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Antônio Raposo Tavares

SÃO PAULO ESTÁ EM GUERRA

Em agosto de 1628, quase todos os homens adultos da Vila de São Paulo estão armados para investir contra o sertão. Eram novecentos brancos e 3 mil índios, formando a maior bandeira que ate então se organizara.

Guerrilhas, gravura de M. Rugendas
Guerrilhas, gravura de M. Rugendas

O destino era Guaíra, para expulsar os jesuítas espanhóis e prender quantos índios pudessem, para despeja-los na Bahia, a vida de braços para o trabalho.

A bandeira caminha dividida em quatro seções, sob o comando de Antonio Raposo Tavares, Pedro Vaz de Barros, Brás Leme e André Fernandes.

São semanas e semanas de mata virgem, de travessia de grandes rios, do peso das muitas correntes. A vanguarda, uma pequena coluna chefiada por Antonio Pedroso de Barros, livre de quase todo equipamento, seguia mais depressa. Já a 8 de setembro cruza o rio Tibagi, bem em frente à missão de Encarnación. Ali, Pedroso de Barros manda erguer uma cerca de estacas e fica à espera.

Durante mais de três meses, a vanguarda permaneceu frente a frente com os inimigos, aguardando a vinda da bandeira. Somente em dezembro, toda a tropa reunia-se novamente. Agora, tudo está pronto para a guerra. Falta apenas um pretexto, um motivo de guerra, para justificar o ataque.

A fuga de uns poucos índios - aprisionados no local - que procuram abrigo na missão próxima de San Antônio dá aos paulistas o motivo de que precisam. Imediatamente, a bandeira deslocasse para essa missão e Raposo Tavares lança um últimato: ou os jesuítas espanhóis entregam os índios, ou... Os padres não cedem, os presos não são devolvidos a Raposo e sua gente.

A luta começa. O céu escurece com as nuvens de flechas. À medida que o cerco aperta, tiros, facas, paus e a forca bruta fazem mortos dos dois lados. Os jesuítas, roupas manchadas de lama e sangue, congregam os índios numa tentativa desesperada de salvar a missão. Os sinos da igreja repicam sem parar. Alguns padres batizam às pressas os últimos pagãos. Os paulistas, duros como a terra em que caem, quase tão selvagens como aqueles índios nus que os auxiliam, esses paulistas, gritando e atirando, vencem os muros de pedra de San Antonio.

A 30 de janeiro de 1629, o barulho cessa.

San Antonio deixara de existir. O Brasil crescera mais um pouco.E os 2 mil índios sobreviventes, que se renderam em massa, vão ocupar as argolas de ferro nas correntes trazidas para eles.

Nem a heróica dedicação da Companhia de Jesus conseguiu evitar o sacrifício de tantos homens. O trabalho de construção das fronteiras fazia-se na luta dos bandeirantes, mas custava a vida ou a liberdade para milhares de índios anônimos.

Soldados índios de Moji das Cruzes, gravura de J. B. Debret
Soldados índios de Moji das Cruzes, gravura de J. B. Debret

Existiam, entretanto, outras missões espanholas na região de Guairá. E atrás delas vai Raposo, implacável. Não descansará antes de arrasar o último aldeamento espanhol e prender a última "peça". E, enquanto lhe sobram forcas, um a um vão caindo os redutos dos jesuítas e seus índios: San Miguel, Jesus María, Encarnación, San Pablo, Arcangelos, San Tomé.

Em San Miguel, o Padre Cristóbal de Mendoza, perplexo, indaga das razoes da guerra. E Raposo Tavares respondeu: "Temos de expulsar-vos de uma terra que é nossa, e não de Castela". E assim as bandeiras iam incorporando ao Brasil as regiões do oeste do Paraná e Mato Grosso do Sul.

Menos perplexo, talvez, estivesse o governador do Paraguai, Don Luís de Céspedes y Xeria, que nada fez para impedir a destruição de Guairá, apesar de ter assistido em São Paulo aos preparativos da bandeira. Casado com uma luso-brasileira que conheceu no Rio de Janeiro, quando vinha da Espanha para ocupar seu posto no Paraguai, Don Luís deve ter encontrado Raposo Tavares em São Paulo. Com ele teria travado contato e conseguido chegar 'as proximidades de Asunción. Corriam rumores de que havia sido subornado para ficar calado, recebendo dos paulistas engenhos de açúcar e índios escravos. Outros diziam que Don Luis nada podia fazer, já que sua mulher estava no Brasil, como se fosse mais tarde o Governo da Espanha tomou-lhe todos os títulos e confiscou-lhe os bens.

Mas Guairá estava destruída. Em maio de 1629, depois de dez meses de sertão, vitoriosos mas exaustos, os paulistas voltam a Piratininga.

Com o grosso da bandeira vieram dois jesuítas, os padres Mancilla e Mazzeta, que preferiram acompanhar os índios escravizados que iam para o cativeiro. Foram esses padres os autores da "Relación de los Agravios", peça preciosa para a reconstituição da expedição.

Terminara a guerra-relâmpago e nela tudo quanto os bandeirantes planejavam havia sido conseguido. Raposo Tavares entrou em São Paulo, trazendo, segundo dizem, 20 mil "peças" de escravos que ele arrastara pelos sertões, espicaçando-os para que vencessem centenas de quilometros de matas, rios campos queimados pelo sol, pântanos, tudo sob o peso de grossas correntes de ferro. E, entre todos os brancos, ninguém como Raposo tanto se parecia com os prisioneiros. Como os índios, também ele parecia de bronze.

UMA NOVA TAREFA: DOMINAR A REGIÃO DO TAPE - AS NOVAS FRONTEIRAS

Quanto aos jesuítas, uma longa história ainda os esperava. Vencidos por Raposo Tavares e seus companheiros, não renunciam aos seus planos: sonham com uma civilização crista de tipo novo em terras da América, catequizando índios, fazendo-os viver em harmoniosas comunidades onde cultivavam mate e criavam gado, negociando as duas coisas, principalmente em Buenos Aires. Com o dinheiro que iam conseguindo, os padres construíam mais igrejas, melhoravam as aldeias, davam aos índios tempo para fazer arte, aprender música, trabalhar em cerâmica. Ainda que sempre assediadas pelos bandeirantes, as missões dos jesuítas sobreviveram por perto de 150 anos, embora - ao menos pela lei - proibidas de usar armas de fogo. A grande aventura só iria terminar em 1768, quando os jesuítas foram expulsos da América Espanhola.

Plano de missão em Guairá, Instituto de Estudos Brasileiros
Plano de missão em Guairá, Instituto de Estudos Brasileiros

Nesse tempo, com 78 padres, administravam 33 missões com mais de 100000 indígenas, em terras hoje pertencentes ao Uruguai, Paraguai, Argentina e Brasil. A saída dos jesuítas, a entrega das aldeias a outras ordens religiosas ou a leigos e a fuga dos índios iam acabar com o sonho iniciado no Guairá: uma "república" religiosa no coração do continente.

Foram homens como Raposo Tavares que afastaram a possibilidade do domínio castelhano - leigo ou religioso - nesses territórios. A campanha de Guairá garantiu a primeira base para o posterior recuo do Tratado de Tordesilhas, que limitava as terras de Espanha e de Portugal, e permitiu que o Governo lusitano reivindicasse a posse pelo uso daquela região. A confirmação foi dada em 1750, pelo Tratado de Madri, que revogou o de Tordesilhas.

PEQUENA PAUSA PARA ADMINISTRAR

Três anos depois dos combates de Guairá, Raposo Tavares, que já era juiz ordinário da Vila de São Paulo, ganha novo e mais importante posto na Justiça da Colônia, passando a Ouvidor de toda a capitania de São Vicente. Mas aquele homem não nascera para ser um bom administrador, fazendo com que as leis fossem cumpridas.

Carga de cavalaria guaicuru, autor desconhecido
Carga de cavalaria guaicuru, autor desconhecido

Pelo contrário, Raposo era um desafiador de leis. E bastou que surgisse uma disputa entre os jesuítas e as autoridades civis de São Paulo, pela posse dos índios de Barueri - lugar perto da vila - para que Raposo lançasse fulminante ataque aos jesuítas, expulsando todos e tomando-lhes os indígenas.

Os jesuítas portugueses, tal como os espanhóis, também sabiam lutar pelo que queriam: recorreram ao governador-geral e às autoridades eclesiásticas em Roma. Em conseqüência, Raposo Tavares foi demitido do cargo de Ouvidor e excomungado. Mas Raposo Tavares não sabia perder.

Por isso, segue para o Rio, defende-se junto à Ouvidoria-Geral, e lembra uma lei de 1611, determinando que apenas podiam prestar serviços aos índios os padres que se submetessem à jurisdição civil. Ora, a aldeia de Barueri, embora confiada aos jesuítas, devia obediência à administração civil. E, ao apoiar a Câmara contra os jesuítas, ele podia alegar que nada fizera senão cumprir a lei.

A argumentação de Raposo Tavares convenceu a Ouvidoria-Geral. O bandeirante recuperou seu posto de Ouvidor da capitania de São Vicente. Raposo Tavares vencera também dentro da lei.

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