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MARIA ROSA MISTICA

antônio vieira,Padre

§ VII

Segunda petição: Não nos deixeis cair em tentação O alvoroço e alegria da tentação figurada no cavalo generoso do Livro de Jó. Não pedimos a Deus que nos livre das tentações como tímidos e fracos, senão somente que nos não deixe cai nelas. Como pôde Jacó lutar tão forte e porfiadamente com o anjo, de tal sorte que o venceu?

E se esta é altíssima pela confiança do que diz e do que supõe pedindo, a que se segue não é menos alta, pela generosidade do que pede e do que não pede: Et ne nos inducas in tentationem: E não nos deixeis cair em tentação. - Notai o que pedimos e o que não pedimos. Não pedimos a Deus que nos tire ou nos livre das tentações: pedimos que nos não deixe cair nelas. Nenhuma versão traduziu melhor o ne nos inducas inducas que a nossa portuguesa. Cair dizemos, e não derrubar porque derrubar é força e impulso alheio; o cair, fraqueza ou descuido próprio. Quem diz: Não nos deixes cair, de si se teme mais que do inimigo, contra si pede o socorro que pede para si. Mas, se na tentação está o perigo, não seria mais conveniente e mais seguro pedirmos a Deus que nos livrasse de ser tentados? Não. O mal não está em ser tentado; está em ser vencido. Se fora melhor não ser tentado, como bem discorre Cassiano (31), não permitira Deus as tentações, mas quer que haja batalhas, porque nos tem aparelhada a coroa. O soldado generoso estima a guerra, porque deseja a vitória; e não recusa o combate, porque aspira ao triunfo. Por isso diz São Tiago - e é a primeira coisa que diz - que não havemos de receber as tentações com horror e tristeza, senão com alvoroço e alegria: Omne gaudium existimate cum in tentationes varias incideritis (32). O cavalo generoso - como se descreve no livro de Jó, com maior elegância do que o pudera pintar Homero - em ouvindo o sinal da guerra, fita as orelhas, quebra as soltas, bate a terra, enche de relinchos o ar, não lhe cabem os espíritos pelas ventas, treme todo de fogo e de coragem com o alvoroço e brios de sair à batalha. Este é o instinto da generosidade, ainda onde falta a razão; e esta é a razão que nós temos para pedir a Deus, não que nos não deixe tentar, mas que nos não deixe cair.

Se Deus nos deixara tentar mais do que podem as nossas forças, então tínhamos justa causa de recusar as tentações; ouvi, porém, o seguro que nos dá S. Paulo: Fidelis Deus est, qui non patietur vos tentari supre id quod potestis (1 Cor 10, 13): Deus é fiel, o qual não consentirá jamais que sejais tentados sobre o que podeis resistir. - E diz nomeadamente o apóstolo neste case que Deus é fiel: Fidelis Deus est porque o contrário seria espécie de engano, e meter-nos Deus na cilada para cairmos nela. É verdade, como nota o mesmo S. Paulo, que a nossa luta nas tentações não é de homem, senão de homens de carne e sangue contra o poder e astúcia dos espíritos das trevas: Non est nobis colluctatio adversus carnem et sanguinem: sed adversus principes et potestates tenebrarum harum, contra spiritualia nequitiae (33) . Mas, para que possamos sair vencedores em uma luta tão desigual, vede como iguala Deus os partidos, e lhes modera a eles o excesso das forças, e as mede com as nossas.

