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Sermões - Padre Antônio Vieira

 

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Sermão da Dominga XIX depois do Pentecoste - 1639

Misit servos suos vocare invitatos nuptias (1).

I

É semelhante o reino do céu a um homem rei. — Vou repetindo e construindo o texto do Evangelho, palavra por palavra. Tende advertência e fazei memória de todas, porque têm mistério, e todas nos hão de servir. — É semelhante o reino do céu — diz Cristo, Redentor nosso — a um homem rei, o qual fez as bodas a seu filho. Chegado o dia, mandou a seus criados que fossem chamar os convidados para o banquete, e eles não quiseram vir. Tornou, contudo, a mandar outros criados com outro recado nesta forma: — Dizei-lhes que venham, porque o banquete está aparelhado e o gasto feito, as reses e as aves mortas, e tudo preparado. — Os convidados, porém, não fizeram caso desta segunda instância: uns se foram para a sua lavoura, outros para a sua negociação, e alguns houve tão descomedidos, que prenderam os mesmos criados, e, depois de muitas afrontas, os mataram. Irou-se o rei, como era justo, mandou os seus exércitos a que fossem castigar aqueles rebeldes, com ordem que não só matassem os homicidas, mas pusessem fogo a toda a cidade, e a queimassem. Executado assim, voltou-se o rei para os criados e disse: — O banquete está aparelhado; e pois os convidados não foram dignos, ide às saídas das ruas, e trazei quantos achardes. — Foram, e ajuntando quantos encontraram, maus e bons, todos trouxeram e introduziram, com que os lugares do convite ficaram cheios. Então o rei entrou em pessoa na sala para os ver à mesa, e como notasse que entre eles estava um sem vestidura de bodas, estranhou-lhe a descortesia, dizendo: Amigo, como entraste aqui tão indecentemente vestido? — O homem emudeceu, e o rei mandou a seus ministros que, atado de pés e mãos, o lançassem fora e o levassem a um cárcere subterrâneo e escuro, chamado trevas exteriores. Ali não haverá — conclui Cristo — senão choro e ranger de dentes, porque os chamados são muitos, e os escolhidos poucos.

Esta é, letra por letra, a história ou parábola do Evangelho, para cuja inteligência convém saber quem é o rei, quem o filho, quais as bodas, qual o banquete, quem os convidados que vieram, quem os que não quiseram vir, e quem os criados que os foram chamar. O rei é o Eterno Padre; o filho é o Verbo, segunda Pessoa da Santíssima Trindade; as bodas são a Encarnação do mesmo Filho de Deus, que se desposou com a natureza humana; o banquete é a glória e bem-aventurança do céu, que por meio deste mistério se nos franqueou; os convidados que vieram são os que se salvam; os que não quiseram vir, os que se condenam; e os criados, finalmente que os chamaram são os pregadores. Suposto pois que este é o ofício e esta a obrigação do pregador, esta será também hoje a matéria do sermão. Misit servos suos vocare ad nuptias (Mt. 22,3). Manda-me Deus, senhores, que vos chame para o banquete da glória, e assim o farei. Mas quando vejo nesta mesma parábola que, chamados uma e outra vez os convidados, não quiseram vir, que razões vos posso eu alegar, ou de que meios me posso valer para vos persuadir o que tantos pregadores e escolhidos por Deus não persuadiram? Toda a minha confiança trago posta na virtude e eficácia do Evangelho; e assim vos não direi outra coisa, senão o que ele diz, e já ouvistes. Ponderarei somente as suas palavras, e ponderá-las-ei todas, sem deixar nenhuma, e para quanto disser e provar não alegarei outra escritura, nem do Velho nem do Novo Testamento, mais que o mesmo Evangelho. Se vos parece assunto novo e dificultoso, por isso mesmo me deveis ajudar a pedir mais graça hoje, que noutras ocasiões. Ave Maria.

II

Misit servos suos vocare invitatos ad nuptias. Chamar os convidados para o banquete da glória é assunto que tomei ou me mandou tomar o Evangelho. E não sendo este banquete senão o do Santíssimo Sacramento, o que com repetida memória de todos os meses celebra hoje a vossa piedade, para que me deis atenção, sem desgosto nem escrúpulo, sabei que o mesmo Evangelho vos há de livrar dele, e com propriedade e mistério até agora não ouvido, nem de vós esperado.

Entrando, pois, na parábola que referi, a primeira coisa que ela supõe para fundamento do muito que encerra e nos há de ensinar, é que todos os que estamos presentes somos convidados para o banquete da glória. Para prova desta suposição, diz o texto que, chegado o dia das bodas, mandou o rei alguns dos seus criados que fossem chamar os convidados para o banquete: Misit servos suos vocare invitatos ad nuptias (Mt. 22,3). E como estes não quisessem vir, em vez de se mostrar ofendido como homem e como rei: Homini regi, para mostrar que debaixo desta metáfora era Deus, tornou a mandá-los chamar, não pelos mesmos, senão por outros criados: Misit alios servos. Quem fossem estes criados, assim os primeiros como os segundos, declaram com excelente propriedade Orígenes, S. Jerônimo e Santo Tomás. Os primeiros dizem que foram os profetas, os segundos os apóstolos. Os profetas foram os primeiros, porque primeiro chamaram os convidados na lei escrita; e os apóstolos foram os segundos, porque, vindo depois dos profetas, também chamaram os convidados na lei da graça. Daqui se segue, com a mesma propriedade, que os convidados para o banquete da glória, antes de virem os apóstolos e os profetas, já estavam convidados. Antes dos profetas já estavam convidados, porque dos primeiros criados diz o texto: Misit servos suos vocare invitatos; e antes dos apóstolos também estavam convidados, porque aos segundos criados disse o rei: Dicite invitatis. Pois, se já estavam convidados antes de haver apóstolos nem profetas, e nem os apóstolos nem os profetas foram os que os convidaram, senão os que somente os chamaram, quem os convidou? Não há dúvida que quem os convidou foi o mesmo rei, pai do príncipe desposado, que é Deus. Mas quando? Alguns dizem que foram convidados ab aeterno, quando Deus predestinou os homens para a glória. Mas isto não pode ser, porque convidar e ser convidado supõe notícia recíproca, e os homens não podiam ser convidados quando ainda não eram destinados ou predestinados. Logo, se antes dos apóstolos e dos profetas já estavam convidados, quando os convidou Deus? Convidou-os em Adão, quando lhe revelou que não só o criara a ele e a todos seus descendentes para o paraíso da terra nesta vida, senão para a glória do céu na outra. Nem a verdade, ordem e conseqüência da parábola se pode concordar doutro modo com a verdadeira teologia. Em suma, que desde o princípio do mundo e desde Adão, assim como depois todos pecamos nele, assim todos somos convidados nele para o banquete da glória, porque o fim, para que todos nascemos e somos criados, é para servir a Deus na vida, e o gozarmos na eternidade.

Suposta esta primeira verdade tão manifesta no nosso Evangelho, e suposto também que os sucessores dos apóstolos e profetas, que foram chamar os convidados, são os pregadores, o que a mim me toca hoje — como dizia — é chamar-vos também para o banquete, e persuadir-vos que vos não escuseis ou condeneis em o não querer aceitar. Mas, se o banquete é da glória, que posso eu dizer da grandeza, da magnificência e do sumo gosto e gostos que Deus tem aparelhado nela para os que forem dignos de a gozar? Dos profetas e apóstolos que chamaram os convidados para o banquete da glória, só dois a viram. Um a viu de longe, estando na terra, que foi Isaías; e outro a viu de perto, sendo levado ao céu, que foi S. Paulo. E que é o que disseram um e outro do que lá viram? O que disseram ambos conformemente é que se não pode dizer, porque os bens e felicidades daquela pátria bem-aventurada são tão diversos destes nossos, a que falsamente damos o mesmo nome, que excedem sem proporção nem medida a capacidade de todos nossos sentidos e a esfera natural de todas nossas potências. Pois, se o mais alumiado nas coisas da bem-aventurança entre os profetas, qual foi Isaías, e o mais alumiado e experimentado nelas entre os apóstolos, qual foi S. Paulo, não sabem dizer nada do que viram, que posso eu dizer do que não vi, nem mereço ver? Mais ainda. Quando os primeiros criados do rei, que eram os profetas, foram chamar os convidados, diz o texto que eles não quiseram vir: Nolebant venire (Mt. 22,3); e quando os segundos criados, que eram os apóstolos, os chamaram, também diz que não fizeram caso disso: Illi autem neglexerunt (lbid. 5). Pois, se chamados com toda a eloqüência dos profetas, e com toda a eficácia dos apóstolos se não persuadiram, que argumentos, ou que demonstrações vos posso eu fazer, para que entendais o que eles não entenderam, para que queirais o que eles não quiseram, para que estimeis o que eles desprezaram, e para que procureis e trabalheis por alcançar o que eles, uma e outra vez rogados, não admitiram.


III

Esta é a razão, fiéis, porque hoje me despedi de todas as outras Escrituras, e só com o Evangelho, nua e secamente considerado, quero fazer prova da vossa fé e da sua graça. Em todas as outras Escrituras apenas se acham divididas três coisas, as quais Cristo, Senhor nosso, pôs juntas neste Evangelho, para com elas nos ensinar a fazer inteiro e cabal conceito da glória a que nos tem convidado. Propõe-nos esta glória em metáfora de banquete, em que até os mais grosseiros sentidos são agudos, e as três circunstâncias notáveis que nele pondera, e quer que ponderemos, são estas. Primeira: quem o fez? Segunda: para quem se fez? Terceira: quanto custou a fazê-lo?

O rei que fez este banquete da glória: Qui fecit nuptias, é Deus. Assim o entendem concordemente todos os Padres e expositores, e se é Deus o que o fez: Qui fecit, quais serão as delícias incompreensíveis daquela mesa celestial e divina, a qual fez e colocou diante de si o mesmo Deus, não só para última ostentação de sua majestade e grandeza, mas para fazer eternamente bem-aventurados a todos os que se assentarem a ela? Tudo o que se pode imaginar e encarecer se encerra na significação daquela imensa palavra: Qui fecit. O que o fez é a infinita Sabedoria, o que o fez é a infinita onipotência, o que o fez é a infinita liberalidade e o infinito amor. Vede, que será o que fez? Os filósofos, que não tinham fé, pelas coisas que se vêem neste mundo inferior, entenderam que o autor delas era Deus. Nós, que temos fé, havemos de argumentar às avessas, e porque sabemos que o autor das coisas do céu, que não vemos, é Deus, daí havemos de argüir quais elas serão. Mas não é isto o que pondero; mais alto é o fundo do nosso texto.

Simile est regnum caelorum homini regi, qui fecit nuptias filio suo (Mt. 22, 2): É semelhante o reino do céu a um homem rei, que fez as bodas a seu filho. — Este homem rei, como dissemos ao princípio, é Deus Padre, que fez as bodas a seu filho, quando o desposou e uniu com a natureza humana. Pois, se é Deus Padre, por que se chama rei homem: Homini regi? Que se chame rei, para significar a soberania de sua majestade e a grandeza de seu poder, bem está; mas rei homem, parece impropriedade, porque o Padre Eterno, ainda que fez homem a seu Filho, ele nem se fez, nem é homem. Diga logo a parábola: semelhante é o reino do céu a um rei, e não a um rei homem, pois não é homem o rei de que fala. E se quer distinguir este rei dos outros reis, diga: a um rei Deus, e não a um rei homem: Homini regi. Assim havia de ser se a parábola não fora do banquete da glória. Mas porque é do banquete da glória, sendo o Eterno Padre Deus, e não homem, chama-se contudo homem, e não Deus, porque na magnificência deste banquete, para que fosse mais magnífico, não obrou Deus como Deus, senão como homem. Ora vede. O homem, quando se quer mostrar magnífico e grandioso, faz quanto pode; porém Deus, ainda que quisesse fazer quanto pode, não pode. A razão que a nós nos basta, deixadas outras, é muito clara, porque, como Deus é onipotente, por mais que faça, sempre lhe fica poder para fazer mais. E se pudesse fazer quanto pode, esgotar-se-ia a onipotência, e, não sendo onipotente, deixaria de ser Deus. Este é pois o modo com que Deus obra em todas as outras coisas, em que sempre faz menos do que pode, e pode mais do que faz. Porém no banquete da glória, como se obrara como homem, faz tudo o que pode, e não pode mais. Por quê? Porque se dá a gostar e a gozar a si mesmo. A glória imensa do mesmo Deus, que só ele compreende, em que consiste? Consiste em se ver, em se amar, em se gozar a si mesmo. Pois esse mesmo Deus, e esse mesmo sumo bem, que Deus vê, é o que nós vemos, esse mesmo que Deus ama é o que nós amamos, e esse mesmo que Deus goza é o que nós gozamos na glória, porque a sua mesa e a nossa é a mesma. E isto é o que fez este rei Deus, como se fora rei homem: Homini regi, qui fecit.

Dirá, contudo, alguém que não basta isto só para Deus obrar como homem na magnificência da glória, porque os homens, quando se querem ostentar magníficos, não só fazem tudo o que podem, senão mais do que podem. Vemos que os reis homens, depois de despender seus tesouros, ou os reconhecer menores que sua magnificência, carregam de tributos sobre tributos os povos, para assim igualar à ostentação de sua grandeza. E os homens que não são reis também fazem o mesmo, e por isso nas festas de um dia se empenham para toda a vida, e deserdam e empobrecem toda a sua descendência. Logo, para Deus obrar como homem na magnificência do banquete da glória, não só havia de fazer quanto pode, senão mais do que pode. Assim é, e assim o faz Deus, se bem se considera. Obra Deus tanto como homem no banquete da glória, que não só faz tudo o que pode, senão também mais do que pode, porque faz que gozemos nela o que ele não pode fazer. Deus pode fazer criaturas, e essas mais e mais perfeitas infinitamente; pode fazer mais e melhores mundos, pode fazer mais e melhores céus; mas fazer-se a si mesmo, ou outros como ele é, não pode, porque nem ele se fez a si. E isto que Deus não fez nem pode fazer, faz que nós o gozemos no banquete da glória, sendo o mesmo Deus a primeira e a principal iguaria daquela mesa divina. No nosso texto o temos.

Quando o rei mandou a segunda vez chamar os convidados, a forma do recado foi que viessem às bodas, porque o banquete estava preparado: Ecce prandium meum paravi: venite ad nuptias (2). E suposta esta distinção das bodas enquanto bodas e enquanto banquete, é muito para reparar que as bodas diz o texto que as fez o rei: Qui fecit nuptias filio suo; porém o banquete, não diz o rei que o fez, senão que o preparou: Ecce prandium meum paravi. Pois, por que não diz também que fez o banquete, assim como diz que fez as bodas? Porque as bodas fê-las Deus; o banquete não o fez: preparou-o somente. As bodas significam a Encarnação do Verbo, o banquete significa a glória dos bem-aventurados; e a Encarnação do Verbo fê-la Deus porque fez a humanidade e a união hipostática; porém a glória dos bem-aventurados não a fez, porque o objeto da glória, e o que os bem-aventurados nela gozam, é o mesmo Deus, e Deus nem se fez, nem se pode fazer. Mas este mesmo banquete da glória, que não diz que fez, diz altíssima e propriissimamente que o preparou, porque, elevando sobrenaturalmente o entendimento com que o vemos, com este, que se chama lume da glória, o prepara e nos faz capazes de o gozar. De sorte que o banquete da glória é um composto de tudo o que Deus pode fazer, e de mais do que pode. Da parte do objeto, que é Deus visto e gozado, é mais do que Deus pode fazer, porque Deus não se pode fazer a si mesmo, e da parte do sujeito, que é o bem-aventurado que vê e goza a Deus, é tudo o que Deus pode, porque não pode Deus fazer mais que elevar a criatura a que o veja e goze, assim como ele é; e por este modo se verifica que no banquete da glória faz Deus, como se fosse homem, não só tudo o que pode fazer, senão mais do que pode.

E que mais fazem os homens quando se querem mostrar magníficos? Se lhes não basta para isso o que têm de seu, pedem emprestado o que não têm, e com o seu e o emprestado suprem a magnificência da obra. Isto fazem ultimamente os homens, e isto é o que também fez Deus, como se obrasse como homem: Homini regi. O homem, com os olhos da alma, que são espirituais, se forem elevados, pode ver a Deus; mas com os olhos do corpo, em que não é possível tal elevação, não o pode ver; e que fez Deus para que o homem não só com a alma, mas também com o corpo, o gozasse inteiramente no banquete da glória? O que fez Deus foi pedir emprestado à natureza humana o corpo que não tinha, e unindo, por este modo inefável, a divindade com a humanidade, o mesmo banquete da glória, que tem por objeto a Deus, ficou não só divino, mas divino e humano juntamente: divino, para beatificar o homem na alma, e humano, para o beatificar no corpo. É pensamento altíssimo de S. Cipriano: Deus homo factus est, ut homo haberet in Deo unde fieret plene beatus: in anima videndo divinitatem, in corpore videndo humanitatem. Sendo o homem composto de alma e corpo, se somente visse a Deus com os olhos da alma, ficaria beatificado como de meias, e não inteiramente; e como se Deus fizera a consideração de Epicteto: — Hoc inter epulandum considera, duos tibi excipiendos convivas, corpus et animam — vendo que em cada homem se haviam de assentar à sua mesa dois convidados, um que é a alma, outro que é o corpo, para que um e outro recebesse o gosto, e tivesse a satisfação proporcionada à sua capacidade. A este fim, diz Cipriano, tomou Deus a natureza humana, e se vestiu do corpo que não tinha, fazendo-se homem, para que o homem, gozando no mesmo Deus a vista da divindade, com os olhos da alma, e a vista da humanidade, com os do corpo, fosse inteiramente bem-aventurado: Ut homo haberet in deo unde fieret plene beatus. Aos anjos, que são puros espíritos, basta-lhes, para ser inteiramente bem-aventurados, ver a divindade de Deus; porém ao homem, que é composto de espírito e corpo, não lhe bastava: por isso, pois, não lhe bastando também a Deus, para nos fazer inteiramente bem-aventurados no banquete na glória, a natureza divina que tinha, tomou emprestado da natureza humana o que lhe faltava, e deste modo encheu as medidas, ou a imensidade, de sua magnificência, obrando não só como Deus, senão também como homem: Homini regi, qui fecit.

IV

Declarada a grandeza da glória por parte de quem a fez, segue-se a segunda consideração, e maior ainda — se pode ser maior — em que vejamos e ponderemos para quem se fez. Naquela considerou-se o autor da obra, que é o Pai; nesta considerou-se o motivo, que é o Filho; Fecit nuptias Filio suo. Mas quem poderá declarar bastantemente a excelência infinita deste soberano motivo, que só o mesmo Pai compreende? Os mais sublimes entendimentos, quando querem rastear de algum modo a realeza do banquete da glória, do que vemos e experimentamos na terra conjecturam o que será no céu. Na terra pôs Deus a mesa aos homens, e é coisa tão digna de agradecimento como de admiração, que, de seis dias em que criou o mundo, empregasse os três maiores e mais fecundos só em prover esta mesa. Tudo quanto nada no mar, tudo quanto voa no ar, tudo quanto nasce ou pasce na terra, são os simples que produziu a natureza, para que deles compusesse e temperasse a arte, o sustento e regalo do homem. As espécies que se contêm debaixo destes quatro gêneros vastíssimos, tão várias na formosura tão esquisitas nos sabores e infinitas no número, excedem sem limite a capacidade do gosto e dos outros sentidos. E que discurso há, que não pasme na consideração do poder, magnificência e grandeza com que mais parece quis Deus enfastiar o apetite humano com a superfluidade da mesa, que fartar a necessidade com a abundância? Daqui faz três ilações Santo Agostinho, comparando lugar com lugar, tempo com tempo, e pessoas com pessoas: Si tanto facis nobis in carcere, quid ages in pelatio? Si tanta solatia in hac die lachrymarum, quanta conferes in die nuptiarum? Quid dabit iis, quos praedestinavit ad vitam, qui haec dedit etiam iis, quos praedestinavit ad mortem? Se Deus fez tantas delícias para o desterro e para o cárcere, que será para a pátria e para o palácio? Se assim nos sustenta e regala no tempo das lágrimas, que será no dia das bodas? Se tudo isto criou também para os inimigos, que hão de arder no inferno, que será para os amigos, que o hão de gozar no céu? — Esta é a diferença que pondera, e o argumento e conjectura que faz Santo Agostinho. Mas, com licença de seu alto entendimento, ou sem ela, o excesso que se argúi do nosso texto é infinitamente maior. Não faz comparação de lugar a lugar, nem de tempo a tempo, nem de estado a estado, nem de pessoas a pessoas, ainda que sejam tão indignas umas, como os precitos: Quos praedestinavit ad mortem — e tão dignas outras, como os predestinados: Quos praedestinavit ad vitam. Mas, abstraindo de toda a comparação -porque a não há — diz que será o banquete qual deve ser o das bodas do Filho: Qui fecit nuptias Filio suo. Considere quem o puder ou souber considerar, quanta é a sua grandeza e dignidade do Filho, cujas bodas se festejam, tão infinito, tão imenso e tão Deus como o próprio Pai, e daqui forme o conceito de qual será o banquete, porque toda a outra conseqüência e conjectura feita de uns homens a outros homens, por mais amigos, por mais amados, por mais cheios de graça, por mais santos e por mais dignos que sejam os que se hão de assentar àquela soberana mesa, é infinitamente desigual à sua magnificência.

Haverá, porém, quem cuide — e fundado no nosso mesmo Evangelho -que a grandeza e magnificência da mesa da glória não se há de medir com a dignidade do Filho, senão com a dignidade dos convidados. Assim o disse o mesmo rei, quando eles não quiseram vir: Sed qui invitati erant, non fuerunt digni (3). Não lhes chamou ingratos, descorteses e descomedidos, como mereciam; o que somente disse é que não foram dignos. E quem são os dignos ou indignos do banquete da glória? Os dignos são os que têm merecimentos de boas obras, e os indignos os que os não têm. Não se segue daqui que os que não foram dignos de vir ao banquete também não tinham sido dignos de ser chamados a ele, porque a dignidade que faz dignos de ser chamados funda-se na excelência da natureza racional, capaz de ser elevada a ver a Deus; e a dignidade que faz dignos de o ver e gozar na glória funda-se na disposição da vontade e merecimento das boas obras. E daqui vem que, sendo o banquete o mesmo, uns o gozam mais, outros menos, segundo a maior ou menor dignidade, isto é, segundo o maior ou menor merecimento com que se fazem dignos. Logo, se a porção ou graus da glória — que Deus não quis que alcançássemos, senão a título de prêmio — se mede ou há de medir no céu pelos merecimentos desta vida, e o merecimento humano, por grande e heróico que seja, sempre é curto e limitado, a mesma sentença do rei, com que diz que os convidados não foram dignos, não só se lhes nega a eles a dignidade, mas também diminui ao banquete, porque, medido com os merecimentos, ainda dos dignos, e muito dignos, sempre será limitado.

Bem se inferia assim, se Deus fizera o banquete para nós por amor de nós; mas o Evangelho nega a conseqüência, e prova o contrário, porque diz que o não fez o rei para os convidados por amor dos convidados, senão para os convidados por amor do Filho: Fecit nuptias Filio suo. Dizei-me: quando nasce ou se desposa um príncipe primogênito, não se fazem festas reais com a maior grandeza, com a maior majestade, com o maior aparato e empenho que é possível? Sim. E esse empenho e aparato das festas reais, com quem se mede? Com o merecimento do povo, que as há de ver e gozar, ou com o merecimento e grandeza do príncipe, por quem se fazem? Claro está que com o merecimento e grandeza do príncipe. Pois o mesmo se passa no banquete do céu. A grandeza da glória e bem-aventurança que havemos de gozar não se mede pela estreiteza dos nossos merecimentos, que são limitados, senão pelos merecimentos e dignidade do príncipe, que é infinita. Os merecimentos nossos, fundados nos seus, só servem de ter melhor lugar no banquete, assim como cá nas festas uns têm lugar mais alto, outros mais baixo. Porém o ver e gozar absolutamente, ou a grandeza do que se vê e se goza, não se mede pelos nossos merecimentos, senão pelos de Cristo, porque se não foram os merecimentos de Cristo, que é a causa de nossa predestinação, a ninguém se dera a glória.

Considerai agora qual é a grandeza infinita do príncipe desposado nas bodas, e daí podereis inferir qual será a magnificência do banquete feito para elas. Assim o declarou com majestosa energia o mesmo rei. No recado que deu aos segundos criados, disse: Ecce prandium meum paravi: venite ad nuptias (Mt. 22, 4). Notai que não disse está preparado o banquete, vinde ao banquete, senão: está preparado o banquete, vinde às bodas. E por quê? Porque as mesmas bodas, por serem de quem eram, eram as que mais encareciam qual havia de ser o banquete. Como se dissera: Já uma vez não quisestes vir ao banquete, sem dúvida porque não tendes entendido qual ele é. E para que vos arrependais de não ter querido, e venhais com tanta ambição como vontade, adverti e considerai qual será o banquete, pois é feito para as bodas de meu Filho: Venite ad nuptias. Se o banquete fora feito para vós, então o podereis estimar menos; mas sendo feito para o Filho do Rei, e havendo vós de assentar à mesa com ele, como vos podeis escusar? Assim concluiu com mais alta e mais adequada consideração que as primeiras, o mesmo Santo Agostinho: Ubi erit unicus ejus, ibi erunt et illi: haeredes quidem Dei, cohaeredes autem Christi. Já não argumenta Agostinho da terra para o céu, nem dentro do mesmo céu com o merecimento e dignidade dos que Deus escolheu para a glória, nem com a graça e amor com que os escolheu. Não diz que os convidados se assentaram à mesa com os patriarcas, apóstolos e mártires, que tanto padeceram e mereceram, nem com os anjos e arcanjos, e as outras hierarquias supremas dos espíritos bem-aventurados, nem, finalmente, que terão lugar com a mesma Mãe de Deus, senão com o Filho: Ubi erit unicus ejus, ibi erunt et illi — porque este é só o argumento cabal, e esta a medida adequada da magnificência do banquete. Por isso ajunta, com nova e canônica confirmação, que o gozaremos não só como herdeiros de Deus, senão como co-herdeiros de Cristo: Haeredes quidem Dei, cohaeredes autem Christi. Faz muita diferença Agostinho, e considera grande vantagem em entrarmos no banquete da glória, mais como co-herdeiros de Cristo que como herdeiros de Deus. E por que razão? Não por outra – que não pode ser outra — senão pela que ponderamos em todo este discurso. Porque entrar ao banquete como herdeiros de Deus, declara somente a magnificência de ser feito por Deus; porém entrar como co-herdeiros de Cristo, acrescenta a vantagem não só de ser feito por Deus, mas por Deus e para seu Filho: Qui fecit nuptias Filio suo.

V

E se estas duas considerações ainda não chegam a nos persuadir de todo, passemos à terceira e última, de que se não pode passar. Na primeira vimos o autor, na segunda o motivo, nesta veremos o preço. Na primeira, o autor onipotente que fez o banquete; na segunda, o motivo imenso por que se fez; nesta terceira, o preço infinito que custou o fazer-se. E se a primeira consideração foi incompreensivelmente grande, e a segunda ainda maior, esta é tão superior a toda a admiração e encarecimento, que quase excede a fé. Dirá — e com muita razão -a fé, que a quem pode tudo, não lhe pode custar nada fazer o que pode. Que podia logo custar ao Onipotente fazer este banquete? O mesmo Onipotente, que é o rei que o fez, o disse. Vendo que os convidados se escusavam, mandou-lhes declarar os gastos que tinha feito, com este segundo recado: Tauri mei et altilia occisa sunt, et omnia parata: venite ad nuptias (Mt. 22, 4): Dizei-lhes que venham, porque as reses e as aves já estão mortas, e tudo aparelhado. — Pois, para o banquete da glória matou-se alguma coisa? Sim, e não menos que o Filho de Deus. Se Cristo não morrera, nenhum Filho de Adão podia entrar na glória, porque no paraíso da terra perdemos o direito que tínhamos ao do céu, e pela gula de um bocado ficamos excluídos do banquete. Morreu pois Cristo, e derramou o preço infinito de seu sangue, e este preço infinito foi o custo que se fez para de novo se comprar e preparar o que por tão pouco se tinha perdido. Pesai agora, se podeis, o preço daquela morte, e contai as gotas daquele sangue, cada uma das quais vale mais que infinitos mundos, e então podereis rastear de algum modo o valor incompreensível do que com ele se comprou. Este mundo, que tanto nos leva os olhos e os corações, e tantas coisas tem deleitáveis, dignas do poder e liberalidade de seu Autor, não custou a Deus mais que um aceno de sua vontade. E se quisera fabricar outro mundo mais precioso, em que a terra fora ouro, o mar e os rios prata, as areias pérolas, os penhascos diamantes, as plantas esmeraldas, as flores rubis e safiras, e os frutos e seus sabores proporcionados a esta riqueza e delícia, com outro aceno da mesma vontade, e sem mais tempo que um instante, o pudera criar de nada. Qual será logo o preço daquele bem, ou suma de bens que a este mesmo Deus, tão justo como poderoso, não custou menos que a morte e sangue de seu Filho? Mas ponderemos as palavras do Pai, que todas estão cheias de profundos mistérios, com que mais se declara este.

Tauri mei et altilia occisa sunt; diz primeiramente o rei que estão mortas as reses e as aves para o banquete. E que reses e aves são estas? Já se sabe que na parábola são o que são, e no fundo dela o que significam. Sendo, pois, o significado de umas e outras Cristo morto, como dizem todos os intérpretes, as reses, que são animais da terra, significam a humanidade de Cristo, e as aves, que são do céu, a divindade. E posto que a divindade seja imortal, de ambas se diz, contudo, que estão mortas: Tauri mei et altilia occisa sunt — porque, como a natureza humana e a divina estão unidas em um suposto, não só morre Cristo enquanto homem, mas também é verdadeiro dizer que morreu Deus. E não deve passar sem reparo o modo e distinção advertida, com que o rei falou neste caso, porque às reses chama suas, e às aves não: Tauri mei et altilia. Pois se o rei é Deus, Senhor de tudo, por que chama suas as reses, e não as aves? Pela mesma razão que temos dito. Sobre a humanidade de Cristo tem Deus domínio; sobre a divindade não tem nem pode ter domínio, porque é o mesmo Deus: e como as reses, no composto inefável de Cristo, significam o que tem de humano, e as aves o que tem de divino, por isso o rei, que significa e representa a Deus, às reses chama suas, e às aves não: Tauri mei et altilia. Como se nos dissesse: o humano que há em Cristo é meu, o divino não é meu: sou eu. Finalmente a palavra occisa sunt, que significa não qualquer morte, mas violenta, posto que própria para as reses e aves do banquete, também a disse o rei com particular mistério e energia, porque tal foi a morte de seu Filho, com que Deus nos preparou o banquete dá glória. Não morte natural que bastara — mas violenta, e não com o sangue congelado nas veias, mas derramado delas. No mesmo texto temos o caso, e toda a história dele singularmente descrita.

Quando o rei mandou segundo recado aos convidados, alguns deles foram tão insolentes e furiosos que não só não quiseram vir, mas prenderam os criados do rei, e lhes fizeram muitas afrontas, e por fim os mataram: Reliqui vero tenuerunt servos ejus, et contumeliis affectos occiderunt (4). Os criados que levavam este segundo recado, já dissemos que eram os apóstolos. Os convidados que os prenderam, afrontaram e mataram, não há dúvida que foram os cidadãos de Jerusalém, os quais não só tiraram a vida a alguns dele, senão também ao Apóstolo dos apóstolos, que foi o mesmo Cristo, e de quem particularmente fala o texto. Prova-se por muitos princípios. Primeiro porque Cristo foi próprio e particular apóstolo do povo de Israel, como ele mesmo disse (Mt. 15,24). Segundo, porque o rei que mandou os recados era o Padre Eterno, e Cristo foi imediatamente mandado pelo Padre, como os outros apóstolos imediatamente por Cristo. Terceiro, porque de Cristo se verifica com toda a propriedade o ser preso, o ser afrontado com muitas injúrias, e o ser cruelmente morto: Tenuerunt servos ejus, et contumeliis affectos occiderunt. Nem faz contra isto o nome de servo: servos ejus, porque, não obstante que alguns teólogos tiveram para si que Cristo, ainda em respeito de Deus, se não podia chamar servo, é certo que, enquanto homem, verdadeira e propriamente foi servo de Deus, e assim se pode e deve chamar, como, depois de Santo Tomás, prova douta e difusamente o Padre Soares.

Finalmente, para que conste com toda a evidência que o nosso texto fala literalmente da morte de Cristo, vai por diante a história, e diz que, sabendo o rei o que aqueles homicidas tinham feito, mandou seus exércitos a que os fossem castigar, e não só os mataram e destruíram, mas também arrasaram e queimaram a sua cidade: Missis exercitibus suis, perdidit homicidas illos, et civitatem illorum succendit (Mt. 22, 7). E que exércitos mandados por Deus — que é o rei — e que cidade assolada e abrasada foi esta? São Jerônimo: Per hos exercitus Romanos intelligimus sub duce Vespasiano et Tito, qui occisis Judaeae populis, preavaricatricem incenderunt civitatem: Estes exércitos — diz São Jerônimo — foram os dos romanos, governados por Vespasiano e Tito, os quais, destruídos e mortos os povos de Judéia, assolaram e queimaram a cidade de Jerusalém, em pena do pecado da morte de Cristo. — O mesmo Senhor, indo a morrer, e muitas vezes antes, lho tinha assim profetizado. E porque esta morte tão violenta, padecida em Jerusalém, foi a que no mesmo ponto abriu as portas do céu, e este o preço infinito que se suspendeu para o banquete da glória, por isso o rei mandou dizer aos convidados, que já os gastos estavam feitos, e as reses e aves mortas: Tauri mei et altilia occisa sunt.

Mas aqui se deve notar uma diferença admirável entre o primeiro recado e o segundo. No primeiro recado só mandou o rei que fossem chamar os convidados: Misit servos suos vocare invitatos ad nuptias. No segundo recado não só os mandou chamar, mas acrescentou que já o banquete estava aparelhado e o gasto feito: Dicite invitatis: ecce prandium meum paravi, tauri mei et altilia occisa sunt, et omnia parata. Pois, se os primeiros criados não levaram este recado, por que o levaram os segundos? E se estes haviam de dizer, e disseram, que já estava aparelhado o banquete, os primeiros, por que não disseram o mesmo? Porque nem o podiam dizer com verdade, nem o rei lhes podia mandar que o dissessem. Os primeiros criados, como vimos, foram os profetas; os segundos os apóstolos. Os profetas foram antes da Encarnação e morte de Cristo; os apóstolos foram depois de sua morte; e como por meio da morte de Cristo se abriu o céu, que estava fechado, e se preparou o banquete, que até então só estava prometido, por isso os primeiros criados não disseram nem podiam dizer que estava preparado o banquete, e os segundos sim; e por isso os que mereceram a glória na lei antiga, iam esperar ao limbo, e os que a merecem agora na lei da graça, entram logo a gozá-la.

E para que não fique sem ponderação a última cláusula do recado, o que nele disse o rei é que tudo estava aparelhado: Et omnia parata. Tudo, disse, porque tudo o que o homem pode querer e tudo o que Deus pode dar se compreende no banquete da glória. Mas não é isto o que pondero. O em que reparo é que tendo dito no princípio: Ecce prandium meum paravi, torne a repetir no fim: Et omnia parata. Se tinha dito que já estava aparelhado o seu banquete, por que torna a dizer que está aparelhado tudo? Porque antes da última cláusula fez menção do que estava morto para o mesmo banquete, e antes da primeira não; e para vir em conhecimento do que é ou pode ser o banquete da glória, não se forma tão grande conceito de dizer Deus que é seu: Prandium meum, quanto de se entender que custou a morte de Deus: Tauri mei et altilia occisa sunt. Por isso acrescentou depois: Et omnia parata, porque muito mais se encarece a grandeza do banquete por custar o que custou, do que por ser de quem é. É de Deus, e custou a morte de Deus: logo muito mais se engrandece pelo preço que pelo autor, porque Deus que o fez, como onipotente, pode fazer mais e menos; mas o mesmo Deus, que o pagou como justo, não pode dar menos pelo que vale mais. Oh! Deus, sempre incompreensível, mas nunca com tanto excesso como neste mistério! Sendo o Pai o que fez as bodas, e o Filho o desposado, que houvesse de morrer o desposado para o Pai fazer o banquete das bodas? Pare a consideração neste pasmo, pois não pode passar daqui.

VI

Tem-nos mostrado o Evangelho dentro em si mesmo qual seja a magnificência do banquete da glória, pelo Autor, pelo motivo e pelo preço dela, tudo infinito: infinito quem a fez, infinito por quem se fez, e infinito o que custou fazer-se. Mas somos chegados a ponto em que o mesmo Evangelho parece que nos desfaz tudo o que com ele fizemos até agora. Não querendo vir os convidados ao primeiro e segundo recado, mandou o rei chamar outros, e, depois que estiveram assentados à mesa, qui-la honrar o mesmo rei com a majestade de sua presença: Intravit, ut videre discumbentes. Não há festa sem desar, e assim aconteceu nesta. Viu entre os demais um homem que não estava vestido com a decência que convinha à realeza do banquete, estranhou o atrevimento, e mandou a seus ministros que o lançassem fora, e, atado de pés e mãos, o levassem ao cárcere. As palavras que disse o rei foram: Quomodo huc intrasti, non habens vestem nuptialem? Como entraste aqui sem vestidura nupcial? — A vestidura nupcial, como declaram todos os Padres e expositores católicos, é a graça de Deus. Sem graça de Deus, é de fé que ninguém pode entrar no céu: logo este banquete, de que até agora falamos, não é nem pode ser o banquete da glória. Mais: a glória e bem-aventurança do céu, de sua própria natureza é perpétua e eterna, porque doutra sorte não seria bem-aventurança; e quem uma vez entrou na glória não pode sair nem ser privado dela. Este homem que entrou e estava assentado à mesa sem vestidura nupcial, foi lançado fora do banquete: logo este banquete não é o da glória.

Este argumento é tão forte, que só o diviníssimo Sacramento do Altar nos pode dar a solução deles, tão verdadeira como admirável, e tão própria deste dia como verdadeira. Respondo que esta mesma mesa no princípio e na continuação da parábola era o banquete da glória; porém, no fim da mesma parábola, a que agora chegamos, é o banquete do Sacramento. E porque à mesa do Santíssimo Sacramento pode haver homens tão atrevidos e sacrílegos que cheguem com consciência de pecado — o qual só Deus conhece, e os outros que estão à mesma mesa não — por isso o rei, que é Deus, viu que um dos que estavam assentados a ela não tinha, como os demais, a vestidura da graça: Et vidit ibi hominem non vestitum veste nuptiale. Aos que não quiseram vir ao banquete, enquanto banquete da glória, disse o rei que não eram dignos: Qui invitati erant, non fuerunt digni — porque ao banquete do céu, que é o da glória, ninguém pode entrar, senão somente os dignos; porém, no banquete da terra, que é o Santíssimo Sacramento, bem pode entrar algum que seja indigno; e por isso o rei, cujos olhos só vêem e penetram as consciências, viu que um dos que estavam à mesa não trazia vestidura nupcial: Non vestitum veste nuptiale.

