento penosamente reconstituirna sua ausência, do mesmo modo que, diante das fotografias dos mortos, procuramos namemória as espressões fugitivas que por demasiado líquida os retratos deixam passarpor entre os dedos. Às terças e sextas-feiras, uma caboverdiana que nunca vi, e comquem comunico por intermédio de mensagens cerimoniosas depositadas no armário dacozinha, repõe os objetos e os móveis na ordem excessivamente geométrica da solidão,a que a falta de pó confere a impessoalidade asséptica de uma sala de pensos, e pendurano arame da varanda a minha monótona roupa de home que nenhum soutien alegra desugestões conjugais. De tempos a tempos, mulheres encontradas por acaso no canto desofá de uma reunião de amigos, como quem descobre trocos inesperados no bolso docasado de Inverno, sobem comigo no elevador para uma rápida imitação dodeslumbramento e da ternura de que conheço já de cor os mínimos detalhes, desde odesenvolto uísque inicial ao primeiro soslaio de desejo suficientemente longo para nãoser sincero, até o amor acabar no chapinhar do bidê, onde as grandes efusões sedesvanecem à custa de sabonete, raiva e água morna. Despedimo-nos no vestíbulotrocando número de telefone que imediatamente se esquecem e um beijo desiludido quea falta de bâton torna incolor, e elas evaporam-se da minha vida abandonando no lençola mancha de clara de ovo que constitui como que o selo branco que certifica o amoracabado: apenas um perfume estranho, a vestir-me os sovacos de odores de cocote, e umtraço de base no pescoço descoberto na manhã seguinte durante o harakiri sangrento dabarba, me garantem a breve passagem real pela minha cama do que cuidava já serem osimprecisos artefatos que a melancolia inventa. Entretanto, as torneiras e os autoclismosprincipiam um a um a deixar de funcionar, os estores empenam como pálpebrascomplicadas impossíveis de abrir, a umidade cresce no interior dos armários ilhasconfluentes de bolor; lentamente, insidiosamente, a casa morre; as pupilas fundidas daslâmpadas fitam-me numa névoa de agonia, da boca aberta escapa-se o hálito de correntede ar das respirações exaustas; sentado à secretária do escritório sinto-me na ponte decomando deserta de um navio que se afunda, com os seus livros, as suas plantas, os seusmanuscritos inacabados, as cortinas que não há sopradas pelo vento pálido de umafelicidade difusa. O prédio que constroem à minha frente emparedar-me-á em breve àmaneira dos personagens de Poe e somente os meus dentes cintilirão nas trevas, comoos dos esqueletos antigos acocorados num ângulo de caverna, a abraçarem os ossos dosjoelhos com os tendões amarelecidos dos cotovelos.

E você como faz? Imagino-a, sabe como é, num cenário a meio caminho entre afilosofia oriental e a esquerda ponderada e lúcida, para quem Maio de 68 representouuma espécie de aborrecida doença da infância que reduziu o sonho ao marxismodesencantado, utilitário e cínico de certas burocracias do Leste: muitas almofadas pelochão, um odor de incenso e de patchouli a flutuar sobre os bibelots indianos, um gatosiamês desdenhoso como uma prima-dona, livros de Reich e Garaudy a prosseguiremnas prateleiras os seus monólogos veementes de profetas, a voz de Leo Ferré queemerge em espirais de paixão febril do gira-discos. Arquitetos de bigode,cuidadosamente mal vestidos, ocupam de tempos a tempos a sua cama de ferro deantiquário de Sintra, enchendo de pontas de cigarro sem filtro os cinzeiros design, ouafagando os cabelos hirsutos do peito em elucubrações onde se adivinham perfis desupermercados por projetar. De manhã, a porteira, intratável e gorda, recolhe os caixotesdo lixo vociferando insultos silenciosos pelas sobrancelhas pesadas de buldogue. Doandar do lado chegam as guinadas furibundas de uma discussão conjugal, acompanhadado som de loiça que se quebra. Um sol alegre como o riso de um polícia toca xilofonenas persianas. De chinelos, na cozinha, você prepara um café forte como umeletrochoque que a projete para fora do seu invólucro de sono na direção do emprego,ao volante de um R4 creme, de traseira amachucada por um táxi colérico. Habitantes damesma cidade, passamos talvez anos e anos um pelo outro sem nos vermos,frequentamos os mesmos cinemas, lemos os mesmos jornais, assistimos ambos,pontualmente, aos espisódios da telenovela, na mesma irritação interessada. Somos, seassim me posso exprimir, contemporâneos, e as nossas trajetórias paralelas vãofinalmente encontrar-se em minha casa (porque o odor do incenso me enjoa) no júbilomole com que dois fios de esparguete se cruzam. Quer que ligue o rádio do carro? Podeser, pode sempre ser que o noticiário das três nos anuncie a ressurreição da carne echeguemos ao cemitério de Benfica a tempo de ver sair do jazigo da família as senhorasde sombrinha do álbum de retratos cujos imensos bustos me continuam a intrigar. Oquê? A guerra de África? Tem razão, divago, divago como um velho num banco dejardim perdido no esquisito labirinto do passado, a mastigar recordações no meio debustos e de pombos, de bolsos cheios de selos, de palitos e de capicuas, movendocontinuamente os queixos como se premeditasse um escarro fantástico e definitivo. Ocerto é que, à medida que Lisboa se afastava de mim, o meu país, percebe?, se metornava irreal, o meu país, a minha casa, a minha filha de olhos claros no seu berço,irreais como estas árvores, estas fachadas, estas ruas mortas que a ausência de luzassemelha a uma feira acabada, porque Lisboa, entende, é uma quermesse de província,um circo ambulante montado junto ao rio, uma invenção de azulejos que se repetem,aproximam e repelem, desbotando as suas cores indecisas, em retângulos geométricos,nos passeios, não, a sério, moramos numa terra que não existe, é absolutamenteescusado procurá-la nos mapas porque não existe, está lá um olho redondo, um nome, enão é ela, Lisboa começa a tomar forma, acredite, na distãncia, a ganhar profundidade evida e vibração, Luanda enevoada subiu ao meu encontro, o alferes médico abandonouo avião dobrado pelo peso de trinta e cinco dias de angústia e de alegria a repetir dentrode mim mesmo Surtout pas d’émotion, como aconselhava o Blondin, a repetir em cadadegrau Surtout pas d’émotion, Surtout pas d’émotion, Surtout pas d’émotion, a janela dapensão abria para a manhã confusa da Mutamba, tirei a fotografia da minha filha damala e coloquei-a entre o telefone e o copo de água naquele quarto anônimo a cheirar adesinfetante, a fórmica e a goma, estendi-me calçado e de casaco em cima da colcha, atulipa de vidro do teto dividiu-se em duas e adormeci.

A noite surge depressa demais nos trópicos, após um crepúsculo fugaz edesinterssante como o beijo de um casal divorciado por mútuo consentimento. As palmeiras que bordam a baía acenavam as rêmiges das folhas em voos preguiçosos, astraineiras abandonavam o cais arrotando o gasóleo do jantar, o néon dos cabarés da Ilhapiscava as pálpebras demasiado pintadas, em cujo chamamento ansioso ecoavam osapelos das mulheres das barracas de tiro do Parque Mayer, cujas vozes roucas mepovoaram os sonhos, na adolescência, de crocitos apavorantes. O calor vestia-nos osgestos de algodão pegajoso, e a água chegava a ferver dos canos num assobio de geiser.Jantei sozinho num restaurante da Baixa, repleto de homens nédios, de pescoços aluzirem de suor como os dos bois minhotos, e dedos povoados de anéis de pedras pretasou vermelhas, que submergiam no caldo verde bigodes de lontras esfomeadas. Umnegro corcunda tentava sem sucesso impingir de mesa em mesa bonecos talhados acanivete de uma vulgaridade de plástico, até o empregado o enxotar com o guardanapoque pendurava do ombro, tão escuro de nódoas e fuligem como o lenço de um tomadorde rapé. Um velhote calvo, de carranca de chafariz, abocanhava num canto uma mulataprotegida da sua sanha por três voltas de colares, ocupada a devorar um geladogigantesco, monstruoso de frutas cristalizadas e de cremes, com uma cereja obscena dotopo. Uma máquina elétrica de discos vomitava aos guinchos pasodobles de cluberecreativo paranoico, e com o pano de fundo dessas sugestões toureiras que meobrigavam a berrar no bocal urros tremendos de cadeira de dentista, telefonei àhospedeira da TAP que me esperava, de Logan’s em riste, num terceiro andar do BairroPrenda, metida nuns jeans tão apertados que quase se percebia, através do tecido, opulsar das veias das coxas. Um cão minúsculo, parecido com um rato pernalta e magro,reteso de hostilidade azeda, veio ladrar-me, furioso, aos tornozelos, e eu pensei em leválode presente ao alferes catanguês para o pequeno-almoço de domingo, no intuitoamável de lhe variar a dieta. A rapariga agarrou nele por uma pata, atirou-o para ointerior da cozinha onde o bicho tombou num ganido lancinante de fratura múltiplas, efechou a porta com um pontapé; o passo seguinte seria, provavelmente, esmagar-me ostestículos com uma joelhada de artes marciais, e no dia imediato encontrariam o meucadáver, horrorosamente mutilado, no meio de móveis em desordem e de pedaços degarrafas.

- Olá, Modesty Blaise - disse eu a encolher-me. Os peitos dela, sob a camisolaestampada, assemelhavam-se a duas peras enormes debaixo de um guardanapo Coca-Cola: sem a farda, perdia o coeficiente de mistério que eu teimo em atribuir aos anjospor vício que me ficou do catecismo, mesmo aos que servem refeições de celofane numcorredor de avião. O apartamento cheirava a roupa por lavar e a comida enlatada deanimais, a noite de África entrave pela janela aberta num hálito grosso de presépio, nacama por fazer um livro de poemas de Eluar veio prometer-me de repente um horizontede doçuras insuspeitadas e frágeis naquela amazona violenta, chegada, sabe como é, denão sei que céu, incumbida da missão específica de quebrar as enervantes colunasvertebrais dos cachorros de luxo e de pulverizar os tomates medrosos dos guerreiros depassagem, em trânsito para o arame farpado e para a morte, pobres bichos fardadosescondidos nas gaiolas de madeira das casernas.

- O que é que você toma, Olhos Azuis? - perguntou ela num sorriso carnívoro deacordeão que se desdobra e me trouxe à memória o livro, cheio de imagens assustadoras, do Capuchinho Vermelho da minha infância: É para te comer melhorminha netinha, e o Lobo, de touca, exibia dos lençóis, a babar-se, os dentespontiagudos.

Para te comer melhor minha netinha, para te comer melhor minha netinha, parate comer melhor minha netinha: a boca dela crescia na minha direção, côncava,gigantesca, sem fundo, as unhas vermelhas aumentavam até me roçar a pele, hálitosfrios de carne crua aproximavam-se de mim, a gruta de um esôfago de poço, onde o pedregulho do meu corpo tombaria num roldão de queda, nascia-lhe na raiz de ganganas coxas. O cão minúsculo arranhava a porta da cozinha em guinchos melancólicos.Pousei o copo numa mesa de bambu onde o umbigo de um buda pantagruélicoestremecia gargalhadas de loiça, e o tilintar dos cubos de gelo trouxe-me à lembrança osino que comprara para o berço da minha filha e que guitarrava vagarosamente umamelodia sem nexo; a essa hora, em casa, a minha mulher aquecia o biberão da meianoite,o cigarro ardia no cinzeiro de estanho serenidades azuladas de turíbulo, o confortodos silêncios domésticos arredondava as dolorosas arestas do desespero, uma eternidadede retábulo medieval inventava anjos gordos pelo teto. Talvez que o sofá da salaconservasse ainda a fugaz impressão digital das minhas nádegas, e um resto diluído dosmeus traços flutuasse na água vazia dos espelhos, pupilas inertes que se esquecem.Todo um universo de que me achava cruelmente excluído prosseguia, imperturbável, naminha ausência, o seu trote miúdo ritmado pelo coraçãozinho ofegante do despertador,uma torneira qualquer suava um pingo perpétuo nas trevas. A rapariga sacudiu o livrode Eluard da cama (larmes des yeux les malheurs des malleureux) no gesto de quemenxota migalhas de pão de uma toalha, e deslizou nua para fora da roupa a agitar ascrinas dos cabelos compridos à laia de uma grande égua ávida que espera, a relincharuma espécie de vapor pelas narinas abertas. Em Lisboa, a minha filha, de olhosfechados, começava o biberão, e as orelhas dela, à luz da lâmpada, adquiriam atransparência cor-de-rosa do mar de Antonioni, enrolando em si próprio espiraisdelicadas. Despi as calças, desabotoei a camisa, o umbigo do buda troçava da minhamagreza pálida e aflita, estendi-me no colchão, envergonhado do tamanho do meu pênismurcho que não crescia, não crescia, reduzido a uma tripa engelhada entre os pelosruivos lá de baixo, a hospedeira pegou-lhe educadamente com dois dedos como numjantar de cerimônia não sei se com surpresa ou com desgosto, Entesa-te minha besta,ordenei-me eu dentro de mim, a minha filha suspendeu o biberão para arrotar e os olhosdela fitavam para dentro, desfocados, toquei a vulva da rapariga e era mole, e morna, etenra, e molhada, encontrei o nervo duro do clitóris e ela soltou um suspirozinho dechaleira pelo bico esticado dos beiços, Pela alminha de quem lá tens entesa-te, supliqueia mirar de viés a minha pila morta, não me deixes ficar mal e entesa-te, pela tua saúdeentesa-te, entesa-te, foda-se, entesa-te, a minha mulher mudava fraldas de alfinete deama na boca, o tenente devia falar na criada ao capelão aterrado que se benzia, oscaixões na arrecadação aguardavam que eu me estendesse, obediente, no forro dechumbo, a rapariga parou de me beijar, apoiou-se no cotovelo como as figuras dostúmulos etruscos, passou-me a mão na cara e perguntou O que é que não vai bem, OlhosAzuis?, e eu encolhi os ombros, rodei até ficar de bruços no lençol e desatei a chorar.

N

Depois de correr aflito pelo alcatrão, a agitar as asas numa ânsia de asma embusca de ar que lhe faltava, o Nord Atlas soltou-se dificilmente da pista num voodesordenado e torto de perdiz, roçando com as penas gordas da barriga o telhado dezinco dos musseques, em que a miséria dos homens e dos cães se afogava numaumidade quente de barrela. Apertado contra os outros nu único banco comprido doavião, entre caixotes, fardos, sacos e malas (“o meu país na gare de Austerlitz”), eu,emigrante forçado da guerra de regresso ao bidonville do arame, olhava pelas janelasestreitas do avião a Ilha de Luanda a encolher-se na distância, a cidade esvaziada devolume, subitamente pequena, o mar de vidro da baía, ruas miniaturais que se torciam, sobrepunham e cruzavam como enguias num cesto, o Bairro prenda da minha derrota,onde o cão execrável devia latir de júbilo em torno de um lençol sem manchas: acabarapor esconder a vergonha nas cuecas às primeiras horas da manhã, observado pelapiedade divertida da mulher, e introduzira-me obliquamente no elevador à maneira deum passageiro clandestino que se evade, desiludido, de um navio que não largou docais, até um táxi me varrer os restos para a pensão da Mutamba, cujo néon leitosoestrebuchava os derradeiros estremecimentos de uma cobra que agoniza. A negraenorme a cabecear na entrada diante do painel das chaves ergueu para mim um pálpebraindiferente de hipopótamo em que julguei perceber a cintilação fugidia de um sarcasmo.E ao entrar no quarto apeteceu-me cuspir no copo de água o coral da dentadura postiçacapaz de me fazer aceitar com menor sofrimento o meu fracasso: mas os queixaispermaneciam teimosamente grudados às gengivas, a testa não se me enrugava ainda nosespelhos, e alcançaria provavelmente o ano dois mil com próstata em sossego e amargem suficiente de futuro para ajardinar a esperança. De modo que fechei a janela,desci os estores, e principiei a narrar mentalmente à lâmpada do teto a história donáufrago irremediável que de quando em quando me sentia.

Éramos cerca de vinte militares que tornavam ao Leste, a fumar em silêncio nobanco de pau, de feições desabitadas de expressão à laia dos retratos das fotomatons, pordetrás das pupilas das quais se não adivinha a suspeita de qualquer emoção, e eu penseique vivia há um ano no arame com os mesmos homens sem os conhecer sequer,comendo a mesma comida e dormindo o mesmo sono inquieto entrecortadodesobressaltos e suores, unidos por uma esquisita solidariedade idêntica à que irmana osdoentes nas enfermarias de hospital, fieta do comum, sabe como é, recei, pânico damorte, e da inveja feroz dos que prosseguem lá fora um quotidiano sem ameças nemangústia a que se deseja desesperdamente voltar, escapando à absurda paralisia dosofrimento, vivia há um ano com os mesmos homens e não sabíamos nada uns dosoutros, o rosto com que se saía para a mata era rigorosamente idêntico ao que se traziada mata, só que mais amarrotado e coberto de um musgo verde de barba, as vozespossuíam o timbre de neutralidade anônima dos interfones, os sorrisos rarosassemelhavam-se às chamas das velas apagadas de que Lewis Carroll fala, os corposestendidos nos beliches dir-se-iam fabricados por um único molde apressado e cinzentoque se esquecera de incluir no reportório dos nossos músculos os súbitos gestos dealegria.