Lutou com Jacó aquele anjo, o qual Orígenes e outros querem que fosse anjo mau; mas, pelo que toca às tentações, tanto importa ser anjo, como demônio porque não são os mais feios os que mais tentam. O que faz ao nosso caso é que sendo Jacó homem, e o anjo, com quem lutava, espírito como pode ser que lhe pudesse resistir e prevalecer contra ele? Muitos mil homens não têm parelha nas forças com um só anjo, como se viu no exército dos assírios, em que um só anjo, em uma noite, matou mais de cento e oitenta mil homens. Pois, se as forças de Jacó eram tão inferiores às do anjo, como lutou com ele tão forte e porfiadamente, e o apertou de tal sorte que finalmente o venceu? A razão é porque não permitiu Deus ao anjo que usasse de todas as forças naturais que tinha, mas somente em tal medida e proporção, que Jacó, com as suas, lhe pudesse resistir e prevalecer. Isto mesmo é o que diz S. Paulo: Non patietur vos tentari supra id quod potestis (34). E isto, e pelo mesmo modo, é o que Deus faz em todas as tentações, não permitindo jamais que sejam tão fortes e poderosas que as nossas forças, ajudadas da sua graça - com que nunca falta - as não possam resistir e sair com vitória. E como desta parte estamos seguros, não quer Deus que lhe peçamos nos livre das tentações como tímidos e fracos, senão somente que nos não deixe cair nelas, e que, como valentes e generosos soldados, nos ponhamos em campo por seu serviço, em defensa de sua lei e para glória de seu nome. Aos homens, ou os tenta Deus para os provar, ou os tenta o demônio para os perder, ou os tentam os outros homens para os oprimir. Se Deus não tentara a Abraão, como seria a sua obediência tão celebrada? Se o demônio não tentara a Jó, como seria a sua paciência tão gloriosa? Se Saul não tentara a Davi, como seria a sua caridade tão heróica e a sua humildade tão exaltada? Por isso não pedimos a Deus, nem Cristo quer que lhe peçamos, que nos livre de tentações, senão somente que nos não deixe cair reconhecendo, porém, e confessando a nossa fraqueza, para que, sobre o baixo deste fundamento, suba mais seguramente ao alto a voz de nossa oração. Extollens vocem.

§ VIII

Terceira e última petição: Mas livrai-nos do mal. A misteriosa oração de Cristo na última Ceia em favor de seus discípulos parece que verdadeiramente não foi ouvida. Todos os que o mundo chama males não são males, senão o pecado. O pecado, mal de que o Eterno Padre, como Pai, livrou unicamente a seu Filho.

Finalmente, a terceira e última petição é altíssima no juízo. E por quê? Porque entendemos, julgamos e declaramos que todo o mal é o pecado, e que, entre todos os que vulgarmente se chamam males, só o pecado verdadeiramente é mal e deste mal pedimos a Deus que nos livre quando dizemos: Sed libera nos a malo. Oh! se os homens acabassem de se persuadir, e penetrassem inteiramente ou se deixassem penetrar desta grande verdade! Com quão diferente afeto fariam a Deus esta petição, e desejariam o que nela se pede! Todas as infelicidades do mundo, donde cuidais que têm a sua primeira raiz? Todas nascem da equivocação de dois nomes, todas nascem daquele engano e erro geral com que anda equivocado em todas as línguas o nome do mal e o do bem. Por isso se lamentava e bradava Isaías: Vae qui dicitis malum bonum, et bonum malum (Is 5, 20): Ai de vós os que chamais mal ao bem! - Não há outro bem neste mundo que seja verdadeiramente bem, senão a graça de Deus nem outro mal que seja verdadeiramente mal, senão o pecado. Por estes dois artigos de fé se ata o fim do Padre-nosso com o princípio da Ave-Maria. Como começa a Ave-Maria? Ave gratia plena, Dominus tecum (35) . Pois, Anjo tão bem entendido como bem-aventurado, não tendes outro título mais alto, não tendes outro nome de maior majestade com que saudar a vossa Rainha? - Não. Porque na graça de que está cheia, se inclui todo o bem, assim como no pecado, a que nunca esteve sujeita, foi livre de todo mal. A graça não pode estar junta com o pecado; e como Maria, desde o instante de sua conceição sempre foi cheia de graça, nesta graça e nesta isenção de pecado consiste toda a soberania da sua grandeza, ainda maior que a de ser Mãe de Deus, que eu lhe venho anunciar. Tão grande bem é a graça, tão grande mal é o pecado!