A distinção e diferença bem vejo que estão vendo todos que é muito verdadeira e muito acomodada. Mas também vejo que igualmente duvidam da suposição dela, e que me estão perguntando como pode, ou podia ser, que no mesmo dia e na mesma parábola de Cristo, a mesma mesa e o mesmo banquete, que começou em banquete da glória, acabasse em banquete do Sacramento? Aqui está o ponto da maior dificuldade. Mas vede como naturalmente foi assim, nem podia ser de outro modo. O banquete havia de ser ao jantar, que assim o disse o rei: Ecce prandium meum paravi. E como os convidados não quiseram vir ao primeiro recado, e foi necessário ir o segundo, em que houve más respostas, prisões, injúrias e mortes, com estas dilações, que não se fizeram na mesma corte do rei, senão na outra cidade que refere o texto, passaram-se as horas do jantar. Depois disto despachou o rei, e despediu os seus exércitos, para que fossem castigar os homicidas e queimar a cidade rebelde, em que se gastou muito mais tempo. Finalmente foram-se chamar outros homens, que viessem substituir os lugares dos convidados, e estes não se trouxeram de junto ao paço do rei, mas foram-se buscar, por seu mandado, ao fim da cidade e às saídas das ruas: Ite ad exitus viarum (Ibid. 9). Nestas diligências, tantas e tão detençosas, posto que feitas a toda a pressa, passou-se forçosamente o resto do dia, com que o banquete veio a se fazer à noite, e já não foi jantar, como estava, determinado, senão ceia. E como foi ceia, e não jantar, e as iguarias eram as mesmas, por isso também o que era o banquete da glória se mudou em banquete do Sacramento.

E qual é ou foi a razão desta tão notável mudança? A razão clara e manifesta é porque entre a bem-aventurança do céu e o Sacramento na terra, não há outra distinção nem outra diferença de banquete a banquete, senão ser um de dia, outro de noite; um com luz do sol, outro com luz de candeia; um com o lume da glória, que é claro, outro com o lume da fé, que é escuro; um que se goza e se vê, outro que se goza sem se ver. Não é certo que o mesmo Deus que se goza no céu é o que está no Sacramento? Sim. Não é também certo que lá se vê esse mesmo Deus, e cá não? Também. Pois essa é só a diferença que há entre o banquete da glória no céu e o do Sacramento na terra. A glória é o sacramento com as cortinas corridas; o Sacramento é a glória com as cortinas cerradas. Lá come-se Deus exposto e descoberto: aqui come-se coberto e encerrado. Se os que se assentaram hoje a esta mesma mesa, parte foram cegos e parte não, que diferença havia de haver entre uns e outros? Os que tivessem olhos haviam de comer e ver o que comiam; os cegos não haviam de ver o que comiam, mas haviam de comer as mesmas iguarias que os outros. O mesmo nos sucede a nós, em comparação dos bem-aventurados do céu. Eles comem e vêem, porque comem de dia: nós comemos e não vemos, porque comemos de noite. É verdade que ainda que de noite, comemos à luz da candeia, que é o lume da fé; mas este lume é de tal qualidade, que certifica mas não mostra, porque, se mostrara o que certifica, já não fora fé.

Quando o rei mandou ir preso o que se assentou à mesa sem vestidura nupcial, disse que o levassem às trevas exteriores: Mittite eum in tenebras exteriores (Ibid. 13). E por que disse nomeadamente às trevas exteriores, ou trevas de fora? Para significar, como verdadeiramente era, que também dentro na mesma sala, onde se fazia o banquete, havia trevas. As trevas do cárcere, onde mandava levar o delinqüente, eram trevas exteriores e de fora; as trevas da sala, onde comiam os convidados, eram trevas interiores e de dentro. E quem fazia umas e outras trevas? As trevas do cárcere fazia-as o escuro do lugar; as trevas do banquete fazia-as o escuro da fé: mas este escuro, ou esta escuridade da fé, tem tal excelência, que tanto nos assegura a nós da verdade do que não vemos, como a vista certifica aos bem-aventurados da verdade do que vêem. Para ver os convidados, diz o texto que entrou o rei: Intravit rex, ut videret discumbentes. E nota Abulense que o fim e intento desta entrada foi: Ut laetificaret epulantes, cum eis praesentiam suam exhiberet: Para alegrar, aos que comiam, com a sua presença. — Com a sua presença, disse, e não com a sua vista; e disse bem, porque o que nos alegra e satisfaz no banquete do Sacramento não é a evidência da vista, senão a certeza da presença. Por isso advertidamente o texto não diz que entrou o rei para ser visto, senão para ver: Ut videret discumbentes. No banquete do céu os que estão à mesa vê-nos Deus, e eles vêem a Deus; no banquete do Sacramento, não é a vista recíproca, senão de uma só das partes: Deus vê-nos a nós, e nós não o vemos a ele, porque se a fé nos certifica da presença, a mesma fé nos encobre a vista.

Mas, se o rei, como dissemos, é o Eterno Padre, e o que comemos no banquete do Sacramento é o corpo de Cristo, como se diz que entrou o Padre neste banquete? Porque não fora igual o banquete do Sacramento ao banquete da glória, se o Eterno Padre também não entrara nele. Os bem-aventurados não só vêem uma Pessoa divina, senão todas, porque vêem a Deus como é, e Deus é um em essência e trino em pessoas. E se no Sacramento só estivera o corpo e sangue de Cristo, e não a divindade e a Pessoa do Verbo, e as outras Pessoas divinas, encerrara mais em si o banquete da glória que o do Sacramento. É, porém, certo e de fé, que tanto encerra em si o Sacramento, quanto a glória de todos os bem-aventurados e a do mesmo Deus, não ex vi verborum(5) — como falam os teólogos — mas concomitanter. Ainda que por força das palavras da consagração só esteja no Sacramento o corpo e sangue de Cristo, como este corpo e sangue está unido à divindade, e a divindade, não por união, mas por unidade e identidade, é inseparável das Pessoas divinas, por isso todas as Pessoas divinas estão também no Sacramento, não como partes essenciais de que o mesmo Sacramento se componha, mas como partes — se assim se pode chamar — que necessariamente o acompanham e entram nele. E esta é a verdade e propriedade com que o rei, que é o Padre, se diz que entrou ao banquete: Intravit rex.

E se o Sacramento, quanto à substância, é o mesmo banquete que o da glória, quanto à grandeza e magnificência com que se comunica aos convidados, em tudo é semelhante. No banquete da glória repartem-se as iguarias sem se partirem, porque Deus é indivisível, e o mesmo se passa no Sacramento: Non confractus, non divisus, integer accipitur. No banquete da glória dá-se todo Deus a todos, e todo a cada um; e no Sacramento tanto recebe um como todos: Sic totum omnibus, quod totum singulis. No banquete da glória, por mais que cresçam os convidados, não se gastam nem se diminuem os manjares; e no Sacramento, ainda que sejam muitos os que o recebem, nem por isso se diminui: Sumit unus, sumunt mille, nec samptus consumitur. No banquete da glória, sendo Deus espírito, não só faz bem-aventurados os espíritos, senão também os corpos; e no Sacramento, dando-nos Cristo seu corpo, não só é rejeição dos corpos, senão muito mais dos espíritos. Ut duplicis substantiae totum cibaret hominem. No banquete da glória os que vêem a Deus transformam-se no mesmo Deus; e no Sacramento os que comem a Cristo também se transformam em Cristo, o qual para isso, sendo Deus, se fez homem: Ut homines Deos faceret factus homo. No banquete da glória enfim, gostam-se todos os deleites e delícias que manam, como de fonte, da divindade; e no Sacramento também se gozam e se gostam, porque a doçura e suavidade de todos se bebe ali na sua própria fonte: In quo spiritualis dulcedo in proprio fonte gustatur Assim o diz e ensina o Doutor Angélico, Santo Tomás, de quem são todos os textos citados, e de quem os tomou e aprovou a Igreja.

VII

De tudo o que fica dito neste discurso, parece que bastantemente nos tem mostrado o nosso Evangelho que o banquete que havia de ser jantar veio a ser ceia, e que começando em convite da glória, acabou em convite do Sacramento. O que agora resta é que todos nos aproveitemos de um e outro, e que não sejamos tão ingratos a Deus, tão inimigos de nós mesmos, e tão faltos de entendimento e juízo, como os que uma e outra vez chamados não quiseram vir. A primeira razão que nos deve animar a todos, é saber que a todos nos chama e está chamando Deus, e que assim o banquete da glória como o do Sacramento, para todos os fez e tem aparelhado igualmente, sem reserva nem exceção de pessoas. Notou S. Pascásio que este mesmo rei da nossa parábola, quando se diz que fez as bodas a seu filho, chama-se rei homem: Homini regi; porém, depois que tratou do banquete, nunca mais se chamou homem, porque os reis homens convidam só aos príncipes e aos grandes; o rei Deus não é assim: a todos convida, a todos chama, todos quer que se assentem à sua mesa, ou seja no céu a da glória, ou na terra a do Sacramento.

Depois que os convidados descorteses ao primeiro e segundo recado não quiseram vir, mandou o mesmo rei buscar outros que substituíssem os seus lugares, e a instrução que deu aos criados, foi que saíssem às ruas, e que chamassem para o banquete todos quantos achassem: Ite ad exitus viarum, et quoscumque inveneritis, vocate ad nuptias (6). Pois, para a mesa do rei, e em uma celebridade tão real como a das bodas do príncipe seu primogênito, não se limitam as qualidades? Não se assinalam os postos? Não se faz menção de títulos ou estados, nem se distingue quais hão de ser os chamados e quais os excluídos? Não. Chamai todos os que achardes pelas ruas, porque assim como as ruas são públicas e comuns a todos, assim quero que o seja a minha mesa: e assim foi. Diz o texto que os criados ajuntaram todos quantos acharam, maus e bons: Congregaverunt omnes quos invenerunt, malos et bonos (Ibid. 10). E destes achados e tirados das ruas, se encheram os lugares do banquete: Et impletae sunt nuptiae discumbentium. E que quer dizer bons e maus: malos et bonos? Quer dizer, como explica a glosa e os doutores: Cujuscumque conditionis homines, cujuscumque gradus, cujuscumque nationis: de qualquer nação, de qualquer condição, de qualquer estado, de qualquer ofício, de qualquer fortuna. O hebreu e o grego, o alto e o baixo, o grande e o pequeno, o rico e o pobre, o nobre e o plebeu, o senhor e o escravo, o branco e o preto, todos, sem diferença nem exclusão. E notai que antepõe o texto os maus aos bons: malos et bonos, isto é, os menos nobres aos mais honrados, porque esta é a maior honra e a maior magnificência da mesa de Deus. Assim o canta ao mesmo Deus no mesmo banquete quem melhor lhe conhece a condição, que é a sua Igreja: O res mirabilis, manducat Dominum pauper servus et humilis: Coisa admirável que coma à mesa do Senhor, e ao mesmo Senhor, o servo, o pobre, o humilde! — Mas se eu tivera licença para mudar um advérbio, e trocar a ordem a estes versos, não havia de dizer senão assim: Manducat Dominum pauper, servus et humilis? Haud res mirabilis! Que o servo, o pobre e o humilde se assente à mesa do Senhor? Não é isto maravilha! — Maravilha seria se o banquete fosse de algum rei da terra; mas, sendo do Rei do Céu, que criou a todos e morreu por todos, como havia de distinguir na mesa os que igualou na natureza, no preço e na graça? Cá fazemos estas distinções, e na outra vida veremos a vaidade delas. Que confusão será dos grandes ver que o céu é dos pequenos? E que confusão a dos que têm tantos escravos ver o seu escravo assentado ao banquete da glória, e que o senhor ficou de fora?

Suposto, pois, que um e outro banquete é para todos, e Deus nos chama a todos para ambos, não nos descuidemos agora de freqüentar o banquete da terra, para que o mesmo banquete da terra nos leve ao do céu. Alberto Magno, tão grande na sabedoria como na piedade, em um excelente livro que compôs do Santíssimo Sacramento, diz esta notável sentença: Id quod nunc in Sacramenti specie percipiendo Christum agimus, signum est, qualiter eumdem aliquando secundum dulcedinem suae deitatis in coelesti beatitudine percipiemus: Quereis saber se haveis de ir ao céu, e como lá haveis de ser recebido? Olhai se freqüentais cá o Santíssimo Sacramento, e como o recebeis, porque o modo com que nesta vida recebemos o corpo de Cristo no Sacramento, é sinal do modo com que na outra vida receberemos a divindade do mesmo Cristo na glória: Id quod nunc percipiendo Christum agimus, signum est, qualiter eumdem in beatitudine recipiemus. Que esperança pode ter logo de gozar o banquete da glória, ou quem despreza esta sagrada mesa, como os primeiros convidados desprezaram a outra, ou quem chega à mesma mesa com tão pouca disposição e pureza de consciência, como o que foi lançado dela e levado ao cárcere das trevas, que é o inferno? Quando o rei deu esta sentença, disse que naquele lugar escuro e subterrâneo haveria choro e ranger de dentes: Ibi erit fletus et stridor dentium (Ibid. 13). Onde se deve muito advertir que dois tormentos, de que só fez menção, um é da boca, outro dos olhos. No inferno há muitos outros tormentos, e mais terríveis, com que o fogo e os demônios atormentam os condenados. Por que fez logo menção somente destes dois, com que os mesmos condenados se atormentam a si mesmos, e um dos olhos, outro da boca? Porque como o comer a Deus tem por prêmio o ver a Deus, e a culpa de o comer indecentemente tem por castigo não o ver eternamente, a culpa de o comer indecentemente aquele miserável foi castigada na boca, e o castigo de o não ver eternamente foi executado nos olhos. Chorem eternamente os olhos, pois não hão de ver a Deus enquanto Deus for Deus: Ibi erit fletus. E pois a boca se atreveu a tocar e comer a Deus como não devera, morder-se também eternamente de raiva e desesperação com seus próprios dentes: Et stridor dentium.

Daqui inferiu Cristo, Senhor nosso, aquela tremenda conclusão: Multi enim sunt vocati, pauci vero electi (Mt. 22,14): porque muitos são os chamados e poucos os escolhidos. — Mas, se os escolhidos são os que entraram com vestidura nupcial e ficaram no banquete, e o não escolhido, que entrou indecentemente vestido, foi um só, como diz o Senhor e infere do sucesso desta mesma parábola que os chamados são muitos e os escolhidos poucos? Esta dúvida deu já muito em que entender aos intérpretes, mas tem fácil solução. Porque os chamados não foram só os que vieram ao banquete, senão também os que não quiseram vir. E como todos os que vieram e não vieram foram chamados, e ainda dos que vieram um não foi escolhido, bem se infere que os chamados são muitos e os escolhidos poucos. Poucos em respeito de todo o número dos chamados, e menos ainda em respeito do desejo que Cristo tem, e do preço que despendeu para que todos se salvem. Porém, o que sobretudo faz ao nosso intento, é que todos os chamados que vieram com vestidura nupcial ao banquete do Sacramento, todos foram escolhidos: pauci electi. Poucos sim, mas escolhidos todos. E por que razão? Porque o fim dos chamados é a glória, o pão dos escolhidos é o Sacramento, e todos os que usam bem do pão dos escolhidos conseguem o fim dos chamados. Não há fim sem meios, e todos os que se sabem aproveitar deste soberano meio, tão aparelhado e tão fácil, todos os que freqüentam, com a decência e disposição que convém, a mesa do Santíssimo Sacramento, todos os que comem e se sustentam do pão dos escolhidos, que é o banquete de Deus na terra, todos conseguem o fim dos chamados, que é o do céu.


VIII

Grande consolação por certo, cristãos, para todos os que assim o fazem, como igual desconsolação também, e afronta e vergonha grande para os que por interesses ou apetites tão vãos, como são todos os deste mundo, deixam o banquete divino do Sacramento, e perdem o da glória. Aqueles descorteses e mal-entendidos, que chamados ao banquete não quiseram vir, diz o texto que um se foi para a sua lavoura, outro para a sua negociação: Alius in villam suam, alius vero ad negotiationem suam (Ibid. 5). Vede o que perderam; e por quê? Que podia granjear um na sua negociação e outro na sua lavoura, que tivesse comparação com o que desprezaram: Illi autem neglexerunt (Ibid. 5)? Chama-nos Deus para o descanso e para estarmos assentados à sua mesa, e nós antes queremos trabalhar e suar com o mundo, que descansar e regalar com Deus. Tanto podem conosco as aparências do presente, e tão pouco a fé e esperança do futuro. De ninguém se podia recear menos esta desatenção, que dos mesmos a quem o rei mandou chamar. Mandou chamar lavradores, que são os que foram para a sua lavoura, e mercadores, que são os que foram para a sua negociação. E por que mais lavradores e mercadores que gente de outro trato ou de outros ofícios? Porque assim o lavrador como o mercador, são homens que têm por exercício e profissão acrescentar o cabedal. O lavrador semeia pouco para colher muito; o mercador compra por menos para vender por mais. E por isso mesmo assim aos lavradores como aos mercadores os devia trazer à mesa do rei o seu próprio interesse. Que melhor lavoura que semear na terra e colher no céu? E que maior mercancia que vender o tempo e comprar a eternidade? Oh! eternidade enjeitada! Oh! glória desprezada! Oh! céu nem querido nem crido!

Credes vós, que vos chamais cristãos, credes que há céu? Credes que há glória? Credes que há eternidade? Dizeis que sim, de que eu duvido. Mas, se é verdade que credes tudo isto que tenho dito, como o não quereis? Assim o diz o Evangelho, que não quiseram os que vós imitais: Et nolebant venire (Ibid. 3). Se tanto pode convosco a lisonja do presente, e tão pouco a fé do futuro, por que não considerais no presente esse mesmo presente onde há de vir a parar? Coisa muito digna de admiração é que dos primeiros e segundos chamados, todos se escusassem e nenhum quisesse vir, e que os últimos todos viessem e nenhum se escusasse. Os recados e os criados não eram do mesmo rei, e as bodas as mesmas? Que homens foram logo estes, de juízos e vontades tão diferentes, que nenhum repugnou, e todos quiseram vir? Olhai onde o rei os mandou buscar, e onde estavam quando vieram: Ite ad exitus viarum (Ibid. 9): Ide aos fins dos caminhos. Et quoscum que inveneritis, vocate: e todos os que ali achardes, chamai a esses. — Sabeis por que não acudimos ao chamado de Cristo? É porque não estamos nos fins dos caminhos. Os princípios dos caminhos, que cada um toma para a sua vida, e também os meios deles, são muito enganosos: os fins, e onde vão parar, esses são os que desenganam. Todas as cidades, e mais as cortes — como esta era — têm três estradas reais por onde vai o fio da gente, e onde concorrem todas: a das riquezas, a das honras, a dos deleites. Mas os que se põem com a consideração ou com os sucessos da mesma vida onde estas estradas vão parar: Ite ad exitus viarum, estes são os que Deus busca, e estes os que acha: Et quoscumque inveneritis, vocate.

Também houve outra razão que muito moveu e obrigou as vontades dos que vieram em último lugar. Quando foram chamados os primeiros uma e outra vez, ainda o rei se não tinha irado: Iratus est rex; ainda não tinba mostrado o rigor de sua justiça: Perdidit homicidas illos, et civitatem illorum succendit (7). E por isso não aceitaram o convite, nem respeitaram o recado, nem temeram o rei. Porém os outros, que viram a benignidade do rei trocada em ira, os rebeldes feitos em quartos, e a cidade em cinzas, que viram arder sem exceção as casas humildes, os palácios soberbos e as torres mais altas, como lhes não haviam de alumiar os olhos aquelas labaredas, e como lhes não haviam de abrandar os corações, ainda que fossem de bronze, um tal incêndio? Alguns, abstraindo da história, e tomando em geral a culpa e o castigo, reconhecem neste fogo o do inferno, que é o último paradeiro dos que desprezam o céu. E será bem que os interesses de tão pouco momento, e os gostos tão leves e tão breves, com os desta vida, se vão lá pagar no inferno eternamente? Pois, isto é o que querem, sem querer, os que tanto caso fazem do presente, e tão pouco do futuro, e por lograr o engano do que é — ou não é — não reparam no que há de ser.

Disse o que querem sem querer, porque bem vejo que lá dentro nos vossos corações estais dizendo que, se agora não quereis, haveis de querer depois, e que se agora sois como os primeiros que não quiseram vir, depois sereis como os últimos que vieram. Este é o engano comum com que o demônio nos cega e nos vai entretendo, até que nos leva, já perdidos, à condenação. Pede-nos a vontade agora, e prometemo-la para depois. Deus nos livre de uma vontade habituada a não querer, porque nunca quer. Olhai o que diz o texto: Et nolebant venire: E eles não queriam vir. — Não diz: nolerunt, senão: nolebant: não diz que não quiseram, senão que não queriam. Se dissera não quiseram, significava um ato de vontade; mas dizendo não queriam, não significa ato, senão hábito; e vontade habituada a não querer, nunca quer. Por isso não quiseram a primeira vez que foram chamados, nem a segunda em que os tornaram a chamar, e se os chamassem a terceira, também não haviam de querer. Mas se o rei foi tão bom e tão benigno, que sem embargo de não quererem vir a primeira vez, os chamou a segunda, por que os não mandou também chamar terceira vez? Este é o mais tremendo ponto de toda esta matéria. Ninguém se pode converter a Deus sem Deus o chamar com a sua inspiração e o prevenir com o auxílio de sua graça. E Deus, ainda que nos chama uma e outra vez, se nós desprezamos a vocação, e não acudimos a esta, também ele subtrai as suas inspirações, e nos nega justamente os seus auxílios. E que será da miserável alma destituída dos auxílios de Deus. Ouvi a S. Gregório Papa: Nemo contemnat, nedum vocatus excuset, cum voluerit intrare non valeat: Ninguém despreze a vocação e inspiração divina, porque, se quando é chamado, não quer ir, depois, ainda que queira, não poderá.

E para que nos desenganemos, e conheçamos todos que podemos chegar a tal estado, em que totalmente não possamos, ainda que quiséssemos, confirmemos a verdade desta doutrina de São Gregório com a última cláusula do nosso Evangelho, que só nos resta por ponderar. Mandou o rei que o que tinha vindo ao banquete sem vestidura nupcial, atado de pés e mãos, fosse lançado no cárcere das trevas: Ligatis manibus et pedibus ejus, mittite eum in tenebras exteriores (8). E diz o texto que ouvindo o miserável homem esta sentença, emudeceu, e não disse palavra: At ilIe obmutuit. Este emudecer é o que mais me assombra e atemoriza. Homem miserável, homem pusilânime, homem inimigo de ti mesmo e sem juízo, por que não apelas da sentença para o mesmo rei? Não vês que é tão demente e piedoso, que ainda ofendido te chama amigo: Amice, quomodo huc intrasti (9). Não vês que o mesmo dia de tanta celebridade é muito aparelhado para o perdão? Se não tens com que escusar a tua culpa, por que a não confessas? Por que te não lanças aos pés do Pai, e lhe pedes misericórdia por amor do Filho, e pela mesma humanidade, com que se desposou? Nada disto fez o miserável, e nada disto podia fazer, ainda que quisesse, porque a mesma sentença em pena da sua culpa o inabilitou para tudo. Nem podia ver, porque estava condenado às trevas; nem se podia lançar aos pés do rei, porque tinha presos os seus; nem podia bater nos peitos, porque tinha atadas as mãos; nem podia confessar seu pecado e pedir perdão, porque tinha emudecida a língua. E isto é o que acontece a quem, assim como este entrou despido da graça de Deus, chegou a ser despedido dela. Os pés e mãos da alma, como diz Santo Agostinho, são o entendimento e vontade, de que se compõe o alvedrio, e este, em faltando a graça de Deus, fica tão atado e escurecido, que nem tem luz para ver, nem mãos para obrar, nem pés para se mover, nem língua para dizer: pequei. — Vede se pode haver mais infeliz e mais tremendo estado, mas justamente merecido. Oh! se Deus quisesse que ao menos nos fique muito impressa nas almas, por último documento, a culpa, por que este miserável homem perdeu o uso de todas as potências e movimentos, e até a mesma fala, com que se pudera remediar de tudo. E qual foi esta culpa? Não foi outra, senão entrar ao banquete sem vestidura nupcial, isto é, chegar à mesa do Santíssimo Sacramento não estando em graça. Por isso emudeceu de tal sorte, que não pôde confessar sua culpa, porque é justo juízo de Deus castigar nas confissões o que se peca nas comunhões. Já que a boca se atreveu a comungar em pecado, não tenha língua para confessar seus pecados: At ille obmutuit.

Emudeceu o homem por justo castigo: nós devemos emudecer de horror e assombro; o Evangelho emudeceu, porque não tem palavra que não esteja ponderada; e eu também emudeço, porque não tenho mais que dizer. Se a minha ignorância e tibieza vos não soube chamar para o banquete, como devia, espero que interiormente o tenha feito a graça e inspirações divinas com tal eficácia, que freqüentando nesta vida o do Santíssimo Sacramento, mereçamos na outra alcançar o da glória.

(1) Mandou os seus servos a chamar os convidados para as bodas (Mt. 22,3).

(2) Eis aqui tenho preparado meu banquete: vinde às bodas (Mt. 22,4).

(3) Mas os que estavam convidados não foram dignos (Mt. 22,8).

(4) Outros, porém, lançaram mão dos servos que ele enviara, e, depois de os haverem ultrajado, os mataram (Mt.22,6).

(5) Por força das palavras.

(6) Ide pois às saídas das ruas, e a quantos achardes, convidai-os para as bodas (Mt. 22,9).

(7) Acabou com aqueles homicidas, e pôs fogo à sua cidade (Mt. 22,7).

(8) Atai-o de pés e mãos, e lançai-o nas trevas exteriores (Mt. 22,13).

(9) Amigo, como entraste aqui? (Mt. 22,12)?

Sermão da Epifania (1662)

Cum natus esset Jesus in Bethlehem Juda in diebus Herodis regis, ecce Magi ab oriente venerunt (1).


I

Para que Portugal na nossa idade possa ouvir um pregador evangélico, será hoje, o Evangelho o pregador. Esta é a novidade que trago do Mundo Novo. O estilo era que o pregador explicasse o Evangelho: hoje o Evangelho há de ser a explicação do pregador. Não sou eu o que hei de comentar o texto: o texto é o que me há de comentar a mim. Nenhuma palavra direi que não seja sua, porque nenhuma cláusula tem que não seja minha. Eu repetirei as suas vozes, ele bradará os meus silêncios. Praza a Deus que os ouçam os homens na terra, para que não cheguem a ser ouvidos no céu.

Havendo, porém, de pregar o Evangelho, e com tão novas circunstâncias como os que promete o exórdio, nem por isso cuide alguém que o pregador e o sermão há de faltar ao mistério. Antes, pode bem ser que rara vez ou nunca se pregasse neste lugar a matéria própria deste dia e desta solenidade senão hoje o mistério próprio deste dia é a vocação da gentilidade à fé. Até agora celebrou a Igreja o nascimento de Cristo; hoje celebra o nascimento da Cristandade. Cum natus esset Jesus in Bethlehem Juda (2) – este foi o nascimento de Cristo, que já passou: Ecce Magi ab Oriente venerun (3) – este é o nascimento da Cristandade, que hoje se celebra. Nasceu hoje a Cristandade, porque os três reis que neste dia vieram adorar a Cristo foram os primeiros que o reconheceram por Senhor, e por isso lhe tributaram ouro; os primeiros que o reconheceram por Deus, e por isso lhe consagraram incenso, os primeiros que o reconheceram por homem em carne mortal, e por isso lhe ofereceram mirra. Vieram gentios, e tornaram fiéis, vieram idólatras, e tornaram cristãos; e esta é a nova glória da Igreja, que ela hoje celebra, e o Evangelho, nosso pregador, refere. Demos-lhe atenção.

II

Cum natus esset Jesus in Bethlehem Juda in diebus Herodis regis, ecce Magi ab Oriente venerunt. Estas são as primeiras palavras do Evangelho, e logo nelas parece que repugna o mesmo Evangelho a ser meu intérprete, porque a sua história e o seu mistério é da Índia Oriental: Ab oriente venerunt – e o meu caso é das Ocidentais. Se apelo para os reis e para o sentido místico, também está contra mim, porque totalmente exclui a América, que é a parte do mundo donde eu venho. Santo Agostinho, S. Leão papa, S. Bernardo, Santo Anselmo, e quase todos os Padres reparam, por diversos modos, em que os reis que vieram adorar a Cristo fossem três, e a limitação deste mesmo número é para mim, ou contra mim, o maior reparo. Os profetas tinham dito que todos os reis e todas as gentes haviam de vir adorar e reconhecer a Cristo: Adorabunt eum omnes reges terrae, omnes gentes serviente ei (4):Omnes gentes quascumquefecisti veniente, et adorabunt te, corai Dominet (5). Pois, se todas as gentes e todos os reis do mundo haviam de vir adorar a Cristo, por que vieram somente três? Por isso mesmo, respondem o Venerável Beda e Ruperto Abade. Foram três, e nem mais nem menos que três, os Reis que vieram adorar a Cristo, porque neles se representavam todas as partes do mundo, que também são três: Ásia, África e Europa: Tres reges, tres partes mundi significant: Asiam, Africam, et Europam, diz Beda. E Ruperto, com a mesma distinção: Magi tribus partibus orbis, Asiae, Europae, atque Africae, pidei, atque adorationis exemplar existere meruerunt. Isto é o que dizem estes grandes autores, como intérpretes do Evangelho; mas o mesmo Evangelho, para ser meu intérprete, ainda há de dizer mais. Dizem que os três reis significavam a Ásia, a África e a Europa, e onde lhes ficou a América? A América não é, também, parte do mundo, e a maior parte? Se me disserem que não apareceu no presépio, porque tardou e veio muitos séculos depois, também as outras tardaram; antes, ela tardou menos, porque se converteu e adorou a Cristo mais depressa e mais sem repugnância que todas. Pois, se cada um das outras partes do mundo teve o seu rei que as apresentasse a Cristo, por que lhe há de faltar pobre América? Há de ter rei que receba e se enriqueça com os seus tributos, e não há de ter rei que com eles ou sem eles a leve aos pés de Cristo? Sei eu – e não o pode negar a minha dor que se a primeira, segunda, e a terceira parte do mundo tiveram reis, também o teve a quarta, e enquanto lhe não faltou o quarto (6). Mas vamos ao Evangelho, e conciliemos com ele esta exposição dos Padres.

Ecce Magi ab oriente venerunt. Diz o Evangelista que os reis do Oriente vieram a adorar a Cristo, e nesta mesma limitação, com que diz que vieram nomeadamente os do Oriente, e não outros, se reforça mais a dúvida, porque assim no Testamento Velho, como no Novo, está expresso que não só haviam de vir a Cristo os gentios do Oriente, senão também os do Ocidente. No testamento Velho, Isaías, falando com a Igreja: Ab oriente adducam semen tuum, et ab occidente congregabo te (7); e no Testamento Novo a profecia e oráculo de Cristo: Dico vobis, quod multi ab oriente et occidente venient (8). Pois, se não só haviam de vir a Cristo os reis e gentes do Oriente, senão também as do Ocidente, como diz nomeadamente o evangelista que os que vieram eram todos do Oriente, ou como vieram só os do Oriente, e os do Ocidente não? A tudo satisfez o mesmo evangelista, e na simples narração da história concordou admiravelmente o seu texto com o dos profetas. Que diz o evangelista? Cum natus esset Jesus in diebus Herodis regis, ecce Magi ab oriente venerunt. Diz que nos dias de Herodes, sendo nascido Cristo, o vieram adorar os Reis do Oriente – e nestas mesmas circunstâncias do tempo, do lugar e das pessoas, como que limitou a primeira vocação da gentilidade, mostrou que não havia de ser só uma, senão duas, como estava profetizado. A primeira vocação da gentilidade foi nos dias de Herodes: In diebus Herodis regis – a segunda quase em nossos dias. A primeira foi quando Cri sto nasceu: Cum natus esset Jesus – a segunda quando já se contavam mil e quinhentos anos do nascimento de Cristo. A primeira foi por meio dos reis do Oriente: Ecce Magi ab oriente venerunt – a segunda por meio dos reis do Ocidente, e dos mais ocidentais de todos, que são os de Portugal.

Para melhor inteligência destas duas vocações, ou destas duas epifanias, havemos de supor que neste mesmo mundo em diferentes tempos houve dois mundos: O Mundo Velho, que conheceram os antigos, e o Mundo Novo, que eles e o mesmo mundo não conheceu, até que os portugueses o descobriram. O mundo Velho compunha-se de três partes: Ásia, África e Europa, mas de tal maneira que, entrando neste primeiro composto toda a Europa, a Ásia e a África não entravam inteiras, senão partidas, e por um só lado, a África com toda a parte que abraça o Mar Mediterrâneo, e a Ásia com a parte a que se estende o Mar Eritreu. O Mundo Novo, muito maior que o Velho, também se compõe de três partes: Ásia, África e América, mas de tal maneira também, que entrando neste segundo composto toda a América, a Ásia e a África, só entram nele partidas, e com os outros dois lados, tanto mais vastos e tanto mais dilatados, quanto o mar Oceano que os rodeia excede ao Mediterrâneo e Eritreu. E como os autores antigos só conheceram o Mundo Velho, e não tiveram nem podiam ter conhecimento do novo, por isso Beda e Ruperto disseram com muita propriedade que os três Reis do Oriente representavam as três partes do mundo: Ásia, África e Europa. Contudo, S. Bernardo, que foi contemporâneo de Ruperto, combinando o nosso Evangelho com as outras Escrituras, conheceu com seu grande espírito, ou, quando menos, argüiu com seu grande engenho que, assim como houve três reis do Oriente que levaram as gentilidades a Cristo, assim havia de haver outros três reis do Ocidente que as trouxessem à mesma fé: Vide autem neforte ipsi sint et tres Magi venientes iam non ab Oriente sed etiam ab Occidentel(9). Quem fossem ou quem houvessem de ser estes três reis do Ocidente, que S. Bernardo anteviu, não o disse, nem o pôde dizer o mesmo santo, posto que tão devoto de Portugal, e tão familiar amigo do nosso primeiro rei. Mas o tempo, que é o mais claro intérprete dos futuros, nos ensinou dali a quatrocentos anos que estes felicíssimos reis foram el-rei D. João, o Segundo, el-rei D. Manuel, e el-rei D. João, o Terceiro, porque o primeiro começou, o segundo prosseguiu, e o terceiro aperfeiçoou o descobrimento das nossas conquistas, e todos três trouxeram ao conhecimento de Cristo aquelas novas gentilidades, como os três Magos as antigas. Os Magos levando a luz da fé do Oriente para o Ocidente, eles do Ocidente para o Oriente; os Magos apresentando a Cristo a Ásia, África e Europa, e eles a Ásia, África e América: Os Magos estendendo os raios da sua estrela por todo o Mundo Velho, até às gargantas do Mediterrâneo, e eles alumiando com o novo sol a todo o Mundo Novo até às balizas do Oceano.

Uma das coisas mais notáveis que Deus revelou e prometeu antigamente foi que ainda havia de criar um novo céu, e uma nova terra. Assim o disse por boca do profeta Isaías: Ecce ego creo caelos novos, et terram novam (10). É certo que o céu e a terra foram criados no princípio do mundo: In principio creavit Deus caelum et terram (11) – e também é certo, entre todos os teólogos e filósofos, que depois daquela primeira criação, Deus não criou nem cria substância alguma material e corpórea porque somente cria de novo as almas, que são espirituais. Logo, que terra nova, e que céus novos são estes, que Deus tanto tempo antes prometeu que havia de criar? Outros o entendem doutra maneira, não sei se muito conforme à letra. Eu, seguindo o que ela simplesmente soa e significa, digo que esta nova terra e estes novos céus são a terra e os céus do Mundo Novo, descoberto pelos Portugueses. Não é verdade que, quando os nossos argonautas começaram e prosseguiram as suas primeiras navegações, iam juntamente descobrindo novas terras, novos mares, novos climas, novos céus, novas estrelas? Pois esta é a terra nova e esses são os céus novos que Deus tinha prometido, que havia de criar, não porque não estivessem já criados desde o princípio do mundo, mas porque era este Mundo Novo, tão oculto e ignorado dentro do mesmo mundo, que quando de repente se descobriu e apareceu, foi como se então começara a ser e Deus o criara de novo. E porque o fim deste descobrimento, ou desta nova criação, era a Igreja, também nova, que Deus pretendia fundar no mesmo Mundo Novo, acrescentou logo pelo mesmo profeta e pelos, mesmos termos – que também havia de criar uma nova Jerusalém, isto é, uma nova Igreja, na qual muito se agradasse: Quia ecce creo Jerusalém exultationem, et populum ejus gaudium (12).

Não tenho menos autor deste pensamento que o evangelista dos segredos de Deus, S. João, no seu Apocalipse: Etvidi caelum novum etterram novam. Primum enim caelum, et prima terra abiit, et mare jam non est. Et vidi civitatem Jerusalém novam descendentem de caelo (13). Primeiramente, diz S. João que viu um céu novo e uma terra nova: Vidi caelum novum et terram novam. Esta é a terra nova e o céu novo que Deus tinha prometido por Isaías. Logo, acrescenta o mesmo evangelista, como comentador do profeta, que à vista deste céu novo e desta terra nova, o céu e a terra antiga desapareceram, e que o mar já não era: Primum enim caelum, et prima terra abiit, et mare iam non est – e assim aconteceu no descobrimento do Mundo Novo. Desapareceu a terra antiga, porque a terra dali por diante já não era a que tinha sido, senão outra muito maior, muito mais estendida e dilatada em novas costas, em novos cabos, em novas ilhas, em novas regiões, em novas gentes, em novos animais, em novas plantas. Da mesma maneira o céu também começou a ser outro. Outros astros, outras figuras celestes, outras alturas, outras declinações, outros aspectos, outras influencias, outras luzes, outras sombras, e tantas outras coisas todas outras. Sobretudo o mar, que fora, já não é: Et mare jam non est – porque até então o que se conhecia com nome de mar, e nas mesmas Escrituras se chama mare magnum, era o Mediterrâneo; mas, depois que se descobriu o Mundo Novo, logo se conheceu também que não era aquele o mar, senão braço dele, e o mesmo nome, que injustamente tinha usurpado, se passou sem controvérsia ao oceano, que é só o que por sua imensa grandeza absolutamente, e sem outro sobrenome, se chama mar. E porque toda esta novidade do novo céu, da nova terra e do novo mar, se ordenava à fundação de outra nova Igreja, esta foi a que logo viu o mesmo evangelista, com nome também de nova: Et vidi civitatem Jerusalem novam descendentem de caelo. Finalmente, para que ninguém duvidasse de toda esta explicação, conclui que a mesma Igreja nova que vira se havia de compor de nações e reis gentios, que nela receberiam a luz da fé, e sujeitariam suas coroas ao império de Cristo: Et ambulabunt gentes in lumine ejus ei reges terrae afferent gloriam suam ei honorem in illam (14). Que é tudo o que temos visto no descobrimento do Mundo Novo, ou nesta nova criação dele: Ecce creo caelos novos ei íerram novam.