A pouco e pouco a usura da guerra, a paisagem sempre igual de areia e bosquesmagros, os longos meses tristes do cacimbo que amareleciam o céu e a noite do iododos daguerreótipos desbotados, haviam-nos transformado numa espécie de insetosindiferentes, mecanizados par um quotidiano feito de espera sem esperança, sentadostardes e tardes nas cadeiras de tábuas de barril ou nos degraus da antiga administraçãode posto, fitando os calendários excessivamente lentos onde os meses se demoravamnum vagar enlouquecedor, e dias bissextos, cheios de horas, inchavam, imóveis, à nossavolta, como grandes ventres podres que nos aprisionavam sem salvação. Éramos peixes,percebe, peixes mudos em aquários de pano e de metal, simultaneamente ferozes emansos, treinados para morrer sem protestos, para nos estendermos sem protestos noscaixõs da tropa, nos fecharem a maçarico lá dentro, nos cobrirem com a BandeiraNacional e nos reenviarem para a Europa no porão dos navios, de medalha deidentificação na boca no intuito de nos impedir a veleidade de um berro de revolta. Deforma que me viram tornar ao Chiúme sem surpresa, e nenhum oficial levantou oqueixo do prato do almoço quando me sentei a comer no meio deles, entre o capitão e ocatanguês que sorria para toda a gente, sem encontrar resposta, a gargalhada cruel dosleões de pedra das fachadas dos prêmios Valmor. O leitor de cassetes do alferes Eleutério tocava a 4ª Sinfonia de Beethoven, e era como se a música soasse numa saladeserta para lá de cujas janelas sem cortinas a chana desdobrava interminavelmente aspregas do seu lado, uma música que se prolongasse no eco de si própria do mesmomodo que nos pianos cerrados teimam em morar ainda os compassos tênues de umavalsa antiga, tão velha e hesitante como os relógios de parede do corredor. Éramospeixes, somos peixes, fomos sempre peixes, equilibrados entre duas águas na busca deum compromisso impossível entre a inconformidade e a resignação, nascidos sob osigno da Mocidade Portuguesa e do seu patriotismo veemente e estúpido de pacotilha,alimentados culturalmente pelo ramal da Beira Baixa, os rios de Moçambique e asserras do sistema Galaico-Duriense, espiados pelos mil olhos ferozes da PIDE,condenados ao consumo de jornais que a censura reduzia a louvores melancólicos aorelento de sacristia de província do Estado Novo, e jogados por fim na violênciaparanoica da guerra, ao som de marchas guerreiras e dos discursos heroicos dos queficavam em Lisboa, combatendo, combatendo corajosamente o comunismo nos gruposde casais do prior, enquanto nós, os peixes, morríamos nos cus de Judas uns apósoutros, tocava-se um fio de tropeçar, uma granada pulava e dividia-nos ao meio, trás!, oenfermeiro sentado na picada fitava estupefato os próprios intestinos que segurava nasmãos, uma coisa amarela e gorda e repugnante quente nas mãos, o apontador demetralhadora de garganta furada continuava a disparar, chegava-se sem vontade decombater ninguém, tolhido de medo, e depois das primeiras baixas saía-se para a matapor raiva na ânsia de vingar a perna do Ferreira e o corpo mole e de repente sem ossosdo Macaco, os prisioneiros eram velhos ou mulheres esqueléticos menos lestos a fugir,côncavos de fome, o MPLA deixava mensagens nos trilhos a dizer Deserta mas paraonde se só havia areia em volta, Deserta, os tipos passavam da Zâmbia para o interiordetendo-se de quando em quando para dinamitar as pontes dos rios, um dia depois deum ataque encontrei uma insígnia metálica do Movimento na pista de aviação fiquei aolhá-la como o Lourenço mirava as tripas que se lhe escapavam da barriga, o cabomostrou-me uma carta caída num arbusto I love to show you my entire body, explicavauma inglesa a um angolano que na véspera nos metralhara oculto no escuro, leves armaschecoslovacas de som agudo e rápido, médicos suecos trabalhavam no Chalala Nengo apoucos quilômetros de nós, o Chalala Nengo que os T6 bombardeavam de napalm eresistiam, Uma destas manhãs os meus amigos acordam bem dispostos chegam lá numrufo e destroem aquilo tudo encorajava o coronel otimista de camuflado engomadovindo de Luanda para nos estimular com boas palavras conselhos e ameaças, Vai tu àfrente meu cara de caralho respondia o tenente indignado por entre dentes, Se queremrodar ir para um sítio melhor têm de nos mostrar resultados que se vejam minas turrastrotil, o comandante encolhia os ombros em tiques de aflição pequeno ridículo quasetocante de embaraço indicava no mapa a extensão da zona que nos cabia, gaguejavaMeu coronel Meu coronel Meu coronel, do Mondego ao Algarve para quinhentoshomens mal alimentados, peixe quase podre carne em mau estado ossos de frango,gastos de paludismo e de cansaço, a beber a água que pingava gota a gota, lamacenta,dos filtros, acabava-se a cerveja acabava-se o tabaco acabavam-se os fósforos, não haviasequer fósforos no Luso para nós, Uma manhã os meus amigos acordam bem dispostosgarantia o coronel e levam tudo à frente, aliás acho preferível que isso suceda depressaporque conseguiram tão pouco até agora, o comandante esmagado rodava o boné depala na mão, Aquele cabrão ainda me desata a chorar diante deste mulo previa o tenentebaixinho, Estou farto desta merda pelo amor de Deus arranje-me uma doença qualquer,Deserta gritavam os papéis do MPLA, Deserta Deserta Deserta Deserta DesertaDESERTA, a locutora da rádio da Zâmbia perguntava Soldado português porque lutascontra os teus irmãos mas era contra nós próprios que lutávamos, contra nós que as nossas espingardas se apontavam, I love to show you my entire body e eu já me tinha denovo esquecido do teu corpo de coxas afastadas no quarto do sótão onde durante ummês vivi, esquecido do cheiro do sabor da elasticidade suave da tua pele, já me tinhaesquecido do som da voz do sorriso dos olhos egípcios irônicos e ternos os seiosgrandes o cabelo na almofada os dedos perfeitos dos pés, o capitão chegou da mata comuma kalachnikov no sovaco e disse O tipo estava de costas a guardar a lavra não nos viusequer aproximar-nos, vamos todos acordar bem dispostos amanhã e ganhar a guerravivaportugal, que importa o nevoeiro do cacimbo até aos ossos se angolénossa e assenhoras do movimento nacional feminino se interessam desveladamente pela gentetoma lá dez aerogramas e vai-te curar, compreende o que é querer fazer amor e nãohaver com quem, a miséria de ter de masturbar-se a pensar em nada, puxar a pele paracima e para baixo até que, uma espécie de desmaio chocho um pouco de líquido eacabou-se limpar os dedos às cuecas subir a braguilha e sair para a parada, Marcha lentoe à vontade nossos cadetes ordenava o alferes na instrução de Mafra, convento absurdomonstruoso idiota cretino, Damas e cavalheiros perdão senhores oficiais o conjuntoVera Cruz com o vocalista Tó Mané deseja a Vossas Excelências um resto de tardefeliz, o sujeito do microfone desafinava boleros poeirentos de 78 rotações a brilhantinadas melenas cintilava o sapador girou a cadeira para o capelão arreganhou a tacha einquiriu A menina dança, a primeira anticarro estoirou numa coluna dele e fui à mata dehelicóptero recolher-lhe os feridos, Médico e sangue médico e sangue médico e sanguepedia o rádio, dadores em bicha de braço arregaçado à entrada do posto, náufragosinertes nas macas de pálpebras descidas a respirarem de leve por um canto dos lábios, ànoite os cães selvagens ladravam em torno do arame Está a ouvir os gajos sussurrava otenente e o hálito espalhava-se-me quente na orelha, como não há fósforos acendem-seos cigarros uns nos outros, Mostrem resultados que se vejam discursava o coronel e nóssó tínhamos para exibir pernas amputadas caixões hepatites paludismos defuntosviaturas transformadas em harmônios de destroços, o general perorou do Luso Asberliets são ouro piquem o trajeto inteiro de modo que três homens de cada ladoexploravam a areia adiante dos carros porque uma camioneta era mais necessária e maiscara do que um homem um filho faz-se em cinco minutos e de graça não é verdade umaviatura demora semanas ou meses a atarraxar parafusos, aliás havia ainda montes degente no país para mandar de barco para Angola mesmo descontando os filhos daspessoas importantes e os protegidos pelas amantes das pessoas importantes que nãoviriam nunca o paneleiro do rebento de um ministro foi declarado psicologicamenteincompatível com o Exército, Está a ouvir os gajos sussurrava o tenente apontando assombras, Meu amor querido eis-me outra vez no Chiúme depois de uma viagem semproblemas e isto sabes como é continua na mesma um pouco isolado mas tranquilo nofundo é idêntico a morar dois anos em Vila Real ou em Espinho ou num monte doAlentejo com a vantagem de poder contar à nossa filha que conversei com zebras eelefantes em zebrês e elefantês, todas as tardes escrevia ridículas mentiras joviais parauma mulher sem corpo, tendo no bolso o teu retrato a cores sentada numa rocha ao pédo mar de cabelo cortado e óculos escuros pernas cruzadas sob um vestido estampadovermelho e és tu e nã és tu quem na fotografia me (me?) sorri, Angolénossa senhorpresidente e vivápátria claro que somos e com que apaixonado orgulho os legítimosdescendentes dos Magalhães dos Cabrais e dos Gamas e a gloriosa missão quegarbosamente desempenhamos é conforme o senhor presidente acaba de declarar no seunotabilíssimo discurso parecida só nos faltam as barbas grisalhas e o escorbuto mas pelocaminho que as coisa levam eu seja cego se não lá iremos, e já agora e se me permiteporque é que os filhos dos seus ministros e dos seus eunucos, dos seus eunucosministros e dos seus ministros eunucos, dos seus miniucos e dos eunistros não malham com os cornos aqui na areia como a gente, o capitão encostou a kalachnikov à parede eficamos surpreendidos a olhá-la, Afinal é este o aspecto da nossa morte perguntou umalferes, senhor doutor tem de ir à mata porque pisaram uma antipessoal num trilho, seisquilômetros de Mercedes disparada e nisto o pelotão numa clareira o cabo Pauloestendido a gemer e do joelho para baixo depois de uma pasta torcida de sangue nada,nada senhor presidente e senhores eunucos nada, calcule senhor presidente o que serádesaparecer de súbito um bocado de si, os legítimos descendentes dos Cabrais e dosGamas a sumirem-se por frações um tornozelo um braço um troço de tripa ostomatinhos os ricos tomatinhos evaporados, faleceu em combate explica o jornal mas éisto falecer seus filhos da puta, eu ajudava-os a falecer com os meus remédios inúteis eos olhos deles protestavam protestavam não entendiam e protestavam, será falecer estaincompreensão esta surpresa a boca aberta os braços bambos, cobriram-se as bombas denapalm com oleado e o governo afirmou solenemente Em caso algum recorreríamos atão cruel meio de extermínio, eu vi cobrir as bombas em Gago Coutinho, pedi umgarrote ao enfermeiro e logo a seguir lembrei-me Sempre que ponho um garrote morremde embolia gorda no Luso de forma que comecei a procurar a artéria para a laquear, umfurriel espreitava por cima do meu ombro como um puto atrás do muro que o protege,era difícil pinçar o vaso no meio de tanto músculo e tanto sangue, como é o teu corpocomo é o teu sorriso como é o teu cabelo na almofada acordavas-me de manhã com ocalor das torradas e as coxas entre as minhas quando andavas as tuas nádegasendoideciam-me de desejo a maneira de mover as ancas o modo lento de beijarQueridos pais aqui no Chiúme as coisas correm o melhor possível dentro do melhorpossível que é possível não há motivo nenhum para se preocuparem comigo atéengordei um quilo desde que cheguei e principio a assemelhar-me fisicamente a ummissionário irlandeês ou ao médio de abertura do País de Gales, o soba afagava a suamáquina de costura inútil com olhos de Pietà lamentosa, os gaviões cobiçavam ospintos da sanzala em círculos manhosos demorados tensos de gula, nuvens de trovoadaengordavam sobre a chana, os tendões do vento contraíam-se e distendiam-seassoprando a areia, o navio do Mississipi do soba acastanhava-se de ferrugem adornado,apliquei um rolhão de compressas contra o coto para o impedir de sangrar, o furrielvomitava aos arrancos abraçado à arma abraçávamo-nos às espingardas como afogadosa pedaços irrisórios de madeira, É este o aspecto da nossa morte interrogava o alferes aapontar a kalachnikov na parede, o aspecto da nossa morte são estes arbustos pindéricose este homem prostrado cor-de-cinza que delira, o comandante do pelotão assobiava defúria, Prezado doutor Salazar se você estivesse vivo e aqui enfiava-lhe uma granada semcavilha pela peida acima uma granada defensiva sem cavilha pela peida acima, injeteisegunda ampola de morfina no deltoide, Depois deste trabalho todo não patines, doChiúme informaram que o helicóptero largara de Gago Coutinho com mais sangue abordo, gosto de ti gosto das tuas mãos cheias de anéis e das tuas pernas magras que seenrolam nas minhas idênticas a colares de muitas voltas gosto de jogar crapaud contigona cama desfeita e da batota que ambos fazemos e ambos sabemos que o outro faz paraganhar, um dia destes tiro o retrato e verificam espantadíssimos que engordei, mais duascoraminas e três sympatol na esperança que o pulso me não fuja rápido e tênue coraçãode ave nos meus dedos, Marcha lento e à vontade ofegava o alferes na estrada daEriceira uma filha de cadetes exaustos de cada lado do alcatrão sob a chuva gelada deMarço, o conjunto Vera Cruz deseja a Vossas Excelências senhores oficiais um resto detarde descansado e feliz, não há motivo nenhum para se preocuparem comigo porqueesta perna esfacelada ainda não é a minha perna e por assim dizer continuo se assim meposso exprimir mais ou menos vivo, o coronel em Luanda devia queixar-se aobrigadeiro de que falecíamos demais, o helicóptero desapareceu por sobre a matatoctoctoctoctoctoc, pusemo-nos de pé para partir, recolhemos do chão os panos de tendaas cartucheiras os cantis e os bornais, o pelotão formou em bicha e reparamos nacontagem que faltava o furriel dos vômitos, estava sentado ali perto em cima da G3 demãos no queixo, chamei-o, tornei a chamá-lo, acabei por sacudi-lo pelo ombro e elelevantou para mim olhos sonâmbulos de muito longe e respondeu numa voz doce demenino Não percam tempo comigo que eu estou tão farto desta guerra que nem a tirovou sair daqui.

O

Lisboa, mesmo a esta hora, é uma cidade tão desprovida de mistério como umapraia de nudistas, onde o revelador do sol exibe brutalmente nádegas planas e peitossem cones de sombra a aprofundá-los, que o mar parece abandonar na areia à laia dosseixos sem arestas da vazante. Uma noite de cartório notarial, em cujos lençóis de papelselado ressona timidamente um povo de terceiros-oficiais resignados, transforma ascasas e os prédios em tristes jazigos de família, no interior dos quais os casais azedosesquecem por algumas horas as suas querelas minúsculas, para se assemelharem aestátuas jacentes de pijama às riscas, que o despertador à cabeceira da cama empurraráem breve para quotidianos frenéticos e cinzentos. No Parque Eduardo VII, oshomossexuais surgem do escuro à aproximação dos carros, oferecendo de entre osarbustos os ademanes de alforreca de plástico dos seus gestos e a vibração de pestanasdas pálpebras míopes, que o excesso de rímel sublinha de promessas duvidosas. Dooutro lado da rua, o Palácio da Justiça, ainda não invadido pelos sorrisos ferrugentos decárie das prostitutas que dividem com os insetos o duche de claridade pálida doscandeeiros das redondezas, preenchia uma espécie de plataforma de relva do seu imensovolume reprovador: ali dentro, diante de um juiz desinteressado, ocupado a palparcautelosamente um furúnculo do pescoço, o meu casamento terminará sem grandezanem glória, após vários meses lancinantes de reencontros e separações, que meretalharam de angústia os destroços de um longo inverno de aflição. Separamo-nos, sabecomo é, numa paz feita de alívio e de remorso, e despedimo-nos no elevador como doisestranhos, trocando um último beijo em que morava ainda um resto indigerido dedesespero. Não sei se consigo aconteceu assim, se por acaso conheceu a agonia dos finsde-semana clandestinos em estalagens à beira-mar, numa desordem de ondas cor-dechumboesmagadas contra o cimento lascado da varanda e as dunas a tocarem o céubaixo de nuvens idêntico a um teto de estuque esfarrapado, se abraçou um corpo que aomesmo tempo se ama e se não ama na pressa ansiosa com que os macacos pequenos sedependuram dos pelos indiferentes da mãe, se juraram sem grande convicção promessasprecipitadas, mais decorrentes do pânico da sua angústia do que de uma ternuragenerosa e verdadeira. Durante um ano, percebe, tropecei de casa em casa e de mulherem mulher num frenesim de criança cega a tatear atrás do braço que lhe foge, e acordeimuitas vezes, sozinho, em quartos de hotel impessoais como expressões depsicanalistas, unido por um telefone sem números à amabilidade vagamente desconfiadada recepção, a quem a minha bagagem exígua intrigava. Estraguei os dentes e oestômago em casas de pasto todas semelhantes aos restaurantes das estações de caminhode ferro, de que a comida sabe a carvão de coque e a lenços úmidos do ranho já saudosodas despedidas. Frequentei sessões da meia-noite, de nuca arrepiada pela tosse dosolitário do banco de trás, que lia as legendas em voz alta para se inventar umacompanhia. E descobri, uma tarde, sentado numa esplanada de Algés, na borbulhosa presença de uma garrafa de água das Pedras, que estava morto, entende, morto como ossuicidas do viaduto que de quando em quando cruzamos na rua, pálidos, dignos, dejornal dobrado no sovaco, os quais desconhecem que faleceram e cujos hálitos cheirama almôndegas com puré de batata e a trinta anos de funcionário exemplar.

Não sente uma espécie de choque interior diante das montras apagadas, idênticasao olhos ausente dos estrábicos? Em pequeno imaginava muitas vezes, estendido nacama, de músculos retesos no pavor de adormecer, que toda a gente desaparecia dacidade e eu circulava nas ruas vazias perseguido pelas órbitas ocas das estátuas que mevigiavam com a implacável ferocidade inerte das coisas, petrificadas na atitude artificiale pomposa das fotografias da época heroica, ou evitando as árvores de que as folhastremiam numa inquietação marinha de escamas, e memo hoje, sabe como é, continuo apensar-me sozinho na noite destas praças, destas melancólicas avenidas sem grandeza,destas transversais secundárias como afluentes, arrastando consigo capelistassuburbanas e cabeleireiros decrépitos, Salão Nelinha, Salão Pareira, Salão Pérola doFaial, com penteados de revistas de modas colados ao vidro das janelas. Em casa, aalcatifa bebe o som dos meus passos reduzindo-me ao eco tênue de uma sombra, e tenhoa impressão, ao barbear-me, que quando a lãmina me retirar das bochechas as suíças dePai-Natal mentoladas da espuma, apenas ficarão de mim as órbitas a boiarem,suspensas, no espelho, indagando ansiosamente pelo corpo que perderam.

Como no Chiúme, entende, no Natal de 71, primeiro Natal de guerra após quaseum ano na mata, um ano de desespero, expectativa e morte na mata, em que acordei demanhã e pensei É dia de Natal hoje, olhei para fora e nada mudara no quartel, asmesmas tendas, as mesmas viaturas em círculo junto ao arame, o mesmo edifícioabandonado que uma granada de bazooka destruíra, os mesmos homens lentos atropeçar na areia ou acocorados nos degraus desfeitos da messe de sargentos, coçandoem silêncio a flor-do-congo dos cotovelos como mendigos nas escadas de uma igreja.Acordei de manhã e pensei É dia de Natal hoje, vi o céu de trovoada do lado do rioQuando e a eterna segunda-feira do costume no cansaço dos gestos, o calor escorria-medas costas em grossos pingos pegajosos de gordura, e disse dentro de mim Não pode serhá qualquer coisa de errado nisto tudo, o pijama demasiado largo não parecia conter emsi ossos e carne nenhuns e eu achei que não existia já, o meu tronco, os meus membros,os meus pés, não existia para além de um par de pupilas piscas que espiavam,surpreendidas, a planície da chana e a seguir à chana as árvores acumuladas na diraçãodo norte de onde chegava o avião da comida fresca e do correio, eu era só essas pupilasespantadas que fitavam e que hoje reencontro, mais velhas e descoloridas, no espelho doquarto de banho, após o arrepio nos ombros da primeira urina, vociferando para opróprio reflexo um apelo mudo sem resposta.

Dias antes havia partido de coluna uma companhia de paraquedistas apoiada porhelicópteros sul-africanos, chegados do Quito-Quanavale para uma operação excessivae inútil na terra dos Luchazes, e todas as noites os pilotos, enormes, loiros, arrogantes,se embebedavam com estrépito quebrando copos e garrafas e desafinando canções emafrikander, comandados por um David Niven esquecido da dieta, que considerava numaindulgência de nurse os subordinados a vomitarem cerveja amparados uns aos outros,verdes de aflição e agonia:

- If you worry you die. If you don’t wprry you die. So, why worry?

Os oficiais paraquedistas, estritos e graves como seminaristas laicos, abraçandocontra o peito os crucifixos das armas, fitavam reprovadores aquele pandemônio dearrotos e de cacos, movendo silenciosamente os lábios em padre-nossos militares. Ocapitão, em quem morava o espírito Modas & Bordados de uma dona de casaminuciosa, esvoaçava preocupadíssimo em torno das loiças ainda intactas, lançando aos cálices e aos pratos desgarradores soslaios de paixão sem esperança. O alferes Eleutério,encarquilhado como um feto, escutava a um canto o seu Beethoven. O catanguêsdeslizava para a sanzala ao encontro de um churrasco de ratos. E eu, encostado aoscaixilhos, assistia às elipses dos morcegos ao redor das lâmpadas, sem ouvir nada, sempensar nada, certo de que a minha vida se resumiria para sempre ao oval de arame emque me achava, sob um céu baixo de chuva ou de cacimbo, conversando com o soba àsombras da máquina de costura monumental, a escutar as histórias de crocodilos de umtempo mais feliz.

A impertinência brutal dos sul-africanos, que nos julgavam um pouco umaespécie de mulatos toleráveis, acendia em mim uma chama crescente de Manuelinho deÉvora que a selvajaria dos pides e os abjetos discursos patrióticos da rádio alimentavam.Os políticos de Lisboa surgiam-me como fantoches criminosos ou imbecis defendendointeresses que não eram os meus e que cada vez menos o seriam, e preparandosimultaneamente a sua própria derrota: os homens sabiam bem que eles e os filhos delesnão combatiam, sabiam bem de onde vinha quem na mata apodrecia, tinham morto evisto morrer demais para que o pesadelo se prolongasse muitos anos, os fuzileiroshaviam desfilado uma noite pelo quartel-general do Luso entoando insultos, todas astardes ouvíamos a emissão do MPLA às escondidas, alimentávamos mulheres e filhoscom salários de miséria, demasiados estropiados coxeavam ao fim da tarde por Lisboa,nas imediações do anexo do Hospital Militar, e cada coto era um grito de revolta contrao incrível absurdo das balas. Mais tarde conhecemos a hostilidade dos brancos deAngola, dos fazendeiros e dos industriais de Angola reclusos nas suas vivendasgigantescas repletas de antiguidades falsas, de que saíam para abocanhar prostitutasbrasileiras nos cabarés da Ilha, entre baldes de péssimo champanhe nacional e beijossonoros como desentupidores de retrete que se despegam:

- Se vocês cá não estivessem limpávamos isto de pretos num instante.

Cabrões, pensava eu a beber cubas-livres solitárias ao balcão, cabrões gordos esuados, recaços de merda, traficantes de escravos, e invejava as gargalhadas que asmulheres lhes segredavam nos pelos das orelhas, os abraços dos ombros redondos delas,as nuvens de perfume espesso que os sovacos e as virilhas expeliam como turíbulos aomais mínimo aceno, a cama D. Maria em que as deitariam, ao aproximar da manhã,num cenário de espelhos foscos, de árvores da borracha em vasos e de cãezinhos Mingde queixos horrorosamente torcidos por dores de dentes de loiça, como a minha cara setorcia de incredulidade no Chiúme, nessa madrugada de Natal absolutamente idêntica atodas as madrugas que conhecera em África, fitando os soldados que conversavam dooutro lado da parada nos degraus da messe de sargentos, e vendo as nuvens de chuvaque cresciam do Quando para mim, em enormes rolos de basalto pesados de umaameaça de tempestade.

Não, não falta muito, moro ali adiante, naquele renque de feíssimos prédiosverdes a que a noite confere, por um estranho milagre, a profunda dignidade hirta deuma abadia à medida da minha linhagem de comerciantes de bigode e corrente derelógio, a encararem a objetiva numa desconfiança bovina feita de medo e desupersticioso respeito. Acreditava-se em Deus nessa época mesmo através de umamáquina de tripé, um ser barbudo e severo, sexagenário de túnica, sandálias e risca aomeio, que geria uma empresa de mártires e de santos tão complicada como os ArmazénsGrandela, distribuindo pecados, bulas, absolvições e passa portes para o Inferno porintermédio de encarregados de negócios terrestres chamados padres, os quaistransmitiam aos domingos para a direção da firma telex em latim. Estas casas, não acha,são aliás construídas à medida das nossas ambições quadradas e dos nossos pequeninossentimentos: a umidade infiltra-se, tudo empena, os canos entupidos gorgolejam guinadas de arrotos, as alcatifas descolam-se, inevitáveis correntes de ar assobiam nasfrinchas, mas compramos móveis em Sintra para ocultar misérias e manchas atrás devolutas de talha pretensamente antigas, do mesmo modo que vestimos o nosso egoísmoestreito das aparências de uma generosidade vingativa. O meu pai costumava contar-meque o rei Filipe exclamara para o arquiteto do Escurial Façamos qualquer coisa que omundo diga de nós que fomos loucos. Pois bem, neste caso a ordem recebida pelogorducho de capacete e palito que presidiu à edificação destes monstros abstrusosagaiolado-pretensiosos deve ter sido Façamos qualquer coisa que o mundo diga de nósque fomos mongoloides. E, de fato, os vizinhos que se comprimem comigo no elevadorexíguo possuem a boca aberta, as esclerótidas baças, a pele amarela e o riso deincompreensão contente das criaturas demasiado quotidianas para seremverdadeiramente infelizes, atravessando o deserto dos fins-de-semana diante dosaparelhos de televisão, a beberem por uma palhinha o capilé da sua mediocridade. Eu,que ainda conservo por milagre um tênue resíduo de inquietações metafísicas, acordo demanhã com ciática na alma, que os passos no andar de cima amachucam cruelmente, e ainteligência enferrujada por várias horas de prisão num andar insidiosamente preparadopara me transformar num funcionário exausto, carregando uma pasta com as Seleções,os termo do café com leite do almoço e o boião de geleia de abelhas cujo rótulo mepromete a juventude ilusória de uma ereção ocasional.

Era, portanto, dia de Natal no Chiúme e nada mudara. Ninguém da famíliaestava ali comigo, a casa do avô, com o seu jardim de estátuas de loiça, o lago deazulejos e a estufa em que a sala de jantar se prolongava, permanecia dolorosamenteancorada em Benfica, atrás do portão cor-de-tijolo e do pátio repleto dos automóveis dasvisitas, as pessoas, endomingadas, deviam estar a chegar para o almoço, as criadasantigas da minha infância serviam as chávenas da sopa, dentro em breve a avó mandariaum neto chamar o pessoal para lhes distribuir embrulhos moles constelados de estrelasprateadas (meias, roupa de baixo, camisolas, ceroulas), numa pompa lenta de cerimôniaNobel. Sentado na cama, defronte da vastidão verde-amarela da chana e da trovoada ainchar sobre o Quando, lembrei-me das tias velhíssimas nos andares enormes daAlexandre Herculano e da Barata Salgueiro, mergulhados numa eterna penumbra ondecintilavam cálices e bules, tia Mimi, tia Bilu, um senhor doente a babar interjeiçõesnuma poltrona, sujeitos idosos que puxavam a risca da orelha para mascarar a calvície eme beliscavam a bochecha com dois dedos distraídos, pianos verticais, o retratoassinado de D. Manuel II, latas de biscoitos com cenas de caça na tampa. O passado,sabe como é, vinha-me à memória como um almoço por digerir nos chega em refluxosazedos à garganta, o tio Elói a dar corda aos relógios de parede, o mar feroz da Praia dasMaçãs no Outono esmurrando a muralha, os grossos dedos subitamente delicados docaseiro inventando uma flor. Pulara sem transição da comunhão solene à guerra,pensava eu a abotoar o camuflado, obrigaram-me a confrontar-me com uma morte emque nada havia de comum com a morte asséptica dos hospitais, agonia dedesconhecidos que apenas aumentava e reforçava a minha certeza de estar vivo e aminha agradável condição de criatura angélica e eterna, e ofereceram-me a vertigem domeu próprio fim no fim dos que comiam comigo, dormiam comigo, falavam comigo,ocupavam comigo os ninhos das trincheiras durante o tiroteio dos ataques.

Uma agitação de silhuetas e de vozes borbulhou na sanzala, aproximou-se,tomou forma: os meus tios, os meus irmãos, os meus primos, o chauffeur da avó,afetado e delicadíssimo, os sujeitos da risca na orelha, o caseiro, o senhor doente dapoltrona, fardados, exaustos, sujos, de arma ao ombro, chegavam de uma operação namata e dirigiam-se para a enfermaria transportando, num pano de tenda entre dois paus,o meu corpo desarticulado e inerte com um garrote na cosa reduzida a um inchaço ensanguentado. Reconheci-me como num espelho excessivamente fiel ao examinar osmeus próprios olhos fechados, a boca pálida, a relva loira da barba que me escurecia oqueixo, a marca mais clara da aliança perdida na mão sem anéis. Alguém partia o boloreiem gestos rituais, a minha mulher, comovida, guardava num saco de plástico ospresentes que me cabiam. A família, imóvel, à porta do posto de socorros, aguardava,suspensa, que eu me reanimasse a mim mesmo, o cabo das transmissões pedia ohelicóptero aos gritos para me conduzir a Benfica a tempo dos licores e do café.Auscultei-me e nenhum som me veio, pelas borrachas do estetoscópio, aos ouvidos. Ofurriel enfermeiro estendeu-me a seringa de adrenalina, e eu, depois de me abrir acamisa e palpar o espaço entre as costelas, cravei-a de um só golpe no coração.