E para que ninguém duvide que este mal de que pedimos a Deus nos livre é todo o mal, e não há outro, ouçamos ao mesmo Mestre, que assim nos ensinou a pedir e cerrou todas as outras petições com esta, como a chave e mais importante de todas. Naquela misteriosa oração que Cristo fez a seu Eterno Padre sobre a última Ceia, recomendando muito debaixo de sua divina proteção os discípulos, de quem se apartava, a cláusula com que rematou a recomendação foi esta: Non rogo ut tollas eos de mundo, sed ut serves eos a malo. (Jo 17, 15): Não vos peço Pai meu, que os tireis do mundo, para cuja conversão são necessários mas o que muito vos rogo, é que os guardeis e livreis do mal. Esta foi a oração, e parece verdadeiramente que não foi ouvida. Que pobreza, que fomes, que sedes; que perseguições, que cárceres, que desterros; que afrontas, que desprezos, que ignomínias; que calúnias, que acusações, que injustiças; que açoites, que tormentos, que martírios, não padeceram aqueles mesmos apóstolos em todas as partes do mundo, e em todos os dias e horas da vida, até finalmente a perderem cruel, e afrontosamente, uns crucificados, como Pedro, outros aspados, com André, outros esfolados, como Bartolomeu, e todos, sem exceção de um só, tão bárbara e desumanamente atormentados, quanta era a impiedade e ódio infernal dos tiranos? Pois, se todos os trabalho, misérias, desgraças, aflições, penas, desonras enfim, se todos os males do mundo se uniram e conjuraram contra estes homens, e se empregaram e apuraram neles, sem que Deus o impedisse nem os livrasse, deixando-os padecer e morrer como se cumpriu - pois não podia deixar de ser ouvida - a verdade da oração de Cristo: Ut serves eos a malo? Eles padeceram todos os males, e o Padre livrou-os de todo mal? Sim. Porque confirmando-os em graça, livrou-os do pecado, e todos os que o mundo chama males, não são males: só o pecado é mal: Non dicit ut serves eos a tribulationibus, ab odiis, a persecutionibus, sed a malo, hoc est a pecato, quod simpliciter est malum (36) - diz o Cardeal Caetano e não era necessário que nem ele nem outro algum o dissesse.

Este é o mal de que pedimos a Deus nos livre, e esta a coroa em que Cristo rematou a sua oração, para que dissesse o fim com o princípio. No princípio disse: Pater noster; no fim diz: Sed libera nos a malo; e este foi unicamente o mal de que o Eterno Padre, como Pai, livrou unicamente a seu Filho. Não o livrou das pobrezas, nem dos trabalhos, nem das perseguições, nem dos desterros, nem dos ódios, nem das injúrias, nem dos açoites, nem da morte, e morte de cruz: o de que só o livrou foi o pecado, dando à humanidade de Cristo a união hipostática, com que a fez impecável. E como o altíssimo juízo desta última petição mete debaixo dos pés todo aquele mundo de horrores a que o mesmo mundo chama males, e dizendo: Libera nos a malo só reconhece por mal o pecado, por ser ofensa de Deus nem na terra, nem no céu, nem dentro do mesmo Deus pode haver conceito mais levantado que o deste juízo, nem voz mais alta que a desta petição: Extollens vocem.

§ IX

A quarta petição: O pão nosso supersubstancial nos dai hoje. Por que é sobre-substancial e nosso? Por que razão o pôs Cristo na quarta petição, quando parece que lhe era devido o primeiro lugar? A semelhança com o sol no quarto céu, imagem deste mistério. A base do candelabro do Templo, figura do SS. Sacramento, e as sete petições do Padre Nosso. Os lavores de que era ornado e as contas do Rosário.