Houve porém nesta segunda e nova criação do mundo, uma grande diferença da primeira, e de nova e singular glória para a nossa nação. Porque, havendo Deus criado o mundo na primeira criação por si só, e sem ajuda ou concurso de causas segundas, nesta segunda criação tomou por instrumento dela os portugueses, quase pela mesma ordem e com as mesmas circunstâncias, com que no princípio tinha criado o mundo. Quando Deus criou o mundo, diz o sagrado texto que a terra não se via porque estava escondida debaixo do elemento da água, e tudo escuro e coberto de trevas: Terra autem erat invisibilis – como lêem os Setenta et tenebrae erani super faciem abyssi (15). Então dividiu Deus as águas, e apareceu a terra; criou a luz e cessaram as trevas: Divisit aquas; facta est lux; appareat Arida (16). Este foi o modo da primeira criação do mundo. E quem não vê que o mesmo observou Deus na segunda, por meio dos portugueses? Estava todo o Novo Mundo em trevas e às escuras, porque não era conhecido. Tudo o que ali havia, sendo tanto, era como se não fosse nada, porque assim se cuidava e tinha por fábula. Terra autem erat vanitas ei nihil, como diz o texto hebreu (17). O que encobria a terra era o elemento da água, porque a imensidade do Oceano, que estava em meio, se julgava por insuperável, como a julgaram todos os antigos, e entre eles Santo Agostinho. Atreveu-se, finalmente, a ousadia e zelo dos portugueses a desfazer este encanto e vencer este impossível. Começaram a dividir as águas, nunca dantes cortadas, com as venturosas proas dos seus primeiros lenhos: foram aparecendo e surgindo de uma e outra parte, e como nascendo de novo, as terras, as gentes, o mundo que as mesmas águas encobriam, e não só acabaram então no mundo antigo as trevas desta ignorância, mas muito mais no novo e descoberto as trevas da infidelidade, porque amanheceu nelas a luz do Evangelho e o conhecimento de Cri sto, o qual era o que guiava e levava os portugueses, e neles, e com eles navegava. Tudo estava vendo o mesmo profeta Isaías deste descobrimento, quando, falando com aquela nova igreja, pelos mesmos termos da primeira criação do mundo, lhe disse: Quia ecce tenebrae operient terram, ei caligo populos; super te autem orietur Dominus, et gloria ejus in te videbitur. Et ambulabuní gentes in lumine tuo, ei reges in splendore ortus tui(18).

III

Isto é o que fizeram os primeiros argonautas de Portugal, nas suas tão bem afortunadas conquistas do Novo Mundo, e por isso bem afortunadas. Este é o fim para que Deus, entre todas as nações, escolheu a nossa com o ilustre nome de pura na fé, e amada pela piedade. Estas são as gentes estranhas e remotas, aonde nos prometeu que havíamos de levar seu Santíssimo Nome. Este é o império seu, que por nós quis amplificar e em nós estabelecer. E esta é, foi, e será sempre a maior e melhor glória do valor, do zelo, da religião e cristandade portuguesa. Mas quem dissera ou imaginam que os tempos e os costumes se haviam de trocar, e fazer tal mudança, que esta mesma glória nossa se visse entre nós eclipsada, e por nós escurecida? Não quisera passar a matéria tão triste, e tão indigna – que por isso a fui dilatando tanto, como quem rodeia e retarda os passos, por não chegar aonde muito repugna. – Mas nem a força da presente ocasião mo permite, nem a verdade de um discurso, que prometeu ser evangélico, o consente. Quem imaginara, torno a dizer, que aquela glória tão heroicamente adquirida nas três partes do mundo, e tão celebrada e esclarecida em todas as quatro, se havia de escurecer e profanar em um rincão ou arrabalde da América?

Levantou o demônio este fumo ou assoprou este incêndio entre as palhas de quatro choupanas, que com nome da cidade de Belém puderam ser pátria do anticristo. E verdadeiramente que, se as Escritoras nos não ensinaram que este monstro há de sair de outra terra e de outra nação, já pudéramos cuidar que era nascido. Treme, e tem horror a língua de pronunciar o que viram os olhos, mas, sendo o caso tão feio, tão horrendo, tão atroz, e tão sacnlego que se não pode dizer, é tão público e tão notório que se não deve calar. Ouçam, pois, os excessos de tão nova e tão estranha maldade os que só lhe podem pôr o remédio; e se eles – o que se não crê – faltarem à sua obrigação, não é justo, nem Deus o permitirá, que eu falte à minha. O ofício que tive naquele lugar, e o que tenho neste – posto que indigno de ambos – são os que, com dobrado vínculo da consciência, me obrigam a romper o silencio, até agora observado ou suprimido, esperando que a mesma causa, por ser de Cristo, falasse e perorasse por si, e não por ela. Assim o fizeram em semelhantes, e ainda menores casos, os Atanásios, os Basílios, os Nazianzenos, os Crisóstomos, os Hilários, e todos aqueles grandes Padres e mestres da Igreja, cujas ações, como inspiradas e aprovadas por Deus, não só devemos venerar e imitar como exemplos, mas obedecer e seguir como preceitos. Falarei, pois, com a clareza e publicidade com que eles falaram, e provarei e farei certo o que disser, como eles o fizeram, porque, sendo perseguidos e desterrados, eles eram o corpo do delito que acusavam, e eles mesmos a prova. Assim permitiu a divina Providência que eu em tal forma, e as pessoas reverendas de meus companheiros, viéssemos remetidos aos olhos desta corte, para que ela visse e não duvidasse de crer o que doutro modo pareceria incrível.

Quem havia de crer que em uma colônia chamada de portugueses se viesse a Igreja sem obediência, as censuras sem temor, o sacerdócio sem respeito, e as pessoas e lugares sagrados sem imunidade? Quem havia de crer que houvessem de arrancar violentamente de seus claustros aos religiosos, e levá-los presos entre beleguins e espadas nuas pelas ruas públicas, e tê-los aferrolhados, e com guardas, até os desterrarem? Quem havia de crer que com a mesma violência e afronta lançassem de suas cristandades aos pregadores do Evangelho, com escândalo nunca imaginado dos antigos cristãos, sem pejo dos novamente convertidos, e à vista dos gentios atônitos e pasmados? Quem havia de crer que até aos mesmos párocos não perdoassem, e que chegassem aos despojos de suas igrejas, com interdito total do culto divino e uso de seus ministérios: as igrejas ermas, os batistérios fechados, os sacrários sem sacramento enfim, o mesmo Cristo privado de seus altares, e Deus de seus sacrifícios? Isto é o que lá se viu então: e que será hoje o que se vê, e o que se não vê. Não falo dos autores e executores destes sacrilégios, tantas vezes, e por tantos títulos excomungados, porque lá lhes ficam papas que os absolvam. Mas que será dos pobres e miseráveis índios, que são a presa e os despojos de toda esta guerra? Que será dos cristãos? Que será dos catecúmenos? Que será dos gentios? Que será dos pais, das mulheres, dos filhos, e de todo o sexo e idade? Os vivos e sãos sem doutrina, os enfermos sem sacramentos, os monos sem sufrágios nem sepultura, e tanto gênero de almas em extrema necessidade sem nenhum remédio? Os pastores, parte presos e desterrados, parte metidos pelas brenhas; os rebanhos despedaçados; as ovelhas, ou roubadas, ou perdidas; os lobos famintos, fartos agora de sangue, sem resistência; a liberdade por mil modos trocada em servidão e cativeiro; e só a cobiça, a tirania, e sensualidade, e o inferno contentes. E que a tudo isto se atrevessem e atrevam homens com nomes de portugueses, e em tempo de rei português?

Grandes desconcertos se lêem no mesmo capítulo do nosso Evangelho, mas de todos acho eu a escusa nas primeiras palavras dele: In diebus Herodis regis. Se sucederam semelhantes escândalos nos dias de el-rei Herodes, o tempo os desculpava ou culpava menos; mas nos dias daquele monarca, que com o nome e com a coroa herdou o zelo, a fé, a religião, a piedade do grande Afonso I? Oh! que paralelo tão indigno do nome português se pudera formar na comparação de tempo a tempo! Naquele tempo andavam os portugueses sempre com as armas às costas contra os inimigos da fé, hoje tomam as armas contra os pregadores da fé; então conquistavam e escalavam cidades para Deus, hoje conquistam e escalam as casas de Deus; então lançavam os caciques fora das mesquitas, hoje lançam os sacerdotes fora das igrejas; então consagravam os lugares profanos em casas de oração, hoje fazem das casas de oração lugares profanos; então, finalmente, eram defensores e pregadores do nome cristão, hoje são perseguidores e destruidores, e opróbrio e infâmia do mesmo nome.

E para que até a corte e assento dos reis, que lhe sucederam, não ficasse deste paralelo, então saíam pela barra de Lisboa as nossas naus carregadas de pregadores, que voluntariamente se desterravam da pátria para pregar nas conquistas a lei de Cristo, hoje entram pela mesma barra, trazendo desterrados violentamente os mesmos pregadores, só porque defendem nas conquistas a lei de Cristo. Não se envergonhe já a barra de Argel de que entrem por elas sacerdotes de Cristo cativos e presos, pois o mesmo se viu em nossos dias na barra de Lisboa. Oh! que bem empregado prodígio fora neste caso, se, fugindo daquela barra o mar, e voltando atrás o Tejo, lhe pudéssemos dizer, como ao rio e ao mar da terra que então começava a ser santa: Quid est tibi, mare, quodfugisti? Ei tu, Jordanis, quia conversus es retrorsum (19)? Gloriava-se o Tejo quando nas suas ribeiras se fabricavam e pelas suas correntes saíam as armadas conquistadoras do império de Cristo; gloriava-se, digo, de ser ele aquele famoso rio de quem cantavam os versos de Davi: Dominabitur a mari usque ad mare, ai a flumine usque ad terminas orbis terra rum (20); mas hoje, envergonhado de tão afrontosa mudança, devera tornar atrás, e ir-se esconder nas grutas do seu nascimento, se não é que de corrido corre ao mar para se afogar e sepultar no mais profundo dele. Desengane-se, porém, Lisboa que o mesmo mar lhe está lançando em rosto o sofrimento de tamanho escândalo, e que as ondas, com que escumando de ira batem as suas praias, são brados com que lhe está dizendo as mesmas injúrias que antigamente a Sidônia: Erubesce, Sidon, ah mare (21).

E não cuide alguém que estas vozes de tão justo sentimento nascem de estranhar eu ou me admirar de que os pregadores de Cristo e o mesmo Cristo seja perseguido, porque esta é a estrela em que o mesmo Senhor nasceu: Cum natus esset Jesus in Bethlehem Juda in diebus Herodis regis. Ainda Cristo não tinha quinze dias de nascido, quando já Herodes tinha poucos menos de perseguidor seu, para que a perseguição e o perseguido nascessem juntos. E não só nasceu Cristo com estrela de perseguido em Belém, senão em todas as partes do mundo, porque em todas teve logo seu Herodes que o perseguisse. Vou supondo, como verdadeiramente é, que Cristo não só nasceu em Belém, mas que nasceu e nasce em outras muitas partes, como há de nascer em todas. Por isso o profeta Malaquias, muito discretamente, comparou o nascimento de Cristo ao nascimento do sol: Orietur vobis Sol justitiae (22). O sol vai nascendo sucessivamente a todo o mundo, e, ainda que a umas terras nasça mais cedo, a outras mais tarde, para cada terra tem seu nascimento. Assim também Cristo, verdadeiro sol. A primeira vez nasceu em Belém, depois foi nascendo sucessivamente por todo o mundo, conforme o foram pregando os apóstolos e seus sucessores: a umas terras nasceu mais depressa, a outras mais devagar, a umas muito antes, a outras muito depois, mas para todas teve seu nascimento. É a energia com que falou o anjo aos pastares: Natus est vobis hodie Salvator (Lc. 2,11): Nasceu hoje para vós o Salvador – como se dissera: Hoje nasceu para vós; os outros, também, terão seu dia em que há de nascer para eles. – Assim havia de ser, e assim foi, e assim tem nascido Cristo em diferentes tempos em tão diversas partes do mundo, mas em nenhum tempo, e em nenhuma parte nasceu onde logo não tivesse um Herodes que o perseguisse.

Viu S. João no Apocalipse aquela mulher celestial vestida de sol, a qual estava em vésperas do parto, e diz que logo apareceu diante dela um dragão feroz e armado, o qual estava aguardando que saísse à luz o filho para o tragar e comer: Et draco stetit ante mulierem, quae eratparitura: utcumpeperisset,fihium ejus devoraret(23). Que mulher, que filho, e que dragão é este? A mulher foi a Virgem Maria, e é a Igreja. O Filho foi e é Cristo, que assim como a primeira vez nasceu da Virgem Santíssima, assim nasceu e nasce muitas vezes da Igreja, por meio da fé e pregação de seus ministros em diversas partes do mundo. E o dragão que apareceu com a boca aberta para o tragar, tanto que nascesse, é cada um dos tiranos que logo mesmo Crista tem armados contra si, tanto que nasce, e onde quer que nasce. De maneira que não há nascimento de Cristo sem o seu perseguidor ou o seu Herodes. Nasceu Cristo em Roma, pela pregação de S. Pedro, e logo se levantou um Herodes, que foi o imperador Nero, o qual crucificou ao mesmos. Pedro. Nasceu Cristo em Espanha, pela pregação de S. Tiago, e logo se levantou outro Herodes, que foi el-rei Agripa, o qual degolou ao mesmo S. Tiago. Nasceu Cristo em Etiópia, pela pregação de S. Mateus, e logo se levantou outro Herodes, que foi el-rei Hirtaco, o qual tirou, também, a vida ao mesmo S. Mateus, e, estando sacrificando o corpo de Cristo, o fez vítima de Cristo, E para que dos exemplos do Mundo Velho passemos aos do Novo, nasceu Cristo no Japão, pela pregação e milagres de S. Francisco Xavier, e lago se levantaram, não um, senão muitos Herodes, que foram os Nabunangas e Taicozamas, os quais tanta sangue derramaram, e ainda derramam, dos filhos e sucessores do mesmo Xavier. Finalmente, nasceu Cristo na conquista do Maranhão, que foi a última de todas as nossas, e para que lhe não faltassem naquele Belém e fora dele os seus Herodes, se levantaram agora e declaram contra Cristo em si mesmo, e em seus pregadores, os que tão ímpia e barbaramente, não sendo bárbaros, o perseguem. Assim que não é coisa nova, nem matéria digna de admiração, que Cristo e os pregadores de sua fé sejam perseguidos.

O que, porém, excede toda o espanto, e se não pode ouvir sem horror e assombro, é que as perseguidores de Cristo e seus pregadores neste casa não sejam os infiéis e gentios, senão os cristãos. Se os gentios indômitos, se as tapuias bárbaros e feras daquelas brenhas se armaram medonhamente contra as que lhes vão pregar a fé, se os cobriram de setas, se os fizeram em pedaços, se lhes arrancaram as entranhas palpitantes, e as lançaram no fogo, e as comeram, isso é o que eles já têm feito outras vezes, e a que lá vão buscar os que pelas salvar deixam tudo; mas que a estes homens, com o caráter de ministras de Cristo, os persigam gentilicamente os cristãos, quando essas mesmas feras se lhes humanam, quando esses mesmos bárbaros se lhes rendem, quando esses mesmos gentios os reverenciam e adoram, este é o maior extrema de perseguição, e a perseguição, mais feia e afrontosa que nunca padeceu a Igreja. Nas perseguições dos Neros e Dioclecianos os gentios perseguiam os mártires, e as cristãos as adoravam; mas nesta perseguição nova e inaudita, os cristãos são os que perseguem os pregadores, e os gentios as que os adoram. Só na perseguição de Herades e na paciência de Cristo se acham juntos estes extremos. No Evangelho temos a Cristo hoje perseguido, e hoje adorada, mas de quem adorado, e de quem perseguido? Adorado dos gentios, e perseguida dos cristãos, adorado das Magos, que eram gentios, e perseguido de Herodes e de toda a Jerusalém, que eram os cristãos daquele tempo.

Ninguém repare em eu lhes chamar cristãos, parque há cristãos de fé e cristãos de esperança. Os filhos da Igreja somos cristãos de fé, parque cremos que Cristo já veio; os filhos da sinagoga eram cristãos de esperança, parque criam e esperavam que Cristo havia de vir. E que homens que criam em Cristo, e esperavam por Cristo, e eram da mesma nação e do mesmo sangue de Cristo, persigam tão barbaramente a Cristo, e que no mesmo tempo, para maior escândalo da fé e da natureza, os Magos o busquem, os gentios o creiam, os idólatras o adorem? Bendito sejais, Senhor, que tal contradição quisestes padecer, e bendito mil vezes pela parte que vos dignastes comunicar dela aos que tão indignamente vos servem: não debalde nos honrastes com o nome de Companhia de Jesus, obrigando-nas a vos fazer companhia no que padecestes nascido debaixo do mesmo nome: Cum natus esset Jesus in Bethlehem Juda. Vós em Belém de Judá, para que os vossos perseguidores fossem da vossa mesma nação, nós em Belém, não de Judá, para que os nossos fossem, também, da nossa; vós na mesma terra, e no mesma tempo perseguida de Herodes e adorado dos Magos, e nós também por mercê vossa, no mesmo tempo e na mesma terra perseguidos dos cristãos, e pouca menos que adorados dos gentios! Assim a experimentam hoje os que, par escapar à perseguição, andam fugitivos por aquelas brenhas, se bem fugitivas não por medo dos homens, senão por amor de Cristo e por seguir seu exemplo. Daqui a poucas dias veremos fugir a Cristo; mas de quem e para quem? De onde e para onde? Não se pudera crer, se a não mandara Deus e o dissera um anjo: Fuge in Aegyptum (Mt. 2,13): Fugi para a Egito. Pois, de Israel para a Egito, da terra dos fiéis para a terra das gentios, e para a terra daqueles mesmos gentios donde antigamente fugiram os filhas de Israel? Sim. Que tão mudados estão os tempos e as homens, e a tanto chega a força da perseguição. Futurum est enim ut Herodes quaerat puerum ad perdendum eum (24). Foge Cristo, e fogem as pregadores de Cristo das fiéis para os infiéis e dos cristãos para os gentios, porque os cristãos os desterram, e os gentios os amparam, porque os cristãos os maltratam e as gentios as defendem, porque os cristãos os perseguem e os gentios os adoram.

Não foi grande maravilha que José, presa e vendido de seus próprios irmãos, os egípcios a venerassem e estimassem tanta e abaixa de seu rei o adorassem? Pois, muito maior é a diferença que hoje experimentam entre aqueles gentios os venturosos homiziados da fé, que, escapando das prisões dos cristãos se retiraram para eles. Os egípcios, ainda que gentios, eram homens; aqueles gentios, que hoje começam a ser homens, ontem eram feras. Eram aqueles mesmos bárbaros, ou brutos, que sem uso da razão, nem sentido de humanidade, se fartavam de carne humana; que das caveiras faziam taças para lhes beber o sangue, e das canas dos ossos frautas para festejar os convites. E estas são hoje as feras que, em vez de nos tirarem a vida, nos acolhem entre si, e nos veneram coma os leões a Daniel; estas as aves de rapina que, em vez de nos comerem, nos sustentam como os corvos a Elias; estes os monstros – pela maior parte marinhos – que, em vez de nos tragar e digerir, nos metem dentro nas entranhas, e nelas nos conservam vivos, cama a baleia a Jonas. E se assim nos tratam os gentios, e tais gentios, quando assim nos tratam os cristãos, e cristãos da nossa nação e do nosso sangue, quem se não assombra de uma tão grande diferença?

IV

Veja que estão dizendo dentro de si todos os que me ouvem, e tanta mais quanta mais admiradas desta mesma diferença que tão grandes efeitos não podem nascer senão de grandes causas. Se os cristãos perseguem os pregadores da fé, alguma grande causa têm para os perseguir. E se os gentios tanto os amam e veneram, alguma causa têm, também grande, para os venerar e amar. Que causas serão estas? Isto é o que agora se segue dizer. E se alguma vez me destes atenção, seja para estes dois pontos

Começando pelo amar e veneração dos gentios, aquela estrela que trouxe os Magos a Cristo era uma figura celestial e muito ilustre dos pregadores da fé. Assim o diz S. Gregório, e os outros padres camumente mas a mesma estrela o disse ainda melhor. Que ofício foi o daquela estrela? Alumiar, guiar e trazer homens a adorar a Cristo, e não outros homens, senão homens infiéis e idólatras, nascidos e criados nas trevas da gentilidade. Pois, esse mesmo é a ofício e exercício, não de quaisquer pregadores, senão daqueles pregadores de que falamos, e por isso propriamente estrelas de Cristo. Repara muito S. Máximo, em que esta estrela, que guiou os magos, se chame particularmente estrela de Cristo: Stella ejus e argúi assim: Todas as outras estrelas não são, também, estrelas de Cristo, que como Deus as criou? Sim, são. Pois, por que razão esta estrela, mais que as outras, se chama especialmente estrela sua: Stella ejus? Porque as outras estrelas foram geralmente criadas para tochas do céu e do mundo: esta foi criada especialmente para pregadora de Cristo: Quia quamvis omnes ab eo creatae stellae ipsius sint, haec tamen propna Christi erat, quia specialiter Christi nuntiabat adventum. – Muitas outras estrelas há naquele hemisfério muito claras nos resplendores e muita úteis nas influências, coma as do firmamento, mas estas de que falamos são própria e especialmente de Cristo, não só pelo nome de Jesus, com que se professam por suas, mas porque afim, a instituto e o ofício para que foram criadas, é o mesmo que o da estrela dos Magos, para trazer infiéis e gentios à fé de Cristo. Ora, se estas estrelas fossem tão diligentes, tão solícitas e tão pontuais em acompanhar, e guiar, e servir aos gentios, como a que acompanhou, guiou e serviu aos Magos, não teriam os mesmos gentios muita razão de as quererem e estimarem, de sentirem muita sua falta, e de se alegrarem e consolarem muita com sua presença? Assim o fizeram os Magos, e assim o diz o evangelista, não acabando de encarecer este contentamento: Videntes autem stellam, gavisi sunt gaudio magno valde (25). Pois, vamos agora seguindo os passas daquela estrela, desde o oriente até ao presépio, e veremos como as que hoje vemos tão mal vistas e tão perseguidas, não só imitam e igualam em tudo a estrela dos Magos, mas em tudo a excedem com grandes vantagens.

Primeiramente, dizemos Magos que onde viram a estrela foi no Oriente: Vidimus stellam ejus in oriente (26). De maneira que, podendo a estrela ser vista de muito longe, como se vêem as outras estrelas, ela as foi buscar à sua terra. Nesta diligência e neste caminho se avantajou muito a estrela dos Magos aos anjos que apareceram aos pastares. Os anjos também alumiaram aos pastares: Claritas circumfulsit illos (27) e também lhes anunciaram a nascimento de Cristo: Evangelizo vobis gaudium magnum, quia natus est vobis adie Salvator (28) mas essa luz e esse Evangelho, aonde o levaram os anjos? Não às terras do Oriente ou a outras remotas, como a estrela, mas a quatro passas da cidade de Belém, e nos mesmos arrabaldes dela, um trânsito muito breve: Transeamus usque Bethlehem (29). E quanto vai de Belém ao Oriente, tanto vai de um evangelizar a outro. Isto é, comparando a estrela com os anjos, e muito mais se a compararmos com os mesmos pastares. Estes pastores de Belém são os mais celebrados da Igreja, e os que ela alega por exemplo e propõe por exemplar aos pastares das almas. Mas que fizeram ou que faziam estes bons pastores? Pastares erant in regione eadem custodientes vigilias noctis super gregem suum (30). Eram tão vigilantes e cuidadosos do seu gado, que com ser a meia noite não dormiam, senão que o estavam guardando e velando sobre ele. Muita bem. Mas não sei se advertis o que nota o evangelista acercada lugar e acerca do gado. Acercada lugar diz que estavam na mesma região: Et pastares erant in regione eadem e, acercado gado, diz que as ovelhas eram suas: super gregem suum. E em ambas estas coisas consiste a vantagem que lhes fez a estrela. Os pastares estavam na sua região, e a estrela foi a regiões estranhas: eles guardavam as ovelhas suas, e ela foi buscar ovelhas para Cristo. E guardar as suas ovelhas na sua região, ou ir buscar ovelhas para Cristo a regiões estranhas, bem se vê quanto vai a dizer.

Mas, ainda que tudo isto fez a estrela dos Magos, faltou-lhe muito para se igualar com as nassas estrelas. Ela foi buscar gentios a uma região remota, mas distante somente treze dias de caminho: as nossas vão buscá-los em distância de mais de mil léguas de mar e por rios, que só o das Almazonas, sem se lhe saber nascimento, tem quatro mil de corrente. A estrelados Magos nunca saiu do seu elemento: as nossas vão já no da terra, já no água, já no do ar, e dos ventos, suportam os perigos e rigores de todos. A dos Magos caminhou da Arábia à Mesopotâmia sempre dentro dos mesmos horizontes: as nossas vão do última cabo da Europa ao mais interior da América, dando volta a meio mundo, e passando deste hemisfério aos antípodas. Finalmente – para que ajuntemos à distância a diferença das terras – a estrela dos Magas ia com eles para a Terra de Promissão, a mais amena e deliciosa que criou a natureza: as nossas desterram-se para toda a vida em companhia de degradados, não coma eles, para as colônias marítimas, onde os ares são mais benignos, mas para os sertões habitadas de feras e minados de bichas venenosos, nos climas mais nocivos da zona tórrida, Não é porém este o maior trabalho.

Vidimus stellam ejus (31). Perguntam aqui os intérpretes porque mandou Cristo aos Magos uma estrela, e não um anjo ou um profeta? Os profetas são as embaixadores ordinários de Deus: os anjos os extraordinários, e tal era esta embaixada. Por que não mandou logo Cristo aos Magas um anjo ou um profeta, senão uma estrela? A razão foi – dizem todos – porque era conveniente que aos Magos se enviasse um embaixador que lhes falasse na sua própria língua. Os Magos eram astrólogas: a língua por ande os astrólogas entendem o que diz o céu são as estrelas, e tal era essa mesma estrela, à qual chama Santo Agostinho lingua coeli, língua do céu: pois vá uma estrela aos Magas, para que ela lhes fale na língua que eles entendem. Se eu não entendo a língua do gentio, nem o gentio entende a minha, como hei de converter e trazer a Cristo? Por isso temas por regra e instituto aprender todas a língua ou línguas da terra ande imos pregar, e esta é a maior dificuldade e o maior trabalho daquela espiritual conquista, e em que as nossas estrelas excedem muito a dos Magas. Notai. Os Magas entendiam a língua da estrela, e o que ela lhes dizia; mas par que a entenderam? Porque, coma astrólogas que eram, pelos livros dos caldeus sabiam que aquela estrela era nova e nunca vista, e como discípulos que também eram de Balaão sabiam pelos livros da Escritura que uma estrela nova, que havia de aparecer, era sinal da vinda e nascimento do Messias, descendente de Jacó: Orietur stella ex Jacob(32) – : e por esta ciência adquirida com dobrado estudo puderam alcançar e entender a que a estrela significava e lhes dizia. Cá não é assim, senão às avessas. Lá, para entender a estrela, estudavam os Magos; cá, para entendera gentio, hão de estudar as estrelas. Nós que os imos buscar somas os que lhes havemos de estudar e saber a língua. E quanta dificuldade e trabalho seja haver de aprender um europeu, não com mestres e com livras, cama os Magas, mas sem livro, sem mestre, sem princípio, e sem documento algum, não uma, senão muitas línguas bárbaras, incultas e hórridas: só quem o padece, e Deus por quem se padece, o sabe.

Quando Deus confundiu as línguas na torre de Babel, ponderou Filo Hebreu, que todos ficaram mudos e surdos, porque, ainda que todos falavam e todas ouviam, a nenhum entendia o outro. Naantiga Babel houve setenta e duas línguas: na Babel do ria das Almazonas já se conhecem mais de cento e cinqüenta, tão diversas entre si coma a nossa e a grega; e assim, quando lá chegamos, todos nós somas mudos, e todos eles surdos. Vede, agora, quanto estuda e quanto trabalha será necessário, para que estes mudos falem e estes surdos ouçam. Nas terras dos tírias e sidônios, que também eram gentios, trouxeram a Cristo um mudo e surdo para que o curasse, e diz S. Marcos que o Senhor se retirou com ele a um lugar apartado, que lhe meteu os dedos nos ouvidos, que lhe tocou a língua com saliva tirada da sua, que levantou as alhos ao céu e deu grandes gemidos, e então falou o mudo e ouviu o surda: Apre hendens eum de turba seorsum, misit digitos suas in auriculas ejta expuens, tetigit linguam ejus: et suspiciens in caelum, ingemuit, et ait illi Ephpheta, quod est adaperire (33). Pois, se Cristo fazia os outros milagres tão facilmente, este de dar fala ao mudo e ouvidos ao surda, como lhe custa tanto trabalho e tantas diligências? Porque todas estas são necessárias a quem há de dar língua a estes mudos, e ouvidos a estes surdos. É necessário tomara bárbaro à parte, e estar e instar com ele muito só por só, e muitas horas, e muitos dias; é necessário trabalhar comas dedos, escrevendo, apontando e interpretando por acenos o que se não pode alcançar das palavras; é necessário trabalhar com a língua, dobrando-a e torcendo-a, e dando-lhe mil voltas para que chegue a pronunciaras acentos tão duros e tão estranhos; é necessário levantaras olhos ao céu, uma e muitas vezes com a oração, e outras quase com desesperação; é necessário, finalmente, gemer, e gemer com toda a alma: gemer com o entendimento, parque em tanta escuridade não vê saída, gemer com a memória, porque em tanta variedade não acha firmeza, e gemer até com a vontade, por constante que seja, porque no aperto de tantas dificuldades desfalece, e quase desmaia. Enfim, com a pertinácia da indústria, ajudado da graça divina, falamos mudos e ouvem os surdos, mas nem por isso cessam as razões de gemer, porque, como trabalho deste milagre ser tão semelhante ao de Cristo, tem mui diferente ventura, e mui outra galardão do que ele teve. Venda as circunstantes aquele milagre, começaram a aplaudir e dizer: Bene omnia fecit: et surdos fecit audire, et mutos 1oqui (34): não há dúvida que este profeta tudo faz bem, porque faz ouvir os surdos e falar os mudas. – De maneira que a Cristo bastou-lhe fazer falar um muda e ouvir um surda, para dizerem que tudo fazia bem feito, e a nós não nos basta fazer o mesmo milagre em tantos mudas e tantos surdos, para que nos não tenham por malfeitores. Mas vamos seguindo a estrela.

Quando os Magos chegaram à vista de Jerusalém, esconde-se a estrela e esta foi a mais bizarra ação, e a mais luzida que eu nela considero. Basta, luzeiro celestial, que sois estrela de reis, e escondei-vos e fugis da corte? Ainda não entrastes nela, e já a conheceis? Mas, bem mostrais quanta tendes de Deus e quanto o quereis servir e louvar todas as estrelas, como diz Davi, louvam a Deus: Laud ate eum, omnes stellae et lumem (35): – mas o mesmo Deus disse a Jó que as louvares das estrelas da manhã eram os que mais lhe agradavam: Cum me laudarent astra matutina (36). E parque agradam mais a Deus os louvares das estrelas da manhã, que os das estrelas da noite? Porque as estrelas da noite louvam a Deus luzindo, as estrelas da manhã louvam a Deus escondendo-se; as estrelas da noite comunicam as influências, mas conservam a luz, as estrelas da manhã perdem a luz para melhor lograr as influências; enfim, as estrelas da noite luzem, parque estão mais longe do sol: as estrelas da manhã escondem-se, porque esta o mais peito. Isto é o que fez a estrelados Magos, mas por poucas horas: as nossas por toda a vida. A estrela dos Magas, quando se escondeu, não luziu, mas não alumiou: as nossas escondem-se onde alumiam, e não luzem; a dos Magas alumiava, onde aviamos reis: Vidimus stellam ejus – as nossas alumiam onde não são vistas, nem o podem ser: no lugar mais desluzido, e no canto mais escuro de todo o mundo. E isto é verdadeiramente esconder-se porque não é só desterrar-se para sempre, mas enterrar-se.

Assim esteve escondida a estrela, enquanto os Magas se detiveram em Jerusalém; mas, tanto que saíram para continuar seu caminho, logo tomou a se descobrir e aparecer: Ei ecce stella, quam viderant in Oriente, antecedebat eos (37). Reparai na antecedebat. Ia a estrela adiante, mas de tal maneira diante, que sempre se acomodava e em tudo ao passo dos que guiava. Ambulante Mago stella ambulaí, sedente sial, dormiente excubat, diz S. Pedro Crisólogo: Quando as Magos andavam, andava a estrela; quando se assentavam, parava; quando dormiam, velava, mas dava um passo mais que eles. – Pudera a estrela fazer todo aquele caminho do Oriente ao Ocidente em dois momentos: Sicut fulgur exit ab Oriente, ei parei usque ad occidentem (38). E que ela, contra a sua velocidade natural, já movendo-se vagarosa e tardamente, já parando e ficando imóvel, se fosse acomodando e medindo em tudo com a condição e fraqueza daqueles a quem guiava, quanto, quando, e como eles podiam, grande violência! e mais se levantasse os olhos ao firmamento, e visse que as outras do seu nome davam volta ao mundo em vinte e quatro horas, e ela quase parada. Mas assim faz e deve fazer quem tem por ofício levar almas a Cristo. Aqueles quatro animais do carro de Ezequiel, que olhavam para as quatro partes do mundo, e significavam as quatro evangelistas, todos tinham asas de asas de águia, mas nota o texto que os pés com que andavam eram de boi: Et planta pedis eorum quasi plana pedis vituli (39). E que se haja de mover a passa de boi quem tem asas e asas de águia? Sim, que isso é ser evangelista, isso é ter ofício de levar o Evangelho a gentes estranhas, e isso é o que fez a estrela: antecedebat eos.

Mas estes – eos – quem eram? Aqui está a diferença daquela estrela às nossas. A estrela dos Magos acomodava-se aos gentios que guiava, mas esses gentios eram os Magos do Oriente, os homens mais sábios da Caldéia, e os mais doutos do mundo; porém as nossas estrelas, depois de deixarem as cadeiras das mais ilustres Universidades da Europa – como muitos deles deixaram – acomodam-se à gente mais sem entendimento e sem discurso, de quantas criou, ou abortou a natureza, e a homens, de quem se duvidou se eram homens, e foi necessário que os Pontífices definissem que eram racionais, e não brutos. A estrela dos Magos parava, sim, mas nunca tornou atrás; as nossas estrelas tomam uma e mil vezes a desandar o já andado, e a ensinar o já ensinado, e a repetir o já aprendida, porque o bárbaro boçal e rude, o tapuia cerrado e bruta, como não faz inteira entendimento, não imprime nem retém na memória. Finalmente, para o dizer em uma palavra, a estreladas Magas guiava a homens que caminhavam nos dromedários de Madiã, coma anteviu Isaías: Dromedarii Madian et Epha; omnes de Saba venient, aurum ei thus deferentest(40) – e acomodar-se ao passo dos dromedários de Madiã, ou ao sono das preguiças do Brasil, bem se vê a diferença.

Ainda a palavra eos nos insinua outra, que se não deve passar em silêncio. A estrela, guia e pregadora dos Magos, converteu e trouxe a Cristo almas de gentios: mas de que gentios e que almas? Almas ilustres, almas coroadas, almas de gentios reis: as nassas estrelas também trazem a Cristo, e convertem almas, mas almas de gente onde nunca se viu cetro, nem coroa, nem se ouviu o nome de rei. A língua geral de toda aquela costa carece de três letras: F, L, R: De F, porque não tem fé, de L, porque não tem lei, de R, porque não tem rei: e esta é a polícia, da gente com que tratamos. A estrela dos Magos fez sua missão entre púrpuras e brocadas, entre pérolas e diamantes, entre âmbares e calambucos, enfim, entre os tesouros e delícias do Oriente: as nossas estrelas fazem as suas missões entre as pobrezas e desamparos, entre os ascos e as misérias da gente mais inculta, da gente mais pobre, da gente mais vil, da gente menos gente de quantos nasceram no mundo. Uma gente com quem meteu tão pouca cabedal a natureza, com quem se empenhou tão pouca a arte e a fortuna, que uma árvore lhe dá o vestido e o sustento, e as armas, e a casa e a embarcação. Com as folhas se cobrem, com o fruto se sustentam, com os ramos se armam, com o tronco se abrigam, e sobre a casca navegam. Estas são todas as alfaias daquela pobríssima gente, e quem busca as almas destes carpas busca só almas. Mas, porque o mundo não sabe avaliar esta ação, como ela merece, ouça o mesmo mundo o preço em que a estimou quem só a pode pagar.

Quando o Batista mandou seus discípulas que fossem perguntar a Cristo se era ele o Messias, a resposta do Senhor foi esta: Euníes renuntiate Joanni quae audistis, ei vidistis (Mt. 11,4): Ide, dizei a João a que vistes e ouvistes. – E que é o que tinham visto e ouvida? O que tinham visto era que os cegas viam, os mancos andavam, os leprosas saravam, os mortos ressuscitavam: Caeci vident, claudi ambulant, leprosi mundantur, moriui resurgunt (Mt. 11,5). E não bastavam todos estes milagres vistos, para prova de ser Cristo o Messias? Sim, bastavam; mas quis o Senhor acrescentar ao que tinham visto o que tinham ouvido, porque ainda era maior prova, e mais certa. O que tinham ouvido os discípulos do Batista ora que o Evangelho de Cristo se pregava aos pobres: Pau peres evangelizaniur (41), e esta foi a última prova com que o Redentor do mundo qualificou a verdade de ser ele o Messias, porque pregar o Evangelho aos pobres, aos miseráveis, aos que não têm nadado mundo, é ação tão própria do espírito de Cristo, que depois do testemunho de seus milagres a pôs o Filha de Deus par selo de todos eles. O fazer milagres, pode-o atribuir a malícia a outro espírito: o evangelizar aos pobres nenhuma malícia pode negar que é espírito de Cristo.

