Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  Raposo Tavares - Página 2  Voltar

Antônio Raposo Tavares

ELE TINHA BOTAS DE SETE LÉGUAS

Raposo Tavares começou caçando índios. Depois, aventurou-se pelo desconhecido e imenso território, alargando o Brasil.

Inacreditável. Para as gerações de hoje, acostumadas a medir as distâncias pelo ronco ensurdecedor dos grandes jatos que desafiam o tempo, é quase impensável o que Antonio Raposo Tavares fez. Partir de São Paulo até o Paraná a pé que dá para entender (mesmo considerando a sua ida aos extremos do País, inclusive dentro da floresta apenas para admirar as crianças. Mas Raposo Tavares andou. E, como nas histórias infantis, ele poderiaser lembrado como o homem das botas de sete léguas, um incansável aventureiro que rasgou as fronteiras do acanhado Brasil de então, dividido ao meio pela imaginária linha do Tratado de Tordesilhas. Ele e seus homens, munidos de pouca comida e dependendo do que encontrassem pela frente, saíam em suas loucas expedições, principalmente à procura de índios, para escravizá-los. Para tornar possíveis seus " cruéis intentos" , como escreveu Afonso d' Escragnolle Taunay, Raposo Tavares ignorava os castigos prometidos pela Igreja Católica e embrenhava-se floresta adentro, caçando os índios em suas aldeias ou arrasando com as missões jesuíticas que os abrigavam. Mas ele não fazia isso por puro instinto de caçador. Obedecia às ordens das Câmaras Municipais de Santos, São Vicente e da Vila de São Paulo, que lhe pediam para guerrear e aprisionar os índios tupiniquins e carijós, "por esta a terra pobre, sem escarvaria e hostilidade pelos selvagens". E o mesmo devotamento a essas ordens Raposo demostrava em relação à Coroa Portuguesa, que desejava a expansão de seus domínios. Ele odiava os jesuítas espanhóis e não gostava de ouvir que as terras em que pisava eram da Coroa da Espanha. Em seu primeiro encontro com um jesuíta espanhol, o padre Justo Mansilla, ouviu dele o desafio: que saísse, "vassalo rebelde", que era.

A resposta de Raposo Tavares foi pronta: "Ide-vos vá daqui, que estais em terras de Portugal!" E, contra a cruz do jesuíta, falava mais alto o caçamarte e a espada. Mas esse aspecto dos "cruéis intentos" de Raposo Tavares não pode ofuscar, segundo os históriadores, o grande papel que representou para a ampliação do território brasileiro. Por esse motivo, o mesmo Afonso d' Escragnolle Taunay chamou-o de "o bandeirante magno, vulto formidável da nossa história" . E também por esse motivo ele ganhou uma estatua em Quintaúna, São Paulo, onde morreu com um pedestal onde se lê: "Mestre-do-Campo Antonio Raposo Tavares (1598-1659). Conquista aos Espanhóis; O Paraná, o Sul de Mato Grosso, E o Norte do Rio Grande do Sul, Guairá, 1629;Itatim, 1632, Tape, 1636; Comanda o Socorro Paulista; Contra os Holandeses, 1639;Acalma D. João IV em São Paulo, 1641;Vence em Armas os Andes do Peru; E da Nova Granada; E a Selva Amazônica, 1648-1651;Atingue a Foz do Amazonas, 1655;Encerrando o Maior Ciclo de Devassamento das Terras Americanas".

RAPOSO TAVARES

Não existiam caminhos.

Cada movimento deve ser conquistado a golpes afiados que dilaceram a vegetação, derrubam as feras, sangram os que se atrevem a enfrentá-los.

Os paulistas estão penetrando por um mundo selvagem. O menor descuido e a vegetação pune, a fauna agride, o inimigo mata. Mas eles não param. Uma luta a cada palmo, esses homens progridem sempre.

Avançam em busca da fortuna em ouro, prata ou índios para escravizar. Avançam para combater os espanhóis, derrotá-los, desalojá-los. Avançam na aventura de descobrir novos lugares, devassar novas florestas. Avançam. Atrás deles ficam as rotas abertas, o verde vencido, a terra mansa. Um passo à frente e o País cresce mais um metro. Aonde vão, os homens levam consigo os limites da terra brasileira. No seu percurso, as fronteiras desabam. Longo e árduo trajeto espera uma bandeira. Mas, qualquer que seja seu rumo, é quase sempre em São Paulo que os caminhos se iniciam.

Da pequena vila no planalto de Piratininga, partem e chegam as bandeiras. Quando retornam, trazem consigo índios apresados, a experiência do sertão desbravado, o cansaço das longas caminhadas, histórias de muitas lutas que tiveram de vencer para continuar vivos. Mas nem todos vencem sempre, e a bandeira traz também notícias de mortes. Por isso, o regresso é bem diverso da partida, que é toda feita de esperança.