Voltando agora atrás, e pondo-nos na quarta petição, que para este lugar reservamos, o que ela diz é o que se não podia entender quando se disse. O que se entendeu então, foi que o Senhor falava só do pão ordinário e usual, com que se sustenta o corpo; mas depois que o tomou em suas sagradas mãos, e o consagrou, então se manifestou que falava principalmente de seu próprio corpo, o qual nos deu debaixo das espécies de pão, para sustento da alma. Por isso S. Lucas lhe chamou pão cotidiano com o nome comum, e S. Mateus, com vocábulo novo e próprio daquele mistério, pão supersubstancial: Panem nostrum supersubstantialem da nobis (37). Chama-lhe sobre-substancial e nosso, sendo que não cai nem diz bem o nome de nosso na mesma petição em que o pedimos. Mas por essa mesma razão é nosso, porque é sobre-substancial. É pão sobre-substancial porque os acidentes que vemos são de pão; mas a substância não é de pão, senão do corpo de Cristo, que é substância sobre toda a substância. E porque esse pão é Cristo, por essa mesma razão é pão nosso porque o mesmo Cristo já era nosso antes que fosse pão. Foi pão depois do Sacramento, e já dantes era nosso desde o nascimento: Parvulus natus est nobis, et filius datus est nobis (38).

Mas este mesmo pão sobre-substancial e nosso que pedimos, por que razão o pôs Cristo na quarta petição, ou com que proporção e mistério lhe deu este lugar, quando parece que por todos os títulos lhe era devido o primeiro? Hugo Cardeal, nesta observação mais que nunca eminentíssimo, notou que entre as sete petições do Padre-nosso a quarta é a do meio, e diz com singular pensamento, que sinalou o Senhor este lugar àquele sagrado pão, para que, posto no meio como na raia e horizonte de dois hemisférios, os alumiasse a ambos, e confinando por este modo, assim com as petições que vão dirigidas ao céu e a Deus, como com as que pertencem a esta vida e a nós, em umas e outras nos confortasse igualmente com sua divina virtude: Media petitio, scilicet panem nostrum da nobis, est communis, et quasi confinium utrarumque confortans et dirigens transeuntem de vita temporali ad aeternam. Nas três primeiras petições só tratamos do céu e de Deus, pedindo a santificação de seu nome, a dilatação de seu reino, a execução de sua vontade; nas três segundas, ou últimas, tratamos desta vida e de nós, pedindo que nos perdoe nossas dívidas, que nos não deixe cair em tentações, e que nos livre do pecado; e para tudo isto nos fortalece, posto em meio, o Diviníssimo Sacramento: Hic panis datur de caelo, et comeditur in terra: Este pão - continua o mesmo autor - dá-se do céu, e come-se na terra. - Enquanto se dá do céu, eleva-nos a Deus; enquanto se come na terra, conforta-nos a nós: a Deus, para que sobretudo procuremos sua glória; a nós, para que contra tudo evitemos suas ofensas. E este é o único e duplicado fim por que pedimos Santíssimo Sacramento no quarto lugar, e no meio de umas petições e das outras.

Vejamos com os olhos a admirável proporção de ser este lugar entre sete o quarto. Criou Deus o sol, e não o pos no primeiro, nem no segundo ou terceiro, senão no quarto céu. Pois, o sol, rei dos planetas, pai e fonte de toda a luz, no quarto lugar? Sim, diz excelentemente Filo, como quem trouxe a filosofia no nome: Cum planetarum quisque plus splendoris habeant lucidissimos ad terram usque mittunt radios, sed praecipue sol eorum medius. Nec male conjicere mihi videntur, qui soli medium locum tribuunt, tres supra eum, totaidem infra locando: Os planetas, como todos sabem são sete; e por isso - diz Filo - pos o autor da natureza o sol no quarto lugar e no quarto céu, para que, ficando-lhe três planetas acima, e três abaixo, e ele no meio, dali os alumiasse melhor a todos, e lhes comunicasse igualmente os efeitos e influências da sua luz. - Nem mais nem menos Cristo nas sete petições do Padre-nosso. Pôs no quarto lugar, e no meio delas, a petição do Santíssimo Sacramento: Panem nostrum supersubstantialem da nobis - para que dali alumiasse igualmente a todas e lhes influísse a virtude de sua luz, e tanto às três de cima, como às três de baixo: Tres supra eum, et totidem infra. As três petições de cima são as primeiras que sobem a Deus: Sanctificetur nomen tuum; adveniat regnum tuum; fiat voluntas tua; as três de baixo são as últimas que descem a nós: Dimitte nobis debita nostra ne nos inducas in tentationem; libera nos a malo; e assim como para as primeiras nos eleva como pão sobre-substancial, assim para as últimas nos conforta como pão nosso. Ainda tem mais semelhança com o sol no quarto céu. Porque do mesmo modo que o sol alumia uns e outros planetas, não só de dia, senão de noite, nem só quando está descoberto a nós, senão quando eclipsado e coberto de nuvens, assim Cristo, no Divino Sacramento eclipsado e encoberto debaixo da nuvem dos acidentes, e na noite deste mundo e escuridade da fé, tanto nos fortalece os afetos no que pedimos a Deus para Deus, como nos comunica e estabelece os efeitos no que pedimos a Deus para nós.