Finalmente, acabou a estrela o seu curso: parou; mas onde foi parar? Usque dunz veniens starei supra, ubi erat puer (42). Foi parar em um presépio, ande estava Cristo sobre palhas, e entre brutos, e alio deu a conhecer: Oh! que estrela tão santa e tão discreta! Estrela que não quer aparecer em Jerusalém, e se vai parar no presépio; estrela que antes quer estas em uma choupana com Cristo, que em uma corte sem ele? Discreta e santa estrela, outra vez! Discretas e mais santas as nossas. A razão é clara. Cristo naquele tempo estava no Presépio, mas não estava na corte de Jerusalém; de sorte que, se a estrela quisesse ficar na corte, havia de ficar sem Cristo. Nas cortes da cristandade não é assim. Em todas as cortes está Cristo, e em todas se pode estar com Cristo. Agora vai a diferença e a vantagem. Trocar Jerusalém pelo presépio, e querer antes estar em uma choupana com Cristo, que em uma corte, sem ele, não é fineza, é obrigação: e isto fez a estrela dos Magos. Mas querer antes estar no presépio com Cristo que em Jerusalém com Cristo, querer antes estar na choupana com Cristo entre brutos, que na corte com Cristo entre príncipes; isto é não só deixar a corte pelo presépio, senão deixar a Cristo por Cristo, e o seu maior serviço pelo menor: deixar a Cristo onde está acompanhado, para a acompanhar onde está só: deixa a Cristo onde está servido, para o servir onde está desamparado; deixar a Cristo onde e conhecido, para o dar a conhecer ande o não conhecem.

A estrela dos Magos também deu a conhecer a Cristo: mas a quantos homens, e em quanto tempo? A três homens, e em dois anos. Esta foi a razão por que Herodes mandou matar todos os inocentes de dois anos para baixa, conforme o tempo em que a estrela tinha aparecido aos Magos: Secundum íem pus, quod exquisierat a Magi (43). Vede, agora, quanto vai daquela estrela às nossas estralas, e da sua missão às nossas. Deixadas as mais antigas, fizeram-se ultimamente duas, uma pelo Rio dos Tocantins, outra pela das Almazonas: e com que efeito? A primeira reduziu e trouxe a Cristo a nação dos Tupinambás, e a dos pochiguaras; a segunda pacificou e trouxe à mesma fé a nação das neengaíbas e a dos mamaianazes; e tudo isto em espaço de seis meses. De maneira que a estrela dos Magos em dois anos trouxe a Cristo três homens, e as nossas em meio ano quatro nações. E como estes pregadores da fé por ofício, por instituto, por obrigação, e por caridade, e pelo conhecimento e fama geral que têm entre aqueles bárbaros, os vão buscar tão longe com tanto zelo, e lhes falam em suas próprias línguas com tanto trabalho, e se acomodam à sua capacidade com tanta amor, e fazem por eles tantas outras finezas, que até nos brutos animais costumam achar agradecimentos, não é muito que eles os amem, que eles os estimem, que eles os defendam, e que antes ou depois de conhecerem e adorarem a Cristo, quase os adorem.

V

Agora se segue, em contraposição admirável ou estupenda – e por mais digna de atenção – ver as cansas por que as cristãos perseguem, aborrecem e lançam de si estes mesmos homens. Perseguirem os cristãos a quem defendem os gentios, aborrecerem os do próprio sangue a quem amam os estranhos, lançarem de si os que têm uso da razão a quem recolhem, abraçam, e querem consigo os bárbaros, coisa era incrível, se não estivera tão experimentada e tão vista. E, suposto que é assim, qual pode ser a causa? Com serem tão notáveis as efeitos, ainda a causa é mais notável. Toda a causa de nos perseguirem aqueles chamados cristãos, é porque fazemos pelos gentios o que Cristo fez pelos Magas: Procid entes adoraverunt eum. Etresponsoacceptone redirentadHerodem, per aliam viam reversi suntin regionem suam (44). Toda a providência divina para com os Magos consistiu em duas ações: primeira, em os trazer aos pés de Cristo por um caminho; segunda, em os livrar das mãos de Herudes por outro. Não fora grande sem-razão, não fora grande injustiça, não fora grande impiedade trazer os Magos a Cristo, e depois entregá-los a Herudes? Pois, estas são as culpas daqueles pregadores de Cristo, e esta única causa porque se vêem, e os vedes tão perseguidos. Querem que tragamos os gentios à fé, e que os entreguemos à cobiça; querem que tragamos as ovelhas ao rebanho, e que as entreguemos ao cutelo; querem que tragamos os Magos a Cristo, e que os entreguemos a Herodes. E porque encontramos esta sem-razão, nós somos os desanuzoados; porque resistimos a esta injustiça, nós somos os injustos; porque contradizemos esta impiedade, nós somos os ímpios.

Acabe de entender Portugal que não pode haver Cristandade nem cristandades nas conquistas, sem os ministros do Evangelho terem abertos e livres estes dois caminhos, que hoje lhes mostrou Cristo. Um caminho para trazerem os Magos à adoração, e outra para os livrarem de perseguição, um caminho para trazerem os gentios à fé, outro para os livrare tirania um caminho para lhes salvarem as almas, outro para lhes libertarem os corpos. Neste segundo caminho está toda a dúvida, porque nele consiste toda a tentação. Querem que aos ministros do Evangelho pertença só a cura das almas, e que a servidão e cativeiro dos corpos seja dos ministros do Estado. Isto é o que Herodes queria. Se o caminho, por onde se salvaram os Magos, estivera à conta de Herodes, muito boa conta daria deles: a que deu dos Inocentes. Não é esse o governo de Cristo. A mesma Providência, que teve cuidado de trazer os Magos a Cristo por um caminho, essa mesma teve o cuidado de os livrar e pôr em salvo por outro; e querer dividir estes caminhos e estes cuidados é querer que não haja cuidado nem haja caminho. Ainda que um destes caminhos pareça só espiritual, e o outro temporal, ambos pertencem à Igreja e às chaves de S. Pedro, porque por um abrem-se as portas do céu, e por outro fecham-se as do inferno. As igrejas novas hão de se fundar e estabelecer, como Cristo fundou e estabeleceu a Igreja universal, quando também era nova. Que disse Cristo a S. Pedro? Super hanc petram aedqicabo ecclesiam meams libi dabo claves regni caelorum: et portae inferi praevalebunt adversus eam(45). Que importa que Pedro tenha chaves das portas do céu, se prevalecerem contra ele, e contra a Igreja as portas do inferno? Isto não é fundar nova Igreja, é destruí-la em seus próprios fundamentos.

Não sei se reparais em que deu Cristo a S. Pedro não só chave, senão chaves: Jibi dabo claves. Para abrir as portas do céu bastava uma só chave: pois, por que lhe dá Cristo duas? Porque assim como há caminhos contra caminhos, assim há portas contra portas: Portae inferi non praevalebuntadversus eam. Há caminhos contra caminhos, porque um caminho leva a Cristo, e outro pode levar a Herodes; e há portas, contra p porque umas são as portas do céu, e outras as portas do inferno, que o encontram. Por isso, é necessário que as chaves sejam duas, e que ambas estejam na mesma mão. Uma com que Pedro possa abrir as portas do céu, e outra com que possa aferrolhar as portas do inferno; uma com que possa levar os gentios a Cristo, e outra com que os possa defender do demônio, e seus ministros. E toda a teima do mesmo demônio e do mesmo inferno, é que estas chaves e estes poderes se dividam, e que estejam em diferentes mãos.

Não o entenderam assim os senhores reis que fundaram aquelas cristandades, e todas as das nossas conquistas, os quais sempre uniram um e outro poder, e o fiaram somente dos ministros do Evangelho; e a razão cristã ou política que para isso tiveram foi por terem conhecido e experimentado que só quem converte os gentios, os zela e os defende, e que, assim como dividir as almas dos corpos é matar, assim dividir estes dois cuidados é destruir. Por isso estão destruídas e desabitadas todas aquelas terras em tão poucos anos, e de tantas e tão numerosas povoações, de que só ficaram os nomes, não se vêem hoje mais que ruínas e cemitérios. Necessário é, logo, não só para o espiritual, senão também para o temporal das conquistas, que os mesmos que edificam aquelas novas igrejas, assim como têm o zelo e a arte para as edificar, tenham juntamente o poder para as defender. Quando os israelitas reedificavam o templo e a cidade de Jerusalém, diz a Escritura Sagrada que cada um dos oficiais com uma mão fazia a obra, e na outra tinha a espada: Una manufaciebat opus, et altera tenebat gladium (2 Esdr. 4,17). Pois, não era melhor trabalhar com ambas as mãos, e fariam muito mais? Melhor era, mas não podia ser, porque naquela mesma terra moravam os samaritanos, os quais, ainda que diziam que criam em Deus, resistiam e faziam cruel guerra à edificação do Templo; e, como aos israelitas lhes impediam a obra, era força fazê-la com uma mão e defendê-la com a outra, sob pena de não ir a fábrica por diante. O mesmo lhes acontece aos edificadores daquelas novas igrejas. Muito mais se obraria nelas, se não fosse entre amigos e entre homens de meia fé, quais eram os samaritanos. Mas, como estes com todas as forças do seu poder ou do poder que não é nem pode ser seu – impedem o edifício, é necessário trabalhar e juntamente defender. E se os mesmos trabalhadores não tiverem espada com que defendam o que trabalham, não só parará, como está parada a obra, mas perder-se-á, como se vai perdendo, quanto com tanto trabalho se tem obrado.

Sim. Mas a espada é instrumento profano e leigo, e não diz bem em mãos sagradas. Primeiramente quem pôs a espada na mão dos que edificavam o Templo foi Neemias, o mais sábio, o mais santo príncipe e o mais zelador da honra de Deus que então havia no mundo. E se alguém tem os olhos tão delicados, que os ofenda esta aparência – que não é razão, senão pretexto – aparte-os um pouco de nós, e ponha-os em S. Paulo. Não vedes a S. Paulo com a espada em uma mão, e o livro na outra? Estes são os instrumentos e as insígnias, com que nos pinta e representa a Igreja aquele grande homem, por antonomásia chamado o Apóstolo. E por quê? Por que traz Paulo em uma mão o livro, noutra a espada? Por que Paulo entre todos os outros apóstolos foi o vaso de eleição escolhido particularmente por Cristo para preparador dos gentios: Vas electionis est mihi iste, ut portet nomen meum coram gentibus (46) – e quem tem por ofício a pregação e conversão dos gentios há de ter o livro em uma mão, e a espada na outra: o livro para os doutrinar, a espada para os defender. E se esta espada se tirar da mão de Paulo, e se meter na mão de Herodes, que sucederá? Nadará toda a Belém em sangue inocente, e isso é o que vemos.

Mas, por que não faça dúvida o nome de espada, troquemos a espada em cajado, que é instrumento próprio dos pastores – como ali somos – e respondei-me: Quem tem obrigação de apascentar as ovelhas? O pastor. E quem tem obrigação de defender as mesmas ovelhas dos lobos? O pastor também. Logo o mesmo pastor, que tem o cuidado de as apascentar, há de ter, também, o poder de as defender. Esse é o ofício do pastor, e esse o exercício do cajado. Lançar o cajado à ovelha para a encaminhar, e terçá-lo contra o lobo para a defender. E vós quereis que este poder esteja em uns, e aquele cuidado em outros? Não seja isso conselho dos lobos! Quando Davi a andava no campo apascentando as suas ovelhas, e vinha o urso, ou o leão para lhas comer, que fazia? Ia a Jerusalém buscar um ministro de el-rei Saul, para que lhas viesse defender? Não seria Davi, nem pastor, se assim o fizesse. Ele era o que as apascentava, e ele quem as defendia. E defendia-as de tal sorte, que das gargantas e das entranhas das mesmas feras as arrancava; porque se o lobo ou o leão lhe tinham engolido o cordeiro pela cabeça, tirava-lho pelos pés, e se lho engoliam pelos pés, tirava-lho pelas orelhas. Assim diz o profeta Amós como quem tinha exercitado o mesmo ofício – que faz e fazer quem é pastor: Quomodo si eruat pastor de ore leonis duo crura, aut extremum rei auriculae (47).

E porque algum político, mau gramático e pior cristão, não cuide que a obrigação do pastor é somente apascentar, como parece o que significa a derivação do nome, saiba que só quem apascenta e defende é pastor, e quem não defende, ainda que apascente, não. Faz Cristo comparação entre o pastor e o mercenário, e diz assim: Bonun pastor animam suam dat pro ovibus suis (Jo. 10, 11 s): O bom pastor defende as suas ovelhas, e dá por elas a vida, se é necessário. Mercenarius autem, et qui non est pastor: Porém o mercenário, e o que não é pastor, que faz? Videt lupum venientem, et lupus rapit, et dispergit oves (Ibid. 12): Quando vê vir o lobo para o rebanho, foge, e deixa-o roubar e comer as ovelhas. – O meu reparo agora, grande reparo, é dizer Cristo que o mercenário não é pastor: Mercenarius autem, et qui non est pastor. – O mercenário, como diz o mesmo nome, é aquele que por seu jornal apascenta as ovelhas. Pois, se o mercenário também apascenta as ovelhas, por que diz Cristo que não é pastor? Porque ainda que as apascenta não as defende: vê vir o lobo e foge. E é tão essencial do pastor o defender as ovelhas, que se as defende é pastor, se as não defende não é pastor: Non est pastor. Como Cristo tinha falado em bom pastor, cuidava eu que havia de fazer a comparação entre bom pastor e mau pastor, e dizer que o bom pastor é aquele que defende as ovelhas, e o mau pastor é aquele que as não defende. Mas o Senhor não fez a comparação entre ser bom ou ser mau, senão entre ser, ou não ser. Diz que o que defende as ovelhas é bom pastor, e não diz que o que as não defende é mau pastor: por quê? Porque o que não defende as ovelhas não é pastor bom nem mau. Um lobo não se pode dizer que é bom homem, nem que é mau homem, porque não é homem. Da mesma maneira, o que não defende as ovelhas não se pode dizer que é bom pastor nem mau pastor, porque não é pastor: Non est pastor E sendo assim que a essência do pastor consiste em defender as ovelhas dos lobos, não seria coisa muito para rir, ou muito para chorar, que os lobos pusessem pleito aos pastores por que lhes defendem as ovelhas? Lá dizem as fábulas que os lobos se quiseram concertar com os rafeiros, mas que citassem aos pastores, se lhes quisessem armar demanda, porque lhes defendiam o rebanho. Isto não o disseram as fábulas: di-lo-ão as nossas histórias.

Mas quando disseram isto dos lobos, também dirão dos pastores que muitos deram as vidas pelas ovelhas: uns afogados das ondas, outros comidos dos bárbaros, outros mortos nos sertões, de puro trabalho e desamparo. Dirão que todos expuseram e sacrificaram as vidas pelos bosques, e pelos desertos entre as serpentes; pelos lagos e pelos rios entre os crocodilos; pelo mar e por toda aquela costa, entre parcéis e baixios os mais arriscados e cegos de todo o Oceano. Finalmente, dirão que foram perseguidos, que foram presos, que foram desterrados, mas não dirão, nem poderão dizer, que faltassem à obrigação de pastores, e que fugissem dos lobos como mercenários: Mercenarius autemfugit, E esta é a razão e obrigação, por que eu falo aqui, e falo tão claramente. S. Gregório Magno, comentando estas mesmas palavras: Mercenarius autem fugit, – diz assim: Fugit, quia injustitiam vidit, et tacuit;fugit, quia se sub silentio abscondít: Sabeis – diz o supremo Pastor da Igreja, – quando foge o que não é verdadeiro pastor? Foge quando vê injustiças, e, em vez de bradar contra elas, as cala; foge, quando, devendo sair a público em defesa da verdade, se esconde, e esconde a mesma verdade debaixo do, silêncio. – Bem creio que alguns dos que me ouvem teriam por mais modéstia e mais decência que estas verdades e estas injustiças se calassem, e eu o faria facilmente como religioso, sem pedir grandes socorros à paciência; mas, que seria, se eu assim o fizesse? Seria ser mercenário, e não pastor: Fugit, quia mercenarius est; seria ser consentidor das mesmas injustiças que vi, e, estando tão longe, não pude atalhar: Fugit, quia injustitiam vidit, et tacuit; seria ser proditor das mesmas ovelhas que Cristo me e entregou, e de que lhe hei de dar conta, não as defendendo, e escondendo-me onde só as posso defender: Fugit, quia se sub silentio abscondit.

VI

E porque na apelação deste pleito, em que a injustiça e violência dos lobos ficou vencedora, é justo que também eles sejam ouvidos, assim como ouvistes balar as ovelhas, no que eu tenho dito, ouvi também uivar os mesmos lobos, no que eles dizem. Dizem que o chamado zelo com que defendemos os índios é interesseiro e injusto: interesseiro, porque o defendemos para que nos sirvam a nós; e injusto, porque defendemos que sirvam ao povo. Provam o primeiro, e cuidam que com evidência, porque vêem que nas aldeias edificamos as Igrejas com os índios; vêem que pelos rios navegamos em canoas equipadas de índios; vêem que nas missões por água e por terra nos acompanham e conduzem os índios: logo, defendemos e queremos os índios para que nos sirvam a nós! Esta é a sua primeira conseqüência, muito como sua, da qual, porém, nos defende muito facilmente o Evangelho. Os Magos, que também eram índios, de tal maneira seguiam, e acompanhavam a estrela, que ela não se movia, nem dava passo sem eles. Mas, em todos estes passos, e em todos estes caminhos, quem servia, e a quem? Servia a estrela aos Magos, ou os magos à estrela? Claro está que a estrela os servia a eles, e não eles a ela. Ela os foi buscar tão longe, ela os trouxe ao Presépio, ela os alumiava, ela os guiava, mas não para que eles a servissem a ela, senão para que servissem Cristo, por quem ela os servia. Este é o modo com que nós servimos aos índios, e com que dizem que eles nos servem.

Se edificamos com eles as suas Igrejas, cujas paredes são de barro, as colunas de pau tosco, e as abóbadas de folhas de palma, sendo nós os mestres e os obreiros daquela arquitetura, com o cordel, com o prumo, com a enxada, e com a serra e os outros instrumentos – que também nós lhes damos – na mão, eles servem a Deus a si, nós servimos a Deus e a eles, mas não eles a nós. Se nos vem buscar em uma canoa, como têm por ordem, nos lugares onde não residimos, sendo isso, como é, para os ir doutrinar por seu turno, ou para ir sacramentar os enfermos, a qualquer hora do dia ou da noite, em distância de trinta, de quarenta e de sessenta léguas, não nos vêm eles servir a nós: nós somos os que os imos servir a eles. Se imos em missões mais largas a reduzir e descer os gentios, ou a pé, e muitas vezes descalços, ou embarcados em grandes tropas à ida, e muito maiores à vinda, eles e nós imos em serviço da Fé e da República, para que tenha mais súditos a Igreja e mais vassalos a Coroa; e nem os que levamos, nem os que trazemos, nos servem a nós, senão nós a uns e a outros, e ao rei e a Cristo. E porque deste modo, ou nas aldeias, ou fora delas, nos vêem sempre com os índios, e os índios conosco, interpretam esta mesma assistência tanto às avessas que, em vez de dizerem que nós os servimos, dizem que eles nos servem.

Veio o Filho de Deus do céu à terra a salvar o mundo, e sempre andava acompanhado e seguido dos mesmos homens a quem veio salvar. Seguiam-no os apóstolos, que eram doze; seguiam-no os discípulos, que eram setenta e dois; seguiam-no as turbas, que eram muitos milhares: e quem era aqui o que servia ou era servido? O mesmo Senhor o disse: Non veni ministrari, sed ministrare (Mt. 20, 28): Eu não vim a ser servido, senão a servir. – E todos estes que me seguem e me assistem, todos estes que eu vim buscar e me buscam, eu sou o que os sirvo a eles, e não eles a mim. Era Cristo mestre, era médico, era pastor, como ele disse muitas vezes. E estes são os mesmos são ofícios em que servem aos gentios e cristãos aqueles ministros do Evangelho. São mestres, porque catequizam e ensinam a grandes e pequenos, e não uma, senão duas vezes ao dia; e quando o mestre está na aula ou na escola, não são os discípulos os que servem ao mestre, senão o mestre aos discípulos. São médicos, porque não só lhes curam as almas, senão também os corpos, fazendo-lhes o comer e os medicamentos, e aplicando-lhos por suas próprias mães às chagas ou às doenças, por asquerosas que sejam; e quando o médico cura os enfermos, ou cura deles, não são os enfermos os que servem o médico, senão o médico aos enfermos. São pastores, porque têm cuidado de dar o pasto às ovelhas e a criação aos cordeiros, vigiando sobre todo o rebanho de dia e de noite; e quando o pastor assim o faz, e nisso se desvela, não são as ovelhas as que servem ao pastor, senão o pastor às ovelhas. Mas, porque isto, não serve aos lobos, por isso dizem que os pastores se servem.

Quanto aos interesses não tenho eu que dizer, porque todos os nossos haveres eles os têm em seu poder. Assim como nos prenderam e desterraram, assim se apoderaram também das nossas choupanas e de quanto nelas havia. Digam, agora, o que acharam. Acharam ouro e prata, mas só a dos cálices e custódias. Nos altares acharam sacrários, imagens e relíquias; nas sacristias omamentos, não ricos, mas decentes e limpos; nas celas de taipas pardas e telhas vã, alguns livros, catecismos, disciplinas, cilícios, e uma tábua ou rede em lugar de camas, porque as que levamos de cá se dedicaram a um hospital, que não havia; e se nos nossos guarda-roupas se acharam alguns mantéus e sotainas remendadas, eram de algodão, grosseiro, tinto na lama, como o calçado de peles de veado e porco montês, que são as mesmas galas com que aqui aparecemos. Finalmente, é certo que os Magos achariam no presépio mais pobreza, mas mais provado desinteresse não. Diz o evangelista que os Magos, abrindo os seus tesouros, ofereceram a Cristo ouro, incenso e mirra:Apertis thesauris suis obtulerunt ei munera, aurum thus, et myrrham (Mt. 2,11). Mas não sei se repamis que, dizendo-se que os tesouros foram oferecidos, não se diz se foram aceitados ou não. A opinião comum dos doutores é que sim; contudo, outros duvidam e com fundamento, porque daí a poucos dias, indo a Virgem Mãe apresentar o seu primogênito no Templo, conforme a lei, e dispondo a mesma lei que os pobres oferecessem duas rolas ou dois pombinhos, e os que tivessem mais posses um cordeiro, a Senhora não ofereceu cordeiro, senão, como diz o texto: Par turturum, aut duos pullos co1umbarum (48), Donde parece se colhe que a Santa Família do presépio não aceitou os tesouros dos Magos, porque se tivera ouro, oferecera cordeiro. De maneira que é certo e de fé que os tesouros se ofereceram, mas ficou em opinião e em dúvida se se aceitaram ou não. Por isso eu digo que, sendo tão grande a pobreza do presépio, a nossa naquelas terras está mais provada. Na pobreza do presépio é certo que houve tesouros, e é duvidoso se foram acertados: na nossa nem há esta certeza, nem pode haver esta dúvida, porque os Magos que trazemos a Cristo, e a gente a quem servimos é tão pobre e tão miserável que nem eles têm que oferecer nem nós temos que aceitar.

Resta a segunda parte da queixa, em que dizem que defendemos os índios, porque não queremos que sirvam ao povo. A tanto se atreve a calúnia, e tanto cuida que pode desmentir a verdade! Consta autenticamente nesta mesma corte, que no ano de 1655 vim eu a ela só, a buscar o remédio desta queixa, e a estabelecer – como levei estabelecido por provisões reais – que todos os índios, sem exceção, servissem ao mesmo povo, e o servissem sempre, e o modo, a repartição e a igualdade com que o haviam de servir para que fosse bem servido. Vede se podia desejar mais a cobiça, se com ela pudesse andar junta a consciência. Não posso, porém, negar que todos nesta parte, e eu em primeiro lugar, somos muito culpados. E por quê? Porque, devendo defender os gentios que trazemos a Cristo, como Cristo defendeu os Magos, nós, acomodando-nos à fraqueza do nosso poder, e à força do alheio, cedemos da sua justiça, e faltamos à sua defensa. Como defendeu Cristo os Magos? Defendeu-os de tal maneira que não consentiu que perdessem a pátria, nem a soberania, nem a liberdade; e nós não só consentimos que os pobres gentios que convertemos percam tudo isto, senão que os persuadimos a que o percam, e o capitulamos com eles, só para ver se se pode contentar a tirania dos cristãos: mas nada basta. Cristo não consentiu que os Magos perdessem a pátria, porque reversi sunt in regionem suam (49); e nós, não só consentimos que percam a sua pátria aqueles gentios, mas somos os que, à força de persuasões e promessas que se lhes não guardam os arrancamos das suas terras, trazendo as povoações inteiras a viver ou a morrer junto das nossas. Cristo não consentiu que os Magos perdessem a soberania, porque reis vieram e reis tornaram, e nós não só consentimos que aqueles gentios percam a soberania natural, com que nasceram e vivem isentos de toda a sujeição, mas somos os que, sujeitando-os ao jugo espiritual da Igreja, os obrigamos também ao temporal da coroa, fazendo-os jurar vassalagem. Finalmente, Cristo não consentiu que os Magos perdessem a liberdade, porque os livrou do poder e tirania de Herodes, e nós não só não lhes defendemos a liberdade, mas pacteamos com eles, e por eles, como seus curadores, que sejam meios cativos, obrigando-se a servir alternadamente a metade do ano. Mas nada disto basta para moderar a cobiça e tirania dos nossos caluniadores, porque dizem que são negros, e hão de ser escravos.

Já considerei algumas vezes por que permitiu a divina Providência, ou ordenou a divina Justiça, que aquelas terras e outras vizinhas fossem dominadas dos hereges do Norte. E a razão me parece que é porque nós somos tão pretos em respeito deles, como os índios em respeito de nós e era justo que, pois fizemos tais leis, por ela se executasse em nós o castigo. Como se dissera Deus: já que vós fazeis cativos a estes, porque sois mais brancos que eles, eu vos farei cativos de outros, que sejam também mais brancos que vós. A grande sem-razão desta injustiça declarou Salomão em nome alheio com uma demonstração muito natural. Introduz a etiopisa, mulher de Moisés, que era preta, falando com as senhoras de Jerusalém, que eram brancas, e por isso a desprezavam, e diz assim: Filiae Jerusalem, nolite considerare quod fusca sim, quia decoloravit me sol (50): Se me desestimais porque sois brancas, e eu preta, não considereis a cor, considerai a causa: considerai que a causa desta cor é o sol, e logo vereis quão inconsideradamente julgais. – As nações, umas são mais brancas, outras mais pretas, porque umas estão mais vizinhas, outras mais remotas do sol. E pode haver a maior inconsideração do entendimento, nem maior erro do juízo entre homens, que cuidar eu que hei de ser vosso senhor, porque nasci mais longe do sol, e que vós haveis de ser meu escravo, porque nascestes mais perto?

Dos Magos, que hoje vieram ao presépio, dois eram brancos e um preto, como diz a tradição; e seria justo que mandasse Cristo que Gaspar e Baltasar, porque eram brancos, tornassçm livres para o Oriente, e Belchior, porque era pretinho, ficasse em Belém por escravo, ainda que fosse de S. José? Bem o pudera fazer Cristo, que é Senhor dos senhores; mas quis-nos ensinar que os homens de qualquer cor todos são iguais por natureza, e mais iguais ainda por fé, se crêem e adoram a Cristo, como os Magos. Notável coisa é que, sendo os Magos reis, e de diferentes cores, nem uma nem outra coisa dissesse o Evangelista. Se todos eram reis, por que não diz que o terceiro era preto? Porque todos vieram adorar a Cristo, e todos se fizeram cristãos, e entre cristão e cristão não há diferença de nobreza, nem diferença de cor. Não há diferença de nobreza, porque todos são filhos de Deus; nem há diferença de cor, porque todos são brancos. Essa é a virtude da água do batismo. Um etíope, se se lava nas águas do Zaire, fica limpo, mas não fica branco, porém na água do Batismo sim, uma coisa e outra: Asperges me hyssopo, et mundabor (51): ei-lo aí limpo. – Lavabis me, et super nivem dealbabor (52): ei-lo aí branco. Mas é tão pouca a razão e tão pouca a fé daqueles inimigos dos índios, que, depois de nós os fazermos brancos pelo batismo, eles os querem fazer escravos por negros.

Não é minha tenção que não haja escravos, antes procurei nesta corte, como é notório e se pode ver da minha proposta, que se fizesse, como se fez, uma junta dos maiores letrados sobre este ponto, e se declarassem, como se declararam por lei – que lá está registada – as causas do cativeiro lícito. Mas, porque queremos só os lícitos, e defendemos os ilícitos, por isso nos não querem naquela terra, e nos lançam dela. O mesmo sucedeu aS. Paulo, se bem a terra não era de cristãos. Em Filipos, cidade de Macedônia, havia uma escrava possuída do demônio, o qual falava nela e dava oráculos, e adivinhava muitas coisas, e por esta habilidade ganhava muito a escrava a seus senhores. Compadeceu-se dela S. Paulo, que ali se achava em missão com seu companheiro Sila; lançou fora o demônio daquele corpo duas vezes cativo. E que prêmio ou agradecimento teve ele e seu companheiro deste benefício? Amotinou-se contra eles todo o povo, prenderam-nos, maltrataram-nos, e lançaram-nos da cidade. Pois, por que os apóstolos lançam o demônio fora da escrava, por isso os lançam a eles fora da terra? Porventura Paulo e Sila tiraram a escrava a seus senhores, ou disseram que não era escrava, e que os não servisse? Nem por pensamento. Pois, por que os maltratam, por que os prendem, por que os desterram? Porque os senhores da escrava não só queriam a escrava, senão a escrava e mais o demônio. Aqui bate o ponto de toda a controvérsia, e por isso não concordamos, Nós queremos que tenham escravos, mas sem demônio: eles não querem escravos senão com o demônio. E por quê? O mesmo texto dá a razão, que em uns e outros é a mesma: Quia exivitspes quaestus eorum (At. 16,19): Porque, tendo a escrava sem o demônio, perdiam toda a esperança dos seus interesses. Os escravos lícitos e sem demônio, são r poucos: os ilícitos, e com o demônio, são quantos eles querem cativar, e quantos cativam; e como o seu interesse posto que interesse infernal consiste em terem escravos como demônio, por isso querem antes o demônio que os apóstolos, e por isso os lançam de si: Quia exivit spes quaestus eorum, perduxerunt Paulum et Si1am (53).

Convencidos e confundidos desta evidência, ainda falam, ainda replicam. E que dizem? O que se não atreveu a dizer Herodes, posto que o fez. Dizem que se não podem sustentar, nem o Estado se pode conservar doutro modo. Vede que razão esta para se ouvir com ouvidos católicos, e para se articular e apresentar diante de um tribunal ou rei cristão! Não nos podemos sustentar doutra sorte, senão com a carne e sangue dos miseráveis índios! Então eles são os que comem gente? Nós, nós somos os que os imos comer a eles. Esta era a fome insaciável dos maus criados de Jó: Quis det de carnibus ejus, ut saturemur(54) e esta era a injustiça e crueldade de que Deus mais se sentia em seus maus ministros: Qui devorant plebem meam sicut escam panis (55). E porque os pregadores do Evangelho, que são os que vão buscar estas inocentes vítimas, e as não querem entregar ao açougue e matadeiro: fora, fora das nossas terras. Quando Cristo chamou aos apóstolos, disse-lhes que os havia de fazer pescadores de homens: Faciam vos fieri piscatores hominum (Mt. 4,19). Assim nos fez, e assim o fazemos nós, e nisso se ocupam as nossas redes e se cansam os nossos braços. Mas, para que entendem e se desenganem todos, lá e cá, que esses homens não os havemos nós de pescar para que eles os comam, advirtam e notem bem que se Cristo chamou aos apóstolos pescadores, também lhes chamou sal: Vos estis sal terrae (56). Pois os pescadores hão de ser sal, e os apóstolos sal, e juntamente pescadores? Sim. O pescador pesca, o sal conserva. E esta é a diferença que há entre os pescadores de homens e os pescadores de peixes: os pescadores de peixes pescam os peixes para que se comam; os pescadores de homens hão de pescar os homens para que se conservem. Veja-se em todo o resto daquela América se houve alguns índios que se conservassem, senão os da nossa doutrina. Por isso nos não querem a nós, por isso querem os que lhos ajudam a comer: e estas são as nossas culpas.

O justo castigo que os homens nos dão por elas bem se vê: o que Deus lhes há de dar a eles, e o prêmio com que nos há de pagar a nós, o mesmo castigo também o tem prometido. Antevia Cristo, como sabedoria infinita, que os seus apóstolos, a quem mandava pregar pelo mundo, haviam de encontrar com homens tão inimigos da verdade e da justiça, que os não consentiriam consigo, e os lançariam das suas terras – bem assim como os gerasenos lançaram das suas ao mesmo Cristo – e, para que estivessem e fossem prevenidos, primeiramente deu-lhes a instrução do modo com que se haviam de haver em semelhantes casos: Quicum que non receperint vos, neque audirint sermones vestros, exeuntes foras de domo, vel civitate, excutite pulverem de pedibus vestris, in testimonium illis (Mt. 10, 14; Lc. 9,5; Mc. 6,11): Quando os homens, quaisquer que sejam, nao receberem vossa doutrina, e vos lançarem de suas casas e cidades, o que haveis de fazer autenticamente diante de todos é sacudir o pó dos sapatos, para que esse pó seja testemunha de que pusestes os pés naquela terra, e ela vos lançou de si. – Assim o fizeram S. Paulo e S. Barnabé, quando foram lançados de Pisídia, e assim o fiz eu também. E que mais diz Cristo para que os mesmos apóstolos se não desconsolassem, antes se gloriassem muito destes desterros, e da causa deles? – Sabeis, lhes diz o mesmo Senhor, que quando os homens assim vos aborrecerem, e vos apartarem e lançarem de si, então sereis bem-aventurados, porque então sereis meus verdadeiros discípulos; e depois o sereis também, porque no céu tereis o galardão que vos não sabe nem pode dar a terra: Beati eritis cum vos oderint homines, et cum separa verint vos, et exprobraverint, etejecerint nomen vestrum tanquam malum propter Filium hominis. Gaudete, etexultate: ecce enim merces vestra multa es incaelo (57).

Este é o prêmio com que Cristo – bendito ele seja – nos há de pagar, e paga já de contado, a paciência destas injúrias, remunerando de antemão, no seguro de sua palavra, estes trabalhos com aquele descanso, estes desterros com aquela pátria, e estas afrontas com aquela glória, para que ninguém nos tenha lástima quando o céu nos tem inveja. Mas, por que os autores de tamanhos escândalos não cuidem que eles e suas terras hão de ficar sem o devido castigo, conclui, finalmente, o justo juiz com esta temerosa sentença: Amen dico vobis. Tolerabilius erit terrae Sodomorum, et Gomorrhaeorum, quam illi civitati (Mt. 10,15): De verdade vos digo que o castigo das cidades de Sodoma e Gomorra, sobre as quais choveram raios, ainda foi mais moderado e mais tolerável do que será o que está aparelhado, não só para as pessoas, senão para as mesmas terras donde os meus pregadores forem lançados. – Tal é a sentença que tem decretada a divina justiça contra aquela mal aconselhada gente, por cujo bem e remédio eu tenho passado tantos mares e tantos perigos. Praza à divina misericórdia perdoar-lhes, pois não sabem o que fazem. E para que lhes não falte o perdão da parte assim como meus companheiros e eu lho temos já dado muito de coração, assim, agora, lho torno a ratificar aqui publicamente: Coram Deo, et hominibus, em nome de todos.

VII

Suposto, pois, que não peço nem pretendo castigo, e o que só desejo é o remédio, quero acabar este largo, mas forçoso discurso, apontando brevemente os que ensina o Evangelho. O primeiro e fundamental de todos era que aquelas terras fossem povoadas com gente de melhores costumes, e verdadeiramente cristã. Por isso no Regimento dos Governadores a primeira coisa que muito se lhes encarrega é que a vida e procedimento dos portugueses seja tal que com o seu exemplo e imitação se convertamos gentios. Assim está disposto santissimamente, porque, como diz S. João Crisóstomo, se os cristãos viveram conforme a lei de Cristo, toda a gentilidade estivera já convertida: Nemo profecto gentilis esset, si ipsi, ut oportet, Christiani esse cura remus. – Mas é coisa muito digna, não sei se de admiração, se de riso, que no mesmo tempo em que se dá este regimento aos governadores, e nos mesmos navios em que eles vão embareados, os povoadores que se mandam para as mesmas terras são os criminosos e malfeitores tirados do fundo das enxovias, e levados a embarcarem grilhões, a quem já não pode fazer bons o temor de tantas justiças! E estes degradados, por suas virtudes, e talvez marcados por elas, são os santinhos que lá se mandam, para que com o seu exemplo se convertam os gentios, e se acrescente a cristandade. Aqueles samaritanos, que acima dissemos impediam a edificação do Templo, eram degradados por el-rei Salmanazar, de Assíria e Babilônia, para povoadores da Samaria, que ele tinha conquistado e diz a História Sagrada que o que lã fizeram foi ajuntar os costumes que levavam da sua terra com os que acharam em Sarnaria, e assim eram meios fiéis, e meios gentios: Et cum Dominum colerent, diis quoque suis serviebant juxta consuetudinem genti um, de quibus translati fuerant Samariam (58). Isto mesmo se experimenta, e é força que suceda nas nossas conquistas, com semelhantes povoadores. Mas, como este erro fundamental já não pode ter remédio, vamos aos que de presente e para o futuro nos ensina o Evangelho.