P

Cá estamos. Não. Não bebi demais mas engano-me sempre na chave, talvez pordificuldade em aceitar que este prédio seja o meu e aquela varanda lá em cima, àsescuras, o andar onde moro. Sinto-me, sabe como é, como os cães que farejamintrigados o odor da própria urina na árvore que acabaram de deixar, e acontece-mepermanecer aqui alguns minutos, surpreendido e incrédulo, entre as caixas do correio eo elevador, procurando em vão um sinal meu, uma pegada, um cheiro, uma peça deroupa, um objeto, na atmosfera vazia do vestíbulo, cuja nudez silenciosa e neutra medesarma. Se abro o meu cacifo não encontro nunca uma carta, um prospecto, umsimples papel com o meu nome que me prove que existo, que habito aqui, que de certamaneira este lugar me pertence. Não imagina como invejo a segurança tranquila dosvizinhos, a decisão familiar com que abrem a porta, o sobrolho proprietário com queconsideram os títulos do jornal enquanto aguardam o elevador, a cúmplice amabilidadedos seus sorrisos: existe sempre em mim a suspeita tenaz de que me vão expulsar, deque ao entrar em casa encontrarei outros móveis no lugar dos meus móveis, livrosdesconhecidos nas estantes, uma voz de criança algures no corredor, um homeminstalado no meu sofá a erguer para mim um olhar de perplexidade indignada. Umanoite, há pouco tempo, ao atender o telefone, perguntaram-me se falava de um númerocompletamente diferente do meu. Julga que desfiz o engano e desliguei? Pois bem, deipor mim a tremer, de palavras enroladas na garganta, úmido de suor e de aflição,sentindo-me um estranho numa casa estranha, a invadir em fraude a intimidade alheia,uma espécie de gatuno, percebe, do universo doméstico de um outro, pousado na bordada cadeira num excesso de cerimônia culpada. À medida que os filhos passavam a viversozinhos e a abandonavam, a minha mãe ia transformando os nossos quartos em salas,os divãs sumiam-se, quadros desconhecidos surgiam nas paredes, a nossa presençaapagava-se dos compartimentos que habitáramos, do mesmo modo que nos apressamosa lavar os dedos depois de apertar uma mão desagradável ou oleosa. Quandoregressávamos de visita para jantar era como se a casa fosse simultaneamente familiar eestrangeira: reconhecíamos os cheiros, as cômodas, os rostos, mas em vez de nósencontrávamos os nossos retratos de infância espalhados pelas mesas, abertos emsorrisos de uma inocência inquietante, e afigurava-se-me que a minha fotografia demenino havia devorado o adulto que sou, e que quem de fato existia verdadeiramente aliera uma mecha de cabelos louros por cima de um babador de riscas, olhandoacusadoramente para mim através do difuso nevoeiro de anos que nos separava. Nuncaestamos onde estamos, não acha, nem sequer agora, comprimidos no espaço exíguo doelevador, você hirta e calada, a medir-me de esguelha os ímpetos de bode, eu a tilintar as chaves na impaciência enervada que estes esquisitos aparelhos de subir e descerinvariavelmente me provocam, modernos sucedâneos das barquinhas de balão, sempre àbeira de uma queda desamparada e catastrófica. A minha amiga está, por exemplo, noúltimo agosto, nua na praia em frente ao mar xaroposo e domesticado do Algarve, nacompanhia de uma dessas criaturas inteligentes e feias das quais é fácil gostar porque,por um lado, não competem consigo e, por outro, a salvam de ir sozinha aos ciclos decinema da Gulbenkian, frequentados por míopes lúcidos e sociólogas peremptórias, e eucontinuo em Angola como há oito anos atrás, e despeço-me do soba-alfaiate junto àmáquina de costura pré-histórica, coberta agora de um espesso musgo de ferrugem, eque a areia corrói e tortura como Giacometti modela, numa espécie de raiva paciente, assuas dolorosas silhuetas pernaltas, idênticas a pássaros inventados, mais reais que osverdadeiros. Vamos abandonar o Chiúme na direção do norte, as viaturas em colunaaguardam que embarquemos, e eu, imóvel no centro da sanzala, enjoado pelo odordecomposto da mandioca a secar os ossos brancos no teto das palhotas, tentodesesperadamente fixar, nesta manhã de janeiro lavada pela chuva da noite, imersanuma claridade excessiva que dissolve os contornos e afoga na sua luz sem piedade ossentimentos delicados ou demasiado frágeis, tento desesperadamente fixar, dizia, ocenário que habitei tantos meses, as tendas de lona, os cães vagabundos, os edifíciosdecrépitos da administração defunta, morrendo pouco a pouco uma lenta agonia deabandono: a ideia de uma África portuguesa, de que os livros de História do liceu, asarengas dos políticos e o capelão de Mafra me falavam em imagens majestosas, nãopassava afinal de uma espécie de cenário de província a apodrecer na desmedidavastidão do espaço, projetos de Olivais Sul que o capim e os arbustos rapidamentedevoravam, e um grande silêncio de desolação em torno, habitado pelas carrancasesfomeadas dos leprosos. As Terras do Fim do Mundo eram a extrema solidão e aextrema miséria, governadas por chefes de posto alcoólicos e cúpidos a tiritarem depaludismo nas suas casas vazias, reinando sobre um povo conformado, sentado à portadas cubatas numa indiferença vegetal. O almirante Tomás fitava-nos da parede compupilas de vidro idiota de urso empalhado, milícias de espingardas veneráveisadormeciam encostados à própria sombra sob os telheiros de zinco dos postos desentinela junto ao arame inútil. E, no entanto, havia a quase imaterial beleza doseucaliptos de Ninda ou de Cessa, aprisionando nos seus ramos uma densa noiteperpétua, a raivosa majestade da floresta do Chalala a resistir às bombas, os púbistatuados das mulheres, por trás de cuja curva de bule cresciam, ao ritmo cardíaco dostambores, filhos que eu ansiosamente desejava menos passivos e melancólicos do quenós, que se não acocorassem, vencidos, diante das palhotas, passando-se uns aos outroso cachimbo de cabaça.

Não, é aqui, no 6º esquerdo, vestíbulo de mármore, olalá, uma alcatifa de cadacor, uma ficha de televisão por compartimento, cinco divisões, três banheiros, duaslongas varandas para o cemitério e o Tejo, o sol cor de laranja ao fim da tardecomungado pelos telhados do Areeiro. Sinto-me neste andar, sabe como é, como umavestruz despaisado, e rodo de sala em sala a conversar sozinho, como os velhos, decopo de uísque na mão, recitando aos cubos de gelo os sonetos a preto e branco deAntero que povoaram a infância de fantasmas cósmicos. O senhorio, sujeito de bigodeafirmativo, que me visita de quando em quando a bordo de um mirabolante automóvelamericano cuja espantosa profusão de faróis, arrebiques e cromados me fazinvariavelmente pensar numa igreja manuelina de pneus radiais, muniu a casa delavatórios idênticos a pias batismais que me obrigam a escovar os dentes de manhãmurmurando rezas em latim, substituiu as portas dos roupeiros por painéis de madeira aque apenas faltam os sorrisos dúbios de uma galeria de santos medievais, e ofereceu-me a prenda suplementar de uma garagem-catacumba nas fundações do prédio, onde aminha tosse modesta reboa trágicos ecos de avalanche: pouco a pouco comecei ahabituar-me a esta catedral de Chartres à medida de despachantes de alfândega sempoesia de que os pesadelos se eriçam de faturas e livros de balanço, e principiei a amarestas tintas horríveis das paredes e esta ausência de móveis, do mesmo modo que segosta de um filho corcunda ou de uma mulher com mau hálito, por aborrecimento, porhábito, ou até, talvez, por uma confusa expiação de erros obscuros. Gosto das piasbatismais, dos armários, do Alto de S. João, que vejo da cozinha e que se me afigurauma notável combinação de Portugal dos Pequeninos com o cemitério dos cães doJardim Zoológico, em honra do ciclo do azoto. E depois, que alívio, percebe, não se vêo mar, não existe o perigo de os olhos se alongarem para o horizonte em busca de ilhasà deriva ou dos inquietantes veleiros da aventura interior, sempre prontos a aparelharempara a Índia de um sonho. Não se vê o mar, apenas uma faixa de rio sem mistério que oBarreiro limita de concretas névoas fabris, e telhados, telhados, telhados e fachadas queabrigam dentro de si os nossos conformados contemporâneos, a juntarem pacientementeas borboletas ou os selos do seu aborrecimento sem ambições, ou apunhalandomentalmente as esposas que tricotam na poltrona vizinha com a faca do pão. Tenho acerteza de que se fechasse a porta à chave e permanecesse, por exemplo, aqui um mês àsecretária, sem falar com ninguém, sem atender a campainha da rua ou do telefone, semresponder às solicitações da diarista, do porteiro, ou do funcionário da companhia dogás que de tempos em tempos vem verificar o relógio do contador, e rabiscar numbloco, de sobrancelhas juntas, anotações severas, me transformaria, de metamorfose emmetamorfose, no inseto perfeito de um coronel na reserva ou de um aposentado daCaixa Geral de Depósitos, correspondendo-se em esperanto com um bancário persa ouum relojoeiro sueco, e bebendo chá de tília na marquise a seguir ao jantar, verificando abarba por fazer da coleção de cactos.

Não, a sério, a felicidade, esse estado difuso resultante da impossívelconvergência de paralelas de uma digestão sem azia com o egoísmo satisfeito e semremorsos, continua a parecer-me, a mim, que pertenço à dolorosa classe dos inquietostristes, eternamente à espera de uma explosão ou de um milagre, qualquer coisa de tãoabstrato e estranho como a inocência, a justiça, a honra, conceitos grandiloquentes,profundos e afinal vazios que a família, a escola, a catequese e o Estado me haviamsolenemente impingido para melhor me domarem, para extinguirem, se assim me possoexprimir, no ovo, os meus desejos de protesto e de revolta. O que os outros exigem denós, entende, é que os não ponhamos em causa, não sacudamos as suas vidasminiaturais calafetadas contra o desespero e a esperança, não quebremos os seusaquários de peixes surdos a flutuarem na água limosa do dia a dia, aclarada de viés pelalâmpada sonolenta do que chamamos virtude e que consiste apenas, se observada deperto, na ausência morna de ambições.

Quer um uísque? Este banal líquido amarelo constitui, nos tempos de hoje,depois da viagem de circunavegação e da chegada do primeiro escafandro à Lua, anossa única possibilidade de aventura: ao quinto copo o soalho adquire insensivelmenteuma agradável inclinação de convés, ao oitavo, o futuro ganha vitoriosas amplidões deAusterlitz, ao décimo, deslizamos devagar para um coma pastoso, gaguejando as sílabasdifíceis da alegria: de forma que, se me dá licença, instalo-me no sofá ao pé de si paraver melhor o rio, e brindo pelo futuro e pelo coma.

O Leste? Ainda lá estou de certo modo, sentado ao lado do condutor numa dascamionetas de areia a caminho de Malanje. Ninda, Luate, Lusse, Nengo, rios que achuva engrossara sob as pontes de pau, aldeias de leprosos, a terra vermelha de GagoCoutinho que se prende à pele e aos cabelos, o tenente-coronel eternamente aflito a encolher os ombros diante do licor de cacau, os agentes da PIDE no café do Mete-Lenha, lançando soslaios foscos de ódio para os negros que bebiam nas mesas próximasas cervejas tímidas do medo. Quem veio aqui não consegue voltar o mesmo, explicavaeu ao capitão de óculos moles e dedos membranosos colocando delicadamente notabuleiro, em gestos de ourives, as peças de xadrez, cada um de nós, os vivos, temvárias pernas a menos, vários braços a menos, vários metros de intestino a menos,quando se amputou a coxa gangrenada ao guerrilheiro do MPLA apanhado no Mussumaos soldados tiraram o retrato com ela num orgulho de troféu, a guerra tornou-nos embichos, percebe, bichos cruéis e estúpidos ensinados a matar, não sobrava umcentímetro de parede nas casernas sem uma gravura de mulher nua, masturbávamo-nose disparávamos, o mundo-que-o-português-criou são estes luchazes côncavos de fomeque nos não entendem a língua, a doença do sono, o paludismo, a amebíase, a miséria, àchegada ao Luso veio um jipe avisar-nos que o general não consentia que dormíssemosna cidade, que expuséssemos na messe as nossas chagas evidentes. Nós não somos cãesraivosos, berrava o tenente de cabeça perdida para o enviado do comando de Zona, digaa esse caralho do catano que nós não somos cães raivosos, um alferes ameaçavabaixinho destruir a messe com as bazucas. Fodemos aquela porra toda meu tenente, nãosobeja um cabrão sequer para nos enconar o juízo, Um ano no cu de Judas não nos dádireito a dormir uma noite numa casa argumentava em sentido o oficial de operações, otenente espalmou um murro enorme no capô do jipe Diga ao nosso general que vá levarna anilha. Nós não éramos cães raivosos quando chegamos aqui disse eu ao tenente querodopiava de indignação furiosa, não éramos cães raivosos antes das cartas censuradas,dos ataques, das emboscadas, das minas, da falta de comida, de tabaco, de refrigerantes,de fósforos, de água, de caixões, antes de uma berliet valer mais do que um homem eantes de um homem valer uma notícia de três linhas no jornal, Faleceu em combate naprovíncia de Angola, não éramos cães raivosos mas éramos nada para o Estado desacristia que se cagava em nós e nos utilizava como ratos de laboratório e agora pelomenos nos tem medo, tem tanto medo da nossa presença, da imprevisibilidade dasnossas reações e do remorso que representamos que muda de passeio se nos vê aolonge, evita-nos, foge de enfrentar um batalhão destroçado em nome de cínicos ideaisem que ninguém acredita, um batalhão destroçado para defender o dinheiro das três ouquatro famílias que sustentam o regime, o tenente gigantesco voltou-se para mim,tocou-me no braço e suplicou numa voz súbita de menino Doutor arranje-me a taldoença antes que eu rebente aqui na estrada da merda que tenho dentro.

Q

Um pouco nu, o andar? Tem razão, faltam-lhe quadros, livros, bibelôs, cadeiras, a sábiadesordem de revistas e papéis, de roupa ao acaso sobre a cama, de cinza no chão, emsuma, que nos asseguram continuarmos a existir, a agitar-nos, a respirar, a comer, asacudirmo-nos em vão sob as estações indiferentes e a silhueta distraída do anúncioSandeman, que do alto dos telhados do Rossio nos propõe, ora aceso ora apagado, umbrinde escarninho. Esta espécie de jazigo onde moro, assim vazio e hirto, oferece-me,aliás, um sensação de provisório, de efêmero, de intervalo, que, entre parênteses, meencanta; posso ainda considerar-me um homem para mais tarde, e adiar indefinidamenteo presente até apodrecer sem nunca haver amadurecido, de olhos brilhantes dejuventude e de malícia como os de certas velhas de aldeia. Pelas janelas sem cortinasvejo, deitado na cama, os operários que constroem o prédio em frente e principiam a trabalhar muito mais cedo do que eu, a fitarem-me do outro lado da rua numa invejaadmirada. Mulheres ensonadas sacodem das varandas panos enérgicos e exaustos.Rebocadores minúsculos, com hérnias da coluna, puxam gordos navios pacíficos nadireção da barra. Provavelmente, até no cemitério reina uma chocalhante atividadematinal de esqueletos de família, catando-se mutuamente os vermes num cuidado demandris. E somente eu, único habitante desta casa deserta, me permito generosamenteos doces langores da preguiça porque apenas desibernarei à noite, no bar onde nosencontramos, debaixo destes candeeiros Arte Nova e destas cenas de caça, de narizmergulhado na vodca com laranja de um café da manhã tardio.

A vida contra a corrente possui também, no entanto, as suas desvantagens: osamigos afastaram-se pouco a pouco de mim, incomodados pelo que consideravam umaligeireza de sentimentos vizinha da vagabundagem libertina. A família recuava diantedos meus beijos como de um acne peganhento. Os colegas de profissão propagaramjubilosamente a minha perigosa incompetência, depois, é claro, de se referirem depassagem a um radioso futuro malbaratado em orgias de mafioso com uma bailarinafrancesa do Cassino Estoril, esfuziante de plumas, em cada joelho de bode. Os própriosdoentes desconfiavam das minhas olheiras excessivas e do hálito equívoco em queflutuava um resto óbvio de álcool. Cada vez mais fui prolongando as madrugadas eencurtando os dias, na esperança de que uma noite perpétua me lançasse um pudico véude sombra nas bochechas esverdeadas; esta cidade absurda, onde os azulejosmultiplicam e devolvem a mínima parcela de claridade num jogo de espelhos sem fim, eonde os objetos vogam suspensos na luz como nos quadros de Matisse, obrigava-me atropeçar de quarto em quarto à maneira de uma borboleta entontecida, passando umapalma mole pela lixa repelente da barba.

Um pouco nu, o andar, de fato, mas já imaginou o espaço que sobra para osonho, não um sonho de mobílias, doméstico, conjugal, quinânico, contandoangustiadamente os tostões que faltam para uma escrivaninha ou uma cômoda, mas osonho tout-court, sem metas nítidas nem objetivos definidos, cuja tonalidade varia ecuja forma muda sem cessar, o sonho à Infante D. Henrique feito de maresdesconhecidos, de monstrengos e de especiarias, a caravela que se envia pela alcatifa docorredor fora e de que se aguarda o problemático regresso sentado no mármore dovestíbulo, consultando o curioso astrolábio de uma história em quadradinhos. Esta casa,cara amiga, é o deserto de Gobi, quilômetros e quilômetros de areia sem nenhum oásis,e o silêncio da minha boca fechada sobre os dentes amarelos de camelo. De modo quequando alguém invade a minha solidão, me sinto, sabe como é, como um eremita queencontra outro eremita à esquina de uma praga de gafanhotos, e tento penosamenterecordar-me do morse das palavras, reaprendendo os sons à maneira de um afásico querecomeça, dificilmente, a usar um código que esqueceu.

Outro uísque? Convém prevenirmo-nos contra esta noite prestes a empalidecersem aviso, a dar lugar a uma manhã demasiado nítida, demasiado clara, sem que asnossas silhuetas imprecisas, fabricadas para a indulgente cumplicidade da penumbra, sedissolverão como o perfume dos frascos antigos, de que se escapa o cheiro doce daspaixões defuntas, convém muralharmo-nos de álcool para nos defendermos do reveladorda claridade, exibindo aos nossos próprios olhos, na crueza implacável dos espelhos,feições amarrotadas pela ausência de sono, a piscarem as pálpebras foscas sob adesastrosa desordem dos cabelos. Acontece-me por vezes acordar, sabe como é, ao ladode uma mulher que conheci poucas horas antes, junto a um candeeiro propício de bar,de que o cone opalino confere às rugas e aos pés-de-galinha o insidioso encanto de umasábia maturidade, e eis que o subir da persiana me mostra, brutalmente, uma criaturaavelhentada e vulnerável, naufragada nos lençóis num abandono cuja fragilidade me enfurece. Sentado na cama, de cabeça no travesseiro que encostei à parede, acendoentão o cigarro da desilusão e da raiva, fitando com acidez as pulseiras e os anéispousados num montículo cauteloso na mesinha de cabeceira, a roupa estranha pelochão, um soutien preto que se pendura de uma cadeira à laia de um morcego queaguarda a chegada do crepúsculo na sua trave de sótão. A boca delas borbulha detempos a tempos palavras evadidas sorrateiramente de sonhos a que não tenho acesso, acurva mole dos ombros agita-se de sobressaltos indecifráveis, o velo das coxas abertasperde o mistério de bosque úmido que me recebia na sua mansa concavidade vegetal.Uma zanga de logro incha-me dos testículos para o sexo, impossível de dominar, decontrolar, de diminuir, e acabo por penetrá-las, tonto de ódio, como quem espeta umafaca num ventre em rixa de taberna, para escutar depois, rangendo os dentes, os seusgemidos agradecidos de caniche, pelo que imaginavam uma entusiástica homenagem àqualidade dos seus dons.

Um duplo sem gelo? Tem razão, talvez desse modo logre a lucidez sem ilusõesdos bêbados de Hemingway que passaram, gole a gole, para o outro lado da angústia,alcançando uma espécie de serenidade polar, vizinha da morte, é certo, mas que aausência de esperança e do frenesi ansioso que ela inevitavelmente traz consigo tornaquase apaziguadora e feliz, e consiga enfrentar a ferocidade da manhã dentro de umfrasco de Logans que a proteja, tal como os cadáveres dos bichos se conservam emlíquidos especiais nas prateleiras dos museus. Talvez desse modo se consigam sorrirrisos de Sócrates depois da cicuta, levantar-se do colchão, ir à janela, e defronte dacidade matinal, nítida, atarefada, ruidosa, não se sentir perseguidos pelos impiedososfantasmas da própria solidão, de que os rostos sardônicos e tristes, tão semelhantes aonosso, se desenham no vidro para melhor nos troçarem; há derrotas, percebe, que agente sempre pode transformar, pelo menos, em vitoriosas calamidades.

No Norte, à falta de uísque, bebíamos as sulfúricas mistelas do administrador,indiano gordo e grande, recebendo os oficiais numa pomposidade amável de monarcaabsoluto, a fim de se escutar a si próprio nos ouvidos dos outros, cuja atenção distraídao certificava da existência de um público, como as nossas caretas ao espelho, durante abarba, nos garantem a certeza do rosto de que duvidávamos, anjos trôpegos que hesitamacerca da opacidade da carne. A minha companhia passou em flecha por Malanje, ondea sede do batalhão se acomodou no choco desconfortável do quartel, e abandonou anoite da cidade, escura e opaca como as pupilas de um cigano, na direção da Baixa doCassanje, ilimitadas searas de girassol e algodão no cenário de uma beleza irreal, e amiséria das sanzalas à beira da picada, com negros imemoriais acocorados em pedrasmorenas e sem arestas, idênticas a pães de segunda. Ancoramos em Marimba, fila demangueiras enormes no topo de um morro cercado pela distância azul dos campos, numcírculo de arame de que os garotos dos quimbos vizinhos suspendiam as feiçõesesfomeadas, enquanto nuvens gordas de chuva, pesadas como odres, se acumulavam norio Cambo, habitado pelo silêncio mineral dos crocodilos.

Aí, durante um ano, morremos não a morte da guerra, que nos despovoa derepente a cabeça num estrondo fulminante, e deixa em torno de si um desertodesarticulado de gemidos e uma confusão de pânico e de tiros, mas a lenta, aflita,torturante agonia da espera, a espera dos meses, a espera das minas na picada, a esperado paludismo, a espera do cada vez mais improvável regresso, com a família e osamigos no aeroporto ou no cais, a espera do correio, a espera do jipe da PIDE quesemanalmente passava a caminho dos informadores da fronteira, trazendo consigo trêsou quatro prisioneiros que abriam a própria cova, se encolhiam lá dentro, fechavam osolhos com força, e amoleciam depois da bala como um suflê se abate, de flor vermelhade sangue a crescer as pétalas na testa:

- O bilhete para Luanda - explicava tranquilamente o agente a guardar a pistola no sovaco. - Não se pode dar cúfia a estes cabrões.

De forma que na noite em que o sujeito rasgou a nádega no caco quebrado daretrete, entende, lhe cosi o pandeiro sem anestesia, no cubículo do posto de socorros,sob as vistas contentes do enfermeiro, vingando um pouco, em cada berro seu, oshomens calados que cavavam a terra, de pânico a fundir-se em enormes placas de suornas costas magras, e nos fixavam com órbitas duras e neutras como seixos, esvaziadasde luz, tal as dos defuntos sem roupa, estendidos nos frigoríficos do hospital.

Depois do jantar, o motor reticente da eletricidade dava corda a uma constelaçãode candeeiros gagos que aclaravam de viés o renque das mangueiras, arrancando ramostrágicos do escuro, e os oficiais visitavam cerimoniosamente a administração para oloto, em que a D. Áurea, esposa do imperador das cercanias, a extrair as amplidões dopeito murcho da larguras do decote, cintilante de brincos e colares, distribuía os cartõese o grão-de-bico, e extraía de um saco que se me afigurava idêntico aos sudários que naminha infância se lançavam sobre as máquinas de costura, em salas estreitas repletas decestos de roupa e da frescura dos lençóis lavados, números de madeira, que anunciavaem voz baixa, numa confidência íntima de revelação. O marido, no outro extremo dasala, convidava em inclinações galantes a professora primária para dançar os tangosarrastados do toca-discos, criatura magrinha, de clavículas tão salientes como assobrancelhas de Brejnev, cujas menstruações intermináveis a afligiam de cólicas e deanemia, voltando para nós olheiras exaustas em que se adivinhavam desmaios e contasde somar. Aquarelas de jacintos e de dálias emolduradas a dourado desbotavam-se nasparedes. A trovoada do Cambo iluminava a janela de clarões fingidos de peça de teatroportuguesa, em que se suspeita um sujeito operoso a acionar interruptores atrás de umacortina. O mulato, dono da única loja de comércio, adormecia de palito na boca no seucanto, roncando comas pacíficos de hipopótamo. O condutor da camioneta de carreiraajeitava a popa com um pente de plástico amarelo made in praia de Santo Amaro dasOeiras. O serão trotava num langor de tosses dispersas e de amabilidades fatigadas, até aD. Áurea voltar a cabeça para a porta, erguer o queixo à laia de coiote prestes a uivar,encher os seios tristes numa inspiração de mergulhador e berrar

- Bonifácioooooooooooo

num ganido interminável e imperioso. Seguiam-se uns segundos de silêncio expectante que o mulato, despertado em tumulto, preenchia perguntando à roda

- O que foi? O que foi?

numa inquietação de jangada à deriva. Vai na volta escutava-se um tilintar de coposapressados na cozinha, e um negro chaplinesco, contido a custo numa jaqueta demordomo da Geórgia, surgia do corredor a dançar nos sapatos excessivos, transportandouma bandeja de garrafas de que se aguardava, a cada instante, o despenhar no soalho,numa chuva de estilhaços de cinema mudo. O uísque sabia a álcool de lamparina e assbão-macaco, e cada um de nós comungava dois dedos daquele sacrifício ictérico,torcendo-se de caretas atrás do pudor da mão, enquanto o administrador, que guardava ogrão-de-bico do loto no saco dos números, exclamava:

- Boa pomada, hã?

obtendo do capitão um sorriso obediente de óleo de fígado de bacalhau resignado.

Lá fora, o cipaio que vigiava o motor da eletricidade munido de uma espécie demosquete de conquistador espanhol, ressonava sob o telheiro de cimento. Morcegos dotamanho de perdizes rodopiavam a cambalear nas proximidades dos candeeiros, fogospálidos consumiam-se na penumbra densa das sanzalas, soba Macau, soba PedroMacau, soba Marimba, junto à pista da aviação, que o capim constantemente invadia, asluzes da Chiquita tremiam, nítidas, na distância, constelação de estrelas improváveis. A seguir ao início da guerra haviam morto ou expulso para o Congo os Mô-Holos e osBundi-Bângalas que habitavam primitivamente a Baixa do Cassanje, e substituído assuas aldeias por Gingas da área de Luanda, mais obedientes e acomodatícios depois de oseu chefe ter apodrecido vinte anos nas prisões colonais a pretexto de um crimequalquer. De coroa de lata na cabeça, incrustada de brilhantes de vidro, posto a ridículo,perante o seu povo, pelo Estado corporativo, que o obrigava a um humilhante uniformedo imperador de carnaval, o rei vagueava no seu quimbo à maneira dos doentes mentaisnas enfermarias psiquiátricas, olhado com desgosto incrédulo pelos velhos da tribo. Noentanto, o soba Bimbe e o soba Caputo, do outro lado da fronteira, continuavam a luta, eavistavam-se de Marimbanguengo as bases do MPLA no Congo, construçõesminúsculas que cresciam. A D. Áurea inclinou-se amavelmente para a professora dasmenstruações de Niágara, que coçava à socapa a flor-de-congo dos sovacos:

- Como vai de sáude, D. Olinda?

Você não calcula (um dedo, se faz favor, perfeitamente, basta) a sensaçãoesquisita daquele loto no meio da mata, dos tangos poeirentos do toca-discos, dastoaletes patéticas das mulheres, das mesuras dos homens, das dálias europeiasaquareladas na parede, enquanto os condenados pela PIDE se enrolavam comotentáculos inertes nos seus buracos, os soldados tremiam de paludismo nos beliches dascasernas, os generais no ar condicionado de Luanda inventavam a guerra de que nósmorríamos e eles viviam, a noite de África se desdobrava numa majestosa infinidade deestrelas, os bailundo comprados em Nova Lisboa agonizavam de despaisamento nassanzalas das fazendas, e eu escrevia para casa Tudo vai bem, na esperança de quecompreendessem a cruel inutilidade do sofrimento, do sadismo, da separação, daspalavras de ternura e da saudade, que compreendessem o que não podia dizer por detrásdo que eu dizia e que era o Caralho caralho caralho caralho caralho do enfermeiro aseguir à emboscada, lembra-se, no Leste, no país de areia vazia dos Luchazes, com ocorpo do cabo defunto a apodrecer, sob a manta, no meu quarto, e eu sentado nosdegraus do posto como me sento agora aqui consigo nesta sala, vendo os barcos do riono nosso reflexo no vidro da janela, eu a falar e você a ouvir-me nessa atençãosarcástica que me enerva e confunde, As mulheres, sentenciava o Voltaire, sãoincapazes de ironia, catorze pontos no cu do agente a demorar, deliciado, a agulha pelacarne, deixe-me encostar por um momento a cabeça aos seus joelhos e fechar os olhos,os mesmos com que observei o cipaio a enfiar cubos de gelo no ânus de um tipo semque eu protestasse sequer porque o medo, percebe, me tolhia o menor gesto de revolta, omeu egoísmo queria regressar inteiro e depressa antes que uma porta de prisão sefechasse, impeditiva, à minha frente, regressar e esquecer e retomar o hospital e aescrita e a família e o cinema ao sábado e os amigos como se nada me tivesse,entretanto, sucedido, desembarcar na Rocha do Conde de Óbidos e declarar dentro demim Era tudo mentira e acordei, e todavia, entende, em noites como esta, em que oálcool me acentua o abandono e a solidão e me acho no fundo de um poço interiordemasiado alto, demasiado estreito, demasiado liso, surge dentro de mim, tão nítidacomo há oito anos, a lembrança da covardia e do comodismo que cuidava afogados parasempre numa qualquer gaveta perdida da memória, e uma espécie de, como exprimirme?,remorso, leva-me a acocorar-me num ângulo do meu quarto como um bichoacossado, branco de vergonha e de pavor, aguardando, de joelhos na boca, a manhã quenão chega.

R

Não chega, a manhã, não vai chegar nunca, é inútil esperar que os telhadosempalideçam, uma lividez gelada aclare tremulamente os estores, pequenos cachos decriaturas transidas, brutalmente arrancadas ao útero do sono, se agrupem nas paradas deônibus a caminho de um trabalho sem prazer: achamo-nos condenados, você e eu, a umanoite sem fim, espessa, densa, desesperante, desprovida de refúgios e saídas, umlabirinto de angústia que o uísque ilumina de viés da sua claridade turva, segurando oscopos vazios na mão como os peregrinos de Fátima as suas velas apagadas, sentadoslado a lado no sofá, ocos de frases, de sentimentos, de vida, a sorrir um para o outrocaretas de cães de faiança numa prateleira de sala, de olhos exaustos por semanas esemanas de apavoradas vigílias. Já reparou como o silêncio das quatro horas instila emnós a mesma espécie de inquietação que habita as árvores antes da vinda do vento, umfrêmito de folhas de cabelos, uma tremura de troncos de intestinos, a agitação de raízesdos pés que se cruzam e descruzam sem motivo? Pois bem, aguardamos no fundo o quenão irá acontecer, a ansiedade que nos acelera as veias pedala em nós em vão à maneiradas bicicletas imóveis dos ginásios, porque esta noite, percebe, é um porão à deriva, umenorme armário de que se perdeu a chave, um aquário sem peixes naufragado numaausência de pedras, e apenas percorrido pelas sombras na água de um desassossegoinforme: ficaremos aqui a escutar o motor da geladeira, única companhia viva nestastrevas, cuja lâmpada branca acende nos azulejos fosforescências de iglu, até queconstruam outros prédios sobre este prédio, outras ruas sobre esta rua, rostosindiferentes se sobreponham à amabilidade rápida dos vizinhos, o porteiro adquira asbarbas majestosas e esgazeadas de um louco de aldeia, e os arqueólogos do futuroencontrem os nossos corpos plasmados em atitudes de espera, idênticos às figuras degreda dos túmulos etruscos, aguardando, de uísque em punho, a claridade de uma auroraatômica.

Entretanto, e se estiver de acordo, talvez possamos tentar fazer amor, ou seja,essa espécie de ginástica pagã que nos deixa no corpo, depois de acabado o exercício,um gosto suado de tristeza no desastre dos lençóis: a cama não range, é improvável quea válvula de descarga do andar de cima vomite a esta hora o conteúdo limoso do seuestômago, perturbando as carícias sem ternura que são como que o motor de arranquedo desejo, nenhum de nós sente pelo outro mais do que uma cumplicidade detuberculosos num sanatório, feita da melancólica tristeza de um destino comum; jávivemos demais para correr o risco idiota de nos apaixonarmos, de vibrarmos nas tripase na alma exaltações de aventura, de nos demorarmos tardes a fio diante de uma portafechada, de ramo de flores em riste, ridículos e tocantes, a engolir cuspes aflitos de JoséMatias. O tempo trouxe-nos a sabedoria da incredulidade e do cinismo, perdemos afranca simplicidade da juventude com a segunda tentativa de suicídio, em queacordamos num banco de hospital sob o olho celeste de um S. Pedro de estetoscópio, edesconfiamos tanto da humanidade como de nós mesmos, por conhecermos o egoísmoazedo do nosso caráter oculto sob as enganadoras aparências de um verniz generoso.Não é em si que não acredito, é em mim, na minha repugnância em me dar, no meupânico de que me queiram, na minha inexplicável necessidade de destruir os fugazesinstantes agradáveis do quotidiano, triturando-os de acidez e ironia até os transformarno Cerelac da chata amargura habitual. O que seria de nós, não é, se fôssemos, de fato,felizes? Já imaginou como isso nos deixaria perplexos, desarmados, mirandoansiosamente em volta em busca de uma desgraça reconfortadora, como as criançasprocuram os sorrisos da família numa festa de colégio? Viu por acaso como nos assustamos se alguém, genuinamente, sem segundos pensamentos, se nos entrega, comonão suportamos um afeto sincero, incondicional, sem exigência de troca? A esses, osCamilos Torres, os Guevaras, os Allendes, apressamo-nos a matá-los porque o seucombativo amor nos incomoda, procuramo-los, de bazuca ao ombro, raivosos, nasflorestas da Bolívia, bombardeamos-lhes os palácios, colocamos no seu lugar sujeitoscruéis e viscosos, mais parecidos conosco, cujos bigodes nos não trepam pelo esôfagorefluxos verdes de remorso. De forma que as relações sexuais constituem entre nós,percebe, uma violação mole, uma apressada exibição de ódio sem júbilo, a derrotamolhada de dois corpos exaustos no colchão, à espera de reencontrarem o fôlego quelhe foge para verificarem as horas no relógio de pulso à cabeceira, se vestirem sem umapalavra, examinarem sumariamente no espelho do banheiro a pintura e o cabelo, epartirem, a coberto da noite, ainda úmidos do outro, a caminho da solidão das suascasas. Os que moram a dois, aliás, e dividem com má vontade o edredão e o dentifrício,padecem, de resto, de um isolamento semelhante: ah, as refeiçõs frente a frente, emsilêncio, cheias de um rancor que se palpa no ar como a água-de-colônia das viúvas! Osserões junto à televisão acariciando projetos vingativos de assassínio conjugal, a faca dopeixe, a jarra da China, um oportuno empurrão pela janela! Os sonhos minuciosamentedetalhados do enfarte do miocárdio do marido ou da trombose da mulher, a dor no peito,a boca à banda, as palavras infantis babadas a custa na almofada da clínica! Possuímos,pelo menos, a vantagem, sabe como é, de dormir sozinhos, sem uma perna alheia aexplorar as zonas frescas do lençol que por direito geográfico nos cabem, mas falta-nossimultaneamente alguém que possamos culpar do nosso fundo descontentamento de nóspróprios, um alvo fácil para os nossos insultos, uma vítima, em suma, da nossamediocridade despeitada. Você e eu, graças a Deus, não corremos esse risco, somoscomo dois judocas que se temem o suficiente para se não ferirem, e inventam, quandomuito, falsos golpes inofensivos que se detêm a meio do trajeto, à maneira de tentáculossubitamente inertes que desistem: se eu lhe dissesse que a amava, você responder-me-ia,no tom mais sério deste mundo, que desde os dezoito anos não sentia por um homemum entusiasmo idêntico, que qualquer coisa de diferente e de estranho a perturbava, quelhe apetecia com uma força de novilho nunca mais se separar de mim, e acabaríamos arir, dentro dos copos respectivos, da inócua inocência das nossas mentiras. Mas suponhaque havíamos despido, por minutos, o colete à prova de bala de uma maldade sabida, eéramos, por exemplo, sinceros? Que ao afagar-lhe a mão eu tocava, para além dos seusdedos de agora, que principiam a envelhecer sob os anéis, o pulso estreito de umamenina vulnerável e frágil, a mastigar goma de mascar à sombra do desdenhoso retratotrágico de James Dean, arcanjo louro cujo breve trajeto de cometa terminouabruptamente num cone fumegante de sucata? Que os seus seios endureciam de desejoverdadeiro, um arrepio esquisito lhe separava as coxas, o ventre se cavava de uma fomeinexplicável e veemente de mim? Que maçada, hã? Os ciúmes, as necessidadesexclusivas, o tormento obnóxio da saudade? Descanse, é tarde já, será sempre tarde paranós, o excesso de lucidez impede-nos os estúpidos e calorosos impulsos da paixão, omeu cabelo ralo e os seus pés-de-galinha, impossíveis de disfarçar sob a delicadeza dosorriso, defendem-nos do entusiasmo de estar vivos, do sonho sem malícia, do purocontentamento sem mancha de acreditar nos outros.

Achamo-nos em condições, portanto, de fazer na cama lá do fundo um amor tãoinsosso como a pescada congelada do restaurante, de que a única órbita nos fita agoniasvítreas de octogenário entre os verdes desbotados das alfaces. A sua boca possui o gostosem gosto dos biscoitos antigos envoltos no açúcar do bâton, a minha língua é umpedaço de esponja enrolada nos dentes, inchada pela espuma oleosa da saliva. Unir-nosemos,percebe, como dois monstros terciários, eriçados de cartilagens e de ossos, balindo ganidos onomatopaicos de lagartixas imensas, enquanto lá fora as picadas doNorte, destruídas pelas chuvas, substituem a faixa de vidro preto do rio, borbulhante deluzes, e eu salto e balanço ao lado do condutor do unimogue, protegido por uma escoltaque chocalha atrás no seu banco de pau, a caminho de Dala-Samba, com a caixa dasvacinas da cólera a tremer entre os joelhos.

De tempos em tempos, quando me sentia apodrecer demais na inércia do arame,diante dos morcegos das mangueiras e do loto do administrador, a observar à noite asórbitas minerais das osgas do teto, a engolirem borboletas em comunhões instantâneas,esmagado de monotonia e impaciência, quando o King dos oficiais se me afigurava umritual absurdo que adquiria pouco a pouco as tenebrosas características de umacerimônia sangrenta (“Oito ou nulos e fodo-te os cornos se mos deres”), quando depoisde me masturbar permanecia acordado e sem sono, a fitar pela janela as trovoadas doCambo e a pensar nas tuas coxas em Lisboa, no atrito leve das meias ao cruzar daspernas, na penugem afagada a contrapelo, no triângulo, que sabia a ostras, escondido narenda das calcinhas, quando os cães latiam das bandas da cozinha gemidos quasehumanos de crianças com fome, quando a minha filha começava a andar de cadeira emcadeira passos hesitantes e aplicados de motor de corda, quando o tempo se imobilizavano poço dos calendários em teimosias de pedra com raízes e as tardes demoravam mesese meses em sestas enervadas, partia para Dala-Samba ao longo da Baixa do Cassanje, avisitar os cemitérios dos reis Gingas no alto dos morros nus, cercados de tufos, depalmeiras que o vento da morte inclinava. E havia o túmulo do Zé do Telhado em Dala,perto dos dois ou três comércios poeirentos da povoação abandonada, velhos colonosquase miseráveis que o paludismo esverdeava, cabras com peras de escultor em torno dosilêncio das cubatas, o enfermeiro do hospital do Caombo na sua bata imaculada,exprimindo-se num português precioso de condessa. Dormíamos nas camas de ferrobranco das parturientes, entre armários de instrumentos cirúrgicos e mesasginecológicas, ao acordarmos o temporal da véspera lavara a manhã, esfregando-lhe osbrilhos e as cores, e ao sairmos para os carros sentia-me ingressar no primeiro dia dacriação, antes da partilha das águas, e era como se vogasse, de botas da tropa abalançarem, na claridade irreal das fotografias antigas, onde o iodo dilui as expressões eos contornos numa nódoa solar que nos afoga.

Se você conhecesse as madrugadas de África na Baixa do Cassanje, o odorvigoroso da terra ou do capim, o perfil confundido das árvores, o algodão aberto até aohorizonte numa pureza de neve amortalhada, talvez nos fosse possível regressar aoprincípio, às réplicas ainda tímidas do uísque inicial, ao sorriso que pede e ao soslaioque consente, e construir a partir disso a cumplicidade sem arestas dos amantes, quematam em três lances a desconfiança e o receio, e ressonam a duas vozes nas pensões daAvenida, saciados e satisfeitos. Mas a poeira de greda de Marrocos, a julgar pelaprofusão dos seus colares, é o equador de que é capaz, e um bairro de casas sujas e dehomens acocorados, espécie de Algarve invadido por ciganos a impingirem alcatifas deArraiolos e pulseiras de arame num palavreado nauseabundo, a sua antevisão doparaíso. Longe da filigrana manuelina dos Jerônimos, Reboleira dos Descobrimentos, edas praias da Costa da Caparica em que as pessoas miraculosamente se multiplicam àlaia de formigas num bolo de arroz, o despaisamento fá-la enrugar e definhar como umcacto no polo. Os túneis do metrô constituem no fundo as suas tripas verdadeiras,percorridas por dejetos de carruagens, e as micros da Praça do Chile, o negativo, emponto pequeno, da sua alma. O que de certo modo irremediavelmente nos separa é quevocê leu nos jornais os nomes dos militares defuntos, e eu partilhei com eles a salada defrutas da ração de combate e vi soldarem-lhes os caixões na arrecadação da companhia,entre caixotes de munições e capacetes ferrugentos. O cabo Pereira, por exemplo, antes de estilhaçar a cabeça na estrada da Chiquita, vinha pingar a blenorragia ao posto desocorros, exibindo a pica mole como uma vela de estearina, de que surdia a gota a arderde um leite inflamado. O padeiro compôs um poema autobiográfico que demorava duashoras a recitar e me fez adormecer de exaustão sobre o prato do almoço. O tenentegabava-me os méritos da criada num extasiamento de milagre. O comandante procuravaos seios macios como uvas das adolescentes, remexendo-lhes os panos dos vestidos.Um capitão na quarta comissão apodrecia como um Drácula na aurora, de feiçõesdecompostas na lama pálida dos cadáveres. E eu conferenciava de sanzala em sanzalacom a gravidade dos sobas, acocorado nos bancos de pele de cabrito destinados aosvisitantes de qualidade, distribuía quinino por extensas filas de paludismos trêmulos,drenava abscessos, desinfetava feridas, fumava liamba na febre dos batuques, quandohomens desorbitados ajoelhavam a vibrar defronte dos corações em pânico dostambores. Os brancos do mato, isolados e sem meios nas fazendas por explorar,deitavam-se de arma à cabeceira junto das amantes negras, obedientes e mudas como asombra oblíqua de uma aparição. O capim engolia os tratores avariados numa fome demil bocas vegetais vitoriosas, devorava as casas, pulava as vedações, destruía as cruzesanônimas das campas espalhadas ao acaso na orla das picadas. Um dia, um homemlouro apareceu no quartel a bordo de uma camioneta em ruína, desembarcou com umamala de paramentos de padre na mão e apresentou-se aos oficiais:

- Soy basco y amigo intimo del cabrón Francisco Franco.

Ouça: em Gago Coutinho havia uma missão abandonada, um velho edifício decolunas protegido pela frescura das acácias, um oásis de silêncio onde os passosreboavam como nos filmes de Hitchcock. À tarde, o tenente e eu costumávamos parar ojipe na cerca de grades oxidadas, retirar o assento traseiro, instalarmo-nos junto de umaárvore sob o sossego gordo dos pássaros, um silêncio grande e bom de folhas altas, efumávamos sem falar porque as palavras se tornavam subitamente desnecessárias comoum barco na cidade, um aquário no mar, um fingimento de orgasmo durante o orgasmo,fumávamos sem falar e uma quietude de paz deslizava devagarinho pelas veias areconciliar-nos conosco, a perdoar-nos estarmos ali, ocupantes involuntários em paísestrangeiro, agentes de um fascismo provinciano que a si mesmo se minava e corroía,no lento ácido de uma triste estupidez de presbitério.

- Soy basco y amigo intimo del cabrón Francisco Franco.

Em Dala-Samba, o administrador vivia sozinho com a mulher e os filhos numacasa vazia, de cuja varanda se avistava a incrível extensão azul do Cassange e afronteira do Congo, lá embaixo, no rio dos diamantes, a pular escamas de luz nas pedrassem facetas. Os filhos torciam-se de lombrigas na varanda. A mulher fazia crochêsemanas a fio, de chinelos, naperons ovais em que se pressentiam Campos de Ouriqueperdidos, com a sua constelação de capelistas manhosas em torno da Igreja do SantoCondestável, gótico estilo Mãos de Fada para casamentos de tecnocratas. O candeeirode petróleo iluminava um jantar de La Tour, onde os rostos se assemelhavam a maçãsatentas recortadas num fundo cambaleante de trevas, e a sanzala vizinha, voltada para ointerior de si própria como um filósofo que medita, recuava no escuro com os seusfogos esparsos e as suas silhuetas acocoradas, assando os grilos esperneantes da ceia.

- Soy basco...

Foda-se, também vim para aqui porque me expulsaram do meu país a bordo deum navio cheio de tropas desde o porão à ponte e me aprisionaram em três voltas dearame cercadas de minas e de guerra, me reduziram às garrafas de oxigênio das cartasda família e das fotografias da filha, Angola era um retângulo cor-de-rosa no mapa dainstrução primária, freiras pretas a sorrirem no calendário das Missões, mulheres deargolas no nariz, Mouzinho de Albuquerque e hipopótamos, o heroísmo da Mocidade Portuguesa a marcar passo, sob a chuva de abril, no pátio do liceu. Um amigo negro daFaculdade levou-me um dia ao seu quarto no Arco do Cego, e mostrou-me o retrato deuma velha esquelética, em cujo rosto se adivinhavam gerações e gerações de petrificadarevolta:

- É a nossa Guernica. Queria que a visses antes de me ir embora porque me chamaram da tropa e fujo amanhã para a Tanzânia.