Esta foi a primeira imagem deste mistério que Deus pintou no céu, que é o seu templo, e esta foi também a segunda, que colocou no desenho da sua Igreja, que é o nosso. No Templo de Salomão, e antes dele, no Tabernáculo de Moisés, mandou fabricar Deus aquele famoso candelabro, que defronte dos Pães da Proposição alumiava o Sancta Sanctorum. A matéria era de ouro puríssimo, a forma como de uma árvore artificial, de cujo tronco, em igual proporção, saíam de uma e outra parte, três ramos meio arqueados, no remate dos quais, como também no do tronco, que era direito, ardiam sete lumes. Este candelabro, pois, diz S. Próspero (39) que significava o Santíssimo Sacramento, e o mesmo sentido e argumento seguiu e entendeu modernamente, com suma erudição, Teófilo Rainaldo (40). Nota, porém, este diligentíssimo autor que, sendo miudíssima a Escritura em descrever todo o artifício e partes do candelabro, e ainda os instrumentos exteriores que a ele pertenciam, só da base não faz menção: Praeteriit Scriptura basim candelabri, ita ut, tametsi adeo solicite reliquas candelabri partes quasi dissimilares expresserit, basis tamen nusquam meminerit. - Pois, se esta famosa obra da arquitetura divina, traçada e mandada lavrar pelo mesmo Deus, se descreve parte por parte tão exata e acuradamente, da base por que se não faz menção, sendo muitos os lugares da História Sagrada, e não menos de vinte, os que falam neste candelabro? Tornielo, Saliano, Cornélio, e os demais supõem que o candelabro tinha base, cansando-se muito em adivinhar a figura de que era formada. E eu não posso deixar de estranhar, e ainda de me doer, de que Teófilo faça o mesmo, privando-se de uma grande prova, e da mais elegante confirmação do seu argumento.

Digo, pois, que a Escritura não faz menção da base do candelabro porque o candelabro não tinha base; e digo que a não tinha, assim como Melquisedec não teve pai nem mãe. De Melquisedec diz S. Paulo, que não teve pai nem mãe, não porque os não tivesse, mas porque a Escritura não faz menção deles (Hebr.7, 3). E por que não faz a Escritura menção do pai e mãe de Melquisedec? Porque Melquisedec era figura de Cristo, o qual no céu não tem mãe, e na terra não tem pai. Da mesma maneira no nosso caso. O candelabro tinha base, mas não faz menção dela a Escritura, como se a não tivera. Por quê? Porque o candelabro era figura do Sacramento. E como no Sacramento, estarem os acidentes sem sujeito é a mesma maravilha que sustentar-se o candelabro sem base, por isso cala a Escritura e não faz menção da base do candelabro, como se a não tivera, para que a figura se parecesse com o figurado.