O primeiro é a boa eleição dos sujeitos a quem se comete o governo. E para que a eleição seja boa, que parte hão de ter os eleitos? Eu me contento com uma só. E qual? Que sejam ao longe o que prometem ao perto. Herodes encomendou muito aos Magos que fizessem diligência pelo Rei nascido que buscavam, e que, tanto o achassem, lhe fizessem logo aviso, para que também ele o fosse adorar: Ut et ego veniens adorem eum (59). Ah! hipócrita! Ah! traidor! E para tu adorares a Cristo é necessário que vás onde ele estiver: Ut et ego veniens? Tanto podia Heiudes adorar a Cristo desde Jerusalém, onde ele estava, como em Belém, ou em qualquer outra parte onde o Senhor estivesse; mas estes são e estes costumam ser os Herodes. Em Belém e ao perto adoram; desde Jerusalém, e ao longe, não adoram. Antes de ir, e quando vem, adoram: Ut et ego veniens: – mas enquanto estão lá tão longe, nem adoram, nem têm pensamentos de adorar, como Herodes; e se não maquinam contra orei em sua pessoa, maquinam contra ele e suas leis, à custa da vida e sangue dos inocentes. Bom Daniel e fiel ministro de seu Senhor. Estava Daniel em Babilônia, e diz o texto sagrado que todos os dias três vezes abria as janelas, que ficavam para a parte de Jerusalém, e prostrado de joelhos adorava: Apertisfenestris in coenaculo suo contra Jerusalem, tribus temporibus in die flectebat genua sua, et adorabat (Dan. 6, 10). De Babilônia não se podia ver Jerusalém, distante tantos centos de léguas quantas há desde o Monte Sion ao Rio Eufrates; pois, por que adorava Daniel para a parte de Jerusalém? Porque Jerusalém naquele tempo era a corte de Deus, o Templo o seu palácio, e o Propiciatório, sobre asas de querubins, o seu trono; e essa era a obrigação de fiel ministro: adorar a seu Senhor, e adorá-lo sempre, e adorá-lo de toda a parte, ainda que fosse tão distante como Babilônia. Em Jerusalém adorava Daniel de perto, em Babilônia adorava de longe; isto é o que nota e encarece a Escritura, não que adorasse de perto, que isso fazem todos, mas que adorasse de longe, e de tão longe. E porque ao longe há poucos Daniéis e muitos Herodes, por isso convém que os que hão de governar em leiras tão remotas sejam aqueles que façam ao longe o que prometem ao peito.

Mas costuma isto ser tanto pelo contrário, que só o verem-se tão longe lhes tira todo o temor do rei e toda a reverência do seu nome. Entraram os Magos por Jerusalém perguntando: Ubi est qui natus est rex Judaeorum (60)? E que efeitos causou em Herodes esta voz do nome real?Audiens autem Herodes rex, turbatus est (Mt. 2,3): Tanto que ouviu nomear rei, turbou-se, perdeu as corés, e ficou fora de si de medo. – Assim havia de ser o nome de rei, ou pronunciado, ou escrito, em qualquer parte da sua monarquia, por distante que seja. Havia de ser um trovão prenhe de raios, que fizesse tremer as cidades, as fortalezas, os portos, os mares, os montes, quanto mais os homens. Mas os que se vêem além da linha ou debaixo dela, fazem tão pouco caso destas trovoadas que, em vez de tomarem do coração de Herodes o turbatus est, tomam da boca dos Magos o Ubi est. Onde está el-rei? Em Portugal? Pois se ele lá está, nós estamos cá. lua se jactet in au1a (61). Mande ele de lá o que mandar, nós faremos cá o que nos bem estiver. São como aqueles hereges que, construindo a seu sabor o verso de Davi, diziam: Caelum caeli Domino, terram autem dedit filiis hominum(62): Esteja-se Deus no seu ‘céu, que nós estamos cá na nossa leira. – E que há de fazer a pobre leira com tais governadores? O que eles quiserem, ainda que seja muito contra si, e muito a seu pesar. Não temos o texto longe.

Turbatus estllerodes, et omnis Jerosolyma cum lllo (Ml. 2,3): Perturbou-se Herodes e toda a Jerusalém com ele. Perturbar-se Herodes, rei intruso e tirano, temendo que o legítimo Senhor o privasse da coroa, que não era sua, razão tinha; mas que se perturbe juntamente Jerusalém, quando era a melhor e mais alegre nova que podia ouvir? Não suspirava Jerusalém e toda a Judéia pela vinda do Messias? Não gemia debaixo da violência de Herodes? Não desejava sacudir o jugo, e libertar-se de sua tirania? Pois, por que se perturba, ou mostra perturbada, quando Herodes se perturba? Porque tão despótica como isto é a sujeição dos tristes povos debaixo do domínio de quem os governa, e mais quando são tiranos. Hão de fazer o que eles querem, e hão de querer o que eles fazem, ainda que lhes pese. Dizem que os que governam são espelho da república; não é assim, senão ao contrário. A república é o espelho dos que a governam. Porque, assim como o espelho não tem ação própria, e não é mais que uma indiferença de vidro, que está sempre exposta a retratar em si os movimentos de quem tem diante, assim o povo, ou república sujeita, se se move, ou não se move, é pelo movimento ou sossego de quem a governa. Se Herodes se não perturbara, não se havia de perturbar Jerusalém: perturbou-se porque ele se perturbou: Turbatus est Herodes, et omnis Jerosolyma cum illo. O perturbado foi um, e as perturbações foram duas: Uma em Herodes e outra em Jerusalém: em Herodes foi ação, em Jerusalém reflexo, como em espelho. Por isso o Evangelista exprimiu só a primeira: Turbatus est – e debaixo dela entendeu ambas. Assim que, todas as vezes que Jerusalém se inquieta, Herodes tem a culpa, e se acaso a não tem toda, tem a primeira. Et omnis Jerosolyma cum illo: ou com ele, porque ele faz a inquietação ou com ele, porque a manda; ou com ele, porque a consente, ou com ele, porque a dissimula, ou com ele, quando menos, porque, devendo e podendo, a não impede, mas sempre e de qualquer modo com ele: cum illo. De maneira, enfim, que na eleição destes eles consiste a paz, o sossego e o bom governo das conquistas. E este é o primeiro remédio do Evangelho, ou o primeiro Evangelho do remédio.

O segundo remédio é que as congregações eclesiástiças daquele estado sejam compostas de tais sujeitos, que saibam dizer a verdade, e que a queiram dizer. Para Herodes responder à proposta e pergunta dos Magos, que fez? Congregans omnes principes sacerdotum, et scribas populi, sciscitabatur ab eis ubi Christus nasceretur(63). A proposta e pergunta era em que lugar havia de nascer o Messias, e para isso fez uma congregação ou junta, em que entraram as pessoas eclesiásticas de maior autoridade e letras que havia em Jerusalém. Era Herodes tirano, e contudo, mostrou estas duas grandes partes de príncipe que perguntava, e perguntava a quem havia de perguntar: as matérias eclesiástica aos eclesiásticos, e as das letras aos letrados, e destes aos maiores. Por isso compôs a congregação de sacerdotes e professores de letras, mas não de quaisquer sacerdotes, nem de quaisquer letrados, senão dos que no sacerdócio e na ciência, na sinagoga e no povo, tinham os primeiros lugares: Congregans omnes príncipes sacerdotum, et scribas populi. E que se seguiu desta eleição de pessoas tão acertada? Tudo o que se pretendia.

O primeiro efeito, e muito notável, foi que, sendo tantos, todos concordaram. Raramente se vê uma junta em que não haja diversidade de pareceres, ainda contra a razão e verdade manifesta, principalmente quando se conhece a inclinação do rei, como aqui estava conhecida a de Herodes na sua perturbação; e, contudo, todos os desta grande junta concordaram na mesma resposta, todos alegaram o mesmo texto e todos o entenderam no mesmo sentido: At iIli dixerunt ei: ln Bethlehem Judae: sic enim scriptum est per projhetam: Ei tu Bethlehem terra Juda, etc. (64). E porque todos concordaram sem discrepância, deste primeiro efeito se seguiu o segundo, e principalmente pretendido, que era encaminhar os Magos com certeza ao lugar do nascimento de Cristo, para que infalivelmente o achassem e adorassem, como acharam e adoraram. Tanto importa que semelhantes congregações sejam compostas de homens que tenham letras. Cuida-se cá que para aquelas partes bastam eclesiásticos que saibam a forma do batismo e a doutrina cristã, e não se repara que eles são os que nos púlpitos pregam de público, eles os que absolvem de secreto nos confessionários onde é maior o perigo e que eles, por disposição das leis reais, são os intérpretes das mesmas leis, de que dependem as liberdades de uns, as consciências de outros e a salvação de todos. E se estes, como sucede ou pode suceder, não tiveram mais letras que as do A B C, que conselhos, que resoluções, que sentenças hão de ser as suas? Pergunto: se os sacerdotes e letrados de Jerusalém se dividissem em opiniões, se uns dissessem que o Messias havia de nascer em Belém, outros em Nazaré, outros em Jericó, se uns voltassem para Galiléia, outros para Judéia, outros para Sarnaria, que haviam de fazer os Magos? É certo que neste caso ou desesperados se haviam de tornar para as suas terras, como muitos se tornam, ou que, perseverando em buscar a Cristo, no meio de tanta confusão o não achariam, Uma das principais causas por que está Cristo tão pouco achado, ou porque está tão perdido naquelas conquistas, é pela insuficiência dos sujeitos eclesiásticos que lá se mandam. Cristo, uma vez que se perdeu, achou-se entre os doutores, e onde estes faltam, que lhe há de suceder? Entre doutores achou-se depois de perdido; onde eles faltam, perder-se-á depois de achado. E isto é o que vemos. Por isso Herodes, depois que fez aquela congregação de homens tão doutos, logo supôs que os Magos sem dúvida haviam de achar a Cristo: Ei cum inveneritis, renuntiate mihi (65).

Este é, como dizia, o segundo remédio que nos descobre o Evangelho. E se acaso nos descontenta, por ser praticado de tão ruim autor como Herodes – sem advertir que muitas vezes os maus governam tão bem como os bons, e melhor que os muito bons – imitemos ao menos o exemplo do nosso grande conquistador el-rei Dom Manoel, de felicíssima memória, tão amplificador do seu império, como do de Cristo, de quem lemos que o primeiro sacerdote que enviou às conquistas foi o seu próprio confessor. Não fio a salvação daquelas almas senão de quem fiava a própria consciência, porque sabia que estava igualmente obrigado em consciência a tratar delas, e dos meios proporcionados à sua salvação. Mas, para que é recorrer a exemplo meramente humano, onde temos presente o do mesmo Rei e Salvador do Universo? No tempo do nascimento de Cristo dividiu-se o mundo em duas nações, em que se compreendiam todas: a judaica e a gentílica; e para o Senhor fundar em ambas a nova Igreja cristã, que vinha edificar e propagar, bem sabemos quais foram os sujeitos que escolheu. Aos pastores, que eram judeus, mandou um anjo: aos Magos, que eram gentios, mandou uma estrela. E por que estrelas e anjos entre todas as criaturas? Porque as estrelas são luz, os anjos são espíritos. Quem não tem luz, não pode guiar: quem não tem espírito, não pode converter. E nós queremos converter o mundo sem anjos e com trevas. Notou muito bem aqui a glosa, que assim o anjo como a estrela foram missionários trazidos do céu: e de lá era bem que viessem todos; mas já que os não podemos trazer do céu, como Cristo, por que não mandaremos os melhores ou menos maus da leira?

O terceiro e último remédio, e que sendo um abraça muitos e que todos os que forem necessários para a boa administração e cultura daquelas almas, se lhes devem, não só conceder, mas aplicar efetivamente, sem os mesmos gentios, ou novamente cristãos – nem outrem por eles – o pedirem ou procurarem. Diz com advertência e mistério particular o nosso texto que, estando os Magos dormindo, se lhes deu a resposta do que haviam de fazer para se livrarem das mãos de Herodes: Ei responso acce pio in somnis ne redirent ad Herodem (66). Na palavra responso accepto reparo muito. Os Magos em Belém perguntaram alguma coisa? Pediram alguma coisa? Falaram alguma coisa? Ao menos no ponto particular de Herodes, sobre que foram respondidos, é certo que nem uma palavra só disseram. Pois, se não falaram, se não pediram, se não propuseram ou perguntaram, como se diz que foram respondidos: Responso accepto? Esse é o mistério e o documento admirável de Cristo a todos os reis que trazem gentios à fé. Os Magos eram gentios ou cristãos novamente convertidos da gentilidade, e os gentios ou cristãos novamente convertidos, onde há fé, razão, e justiça, hão de ser respondidos, sem eles falarem, hão de ser despachados, sem eles requererem, hão de ser remediados, sem eles pedirem. Não há de haver petição, e há de haver despacho, não há de haver requerimento, e há de haver remédio, não há de haver proposta e há de haver resposta: Responso accepto.

Sim. Mas se eles não requerem, quem há de requerer por eles? Muito bom procurador: quem requereu neste caso. S. Jerônimo diz que o autor da resposta foi o mesmo Cristo por sua própria pessoa; Santo Agostinho diz que foi por medição e mistério de anjos, e tudo foi. Foi Cristo como verdadeiro rei, e foram os anjos como verdadeiros ministros. Nos outros casos, e com os outros vassalos, os reis e os ministros são os requeridos: neste caso e com esta gente, os reis e os ministros hão de ser os requerentes. Eles são os que lhes hão de requerer a fé, eles os que lhes hão de requerer a liberdade, eles os que lhes hão de requerer a justiça, eles, finalmente, os que lhes hão de requerer, negociar e fazer efetivo tudo quanto importar à sua conversão, quietação e segurança, sem que aos mesmos gentios, ou antes ou depois de convertidos, lhes custe o menor cuidado. Que cuidavam ou que faziam os Magos, quando foram respondidos? É circunstância muito digna de que a considerem os que têm a seu cargo este encargo: Et responso accepto in somnis. Os Magos estavam dormindo, bem ignorantes do seu perigo e bem descuidados do seu remédio, e no mesmo tempo o bom rei, e os bons ministros estavam traçando e dispondo os meios, não só da salvação de suas almas, senão da conservação, descanso e segurança de suas vidas.

E se alguém me perguntar a razão desta diferença e da maior obrigação deste cuidado, acerca dos gentios e novos cristãos das conquistas, em respeito ainda dos mesmos vassalos portugueses e naturais, muito me espanto que haja quem a ignore. A razão é porque o reino de Portugal, enquanto reino e enquanto monarquia, está obrigado, não só de caridade, mas de justiça, a procurar efetivamente a conversão e salvação dos gentios, à qual muitos deles, por sua incapacidade e ignorância invencível, não estão obrigados. Tem esta obrigação Portugal enquanto reino, porque este foi o fim particular para que Cristo o fundou e instituiu, como consta da mesma instituição. E tem esta obrigação enquanto monarquia, porque este foi o intento e contrato com que os Sumos Pontífices lhe concederam o direito das conquistas, como consta de tantas bulas apostólicas. E como o fundamento e base do Reino de Portugal, por ambos os títulos, é a propagação da fé e conversão das almas dos gentios, não só perderão infalivelmente as suas todos aqueles sobre quem carrega esta obrigação, se se descuidarem ou não cuidarem muito dela, mas o mesmo reino e monarquia, tirada e perdida a base sobre que foi fundado, fará naquela conquista a ruína que em tantas outras partes tem experimentado, e no-lo tirará o mesmo Senhor que no-lo deu, como a maus colonos: Auferetur a vobis regnum Dei, et dabitur genti facienti fructus ejus (67).

Mas, para que é falar nem trazer à memória reino, quando se trata de remédio de tantos milhares de almas, cada uma das quais pesa mais que todo o reino? Tomemos o exemplo naquele Rei que hoje chamou os reis, e naquele Pastor que ontem chamou os pastores. Falando lsaías de Cristo como rei, diz que trazia o seu império ao ombro: Cujus imperium super humerum ejus (68)e falando S. Lucas do mesmo Cristo como Pastor, diz que foi buscar a ovelha perdida sobre os ombros: Imponii in humeros suos gaudens(69). Pois, um império sobre um ombro, e uma ovelha sobre ambos os ombros? Sim. Porque há mister mais ombros uma ovelha que um império. Não pesa tanto um império como uma ovelha. Para o império basta meio rei: para uma ovelha é necessário todo, E que pesando tanto uma só ovelha, que pesando tanto uma só alma, haja consciências eclesiásticas e seculares que tomem sobre seus ombros o peso da perdição de tantas mil? Venturoso Herodes, ou menos desventurado, que já de hoje em diante não serás tu o exemplo dos cruéis! Que importa que tirasse a vida Herodes a tantos inocentes, se lhes salvou as almas? Os cruéis e os tiranos são aqueles por cuja culpa se estão indo ao inferno tantas outras; e se um momento se dilatar o remédio das demais, lá irão todas. No céu viu S. João que estava as almas dos inocentes pedindo a Deus vingança do seu sangue: Usquequo, Domine, non vindicas san guinem nostrum (70)? E se almas que estão no céu vendo e gozando a Deus, pedem vingança, tantas almas que estão ardendo no inferno, e arderão por toda a eternidade, que brados darão a Deus? As almas também tem sangue, que é o que Cristo derramou por elas, e que brados dará à Justiça Divina este divino sangue, quando tão ouvidos foram os do sangue de Abel?

VIII

Nos ecos destes mesmos brados queria eu ficasse suspensa a minha oração, mas não é bem que ela acabe em brados e clamores, quando o Evangelho nos mostra o céu tão propício, que se ouvem na terra os silêncios. Assim lhes aconteceu aos Magos, e assim espero eu me suceda a mim, pois sou tão venturoso como eles foram, que no fim da sua viagem acharam muito mais do que esperavam. Buscavam o Rei nascido: Ubi est qui natus est rex (71) – e acharam o Rei nascido, e a Rainha Mãe: Ivenerunt puerum cum Maria Matre ejus (72). E como a soberana Mãe era a voz do rei na sua menoridade, e a volta que os Magos fizeram para as suas terras, correu por conta da mesma Senhora foi esta missão que tomou por sua, tão bem instruída, tão bem fundada, e tão gloriosa em tudo, que dela e das que dela se foram propagando, disse Salomão nos seus Cânticos: Emissiones tuae paradisus (73). Até agora, Senhora, porque as missões se não fizeram em nome e debaixo da real proteção de Vossa Majestade, os tormentos de pena e dano que aquelas almas padeceram se podiam chamar missões do inferno; agora as mesmas missões, por serem de Vossa Majestade, serão paraíso: Emissiones, tuae paradisus. Assim o ficam esperando da real piedade, justiça e grandeza de Vossa Majestade, aquelas tão perseguidas e desamparadas almas, e assim o confiam e têm por certo os que, tendo-se desterrado da pátria por amor delas, padecem hoje na pátria tão indigno desterro. E para acabar corno comecei, com a última cláusula do Evangelho, o que ele finalmente diz é que os Magos tornaram para a sua terra por outro caminho: Per aliam viam reversi sunt in regionem suam (Mi. 2,12). A terra foi a mesma, mas o caminho diverso; e isto é o que só desejam os que não têm por suas outras terras mais que as daquela gentilidade, a cuja conversão e doutrina, por meio de tantos trabalhos, têm sacrificado a vida. Voltar para as mesmas terras, sim, que o contrário seria inconstância, mas em forma que o caminho seja tão diverso que triunfe e seja servido Cristo, e não Herodes. Se os Magos voltassem pelo mesmo caminho, triunfaria o tirano, perigaria Cristo; e os Magos, quando escapassem, não fariam o fruto que fizeram nas mesmas terras, convertendo-as, como as converteram todas, à fé e obediência do Rei que vieram adorar, e de cujos pés não levaram nem quiseram outro despacho. Tudo isto se conseguiu, e tão felizmente, e se conseguirá também agora com a mesma felicidade, se o oráculo for o mesmo. Mande o soberano oráculo tornem para a mesma região, e mande eficazmente que seja outro o caminho: Per aliam viam reversi sunt in regionem suam.(74)

Sermão da Glória de Maria, Mãe de Deus

Bem se concordam, neste dia e neste lugar, o título da casa com o da festa e o da festa com o da casa: a casa da Senhora da Glória e a festa da glória da Senhora. O Evangelho, que deve ser o fundamento de tudo que se há-de dizer, também eu o quisera concordar com essa glória; mas o que dele e dela se tem dito atègora não concorda com o meu desejo, nem com o meu pensamento. O Evangelho diz que « escolheu Maria a melhor parte» : Maria optimam partem elegit; e os santos e teólogos, que mais se alargaram, aplicando essa escolha e essa parte á glória da senhora, se alargaram, aplicando esta escolha e esta parte à gloria da Senhora, só dizem que verdadeiramente foi a melhor; porque a glória a que a Senhora hoje subiu e está gozando no Céu, é melhor e maior glória que a de todos os bem-aventurados. Os bem-aventurados da Glória, ou são homens ou anjos, e não só em cada uma destas comparações, senão em ambas, dizem que é maior a glória de Maria que a de todos os homens e a de todos os anjos, e não divididos, mas juntos.

Grande glória! grande, incomparável, imensa! O Sol não só excede na luz a cada uma das estrelas, e a cada um dos planetas, senão a todas e a todos incomparavelmente. Por isso a Senhora neste dia se chama «escolhida como o Sol»: Quae est ista quae ascendit, electa ut Sol? O mar não só excede na grandeza a cada uma das fontes e a cada um dos rios, senão a todas e a todos imensamente; por isso a Senhora se chama Maria, que quer dizer mar, e só por este nome (que não tem outra cousa no Evangelho) se lhe aplicam as palavras dele: Maria optimam partem elegit. Isto é, como dizia, tudo o que dizem os santos e teólogos; mas nem o Evangelho assim entendido, nem a glória da Senhora assim declarada, nem a comparação dela assim deduzida, concordam com o meu pensamento. O Evangelho, dizendo: optimam partem, parece-me que quer dizer muito mais. A glória de Maria, sendo de Maria Mãe de Deus, parece-me que é muito maior, e a comparação com os outros bem-aventurados sòmente, parece-me muito estreita e quase indigna. O meu pensamento é (Deus me ajude nele!) que a comparação de glória a glória, não se deve fazer só entre a glória de Maria com a glória do todas as outras criaturas humanas e angélicas, senão com a glória do mesmo Criador delas, a quem Maria criou. O texto e a palavra optimam a tudo se estende, porque sendo superlativa, põe as cousas no sumo lugar, do qual se não exclui Deus, antes se inclui essencialmente. Neste tão remontado sentido, pretendo provar e mostrar hoje que, comparada a glória de Maria com a glória do mesmo Deus e fazendo da glória de Deus e da glória de Maria duas partes, a melhor parte é a de Maria: Maria optimam partem elegit. Até não me ouvirdes, não me condeneis. E espero que me não haveis de condenar, se a mesma Senhora da Glória me assistir com sua graça. Ave Maria.

II
Maria optimam partem elegit. Suspensos considero todos os que me ouvem, na expectação do assunto que propus: os curiosos com indiferença, os devotos com alvoroço, os críticos com a censura já prevenida, e todos com razão. É certo e de fé que, por grande e grandíssima que seja a glória de Maria Senhora nossa, a glória de Deus é infinitamente maior, assim como ele ( que só se compreende ) é por natureza infinito. Pois se a glória de Maria, como glória de pura criatura, posto que criatura a mais excelente de todas, é glória finita, e infinitamente menor que a glória de Deus; como me atrevo eu a afirmar, e como se pode entender que, ainda em comparação da glória do mesmo Deus, se verifiquem as palavras do Evangelho na glória de Maria, e que goze Maria a melhor parte? Maria optimam partem elegit?

Para inteligência desta verdade, nas mesmas palavras do Evangelho temos outra dúvida não menos dificultosa, que se deve averiguar primeiro. Esta, que o texto chama a melhor parte, diz o mesmo texto que Maria a escolheu: Maria optimam partem elegit; e também esta escolha não tem lugar nem se pode verificar na glória da Senhora. A eleição para a glória é só de Deus: Deus é o que elegeu e escolheu para a glória todos os bem-aventurados, que por isso se chamam escolhidos; e ainda que entre todos os escolhidos a Senhora tenha o primeiro e mais sublime lugar, ela também foi escolhida, e não a que escolheu. Assim o canta a Igreja, quando canta a mesma entrada da Senhora no Céu: Elegit eam Deus et præ elegit eam, in tabernáculo suo habitare facit eam.

Pois se Maria foi a escolhida para a glória que tem no céu, e a escolha foi de Deus e não sua; como diz a mesma Igreja, nas palavras que lhe aplica, que a Senhora foi a que escolheu e elegeu esta melhor parte? Maria optimam partem elegit?

__ Na inteligência desta segunda dúvida consiste a solução da primeira. Ora vede e com atenção.

É certo que a Senhora foi escolhida por Deus para a glória e também é certo que a glória de Deus é infinitamente maior que a glória da Senhora; e contudo diz o Evangelho que Maria foi a que escolheu e que escolheu a melhor parte, uma e outra cousa com grande mistério e energia. Diz que Maria foi a que escolheu; porque ainda que a eleição não foi da Senhora, a grandeza de sua glória é tão imensa, que não parece que foi a glória escolhida para ela, senão que ela foi a que a escolheu para si. E diz que Maria escolheu a melhor parte; porque ainda que a glória de Deus é infinitamente maior que a sua, a melhor parte que pode escolher uma mãe é que a glória de seu Filho seja a maior. Como Maria é mãe de Deus, e Deus Filho de Maria, mais se gloria a Senhora de que seu Filho goze esta infinidade de glória, e de ela a gozar em seu filho, do que se a gozara em si mesma. E daqui se segue que considerada a glória de Deus e a glória de Maria em duas partes, porque a parte de Deus é a máxima, por isso a parte de Maria é a óptima: Maria optimam partem elegit.

Para todos os que sois pais e mães, não hei mister maior, nem melhor prova do que digo, que os vossos próprios afectos e o ditame natural dos vossos corações. Dizei-me: se houvera neste mundo uma dignidade, uma honra, uma glória maior que todas, e se pusera na vossa eleição e na vossa escolha querê-la para vós ou para vosso filho, para quem a havíeis de querer? __ Não há dúvida que para vosso filho. Pois isto mesmo é o que devemos considerar na glória da Senhora. É verdade que a glória de Deus é infinitamente maior que a de sua Mãe; mas como todo esse excesso de glória é de seu Filho e está em seu filho, ela a possui e goza em melhor parte, que se a gozara em si mesma. Assim entendo e suponho que o entendem todos os que são pais e mães. Mas porque muitos dos que me ouvem não têm esta experiência, e porque em algum coração humano, ainda que paterno ou materno, pode estar este mesmo afecto menos bem ordenado; para glória da Senhora da Glória, e para maior evidência de que mais gloriosa é pela glória de seu Filho que pela sua, e que gozando nele toda essa glória, a goza na melhor parte, ouçamos e provemos esta mesma verdade, pelo testemunho universal e concorde de todas as letras sagradas, eclesiásticas e profanas. No primeiro lugar ouviremos os filósofos, no segundo os Santos Padres da Igreja, no terceiro as Escrituras divinas, e no último ao mesmo Deus na pessoa do Pai; e veremos quão conforme foi o seu afecto com o desta Soberana Mãe, pois ambos são Pai e Mãe do mesmo Filho.

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III
Comecemos pelos filósofos. Põe em questão Séneca e disputa subtilìssimamente no Livro III dos cinco que intitulou De Beneficiis, se pode um filho vencer em algum benefício a seu pai? A razão de duvidar é porque o primeiro e maior benefício é o ser, e havendo o pai dado o ser ao filho, o filho não pode dar o ser a seu pai. Mas esta diferença não tem lugar no nosso caso, porque falamos de um Pai, e de uma Filha, em. que o Pai é juntamente Pai e Filho da mesma Mãe e a Mãe é juntamente Mãe e Filha do mesmo Pai. Abstraindo, porém deste impossível da natureza, que os filósofos gentios não conheceram, resolve o mesmo Séneca que bem pode um filho vencer no maior benefício a seu pai, e o prova com o exemplo de Eneias, o qual, por meio das lanças dos Gregos e do incêndio e labaredas de Tróia, levando sobre seus ombros ao velho Anquises, deu mais heròicamente a vida a seu pai do que dele a recebera . À vista deste famoso espectáculo de valor e de piedade, não há dúvida que venceu o filho ao pai. Mas qual foi então mais glorioso: o filho vencedor ou o pai vencido? A este exemplo ajunta o mesmo filósofo o de Antíloco e de outros que deram a seus pais mais ainda que o ser e a vida que lhes deviam, e conclui assim: Felices qui vicerint, felices qui vincentur: quid autem est felicius quam sic cedere? Quando os filhos vencem aos pais e se ostentam maiores que eles, « felizes são os que vencem e felizes os vencidos; mas muito mais felizes os pais vencidos que os filhos vencedores, porque não pode haver maior gosto, nem maior glória para um pai, que ver-se vencido de seu filho.» Grande glória é do filho que vença ao pai, que lhe deu o ser; mas muito maior glória é do mesmo pai, ver que deu o ser a um tal filho que o vença a ele.

Isto que disse Séneca, falando dos benefícios, corre igualmente, e muito mais em todas as outras acções ou grandezas, em que os pais se vêem vencidos dos filhos. Ouçamos a. outro filósofo, que: melhor ainda que Séneca, conheceu os afetos naturais, e não só em mais harmonioso estilo, mas com mais profunda especulação que todos, penetrou a anatomia do coração humano.

Faz paralelo Ovídio entre os dois primeiros Césares, Júlio e Augusto, aquele pai, e este filho; e depois de assentar que « a maior obra de Júlio César foi ter um tal filho como Augusto: Nec enim de Cæ saris actis ullum maius opus, quam quod pater extitit hujus, supõe com a comum opinião de Roma, que um cometa que na morte de Júlio César apareceu, era a alma do mesmo Júlio colocada entre os deuses como um deles. E no meio daquela imaginada bem-aventurança, qual vos parece que seria a maior glória de um homem que nesta vida tinha logrado todas as que pode dar o Mundo? __ Diz o mesmo Ovídio, (tão falso na. suposição como poeta, mas tão certo no discurso como filósofo) que o que fazia lá de cima. Júlio César era olhar para sen filho Augusto, e que, « considerando as grandezas do mesmo filho e reconhecendo e confessando que eram maiores que ar suas, o seu maior gosto e a sua maior glória era ver-se vencido dele» : Natique videns benefacta, fatetur esse suis maiora, et vinci gaudet ab illo.

Ah Virgem gloriosíssima, no Céu estais verdadeiramente, como crê e adora a nossa Fé, mas nas sombras escuras e falsas deste fabuloso pensamento, que consideração haverá que não reconheça quais são lá os mais intensos afectos e as maiores glórias do vosso? Estais vendo e contemplando, como em um espelho claríssimo, o infinito ser, os infinitos atributos, a infinita e imensa majestade de vosso Unigénito Filho; conheceis e « confessais que as suas grandezas excedem, e são também infinitamente maiores que as vossas» : Fatetur esse suis maiora; mas a mesma evidência de que vosso Filho vos vence e excede na glória, é a melhor parte da mesma glória vossa, e a de que mais vós gozais e gozareis eternamente com ele: Et vinci gaudet ab illo.

Quem pudera imaginar que Júlio César, vencedor de Cipião e de Pompeu __ e de tantos outros capitães famosos, que junto a estes perdem o nome __ triunfador da África, do Egipto, das Gálias e das Espanhas e da mesma Roma; aquele enfim, de tão altivo coração que ninguém sofreu lhe fosse superior ou igual no Mundo; quem pudera imaginar, digo, que havia de gostar e gloriar-se de ser vencido de outro? Mas como Augusto que o vencia era filho seu, o ser vencido dele era a sua maior vitória, este o maior triunfo de seus triunfos, esta a maior glória de suas glórias: Et vinci gaudet ab illo.

Mas porque neste exemplo nos não fique o escrúpulo de ser adulação poética, posto que tão conforme ao afecto natural, confirmemo-lo com testemunho histórico e verdadeiro, em nada menor que passado, e porventura mais notável.

Celebra Plutarco, tão insigne historiador como filósofo, o grande extremo com que Filipe, rei de Macedónia, amava a seu filho Alexandre, já digno do nome de Grande em seus primeiros anos, pela índole e generosidade real que em todos seus pensamentos, ditos e ações resplandecia. E para prova deste extremado afecto, refere uma experiência que nos vassalos pudera ser tão arriscada, como do rei mal recebida, se o amor de pai a filho a não interpretara de outra sorte. Foi o caso que os Macedónios, sem embargo da fé que deviam a Filipe, pùblicamente chamavam a Alexandre o rei e a Filipe o capitão. Mas como castigaria Filipe este agravo? __ Não há ciúmes mais impacientes, mais precipitados e mais vingativos que os que tocam no ceptro e na coroa. Apenas tem havido púrpura antiga nem moderna, que por leves suspeitas neste género se não tingisse em sangue. E que sofra Filipe, aquele que tanto tinha dilatado o império de Macedónia, que seus próprios vassalos em sua vida, e em sua presença lhe tirem o nome de rei e o dêem a Alexandre!

Muito fora que o sofresse, mas muito mais foi, que não só o sofria., senão que o estimava e se gloriava muito disso. Ouvi a Plutarco: Hinc filium non immerito Philippus dilexit, ut etiam gauderet, cum Alexandrum Macedones regem, Philippum appellarent Ducem. Era Filipe pai e Alexandre filho, e tão fora estava o pai de sentir que lhe antepusessem o filho, que antes o tinha por lisonja e glória, e esse era o seu maior gosto: Ut etiam gauderet. quando lhe tiravam a coroa para a darem a. seu filho, então se tinha Filipe por mais coroado; quando já faziam a Alexandre herdeiro do reino, antes de lhe esperarem pela morte, então se tinha por imortal; quando o apelidavam com menor nome, então se tinha por maior. E quando lhe diziam que ele só era capitão, então aceitava esta gloriosa injúria, como os vivas e aplausos da mais ilustre vitória; porque a maior glória de um pai é ser vencido de seu filho: Et vinci gaudet ab illo.

A razão e filosofia natural deste afecto é porque ao maior desejo, quando se consegue, segue-se naturalmente o maior gosto; e o maior desejo que têm e devem ter os pais, é serem tais seus filhos, que não só os igualem, mas os vençam e excedam a eles. Assim o disse ou cantou ao Imperador Teodósio Claudiano, tão insigne na filosofia como na poética. Descreve copiosamente as virtudes imperiais, militares e políticas com que seu filho Honório se adiantava admiràvelmente aos anos, e não só igualava, mas excedia a seu pai; e fazendo uma apóstrofe a Teodósio, lhe diz confiadamente assim: Aspice nunc quacumque micas, seu circulus austri, magne parens, gelidi seu te meruere Triones, aspice, completur votum, jam natus adæ quat te meritis, et quod magis est optabile, vincit: « De lá onde como estrela, de Marte ilustrais o Mundo com vossas vitórias, ou seja no círculo do astro, ou no frio Setentrião, olhai, felicíssimo César, para Honório vosso filho, e se como imperador tendes conseguido o nome de Grande, chamando-vos a voz pública Teodósio o Magno, a minha (diz Claudiano) não vos invoca com o nome de grande imperador, senão com o de grande pai: Magne parens; e o que celebro mais entre todas as glórias de vossa felicidade e o que tenho por mais digno do emprego de vossa vista, é que vejais e torneis a ver: Aspice, aspice; que chegastes a ter um filho, o qual não só vos iguala, que é o que desejam os pais, mas que já vos excede e vence, que é o que mais devem desejar: Et quod magis est optabile, vincit» .

Notai muito as palavras: Quod magis est optabile, e aplicai-as ao nosso caso. O que mais se deve desejar é o melhor que se pode escolher; e como o que mais devem desejar os pais é que os filhos os vençam e os excedam, bem se conclui que, se entre a glória de Deus e a de sua Mãe fora a escolha da mesma Mãe, o que a Senhora havia de escolher para si é que seu Filho a excedesse e vencesse na mesma Gloria, como verdadeiramente a excede e vence: Et quod magis est optabile, vincit. Vence Deus incomparàvelmente a sua Mãe na glória infinita que goza, mas como este mesmo excesso é o mais que Maria podia desejar e o melhor que devia escolher como Mãe, por isso se diz com razão que Maria escolheu hoje a melhor parte: Maria optimam partem elegit.

IV
Temos ouvido os filósofos, que falam pela boca da natureza; ouçamos agora os santos padres, que falam pela da Igreja.

São Sidónio Apolinar, bispo arvernense e padre do V Século, escrevendo a Audaz, prefeito dos reis godos no tempo em que dominaram Itália, promete-lhe suas orações e conclui com estas palavras: Deum posco, ut te filii consequantur, et quod magis decet velle, transcendant: « Rogo a Deus por vós e por vossos filhos, diz o eloquentíssimo Padre, e o que peço para eles é que vos imitem; o que peco para vós é que vos excedam, porque vos imitem, porque isso é ~ que eles devem fazer; que vos excedam, porque isto é o que vós deveis desejar: Et quod magis decet velle, transcendant» .

Oh quisesse Deus que fossem hoje tais os pais, e tal a criação dos filhos, que por uns e outros lhes pudéssemos fazer esta oração! Mas é tanto pelo contrário que podemos chorar da nossa idade o que o outro gentio lamentava da sua: Æ tas parentum peior avis tulit nos nequiores, mox daturos progeniem vitiosiorem: « Os avós foram maus, os filhos são piores, os netos serão péssimos» . Haviam-se de prezar os pais, não só de ser bons, mas de dar tal criação aos filhos, que se pudessem gloriar de serem eles melhores. Mas deixadas estas lamentações, que não são para dia tão alegre, continuemos a ouvir os Santos Padres, e sejam os dois maiores da Igreja grega e latina __ Nazianzeno e Agostinho.

Faz duas elegantes epístolas S. Gregório Nazianzeno, uma a Nicóbulo, famoso letrado, em nome de um seu filho, em nome do mesmo Nicóbulo; e na primeira, pedindo o filho ao pai que lhe dê licença para frequentar as escolas e seguir as letras, diz assim: Gratia quam posco, genitor charissime, patris est mage, quam nati: « a graça que vos peço, pai meu, é mais para vós que para mim, e mais é vossa que minha» . Se isto dissera o moço, que ainda não tinha mais que o desejo de saber, não me admirara o dito; mas falando por boca dele o grande Nazianzeno, do qual com singular elogio elogia a Igreja, que em nenhuma cousa da que escreveu, errou; como pode ser que a glória do filho seja mais do pai que do mesmo filho: Patris est mage quam nati? E se esta preposição é verdadeira, segue-se dela, aplicada ao nosso intento, que a glória de Deus é mais de Maria que do mesmo Deus, porque Deus é filho e ela é Mãe. E porque não faça dúvida o falarmos da glória de um de outro, com a mesma palavra explica o santo Padre nas que logo acrescenta: Glória namque patris natorum est fama, decusque, ut rursus natis est glória fama parentum. Como pode ser logo neste caso, ou em algum outro, que a glória do filho seja mais do pai que do filho: Patris est mage, quam nati ?