E só compreendi isso quando vi os prisioneiros no quartel da PIDE, a resignadaespera dos seus gestos, as barrigas gigantescas de fome das crianças, a ausência delágrimas no pavor dos olhos. É preciso que entenda, percebe, que no meio em que nascia definição de preto era “criatura amorosa em pequenino”, como quem se refere a cãesou a cavalos, a animais esquisitos e perigosos parecidos com pessoas, que no escuro dasanzala Santo Antônio me gritavam

- Vai na tua terra, português

cagando-se nas minhas vacinas e nos meus remédios e desejando intensamente que euquebrasse os cornos na picada porque não era a eles que eu tratava mas à mão-de-obrabarata dos fazendeiros, dezessete escudos por um dia de trabalho, dez tostões para cadasaco de algodão, quem eu tratava através deles era o branco de Malanje ou de Luanda, obranco ao sol na Ilha, o branco de Alvalade, o branco do Clube Ferroviário que recusavadesdenhosamente conversar com a tropa.

- Não precisamos de vocês para nada

de forma que essa Guernica se transformou pouco a pouco na minha Guernica domesmo modo que me tornei basco y amigo intimo del cabrón Francisco Franco eaguardei as vacinas e os remédios na caixa e voltei ao arame e às mangueiras deMarimba, cheguei ao posto de socorros, fechei a porta, instalei-me à secretária, e sentime,de súbito, sabe como é, acossado como um bicho.

S

Sofia, eu disse na sala Volto já, e vim aqui, e sentei-me no sanitário, diante do espelhoonde todas as manhãs me barbeio, para falar contigo. Falta-me o teu sorriso, as tuasmãos no meu corpo, as cócegas dos teus pés nos meus pés. Falta-me o cheiro bom doteu cabelo. Esse banheiro é um aquário de azulejos que o foco do teto abliquamenteilumina, varando a água da noite em que o meu rosto se move em gestos lentos deanêmona, os meus braços adquirem o espasmo de adeus sem ossos dos polvos, o troncoreaprende a imobilidade branca dos corais. Quando ensaboo a cara, Sofia, sinto asescamas vítreas da pele nos meus dedos, os olhos tornam-se salientes e tristes como osdos gorazes na mesa da cozinha, nascem-me barbatanas de anjo dos sovacos. Dissolvome,parado, na banheira cheia, como imagino que os peixes morrem, evaporados numaespumazinha viscosa à tona, como decerto os peixes morrem no rio, de órbitasapodrecidas a boiarem. Sofia, aqui, aurora após aurora, quando ainda nenhuma manhãsublinha de verde os telhados, e as luzes se destacam, nítidas, no escuro, à laia deverrugas fosforescentes, quando a amplidão das trevas de Lisboa me envolve nas suaspregas apavorantes e moles, venho verter a medo na retrete uma urina furtiva de criança,empurrado pela mão enorme da mãe que já não tenho. Agora, Sofia, que sou homem,moro só, e o porteiro me cumprimenta de vênias respeitosas, assalta-me por vezes acerteza esquisita de ser um peixe morto neste aquário de azulejos, cumprindo um ritualdiário entre o espelho e o bidê no desânimo com que os defuntos se movem, talvez, porsob a terra, fitando-se uns aos outros com pupilas de inexprimível terror. Falta-me o teu ventre junto do meu ventre, a floresta das tuas coxas negras enroladas nas minhas, o teumisterioso e quente e forte riso de mulher que a PIDE, o governo, os tratoristas daCetec, a gula do administrador e a fúria sádica e perversa dos brancos deixaram intactosna sua cascata alegre de vitória. Falta-me a tua cama para o meu longo cansaço deeuropeu com oito séculos de infantas de pedra às costas, falta-me a tua vaginaensolarada para ancorar a minha vergonha de ternura, o meu pênis ereto que se curvapara ti como os mastros se inclinam na direção do vento, esta sede de amor raivoso quete escondo. Sofia, instalo-me no sanitário como uma galinha a ajeitar-se no seu choco,abanando as nádegas murchas das penas na auréola de plástico, solto um ovo de ouroque deixa na louça um rastro ocre de merda, puxo a válvula de descarga, cacarejocontentamentos de poedeira, e é como se essa melancólica proeza me justificasse aexistência, como se sentar-me aqui, noite após noite, diante do espelho, a observar novidro os vincos amarelos das olheiras e as rugas que em torno da boca se multiplicamnuma fina teia misteriosa, idêntica à que cobre de leve os quadros de Leonardo, meassegurasse que ao fim de tantos anos de deixar-te permaneço vivo, durando, Sofia,neste aquário de azulejos que o foco do teto obliquamente ilumina, peixe morto à tona,de órbitas apodrecidas a boiarem.

Conheci-te em Gago Coutinho, num sábado de manhã, quando as lavadeirasvinham ao arame entregar a roupa engomada dos soldados, e ficavam de cócoras, àespera, num talude, perto da passagem de nível desarticulada da porta de armas, aconversarem numa esquisita linguagem que eu entendia mal, mas se aparentava aosaxofone de Charlie Parker quando não grita o seu ódio ferido pelo mundo cruel eridículo dos brancos. O odor putrefato da terra vermelha de África enjoava-nos como ocheiro de defuntos no hospital, os insetos do Leste entredevoram-se em silêncio nocapim, e as lavadeiras, com a roupa pronta embrulhada em panos coloridos, deixavamque os soldados lhes corressem a mão pelos rins, pelas costas, pelo peito, sob o enormee denso e fixo sol de Angola, enquanto escarneciam, conversando umas com as outras,do desejo ansioso dos brancos, do seu desajeitamento e da sua pressa, e também doaroma de cadáver que traziam consigo desde o navio de Lisboa, homens tornados larvasde espingarda assassina nas patas, por um Portugal de esbirros.

Aos sábados de manhã, os velhos reuniam-se ao centro da sanzala em torno deuma cabaça de tabaco e soltavam, pelo nariz e pela boca, fumos castanhos e serenoscomo as locomotivas antigas, com o ódio pelo ocupante escrito em grandes letrasvermelhas na sua indiferença vegetal. Eram os velhos do Nengo, do Lusse, os velhos deCessa e de Mussuma, os velhos do Luanguina e do Lucusse, os velhos de Narriquinha,os velhos do Chalala, os velhos e orgulhosos luchazes, senhores das Terras do Fim doMundo, vindos há muitos séculos da Etiópia em migrações sucessivas, que tinhamexpulso os hotentotes, os Kamessekeles, os povos que habitavam aquele país de areia enoites frias, em que os arbustos estremeciam quando roçavam por eles apariçõesfosforescentes de deuses. Velhos livres tornados reles escravos do arame peloscanhangulos dos milícias, pelos rostos triangulares de lagartos furiosos dos pides, pelorancor do Estado colonial que os tratava como a uma raça ignóbil, e que cuspiam nochão escuro a saliva fumegante do tabaco, em escarros pesados de desprezo.

Os velhos reuniam-se ao centro da sanzala, os cabiris latiam atrás das galinhasmagras de quimbo em quimbo, um pólen impalpável e levíssimo, semelhante ao que sesolta das caixas de ruge antigas, acumuladas nas gavetas empenadas do quarto dosarmários da minha infância, descia das árvores imóveis como pedras, criando estranhasraízes de basalto na terra alucinada de África. O comandante encolhia os ombros no seugabinete blindado, escravo ele também do arame e dos orgulhosos e desumanos donosda guerra que em Luanda, cravando pontos coloridos nos seus mapas, um a um nos matavam, e eu olhava-te, Sofia, acocorada no talude na mancha verde, azul e negra dasmulheres, das mulheres que conversavam e se riam e troçavam dos dedos dos soldadosque angustiadamente as tocavam, das mulheres luchazes que abriam para os brancos asvulvas das coxas desinteressadas, nas cubatas cheias do úmido silêncio dos filhosmudos a um canto, brincando com pedaços de cana os jogos solenes dos meninos.

Conheci-te numa manhã de sábado, Sofia, e a tua gargalhada de prisioneira livre,harmoniosa e estranha como o voo dos corvos que Van Gogh pintara antes de se matarno meio do trigo e do sol, tocou-me como um gesto de irreprimível ternura me toca seme sinto mais só, ou os sussurros dos mortos na nossa casa de Benfica, perto docemitério, cercada pelos lamentos doces e tristes dos defuntos.

Eu estava farto da guerra, Sofia, farto da obstinada maldade da guerra e deescutar, na cama, os protestos dos camaradas assassinados que me perseguiam no meusono, pedindo-me que os não deixasse apodrecer emparedados nos seus caixões dechumbo, inquietantes e frios como os perfis das oliveiras, farto de ser larva entre larvasna câmara-ardente da messe que o motor da eletricidade aclarava de vacilaçõeshesitantes de desmaio, farto do jogo das damas dos capitães idosos e das melancólicaspiadas dos alferes, farto de trabalhar, noite após noite, na enfermaria, molhado até oscotovelos do sangue viscoso e quente dos feridos.

Eu estava farto, Sofia, e todo o meucorpo me implorava o sossego que apenas se encontra nos corpos serenos das mulheres,na curva dos ombros das mulheres onde podemos descansar o nosso desespero e onosso medo, na ternura sem sarcasmo das mulheres, na sua macia generosidade,côncava como um berço para a minha angústia de homem, a minha angústia carregadade ódio de homem só, com o peso insuportável da própria morte no dorso. O furrielenfermeiro, que possuía descoloridas órbitas salientes de cavalo cego e um grandepânico de África nas tripas, trouxe-te por um braço, um braço escuro e redondo e firmee jovem, ao ponto do arame, diante da estrada branca para o Luso, onde eu ficara aolhar-te, e para além de ti a extensão de azebre da mata que as máquinas da Cetec,estupidamente, tronco a tronco, derrubavam, e perguntou-me numa voz dorida, idênticaa uma antena que se retrai, timidamente, no receio de si mesma, a voz com que oscamaradas assassinados me chamavam no meu sono, de cabelos envoltos em gazesinúteis como trapos, a flutuarem na desordem molhada das madeixas, a voz do meu cãomorto há muitos anos, a farejar a figueira do quintal em ecos de uivos que se meevaporavam na memória:

- O senhor doutor precisa de uma lavadeira?

Eu não precisava de uma lavadeira, Sofia, porque os maqueiros me arranjavamas camisas e as toalhas e as cuecas e as meias, mas precisava de ti, do cheiro de fruta doteu ventre, do teu púbis tatuado, do colar de miçanga que te apertava a cintura, dos pésduros e longos de pássaro dos rios, circulando de seixo em seixo numa nervosamajestade.

Eu estava farto da guerra, Sofia, farto de ver chegar os feridos da picada, emmacas improvisadas de lona, os feridos cujas bocas se abriam e fechavam em apelosindecifráveis e magoados como os chamamentos do mar, o mar da Praia das Maçãs quevinha mugir aos meus lençóis gritos de touro com cio, soltando das narinas uma espumade ondas a ferver. Os meus irmãos e eu, acordados, escutávamos sem entender alinguagem rouca do mar, dobrados nos colchões úmidos, sobre a farmácia, como fetosaflitos, escutávamos sem entender o touro do mar que marrava e marrava contra a portado quarto, saltava a muralha, corria, à desfilada, pelas ruas, deitava o enorme focinhogelado na almofada ao pé de nós para tentar dormir, porque o mar, Sofia, sofre dapertinaz insônia dos mortos que estalavam os soalhos da casa de Benfica com os seuspassos insuportáveis e gasosos.

Eu estava farto da guerra, de me debruçar, até de madrugada, para camaradasque agonizavam, sob a lâmpada vertical da sala de operações improvisada, farto donosso sangue tão cruelmente derramado, de sair para fora, a fumar um cigarro, aindaantes do dia, na completa noite escura que antecede o dia, e ver um súbito céu sereno ecurvo povoado de desconhecidas estrelas, não o céu de alfazema e naftalina de Benfica,nem o duro céu de pinheiros de granito da Beira, nem sequer o céu de tempestuosa águada Praia das Maçãs em que navegava ao acaso como um barco à deriva, mas o sereno ealto e inatingível céu de África e as suas constelações que brilhavam, geométricas, à laiade pupilas irônicas. De pé, à porta da sala de operações, com os cães do quartel afarejarem-me a roupa, gulosos do sangue dos meus camarados feridos, a lamberem osangue dos meus camaradas feridos nas nódoas escuras das minhas calças, da minhacamisa, dos pelos claros dos meus braços, eu odiava, Sofia, os que nos mentiam e nosoprimiam, nos humilhavam e nos matavam em Angola, os senhores sérios e dignos quede Lisboa nos apunhalavam em Angola, os políticos, os magistrados, os policiais, osbufos, os bispos, os que ao som de hinos e discursos nos enxotavam para os navios daguerra e nos mandavam para África, nos mandavam morrer em África e teciam à nossavolta melopeias sinistras de vampiros.

Na noite do dia em que te conheci, a seguir ao jantar, fugi das damas doscapitães idosos e do pôquer dos alferes, enxotei os cães que rondavam a messe emelipses de fome submissa e teimosa, agora que a população da sanzala lhes disputava osratos do capim, os pequenos animais sôfregos e tímidos do capim, farejando as nossassombras de brancos numa aflição inquieta, e saí a passagem de nível desconjuntada daporta de armas na direção da mancha confusa da sanzala lá embaixo, de onde o odor damandioca subia como um relento de jazigo, a mandioca a secar nos telhados dascubatas, parecida com os ossos que o senhor Joaquim, que vendia os esqueletos aosestudantes de Medicina, comprava ao coveiro do Alto de S. João e deixava a secar nasua mansarda do Campo de Santana, inquinando docemente o triste odor citadino dasárvores do jardim.

Ia jurar que me esperavas, Sofia, para lá das paredes grossas de adobe queconservavam ainda, na dureza do barro, as marcas dos dedos anônimos que as haviamerguido, porque a porta de madeira se abriu, sem que lhe tocasse, para um escuro maisescuro do que o escuro da noite, mas povoado do silêncio das respirações e dossussurros, de um cacarejo suave de galinhas adormecidas, de um dorso fugidio decabiri, da tua mão, Sofia, que me guiava nas trevas, como um dia, quando for cego, aminha filha me guiará, me guiava através do escuro e do silêncio, e eu sentia a tuagargalhada vitoriosa imóvel na boca, riso de mulher liberta que nenhum pide, nenhumtropa, nenhum cipaio calaria, o teu riso que mesmo hoje, neste asséptico e odiosoaquário de azulejos, continuo a escutar, sentado no sanitário, olhando no espelho o meurosto que irremediavelmente envelheceu, as falanges amarelas dos cigarros, os cabelosbrancos, que eu não tinha, as rugas, Sofia, que me vincam a testa do mole cansaço dosque em definitivo desistiram.

Ia jurar que a cova do colchão de palha possuía a exata forma do meu corpo,como se desde sempre pacientemente me aguardasses, que a largura da tua vagina era amiraculosa medida do meu pênis, que o filho mulato a ressonar no berço de bordão e ocomerciante Afonso, gordo, ruivo e fanhoso, tinha por seu, e recebia de tempos emtempos, com uma palmada desdenhosa, na estreita loja nauseabunda de peixe seco,prolongava nas feições em repouso algo das minhas feições de antes, quando aamargura e o sofrimento da guerra me não haviam transformado ainda numa espécie debicho desencantado e cínico, procedendo mecanicamente ao ato do amor nos gestos indiferentes e alheios dos comensais solitários nos restaurantes, olhando para dentro de si próprios as sombras melancólicas que os habitam.

Esperavas-me, Sofia, na espessa noite da tua casa na sanzala, acendias um paviode petróleo numa garrafa, e as guinadas de claridade frouxa e romba revelavam-me, aespaços, latas em prateleiras, um cesto de roupa, o quadrado fechado da janela, umavelha acocorada a um canto a fumar o cachimbo de cana numa absoluta quietude, umavelha muito velha de carapinha mais branca que o algodão do Cassanje, e cujos peitoschatos e vazios se colavam às costelas como as pálpebras ocas dos mortos aderem àsórbitas vazias. Esperavas-me, Sofia, e nunca houve entre nós quaisquer palavras, porquetu entendias a minha angústia de homem, a minha angústia carregada de ódio de homemsó, a indignação que a minha covardia provocava em mim, a minha submissa aceitaçãoda violência e da guerra que os senhores de Lisboa me impuseram, entendias as minhasdesesperadas carícias e a ternura medrosa que te dava, e os teus braços desciam-melentamente ao longo das costas, sem zanga nem sarcasmo, subiam e desciam lentamenteao longo do suor gelado dos meus flancos, apertavam-me devagar a cabeça contra o teuombro redondo, e eu tinha a certeza, Sofia, que sorrias no escuro o calado e misteriosoriso das mulheres quando os homens se tornam de súbito meninos e se lhes entregamcomo filhos desprotegidos e frágeis, exaustos de lutarem dentro de si mesmos contra oque de si mesmos os revolta.

A tua casa, Sofia, cheirava a vivo, a coisa viva e alegre como o teu risorepentino, a coisa quente e saudável e delicada e invencível, e a mim, que vinha doquartel e do desesperado azedume dos oficiais fartos de matar e ver morrer, torcidos,como eu, pelas dolorosas cólicas da saudade e do medo, sabia-me à infância estarcontigo, sabia-me às unhas suaves da Gija nos meus rins, ao meu avô que se debruçavapara o meu sono e me deixava na têmpora a violeta de um beijo, sabia-me ao modocomo a minha tia Madalena me dizia Meu filho e me tocava o cabelo, eu que passava otempo no meu quarto, desdenhosamente só, a fitar de quando em quando a figueira doquintal e a estremecer nas tripas os cogumelos de febre de um lancinante isolamentointerior.

Porque sempre estive isolado, Sofia, durante a escola, o liceu, a faculdade, ohospital, o casamento, isolado com os meus livros por demais lidos e os meus poemaspretensiosos e vulgares, a ânsia de escrever e o torturante pânico de não ser capaz, denão lograr traduzir em palavras o que me apetecia berrar aos ouvidos dos outros e queera Estou aqui, Reparem em mim que estou aqui, Ouçam-me até no meu silêncio ecompreendam, mas não se pode compreender, Sofia, o que se não diz, as pessoas olham,não entendem, vão-se embora, conversam umas com as outras longe de nós, esquecidasde nós, e sentimo-nos como as praias em outubro, desabitadas de pés, que o mar assaltae deixa no balançar inerte de um braço desmaiado. Sempre estive sozinho, Sofia,mesmo na guerra, sobretudo na guerra, porque a camaradagem da guerra é umacamaradagem de generosidade falsa, feita de um inevitável destino comum que se sofreem conjunto sem de fato se partilhar, estendidos no mesmo abrigo enquanto osmorteiros estouram como os ventres repletos de ferro ferido dos cancerosos nasenfermarias do hospital, apontando ao teto narizes agudos de pássaros que apodrecem,sozinho, mesmo na missão abandonada, sentado com o tenente no banco traseiro do jipesob as acácias, a escutar os insetos e os pássaros e o ensurdecedor silêncio de África,sozinho na enfermaria no meio dos feridos que gemiam, e choravam, e chamavam pormim noite a fio, dobrados pelo medo e pelas dores. Que imbecil aquela guerra, Sofia,digo-te eu aqui acocorado no sanitário diante do espelho que implacavelmente meenvelhece, sob esta luz de aquário e estes azulejos vidrados, estes metais, estes frascos,estas louças sem arestas, que imbecil aquela guerra numa África miraculosa e ardente onde apetecia nascer com o girassol, o arroz, o algodão e as crianças surdem numímpeto de gêiser, fumegante e triunfal.

Por que é que as mulheres negras, Sofia, permanecem silenciosas enquantoparem, silenciosas e serenas nas esteiras à medida que a cabeça de um filho rompedevagar do intervalo das coxas, ganha forma, se solta, um ombro se desembaraça daprega do útero que o prende, o tronco desliza para fora da vagina como o pênis a seguirao coito, num único movimento implacável e liso, sem dor, apenas a doce separação deduas vidas, o simples afastamento de dois corpos que nunca mais se juntarão, tal comonós, Sofia, nos perdemos, quando cheguei à tua casa e a porta não se abriu, raspei amadeira com as unhas, rondei o adobe à escuta e uma mudez vazia me respondeu,nenhuma respiração, nenhum cacarejo suave de galinhas no seu sono me chegou pelasfrinchas, pelos intervalos do barro, pelas madeixas escovadas do capim do teto, tornei araspar a madeira e a velha de cachimbo na boca descerrou o postigo, deslizou para mimum soslaio mineral, o pano ondulava um pouco em torno do seu ventre murcho,aproximei-me dela, espreitei para dentro, o pavio iluminava a cama deserta, as pregas decalcário dos lençóis, as latas oxidadas na prateleira, o horrível côncavo da ausência. Avelha retirou o cachimbo da boca como quem descola a custo um selo de um envelope,cuspiu para as minhas coxas um escarro escuro como nuvem de chuva, os lábiosrodeavam-se de pregas concêntricas de ânus, o cachimbo aceso formou uma volutatrêmula no ar, e a velha disse:

- Sô pide levou.

Era tua mãe ou tua avó, e não havia nenhum sentimento aparente de desgosto oualarme no seu tom, ou, se havia, não atentei nele, pasmado como fiquei por a ouvirfalar, como teria ficado se uma cadeira ou uma mesa recitasse de súbito, em voz cava,um dos sonetos de Antero do meu pai.

No dia seguinte, a caminho do hospital civil, passei pelo quartel da PIDE ondeos prisioneiros sachavam a lavra dos agentes sob a vigilância feroz de um carcereiroarmado, encostado à sombra da casa como uma hiena retesa antes do salto, pastoreandohomens e mulheres magros, quase nus, de cabeça raspada, inchados de pontapés ebofetões, inclinando-se para a terra em gestos moles de cadáveres adiados. Passei peloquartel da PIDE, Sofia, entrei o portão a estremecer de medo e nojo, e perguntei por tiao chefe de brigada que junto ao Land-Rover dava instruções a duas criaturas pálidas,de pistola à cinta, a tomarem notas aplicadas em blocos de argolas de estudantes deliceu. O cabrão escorregou risos contentes de frade diante de um banquete de galhetas:

- Era boa, hã? Estava feita com os turras. Comissária, entendes? Demos-lhe umageral para mudar o óleo à rapaziada, e, a seguir, o bilhete para Luanda.

Tenho que voltar lá para dentro, Sofia. É quase manhã e o uísque evapora-se nasparedes do meu corpo como um hálito embaciado num vidro, deixando-me aestrebuchar, aflito, contra a desencantada lucidez da madrugada, em que o vento dosanos devolutos sopra, pelo nariz exausto, o seu rumor transparente de tristeza. A árvoredo meu sangue desdobra os transidos ramos incontáveis pelos membros fora,espalhando-me na pele um nevoeiro tão melancólico como o da cidade em novembro, aminha gasta e humilde cidade que acorda, casa a casa, para um quotidiano de notário. Esaio deste aquário de azulejos como saí do quartel da PIDE, em que os prisioneirossachavam a lavra dos agentes inclinando-se para a terra em curtos gestos moles decadáveres, sem a coragem de um grito de indignação ou de revolta, a acabar de cumpriresta noite como outrora cumpri, sem protestar, vinte e sete meses de escravidãosangrenta, saio para o corredor, Sofia, apago a luz, e recomeço a sorrir a gargalhadafradesca, filha-da-puta, desprovida de júbilo, do chefe de brigada junto ao Land-Rover,descerrando os dentes enormes numa satisfação de hiena. Porque foi nisto que me transformei, que me transformaram, Sofia: uma criatura envelhecida e cínica a rir de siprópria e dos outros o riso invejoso, azedo, cruel dos defuntos, o riso sádico e mudo dosdefuntos, o repulsivo riso gorduroso dos defuntos, e a apodrecer por dentro, à luz douísque, como apodrecem os retratos nos álbuns, magoadamente, dissolvendo-sedevagarinho numa confusão de bigodes.

T

Não, a sério, espere, deixe-me desapertar-lhe o soutien. Apaga-se uma das luzes namesa de cabeceira, um pudico véu de penumbra desce sobre os lençóis como no rostodas graves senhoras desconhecidas das visitas de pêsames da minha infância, instaladasem torno de um bule de prata para chás solenes, roçando de leve os pratos de biscoitoscom as luvas de camurça. Eu descalço as peúgas sentado na cama, você luta com ofecho eclair das calças numa impaciência de taxista diante do sinal vermelho, e pode serque pairem, com um pouco de sorte, neste quarto, doces atmosferas conjugais feitas deuma teia de hábitos comuns pacientemente conquistados. Mas deixe-me desapertar-lheo soutien: adoro estes fechos pequeninos, complicados, que se abrem sempre aocontrário do que de início se pensa, e os seios que por fim me deixam na mão o seuinvólucro de pano, como as cobras dependuram nos arbustos as peles abandonadas. Járeparou que os seios nascem como luas dos vestidos, redondos, brancos, macios,opalinos, de uma morna claridade interior de veias e de leite, erguendo-se sobre a cidadedeitada do meu corpo num vagar triunfal? Gosto de ver os seios surgirem-me do flanco,subirem, indiferentes, à altura trêmula e sequiosa dos meus beijos, cobrir com a nuvemdo braço a sua suavidade calma, debruçar-me para a auréola dos mamilos em cuidadosdesajeitados de astronauta, pousar a testa no côncavo intervalo que os separa, e sentirdentro de mim, de olhos fechados, a funda tranquilidade de um mar finalmente emrepouso, tocado de leve pelo halo indeciso de um peito que amanhece.

Estendido ao seu lado, junto ao seu perfil nu e imóvel de defunta, das coxasderramadas nos lençóis, do bosquezinho tocante, geométrico e frágil do púbis, dos pelosarruivados do púbis que a lâmpada torna nítidos e precisos como os ramos dos chouposno crepúsculo, vem-me à ideia o soldado de Mangando que se instalou de costas nobeliche, encostou a arma ao pescoço, disse Boa noite, e a metade inferior da caradesapareceu num estrondo horrível, o queixo, a boca, o nariz, a orelha esquerda,pedaços de cartilagem e de ossos e de sangue cravaram-se no zinco do teto tal as pedrasse incrustam nos anéis, e agonizou quatro horas no posto de socorros, estrebuchando apesar das sucessivas injeções de morfina, a borbulhar um líquido pegajoso pelo buracoesbeiçado da garganta.

Eu estava sentado no jango de Marimba, a olhar a noite e os insetos fantásticosque habitam o denso escuro de África e que as trevas incansavelmente segregam eexpulsam, no jango de Marimba pegado à casa da professora cujas ancas estreitas sedissolviam em dolorosas menstruações intermináveis. As varetas de guarda-chuva dosmorcegos rodopiavam como papéis ao vento sob a muralha imensa das mangueiras, aBaixa do Cassanje era um Alentejo enevoado de entusiasmo ardente, da furiosa alegriade Angola onde até o sofrimento e a morte adquirem triunfais ressonâncias de vitória,quando me vieram do rádio avisar do tiro, Um tipo deu um tiro em Mangando, o furrielenfermeiro empurrou as seringas e os ferros para um saco, a escolta esperava já por nósperto da messe de sargentos, partimos aos saltos para o norte, a acordar os mochos quedormiam, de cócoras, na picada e agitavam as asas defronte dos faróis como osafogados esbracejam, cerca da praia, a aflição desordenada das penas.

Mangando, Marimbanguengo, Bimbe e Caputo, eis os pontos cardeais da minhaangústia: Bimbe e Caputo eram sanzalas fechadas na mata, policiadas por milícias e GE,espiadas pelos informantes da PIDE e pelos brancos da OPVDCA, espécie de chuislaicos, fardados como os caçadores de hipopótamos e elefantes dos livros de gravuras daminha infância, livros do sótão do tio Elói com homens de botas altas e espingarda dedois canos risonhamente instalados sobre os enormes pedregulhos cinzentos dosanimais inertes. Da janela do sótão avistava-se a prisão de Monsanto, que eu supunharepleta de criaturas simiescas, de barba por fazer, a abanarem as grades de olhosalucinados e cintilantes, e cuja respiração julgava escutar, colada ao meu ouvido, seacordava a meio da noite, e me paralisava de terror. O tio Elói dava corda aos relógiosda parede, bebia-se anis del mono por cálices de vidro azul, uma doce paz intemporaldescia do aparador, como do rosto de uma pessoa que se ama. O tio Elói, pensava euaos saltos na picada a caminho de Mangando, as tardes de Benfica no verão, pesadascomo frutos rumorosos de luz, a voz de Chaby Pinheiro no gramofone de campânula, arouquejar versos entre estalos e silvos, em que fundo de mim deixei que essa inocênciase perdesse? Os faróis do carro arrancavam as árvores do escuro puxando-asviolentamente para si, a chuva cavara desníveis enormes na estrada improvisada, emBimbe e Caputo sobas fantoches, impostos pelo governo, fechavam-se receosos naproteção dos quimbos, encostados aos panos do Congo das mulheres. Os fascistasfizeram grandes erros em África, porque o fascismo felizmente é estúpido,suficientemente estúpido e cruel para se devorar a si mesmo, e um deles foi substituir oschefes de sangue, os nobres, altivos e indomáveis chefes de sangue, por sobas falsos,que o povo escarnecia e desprezava, fingia venerar diante dos brancos satisfeitos masdesprezava em segredo, continuava a obedecer às autoridades verdadeiras ocultas namata, o soba Caputo, por exemplo, agarrou na imagem de madeira do deus Zumbi,desapareceu na noite, e a sua gente, perplexa, contemplava o nicho vazio numaconsternação aflita, recebia as instruções dos tambores que latiam na treva as suasenormes têmporas reboantes de ecos.

Mangando, Marimbanguengo, Bimbe e Caputo: em Mangando eMarimbanguengo a tropa estacionada tiritava de paludismo e aflição, soldados seminuscambaleavam no calor insuportável da caserna, que o relento do suor e dos corpos porlavar entontecia como os hábitos nauseabundos dos cadáveres, se nos inclinamos paraeles à espera das tristes palavras apodrecidas que os mortos legam aos vivos numborbulhar de sílabas informes. Em Mangando e Marimbanguengo, vi a miséria e amaldade da guerra, a inutilidade da guerra nos olhos de pássaros feridos dos militares,no seu desencorajamento e no seu abandono, o alferes em calções espojado pela mesa,cães vadios a lamberem restos na parada, a bandeira pendente do seu mastro idêntica aum pênis sem força, vi homens de vinte anos sentados à sombra, em silêncio, como osvelhos nos parques, e disse ao furriel enfermeiro, que desinfetava o joelho com tintura,É impossível que um dia destes não tenhamos por aqui uma merdósia qualquer, porque,sabe como é, quando homens de vinte anos se sentam assim à sombra, num tãocompleto desamparo, algo de inesperado, e estranho, e trágico acontece sempre, até queme vieram informar do rádio Um tipo deu um tiro em Mangando, e eu corri para o carroonde a escolta me aguardava a aprontar-se ainda, e seguimos aos saltos para o norte pelapicada que a chuva destruíra.

É esquisito falr-lhe disto enquanto lhe toco os seios, lhe percorro o ventre,procuro com os dedos a junção úmida das coxas onde realmente tudo começa, porquefoi das pernas da minha mãe que divisei pela primeira vez, com órbitas recentes comomoedas novas, o universo ciciado e estranho dos adultos, a sua inquietação e a suapressa. É esquisito falar-lhe disto em Lisboa, neste quarto forrado de papel de flores que uma namorada escolheu antes de se evaporar de mim, se sumir da minha vida tãorepentina e obliquamente como veio e me deixar nas tripas uma espécie de ferida queainda me dói quando lhe toco, neste quarto de onde se vê o rio, as luzes de Almada e doBarreiro, o grosso azul fosforescente da água. Tão esquisito, entende, que me perguntoàs vezes se a guerra acabou de fato ou continua ainda, algures em mim, com os seusnojentos odores de suor, e de pólvora, e de sangue, os seus corpos desarticulados, osseus caixões que me aguardam. Penso que quando eu morrer a África colonial voltaráao meu encontro, e procurarei em vão, no nicho do deus Zumbi, os olhos de madeiraque não há, que verei de novo o quartel de Mangando a dissolver-se no calor, os negrosda sanzala ao longe, a manga da pista de aviação acenando escarninhamente para ninguém. De novo será noite e apear-me-ei do unimogue a caminho do posto desocorros, onde o tipo sem rosto agoniza, aclarado pelo petromax que um cabo segura àaltura da cabeça e contra o qual os insetos de desfazem num ruidozinho quitinoso detorresmos.

O tipo sem rosto agoniza numa agitação incontrolável, amarrado à marquesa deferro que oscila, e vibra, e parece desfazer-se a cada um dos seus sacões, gemendo pelalepra de ferrugem das juntas. Ventas curiosas espreitam das janelas, um pequeno cachoacumula-se à porta para assistir, fascinado e em pânico, ao sangue e à saliva queborbulham pela garganta inexistente, aos sons indefiníveis que o que sobeja de narizemite, aos olhos que a pólvora rebentou como ovos cozidos que explodissem. Asampolas de morfina sucessivamente injetadas no deltoide parecem esporear cada vezmais o corpo amarrado que se rebola e torce, e o petromax multiplica nas paredes emsombras que confluem, se sobrepõem e se afastam, formando uma dança frenética demanchas na geometria suja do estuque. Apetece-me abrir a porta de golpe, abandoná-lo,sair dali, tropeçar ao acaso, cá fora, nos cães do quartel e nos miúdos espantados que senos enrodilham nas pernas, respirar o algodão úmido do ar de África, sentar-me nosdegraus de uma velha casa de colono, de mão no queixo, vazio de indignação, deremorso, de piedade, a lembrar as íris de capim da minha filha nos retratos que deLisboa, pelo correio, me mandam, e imaginar-me a vigiar-lhe o sono, dobrado para ospanos do seu berço num desvelo comovido. Os gritos de Mangando enchem a noite deruídos, um dilatado e grave som contínuo sobe da terra e canta, as árvores, os arbustos,a miraculosa flora de África solta-se do chão e flutua, livre, na atmosfera espessa devibrações e de cicios, o tipo amarrado à marquesa agoniza a um metro de mim à laia dasrãs crucificadas nas pranchetas de cortiça do liceu, introduzo-lhe ampola após ampolanos músculos do braço, e queria estar a treze mil quilômetros dali, a vigiar o sono daminha filha nos panos do seu berço, queria não ter nascido para assistir àquilo, à idiota ecolossal inutilidade daquilo, queria achar-me em Paris a fazer revoluções no café, ou adoutorar-me em Londres e a falar do meu país com a ironia horrivelmente provincianado Eça, falar na choldra do meu país para amigos ingleses, franceses, suíços,portugueses, que não tinham experimentado no sangue o vivo e pungente medo demorrer, que nunca viram cadáveres destroçados por minas ou por balas. O capitão deóculos moles repetia na minha cabeça A revolução faz-se por dentro, e eu olhava osoldado sem cara a reprimir os vômitos que me cresciam na barriga, e apetecia-meestudar Economia, ou Sociologia, ou a puta que o pariu em Vincennes, aguardartranquilamente, desdenhando a minha terra, que os assassinados a libertassem, que oschacinados de Angola expulsassem a escória covarde que escravizava a minha terra, eregressar, então competente, grave, sábio, social-democrata, sardônico, transportando namala dos livros a esperteza fácil da última verdade de papel.

Mangando, Marimbanguengo, Bimbe e Caputo: o sujeito imobilizou-se por fimnum estremeção derradeiro, o que restava da garganta cessou o seu borbulho ansioso, o cabo do petromax deixou pender o braço e as sombras estenderam-se no soalho numavergonha de cachorros, subitamente imóveis. Ficamos muito tempo a contemplar ocadáver agora em sossego, as mãos molemente cavadas sobre as coxas, as botas que seme afiguravam dilatadas de um recheio de palha, quietas na placa de ferro branco, malpintada, da marquesa. Os que espreitavam pela janela sumiram-se dos caixilhos nadireção da caserna, o pequeno grupo apinhado dissolveu-se devagar num murmúrioindistinto, e eu, sabe como é, dava o cu para estar longe dali, longe do gajo morto quemudamente me acusava, longe das ampolas de morfina que se amontoavam, vazias, nobalde de pensos, no meio da gaze, do algodão, das compressas, estar em Paris a explicarno café como se combate o fascismo, estar em Londres a catequizar de Marcuse aspernas de uma inglesa deslumbrada, estar em Benfica a tocar de leve, com o dedo, atesta da minha filha que dormia, a ler Salinger diante das cortinas abertas para a figueirado quintal, onde a noite se enredava como as minhas mãos desajeitadas enredavam asmeadas de lã das minhas tias.

Não. Ainda não. Deixe-me abraçá-la devagar, sentir a sua pele de encontro àminha, o flanco, a curva leve da cintura. Gosto do sabor da sua boca, de tocar com alíngua a placa dos dentes que me garante uma maravilhosa perecibilidade, de ver aspálpebras descerem quando os seus lábios se aproximam, de assistir à morna entregainteira do seu corpo. Esta cama é uma ilha à deriva no mar de prédios e telhados deLisboa, os nossos cabelos, as farripas das palmeiras ao vento, as falanges que seprocuram, uma reptação ansiosa de raízes,. No momento em que os seus joelhos seafastarem docemente, os cotovelos me apertarem as costelas, e o seu púbis ruivodescerrar as pétalas carnudas numa úmida entrega de vulvas quentes e macias,penetrarei em si, percebe, como um cachorro humilde e sarnento num vão de escadapara tentar dormir, procurando um aconchego impossível na madeira dura dos degraus,porque o tipo de Mangando e todos os tipos de Mangando e Marimbanguengo e Cessa eMussuma e Ninda e Chiúme se erguerão no interior de mim nos seus caixões dechumbo, envolto em ligaduras sangrentas que esvoaçam, exigindo-me, nos resignadoslamentos dos mortos, o que por medo lhes não dei: o grito de revolta que esperavam demim e a insubmissão contra os senhores da guerra de Lisboa, os que no quartel doCarmo se cagavam e choravam vergonhosamente, tontos de pânico, no dia da suamiserável derrota, perante o mar em triunfo do povo, que arrastava, no seu impetuosocanto, como o Tejo, as árvores magras do Largo. Os tipos de Marimba que recusaram orefeitório e o rancho do jantar e permaneceram formados na parada, com o cabo maisantigo ao lado, um homem louro, sério, sem palavras, em sentido na parada, até o oficialde serviço, à minha frente, o desfazer de tareia com a pistola, o cabo caía, levantava-se,punha-se de novo em sentido, sangrava pelo nariz, pelos sobrolhos, pela boca, acompanhia, formada, olhava fixamente para diante, o oficial pontapeava o corpo degatas que buscava alcançar a boina para a colocar ainda na cabeça, e que repetia Meualferes meu alferes meu alferes numa indestrutível teimosia paciente, e por fim acompanhia marchou lentamente para o refeitório e aceitou a lavadura do rancho. Nãoera o rancho que estava em causa, percebe, todos comíamos o mesmo alimento turvo,quase podre, que as crianças da sanzala, munidas de latas ferrugentas, desejavam comgrandes órbitas côncavas de fome penduradas suplicantemente do arame, era a guerra, acabronice da guerra, os calendários imóveis em intermináveis dias, fundos com ostristes e suaves sorrisos das mulheres sozinhas, eram as silhuetas dos camaradasassassinados que rondavam as casernas à noite conversando conosco na pálida vozamarela dos defuntos, fitando-nos com as pupilas magoadas e acusadoras dosesqueléticos cães vadios do quartel. Os soldados acreditavam em mim, viam-metrabalhar na enfermaria os seus corpos esquartejados pelas minas, viam-me à beira dos beliches se tiritavam de paludismo nos lençóis desfeitos, de modo que, sabe como é, mecuidavam um deles, pronto a encabeçar a sua zanga e o seu protesto, assistiram à minhaentrada na caserna onde um homem se trancara brandindo uma catana e ameaçandomatar toda a gente e a si próprio, e viram-me sair com ele, momentos depois, a soluçarno meu ombro abandonos de bebê disforme, os soldados julgavam-me capaz de osacompanhar e de lutar por eles, de me unir ao seu ingênuo ódio contra os senhores deLisboa que disparavam sobre nós as balas envenenadas dos seus discursos patrióticos, eassistiram enojados à minha passividade imóvel, aos meus braços pendentes, à minhaausência de combatividade e de coragem, à minha pobre conformação de prisioneiro.

Espere mais um pouco, deixe-me abraçá-la devagar, sentir o latir das suas veiasno meu ventre, o crescer de onda do desejo que se nos espalha pela pele e canta, aspernas que pedalam nos lençóis, ansiosas, à espera. Deixe que o quarto se povoe detênues sons de gemidos em busca de uma boca onde ancorar. Deixe que eu volte deÁfrica para aqui e me sinta feliz, quase feliz, acariciando-lhe as nádegas, o dorso, ointerior fresco e macio das pernas, ao mesmo tempo rijo e tenro como um fruto. Deixeque eu esqueça, olhando-a bem, o que não consigo esquecer, a violência assassina naterra prenhe de África, e tome-me dentro de você quando do redondo das minhaspupilas espantadas, enodoadas da vontade de si de que sou feito agora, surgirem asórbitas côncavas de fome das crianças da sanzala, penduradas do arame, a estenderempara os seus seios brancos, na manhã de Lisboa, as latas ferrugentas.

U

Gostou? Assim, assim? Desculpe, não estou em forma hoje, sinto-me azelha, alheado,não domino o meu corpo, o uísque inquina-me o hálito de um relento de urina, adolorosa consciência das minhas insuficiências preocupa-me. Durante muitos anospensei em inscrever-me num desses cursos de que nos enviam os prospectosdesdobráveis pelo correio, e que em quinze dias nos transformam em hércules eficazes,bem penteados, bem barbeados, nodosos de músculos, cercados por uma nuvemadmirativa de raparigas maravilhadas:

Em sua casa, sem aparelhos, com dez minutos de exercício apenas, torne-se um homem;
Ganhe a confiança dos seus chefes e o amor das mulheres graças ao Método Culturista Sansão;
Cresça treze centímetros sem palmilhas com a técnica de prolongar as Tíbias Gulliver;
A Loção Azeviche fará o seu cabelo recuperar a cor natural, brilhante, sedoso e macio com uma única aplicação;
É ansioso? Vive triste? O Magnetismo Astral, em cinco lições, dar-lhe-á confiança no futuro;
Perca o seu ventre incomodativo pedalando a domicílio com a bicicleta abdominal;
Não consegue arranjar emprego? Combata a calvície com o óleo biológico Hirsutex (rico em algas canadianas) e todas as portas se lhe abrirão;
Se não se despe na praia por ter vergonha dos seus ombros estreitos solicitenas boas casas da especialidade o folheto explicativo “conquistei minha esposagraças ao Claviculone Eletrônico”;
Mau hálito? Experimente o spray norueguês Cebolov (à base de casca decebola e essência de alho) e os seus amigos aproximar-se-ão, fascinados, dassuas palavras;
É gago? A Psicanálise Parapsicológica do Professor Azeredo conferirlhe-á a fluência elegante de um locutor de televisão.

Não, ouça, só estou a ironizar em parte, sobretudo para disfarçar a humilhaçãodo meu fracasso e a desilusão que atravessa de leve o seu silêncio, como as sombras quecruzam, de quando em quando, o alegre sorriso da minha filha mais nova, e me tocamno fundo das tripas a gota de ácido de um remorso ou de uma dúvida. Quereriadesesperadamente ser outro, sabe, alguém que se pudesse amar sem vergonha e de queos meus irmãos se orgulhassem, de que eu próprio me orgulhasse ao observar noespelho da barbearia ou do alfaiate o sorriso contente, o cabelo louro, as costas direitas,os músculos óbvios sob a roupa, o sentido de humor à prova de bala e a inteligênciaprática. Irrita-me este invólucro inábil e feio que é o meu, as frases enroladas nagarganta, a falta de lugar para as minhas mãos defronte das pessoas que não conheço eme amedrontam. Irrita-me o receio que tenho de si, de lhe desagradar, de não conseguirque o seu corpo se erga, em ondas, do lençol, ao mesmo tempo vitorioso e vencido, queo seu peito estremeça de prazer como uma enorme vaga antes de rebentar, que a suaboca me fale, no instante do orgasmo, a linguagem gasosa dos anjos, em que flutuam àderiva beijos em latim. Consinta-me que tente outra vez, dê outra oportunidade à minhaaflição sem esperança, porque desisti de a seduzir, de a fazer render-se às minhasproezas ou ao meu encanto, de a conceber a procurar o meu nome na lista dos telefones,para me pedir, no sábado, para jantar consigo, e ficar fitando-me, esquecida do rosbife edo tempo, num maravilhamento de descoberta. Uma oportunidade, não por si, não pornós, mas por mim: seja um pouco o CLAVICULONE ELETRÔNICO da alma, ajude aque me cresçam vigorosos ombros de esperança das omoplatas finas do desânimo, e queo meu tronco, de repente triangular, erga num júbilo fácil o homenzinho derrotado quesou. Transporte-me como uma Pietà hercúlea o seu Cristo exausto, como eu transporteiao colo, há muitos anos, o negro a quem os crocodilos do rio Cambo haviam devorado aperna esquerda, e que gemia docemente, tal os filhos das hienas nos ninhos apodrecidos,rodeados de excrementos e de ossos espumosos de gazela.

Eu odiava o rio Cambo, o rio dos jacarés e das jiboias, porque das suas águaslentas nasciam, na época das chuvas, as trovoadas que avançavam, em rolos escuros,sobre o quartel, rebolando pelas escadas do ar abaixo os enormes planos das nuvens.Durante as trovoadas, no Cassanje, as pessoas juntavam-se sob os mesmos telhados dezinco a tiritar de pavor, enquanto um odor de fósforo e de enxofre flutuava no ozonosaturado do ar, madeixas de chispas prolongavam os nossos cabelos rígidos e azuis, asárvores amoleciam humildemente à chuva, amedrontadas, as altivas árvores de Angolaapequenavam-se, receosas, à chuva, e nós olhávamos uns para os outros enquanto osrelâmpagos caíam, e nos iluminavam de viés o rosto do seu magnésio instantâneo defotografia, revelando, sob a pele, a textura trágica dos malares. Na margem do rioCambo, junto à jangada, vi uma jiboia morrer com uma cabra na garganta, torcendo-sena relva como os doentes de enfarte se torciam nos bancos de hospital, implorando entresoluços que os matassem, tentando arrancar do peito, com os dedos, as veias quevibravam à maneira de cordas tensas de guitarra. Vi as órbitas dos crocodilos à derivana corrente, pensativas e atentas como as de uma rapariga à escuta, a pestanejarem aironia mineral de certos bustos de Voltaire, sob cuja aparente simplicidade cintila odesdém carnívoro dos homens. E vi uma cubata, onde um raio tombara, enegrecidacomo a pálpebra fatal de uma dançarina de flamengo, e lá dentro, sentada na esteira, uma mulher imóvel, cercada do halo de claridade verde que emana das Senhoras deFátima de plástico e dos ponteiros dos despertadores.