Provada, pois, esta excelente figura, e a grande semelhança daquele soberano mistério do altar com o candelabro do Templo, quem não vê nos sete lumes dele o que o divino Sacramento obra nas sete petições do Padre-nosso? Assim como no candelabro os três lumes de uma parte e os três lumes da outra todos saíam do mesmo tronco onde estava o lume do meio, assim as três primeiras petições do Padre-nosso, para serem aceitas a Deus, e as três últimas, para que sejam proveitosas a nós, toda a sua luz e calor, todo o seu valor e eficácia recebem do pão sobre-substancial que pedimos no meio delas. As primeiras, em que pedimos para Deus, nascem daquele sacrossanto mistério, enquanto sacrifício, cujo fim é o culto divino; e as últimas, em que pedimos para nós, nascem do mesmo mistério, enquanto sacramento, cujo fim é o nosso remédio.

E para que não faltasse à mesma figura a mais particular e não imaginada propriedade, assim o tronco como os ramos do candelabro, em que se sustentavam os lumes, qual vos parece que seria o lavor de que estavam ornados? Era um lavor torneado em contas e esculpido em rosas: Sphaerulae per singulos, et lilia (41). Em lugar de lilia, Vilhalpando e Lipomano lêem rosas, e em lugar de sphaerulae vertem outros, com maior expressão, globuli, que é o próprio nome das contas por onde rezamos. Para que na mesma figura do candelabro nem as contas nem as rosas faltassem à primeira e principal oração do Rosário, como nem o número misterioso de suas petições à proporção e consonância altíssima de suas vozes: Extollens vocem.

§ X

Terceira parte do discurso: alta e altíssima é a oração vocal do Rosário pela alteza da intercessão de que nos valemos. O tribunal diante do qual intercede a Rainha dos Anjos. Os títulos em que se funda a eficácia da intercessão que pedimos: Santa, Maria, Mãe de Deus. A força da mediação de que nos valemos. Se quando invocamos a Deus dizemos Pater noster, por que, quando invocamos a Senhora, não dizemos também Mater nostra? A intercessão de Maria e a bênção de Jacó aos filhos de José. A coroa de Salomão e a intercessão de sua mãe.

Resta a terceira e última parte do nosso discurso, a que sinto muito chegar tão tarde; mas a minha brevidade e a vossa devoção farão tolerável este defeito. Prometi provar neste último ponto quão alta e altíssima é a oração vocal do Rosário pela alteza da intercessão de que nos valemos: e esta valia e intercessão é a da Virgem Santíssima, Senhora nossa, cujo poderosíssimo patrocínio tantas vezes imploramos quantas são as Ave-Marias no Rosário, repetindo no mesmo dia cento e cinqüenta vezes: Sancta Maria Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus. O tribunal, diante do qual intercede a Rainha dos Anjos, é o supremo consistório da mesma majestade divina a quem presentamos nossas petições e a quem, na primeira palavra do Rosário, invocamos com nome de Pai, como próprio da piedade e misericórdia, em que, como pecadores, temos posta toda confiança. Os títulos, finalmente, em que se funda a eficácia da intercessão que pedimos, como se vê da mesma súplica, são três: Santa Maria Mãe de Deus roga, por nós: que rogue por nós como santa, que rogue por nós como Maria, que rogue por nós como Mãe de Deus. Todos estes títulos declarou o Anjo na sua embaixada, com a mesma distinção e pela mesma ordem: primeiro o de Santa: Gratia plena; depois o de Maria: Ne timeas Maria; ultimamente o de Mãe de Deus: Paries Filium et Filias Altissimi vocabitur (42). E nas mesmas três palavras, se bem notardes, se inclui inteiramente toda a oração da Ave-Maria, resumida cada cláusula a uma só palavra, porque ao Ave Maria responde Maria, ao gratia plena responde Santa, e ao benedicta tu in mulieribus, et benedictus fructus ventris tui, responde Mãe de Deus.

