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Antônio Raposo Tavares

EM PORTUGAL, NASCE UM BANDEIRANTE

Os pioneiros, óleo de Rafael Falco
Os pioneiros, óleo de Rafael Falco

Corria o ano de 1598. Enquanto em São Paulo se organizavam as primeiras bandeiras, nascia em Portugal Antonio Raposo Tavares, filho de Fernão Vieira Tavares e Francisca Pinheiro da Costa Bravo. Apenas aos vinte anos Raposo chega ao Brasil, acompanhado o pai, que vem representar Dom Álvaro Pires de Castro, donatário das capitanias de Itamaracá, Santo Amaro e São Vicente, embora a posse desta última lhe fosse contestada judicialmente.

Com, o titulo de "capitão loco-tenente", o pai de Raposo Tavares assume a direção da capitania de São Vicente, da qual fazia parte a ainda insignificante Vila de São Paulo. Sua primeira missão, determinar os limites entre as capitanias. E junto de Fernão Vieira, esteve sempre seu filho Raposo Tavares, aprendendo a conhecer a nova terra. Aos 24 anos. Raposo Tavares casa-se com Beatriz Furtado de Mendonça, filha do bandeirante Manuel Pires. O casamento trouxe-lhe dois filhos e fez de Raposo, definitivamente, um homem de Piratininga. Mais tarde. Ele perderia a mulher e, depois de dez anos de viuvez, voltaria a casar-se, agora com Lucrécia Leme Borges de Cerqueira, também viúva e mãe de oito filhos. De novo, Raposo Tavares liga-se à grande "família" dos bandeirantes: Lucrécia era filha de Fernão Dias Pais, o velho, e tia de Fernão Dias, que a história chamaria para sempre de "O Caçador de Esmeraldas" . Do seu segundo casamento, Raposo Tavares teve uma única filha.

Em poucos anos de Brasil, Raposo já era um bandeirante, tornando sua pequena fazenda, situada para os lados de Quintaúna (na região em que hoje fica Osasco, município vizinho de São Paulo), importante ponto de partida para expedições ao sertão. Mais um pouco e Raposo é homem rico, poderoso e influente, com interesses e negócios que chegam até o Rio de Janeiro, onde possui dois trapiches.

UM NEGÓCIO COMO OUTRO QUALQUER

Os bandeirantes, óleo de H. Bernadelli
Os bandeirantes, óleo de H. Bernadelli

Capturar índios e vende-los dava dinheiro. Inutilmente, o papa excomungava os caçadores e traficantes de índios. De pouco valiam as ordens do Governo português, declarando "todos os gentios livres conforme o direito e seu nascimento natural" , determinando que não fossem constrangidos "a serviço nem a coisa alguma" , colocando-os sob a proteção dos jesuítas, mandando restituir a liberdade às vitimas de injusto cativeiro. Quem resolvia quando a guerra e o cativeiro eram justos ou injustos: A política da Metrópole era imprecisa, a guerra "justa" fácil de ser provocada e a legislação da Colônia vacilante.

Para a gente de São Paulo, nas primeiras décadas do século XVII, nada havia de condenável ou imoral em garantir sua sobrevivência e prosperidade escravizando índios.

" Justas" - no entender dos sertanistas - eram todas as lutas travadas com os índios, de nada adiantando os esforços em contrário dos jesuítas que, mesmo vencidos na guerra, prolongariam até o século XVIII a sua luta em favor da libertação do índio. As autoridades locais condenavam, mas raramente podiam executar as penas.

EM GUAIRÁ, OS SINOS NÃO PARAM DE TOCAR

Só Raposo Tavares recebeu várias ordens de prisão, tanto por ser apontado como " cabeça de bandeiras ilegais", como por reunir em Quintaúna grande numero de "peças", índios para serem negociados.

Não importavam os decretos reais": os bandeirantes sabiam que no sertão quem mandava eram eles. E por isso, ao falarem de suas expedições, referem-se a "buscar o remédio para a sua pobreza, buscar a sua vida, o seu modo de lucrar". Ser bandeirante era ter uma profissão. E quem não podia ir para as selvas, financiava bandeiras sempre que possível, fornecendo o dinheiro para a expedição.


Missões paraguaias, Instituto de Estudos Brasileiros

Graças àqueles homens nus e bronzeados que perseguiam, os paulistas foram aprendendo a desenvolver uma fantástica capacidade de vencer longas distâncias, descobrindo como esquecer o cansaço, achar água, caminhar na floresta. Graças aos índios, os paulistas viraram bandeirantes.

O comércio de indígenas foi incrementado, sobretudo a partir de 1624, quando a Holanda - em guerra com a Espanha, então governada por Filipe IV, que também ocupava o trono português - atacou a Bahia e passou a dificultar a vinde de escravos africanos.

Ao mesmo tempo que os holandeses atacavam o Recôncavo baiano, a Câmara Municipal de Salvador lançava um apelo aos paulistas:

queriam índios para trabalhar na lavoura e enfrentar os inimigos. Raposo Tavares dispôs-se a arranja-los. As atas da Câmara Municipal da Vila de São Paulo registram o que fez Raposo, reunindo companheiros e montando uma bandeira que em 1627 seguiria para a selva, em direção ao Paraguai. Seu objetivo, Guairá, uma região de muitas aldeias de índios catequizados pelos jesuítas espanhóis. Eram milhares e milhares de índios organizados em algumas missões, coisa sabida de há muito pelos paulistas, pois já haviam estado alguns bandeirantes - entre eles, Manuel e Sebastião Prêto e Pedro Vaz de Barros, sertanistas de muita fama - que trouxeram índios guaranis para São Paulo. Agora, no comando da nova bandeira, outra vez Manuel Preto, com quase setenta anos. Mas o jovem e ativo Raposo Tavares é quem toma iniciativa, faz os planos e dá as ordens. A expedição, contudo só se concretizaria no ano seguinte.

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