Não há dúvida que falou nesta sentença Nazianzeno como quem tão altamente penetrava e distinguia a subtileza dos afectos humanos, entre os quais o amor paterno, como é o mais eficaz e muito forte, é também o mais fino. Diz que a glória do filho é glória do pai, que do mesmo filho; porque mais se gloriam os pais de a gozarem seus filhos ou de a gozarem neles, que se a gozaram em si mesmos. E neste sentido se pode dizer com verdade e propriedade natural que a glória de Deus em certo medo é mais de Maria que do mesmo Deus; porque, não sendo sua, como não é, é do filho ùnicamente seu, em quem ela mais estima, e da qual mais se gloria que se pudera ser, ou fora sua.

Isto é o que o disse Nazianzeno ao pai por boca do filho; vejamos agora o que diz e responde ao filho por boca do pai: Sis sane præ stantior ipse parente: Queres, filho, seguir-me na profissão e ser grande, como o mundo e a fama diz que sou, na ciência e nas letras? Sou contente; mas não me contento só com isso: o que peço a Deus é que « saias tão eminente nelas, que me faças grandes vantagens, e sejas muito maior que teu pai: « Sis sane præ stantior ipse parente» . Assim diz Nicóbulo, ou Nazianzeno por ele, e dá a razão tão própria no nosso caso, como se eu a dera: « Gaudet enim genitor, cum palmam præ ripit ipsi virtutis sua progenies: maiorque voluptas hinc oritur, quam si reliquos præ verteret omnes: Desejo, filho, que sejas maior que eu; porque « não há gosto para um pai, como ver que seu filho lhe leva a palma, e de se ver assim vencido dele, se gloria muito mais que se vencera, e se avantajara a todos quantos houve no Mundo» .

Mudai, agora o nome de Genitor em Genitrix, e entendei que falou Nazianzeno da glória de Maria no Céu, onde tão gloriosamente se vê vencida da glória de seu Filho: Gaudet enim Genitrix, cum palmam præ ripit virtutis sua progenies. Vê-se Maria, quando vê a Deus, infinitamente vencida da imensidade de sua glória; mas como é glória, não de outrem, senão de seu Filho: Sua progenies, o ver-se vencida dele é a sua vitória e a sua palma: Cum palmam præ ripit ipsi. Nas outras contendas a palma é do vencedor, mas quando contende o filho com o pai ou com a mãe, a palma é do pai ou da mãe vencida; porque a sua maior glória é ter um filho que a vença nela.

Este dia da Senhora da Glória chama-se também da Senhora da Palma; porque, como é tradição dos que assistiram a seu glorioso trânsito, o anjo embaixador de seu Filho, que lhe trouxe a alegre nova, lhe meteu juntamente na mão uma palma, com a qual, como vencedora da Morte e do Mundo, entre as aclamações e vivas de toda a corte beata, entrasse triunfante no Céu. Subi, Senhora, subi, subi ao trono da glória que vos está aparelhado sobre todas as jerarquias, que lá vos espera outra palma infinitamente mais gloriosa. E que palma? Não aquela com que venceis em glória a todos os espíritos bem-aventurados, senão aquela com que na mesma glória sois vencida de vosso filho: Cum palmam præ ripit ipse sua progenies. Grande glória da Senhora é, como lhe canta a Igreja, ver-se exaltada no Céu sobre todos os coros e jerarquias dos espíritos angélicos; grande glória que os principados e potestades que os querubins e serafins lhe ficam muito abaixo, e que no lugar, na dignidade, na honra, na glória excede incomparàvelmente a todos; porém o ver que neste mesmo excesso de glória é excedida infinitamente de seu Filho; isso é o de que naquele mar imenso de glória mais se gloria, isto é o de que naquele verdadeiro paraíso dos deleites eternos mais a deleita: Maiorque voluptas hinc oritur, quam si reliquos præ verteret omnes.

Mas ouçamos já a Agostinho, que mais subtilmente ainda penetrou os efeitos e causas desta tão verdadeira, como racional complacência. Escreve Santo Agostinho em seu nome e no de Elvídio a Juliana, mãe da virgem Demetríade, bem celebrada nas epístolas de S. Jerónimo; e porque esta senhora romana de nobreza consular, desprezadas as grandezas, riquezas e pompas do Mundo, se tinha dedicado toda a Deus no estado mais sublime da perfeição evangélica, dá o parabém Agostinho à mãe com estas ponderosas palavras: Te volentem, gaudentemque vincit: genere ex te, honore supra te: in qua etiam tuum esse cæ pit, quod in te esse non potuit: « Vossa filha Demetríade, ó Juliana, vence-vos, sim, na alteza do estado, a que a vedes sublimada; mas muito por vossa, vontade e muito por vosso gosto vos vence» : Volentem, gaudentemque vincit; « porque é filha vossa aquela de quem vos vedes vencida» : Genere ex te, honore supra te. « A honra que goza é muito sobre vós, mas como a geração que tem é de vós, também esta mesma honra é vossa; porque o que não podeis ter, nem alcançar em vós e por vós, já o tendes e gozais nela por ser vossa filha»: In qua etiam tuum esse cæ pit, quod in te esse non potuit. Vai por adiante Agostinho, ainda com mais profundo pensamento: Illa carnaliter non nupsit ut non tantum sibi, sed etiam tibi, ultra te, spiritualiter augeretur, quoniam tu ea compensatione minor illa es, quod ita nupsisti, ut nasceretur: « Demetríade, vossa filha, é maior que vós, e vós menor que ela; mas se ela vos excedeu a vós no que tem de maior, não vos excedeu só para si, senão também para vós; porque esse excesso se compensa com nascer de vós: Non tantum sibi, sed etiam tibi, ultra te, ea compensatione ut nasceretur.

Em uma só cousa não vem própria a semelhança, porque Maria pode ser Mãe como Juliana e Virgem juntamente como Demetríade; mas em tudo o mais especulou e ponderou a agudeza de Agostinho, quanto se pode dizer no nosso caso.

Te volentem, gaudentemque vincit. « Venceu-nos vosso Filho na glória, Virgem Mãe, mas muito por vossa vontade e por vosso gosto» ; porque « esse mesmo excesso de glória por ser sua, é o que mais quereis e de que mais vos gozais»: Genere ex te, honore supra te. A sua honra, a sua grandeza, a sua majestade, a sua glória imensa e infinita, é muito sobre vós, porque ele é Deus, e vós criatura: Honore supra te; mas a geração desse mesmo Deus, que é tanto sobre vós, é de vós: Genere ex te. E que se segue de aqui? Segue-se que « tendes o que não podíeis ter, e que toda a glória sua, começa também a ser vossa» : Etiam tuum esse cæ piet, quod in te esse non potuit. Vós não podíeis ser Deus, mas como Deus pode fazer que fôsseis sua Mãe, tudo o que não podíeis ter em vós, tendes nele. Ele é maior que vós, e vós menor: Minor est: mas tudo o que tem de maior, (que é tudo) « não só o tem para si senão também para vós»: Non tantum sibi, sed tibi, ultra te.

Oh quem pudera declarar dignamente a união destes termos, ultra te et tibi! Enquanto a glória de Deus é infinita e imensa, estende-se muito «além de vós»: Ultra te; mas em quanto é glória de vosso Filho, toda se contrai e reflecte a vós: Tibi. Para os raios do sol fazerem reflexão, é necessário que tenham limite onde parem; mas a glória da Divindade de vosso Filho, que não tem nem pode ter limite, por isso se limitou à Humanidade que recebeu de vós, para reflectir sobre vós, nascendo de vós: Ea compensatione, ut nasceretur. E chama-se este nascer de vós compensação ou recompensa com que Deus vos compensou toda a grandeza e glória, que tem mais que vós; porque, nascendo de vós, é vosso verdadeiro Filho; e sendo toda essa glória de vosso Filho, também é vossa, e vossa naquela parte onde a tendes por melhor: Optimam partem elegit.

V
Parece que não podia falar mais concordemente ao nosso intento, nem a filosofia dos Gentios, nem a teologia dos Santos Padres. Vejamos agora o que dizem as Escrituras Sagradas.

O primeiro exemplo que elas nos oferecem, é o famoso do Barcelay. No tempo em que Absalão se rebelou contra David, (que tão mal pagam os filhos a seus pais o amor que lhes devem) um dos senhores que seguiram as partes do rei foi este Barcelay, o qual o assistiu sempre tão liberal e poderosamente, que ele só, como refere o texto, lhe sustentava os arraiais. Restituído pois David à coroa e lembrado deste serviço ou gentileza, de que outros príncipes se esquecem com a mudança da fortuna, qui-lo ter junto a si na corte e fazer-lhe a mercê e honra que sua fidelidade merecia; e para o vencer na liberalidade ou não ser vencido dele, disse-lhe que ele mesmo se despachasse, porque « tudo quanto quisesse lhe concederia» : Quidquid tibi placuerit, quod petieris a me, impetrabis. Generoso rei! Venturoso vassalo! Mas para quem vos parece que quereria toda esta ventura? Era Barcelay pai, tinha um filho que se chamava Caimam, escusou-se de aceitar o lugar e mercê que o rei lhe oferecia, e o que só lhe pediu foi que a fizesse a seu filho: Est servus tuus Caimam, ipse vadat tecum, et fac ei quidquid tibi bonum videtur.

Dirão os que têm lido esta história, que se escusou Barcelay porque se via carregado de anos, como ele mesmo disse; mas isso só foi um desvio e modo de não aceitar cortêsmente, e não é razão que satisfaça, pois vemos tantas velhices decrépitas, tão enfeitiçadas das paredes de palácio, que, tropeçando nas escadas, sem vista e sem respiração, as sobem todos os dias, bem esquecidos dos que lhes restam de vida. E quando Barcelay não fosse tocado deste contágio, ao menos podia dividir a mercê entre si e o filho, e aparecerem ambos na corte, como vemos muitos títulos com duas caras (a modo do Deu), uma com muitas cãs e outra sem barba. Mas a verdadeira razão por que este honrado pai não aceitou a mercê do rei para si e a pediu para seu filho, nem a dividiu entre ambos, podendo, pois estava na sua eleição, foi (como dizem literalmente Lira e Abulense) porque era pai, e entendeu que tanto lograva aquela honra em seu filho, como em si mesmo, porque nele era mais sua, como acima disse S. Gregório Nazianzeno. E porque o santo não deu a razão da sua sentença, nós a daremos e provaremos agora como outro mais notável exemplo da. Escritura.

Quando Abraão sacrificou seu filho Isaac, é cousa mui notável e mui notada que, sendo Isaac a vítima do sacrifício, os louvores desta ação e desta obediência, todos se dêem a Abraão e não a Isaac. Isaac, não se ofereceu com grande prontidão ao sacrifício? Não se deixou atar? Não se inclinou sobre o altar e se lançou sobre a lenha? Não viu sem horror desembainhar a espada? Não aguardou sem resistência o golpe? Que mais fez logo Abraão, para que a obediência de Isaac se passe em silêncio e a de Abraão se estime, se louve, se encareça com tanto excesso? Nenhuma diferença houve no caso, senão ser Abraão pai e Isaac filho. Amava Abraão mais a vida de Isaac que a sua, e vivia mais nela que Em si mesmo; e posto que ambos sacrificaram a vida e a mesma vida, o sacrifício de Abraão foi maior e mais heróico que o de Isaac, porque se Isaac sacrificou a sua vida, Abraão sacrificou a vida que era mais que sua, porque era de seu filho.

Atèqui está dito e bem dito; mas eu passo àvante e noto o que, a meu ver, é digno ainda de maior reparo: Premiou Deus esta famosa ação de Abraão, e como a premiou, e em quem? Não a premiou no mesmo Abraão, senão em Isaac: Quia fecist rem hanc, benedicentur in semine tuo omnes gentes: in Isaac vocabitur tibi semem. Pois se a ação do sacrifício foi celebrada em Abraão e não em Isaac, porque foi premiada em Isaac e não em Abraão? __ Por isso mesmo. A ação foi celebrada em Abraão e não em Isaac, porque Isaac sacrificou a sua vida e Abraão sacrificou a vida que estimava mais que a sua, porque era de seu filho; e da mesma maneira foi premiada em Isaac e não em Abraão, para que o prémio, sendo de seu filho, fosse também mais estimado dele do que se fora seu. A vida que sacrificastes era mais que vossa, porque era de vosso filho? Pois seja o prémio também de vosso filho, para que seja mais que vosso. E como os pais estimam mais os bens dos filhos que os seus próprios, e os logram e gozam mais neles que em si mesmos, vede se escolheria ou quereria a Senhora a imensa glória de seu Filho antes para ele que para si, se a terá por sua e mais que sua, e se as mesmas vantagens de glória, em que infinitamente se vê excedida., serão as que mais gloriosa a fazem e de que mais se gloria!

O mesmo Filho de Maria, por ser Filho seu, se chama também Filho de David; e na história do mesmo David nos dá a Escritura Sagrada o maior e mais universal testemunho, que para prova desta verdade, se pode desejar nem ainda inventar. Chegado David ao fim da vida, quis nomear sucessor do reino, e mandou ungir a seu filho Salomão por rei. Deu esta ordem a Banaias, capitão dos guardas da pessoa real, o qual lhe beijou a mão pela eleição, que não era pouco controversa, e o cumprimento com que falou ao rei, foi este: Quomodo fuit Dominus cum Domino meo rege, sic sit cum Salomone, et sublimius faciat solium ejus a solio Domini mei regis David: « Assim como Deus assistiu sempre e favoreceu a Vossa Majestade, assim assista e favoreça o reinado de Salomão, e sublime e exalte o seu trono muito mais que o trono de Vossa Majestade» . Executou-se prontamente a ordem, ungirarn a Salomão no monte Gion com todas as cerimónias que então se usavam em semelhante celebridade; entrou o novo rei por Jerusalém a cavalo, com trombetas e atabales diante, entre vivas e aclamações de todo o povo e exército; vieram todos os príncipes e ministros maiores dos doze tribos congratular-se com David, e as palavras com que lhe deram o parabém, foram outra vez as mesmas: Amplificet Deus nomen Salomonis super nomen tuum, et magnificet thronum ejus super thronum tuum: « Seja maior o maior o nome de Salomão, Senhor, que o vosso nome, e mais alto e glorioso o seu trono, do que foi o vosso.

O que me admira sobretudo neste caso, é que todos dissessem a mesma cousa. Estas são as ocasiões em que a discrição, o engenho e a cortesania dos que dão o parabém aos reis, se esmera em buscar cada um novos modos de congratulação, novos motivos de alegria, e ainda novos conceitos de lisonja, e mais os que fazem a fala em nome dos seus tribunais ou repúblicas. Como logo em tantos tribos, tantos ministros, tantos príncipes e senhores, (que, como diz o texto, vieram todos) não houve quem falasse por outro estilo, nem dissesse outra cousa a David, senão que Deus fizesse a seu filho maior que ele e sublimasse e exaltasse o trono de Salomão, mais que o seu trono? Isto disseram todos. porque a um rei tão famoso e glorioso corno David, nenhuma outra felicidade nem glória lhe restava para desejar, senão que tivesse um filho que em tudo se lhe avantajasse e o excedesse, e que o trono do mesmo filho fosse muito mais levantado e sublimado que o seu. A David, em quanto David, bas- tava-lhe por glória ter sido David; mas em quanto pai, não lhe bastava. Ainda lhe restava outra maior glória que desejar, e esta era ter um tal filho, que na majestade, na grandeza, na glória e no mesmo trono, o vencesse e excedesse muito: Et magnificet thronum ejus super thronum tuum.

Dois tronos há no Céu mais sublimes que todos: o de Deus e o de sua Mãe; o de Deus infinitamente mais alto que o de sua Mãe, e o de sua Mãe infinitamente mais alto que o de todas as criaturas. Mas a maior glória. de Maria, não consiste em que o seu trono exceda o de todas as jerarquias criadas, senão em ter um Filho cujo trono exceda infinitamemte o. Este é o parabém que no Céu lhe estão dando hoje e lhe darão por toda a, eternidade todos os espíritos bem-aventurados, sem haver em todos os coros de homens e anjos quem diga nem possa. dizer outra cousa, senão: Thronus ejus super thronum tuum. Vence Maria no Céu a. todas as Virgens, na glória que se deve à pureza.; a todos os confessores, na que se deve à humildade; a todos os mártires, na que se deve à paciência; todos os apóstolos, patriarcas e profetas, na que se deve à Fé, à Religião, ao zelo e culto da honra de Deus. Mas assim os confessores como as virgens, assim os mártires como os apóstolos, assim os patriarcas como os profetas, deixadas todas essas prerrogativas em que gloriosamente se vêem vencidos, os louvores e euges eternos com que exaltam a Gloriosíssima Mãe, é ser inferior o seu trono ao de seu Filho: Thronus ejus super thronum tuum. Vence Maria a todos os, anjos e arcanjos, a todos os principados e potestades, a todos os querubins e serafins, na virtude, no poder, na ciência, no amor, na graça, na glória. Mas todos estes espíritos angélicos, passando em silêncio os outros dons sobrenaturais que tocam a cada urna das jerarquias, em que veneram e reconhecem a soberana superioridade com que a Senhora, como rainha de todas, incomparàvelmente as excede; todos, como tão discretos e entendidos o que só dizem e sabem dizer; o que sobre tudo admiram e apregoam, é: Thronus ejus super thronum tuum. Assim que, homens e anjos, unidos no mesmo conceito e enlevados no mesmo pensamento, o que cantam, o que louvam, o que celebram, prostrados diante do trono da segunda Majestade da Glória, e os vivas que lhe dão concordemente, é ser Mãe de um Filho que, excedendo ela a todos em tão sublime grau na mesma glória, ele a vence e excede infinitamente. E isto é o que, divididos em dois coros de inumeráveis vozes e unidos em urna só voz, aplaudem, aclamam, festejam, e tudo o mais calam, conformando-se nesta eleição com a parte da mesma glória que a Senhora elegeu por melhor: Optimam partem. elegit.

VI
E porque a preferência desta eleição não fique só no juízo dos entendimentos criados, subamos aos arcanos do entendimento divino, e vejamos como o Eterno Pai, em tudo o que teve liberdade para eleger e escolher, também escolheu esta parte e a teve por melhor.

Para inteligência. deste ponto havemos de supor que tudo quanto tem e goza, o Filho de Deus o recebeu de seu Padre, mas por diferente modo. O que pertence à natureza e atributos divinos recebeu o Verbo Eterno do Eterno Padre, não por eleição e vontade livre do mesmo Padre, senão natural e necessàriamente. E a razão é porque a geração do Divino Verbo procede por acto do entendimento, antecedente a todo acto da vontade. sem o qual não há eleição. É verdade que, ainda que a geração do Verbo não procede por vontade nem é voluntária, nem por isso é involuntária ou contra vontade. E daqui se ficará entendendo a energia e propriedade daquelas dificultosas palavras de S. Paulo, onde diz: que a igualdade que o Filho tem com o Padre na natureza e atributos divinos, não foi furto, nem o mesmo Verbo o reputou por tal: Non rapinam arbitratus est esse se æ qualem Deo. E porque declarou S. Paulo o modo da geração do Verbo pela semelhança ou metáfora do furto, dizendo que não foi furto, nem como furtado ou roubado o que recebeu do Padre? __Divinamente, por certo, e não se podia declarar melhor. O furto é aquilo que se toma ou se retém e possui, invito domino __ « contra vontade de seu dono. E a Divindade que o Verbo recebeu do Padre, ainda que da parte do mesmo Padre não fosse voluntária, contudo não foi invita; não foi voluntária, sim, mas não foi contra vontade. E como o Padre não foi invito na geração do Verbo e na comunicação da sua Divindade (posto que fosse necessária e não livre, por isso a igualdade que o Verbo tem com ele, é verdadeiramente sua e não roubada: Non rapinam arbitratus est esse se æ qualem Deo.

Atèqui o que o Filho recebeu do Padre necessariamente, e sem eleição sua. E que é o que recebeu por vontade livre e por verdadeira e própria eleição? __ O que logo se segue e acrescentou o mesmo S. Paulo: Sed semetipsum exinanivit, formam servi accipiens, in similitudinem hominum factus, et habitu inventus ut homo, propter quod et Deus exaltavit illum et donavit illi nomen, quod est super omne nomen: Recebeu o Filho do Padre; por verdadeira e própria eleição, o ofício e dignidade de Redentor do género humano, « fazendo-se juntamente homem, e com esta nova e inefável dignidade recebeu um nome sobre todo nome» , que é o nome: de Jesus, mais sublime e mais venerável, pelo que é e pelo que significa, que o mesmo nome de Deus: Ut in nomine Jesus omne genu flectatur. Recebeu a potestade judiciária que o Padre demitiu de si, « competindo ao Filho privativamente o juízo universal e particular de vivos e mortos» : Pater non judicat quemquam, sed omne judicium dedit filio. Recebeu o primeiro trono entre as três Pessoas da Santíssima Trindade, assentando-se à mão direita do mesmo Padre: Dixit Dominus Domino meo: sede a dextris meis. Tudo isto, e o que disto se segue, com imensa exaltação e glória recebeu o Filho de seu de seu Eterno Padre, por vontade livre e própria eleição.

Mas se toda esta nova exaltação e toda esta nova glória não era devida à Pessoa do Filho por força ou direito da geração eterna, em que sòmente era igual ao Padre na natureza e atributos divinos, e a eleição livre de dar ou tomar a mesma exaltação e glória estava e dependia da vontade do mesmo Padre, porque a não tomou para si? Assim como encarnou a Pessoa do Filho, assim pudera encarnar a Pessoa do Padre; e no tal caso a nova dignidade de Redentor, o nome sobre todo o nome, a maior veneração e adoração de homens e anjos, e todas as outras prerrogativas e glórias que pelo mistério da Encarnação e Redenção sobrevieram e acresceram ao Filho, não haviam de ser do Filho, senão do mesmo Padre. Pois se a eleição voluntária e livre de tudo isso estava na mão do Padre e podia tomar para si toda essa exaltação e glória; porque; a quis antes para a Pessoa do Filho? Por nenhuma outra razão, senão porque era Filho e ele Pai: Ego autem constitutus sum rex ab eo super Sion montem sanctum ejus. Dominus dixit ad me: Filius meus es tu. Assim como o Eterno Padre, para encarecer o amor que tinha aos homens, não se nos deu a si, senão a seu Filho: Sic Deus dilexit mundum, ut Filium suum Unigenitum daret; assim para manifestar o amor que tinha ao mesmo Filho, não tomou para si estas novas glórias, senão que todas as quis para ele e lhas deu a ele, entendendo que, quando fossem de seu Filho, então eram mais suas, e que mais e melhor as gozava nele que em si mesmo.

E que Filho é este, Virgem Gloriosíssima, senão o mesmo Filho vosso, Filho Unigénito do Eterno Padre e Filho Unigénito de Maria? E se o Eterno Padre, em tudo o que pode ter eleição própria., escolheu os excessos de sua glória para seu Filho, essa mesma glória, que ele goza em si e vós nele, em que infinitamente vos vedes excedida, quem pode duvidar, se tem inteiro juízo, que seria também vossa a mesma eleição? Toda a Igreja Triunfante no Céu e toda a Militante na Terra, reconhece e confessa que entre todas as puras criaturas, ou sobre todas elas, nenhuma há mais parecida a Deus Padre, que aquela singularíssima Senhora, que ele criou e predestinou ab æ terno para Mãe do seu Unigénito Filho; porque era justo que o Pai e a Mãe de quem ele recebeu as duas naturezas de que inefàvelmente é composto, fossem, quanto era possível, em tudo semelhantes. E se o amor do Pai, por ser amor de Pai, e Pai sem Mãe, escolheu para seu Filho e não para si as glórias que cabiam na sua eleição, não há dúvida que o amor da Mãe, e Mãe sem Pai, escolheria para o mesmo Filho também, e não para si, toda a glória infinita que ele goza. E esta é a eleição que teria por melhor: Maria optimam partem elegit.

Assim o entendeu da mesma Mãe o mesmo Pai; e o provou maravilhosamente o juízo e amor da mesma Senhora para com seu Filho, onde a eleição foi pròpriamente sua. Quando o Eterno Padre quis dar Mãe a seu Unigénito, foi com tal miramento e atenção à grandeza e majestade da que sublimava a tão estreito e soberano parentesco, que não só quis que fosse sua, isto é, do mesmo Pai, a eleição da Mãe, senão que também fosse da Mãe a eleição do Filho. Bem pudera o Eterno Padre formar a Humanidade de seu Filho nas entranhas puríssimas da Virgem Maria, sem consentimento nem ainda conhecimento da mesma Virgem, assim como formou a Eva da costa de Adão, não acordado e estando em si, senão dormindo. Mas para que o Filho que havia de ser seu, posto que era Deus, não só fosse seu, senão da sua eleição, por isso (como diz S. Tomás) lhe destinou antes por embaixador um dos maiores príncipes da sua corte, o qual de sua parte lhe pedisse o sim e negociasse e alcançasse o consentimento, e o aceitasse em seu nome. Este foi, como lhe chamou São Paulo, o maior negócio que nunca houve nem haverá entre o Céu e a Terra, dificultado primeiro pela Senhora, e depois persuadido e concluído por S. Gabriel. Mas quais foram as razões e os motivos de que usou o anjo para o persuadir e concluir? __ É caso digno de admiração, e que singularmente prova da parte de Deus, do anjo e da, mesma Virgem, qual é na sua eleição a melhor parte.

Repara Maria na embaixada, insta o célebre embaixador, e as promessas que alegou para conseguir o consentimento, foram estas: Ecce concipies et paries Filium, et vocabis nomem ejus Jesum; hic erit magnus, et Filius Altissimi vocabitur; dabit illi Dominus Deus sedem David patris ejus, et regnabit, in domo Jacob, et regni ejus non erit finis: « O filho de que sereis Mãe, terá por nome Jesus, que quer dizer, o Redentor do Mundo; este será grande, chamar-se-á Filho de Deus, dar-lhe-á o mesmo Deus o trono de David seu pai; reinará em toda a casa de Jacob; e seu reino e império não terá fim» .

Não sei se advertis no que diz o anjo e no que não diz; no que promete e no que não promete. Tudo o que promete, são grandezas, altezas e glórias do Filho; e da Mãe, com quem fala, nenhuma cousa diz; e à mesma a quem pretende persuadir nada lhe promete. Não pudera Gabriel dizer à Senhora com a mesma verdade, que ela seria a florescente vara de Jessé; que nela ressuscitaria o ceptro de David; que a sua casa se levantaria, e estenderia mais que a de Jacob; que seria rainha sua e de todas as jerarquias dos anjos, Senhora dos homens, Imperatriz de todo o criado; e que esta majestade e grandeza também a lograria sem fim? __Tudo isto, e muito mais, podia e sabia dizer o anjo. Pois porque diz e promete só o que há-de ser o Filho, e não diz nem promete o que há-de ser a Mãe? Porque falou como anjo, conforme a sua ciência; e como embaixador, conforme as suas instruções; por isso, nem ele diz, nem Deus lhe manda dizer senão o que há-de ser seu Filho; porque nas matérias onde Maria tem a eleição livre, o que mais pesa no seu juízo e o que mais move e enche o seu afecto, são as grandezas e glórias de seu Filho e não as suas. As de seu Filho, e não as suas, porque as tem mais por suas, sendo de seu Filho; as de seu Filho e não as suas, porque as estima mais nele e as goza mais nele que em si mesma.

Isto é o que, segundo o conhecimento de Deus, e o do anjo, e o seu, elegeu Maria, na terra; e isto é o que na presença de Deus, dos anjos e de todas os bem-aventurados tem por melhor no Céu: Maria optimam partem elegit.

VII
E nós, Senhora, que, como filhos de Eva, ainda gememos neste desterro, e como filhos, posto que indignos, vossos, esperamos subir convosco e por vós a essa bem-aventurança pátria, o que só nos resta depois desta consideração de vossa glória, é dar-vos o parabém dela. Parabém vos seja a eleição, que, ainda que não foi nem podia ser vossa, na predestinação com que fostes escolhida para a glória de Mãe de Deus, foi vossa no consentimento voluntário e livre que se vos pediu e destes para o ser. Parabém vos seja a parte que compreende aquele todo incompreensível de glória, que só pode abarcar e abraçar o ser imenso, e conter dentro em si o infinito, que vós também com maior capacidade que a do Céu tivestes dentro em vós. Parabém vos seja finalmente a melhoria, por melhor vos está como Mãe, que toda essa imensidade e infinidade de glória seja de vosso Filho, e melhor a gozais por este modo, segundo as leis do perfeito amor, que se a gozáreis em vós mesma. E assim como vos damos o parabém e nos alegramos com todo o afecto de nossos corações, de que a estejais gozando e hajais de gozar por toda a eternidade; assim vos pedimos, humildemente postados ao trono de vossa gloriosíssima Majestade, que, como Senhora da Glória e liberalíssima dispensadora de todas as graças de vosso benditíssimo filho, alcançadas e merecidas pelo sangue preciosíssimo que de vós recebeu, nos comuniqueis, aumenteis e conserveis até o último dia, em que passarmos, como vós hoje, desta vida àquela graça que nos é necessária para vos louvarmos eternamente na Glória.

Sermão da Primeira Dominga do Advento 1650

Abrasado finalmente o Mundo e reduzido a um mar de cinzas tudo o que o esquecimento deste dia edificou sobre a terra... (Dou princípio a este sermão sem princípio, porque já disse Quintiliano que as grandes ações não hão mister exórdio: elas per si mesmas, ou supõem a atencão ou conciliam. Também passo em silêncio a narração portentosa dos sinais que precederão ao juízo, porque esta parte do Evangelho pertence aos que hão-de ser vivos naquele tempo, e não a nós; e o dia de hoje é muito de tratar cada um só do que Ihe pertence). Abrasado, pois, o Moundo, e consumido pela violência do fogo o que a sabedoria dos homens e o esquecimento deste dia levantou e edificou na terra; quando já não se verão nesse formoso e dilatado mapa senão umas poucas cinzas, relíquias de sua grandeza e desengano de nossa vaidade, «soará no ar uma trombeta» espantosa, não metafórica, mas verdadeira (que isso quer dizer a repetição de São Paulo: Canet enim tuba; e obedecendo aos impérios daquela voz o Céu, o Inferno, o Purgatório o Limbo, o mar, a terra, abrir-se-ão em um momento as sepulturas e aparecerão no Mundo os mortos vivos.

Parece-vos muito, que a voz de uma trombeta haja de achar obediência nos mortos? Ora reparai em outro milagre maior, e não vos parecerá grande este. Entrai pelos desertos do Egipto, da Tebaida da Palestina; penetrai o mais interior e retirado daquelas soledades. Que é o que vedes? Naquela cova vereis metido um Hilarião, naquela outra um Macário, na outra mais apartada um Pacómio; aqui um Paulo, ali um Jerónimo, acolá um Arsénio; da outra parte, uma Maria Egipcíaca, uma Thais, uma Pelágia, uma Teodora. Homens, mulheres, que é isto ? Quem vos trouxe a esse estado ? Quem vos antecipou a morte? Quem vos amortalhou nesses cilícios? Quem vos enterrou em vida? Quem vos meteu nessas sepulturas? Quem? Responderá por todos São Jerónimo: Semper mihi videtur insonare tuba illa terribilis: surgite mortui, venite ad judicim. Sabeis quem nos vestiu destas mortalhas, sabeis quem nos fechou nestas sepulturas?__«A lembrança daquela trombeta temerosa que há-de soar no último dia: levantai-vos, mortos, e vinde a juizo». Pois se a voz desta trombeta só imaginada, (pesai bem a consequência) se a voz desta trombeta só imaginada, bastou para enterrar os vivos, que muito que, quando soar verdadeiramente, seja poderosa para desenterrar os mortos?

O meu espanto não é este. O que me espanta, e o que deve assombrar a todos, é que haja de bastar esta trombeta para ressuscitar os mortos, e que não baste para espertar os mortais! Credes, mortais, que há-de haver juízo? Uma de duas é certa: ou o não credes, ou o não tendes. Virá o dia final, e então sentirá nossa insensibilidade sem remédio o que agora pudera ser com proveito. Quanto melhor fora chorar agora e arrepender agora, como faziam aqueles e aquelas penitentes do ermo, do que chorar e arrepender depois, quando para as lágrimas não há-de haver misericórdia, nem para os arrependimentos perdão. Agora vivemos como queremos; e ainda mal, porque depois havemos de ressuscitar como não quiséramos.

II
Grandes cousas e lastimosamente grandes haverá que ver e considerar naquele acto da ressurreição universal! Mas entre todas as considerações a que me parece mais própria deste lugar e mais digna de sentimento, é esta. E quanta gente bem nascida se verá naquele dia mal ressuscitada! Entre a ressurreição natural e a sobrenatural há uma grande diferença: que na ressurreição natural cada um ressuscita como nasce; na ressurreição sobrenatural, cada um ressuscita como vive; na ressurreição natural nasce Pedro e ressuscita Pedro; na ressurreição sobrenatural nasce pescador, e ressuscita príncipe: Sedebitis in regeneratione judicantes duodecim tribus Israel. Oh que grande consolação esta para aqueles a quem não alcançou a fortuna dos altos nascimentos! Bem me parecia a mim que não podia faltar Deus a dar uma grande satisfação no dia do juízo à desigualdade com que nascem os homens, sendo todos da mesma natureza. Não se faz agravo na desigualdade do nascer, a quem se deu a eleição de ressuscitar. A ressurreição é um segundo nascimento com alvedrio.

Tanta propriedade considerou Job neste segundo nascimento, que até outro pai, outra mãe disse que tínhamos na sepultura: Putredini dixi: pater meus es tu; mater mea et soror mea, vermibus. Temos outro pai e outra mãe na sepultura em que jazem nossos ossos, porque ali somos outra vez gerados, de ali saímos outra vez nascidos. Notai agora: Statutum est hominibus semel mori: «Quis Deus que morrêssemos uma só vez», e que nascêssemos duas, porque, como o morrer bem dependia de nosso alvedrio, bastava uma só morte; mas como o nascer bem não estava na nossa mão, eram necessários dois nascimentos, para que pudéssemos emendar no segundo tudo o que nos faltasse no primeiro. Bem pudera Deus fazer que nascessem os homens todos iguais, mas ordenou sua providência, que houvesse no Mundo esta mal sofrida desigualdade, para que a mesma dor do primeiro nascimento nos excitasse à melhoria do segundo.

Homens humildes e desprezados do povo, boa nova! Se a natureza ou a fortuna foi escassa convosco no nascimento, sabei que ainda haveis de nascer outra vez, e tão honradamente como quiserdes; então emendareis a natureza, então vos vingareis da fortuna.

Que maior vingança da fortuna que as mudanças tão notáveis, que se verão naquele dia! Virão naquele dia as almas do grande e do pequeno buscar seus corpos à sepultura, e talvez à mesma Igreja: e que sucederá pela maior parte? O pequeno achará seus ossos em um adro sem pedra nem letreiro, e ressuscitará tão ilustre como as estrelas. O grande, pelo contrário, achará seu corpo embalsamado em caixas de pórfiro, aos ombros de leões, ou elefantes de mármore, com soberbos e magníficos epitáfios, e ressuscitará mais vil que a mesma vileza. Oh que metamorfose tão triste, mas que verdadeira! Vede se há-de dar Deus boa satisfação aos homens da desigualdade com que hoje nascem. O ser bem nascido, que é uma vaidade que se acaba com a vida, é verdade que o não pôs Deus na nossa mão; mas o ser bem ressuscitado, que é aquela nobreza que há-de durar por toda a eternidade, essa deixou Deus no alvedrio de cada um. No nascimento somos filhos de nossos pais, na ressurreição seremos filhos de nossas obras. E que seja mal ressuscitado por culpa sua quem foi bem nascido sem merecimento seu! Lástima grande. Ressuscitar bem sobre haver nascido mal, é emendar a fortuna; ressuscitar mal sobre haver nascido bem, é pior que degenerar da natureza. Que ressuscite bem David sobre nascer de Jessé, grande glória do filho de um pastor; mas que ressuscite mal Absalão sobre nascer de David, grande afronta do filho de um rei! Se os homens se prezam tanto de ser bem nascidos, como fazem tão pouco caso de ser bem ressuscitados? Nenhuma cousa trazem na boca os grandes mais ordinàriamente, que as obrigações com que nasceram. E aposto eu que mui poucos sabem quais são estas obrígações. Nascer bem é obrigacão de ressuscitar melhor. Estas são as obrigações com que nascestes.

O mais bem nascido homem que houve, nem pode haver, foi Cristo; ninguém teve melhor pai, nem melhor mãe; e foi notar Santo Agostinho que, se Cristo nasceu bem, ressuscitou melhor: Gloriosior est ista ,nativitas, quam illa: illa cortus mortale genuit, ista redidit immortale. Cristo, diz Santo Agostinho, «nasceu mais nobremente no segundo nascimento que no primeiro: no primeiro nascimento nasceu mortal e passível; no segundo, que foi a sua ressurreição, nasceu impassível e imortal» Eis aqui as obrigações dos bem nascidos—nascerem a segunda vez melhor do que nasceram a primeira. Se Deus pusera na mão do homem o nascer, quem houvera, por bom que fosse, que não se fizesse muito melhor? Pois este é o caso em que estamos. Se havemos de tornar a nascer, porque não trabalharemos muito por nascer muito honradamente? Não nascer honrado no primeiro nascimento, tem a desculpa de que «Deus nos fez» Ipse fecit nos, Não nascer honrado no segundo, nenhuma desculpa tem: tem a glória de sermos nós os que nos fizemos: Ipsi nos. Que glória será naquele dia para um homem poder tomar para si em melhor sentido o elogio do grande Baptista: Inter natos mulierum non surrexit major:«Entre os nascidos das mulheres nenhum ressuscitou maior». Ser o maior dos nascidos, em quanto nascido, é pequeno louvor e de pouca dura; ser o maior dos nascidos, em quanto ressuscitado, isso éverdadeiramente o ser maior. Na nossa mão está, se o quisermos ser. Nesta vida o mais venturoso pode nascer filho do rei; na outra vida todos os que quiserem podem nascer filhos do mesmo Deus: Dedit eis potestatem filios Dei fieri. E que não sejam isto considerações, senão verdade e Fé católica! Bendito seja aquele Senhor, que é nossa ressurreição e nossa vida: Ego sum resurrectio et vita.

III
Unidas as almas aos corpos e restituidos os homens à sua antiga inteireza, os bem ressuscitados alegres, os mal ressuscitados tristes, começarão a caminhar todos para o lugar do juízo. Será aquela a vez primeira em que o género humano se verá a si mesmo, porque se ajuntarão ali os que são, os que foram, os que hão-de ser, e todos pararão no vale de Josafat. Se o dia não fora de tanto cuidado, muito seria para ver os homens grandes de todas as idades juntos. Mas vejo que me estão perguntando, como é possível que uma multidão tão excessiva como a de todo género humano, os homens que se continuaram desde o princíplo até agora, e os que se irão multiplicando sucessivamente até o fim do Mundo; como é possível que aquele número inumerável, aquela multidão quase infinita de homens caiba em um vale? A dúvida é boa, queira Deus que o seja a resposta. Primeiramente digo que nisto de lugares há grande engano: cabe muito mais nos lugares do que nós cuidamos.

No primeiro dia da criação, criou Deus o Céu e a Terra e os elementos, e é certo em boa filosofia, que não ficou nenhum vácuo no Mundo, tudo estava cheio. Com isto ser assim, e parecer que não havia já lugar para caber mais nada, ao terceiro dia vieram as ervas, as plantas, e as árvores; e com serem tantas em número e tão grandes, couberam todas. Ao quarto dia veio o Sol, e sendo aquele imenso planeta cento e sessenta e seis vezes maior que a Terra, coube também o Sol; vieram no mesmo dia as estrelas tantas mil, e cada uma de tantas mil léguas, e couberam as estrelas. Ao quinto dia vieram as aves ao ar, e couberam as aves; vieram os peixes ao mar, e com haver neles tantos monstros de disforme grandeza, couberam os peixes. No sexto dia vieram os animais tantos e tão grandes à Terra, e couteram os animais: finalmente veio o homem, e foi o homem o primeiro que começou a não caber; mas se não coube no Paraiso, coube fora dele. De sorte que, como dizia. nisto de lugares vai grande engano: cabe neles muito mais do que nos parece. E senão, passemos a um exemplo moral, e vejamo-lo em qualquer lugar da república. O dia é do juízo, seja o lugar de um julgador.

Antigamente em um lugar destes que é o que cabia? Cabia o doutor com os seus textos e umas poucas de postilhas, muito usadas, e por isso muito honradas. Cabia mais uma mula mal pensada, se a casa estava muito longe do Limoeiro. Cabiam os filhos honestamente vestidos; mas a pé e com a arte debaixo do braço. Cabia a mulher com poucas jóias, e as criadas, se passavam da unidade, não chegavam ao plural dos gregos. Isto é o que cabia naquele lugar antigamente; e feitas boas contas, parece que não podia caber mais. Andaram os anos, o lugar não cresceu, e tem mostrado a experiência que é muito mais sem comparação o que cabe no mesmo lugar. Primeiramente cabem umas casas, ou pacos, que os não tinham tão grandes os condes do outro tempo; cabe uma livraria de Estado, tamanha como a vaticana, e talvez com os livros tão fechados como ela os tem; cabe um coche com quatro mulas, cabem pajens, cabem lacaios, cabem escudeiros; cabe a mulher em quarto apartado, com donas, com aias e com todos os outros arremedos da fidalguia; cabem os filhos com cavalos e criados, e talvez com o jogo e com outras mocidades de preço; cabem as filhas maiores com dotes e casamentos de mais de marca, as segundas nos mosteiros com grossas tenças; cabem tapeçarias, cabem baixelas, cabem comendas, cabem benefícios, cabem moios de renda; e sobretudo cabem umas mãos muito lavadas e uma consciência muito pura, e infinitas outras cousas, que só na memória e no entendimento não cabem. Não é isto assim? Lá nessas terras por onde eu agora andei, assim é. Pois se tudo isto cabe em um lugar tão pequeno, que grande serviços fazemos nós à Fé em crer que caberemos todos no vale de Josafat? Havemos de caber todos, e se vierem outros tantos mais, para todos há de haver vale e milagre.

De mais desta razão geral que há da parte do lugar, há outras duas da parte das pessoas; uma da parte dos bons, outra da parte dos maus. Os bons poderão caber ali em muito pouco lugar, porque terão o dote da subtileza. Entre os quatro dotes gloriosos há um que se chama subtileza, O qual comunica tal propriedade aos corpos dos bem-aventurados, que todos quantos se hão-de achar no dia do juízo podem caber neste lugar onde eu estou, sem me tirarem dele. Cá no Mundo também há este dote da subtileza, mas com mui diferentes propriedades. A subtileza do Céu introduz a um sem afastar a outro; as subtilezas do Mundo, todo seu cuidado é afastar os outros para se introduzir a si. Por isso não há lugar que dure nem lugar que baste. Muito é que Jacob e Esaú não coubessem em uma casa; mais é que Lot e Abraão não coubessem em uma cidade; muito mais é que Saul e David não coubessem em um reino; mas o que excede toda a admiração é que Caim e Abel não coubessem em todo o Mundo. E porque não cabiam dois homens em tão imenso logar? Pior é a causa que o caso. Caim não cabia com Abel, porque Abel cabia com Deus. Em um homem cabendo com seu Senhor, logo os outros não cabem com ele. Alguma vez será isto soberba dos Abéis, mas ordinàriamente é inveja dos Cains. Se é certo que com a morte se acaba a inveja, fàcilmente caberemos todos no Dia do Juízo. Quereis caber todos? Não acrescenteis lugares, diminuí invejas. Este é o dote da subtileza dos bons.

Da parte dos maus também não há-de haver dificuldade em caber no vale; porque ainda que os maus são tantos, e hoje tão grandes e tão inchados, naquele dia hão-de estar todos muito pequeninos. que no tempo do Dilúvio coubessem na arca de Noé todos os animais do Mundo em suas espécies, crê-o a Fé, porque o diz a Escritura; mas não o compreende o entendimento porque o não alcança a razão. Como pode ser que coubessem em tão pequeno lugar tantos animais, tão grandes e tão feros? O leão, para quem toda a Líbia era pouca campanha; a águia, para quem todo o ar era pouca esfera; O touro, que não cabia na praça; O tigre, que não cabIa no bosque; o elefante, que não cabia em si mesmo. Que todos estes animais e tantos outros de igual fereza e grandeza coubessem juntos em uma arca tão pequena?! Sim, cabiam todos, porque, ainda que a arca era pequena, a tempestade era grande. Alagava Deus naquele tempo a terra com dilúvio universal, que foi a maior calamidade que padeceu o Mundo; e nos tempos dos grandes trabalhos e calamidades até o instinto faz encolher os animais, quanto mais a razão aos homens! Caberão os homens no vale de Josafat, assim como couberam os animais na arca de Noé: Sicut fuit in diebus Noe, sic erit in consummatione saculi. Diz o texto que só com os sinais do fim do Mundo hão-de andar todos os homens secos e mirrados: Arescentibus hominibus pra timore: Se aos homens os há de apertar tanto o receio, quanto os estreitará o juízo! Oh como nos encolheremos todos naquele dia! Oh como estarão pequenos ali os maiores gigantes! A maior maravilha do Dia do Juízo, não é haver de caber todo o Mundo em todo o vale de Josafat; a maravilha maior será que caberão então em uma pequena parte do vale muitos que não cabiam em todo o Mundo. Um Nabucodonosor, um Alexandre Magno, um Júlio César, para quem era estreita a redondeza da Terra, caberão ali em um cantinho.

Uma das cousas notáveis que diz Cristo do Dia do Juízo é que «cairão as estrelas do céu» . StelIæ cadent de cæelo. Se dermos vista aos matemáticos, hão-de achar grande dificuldade neste texto (eu Ihes darei a razão natural dele, quando ma peçam). Todas as estrelas, menos duas, são maiores que a Terra, e algumas há que são quarenta, oitenta e cento e dez vezes maiores. Pois se as estrelas são maiores que a terra, como hão-de cair e caber cá em baixo? Hão-de caber, porque hão-de cair. Não sabeis que os levantados e os caídos não têm a mesma medida? Pois assim Ihes há-de suceder às estrelas. Agora que estão levantadas, ocupam grandes espaços do Céu; como estiverem caídas, hão-de caber em poucos palmos da Terra. Não há cousa que ocupe menor lugar que um caído. A Terra, em comparação do Céu, é um ponto; o centro, em comparação da Terra, é outro ponto; e Lúcifer, que levantado não cabia no Céu, caído cabe no centro da Terra. Ah Lucíferes do Mundo! Aqueles que levantados nas asas da prosperidade humana em nenhum lugar cabeis hoje, caídos e derribados naquele dia. cabereis em muito pouco lugar. Estaremos todos ali encolhidos e sumidos dentro em nós mesmos cuidando na conta que havemos de dar a Deus; e quando não houvera outra razão, esta só bastava para não faltar lugar a ninguém. Deem os homens em cuidar na conta que hão-de dar a Deus, e eu vos prometo que sobejem lugares. O que importa é que o lugar seja bom, que quanto é lugar, vale de Josafat haverá para todos.

IV
Presente enfim no vale todo o género humano, correr-se-ão as cortinas do Céu, e aparecerá o Supremo Juiz sobre um trono de resplandecentes nuvens, acompanhado de todas as jerarquias dos anjos, e muito mais de sua própria Majestade. A primeira cousa que fará será mandar apartar os maus dos bons; e os ministros desta execução serão os anjos: Exibunt angeli, et separabunt malos de medio justorum. Para se entender melhor esta separação havemos de supor com o Profeta Zacarias que, antes dela, não hão-de estar os homens ali juntos confusamente; mas para maior grandeza e distinção do acto, hão-de estar repartidos todos por seus estados: Familia et familia seorsum. A uma parte hão-de estar os papas; a outra os imperadores; a outra os reis; a outra os bispos; a outra os religiosos; e assim dos demais estados do Mundo. Separados todos por esta ordem, conforme o lugar que tiveram nesta vida, então se começará a segunda separação, segundo o estado que hão-de ter na outra, e que há-de durar para sempre.

Sairão pois os anjos; vede que suspensão e que tremor será o dos corações dos homens naquela hora! Sairão os anjos e irão primeiramente ao lugar dos papas. Et separabunt (faz horror só imaginar, que em uma dignidade tão divina e em homens eleitos pelo Espírito Santo há-de haver também que separar). Et separabunt malos de medio justorum: «E separarão os pontífices maus de entre os pontífices bons». Eu bem creio que serão muito raros os que se hão-de condenar; mas haver de dar conta a Deus de todas as almas do Mundo, é um peso tão imenso que não será maravilha que, sendo homens, levasse alguns ao Profundo. Todos nesta vida se chamaram padres santos; mas o Dia do Juízo mostrará que a santidade não consiste no nome, senão nas obras. Nesta vida beatíssimos, na outra malaventurados. Oh que grande miséria!

Sairão após estes outros anjos e irão ao lugar dos bispos e arcebispos: Et separabunt malos de medio justorum. Lá vai aquele porque não deu esmolas; aquele porque enriqueceu os parentes com o património de Cristo; aquele porque, tendo uma esposa, procurou outra melhor dotada; aquele porque faltou com o pasto da doutrina a suas ovelhas; aquele porque proveu as igrejas nos que não tinham mais merecimento que o de serem seus criados; aquele porque na sua diocese morreram tantas almas sem sacramentos; aquele por não residir; aquele por simonias; aquele por irregularidades; aquele por falta de exemplo da vida, e também algum por falta da ciência necessária; empregando o tempo e o estudo em divertimentos, ou da corte e não de prelado, ou do campo e não de pastor. Valha-me Deus, que confusão tão grande! Mas que alegres e que satisfeitos estarão neste passo, um São Bernardino de Sena, um São Boaventura, um São Domingos, um São Bernardo, e muitos outros varões santos e sesudos, que quando Ihes ofereceram as mitras, não quiseram subir à alteza da dignidade, porque reconheceram a do precipicio. Pelo contrário que tais levarão os corações aqueles miseráveis condenados? Quantas vezes dirão dentro em si mesmos e a vozes: Maldito seja o dia em que nos elegeram e maldito quem nos elegeu! Maldito seja o dia em que nos confirmaram, e maldito quem nos confirmou! Se um homem mal pode dar conta de sua alma, como a dará boa de tantas? Se este peso deu em terra com os maiores atlantes da Igreja, quem não temerá e fugirá dele?

Grande desconsolação é hoje para as igrejas de Portugal não terem bispos; mas pode ser que no dia do juízo seja grande consolação para os bispos de Portugal não chegarem a ter igrejas. De um sacerdote que não quis aceitar um bispado, conta São Jerónimo que, aparecendo depois da morte a um seu tio religioso que assim Iho aconselhara, lhe disse estas palavras: Gratias, Pater, tibi refero ex dissuasione episcopatus: «Dou-vos, Padre, muitas graças porque me persuadistes que não aceitasse aquele bispado»; nam scito quia nunc essem de numero damnatorum si fuissem de numero episcoporum: «Porque sabereis que hoje havia eu de ser do número dos condenados, se então fora do número dos bispos».

Oh quantos sem saberem o que fazem, debaixo do nonte lustroso de uma mitra, andam feitos pretendentes de sua condenação! A este e a muitos outros que não quiseram aceitar bispados, revelou Deus que se haviam de condenar, se chegassem a ser bispos. E quem vos disse a vós que estáveis privilegiados desta condicional? De chegardes a ser bispo, pode ser que não dependa a salvação de outras almas; e de não chegardes a o ser. pode ser que dependa a salvação da vossa. O mais seguro é encolher os ombros e deixar governar a Deus.

Do lugar dos bispos passarão os anjos ao lugar dos religiosos; e entrando naquela multidão infinita das ordens regulares, sem embargo de resplandecerem nelas como sóis as maiores santidades do Mundo, contudo haverá muito que separar; começarão por Judas: Et separabunt malos de medio justorum. Não o digo por me tocar; mas por todas as razões me parece que será este o mais triste espectáculo do Dia do Juízo. Que vão os homens ao Inferno pelo caminho do Inferno, desgraça é, mas não é maravilha; porém ir ao Inferno pelo caminho do Céu, é a maior de todas as misérias Que o rico avarento, vestindo púrpuras e holandas e gastando a vida em banquetes, seja sepultado nos fogos eternos. por seu preço leva o Inferno: Recepisti bona in vita tua; mas que o religioso, amortalhado em um saco, com os seus jejuns, com as suas penitencias, com a sua clausura, com a sua vontade sujeita a outrem, por ter os olhos nas migalhas dos do Mundo, como Lázaro, vá parar nas mesmas penas! Brava desaventura! O secular distraído, que lhe não veio nunca à memória a conta que havia de dar a Deus, que a não dê boa e se perca, não podia parar noutra cousa o seu descuido; mas que o mesmo religioso que por estes púlpitos vos vem pregar o juízo, possa ser e haja de ser um dos condenados daquele dia! Triste estado é o nosso, se nos não salvamos. Mas de aqui podeis vós também inferir que se isto passa no porto, que será no pego! Se nós (falo dos melhores que eu) se nós, sobre tanto meditar na outra vida, nos perdemos, o vosso descuido e o vosso esquecimento, onde vos há-de levar? Se as Cartuxas, se os Buçacos, se as Arrábidas hão-de tremer no Dia do Juízo, as cortes e vossa corte em que estado se achará?

V

Em todos os estados da corte haverá mais que separar que em nenhuns outros. Mas deixando por agora os demais, em que cada um se pode pregar a si mesmo: chegarão finalmente os anjos ao lugar dos reis. Não se verão ali sitiais, nem outros aparatos de majestade, mas todos sós, e acompanhados sòmente de suas obras, estarão em pé, como réus. Conhecer-se-ão distintamente quais foram os reis de cada reino: quais os de Hungria, quais os de França, quais os de Inglaterra, quais os de Castela, quais os de Portugal. E desta maneira irão os anjos tirando de cada coroa aqueles que foram maus reis: Et separabun malos de medio justorum. Espero eu em Deus que neste dia há-de ser o nosso reino singular entre os do Mundo, e que só dele não hão-de achar os anjos que apartar. Se eu estudara só pelo meu desejo e pela minha esperança, assim o havia de crer; mas quando leio as Escrituras, acho muito que temer e muito que duvidar. Dos reis, como dos outros homens, nós não sabemos quais se salvam nem quais se perdem. Só uma nação houve antigamente, da qual nos consta do texto sagrado quantos foram os reis que se salvaram e quantos os que se perderam. Tremo de o dizer, mas é bem que se saiba distintamente: No povo hebreu, em tempo que era povo de Deus, houve tres reinos: o primeiro foi o reino das Doze Tribos; teve três reis e durou cento e vinte anos; o segundo foi o reino de Judá; teve vinte reis e durou trezentos e noventa e quatro anos o terceiro foi o reino de Israel; teve dezanove reis, e durou duzentos e quarenta e dois anos. Saibamos agora quantos reis foram os que se salvaram e quantos os que se perderam nestes reinos.

No reino das Doze Tribos, de três reis perdeu-se Saul, salvou-se David, de Salomão não se sabe. No reino de Judá, de vinte reis salvaram-se cinco, perderam-se treze, de dois é incerto. No reino de Israel, nem estas tão pequenas excepções teve a desgraça; foram os reis dezanove e todos os dezanove se condenaram. No Dia do Juízo não se poderá cumprir neste reino o Separabunt malos de medio justorum: chegarão os anjos ali não terão que separar, levarão a todos. Oh desgraçados ceptrós! Oh desgraçadas coroas! Oh desgraçados pais! Oh desgraçada descendência! Desde Jeroboão a Oseas dezanove reis coroados: dezanove reis condenados.

Pois por certo que não foi por falta de doutrina nem de auxílios: tinham estes reis conhecimento do verdadeiro Deus; tinham um povo, que era o povo escolhido de Deus, tinham templo, tinham sacerdotes, tinham sacrifícios, viam milagres, ouviam profecias, recebiam favores do Céu, e quando era necessário, não lhes faltavam também castigos; e nada disto bastou. Muito arriscada cousa deve ser o reinar, pois em tantos tempos e em tantos reis, se salvam, ou tão poucos, ou nenhum. Julguem lá agora os príncipes quais serão as causas disto, que Deus não é injusto. Examinem mais escrupulosamente suas consciências, e olhem a quem as comunicam; considerem muito de vagar as suas obrigações, que são muito mais estreitas do que ordinàriamente cuidam; inquiram muito de propósito sobre os danos públicos e particulares de seus vassalos, e vejam, pondo de parte todo o afecto, se suas orações ou suas omissões podem ser a causa; persuadam-se que hão-de aparecer como qualquer outro homem diante do tribunal da Justica Divina, onde se Ihes há-de pedir rigorosíssima conta, dia por dia e hora por hora, de quanto fizeram e de quanto o deixaram de fazer. Cuide finalmente e pese, convém, cada um dos príncipes, quão grande desaventura e confusão sua será naquele cadafalso universal do Dia do Juízo, se depois de tanta majestade e adoração nesta vida, vier um anjo e o tomar pela mão, e o tirar para sempre do número dos que se hão-de salvar: Separabunt malos de medio justorum.

Por este modo se irá continuando a separação dos maus em todos os estados do Mundo; e naqueles em que por razão do sangue e do amor é mais natural a união, será mais lastimoso o apartamento. Verdadeiramente, todas as outras circunstancias daquele acto terão muito de rigorosas, esta parecerá cruel. Apartar-se-ão ali os pais dos filhos: irá para uma parte Abraão e para outra Ismael; apartar-se-ão os irmãos dos irmãos: irá para uma parte Jacob e para outra Esaú; apartar-se-ão as mulheres dos maridos: irá para uma parte Ester e para outra Assuero; apartar-se-ão os amigos dos amigos: (seja o exemplo incerto, já que há tão poucos de verdadeira amizade) irá para uma parte Jónatas e para outra David. Assim se apartarão para nunca mais os que se amam nesta vida e os que tinham tantas razões para se amarem também na outra.

Para nunca mais! Oh! que lastimosa palavra! Se apartar-se de uma terra para outra terra, com esperança de se tornar a ver, causa tanta dor nos que se amam; se apartar-se desta vida para a outra vida, com probabilidade de se verem eternamente, é um transe tão rigoroso; que dor será apartarem-se para nunca mais, com certeza de se não verem em quanto Deus for Deus, aqueles a que a natureza e o amor tinham feito quase a mesma cousa! Certo que tem assaz duro coração quem só pelo não meter nestes apertos não ama a Deus com todo ele.

VI
Feita a separação dos maus e bons, e sossegados os prantos daquele último apartamento que serão tão grandes como a multidão e tão lastimosos como a causa, posto todo o juízo em silêncio e suspensão, começará a se fazer o exame das culpas. Neste passo me havia eu de descer do púlpito, e subir a ele... Quem? Não um anjo, não um profeta, não um apóstolo, mas algum dos condenados do Inferno, como queria o rico avarento que viesse pregar a seus irmãos. Delicta quis intelligit? Quem há neste Mundo que entenda nem conheça os pecados? Isto dizia David, aquele Profeta tão alumiado do Céu. Só um condenado do Inferno, só quem foi julgado por Deus, só quem assistiu ao rigor daquele tribunal tremendo, só quem viu o exame inexcrutável com que ali se penetram e se apuram as consciências, só quem viu a anatomia tão miúda, tão delicada, tão exquisita, que ali se faz do menor pecado e da menor circunstancia, só quem viu a subtileza não imaginada com que ali se pesam átomos, se medem instantes, se partem indivisíveis; só este, e nem ainda este bastantemente, poderá declarar o que naquele dia há-de ser.

Muitas vezes me resolvi a deixar totalmente este ponto, contentando-me com confessar que não sei nem me atrevo a falar nele; porque ninguém possa dizer no Dia do Juízo que eu o enganei. Mas como a matéria é tão importante e a principal obrigação deste dia, já que se não pode dizer tudo, nem parte, ao menos quisera que Deus me ajudasse a vos meter hoje na alma dois escrúpulos, que me parecem os mais necessários ao auditório a quem falo: pecados de omissão e pecados de consequência. Estes são os dois escrúpulos que vos quisera hoje advertir e intimar da parte de Deus.

Sabei, Cristãos, sabei príncipes, sabei ministros, que se vos há-de pedir estreita conta do que fizestes, mas muito mais estreita do que deixastes de fazer. Pelo que fizeram, se hão-de condenar muitos; pelo que não fizeram, todos. As culpas por que se condenam os réus são as que se contêm nos relatórios das sentenças: lede agora o relatório da sentença do Dia do Juízo e notai o que diz: Discedite a me, maledicti in ignem æternum: «Ide, malditos, ao fogo eterno».—E porque?—Non dedistis mihi manducare non dedistis mihi potum, non collegistis me, non cooperuistis me, non visitastis me. Cinco cargos, e todos omissões: «porque não destes de comer, porque não destes de beber, porque não recolhestes, porque não visitastes, porque não vestistes». Em suma, que os pecados que ùltimamente hão-de levar os condenados ao Inferno, são os pecados de omissão.

Não se espantem os doutos de uma proposiçao tão universal como esta; porque assim é verdadeira em todo o rigor da teologia. O último pecado e a última disposição por que se hão-de condenar os precitos, é a impenitencia final; e a impenitência final é pecado de omissão. Vede que cousas são omissões, e não vos espantareis do que digo. Por uma omissão perde-se uma inspiração, por uma inspiração perde-se um auxílio, por um auxílio perde-se uma contrição, por uma contricão perde-se uma alma; dai conta a Deus de uma alma, por uma omissão.

Desçamos a exemplos mais públicos. Por uma omissão perde-se uma maré, por uma maré perde-se urna viagem, por uma viagem perde-se uma armada, por uma armada perde-se um estado. Dai conta a Deus de uma Índia, dai conta a Deus de um Brasil, por uma omissão. Por uma omissão perde-se um aviso, por um aviso perde-se uma ocasião, por uma ocasião perde-se um negócio, por um negócio perde-se um reino. Dai conta a Deus de tantas casas, dai conta a Deus de tantas vidas, o dai conta a Deus de tantas fazendas, dai conta a Deus de tantas honras, por uma omissão. Oh que arriscada salvação! Oh que arriscado ofício é o dos príncipes e o dos ministros. Está o príncipe, está o ministro divertido, sem fazer má obra, sem dizer má palavra, sem ter mau nem bom pensamento; e talvez naquela mesma hora, por culpa de uma omissão, está cometendo maiores danos, maiores estragos, maiores destruições, que todos os malfeitores do Mundo em muitos anos. O salteador na charneca com um tiro mata um homem; o príncipe e o ministro com uma omissão, mata de um golpe uma monarquia. Estes são os escrúpulos de que se não faz nenhum escrúpulo; por isso mesmo são as omissões os mais perigosos de todos os pecados.

A omissão é o pecado que com mais facilidade se comete e com mais dificuldade se conhece; e o que fàcilmente se comete e dificultosamente se conhece, raramente se emenda. A omissão é um pecado que se faz não fazendo; e pecado que nunca é má obra, e algumas vezes pode ser obra boa, ainda os muito escrupulosos vivem muito arriscados em este pecado. Estava o Profeta Elias em um deserto metido em uma cova, aparece-lhe Deus e diz-lhe: Quid hic agis, Elia? « E bem Elias, vós aqui? » — Aqui, Senhor! Pois aonde estou eu? Não estou metido em uma cova? Não estou retirado do Mundo? Não estou sepultado em vida? Quid hic agis? E que faço eu? Não me estou disciplinando, não estou jejuando, não estou contemplando e orando a Deus?—Assim era. Pois se Elias estava fazendo penitência em uma cova, como o repreende Deus e lho estranha tanto? Porque ainda que eram boas obras as que fazia, eram melhores as que deixava de fazer. O que fazia era devoção, o que deixava de fazer era obrigação. Tinha Deus feito a Elias profeta do povo de Israel, tinha-lhe dado ofício público; e estar Elias no deserto quando havia de andar na corte; estar metido em uma cova, quando havia de aparecer na praça; estar contemplando no Céu, quando havia de estar emendando a terra, era muito grande culpa.

A razão é fácil, porque no que fazia Elias salvava a sua alma; no que deixava de fazer perdiam-se muitas. Não digo bem: no que fazia Elias, parecia que salvava a sua alma; no que deixava de fazer, perdia a sua e as dos outros: as dos outros, porque faltava à doutrina; a sua, porque faltava à obrigação. É muito bom exemplo este para a corte e para os ministros que tomam a ocupação por escusa da salvação. Dizem que não tratam de suas almas, porque se não podem retirar. Retirado estava Elias e perdia se; mandam-no vir para a corte para que se salve. Não deixe o ministro de fazer o que tem de obrigação, e pode ser que se salve melhor em um conselho, que em um deserto. Tome por disciplina a diligência, tome por cilício o zelo, tome por contempla,cão o cuidado e tome por abstinência o não tomar, e ele se salvará.

Mas porque se perdem tantos? Os menos maus perdem-se pelo que fazem, que estes são os menos maus; os piores perdem-se pelo que deixam de fazer, que estes são os piores: por omissões, por negligências, por descuidos, por desatenções, por divertimentos, por vagares, por dilações, por eternidades. Eis aqui um pecado de que não fazem escrúpulo os ministros, e um pecado por que se perdem muitos. Mas percam-se eles embora, já que assim o querem; o mal é que se perdem a si e perdem a todos, mas de todos hão-de dar conta a Deus.

Uma das cousas de que se devem acusar e fazer grande escrúpulo os ministros, é dos pecados do tempo. Porque fizeram no mês que vem o que se havia de fazer no passado; porque fizeram amanhã o que se havia de fazer hoje; porque fizeram depois,.o que se havia de fazer agora; porque fizeram logo, o que se havia de fazer já. Tão delicadas como isto hão-de ser as consciências dos que governam, em matérias de momento. O ministro que não faz grande escrúpulo de momentos não anda em bom estado: a fazenda pode-se restituir; a fama, ainda que mal, também se restitui, o tempo não tem restituição alguma.

E a que mandamento pertencem estes pecados do tempo? Pertencem ao sétimo; porque ao sétimo mandamento pertencem os danos que se fazem ao próximo e à república, e a uma república não se lhe pode fazer maior dano que furtar-lhe instantes. Ah omissões, ah vagares, ladrões do tempo! Não haverá uma justiça exemplar para estes ladrões? Não haverá quem ponha um libelo contra os vagares? Não haverá quem enforque estes ladrões do tempo, estes salteadores da ocasião, estes destruidores da república? Mas porque na Ordenação não há pena contra estes delinquentes e porque eles às vezes se acolhem a sagrado, por isso a sentença do Dia do Juízo há-de cair principalmente sobre as omissões.

VII
Pecados de consequência é o segundo escrúpulo. Há uns pecados que acabam em si mesmos; ha outros que, depois de acabados, ainda duram em suas consequências. Dizia Job a Deus: Vestigia pedum meorum considerasti: «Considerastes, Senhor, as pegadas de meus pés». Não diz que Ihe considerou os passos, senão as pegadas; porque os passos passam, as pegadas ficam. O que fica dos pecados, é o que Deus mais particularmente examina. Não só se nos há-de pedir conta dos passos, senão das pegadas. Não só se nos há-de pedir conta dos pecados, senão das consequências. Oh que terrível conta será esta! Converteu Cristo, Senhor nosso, a Zaqueu, que era um mercante rico, e as resoluções de sua conversão foram estas: Ecce dimidium bonorum meorum do pauperibus et si quid aliquem defraudavi, reddo quadruplum: «Senhor, eu dou ametade de meus bens aos pobres, e da outra ametade pagarei quatro vezes em dobro tudo o que houver tomado.

Aqui reparo: as leis da justa restituição mandam que se pague o alheio em tanta quantidade como se tomou. Pois porque quer Zaqueu que da sua fazenda se paguem e se acrescentem três tantos mais: Et si quid aliquem defraudavi reddo quadruplun? Se para a restituição basta uma parte, as outras três a que fim se dão? Eu o direi: dá-se uma parte para satisfação do pecado, as outras três para satisfação das consequências. Entrou Zaqueu em exame escrupuloso de sua consciência sobre o que tinha roubado, e fez estas contas: Se eu não roubara a Fulano, tivera ele a sua fazenda; se a tivera, não perdera o que perdeu, aquirira o que não aquiriu, não padecera o que padeceu. Ah sim! Pois para que a minha satisfação seja igual à minha culpa, dê-se a cada um quatro vezes tanto como lhe eu houver defraudado. Com a primeira parte se pagará o que Ihe tomei, com a segunda o que perdeu, com a terceira o que não aquiriu, com a quarta o que padeceu.

Eis aqui o que fez Zaqueu. E que se seguiu daqui? Hodie salus huic domui facta est.: «hoje se pôs em estado de salvação esta casa». E se a casa de Zaqueu, para se pôr em estado de salvação, paga três vezes mais do que tomou, em que estado de salvação estarão tantas casas de Portugal, onde se deve tanto, e se gasta tanto, e se esperdiça tanto, e nenhuma cousa se paga? Ora o caso é que muita gente deve de se condenar. Porque na vida poucos pagam, na hora da morte os mais escrupulosos mandam pagar o capital; das consequências, nem na vida, nem na morte há quem faça caso.

E se isto passa na justiça comutativa, onde enfim há número, há peso e há medida; que será na distributiva e na vendicativa? Se isto Ihe sucede à justiça na mão das balanças, que será na mão da espada? Quais serão as consequências de um voto injusto em um tribunal? Quais serão as consequências de um voto apaixonado em um conselho? Ajude-me Deus a saber-vo-las representar, pois é matéria tão oculta e de tanta importância.

Consulta-se em um conselho o lugar de um vice-rei, de um general, de um governador, de um prelado, de um ministro superior da fazenda ou justiça. E que sucede? Vota o conselheiro no parente, porque é parente; vota no amigo, porque é amigo; vota no recomendado, porque é recomendado; os mais dignos e os mais beneméritos, porque não têm amizade, nem parentesco, nem valia, ficam de fora. Acontece isto muitas vezes? Queira Deus que alguma vez deixe de ser assim. Agora quisera eu perguntar ao conselheiro que deu este voto e que o assinou, se lhe remordeu a consciência ou se soube o que fazia? Homem cego, homem precipitado, sabes o que fazes? Sabes o que firmas? Sabes que, ainda que o pecado que cometeste contra o juramento de teu cargo seja um só, as consequências que dele se seguem são infinitas e maiores que o mesmo pecado? Sabes que com essa pena te escreves réu de todos os males que fizer, que consentir, e que não estorvar esse homem indigno por quem votaste, e de todos os que deles se seguirem até o fim do Mundo? Oh grande miséria! Miserável é a república onde há tais votos, miseráveis são os povos onde se mandam ministros feitos por tais eleições; mas os conselheiros que neles votaram são os mais miseráveis de todos: os outros levam o proveito, eles ficam com os encargos. Ide comigo.

Se o que elegestes furta (não o ponhamos em condicional, porque claro está que há-de furtar) furta o que elegestes, e furta por si e por todos os seus, como costumam os semelhantes; e Deus há-vos de pedir a conta a vós, porque o vosso voto foi causa de todos aqueles roubos. Prove o que elegestes os ofícios de paz e guerra, nos que têm mais que peitar, deixando os que merecem e os que serviram; e vós haveis de dar a conta a Deus; porque o vosso voto foi causa de todas aquelas injustiças. Oprime o que elegestes os pobres choram as viúvas, padecem os órfãos, clamam os inocentes; e Deus vos há-de condenar a vós, porque o vosso voto foi causa de todas aquelas opressões, de todas aquelas tiranias. Matam-se os homens no governo dos que elegestes, arruínam-se as casas, desonram-se as famílias, vive-se como em Turquia; e vós o haveis de ir pagar ao Inferno, porque o vosso voto foi causa de todos aqueles homicídios, de todas aquelas afrontas, de todos aqueles escandalos. Quebram-se as imunidades da Igreja, maltratam-se os ministros do Evangelho, impedem-se as conversões da Gentilidade para a propagacão da Fé; e vós haveis de penar por isso eternamente, porque o vosso voto foi causa de todos aqueles sacrilégios, de todas aquelas impiedades e da perda irreparável de tantos milhares de almas. Estas são as consequências da parte do indigno que elegestes.

E da parte dos beneméritos que deixastes de fora, quais serão? Ficarem os mesmos beneméritos sem o prémio devido a seus serviços; ficarem seus filhos e netos sem remédio e sem honra, depois de seus pais e avós Iho terem ganhado com o sangue, porque vós lha tirastes; ficar a república mal servida, os bons escandalizados, os príncipes murmurados, o governo odiado, o mesmo conselho em que assistis ou presidis, infamado, o merecimento sem esperança, o prémio sem justi,ca, o descontentamento com culpa, Deus ofendido, o Rei enganado, a Pátria destruída.

São pesadas e pesadíssimas consequências estas? Pois todas elas nascem daquele voto ou daquela eleição de que vós porventura ficastes sem escrúpulo e de que recebestes as graças (e talvez a propina) com muita alegria. Dir-me-eis que não advertistes tais cousas. Boa escusa para um conselheiro sábio! Se o não advertistes, pecastes, porque o devêreis advertir. Tomara poder confirmar tudo o que tenho dito em particular com exemplos das Escrituras; mas bastara por todos um, que em matérias de pecados de consequência é verdadeiramente formidável.

Matou Caim a Abel, e diz a Escritura, conforme o texto onginal: Vox sanguinum fratris tui clamantium ad me: «Caim, a voz dos sangues de teu irmão Abel está bradando a mim». Notável dizer! O sangue de Abel era um, como era um o mesmo Abel morto. Pois se Abel morto e o sangue de Abel derramado era um, como diz Deus que clamaram contra Caim muitos sangues? Vox sanguinum? Declarou o mistério o Parafraste caldaico temerosamente: Vox sanguinum generationum, quæ futuræ erant de fatre tuo, clamat ad me: Se Caim não matara a Abel, haviam de nascer de Abel quase tantas outras gerações como nasceram de Adão, com que dobradamente se propagasse o género humano; e o sangue ou sangues de todos estes homens que haviam de nascer de Abel, e não nasceram, eram os que clamaram a Deus e pediam vingança contra Caim; porque, matando Caim e arrancando da terra a árvore de que eles haviam de nascer, o mesmo dano lhes fez que se os matara. De sorte que Caim parecia homicida de um só homem, e era homicida de um género humano; o pecado era um, as consequências infinitas. Pois se Deus castiga nos pecados até as consequências possíveis; e os possíveis hão-de aparecer e ressuscitar no dia do juízo contra vós, não porque foram, nem porque deixaram de ser. senão porque haviam de ser; se os possíveis têm sangue e vozes que clamam ao Céu, que clamores serão os do verdadeiro sangue derramado de verdadeiras veias? Que vozes serão , as de verdadeiras lágrimas, choradas de verdadeiros olhos? Que gemidos serão os de verdadéira dor, saldos de verdadeiros corações? Que serão as viudezas, as orfandades, os desamparos? Que serão as opressões, as destruições, as tiranias? E que serão as consequências de tudo isto, multiplicadas em tantas pessoas, continuada em tantas idades e propagadas em tantas descendências, ou futuras ou possíveis, até o fim do mundo! Há quem faça escrúpulo disto?

Agora entendereis com quanta razão disse São João Crisóstomo: Miror, an fieri possit ut aliquis ex rectoribus sit salvus. É uma das mais notáveis sentenças que se acham escritas nos Santos Padres. Torno a repeti-la: Miror, an fieri possit, ut aliquis ex rectoribus sit salvus: «Admiro-me (diz o grande Crisóstomo) e cheio de espanto considero comigo: se será possível que algum dos que governam se salve!» Esta proposição, e a suposição em que ela se funda, está julgada comummente por hipérbole e encarecimento retórico. Eu, contudo, digo que não é hipérbole nem encarecimento senão verdade moralmente universal em todo o rigor teológico. Impossível moral chamam os teólogos àquilo que muito dificultosamente pode ser e que nunca ou quase nunca sucede.

Neste sentido disse São Paulo: Impossibile est, eos qui semel illuminati et prolapsi sunt, renovari ad poenitentiam. E no mesmo sentido disse Cristo, Senhor nosso: Facilius est camelum per foramen acus transire, quam divitem intrare in regnum coelorum. Donde os Apóstolos tiraram a mesma admiração que São João Crisóstomo, e inferiram a mesma impossibilidade: Auditis autem his, discipuli mirabantur valde, dicentes: quis ergo poterit salvus esse? E o Senhor confirmou a sua ilação, dizendo que «humanamente era impossível, como eles diziam, mas que para Deus tudo é possível»: Apud homines hoc impossibile est.: apud Deum autem omnia possibilia sunt, que foi o mesmo que distinguir o impossível moral e humano, do impossível absoluto, que até em respeito da omnipotência divina não é possível. E como os que governam, pelas obrigações de seus mesmos ofícios e pelas omissões que neles cometem, e pelos danos que por vários modos causam a tantos, os quais danos não param ali, mas se continuam e multiplicam em suas consequências, têm tão dificultosa a salvação, por isso São Crisóstomo, falando lisa, sincera e moralmente, sem encarecimento nem hipérbole, disse que ele se admirava muito e não podia entender como era possível que algum dos que governam se salve: Miror, an fieri possit, ut aliquis ex rectoribus sit salvus.