Eu odiava o rio Cambo e os arbustos decompostos que lhe limitavam o curso, osedifícios abandonados, de varanda de colunas, perdidos no capim, e de cujos sobradosem ruína os lagartos e os ratos nos espiavam com rancor. Odiávamos o rio em quetristes deuses de pau se chamavam com vozes guturais repletas de apelos e ameaças, orio em que as lavadeiras esfregavam na pedra limosa a nossa roupa militar, seguidaspela fome suspensa dos soldados, masturbando-se, de joelhos na terra, junto da armaque esqueciam. Trazíamos vinte e cinco meses de guerra nas tripas, vinte e cinco mesesde comer merda, e beber merda, e lutar por merda, e adoecer por merda, e cair pormerda, nas tripas, vinte e cinco intermináveis meses dolorosos e ridículos nas tripas, detal jeito ridículos que, por vezes, à noite, no jango de Marimba, desatávamos de súbito arir, na cara uns dos outros, gargalhadas impossíveis de estancar, observávamos asfeições uns dos outros e a troça escorria-nos em lágrimas de piedade, e de escárnio, e deraiva, pelas bochechas magras, até que o capitão, com a boquilha sem cigarro entaladanos dentes, se sentava no jipe e principiava a buzinar, espantando os morcegos dasmangueiras e os insetos fantásticos de Angola, e nos calávamos como as crianças secalam a meio do seu choro, olhando as trevas em torno numa surpresa imensa.

Trazíamos vinte e cinco meses de guerra nas tripas, de violência insensata eimbecil nas tripas, de modo que nos divertíamos mordendo-nos como os animais semordem nos seus jogos, nos ameaçávamos com as pistolas, nos insultávamos,furibundos, numa raiva invejosa de cães, nos espojávamos, latindo, nos charcos dachuva, misturávamos comprimidos para dormir no uísque da Manutenção, ecirculávamos a cambalear pela parada, entoando em coro obscenidades de colégio. Diasantes, três camaradas nossos haviam morrido num acidente de unimogue, uma árvoreinesperada saiu da mata e plantou-se, vertical, ao centro da picada, diante da viatura quelargara do comércio da Chiquita, a seguir a umas cervejas moles no balcão das fazendas,e encontramos os corpos disseminados no capim, de crânio fraturado, com as formigasvermelhas de África a treparem, obstinadas, pelos braços inertes. Dias antes, os nossosúltimos companheiros assassinados partiram, embrulhados em lonas, para as urnas deMalanje, que exalavam um odor repugnante e fétido apesar do chumbo soldado e damadeira, e os rostos defuntos deles, estendidos lado a lado no armazém de gêneros doquartel, tinham adquirido uma serenidade de paz sem sobressaltos, a amável indiferençadistraída dos jovens que me esquecera que eram, envelhecidos por um sofrimento semrazão. Invejei-os, percebe, entre os sacos de batata e de farinha, as garrafas derefrigerante, os volumes de tabaco, a enorme balança que se aparentava a um aparelhode tortura medieval, invejei a sua tranquilidade vazia de medo e a esperança baça que seescapava, vaga, das pálpebras mal cerradas, invejei o voltarem a Lisboa primeiro do queeu, com a tatuagem de uma flor de sangue seco na testa.

Escute. Vai começar a amanhecer, o ladrar dos cães nas quintas longe mudouligeiramente de tonalidade, adquiriu o eco lívido e pálido da aurora. Pelas frestas daspersianas o dia incha, dolorido e pesado como um furúnculo, abrigando dentro de si umpus de relógios e cansaço. Nos cigarros que acendemos há algo do incenso que paira nasigrejas depois das cerimônias acabadas, entre os dedos agudos das velas e a bondadepintada das imagens, as barbas dissolvidas na fuligem do tempo dos painéis dos santos.Vai começar a amanhecer e todos os candeeiros se tornarão inúteis, o sol exibirá sempiedade os nossos corpos deitados, as rugas, as pregas tristes da boca, o cabeloemaranhado, os restos de pintura e de creme na almofada. Como um campo de batalha,sabe como é, juncado da desordem já nem patética dos cadáveres, uma simplesdesarrumação de sótão em que os móveis fossem corpos decepados e risíveis. A energia musculosa do dia empurra-nos, como às corujas, para as derradeiras pregas de sombra,onde agitamos as penas úmidas numa ansiedade inquieta, encolhidos um contra o outroà procura da proteção que não há. Porque ninguém nos salva, ninguém pode maissalvar-nos, nenhuma companhia virá, de morteiro em punho, ao nosso encontro. Eis-nosirremediavelmente sós no convés desta cama sem bússola, balançando pela alcatifa doquarto hesitações de jangada. De certa forma continuaremos em Angola, você e eu,entende, e faço amor consigo como na cubata da sanzala Macau da tia Teresa, negragorda, maternal e sábia, recebendo-me na palha do colchão numa indulgência suave dematrona. Os dedos dela arrepiam-me a espinha, o seu hálito grosso de peixe e de tabacodesce-me o peito a caminho do pênis, que endurece, os seios enormes e escurosbalançam-me adiante da boca, túrgidos do transparente leite da ternura. O pavio doazeite aclara imagens piedosas, postais ilustrados colados na parede, os beiços peludosda vulva que me roçam o ombro, idêntica às escovas dos barbeiros, adejando-me nocasaco à espera da gorjeta, e eu sinto-me como os mortos do unimogue no armazém degêneros, de flor de sangue na testa, tranquilos entre os sacos de farinha e de batata, asgarrafas de refrigerante e os volumes de tabaco. Os oficiais jogam o loto na casa novado administrador, a professora das menstruações dança em torno da mesa da sala dejantar com o condutor da carreira, a pálida alegria colonial tinge de tristeza cada gesto, ea tia Teresa fecha a porta por dentro para que ninguém, percebe, nos incomode, edesabotoa-me a camisa num vagar sapiente de ritual. O quimbo da tia Teresa, cercadopelo odor doce dos pés de liamba e de tabaco, é talvez o único sítio que a guerra nãologrou invadir do seu cheiro pestilento e cruel. Alastrou por Angola, a terra sacrificada evermelha de Angola, alcançou Portugal a bordo dos barcos de militares queregressavam, desorientados e tontos, de um inferno de pólvora, insinuou-se na minhahumilde cidade que os senhores de Lisboa mascararam de falsas pompas de cartolina,encontrei-a deitada no berço da minha filha como um gato, fitando-me com pupilas demaldade oblíqua, a mirar-me dos lençóis com a turva raiva invejosa dos alferes nasmesas de jogo, medindo com rancor, de pistola à cinta, as cartas do parceiro. A guerrapropagou-se aos sorrisos das mulheres nos bares, sob as ampolas despolidas doscandeeiros que lhes multiplicam de sombras a curva indagadora dos narizes, turvou asbebidas de um gosto azedo de vingança, aguarda-nos no cinema, instalada no nossolugar, vestida de preto como um notário viúvo a retirar do bolso do casaco o estojo deplástico dos óculos. Está aqui, nesta casa vazia, nos roupeiros desta casa vazia, grávidados fetos moles das minhas cuecas, no geométrico espaço de trevas que as lâmpadas nãoalcançam nunca, está aqui e chama-me baixinho com a pálida voz ferida dos camaradasassassinados nas picadas de Ninda e de Chiúme, estende para mim os cotovelos brancose ossudos num abraço gasoso que me agonia. Está em si, no seu perfil sarcásticodesprovido de amor, na obstinação do seu silêncio e no mover mecânico das suas ancasdurante o coito, devorando o meu pênis como um estômago digere, indiferente, oalimento que lhe oferecem, recebendo os meus beijos na paciência vagamenteaborrecida das prostitutas da minha infância, decrépitas bonecas insufláveis, ancoradasnas manchas de esperma seco das colchas. Deito um centímetro mentolado de guerra naescova de dentes matinal, e cuspo no lavatório a espuma verde-escura dos eucaliptos deNinda, a minha barba é a floresta do Chalala a resistir ao napalm da gilete, um granderumor de trópicos ensanguentados cresce-me das vísceras, que protestam. Mas nacubata da tia Teresa, adocicada pelas folhas de liamba num vaso, as folhas que ossoldados trouxeram de Angola, em caixas de pensos, para vender aos jovens frágeis doRossio, aos jovens parecidos com aves doentes do Rossio, coxeando em volta dosrepuxos num vagar tímido e perverso, na cubata da tia Teresa, quando a porta setrancava à chave e os postigos se corriam para uma intimidade de sacrário, a guerra circulava de mangueira em mangueira, trazendo pela mão os seus heróis mortos e o seufalso patriotismo de estuque e gesso, sem se atrever a entrar. Eu escutava, na palha docolchão, os seus passos aflitos lá fora, sabia-a que espreitava pelas frinchas o meu corpoestreito e cansado, calculava o seu furioso e mudo azedume de se sentir expulsa,desprezada pelo pavio de azeite, pelas imagens piedosas e pelos postais colados naparede, e sorria, de rosto na almofada, por me achar tranquilo, em paz e tranquilo numpaís que ardia.

Escute. Vai começar a amanhecer, os despertadores do prédio em frenteempurrarão, brutalmente, para fora do sono, as pessoas que dormem, extraindo-as doútero lunar dos lençóis na direção de quotidianos sem alegria, de empregosmelancólicos, dos rissóis de plástico das cantinas. O ladrar dos cães nas quintasassemelha-se agora ao regougo dos encarregados nas fábricas, aos berros dos policiais,que em 61, durante as greves universitárias, protegidos por uma espécie de viseiras, nosperseguiam de cacetes e de gases. Dentro em breve o sol exibirá duramente esta jangadade lençóis de náufragos, partilhando o último cigarro e o último uísque numafraternidade de mendigos, sabe, de roupa espalhada ao acaso na alcatifa, mendigos nus eindiferentes sob um arco de ponte, coçando-se com as unhas sujas de dedos poeirentosdos pés. De modo que, se faz favor, chegue-se para o meu lado da cama, fareje a minhacova do colchão, passe a mão no meu cabelo como se tivesse por mim a suave esequiosa violência de uma ternura verdadeira, expulse para o corredor o cheiropestilento, e odioso, e cruel da guerra, e invente uma diáfana paz de infância para osnossos corpos devastados.

V

Conhece Malanje? Estava à espera da manhã para lhe falar de Malanje, da irrealidade decrepúsculo polar que envolve os objetos e os rostos dessa espécie de halo transparentepousado nas copas dos pinhais da Beira, da manhã, do silêncio de mar suspenso, àescuta, a respirar de leve, da manhã, para lhe falar de Malanje. Malanje, sabe como é, éhoje o monte de destroços e de ruínas em que a guerra civil a tornou, uma terrairreconhecível pela estúpida violência inútil das bombas, um campo raso de cadáveres,de costelas fumegantes de casas, e de morte. Talvez que nesse tempo, quando passei porela de regresso ao meu país, pudesse adivinhar os destroços e as ruínas sob o perfilintacto dos prédios, as árvores do jardim, o café repleto de mulatos pretensiosos, cujosenormes carros de luxo apoiavam no passeio os narizes de esqualo dos faróis. Talvezque pudesse prever, sob a saúde aparente do sol, a sua morte próxima, tal como certosdoentes nos revelam, por trás do sorriso alegre ou dos olhos carregados de uma falsaesperança, o esgar, não de medo nem de nojo, mas de vergonha, da agonia. A vergonhade estar deitado, a vergonha de não ter forças, a vergonha de desaparecer em breve, daagonia, a vergonha perante os outros, os que dos pés da cama nos olham no horroraliviado dos sobreviventes, inventam palavras de um otimismo doloroso, conversam emvoz baixa com a enfermeira nos cantos do quarto, que a janela ilumina em diagonal deum dia ilusório. Malanje, percebe, é hoje o monte de destroços e de ruínas em que aguerra civil a tornou, uma cidade devastada, desaparecida, um templo de Diana deparedes escuras e de muros derrubados, mas em 73, no início de 73, era a terra dosdiamantes, dos que enriqueciam e engordavam à custa do contrabando dos diamantes, àcusta da camanga, do comércio furtivo das pedras: todas as pessoas traziam frasquinhosde reagentes na algibeira, os negros, a população branca, a polícia, a PIDE, os administrativos, os professores, a tropa, e à noite, na cintura suja das sanzalas,comprava-se o minério a quem chegava do rio ou da fronteira com uma cintilação devidro embrulhada em pedaços de pano, protegido pelas facas atentas dos cúmplices.Sanzalas e casas de putas sob os eucaliptos, colchas de chita, bonecas, mulheresenvelhecidas de dentes de prata, toca-discos entoando aos berros os merenguescardíacos do Congo, e a felicidade por duzentos escudos numa súbita gargalhada depreta jovem, recebendo-nos dentro de si numa alegria de troça.

Malanje era o oficial pequeno, calvo, enrugado, parado à porta do liceu paraassistir à saída das meninas das aulas, molhando o papel dos cigarros de um desejoporco de velho, ou instalado a seguir ao jantar no passeio fronteiro à varanda da messe,observando a vizinha impúbere, que levantava os pratos da mesa, com órbitasprotuberantes, de animal empalhado. Vi-o no Chiúme abrir a braguilha diante de umaprisioneira, obrigá-la a erguer uma das pernas colocando-a sobre o bidê, e penetrá-la, deboina na cabeça, a soprar pelo nariz uma asma repelente de bode. Entrei no banheirodos sargentos, na pocilga eternamente inundada e nauseabunda a que se chamavabanheiro dos sargentos, vi o oficial abraçado, numa espécie de desespero epilético, àprisioneira, criatura muda e tímida encostada aos azulejos, de pupilas ocas, e por cimada cabeça deles, através da janela, a chana abria-se num majestoso leque de verdesmatizados, em que se adivinhava o brilho lento, ziquezagueante, quase metálico do rio,e a grande paz de Angola no cacimbo, às cinco da tarde, refratada por sucessivascamadas contraditórias da neblina. As nádegas do homem formavam um movimento deêmbolo que se apressava, a camisa pegava-se às costas em ilhas imprecisas de suor, oqueixo tremia como os dos reformados nos refeitórios dos asilos, as pupilas ocas daprisioneira miravam-me numa fixidez insuportável, e apeteceu-me, entende, tirartambém a minha pica para fora e urinar sobre eles, urinar demoradamente sobre eles,como em pequeno mijava para os sapos do quintal, abrigados no meio de dois troncosnuma aflição de pedras que respiram.

Mas não podíamos urinar sobre a guerra, sobre a vileza e a corrupção da guerra:era a guerra que urinava sobre nós os seus estilhaços e os seus tiros, nos confinava àestreiteza da angústia e nos tornava em tristes bichos rancorosos, violando mulherescontra o frio branco e luzidio dos azulejos, ou nos fazia masturbar à noite, na cama, àespera do ataque, pesados de resignação e de uísque, encolhidos nos lençóis, à laia defetos espavoridos, a escutar os dedos gasosos do vento nos eucaliptos, idênticos afalanges muito leves roçando por um piano de folhas emudecidas. Não temos árvoresaqui: apenas o pó dos edifícios que se erguem, em torno deste, segundo o mesmomodelo deprimentemente igual para bancários melancólicos, as luzes do Areeiro lá emcima, azuladas e vagas como órbitas de cães cegos, a Avenida Almirante Reis e as suaslojas fechadas sobre si próprias à maneira dos punhos de uma criança que dorme: aspessoas acordam, afastam as cortinas da janela, espreitam para fora, observam as ruascinzentas, os automóveis cinzentos, as silhuetas cinzentas que cinzentamente sedeslocam, sentem crescer dentro de si um desespero cinzento e deitam-se de novo,conformadas, resmungando palavras cinzentas no seu sono que se espessa.

Já reparou que moro numa Pompeia de prédios em construção, de paredes, devigas, de escombros que crescem, de guindastes abandonados, de montes de areia, e demáquinas de cimento redondas como estômagos ferrugentos? Daqui a algumas horas,operários de capacete principiarão a martelar estas ruínas empoleirados em esboços decaixilhos, os maçaricos furarão o betão numa raiva teimosa, os canalizadores abrirãoarbustos de artérias na carne enteiriçada das casas. Vivo num mundo morto, semcheiros, de poeira e de pedra, onde o enfermeiro da policlínica do primeiro andarpasseia, de bata, a barba surpreendida de fauno, buscando ao seu redor, em vão, relvas fofas de margem. Vivo num mundo de poeira, de pedra e de lixo, principalmente delixo, lixo das obras, lixo das barracas clandestinas, lixo de papéis que virevolteiam e seperseguem, ao longo dos tapumes, sarjetas fora, soprados por um hálito que não há, lixode ciganos vestidos de preto, instalados nos desníveis da terra, numa espera imemorialde apóstolos sabidos.

Queria falar-lhe de Malanje, agora que me portei mais ou menos, não éverdade?, você gemeu mesmo, uma ou duas vezes, latidos de cadelinha contente,agitou-se numa espécie de espasmo de coreia ou de desmaio, o seu rosto, de olhosfechados e de boca aberta, assemelhou-se por instantes ao das velhas que comungavamnas igrejas da minha infância, velhas de dentadura solta, arfando, de língua de fora, pelocírculo branco da hóstia. Eu, menino de coro, acompanhava o padre e contemplava,fascinado, o inacreditável comprimento das línguas das velhas que se empurravam eacotovelavam, armadas de guarda-chuvas de cabo de osso e de grandes terçossemelhantes a colares de atrizes, defronte do prior, de taça na mão, resmungando arrotosmísticos pela ponta dos beiços. Queria falar-lhe de Malanje, da cidade cercada de casasde putas e de eucaliptos, pátria da camanga repleta de aventureiros palavrosos ouesquivos, tipos de pupilas cautelosas, oblíquas, instalados de leve nas esplanadas doscafés. Queria falar-lhe da miraculosa claridade de Malanje, da luz que se diria nascer dochão num júbilo impetuoso, e violento, do bunker da PIDE e do quartel pretensiosoembaixo, quartel de província, percebe, a cheirar a desinteresse e a sargento.

De Malanje a Luanda, quatrocentos quilômetros de estrada atravessavam osmorros fantásticos de Salazar, aldeias à beira do alcatrão como verrugas no contorno deum beiço, o fluir majestoso do Dondo em que se adivinha a presença do mar, na demoradas suas ancas lentas de mulher de Pavia, e nos pássaros brancos e pernaltas da baía deLuanda, a roçarem a água com os corpos de esferovite fusiforme. Mas o importante, emMalanje, eram os minutos que precedem a aurora, os minutos irreais, pungentes,absurdos que precedem a aurora, incolores e distorcidos como os rostos da insônia oudo medo, a perspectiva deserta das ruas, o silêncio transido das árvores e os seus braçosque parecem retrair-se, hesitantes, magoados por um pânico sem razão. Antes damadrugada, sabe como é, todas as cidades se inquietam, se enrugam de desconfortocomo as pálpebras de um homem que não dormiu, espiam a claridade, o nascer indecisoda luz, se arrepiam como pombos doentes num telhado, a estremecerem as penasnoturnas no receio frágil e oco dos ossos. O primeiro sol, pálido, cor de laranja, comoque pintado a lápis no céu de prata desbotada, encontra, ao surgir devagar da confusãogeométrica das casas, praças pregueadas, avenidas encolhidas, travessas sem espaço,sombras desprovidas de mistério refugiadas no interior das salas, entre o brilho doscopos e os sorrisos dos mortos nas molduras, de bigodes encurvados como assobrancelhas sarcásticas dos professores de Matemática, depois do enunciado de umproblema de torneiras difícil. Todas as cidades se inquietam, mas Malanje, percebe,dobrava-se a estremecer sobre si própria como eu me debruço, na cama, para si,temeroso do dia que me aguarda, com o seu peso insuportável de pedra no meu peito, ea cinza que se me acumula nas mãos e deixo nos restaurantes ao lavá-las, antes doeterno bife sem gosto do almoço. Queria pedir-lhe que não saísse daqui, meacompanhasse, ficasse comigo deitada aguardando não só a manhã mas a próxima noite,e a outra noite, e a noite seguinte, porque o isolamento e a solidão se me enrolam nastripas, no estômago, nos braços, na garganta, me impedem de me mover e de falar, metornam num vegetal agoniado incapaz de um grito ou de um gesto, à espera do sono quenão chega. Fique comigo até que eu, finalmente, adormeça, me afaste de si numa dessasinexplicáveis reptações frouxas com que os afogados oscilam nas vazantes, me estendade bruços, de boca na almofada, babando na barriga da fronha palavras indistintas, me afunde no poço pantanoso de uma espécie de morte, a ressonar o meu grosso coma depastilhas e de álcool. Fique comigo agora que a manhã de Malanje incha dentro de mim,vibra dentro de mim, invertida, agitações deformadas de reflexo, e estou sozinho noasfalto da cidade, perto dos cafés e do jardim, possuído de um insólito desejo semobjeto, indefinido e veemente, a pensar em Lisboa, na Gija ou no mar, a pensar nascasas de putas sob os eucaliptos e nas suas camas repletas de bonecas e naperons. Omedo de voltar ao meu país comprime-me o esôfago, porque, entende, deixei de terlugar fosse onde fosse, estive longe demais, tempo demais para tornar a pertencer aqui,a estes outonos de chuvas e de missas, estes demorados invernos despolidos comolâmpadas fundidas, estes rostos que reconheço mal sob as rugas desenhadas, que umcaracterizador irônico inventou. Flutuo entre dois continentes que me repelem, nu deraízes, em busca de um espaço branco onde ancorar, e que pode ser, por exemplo, acordilheira estendida do seu corpo, um recôncavo, uma cova qualquer do seu corpo,para deitar, sabe como é, a minha esperança envergonhada.

X

Não, palavra, ouça: agora que nos vamos separar, depois de combinarmos um vagoencontro num vago restaurante de que nenhum de nós amanhã se lembrará, que nos nãovoltaremos a ver senão no acaso fugitivo de um bar ou de um cinema, com tempoapenas para um breve aceno e um sorriso, um desses sorrisos instantâneos, sem afeto,que se abrem e se fecham, num brilho circular de dentes, à maneira dos diafragmas dasmáquinas fotográficas, agora que você se vai vestir nos gestos neutros e apressados dasmulheres a seguir à mesa do ginecologista, apertando botões como quem se agrafa,posso confessar-lhe, de cotovelo apoiado no colchão, junto ao cinzeiro a transbordar decinza e de pontas de cigarro, de que sobe o odor repugnante de tabaco frio das coisasacabadas, que gosto de si. A sério. Gosto da ironia atenta do seu silêncio, da gargalhadaque paira, de quando em quando, sobre as feições em sossego, à laia de uma nuvemindecisa, gosto das suas pulseiras exóticas, do luzir avaliador dos seus olhos, da raizelástica das coxas que se fecham acima do meu corpo tal como a água cobre, num únicomovimento sem rumor, o último aceno, já de alga, com que os afogados se dissolvemnuma espumazinha sem peso. Gosto da noite à sua beira, lenta e pesada como uma nucaadormecida, imaginar que você voltaria logo, com uma mala de roupa, a fitar-me docapacho da entrada com as órbitas ao mesmo tempo agudas e turvas da paixão, eficaríamos juntos nesta triste casa sem móveis, abraçados, a observar o rio, onde asluzes se coalham em reflexos coloridos que pulsam, idênticas a veias sob um dedo desombra. Inventávamos ementas esquisitas na cozinha, misturávamos frascos, temperos ebeijos nos tachos ao lume, inundávamos as salas de preguiçosos odores orientais, derevistas frívolas e de desenhos de crianças, contávamos os cabelos brancos um do outrono inocente júbilo da velhice esconjurada, você tirava-me os pontos pretos com asunhas, eu passava a minha língua entre os dedos excitados dos seus pés, eadormeceríamos na alcatifa, indiferentes à cama, às exigências do emprego, à tirania derobô do despertador, se não felizes, percebe, pelo menos, como dizer?, alegrementesaciados.