Raposo Tavares, óleo de Manuel Victor

À FRENTE UMA BANDEIRA COLORIDA

Os paulistas já estão acostumados ao espetáculo da partida, nem por isso menos concorrido. As ruas de terra batida estão cheias de gente. Há despedidas e ordens de comando. Gritos, alaridos, choro de crianças. As vozes confundem três línguas: português, tupi, castelhano e até uma mistura de tudo isso. Os poucos brancos vestem a coira de anta, que funciona como couraça, e carregam arcabuzes, escopetas e mosquetões. Centenas de índios, inteiramente nus, se confundem com os mamelucos, um pouco mais vestidos, filhos de mulheres índias e portuguesas.

Casa e capela de Antônio Raposo Tavares em Quintana, óleo de J. B. da Costa
Casa e capela de Antônio Raposo Tavares em Quintana, óleo de J. B. da Costa

Também levam armas: cunhas machados, enxós, foices e facões. Mas a arma mais eficiente é o arco e a flecha, silenciosa, rápida, de fácil fabricação, imune à ação da chuva e da umidade tropical. Estranha e bizarra formação guerreira. Uns atrás dos outros, carregam baús de couro cheios de pólvora e chumbo, redes para dormir e cobertores, pratos, tachos e cuias de estanho. As arcas de provisões levam uns bolos de farinha de mandioca cozida: é o pão de "farinha de guerra", que pode durar mais de um ano. Mel, peixe e caça, conseguidos durante a viagem, completarão a alimentação.

É toda a bagagem. Roupas, os brancos só tem as do corpo e uma espécie de lenço, chamado pano de cabeça que usam por baixo de uma carapuça de couro e do chapéu de abas largas. Ouve-se o barulho de correntes. São muitas, pesadas correntes de ferro, com 4 metros e meio de comprimento, cada uma com trinta colares fechados por cadeados. Servirão para agrilhoar e conduzir prisioneiros, pois os homens estão partindo para o sertão. É lá que eles trabalham, aprisionando índios que depois serão negociados. É uma marcha paulista, que pode durar anos. Quantos voltarão "Quantos irão morrer: O dia-a-dia de todos é uma longa e incerta aventura. E dessa aventura depende a sobrevivência econômica das famílias de Piratininga.

Uma bandeira colorida aparece na frente da tropa. Antonio Raposo Tavares, o chefe, dá a ordem de partida. Em pouco tempo, a coluna desaparece no caminho do sertão e a calma volta à pequena Vila de São Paulo.

VENCIDA A SERRA, A CONQUISTA DO PLANALTO

Os bandeirantes que partem vão repetir contra os índios o que com os próprios índios haviam aprendido. Quando os primeiros portugueses chegaram ao Sul do Brasil, descobriram que os indígenas costumavam organizar expedições - depois chamadas malocas - para aprisionar e escravizar índios inimigos. Os jesuítas logo combateram esse hábito dos índios. A principio, os colonos não se interessaram pelo problema: a maioria deles estava preocupada em plantar cana e com ela fazer a riqueza da capitania de São Vicente. Mas não custou muito para que percebessem ser impossível concorrer com o açúcar do Nordeste da Colônia: lá, a terra era melhor e Pernambuco ficava mais perto dos mercados consumidores da Europa. A gente de São Vicente venceu a serra do Mar e Piratininga, sonhando com ouro, prata, diamantes. E, enquanto a fortuna não aparecia, plantavam apenas o necessário para sobreviver, já enato ajudados por uns poucos índios apresados.

Tamoios e carijós constantemente ameaçavam São Paulo, fundada em 1554.

Ciclo da caça ao índio, mural de H. Bernadelli
Ciclo da caça ao índio, mural de H. Bernadelli

Para melhor se defenderem, os homens do planalto passaram ao ataque, na Segunda metade do século XVI, fazendo rápidas investidas para destruir os principais aldeamentos dos índios. Mas, pouco a pouco, as expedições avançam pelos vales dos rios Tietê, Paraíba e Moji-Guaçu, até que, em 1581, Jerônimo Leitão, capitão-mor de São Vicente, rumou para o rio Paranapanema, na direção do Guiara - território espanhol - , de onde retornou com os primeiros escravos guaranis.

De repente, a pobre Vila de São Paulo também encontrou uma fonte de renda. Os paulistas não descobriram ouro, seu açúcar não podia concorrer com o dos engenhos do Nordeste, mas podiam dar à Colônia o que ela mais precisava: mão-de-obra. Começava a primeira fase do bandeiras substituíram o apresamento de índios pela procura de metais preciosos.

A capitania açucareira de Pernambuco já estava comprando escravos da África. Mas o negro era caro, e ainda em número insuficiente.

A escravidão foi um fenômeno comum na época. Europeus e árabes escravizavam-se mutuamente, quando conseguiam aprisionar seus adversários na guerra. Nas colônias americanas despovoadas, a escravidão tornara-se uma imposição econômica, pois dela dependia a agricultura de exportação. Mas no Brasil, para submeter o índio, era preciso ir busca-lo onde estivesse, enfrentar a floresta, as feras, as cobras. E por fim vencer o homem cor de bronze, capaz e corajoso, dono do silêncio das matas e do silvo das flechas.

voltar 123456avançar

Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal