
Missionário ensinando pequenos índios a cantar, óleo
de H. Bernadelli
Mais três anos se passam, até que - em 1636 - Antonio Raposo Tavares parte para outra bandeira, tendo, entre outros companheiros, Fernão Dias Pais, sobrinho de sua segunda mulher. O destino da expedição era o Tape, no centro do atual Estado do Rio Grande do Sul.
A missão de Raposo no Rio Grande era neutralizar a influência dos jesuítas espanhóis, que lutavam contra o tráfico de índios tapes. Os portugueses e os tupis haviam feito acordo, pelo qual os caciques dessa última tribo vendiam seus prisioneiros. E a isso se opunham os jesuítas.
Em maio de 1636 marchou a nova bandeira de Raposo Tavares, formada de 120 paulistas e mamelucos e mil índios tupis. Seguiram para o Sul, quase em linha reta, aproveitando em parte os vales dos rios. Foram sete meses de viagem até o atual município de Estrela, na região do rio Taquari, lugar onde Raposo mandou erguer barreiras de pau-a-pique, para dentro delas reunir os índios aprisionados pelo caminho. Em torno da "vila" improvisada, os bandeirantes plantaram o que puderam, pois a comida acabava e ninguém sabia quanto duraria a guerra.
No dia 3 de dezembro, Raposo investe contra a aldeia missionaria de Jesús María, uma espécie de arsenal, campo de exercícios militares, fortaleza e sede do comando.
Bem armados, empunhando escopetas e arcabuzes, os índios - comandados pelos padres - enfrentaram a bala os paulistas. A luta durou horas e o sangue correu dos dois lados. Por fim, pela segunda vez - tal como em Guairá - Raposo Tavares destruía uma missão de jesuítas com o nome de Jesús María.
Duas semanas se passam. Raposo agora cerca as missões de San Cristóbal e Sant' Ana, quando contra ele são lançados 1500 índios convertidos pelos espanhóis. Mas não o conseguem cercar: Raposo recua, reagrupa seus homens e às vésperas do Natal ocupa também as duas aldeias. Estava aberto o caminho para as reduções jesuíticas da região dos índios tapes, ao lado dos rios Pardo e Jacuí. Terminara a tarefa de Raposo Tavares, ele podia voltar a São Paulo. Para desalojar do Rio Grande do Sul os espanhóis que restavam, ficaram André Fernandes e Fernão Dias Paes.
No início de 1638, Raposo voltou a São Paulo. Tinha só quarenta anos. Para seus compatriotas era um herói. Para os espanhóis, um diabólico chefe militar. Para os índios, a personificação da morte.
Enquanto no Sul os bandeirantes combatiam os espanhóis, o Nordeste continuava ameaçado de conquista pela Holanda. Expulsos da Bahia (1625), os holandeses voltaram a atacar, capturando Pernambuco (1630) e estendendo seu domínio por uma ampla região, que inclui os atuais Estados do rio Grande do Norte, Paraíba e Alagoas.

Fundaciones en El Tape, Instituto de Estudos Brasileiros
Agora, em 1639, o Nordeste pede homens, índios ou brancos, para ajudar a combater o invasor. E Raposo Tavares atende ao apelo. Mal chega do Sul, já começa a preparar as tropas paulistas de socorro. Por sua própria conta forma um pequeno exército de 150 homens, tendo então sido nomeado capitão-de-companhia e perdoado de todos os crimes que "porventura tivesse cometido".
A pequena tropa de Raposo junta-se com os quase 3 mil homens do exército do governador-geral, Dom Fernando de Mascarenhas, Conde da Torre, e - em vários navios - seguem todos para a Bahia e depois Pernambuco. Em novembro de 1639, ocorre o primeiro choque naval com os holandeses. Os paulistas de Raposo pareciam peixe fora da água: onde estavam a floresta, o zumbir dos insetos e das flechas, a luta em campo aberto: Para quem combate no mar, coragem apenas não basta. Quatro vezes se enfrentaram os holandeses, hábeis homens do mar, e a esquadra do Conde da Torre. No fim da última batalha, a frota estava reduzida a menos da metade dos 3 mil homens que haviam iniciado o combate. O contingente brasileiro em fuga, conseguiu desembarcar no porto de Touro (cabo de São Roque), Rio Grande do Norte, em plena área sob domínio da Holanda. E a fuga continua por terra.
Um Pernambuco, Barbalho Bezerra, comandava a retirada. Os paulistas, experientes nas longas caminhadas pelo sertão, formavam a vanguarda. Além deles, havia uma tropa da Bahia e mais um grupo de negros e outro de índios, chefiados por homens que se tornariam famosos: Henrique Dias e Filipe Camarão.

Retirada do cabo de São Roque, óleo de H. Bernadelli
Foi uma dura caminhada. A princípio, a coluna seguiu pelas terras do litoral, atacando e muitas vezes vencendo as guarnições holandesas das vilas por onde passavam. No entanto, um exercito poderoso vinha do Recife em perseguição aos retirantes.
Muitos feridos, outros doentes, os brasileiros não podiam apressar a marcha e, para evitar o cerco, só tinham um recurso: abandonar o litoral e meter-se pelos matos do interior.
Perseguidos, sem ter o suficiente para comer, seguem lentos, carregando seus feridos. Já quase não há munições, a região não oferece abrigo. Para continuar viva, uma tropa em farrapos começa a comer os cavalos. Quando os cavalos acabam, chega a vez de mascar o couro dos animais e de se alimentar de raízes.
Durante quatro meses, esta é a vida dia após dia. Os mortos ficam pelo caminho, os vivos se arrastam como podem. Mesmo os melhores já começam a fraquejar, quando atingem as margens de um grande rio. Era o São Francisco. Do outro lado estava a Bahia, terra amiga, em poder dos brasileiros. E, entre risos e alegria, a longa marcha estava terminada. Haviam percorrido 2700 quilometros. Como se a fadiga não o atingisse, Raposo Tavares voltou imediatamente da Bahia para São Paulo, onde se dedicou a recrutar voluntários que enviou ao Nordeste para combater os inimigos.
Nesse mesmo ano, 1640, Portugal livrava-se do domínio espanhol. E, quando a notícia chega a Piratininga, Raposo é o terceiro a assinar a aclamação do novo rei português, Dom João IV. Mais dois anos e a Coroa reconhece o quanto o bandeirante já fizera por seus interesses, dando-lhe o título de mestre-de-campo.

Os invasores, óleo de Antônio Parreiras
De 1642 a 1648, como por encanto, a figura de Raposo Tavares se perde na história, os documentos não mais falam de suas façanhas. É possível, entretanto, que nesse período o bandeirante tenha viajado para Portugal, como faz supor uma procuração passada por vereadores e moradores da vila de Parnaíba - perto de São Paulo - , autorizando Raposo Tavares, em abril de 1642, a representa-los em todo o Brasil e no Reino de Portugal, "diante de El-Rei Nosso Senhor Dom João IV e onde fosse necessário no dito Reino".