Desculpe falar-lhe assim mas acho-me tão farto de me sentir sozinho, tão fartoda trágica farsa ridícula da minha vida, do bife raspado do snack e da diarista que merouba nas horas e no pó da máquina, que às vezes, sabe como é, me vêm ganas deafastar de mim a aflita desordem de que enojadamente me alimento, como certos bichos do lixo em que moram, e assobiar para o espelho um contentamento sem mancha.Apetece-me vomitar no sanitário o desconforto da morte diária que carrego comigocomo uma pedra de ácido no estômago, se me ramifica nas veias e me desliza nosmembros num fluir oleado de terror, tornar, penteado e saudável, à linha de partida ondeum círculo de rostos compassivos e afáveis me espera, a família, os irmãos, os amigos,as filhas, os desconhecidos que aguardam de mim o que, por timidez ou vaidade, lhesnão soube dar, e oferecer-lhes a lucidez sem ressentimento e o calor desprovido decinismo de que até agora nunca fui capaz. Apetece-me expulsar estes defuntos hirtosinstalados nas minhas cadeiras numa expectativa pálida e tenaz, a minha mãe a passarindiferente por mim a pensar noutra coisa, o meu pai a erguer da poltrona pupilas queme atravessam sem me ver, os manos embrulhados nos seus esquisitos novelosinteriores sem possível desmancho, expulsar os pianos verticais cobertos por panos dedamasco cujos Chopins me enredam em melancolias de narciso, apetece-me a Isabel, arealidade de Isabel, a realidade independente de mim da Isabel, os dentes da Isabel, oriso da Isabel, os seios da Isabel em forma de focinho de gazela debaixo da camisa dehomem, as suas mãos nas minhas nádegas durante o amor, e as pálpebras que tremiam evibravam como espetadas por um alfinete cruel numa folha de almaço.

Pode apagar a luz: já não preciso dela. Quando penso na Isabel cesso de terreceio do escuro, uma claridade ambarina reveste os objetos da serenidade cúmplice dasmanhãs de julho, que se me afiguraram sempre disporem diante de mim, com o seu solintantil, os materiais necessários para construir algo de inefavelmente agradável que eunão lograria jamais elucidar. A Isabel que substituía aos meus sonhos paralisados o seupragmatismo docemente implacável, consertavas as fissuras da minha existência com orápido arame de duas ou três decisões de que a simplicidade me assombrava, e depois,de súbito menina, se deitava sobre mim, me segurava a cara com as mãos, e me pediaDeixa-me beijar-te, numa vozinha minúscula cuja súplica me transtornava. Acho que aperdi como perco tudo, que a sacudi de mim com o meu humor variável, as minhascóleras inesperadas, as minhas exigências absurdas, esta angustiada sede de ternura querepele o afeto, e permanece a latejar, dorida, no mudo apelo cheio de espinhos de umahostilidade sem razão. E lembro-me, comovido e suspenso, da casa do Algarve rodeadade ralos e figueiras, do céu morno da noite tingido pelo halo longínquo do mar, da caldas paredes quase fosforescente no escuro, e da violenta e informulada paixão dasminhas carícias que pareciam deter-se, irresolutas, a centímetros do rosto dela, e sedissolviam por fim num afago indefinido. Penso na Isabel, e uma espécie de maré, tensade amor, indomada e vigorosa, sobe-me das pernas para o sexo, endurece-me ostestículos em crispações de desejo, alarga-se-me no ventre como se abrisse grandes asascalmas nas minhas vísceras em batalha. Percorremos de novo os antiquários poeirentosde Sintra à procura de móveis de talha, entramos no aquário azul da boate onde pelaprimeira vez toquei, maravilhado, a sua boca, inventamos um fantástico futuro de filhosmorenos numa profusão de berços, e sinto-me feliz, justificado e feliz, ao abraçar o seucorpo na vazante dos lençóis, de que as pregas formam como que ondas a caminho dapraia branca da almofada, onde as nossas cabeças, a tua escura, a minha, clara, sejuntam numa fusão que contém em si os germens estranhos de um milagre.

Pode apagar a luz: talvez não fique tão sozinho como isso neste quarto enorme,talvez que a Isabel ou você voltem um dia destes a visitar-me, eu ouça a voz ao telefone,a voz miudamente precisa pelos furos de baquelite do telefone, o olá dela e o seu olá aentrarem-me na orelha na oleosidade agradável e morna dos pingos de tirar a cera daminha infância, a vá buscar no emprego, esperando dentro do carro numa impaciênciade cigarros, a corrigir o nó da gravata, em bicos de nádegas, no espelho, ela ou você seinstale no meu lado no automóvel às escuras, me sorria, se debruce para colocar o cassete da Maria Bethânia no gravador, e me passe ao redor da nuca os firmes cotovelosda ternura. Deixa-me beijar-te. Deixe-me beijá-la enquanto se veste, enquanto aperta osoutien nas costas em gestos cegos e canhotos que lhe tornam as omoplatas salientescomo as asas de um frango, enquanto procura os anéis de prata na mesinha de cabeceiracom uma ruga de atenção infantil, vertical, na testa, enquanto luta com a escova contra aresistência ondulada do cabelo, o cabelo excessivo que a minha calvície inveja, numciúme feroz a que não consigo fugir. Todas as manhãs penso quando começarei a fazera risca na orelha, puxando trabalhosamente uma madeixa esfiada pelo cocuruto nu, eprincipio a ler sem ironia os anúncios de postiços do jornal, acompanhados pelasfotografias de hirsutos carecas satisfeitos, sorrindo risos peludos de gorilas. Afasto-medos retratos do ano passado como um barco do cais, e parece-me às vezes assemelharmea uma esquisita caricatura de mim próprio, que as rugas deformam de um arremedode trejeitos. Deixa-me beijar-te: que criatura vai querer beijar a paródia triste do que fui,o estômago que cresce, as pernas que se afilam, o saco vazio dos testículos cobertos delongas crinas cor de couro? Refletindo melhor, não apague a luz: quem sabe se estamanhã oculta dentro de si uma noite mais opaca do que todas as noites que até agoraatravessei, a que vive no fundo das garrafas de uísque, das camas desfeitas e dos objetosde ausência, uma noite com um cubo de gelo à superfície, três dedos de líquido amarelopor baixo, e um silêncio insuportável no interior vazio, uma noite em que me perco, atropeçar de parede a parede, tonto de álcool, falando comigo o discurso da solidãograndiosa dos bêbados, para quem o mundo é um reflexo de gigantes contra os quais,inutilmente, se encrespam.

Não apague a luz: quando você sair a casa aumentará inevitavelmente detamanho, transformando-se numa espécie de piscina sem água em que os sons seampliam e ecoam, agressivos, retesos, enormes, batendo-me violentamente contra ocorpo como se as marés do equinócio na muralha da praia, rolando sobre mim espumasfoscas de sílabas. De novo escutarei a fermentação da geladeira, a ronronar o seu sonode mamute, os pingos que se escapam do rebordo das torneiras como as lágrimas dosvelhos, pesadas de conjuntivite ferrugenta. Hesitarei na camisa, na gravata, no terno, eacabarei por bater a porta da rua como se abandonasse atrás de mim um jazigo intactoonde a morte floresce nas jarras de vidro facetado e nos caules podres dos crisântemos.Bater a porta da rua, percebe, como bati a porta de África de regresso a Lisboa, a portarepugnante da guerra, as putas de Luanda e os fazendeiros do café em torno dos baldesde champanhe, reluzentes como as caixas forradas de lantejoulas dos ilusionistas,fumando cigarros americanos de contrabando na penumbra de um tango. A porta deÁfrica, Isabel: um médico homossexual, cujas pestanas se enrolam em nós como ostentáculos de um polvo, acolitado por um cabo trocista, de patilhas, ao qual se deve unirde pensão em pensão num suspirozinho exausto de ventosa, examina-nos o mijo, amerda, o sangue, para que não infectemos o País do nosso pânico da morte, dalembrança do rapaz louro coberto por um pano no meu quarto, dos eucaliptos de Nindae do enfermeiro sentado na picada de intestinos nas mãos, a olhar para nós num espantotriste de bicho. Trazemos o sangue limpo, Isabel: as análises não acusam os negros aabrirem a cova para o tiro da PIDE, nem o homem enforcado pelo inspetor na Chiquita,nem a perna do Ferreira no balde dos pensos, nem os ossos do tipo de Mangando notelhado de zinco. Trazemos o sangue tão limpo como o dos generais nos gabinetes comar condicionado de Luanda, deslocando pontos coloridos no mapa de Angola, tão limpocomo o dos cavalheiros que enriqueciam traficando helicópteros e armas em Lisboa, aguerra é nos cus de Judas, entende, e não nesta cidade colonial que desesperadamenteodeio, a guerra são pontos coloridos no mapa de Angola e as populações humilhadas, transidas de fome no arame, os cubos de gelo pelo rabo acima, a inaudita profundidadedos calendários imóveis.

Às vezes, sabe como é, acordo a meio da noite, sentado nos lençóis, inteiramentedesperto, e parece-me ouvir, vindo do banheiro, ou do corredor, ou da sala, ou dobeliche das miúdas, o apelo pálido dos defuntos nos caixões de chumbo, como amedalha identificativa que trazemos ao pescoço pousada na língua à maneira de umahóstia de metal. Parece-me ouvir o rumor das folhas das mangueiras de Marimba e o seuimenso perfil contra o céu enevoado do cacimbo, parece-me ouvir o riso súbito eorgulhosamente livre dos Luchazes, que estala junto de mim como o trompete de DizzieGillespie, esguichando do silêncio num ímpeto de artéria que se rasga. Acordo no meioda noite, e saber que tenho o mijo, a merda e o sangue limpos, não me tranquiliza nemme alegra: estou sentado com o tenente na missão abandonada, o tempo parou em todosos relógios, no do seu pulso, no despertador, na telefonia, no que a Isabel deve usaragora e não conheço, no que existe, desconexo e palpitante, na cabeça dos mortos, opólen das acácias envolve-nos de leve de um ouro sem peso e sem ruído, a tarde arrastaseno capim numa moleza animal, levanto-me para urinar contra o que resta de um muroe tenho o mijo limpo, percebe, o mijo irrepreensivelmente limpo, posso regressar aLisboa sem alarmar ninguém, sem pegar os meus mortos a ninguém, a lembrança dosmeus camaradas mortos a ninguém, voltar para Lisboa, entrar nos restaurantes, nosbares, nos cinemas, nos hotéis, nos supermercados, nos hospitais, e toda a genteverificar que trago a merda limpa no cu limpo, porque se não podem abrir os ossos docrânio e ver o furriel a raspar as botas com um pedaço de pau e a repetir Caralho caralhocaralho caralho caralho, acocorado nos degraus da administração.

Mesmo assim tive o cuidado de me despedir da baía, concha de água pútrida,onde os edifícios, invertidos, vibravam. As traineiras saíam o cais para a pesca no ruídoamortecido e irregular dos motores, assustando os grandes pássaros brancos quepasseavam no lodo em pernadas proprietárias de gerentes, e arrepiando os repuxos decabelos pendentes das palmeiras, que lançavam as sombras estreitas nos bancosdesertos. No café das arcadas, garotos negros impingiam os pensos rápidos dos seusmanipanços horrorosos. Os engraxates arrastavam-se por entre as mesas, debruçadospara sapatos cintilantes. O médico homossexual, na cadeira ao lado da minha, acendeulanguidamente um cigarro de filtro dourado, e apagou o fósforo com o bico em copa,delicado, dos beiços. Usava um perfume denso de prima solteira, que incensava o ar delargas baforadas de açúcar gasoso. Tínhamo-nos conhecido em Londres, no outonogrisalho de Saint James Park, partilháramos o mesmo quarto alugado, e eu assistiadiariamente ao ritual complicado da sua toalete, cercado de cremes, de escovas, depinças depilatórias e de caixinhas de tartaruga de produtos de beleza, que ele manejavanuma destra paciência de Ver Meer, compondo um rosto maquilado que se diriaevadido, à socapa, de um filme de vampiros. A sua roupa interior assemelhava-se aosternos dos trapezistas de circo, onde o lilás dos projetores se demora numa admiraçãoextasiada. De certo modo estimávamo-nos um ao outro porque as nossas solidões, a deleautocomplacente, a minha raivosa, se tocavam e confluíam num qualquer ponto comum,porventura o da inconformação resignada. Era de tal maneira feminino que a farda oaparentava a uma mulher-polícia. Levou o cigarro á boca num gesto cauteloso de chávena de chá demasiado quentem e roçou por mim, de leve, os grandes olhos meigosde uma inocência sabida:

- Como é que te vais aguentar em Lisboa depois dos cus de Judas?

Os candeeiros da Marginal acenderam-se à uma, num repente, e milhares deinsetos principiaram de imediato a agitar-se nos cones azulados das lâmpadas, frenéticos como as bolhas de luz das frontarias dos cinemas. Um ruído inlocalizável de talheresanunciava a hora do jantar.

- Nas calmas - respondi-lhe, afastando com a mão os cadáveres estilhaçados napicada. - Tu próprio certificaste que tenho o sangue limpo.

Z

Espere aí, vou acompanhá-la à porta. Desculpe o tempo que demoro a levantar-me, e,em vez de má educação, peço-lhe que veja nisso apenas o lamentável resultado doexcesso de uísque, da noite sem sono, e da emoção do meu longo relato que estáchegando ao fim. Aliás, amanheceu: ouvem-se distintamente as camionetas das obras narua, uma válvula de descarga qualquer, no andar de cima, anuncia o despertar dosvizinhos. Tudo é real agora: os móveis, as paredes, o nosso cansaço, a cidade demasiadocheia de monumentos e de gente como uma cômoda com muitos bibelôs no tampo, queamorosamente odeio. Tudo é real: passo a mão pela cara e a lixa da barba por fazerarrepela-me a pele, a bexiga repleta incha-me na barriga o seu líquido morno, pesadacomo um feto redondo que geme. Um feixe oblíquo de luz aclara anemicamente umlosango de papel de parede, junto ao roupeiro, e desce pouco a pouco a caminho daalcatifa, da placa cinzenta do calorífico, das pernas harmoniosamente arqueadas dacadeira de balanço, onde a minha roupa jaz na desordem esquecida dos trapos. São reaisas nódoas amarelas do estuque do teto, de que agora facilmente me apercebo, os sorrisosdas minhas filhas nas molduras, o telefone que se diria estar constantemente aencrespar-se, prestes aos berros de fúria aguda da campainha. É real a sua impaciência,a carteira pendurada do ombro, os tornozelos bem feitos, nos quais não tinha aindareparado em pormenor, a estremecerem de pressa nos sapatos. Hoje não vai chover:sinto-o nos ossos tranquilos, em paz, apenas moídos por tantas horas sem repouso, nosossos secos, duros, leves, porosos como pedras-pomes, que me pedem, no interior docorpo, que flutue de alcatifa em alcatifa numa graça trôpega de anjo, roçando as unhasdos pés pelas sombras de túnel do corredor. Não vai chover: o céu cor-de-rosa, vaziocomo o bojo de uma boca sem dentes, adensa-se já de calor na linha quebrada em que ostelhados o tocam, adquirindo um tom vermelho e esverdeado que incendeia os terraços,as varandas, o rebordo exageradamente nítido dos edifícios ao longe. Às duas da tardeas árvores suarão lágrimas de resina pelos troncos calcinados, o bronze das estátuas daspraças dobrar-se-á como o ferro que arde, numa obediência mole de gesto sem força.Você vai chegar a casa, tomar um banho rápido, procurar um vestido no mostruário demangas penduradas de lado no armário, e, antes de sair para o emprego, disfarçar asolheiras com os óculos escuros enormes que a aparentam, sabe como é, a um insetoaltivo. O que existe por detrás dos óculos escuros das mulheres com quem me cruzo nasruas de Lisboa intriga-me e fascina-me: a opacidade dos rostos sem expressão acordaem mim o desejo de as despir, num movimento delicado, dos seus pedaços de vidrocastanho ou verde, a fim de me confrontar com o pânico, a ternura, a indiferença, osarcasmo, algo, em suma, que me garanta uma humanidade semelhante à minha, emlugar da condição marciana que se me afigura a sua. E os andares iluminados, na alturado jantar, pela claridade docemente doméstica dos abajures e pela fosforescênciaretangular das televisões acesas, fazem-me sentir irremediavelmente de fora de milharesde pequenos universos confortáveis, em que me seria grato incluir, num canto do sofá,diante de uma reprodução de Miró, a minha solidão envergonhada de cão tímido, aarquear constantemente o dorso de falsas zangas submissas. As lojas de móveis, nas quais se reproduzem intimidades estereotipadas com um poster barato por cima,representando uma menina e um gatinho ternamente enlaçados, encantam-me: afelicidade dos desdobráveis a ectacrome constitui, não diga a ninguém, o meu alvo navida, e projeto sempre substituit as complicadas escrivaninhas da alma por prateleirasquinane e almofadas em quadrados pretos e brancos, a que se juntam tapetes ovais depelo tão alto como as sobrancelhas dos tios e grandes objetos de louça sem formadefinida, pintados em pinceladas ao acaso. Não, escute, pode ser que o cenário seinsinue pouco a pouco pela nossa existência dentro, a inunde de candeeiros esquisitoseriçados de molas e de ângulos e de carantonhas sardônicas de barro, e um grossosangue Robiallac nos desça pelas veias, forrando-as de um júbilo metalizado, à prova daumidade das lágrimas. Vou comprar um Bambi de biscuit para a secretária do escritório,colocá-lo bem à frente dos meus papéis e dos meus livros, entre mim e o rio, e vai vercomo a minha vida se inflete no sentido de um futuro de toureiro ou de cantor da rádio,sentado na borda da piscina particular abraçado a uma loura sorridente.

Tudo é real: o tilintar das suas pulseiras possui agora um som diverso,desprovido dos misteriosos prolongamentos e ecos que a noite lhes conferia, o sombanal da manhã, que vulgariza o sofrimento e a exaltação, e os reduz perante asexigências práticas do quotidiano, o emprego, a revisão do carro, a consulta do dentista,o jantar com um amigo de infância palavroso, a expandir-se por cima dos talheres emaborrecidas narrações intermináveis. Tudo é real, sobretudo a agonia, o enjoo do álcool,a dor de cabeça a apertar-me a nuca com o seu alicate tenaz, os gestos lentificados porum torpor de aquário, que me prolonga os braços em dedos de vidro, difíceis como aspinças de uma prótese por afinar. Tudo é real menos a guerra que não existiu nunca:jamais houve colônias, nem fascismo, nem Salazar, nem Tarrafal, nem PIDE, nemrevolução, jamais houve, compreende, nada, os calendários deste país imobilizaram-sehá tanto tempo que nos esquecemos deles, marços e abris sem significado apodrecemem folhas de papel pelas paredes, com os domingos a vermelho à esquerda numa colunainútil, Luanda é uma cidade inventada de que me despeço, e, na Mutamba, pessoasinventadas tomam ônibus inventados para locais inventados, onde o MPLA sutilmenteinsinua comissários políticos inventados. O avião que nos traz a Lisboa transportaconsigo uma carga de fantasmas que lentamente se materializam, oficiais e soldadosamarelos de paludismo, atarraxados nos assentos, de pupilas ocas, observando pelajanela o espaço sem cor, de útero, do céu. Reais são as camionetas cinzentas à espera noaeroporto, o frio de Lisboa, os sargentos que nos examinam os documentos no vagarlasso dos funcionários desinteressados, o trajeto até ao quartel onde as nossas malas seempilham numa confusão cônica de volumes, as despedidas rápidas na parada.

Passamos vinte e sete meses juntos nos cus de Judas, vinte e sete meses deangústia e de morte juntos nos cus de Judas, nas areias do Leste, nas picadas dosQuiocos e nos girassóis do Cassanje, comemos a mesma saudade, a mesma merda, omesmo medo, e separamo-nos em cinco minutos, um aperto de mão, uma palmada nascostas, um vago abraço, e eis que as pessoas desaparecem, vergadas ao peso dabagagem, pela porta de armas, evaporadas no redemoinho civil da cidade.

Fardado, com um saco cheio de livros ao ombro e outro de roupa na mão, Lisboaergue perante mim a sua opacidade de cenário intransponível, subitamente vertical, lisa,hostil, sem que nenhuma janela abra, diante dos meus olhos sequiosos de repouso,côncavos favoráveis de ninho. O trânsito roda majestosamente na Rotunda daEncarnação, numa indiferença puramente mecânica que me exclui, os rostos na ruadeslizam ao lado do meu num alheamento absoluto, em que qualquer coisa da inérciageométrica dos cadáveres se insinua. A minha filha de olhos verdes deve, com certeza,considerar-me um estranho indesejável, deitando ao lado da mãe o estreito corpo supérfluo. A vida dos meus amigos, que se programou sem mim na minha ausência,acomodar-se-á a custo a este ressuscitar de Lázaro desnorteado, que reaprendepenosamente o uso dos objetos e dos sons. Habituara-me demais ao silêncio e à solidãode Angola, e afigurava-se-me inimaginável que o capim não rompesse do alcatrão dasavenidas os seus longos dedos verdes acerados pelas primeiras chuvas. Não existianenhuma máquina de costura ferrugenta e avariada na casa dos meus pais, e o soba doChiúme não me esperava na sala, a fitar, para lá da estante envidraçada dos livros, avastidão, úmida de sapos e de lodo, da chana. Idêntico a uma criança quando nasce,contemplava, com órbitas redondas de surpresa, os sinais, os cinemas, o contornodesequilibrado das praças, as melancólicas esplanadas dos cafés, e tudo se diria possuir,ao meu redor, uma carga de mistério que eu seria sempre incapaz de elucidar. De formaque encolhi a cabeça entre os ombros e curvei as omoplatas como as pessoas semgabardina perante uma chuva inesperada, oferecendo o mínimo possível do meu corpo aum país que não entendia já, e embarafustei pelo janeiro da cidade.

Visitei as tias algumas semanas depois, envergando um terno de antes da guerraque me boiava na cintura à laia de uma auréola caída, apesar dos esforços dossuspensórios, a arrepanharem para cima as pernas, como se armados de uma héliceinvisível. Esperei de pé, junto ao piano de castiçais, a entalar os ossos tímidos entre umaconsola Império de coxas tortas, cheia de molduras de generais defuntos, e um relógioenorme cujo grandioso coração soluçava mansamente os estalos rítmicos de um budapacífico que digere. As cortinas das janelas ondulavam acenos evasivos de coreógrafoentediado, os olhos agudos das pratas cintilavam dos aparadores no escuro. As tiasacenderam o candeeiro para me observar melhor, e a luz revelou subitamente tapetes deArraiolos desbotados, jarras chinesas disparando dragões de língua torcida dassuperfícies brancas, a curiosidade das criadas que espreitavam da porta, a enxugarem asmãos gordas nos aventais da cozinha. Instintivamente coloquei-me na atitude hirta eséria que se oferece aos fotógrafos de feira, examinando-nos por detrás das grossaslentes impiedosas das máquinas de tripé, ou em sentido, como quando cadete, emMafra, perante o mau humor autoritário e crônico do capitão, a franzir-se de botasafastadas numa arrogância agourenta. Cheirava a cânfora, a naftalina e a mijo de siamês,e apeteceu-me veementemente sair dali para a Rua Alexandre Herculano, onde, pelomenos, se visionava, no alto, um bocadinho turvo de céu. Uma bengala de bambuformou um arabesco desdenhoso no ar saturado da sala, aproximou-se do meu peito,enterrou-se-me como um florete na camisa, e uma voz fraca, amortecida pela dentadurapostiça, como que chegada de muito longe e muito alto, articulou, a raspar sílabas demadeira com a espátula de alumínio da língua:

- Estás mais magro. Sempre esperei que a tropa te tornasse um homem, mascontigo não há nada a fazer.

E os retratos dos generais defuntos nas consolas aprovaram com feroz acordo aevidência desta desgraça.

Não, não, siga sempre em frente, vire na primeira à direita, na segunda à direita aseguir, e como quem não quer a coisa está na Praceta do Areeiro. A salvo. Eu? Fico ainda mais um bocado por aqui. Vou despejar os cinzeiros, lavar os copos, dar umarranjo à sala, olhar o rio. Talvez volte para a cama desfeita, puxe os lençóis para cima efeche os olhos. Nunca se sabe, não é?, mas pode bem acontecer que a tia Teresa mevisite.

Fonte: files.letrasunip2010.webnode.com.br

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