Com razão dizemos, logo, que a oração vocal do Rosário, também por esta intercessão, de que nos valemos, é alta e altíssima: Extollens vocem - por que, sendo altíssimo na Senhora o título de Santa, altíssimo o de Maria, e altíssimo o de Mãe de Deus, todos juntos, e uns sobre os outros, que altura farão? Agora tomara eu tempo para os combinar e comparar entre si, e excitar sobre eles outras tantas questões: Se é mais forte para interceder o título de santa, ou o de Maria? Se é mais suave para obrigar, o nome de Maria, ou o de Mãe de Deus? Se é mais poderoso para conseguir, o respeito de Mãe de Deus ou o de santa? Mas seja resolução o que pudera ser disputa. E digo que cada título, em seu gênero, compreende em grau altíssimo as perfeições de todos. O de santa, porque a santidade de Maria, depois da santidade de Deus, é a maior santidade; o de Maria, porque o nome de Maria, depois do nome de Deus, é o maior nome; o de Mãe de Deus, porque a dignidade de Maria, depois da dignidade de Deus, é a maior dignidade. Intercedendo, pois, por nós, posto que pecadores, a maior santidade, o maior nome e a maior dignidade, como poderá resistir a divina justiça, nem negar-se sua misericórdia a uma tão forte, tão suave e tão poderosa intercessão?

A intercessão, como o significa o mesmo nome, é um meio entre dois extremos, e, para ser poderosa e eficaz, há de tocar a ambos: àquele com quem intercede, que neste caso é Deus, e àqueles por quem intercede, que são os pecadores. E a Senhora, postada entre Deus e os pecadores, quão chegada é a um e outro extremo? É tão chegada a Deus, com quem intercede, que só lhe falta o ser Deus; e tão chegada aos pecadores, por quem intercede, que só lhe falta o pecado. S. Mateus, tecendo a genealogia da Virgem Maria, fê-lo com tal artifício, que pôs a Senhora entre Deus e os pecadores fazendo-a filha de pecadores e Mãe de Deus, como verdadeiramente é. É filha de pecadores por natureza, e Mãe de Deus por graça; mas por tal modo de graça, que a mesma natureza que recebeu dos pecadores, para ser sua filha, foi a segunda natureza que deu a Deus, para ser sua Mãe. E sendo intercessora e medianeira entre Deus, de quem é Mãe, e entre os pecadores, de quem é filha, vede que graça se poderá negar a uma intercessão tão estreita por natureza? Essa foi a ventura de um ladrão, e a desgraça do outro no Calvário. Cristo estava no meio de ambos; mas em meio da cruz de Cristo e da cruz do bom ladrão estava a Senhora; em meio da mesma cruz de Cristo e da cruz do mau ladrão, não estava. E onde entre o pecador e Deus mediou a Mãe de Deus, salvou-se o pecador; onde não mediou, não se salvou. E esta é a força da mediação de que nos valemos, esta a intercessão altíssima que pedimos quando dizemos: Sancta Maria Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus.

Não posso, porém, deixar de reparar muito que neste caso invoquemos a intercessão e patrocínio da Senhora com nome de Mãe de Deus, e não de Mãe nossa. Assim como já acatamos o fim do Padre-nosso com o princípio da Ave-Maria, atemos agora o fim da Ave-Maria com o princípio do Padre-nosso. Se, quando invocamos a Deus, dizemos Pater noster, quando invocamos a Senhora, por que não dizemos também Mater nostra, senão Mater Dei? Temos ousadia, como dissemos, para chamar a Deus nosso Pai, e não temos confiança para chamar à Senhora nossa Mãe? Sim, temos. Não é falta de confiança: é fineza de saber alegar e pedir. Muito mais adiantamos e encarecemos a intercessão que pedimos invocando a Senhora como Mãe de Deus que como Mãe nossa. Porque se intercedera por nós como Mãe nossa, empenhara-se por nós como por filhos seus; mas, intercedendo por nós como Mãe de Deus, empenha-se por nós como por filhos de seu Filho, que é muito mais. Quando nós dizemos Pater noster, quem é nosso Pai, e de quem somos filhos? Somos filhos do mesmo Deus, de quem a Senhora é Mãe; logo, muito maior empenho é o do seu amor intercedendo por nós, enquanto filhos de seu Filho, que enquanto filhos seus.

Quando Jacó lançou a bênção a todos seus filhos, aplicou a bênção de cada um à pessoa do mesmo filho: a de Rúben à pessoa de Rúben, a de Simeão à pessoa de Simeão, a de Levi à pessoa de Levi, e assim nos demais; mas quando chegou a José, não lhe aplicou a bênção a ele, senão aos filhos do mesmo José, Manassés e Efraim. Pois, se aos outros os abendiçoou em si mesmos, em José por que mudou de estilo, e em vez de lhe aplicar e dar a bênção a ele, a dá e aplica a seus filhos? Porque a José amava mais que a todos os outros; e maior empenho e demonstração foi do seu amor o dar a bênção a Manassés e Efraim, que eram filhos de seu filho, do que se a dera ao mesmo José, que era filho seu. Dando a bênção a José satisfazia só ao seu amor; mas dando-a aos filhos de José satisfazia ao seu amor e mais ao amor do mesmo José porque não só mostrava amar muito ao filho, senão aos filhos do filho. No nosso caso ainda é maior a razão, e infinitamente maior. A Senhora, ainda que como Mãe nossa nos ama muito, como Mãe de Deus ama infinitamente muito mais a Deus: logo, muito mais segura fica a sua intercessão, e muito mais poderosa e eficaz intercedendo por nós como filhos de seu Filho que como filhos seus, porque não só intercede por nós com o grande amor com que nos ama a nós, senão com todo o amor com que ama a Deus.

Sendo isto verdadeiramente assim, e da parte da mesma Mãe de Deus e Mãe nossa, com maior certeza e afeto do que se pode encarecer nem imaginar, o que só resta é que todos nos valhamos do altíssimo e poderosíssimo patrocínio de tão soberana intercessora, com aquela confiança que nos assegura a grandeza de sua piedade, e com aquela eficácia e instância que requer a grandeza da nossa pretensão. O que em suma pretendemos, em tantas e tão várias petições, é o reino do céu: Adveniat regnum tuum. De conseguir ou não conseguir esta pretensão não é menos o que depende que a felicidade ou infelicidade eterna. Vede se é grande a importância, e qual deve ser o nosso cuidado. E posto que o supremo Senhor, diante de quem requeremos, seja Pai, e invocado como Pai: Pater noster, qui es in coelis - se nos faltar a intercessão da Mãe muito podemos temer que nos não valha, nem baste o nome de filhos. Dois filhos tinha Davi, pretensores ambos ao mesmo reino, Adonias e Salomão; e qual levou a coroa? Adonias, que tinha de sua parte a prerrogativa de primogênito, perdeu-a e Salomão foi o herdeiro do reino, não com outra razão de preferência mais que a intercessão de sua mãe: Egredimini, filiae Sion, et videte regem Salomonem in diademate quo coronavit eum mater sua (43). Assim o deixou escrito, para eterna memória do caso, o mesmo Salomão: - Saí, filhas de Jerusalém, e vede a el-rei Salomão triunfante com a coroa com que o coroou sua mãe. - Leia-se a história dos Reis de Israel, e achar-se-á que o mesmo Davi, pai de Salomão, foi o que o nomeou por rei e o mandou coroar. Pois, se consta da Escritura que o pai coroou a Salomão, como diz o mesmo Salomão que o coroou a mãe? Porque, se não fora a intercessão da mãe, não havia ele de herdar o reino. E entendeu Salomão, como tão sábio, que mais devia a coroa à intercessão da mãe, que à graça e nomeação do pai. E que foi tudo isto senão uma representação, no teatro da terra, do que passa e nos há de acontecer no reino do céu? É verdade, como crê e confessa a nossa fé, que o reino do céu, que pedimos, não se alcança senão por graça de Deus, que é o Pai; mas quer o mesmo Deus que entendamos que só por intercessão de sua Mãe se alcança essa graça nesta vida e a coroa da glória na outra.

Fonte: Biblioteca Virtual do Estudante

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