E para que nós nos não admiremos, e os que governam ou desejam governar tenham tanto medo dos seus ofícios como dos seus desejos, reduzindo a verdade desta sentença à evidência da prática, argumento assim:

Todo o homem que é causa gravemente culpável de algum dano grave, se o não restitui quando pode, não se pode salvar; todos ou quase todos os que governam, são causas gravemente culpáveis de graves danos, e nenhum ou quase nenhum restitui o que pode; logo, nenhum ou quase nenhum dos que governam se pode salvar. Colhe bem a consequência? Pois ainda mal, porque a segunda premissa, de que só se podia duvidar, está tão provada na experiência. Eu vi governar muitos, e vi morrer muitos; nenhum vi governar que não fosse causa culpável de muitos danos; nenhum vi morrer que restituísse o que podia. Sou obrigado, secundum praesentem justitiam, a crer que todos estão no Inferno. Assim o creio dos mortos, assim o temo dos vivos.

VIII
Pedida e tomada a conta a todo o género humano, olhará o Senhor para a mão direita, e com o rosto cheio de glória e alegria, dirá aos bons: Venite benedicti Patris mei, possidete paratum vobis regnum à constitutione mundi. «Vinde, benditos de meu Pai, e possuí o Reino que vos está aparelhado desde o princípio do Mundo!» Quem serão os venturosos sobre que há-de cair esta ditosa sentença? Bendito seja Deus, que todos os que estamos presentes o podemos ser, se quisermos. Como se darão então por bem empregados todos os trabalhos da vida, e quão verdadeiramente parecerá então jugo suave a Lei de Cristo, que hoje julgamos por dificultosa e pesada! Mas ainda mal, porque muitos dos que aqui estamos... Não me atrevo a o dizer; entendei-o vós. Multi sunt vocati, pauci vero electi. Arcta via est, quae ducit ad vitam, et pauci sunt, qui inveniunt eam. Voltando-se depois o Senhor... (não digo bem) não se voltando o Senhor para a mão esquerda, com rosto severo e não compassivo (o que me não atrevera eu a crer, se o não disseram as Escrituras), dirá desta maneira para os maus: Discedite a me, muledicti, in ignem æternum, qui paratus est diabolo, et angelis ejus: «Ide, malditos, ao fogo eterno, que estava aparelhado, não para vós, senão para o Demónio e seus anjos» ; mas já que assim o quisestes, ide. Abriu-se a terra, caíram todos, tornou-se a cerrar para toda a eternidade. Eternidade! eternidade! eternidade!

Sermão da Primeira Dominga do Advento - 1655

I

Passará o céu e a terra, mas o que dizem as minhas palavras não passará. Com esta notável, e não usada sentença conclui Cristo Redentor nosso, a narração do Evangelho que acabamos de ouvir. Diz que há de vir julgar e pedir conta ao mundo no último dia dele: e porque antes de o mundo ser julgado há de ser abrasado primeiro, e convertido em cinzas; sobre o incêndio, que o há de consumir, cai a primeira parte da conclusão: Cœlum et terra transibunt; e sobre a conta que depois promete há de tomar a todo o gênero humano, cai a segunda: Verba autem mea non transibunt. Estes são os dois maiores portentos, que no teatro universal do Juízo verão naquele dia homens e anjos. Ali se verá o princípio do mundo junto com o fim, e o fim junto com o princípio: o princípio com o fim, em tudo o que passou, e o fim com o princípio, em tudo o que não há de passar. Parece dificultosa esta união em tanta distância de séculos; mas esse é, e será um dos maiores milagres daquele dia, porque tudo o que passou, e deixou de ser, e desapareceu com o tempo, como se não tivera passado, ou tornara a ser de novo, há de aparecer com a conta. Se olharmos para todas as coisas quantas houve, há, e há de haver no mundo, então se verá, que todas passaram, transibunt. Mas se olharmos para essas mesmas coisas, as quais como ressuscitada com o gênero humano hão de ser citadas com ele para aparecer em Juízo; então se verá também, e com maior assombro, que nenhuma delas passou, non transibunt. Estas duas verdades, pois, cuja fé o mesmo Supremo Juiz com tanta expressão nos ratifica; estes dois desenganos, a que tão mal nos persuadimos os mortais enquanto vivemos; e estas duas considerações do que passou e do que não há de passar, transibunt et non transibunt, serão hoje os dois pólos, ou pontos do meu discurso. No primeiro, que tudo passa para a vida: no segundo, que nada passa para a conta. Em dia tão grande não pode o sermão ser breve. Aos ouvintes não peço atenção, mas paciência. Deus, a quem tomo por testemunha de que procurei não lhe dar conta do que hoje disser, se sirva de nos assistir a todos com sua graça em matéria que tanto toca a todos.

II

Tudo passa, e nada passa. Tudo passa para a vida, e nada para a conta. A verdade e desengano de que tudo passa (que é o nosso primeiro ponto) posto que seja por uma parte tão evidente, e que parece não há mister prova., é por outra tão dificultoso, que nenhuma evidência basta para o persuadir. Lede os filósofos, lede os profetas, lede os apóstolos, lede os santos padres, e vereis como todos empregaram a pena, e não uma senão muitas vezes, e com todas as forças da eloqüência, na declaração deste desengano, posto por si mesmo tão claro.

Sabiamente falou quem disse que a perfeição não consiste nos verbos, senão nos advérbios: não em que as nossas obras sejam honestas e boas, senão em que sejam bem feitas. E para que esta condicional tão importante se estendesse também às coisas naturais e indiferentes, inventou o apóstolo S. Paulo um notável advérbio. E qual foi? Tanquam non, como senão: Ut qui habent uxores, tanquam non habentes sint: et qui flent, tanquam non flentes: et qui gaudent, tanquam nan gaudentes: et qui emunt, tanquam non possidentes: et qui utuntur hoc mundo, tanquam non utantur. Sois casado? (diz o apóstolo) pois empregai todo o vosso cuidado em Deus, como se o não fôreis. Tendes ocasiões de tristezas? pois chorai, como se não choráreis. Não são de tristeza, senão de gosto? pois alegrai-vos, como se não vos alegráreis. Comprastes o que havíeis mister, ou desejáveis? pois possuí-o, como se não possuíreis. Finalmente usais de alguma outra coisa deste mundo? pois usai dela, como se não usáreis. De sorte que quanto há, ou pode haver neste mundo, por mais que nos toque no amor, na utilidade, no gosto, a tudo quer S. Paulo que acrescentemos um, como se não, tanquam non. Como se não houvera tal coisa, como se não fora nossa, como se não nos pertencera. E por quê? Vede a razão:Præterit enim figura hujus mundi (3) . Porque nenhuma coisa deste mundo pára, ou permanece; todas passam. E como todas passam e são como se não foram, assim é bem que nós usemos delas, como se não usáramos: Tanquam non utantur. Por isso a essas mesmas coisas não lhes chamou o oráculo do terceiro céu coisas, senão aparências, e ao mundo não lhe chamou mundo, senão figura do mundo:Præterit enim figura hujus mundi.

Considerai-me o mundo desde seus princípios, e vêlo-eís sempre, como nova figura no teatro, aparecendo e desaparecendo juntamente, porque sempre está passando. A primeira cena deste teatro foi o paraíso terreal, no qual apareceu o mundo vestido de imortalidade, e cercado de delícias; mas quanto durou esta aparência? Estendeu Eva o braço à fruta vedada, e no brevíssimo espaço em que o bocado fatal passou pela garganta do homem, passou também com ele o mundo do estado da inocência ao da culpa, da imortalidade à morte, da pátria ao desterro, das flores aos espinhos, do descanso aos trabalhos, e da felicidade suma ao sumo da infelicidade e miséria. Oh miserável mundo, que se pararas assim, e te contentaras com comer o teu pão com o suor do teu rosto, foras menos miserável! Mas não serias mundo, se de uma miséria grande não passasses sempre, e por tua natural inclinação, a outra maior. Os homens naquela primeira infância do mundo todos vestiam de peles, todos eram de uma cor, todos falavam a mesma língua, todos guardavam a mesma lei. Mas não foi muita o tempo em que se conservaram na harmonia desta natural irmandade. Logo variaram e mudaram as peles com tanta diferença de trajos, que cada dia, dos pés à cabeça, aparecem com nova figura. Logo variaram e mudaram as línguas com tanta dissonância e confusão, como a da torre de Babel. Logo variaram e mudaram as cores com a diversidade das terras e climas, e com a mistura do sangue, posto que todo vermelho. Logo variaram e mudaram as leis, não com as de Platão, Sólon, ou Licurgo, mas com a do mais imperioso e violento legislador, que é o próprio alvedrio. Tudo mudaram, ou tudo se mudou, porque tudo passa.

As vidas naquele princípio costumavam ser de sete, de oito, de novecentos e quase de mil anos; e que brevemente se acabou este bom costume? Então o viver muitos séculos era natureza, hoje chegar, não a um século, mas perto dele, é milagre. Tardaram em passar até Noé, e também passaram. Com aquelas vidas não só cresciam os anos, senão também os corpos: e dos filhos de Deus, que eram os descendentes de Set, e das filhas dos homens, que eram as descendentes de Caim, nasceram os gigantes, de quem diz a Escritura: Erant gigantes super terram .Alguns ossos que ainda duram destes que o mesmo texto sagrado chama varões famosos, demonstraram pela simetria humana, que não podiam ser menos que de vinte, e mais côvados: e ainda na história das batalhas de Davi temos memória de outros quatro, posto que de muito menor estatura Mas, enfim, acabou a era dos gigantes; porque tudo nesta vida, e mais depressa o que é grande, acaba e passa.

Diminuídos os homens nos corpos e nas idades, quando tinham a morte mais perto da vista (quem tal crera! ) então cresceram mais na ambição e soberba. E sendo todos iguais e livres por natureza, houve alguns que entraram em pensamento de se fazer senhores dos outros por violência, e o conseguiram. O primeiro que se atreveu a pôr coroa na cabeça, foi Membroth, que também como o nome de Nino, ou Belo, deu princípio aos quatro impérios, ou monarquias do mundo. O primeiro foi o dos assírios e caldeus; e onde está o império caldaico? O segundo foi o dos persas; e onde está o império persiano? O terceiro foi o dos gregos; e onde está o império grego? O quarto, e maior de todos, foi o dos romanos; e onde está o império romano? Se alguma coisa permanece deste, é só o nome: todos passaram, porque tudo passa. Em três famosas visões representou Deus estes mesmos impérios a um rei, e a dois profetas. A primeira visão foi a Nabucodonosor na estátua de quatro metais; a segunda a Zacarias em quatro carroças de cavalos de diferentes cores; a terceira a Daniel em um conflito dos quatro ventos principais, que no meio do mar se davam batalha. Pois se todas estas visões eram de Deus e todas representavam os mesmos impérios, por que variou tanto a sabedoria divina as figuras, e sobre a primeira da estátua, tão clara e manifesta, acrescentou outras duas tão diversas em tudo? Porque a estátua, na dureza dos metais de que era composta, e no mesmo nome de estátua, parece que representava estabilidade e firmeza: e porque nenhum daqueles impérios havia de preservar firme e estável, mas todos se haviam de mudar sucessivamente, e ir passando de umas nações a outras; por isso os tornou a representar na variedade das carroças na inconstância das rodas, e na carreira e velocidade dos cavalos. Mas não parou aqui a energia da representação, como não encarecida ainda bastantemente. A estátua estava de pé, e as carroças podiam estar paradas. E porque aqueles impérios correndo mais precipitadamente que a rédea solta, não haviam de parar no mesmo passo, nem por um só momento, e sempre se haviam de ir mudando, e passando; por isso, finalmente, os representou Deus na causa mais inquieta, mudável, e instável, quais são os ventos, e muito mais quando embravecidos e furiosos: Et ecce quatuor venti cœli pugnabant in mari magno.

III

Enquanto passaram estes quatro impérios, que foi a terceira, quarta, quinta e sexta idade do mundo, entrando, também, pela sétima: quem haverá que possa compreender quanto passou no mesmo mundo? Quando começou o primeiro império, então começou também a idolatria, digno castigo do céu, que pois os homens se fizeram adorar, chegassem os mesmos a adorar paus e pedras. Os reis, porém, que eram, ou tinham sido os idólatras, canonizados depois pela adulação e lisonja, ou na vida, ou depois da morte, vinham também eles a ser ídolos. Assim Saturno, assim Júpiter, assim Mercúrio, assim Apolo, assim Marte, assim Vênus, assim Diana; e posto que todos estes deixaram os seus nomes gravados nas estrelas, elas permanecem, mas eles passaram. Passaram os ídolos, e também passaram os oráculos com que neles respondia o pai da mentira, porque ao som da verdade do Evangelho todos emudeceram.

Então começaram as guerras: e que direi dos exércitos inumeráveis, das batalhas campais e marítimas, das vitórias. e triunfos de umas nações, e da ruína, abatimento e servidão de outras, tão vária e alternada sempre? Só digo, que assim a glória e alegria dos vencedores, como a dor e afronta dos vencidos, tudo passou; porque tudo passa. O exército de Xerxes, que foi o maior que viu o mundo, constava de cinco mil naus, e cinco milhões de combatentes; e porque de uma e outra parte fez continente o Helesponto, e cavou e fez navegável o monte Ato, disse dele Marco Túlio, que caminhava os mares a pé, e navegava os montes: Tantis classibus Xerxes in Grœciam transia, ut Hellesponto juncto. Athoque monte perfosso, maria ambularit, terramque navigarit maria pedibus peragrans, classibus montes. Mas todo aquele intenso e formidável aparato, que visto fez tremer o mar e a terra, tão brevemente passou e desapareceu sendo desbaratado e vencido, que só ficou dele este dito. O mesmo Temístocles, que com muito desigual poder o desfez e pôs em fugida, também passou, como na Grécia e fora dela passaram todos os famosos capitães e suas vitórias. Passou Pirro, passou Miltrídates, passou Filipe de Macedônia: passaram Heitor e Aquiles, passaram Aníbal e Cipião, passaram Pompeu e Júlio César, passou o grande Alexandre, nome singular e sem parelha, e até Hércules, ou fosse um, ou muitos todos passaram, porque tudo passo.

Costumam às letras seguir-se as armas, porque tudo leva após si o maior poder; e assim floresceram variamente, em diversas partes no tempo destes impérios, todas as ciências e artes. Floresceu a filosofia, floresceu a matemática, floresceu a teologia, floresceu a astrologia, floresceu a medicina, floresceu a música, floresceu a oratória, floresceu a poética, floresceu a história, passou o a arquitetura, floresceu a pintura, floresceu a estatuária; mas assim como as flores se murcham e se secam, assim passaram todos os autores mais celebrados das mesmas ciências e artes. Na estatuária passou Fídias e Lisipo; na pintura passou Timantes e Apeles; na arquitetura passou Meliagenes e Demócrates; na música passou Orfeu e Amphion; na história, Tucídides e Lívio; na eloqüência, Demóstenes e Túlio; na poética, Homero e Virgílio; na astrologia, Anaxágoras e Ptolomeu; na medicina, Esculápio e Hipócrates; na matemática, Euclides e Arquimedes; na filosofia, Platão e Aristóteles; na teologia, Mercúrio Trismegisto e Apolônio Tiâneo; e por junto em todas as ciências passaram no mesmo tempo os sete sábios da Grécia, porque, ou junto ou dividido, tudo passa. Só a ética e a moral, como tão necessárias ó, vida e à virtude, parece que não haviam de passar; mas os platônicos, os peripatéticos, os epicureus, os cínicos, os pitagóricos, os estóicos, os acadêmicos, eles, e suas escolas e seitas, todos passaram.

Nenhuma coisa é mais própria desta consideração em que vamos, que os jogos e espetáculos públicos, que os homens inventaram a título de passatempo, como se o mesmo tempo não passara mais velozmente que tudo quanto passa. Uns jogos foram os circenses, outros os dionisíos, outros os juvenais, outros os nemeus, outros os maratoneus, todos cheios de diferentes divertimentos, em que, ou se perdia a honestidade, como nos de Vênus; ou o Juízo, como nos de Baco; mas nenhuns mais indigno dos olhos humanos e piedade natural, que os gladiatórios. Saía toda Roma ao anfiteatro, a quê? a ver e festejar como se matavam homens a homens; saíam uns, e sobrevinham outros, e outros, sem estar o posto vago um só momento, aclamando a cabeça do mundo, com aplausos mais carniceiros que cruéis, assim no dar, como no receber das feridas, tanto a intrepideza dos mortos, como a fúria dos matadores. Os jogos seculares se chamavam assim, porque se celebravam uma só vez de século a século; e dizia o pregão público que convidava para eles: Venite ad ludos, quos nemo vìdit unquam, nec visurus est: Vinde ver os jogos, que ninguém viu, nem há de tornar a ver. E com este desengano da vida passada e desesperação da futura, os iam todos ver, e se chamavam jogos. Os olímpicos foram os mais célebres e famosos de todos, em que de cinco em cinco anos, concorria todo o mundo a uma cidade do mesmo nome, ou levar, ou ver quem levava uma coroa de louro. Por estes jogos, mais que pelo curso do sol, se contavam e distinguiam os anos. Mas como toda a competência era a correr, e o que mais corria era o que triunfava, não podiam deixar de passar as Olimpíadas, como passaram todos os outros jogos daqueles tempos, ou todos os passatempos daqueles jogos.

Só uma coisa há que não pode passar, porque o que nunca foi, não pode deixar de ser, e tais parece que foram as fábulas que neste mesmo tempo se inventaram e fingiram. Mas se elas não passaram em si mesmas, passaram naqueles casos e coisas que deram ocasiões a se fingirem. Na seca universal que abrasou todo o mundo, passou a fábula de Faetonte: no dilúvio particular que inundou grande parte dele, passou a fábula de Deucalion; no estudo com que el-rei Atlante contemplava o curso e movimento das estrelas, passou a fábula de trazer o céu aos ombros; na especulação contínua de todas as noites, com que Endimion observava os efeitos do planeta mais vizinho à Terra, passou a fábula dos seus amores com a Lua. E porque também os nossos vícios, a nossa fraca virtude, e a nossa mesma vida passam como fábula; o amor e complacência de nós mesmos passou na fábula de Narciso; a riqueza sem juízo, na fábula de Midas; a cobiça insaciável, na fábula de Tântalo; a inveja do bem alheio, na fábula e abutre de Tício; a inconstância da fortuna mais alta, na fábula e roda de Ixion; o perigo de acertar com o meio da virtude, e não declinar aos vícios dos extremos, na fábula de Cila e Caribde; e finalmente a certeza da morte, a incerteza da vida, pendente sempre de um fio, passou e está continuamente passando na fábula das Parcas. Assim envolveram e misturaram os sábios daquele tempo o que há com o que não há, e o certo com o fabuloso; para que nem o louvor nos desvaneça, nem a calúnia nos desanime, pois o verdadeiro e o falso, a verdade e a mentira, tudo passa.

Mas não é justo que nesta passagem de tudo o que passou no tempo dos quatro impérios profanos do mundo, passemos nós em silêncio aquela república sagrada, que alcançou a todos quatro, e por ser fundada por Deus, parece que tinha direito a não passar. Nasceu a república hebréia no cativeiro do Egito; e quem então lhe levantasse figura, facilmente lhe podia prognosticar os três cativeiros e transmigrações com que foi arrancada da pátria. Uma vez cativa por Salmanasar, em que passou desterrada aos assírios; outra vez cativa por Nabucodonosor, em que passou desterrada aos babilônios; e a terceira e última vez cativa por Tito e Vespasiano, em que passou desterrada a todas as terras e nações do mundo. Começou no famoso triunvirato de Abraão, Isaac, e Jacó, tantas vezes nomeado e honrado por boca do mesmo Deus; mas nem por isso deixaram de passar todos três. Sucedeu-1he José, o que sonhou as suas felicidades e as adorações de seu pai e irmãos; e posto que todas se cumpriram, todas passaram como se foram sonho. Teve o mesmo povo três estados de governo: o dos juizes, o dos reis, o dos capitães; e se bem subindo e descendo, as varas se trocaram com os cetros, e os cetros com os bastões, nenhum daqueles estados foi estável, todos passaram. Nos juizes passou a espada de Gedeão, o arado de Sangar, e a queixada de Sansão. Nos reis passou a valentia de Davi, a sabedoria de Salomão, e a piedade e religião de Josias. Nos capitães passou o braço invencível de Judas Macabeu, vencedor de tantas batalhas; passou a façanha imortal de Eleazar, que metendo-se debaixo do elefante, cavou a sua própria sepultura: e passou mais gloriosa que todos o honrado e glorioso testamento do velho Matias, digno de ser escrito em branzes. E porque não fiquem totalmente em silêncio as heroínas da mesma nação, quatro houve nela insignes na formosura: Sara, Raquel, Ester e Judite, todas porém fatais a quem as amou. Sara a um peregrino com perigos; Raquel a um pastor com trabalhos; Ester a um rei com desgostos; e Judite a um general com a morte. Este acabou miseravelmente a vida; mas as formosuras antes de se acabarem as vidas, já tinham passado. Floresceram no mesmo povo, além de outros igualmente verdadeiros, dezesseis profetas canônicos, quatro maiores, e doze menores; mas em espaço de três séculos os maiores e menores, desde Oséias a Malaquias, todos passaram: Passaram os milagres da vara, passaram os da serpente de metal, passaram os de Elias e Eliseu: e porque só faltava passar a lei de Moisés, e o sacerdócio de Arão, a lei e o sacerdócio também passaram, porque tudo passa.

Agora quisera eu perguntar ao mundo, se como me enche a memória de tantas coisas, que todas passaram, me mostrará alguma aos olhos que não passasse? As sete fábricas a que a fama deu o nome de maravilhas, acrescentaram alguns como oitava o anfiteatro romano. Mas a maravilha oitava, ou nona, é que todas essas maravilhas, que pareciam eternas, passaram. A primeira maravilha foram as pirâmides do Egito, a segunda os muros de Babilônia, a terceira a torre de Faros, a quarta o colosso de Rodes, a quinta o mausoléu de Cária, a sexta o Templo de Diana Efesina, a sétima o simulacro de Júpiter Olímpico. E deixando o anfiteatro, de que só se vêem as ruínas, as pirâmides caíram, os muros arrasaram-se, o colosso desfez-se, o mausoléu sepultou-se, a torre sumiu-se, o farol apagou-se, o templo ardeu, e o simulacro como simulacro, desvaneceu-se em si mesmo. Tem mais que dizer, ou que opor o mundo? Só pode apelar para as mais fortes e bem fundadas cidades, cortes e metrópoles dos mais poderosos impérios: argumento verdadeiramente de grande boato, antes de se lhe tomar o peso. Nínive, corte de Nino, foi a maior cidade do mundo: andava-se de porta a porta, não menos que em três dias de caminho; edificada de propósito com arrogância de que nenhuma outra a igualasse, como não igualou. Mas onde está essa Nínive? Ecbátana, corte de Arfaxad, e cidade que o texto sagrado chama potentíssima, era cercada de sete ordens de muros, todos de pedras quadradas, cada uma com vinte e sete palmos por todas as faces, e as portas com a prodigiosa. altura de cem côvados. Mas onde está essa Ecbátana? Susa, corte de Assuero, e metrópole de cento e vinte e sete Províncias, cujo palácio representava um céu estrelado, fundado sobre colunas de oiro e pedras preciosas, e cujos muros eram de mármores brancos e jaspes de diferentes cores; bem se deixa ver quão forte e inexpugnável seria, pois defendia tão grande monarca, dominava tantos reinos e guardava tantos tesouros. Mas onde está essa Suas? Se houvéssemos de fazer a mesma pergunta às ruínas de Tebas, de Memphis, de Bactra, de Cartago, de Corinto, de Sebaste, e da mais conhecida de todas, Jerusalém, necessário seria dar volta a toda a redondeza da Terra. De Tróia disse Ovídio: Jam seges est ubi Troia fuit .E o mesmo podemos dizer das planícies, vales e montes, donde se levantavam às nuvens aqueles vastíssimos corpos de casas, muralhas e torres. De umas se não sabem os lugares onde estiveram; doutras se lavram, semeiam, e plantam os mesmos lugares, sem mais vestígios de haverem sido, que os que encontram os arados, quando rompem a terra. Para que os homens compostos de carne e sangue se não queixem da brevidade da vida, pois também as pedras morrem; e para que ninguém se atreva a negar, que tudo quanto houve, passou, e tudo quanto é, passa.

IV

A razão deste curso, ou precipício geral com que tudo passa, não é uma só, senão duas: uma contrária a toda a estabilidade, e outra repugnante ao mesmo ser. E quais são? O tempo, e antes do tempo, o nada. Que coisa mais veloz, mais fugitiva, e mais instável que o tempo? Tão instável, que nenhum poder, nem ainda o divino 0 pode parar. Por isso os quatro animais, que tiravam pela carroça da . glória de Deus neste mundo, não tinham rédeas. Descreveu o Tempo no palácio do Sol o mais engenhoso de todos os poetas, e dividindo-o em suas partes, disse assim elegantemente:

A dextra, lœvaque dies, et mensis, et annus,
Sœculaque et positœ spatiis aqualibus horœ:

Verque novum stabat cinctum florente corona;

Stabat nuda oestas, et spicea serta gerebat

Stabat et Autumnus calcatis sodidus uvis;

Et glacialis Hyems canis hirsuta capillis.

Elegantemente, torno a dizer, mas falsa e impropriamente. Aquele stabat tantas vezes repetido, é o que tirou toda a semelhança de verdade à engenhosa pintura. Porque nem a primavera com as suas flores, nem o estio com as suas espigas, nem o outono com os seus frutos, nem o inverno com os seus frios e neves, por mais tolhido e entorpecido que pareça, podem estar parados um momento. Passam as horas, passam os dias, passam os anos, passam os séculos, e se houvesse hieroglífico com que se pudessem pintar, haviam de ser todos com asas, não só correndo e fugindo, mas voando e desaparecendo. Nem escusa esta impropriedade estar o Sol assentado: Sedebat in solio Pœbus ; porque o Sol pode parar, como no tempo de Josué, ou tornar atrás, como no tempo de Ezequias; mas o tempo em nenhum tempo, pode deixar de ir por diante sempre, e com a mesma velocidade. Bem emendou esta sua impropriedade o mesmo poeta, quando depois disse:

Ipsa quoque assiduo labuntur motu
Non secus ac flumen, neque enim consistere flumen

Aut levis hora potest.


E como o tempo não tem, nem pode ter consistência alguma, e todas as coisas desde seu princípio nasceram juntamente com o tempo, por isso nem ele, nem elas podem parar um momento, mas com perpétuo moto, e revolução insuperável passar, e ir passando sempre.

A segunda razão ainda é mais natural e mais forte: o nada. Todas as coisas se resolvem naturalmente, e vão buscar com todo o peso o ímpeto da natureza, o princípio donde nasceram. O homem porque foi formado da terra, ainda que seja como dispêndio da própria vida, e suma repugnância da vontade, sempre vai buscar a terra, e só descansa na sepultura. Os rios esquecidos da doçura de suas águas, posto que as do mar sejam amargosas, como todos nasceram do mar, todos vão buscar o mesmo mar, e só nele se desafogam, e param como em seu centro. Assim todas as coisas deste mundo, por grandes e estáveis que pareçam, tirou-as Deus com o mesmo mundo do não ser ao ser; e como Deus as criou do nada, todas correm precipitadamente, e sem que ninguém lhes possa ter mão, ao mesmo nada de que foram criadas. Vistes a torrente formada da tempestade súbita, como se despenha impetuosa, e com ruído; e tanto que cessou a chuva, também ela se secou, e sumiu subitamente, e tornou a ser o nada que dantes era? Pois assim é tudo, e somos todos, diz Davi: Ad nihilum devenient tanquam aqua decurrens .Sonhastes no último quarto da noite, quando as representações da fantasia são menos confusas, que possuíeis grandes riquezas, que gozáveis grandes delícias, e que estáveis levantado a grandes dignidades; e quando depois acordastes, vistes com os olhos abertos, que tudo era nada? Pois assim passam a ser nada em um abrir de olhos todas as aparências deste mundo, diz o mesmo profeta: Velut somnium surgentium, Domine, imaginem ipsorum ad nihilum rediges . De sorte que estas são as duas razões por que todas. as coisas passam. Passam, porque voam com o tempo, e passam, parque vão caminhando para o nada donde saíram. Por isso, como disse o Espírito Santo, quando umas passaram, ou têm passado; é necessário que venham outras para também passar: Generatio praeterit, et generatio advenit: terra autem in oeternum stat.

Mas se bem se repara nesta mesma sentença, sendo tão poucas as suas palavras, assim como umas confirmam assim outras parece que impugnam, e destroem quanto vínhamos dizendo. Porque se a Terra está sempre firme, e estável: terra autem ín aeternum stat; segue-se que ao menos a mesma Terra não passa, e que há no mundo alguma coisa, que não passe. Concederemos pois esta exceção ao nosso assunto, e diremos que passam as figuras, como diz S. Paulo, mas que a Terra, que é o teatro, não passa? Não digo, nem concedo tal. A Terra toda não passa, mas passam, e sempre estão passando todas as partes dela. A Terra compõe-se de reinos, os reinos compõem-se de cidades, as cidades compõem-se de casas e campos, e principalmente de homens, e tudo isto, que tudo é terra (e toda a Terra) perpetuamente está passando. Daniel revelando a Nabucodonosor a inteligência da sua estátua, disse que Deus muda os tempos, e as idades, e conforme elas passa os reinos de uma parte para outra: Ipse mutat tempora, et aetates: transfert regna, atque constituit ). Assim passou o reino do mesmo Nabuco para a Pérsia, o dos persas para a Grécia, o dos gregos para Roma, e dos romanos para tantos outros, quantos hoje coroam outras cabeças, as quais se devem lembrar daquela infalível sentença: Regnum a gente in gentem transfertur propter injustitias . O nosso reino não sendo no sítio original dos maiores, quantas vezes passou a outras gentes? Passou aos suevos, passou aos álanos, passou aos cartagineses, passou aos romanos, passou aos árabes e sarracenos e, dentro da mesma Espanha, também passou, e tornou a passar. Os terremotos, que se geram do ar violentado nas entranhas da Terra, são muito raros, mas os que se fazem na superfície dela, sempre a trazem em perpétuo movimento.

E se os grandes reinos e impérios não são estáveis, e passam; que serão as cidades particulares, para que não é necessário, que a roda da fortuna dê toda a volta? Não falo daquelas que acabaram como de morte súbita, abrasadas até à última cinza no incêndio de uma noite, como Tróia e Lugduno. Desta disse judiciosamente Sêneca: Quando una nox fuit inter urbem maximam, et nullam, nihil privatim, nihil publice stabile est: tam hominum, quam urbium fata volvuntur . Deixadas pois estas, que subitamente passaram do ser ao não ser; só falo das que por seus passos contados vieram de um domínio a outro domínio. E quantas vezes as pombas de Babilônia, quantas os leões de Jerusalém, quantas as águias de Roma e de Constantinopla viram sobre suas muralhas outras bandeiras? O maior teatro de Marte no nosso século, e porventura, que em nenhum outro, foram as guerras bélgicas; e na grande Província de Holanda, exceta Dorth, por isso chamada a Virgem, nenhuma cidade houve, que não fosse conquistada e alternasse o domínio. Que direi dos confins sempre incertos, e tão freqüentemente mudados, de Espanha com França, de França com Germânia, de Germânia com a Turquia, e da Turquia com Itália? Anos há, que a antiga Creta, hoje Cândia, sem ser das ilhas errantes do arquipélago, tem posto em dúvida o mundo para onde há de ir, e se há de reconhecer as cruzes, ou as meias-luas.

E quanto às casas, membros menores de que se compõem inumeravelmente as cidades; quem poderá compreender o inextricável labirinto, com que, à maneira de peixes do mar, se andam sempre movendo, e passando de um dono para outro dono? Ouçam a familiar evidência com que o grande juízo de Santo Agostinho demonstrou a um deles esta perpétua instabilidade. Introduz um rico, que, jactancioso de ser senhor da sua casa, dizia: Domum meam habeo; e pergunta-lhe o santo assim: Quam domum tuam? Quam Pater meus mihi dimisit. Et unde ille habuit? Avus noster illam reliquit. Recurre ad Proavum, inde ad Abavum et jam nomina nan potes dicere. Pater tuus hic eam dimisit transivit per illam, sic et tu transibis. Esta casa de que vos jactais ser senhor, por que é vossa? Porque a herdei de meu pai; e vosso pai de quem a houve? De meu avô; e de quem a houve vosso avô? De meu bisavô; e vosso bisavô de quem? De meu trisavô. Já não tendes palavras com que prosseguir de quem mais foi, e a quem mais passou essa casa, que chamais vossa. Pois assim como ela passou, e, vossas antepassados passaram por ela, assim ela e vós também haveis de passar. Por este modo sem firmeza, nem estabilidade alguma, estão sempre passando neste mundo as casas, as quintas, as herdades, os morgados: uns, porque os faz passar a morte, outros, porque os manda passar a justiça, outros, porque os convida a passar a riqueza dos que os compram, outros, porque os obriga á necessidade dos que os vendem, outros, porque a força e poder os rouba e senhoreia por violência: em suma, que não há pedra, nem telha, nem planta, nem raiz, nem palmo de terra na Terra, que não esteja sempre passando, porque tudo passa.

V

Deste tudo que está sempre passando, é o homem não só a parte principal, mas verdadeiramente o tudo do mesmo tudo. E vendo o homem com os olhos abertos e, ainda os cegos, como tudo passa, só nós vivemos como se não passáramos. Somos como os que navegando com vento e maré, e correndo velocissimamente pelo Tejo acima, se olham fixamente para a terra, parece-lhes que os montes, as torres, e a cidade é a que passa; e os que passam, são eles. É o que disse o poeta: Montes, urbesque recedunt. Mas demos volta a esta mesma comparação, e veremos na Terra outro gênero de engano ainda maior. A maior ostentação de grandeza e majestade que se viu neste mundo, e uma das três que Santo Agostinho desejara ver foi a pompa e magnificência dos triunfos romanos. Entravam por uma das portas da cidade, naquele tempo vastíssimo, encaminhados longamente ao Capitólio: precediam os soldados vencedores com aclamações: seguiam-se, representadas ao natural, as cidades vencidas, as montanhas inacessíveis escaladas, os rios caudalosos vadeados com pontes: as fortalezas e armas dos inimigos, e as máquinas com que foram expugnadas: em grande número de carros os despojos e riquezas, e todo o raro e admirável das regiões novamente sujeitas: depois de tudo isto a multidão dos cativos, e talvez os mesmos reis manietados; e por fim em carroça de ouro e pedraria, tirada por elefantes, tigres, ou leões domados, o famoso triunfador, ouvindo a espaços aquele glorioso e temeroso pregão: Memento te esse mortalem. Enquanto esta grande procissão (que assim lhe chama Sêneca) caminhava, estavam as ruas, as praças, as janelas e os palanques, que para este fim se faziam, cobertos de infinita gente, todos a ver. E se Diógenes então perguntasse, quais eram os que passavam, se os do triunfo, se os que o estavam vendo, não há dúvida, que pareceria a pergunta digna de riso. Mas o certo é que tanto os da procissão e do triunfo, como os que das janelas e palanques os estavam vendo, uns e outros igualmente passavam, porque a vida e o tempo nunca param: e ou indo, ou estando ou caminhando ou parados, todos sempre com igual velocidade passamos.

Declarou esta verdade tão mal advertida com uma semelhança muito própria Santo Ambrósio elegantemente: Et si non videmur ire corporaliter, progredimus. Nam sicut in navibus dormientes ventis aguntur ir portus; sic vitae nostroe spatio defluente, ad proprium unusquisque finem, cursu labente deducimur. Tu enim dormis, et tempus tuum ambulat. Todos vamos embarcados na mesma nau, que é a vida, e todos navegamos com o mesmo vento, que é o tempo; e assim como na nau uns governam o leme, outros mareiam as velas; uns vigiam, outros dormem; uns passeiam, outros estão assentados;uns cantam, outros jogam, outros comem, outros nenhuma coisa fazem, e todos igualmente caminham ao mesmo porto; assim nós, ainda que o não pareça, insensivelmente vamos passando sempre, e avizinhando-se cada um ao seu fim; porque tu, conclui Ambrósio, dormes, e o teu tempo anda: Tu dormis, et tempus tuum ambulat. Disse pouco em dizer que o tempo anda, porque corre e voa; mas advertiu bem em notar que nós dormimos; porque tendo os olhos abertos para ver que tudo passa, só para considerar que nós também passamos, parece que os temos fechados.

Dito foi do grande filósofo Heráclito, alegado e celebrado por Sócrates: Non posse quenquam bis in eumden fluvium descendere: que nenhum homem podia entrar duas vezes em um rio: e por quê? Porque quando entrasse a segunda vez, já o rio, que sempre corre e passa, é outro. E daqui infiro eu, que o mesmo sucederia se não fosse rio, senão lago ou tanque aquele em que o homem entrasse; porque ainda que a água do lago e do tanque não corre, nem se muda, corre porém, e sempre se está mudando o homem, que nunca permanece no mesmo estado: Et nunquam in eodem statu permanet: Assim o disse Jó, e quem o não disser assim de todo o homem, e de si mesmo, não se conhece. Admira-se Philo Hebreu, de que perguntando Deus a Adão ande estava: Adam, ubi es? ele não respondesse. Mas logo escusa ao mesmo Adão, e a qualquer outro homem a quem Deus fizesse a mesma pergunta; porque, como pode responder onde está, quem não está? Se dissera, estou aqui (como sutilmente argúi Santo Agostinho) entre a primeira. sílaba e a segunda já o estou não seria estou, nem o aqui seria o mesmo lugar; porque como tudo está passando, tudo se teria mudado. Por isso conclui o mesmo Philo, que se Adão houvesse de responder própria e verdadeiramente onde estava, haveria de dizer: nusquam, em nenhuma parte; porque em nenhuma parte está aquilo que nunca está, mas sempre passa: Ad quod proprie respondere poterat, nusquam: eo quod humana res nunguam in eodem statu maneat

Considerando este contínuo passar do homem (não fora de si, senão onde verdadeiramente parecer que está e permanece, que é dentro em si mesmo) diziam os sábios da Grécia, como refere Eusébio Cesariense, que todo 0 homem que chega a ser velho, morre seis vezes. E como? Passando da infância à puerícia, morre a infância; passando da puerícia à adolescência, morre a puerícia; passando da adolescência à juventude morre a adolescência; passando da juventude a idade do varão morre a juventude; passando da idade de varão à velhice, morre a idade de varão; e, finalmente, acabando de viver por tanta continuação e sucessão de morte, com a última, que só chamamos morte, morre a velhice. Assim o consideravam aqueles sábios, mais larga e menos sabiamente do que deveram, aos quais por isso emendou S. Paulo, dizendo que morria todos os dias: Quotidie morior. E já pode ser que da comunicação que Sêneca teve com S. Paulo, ensinou ele esta mesma lição ao seu discípulo, quando lhe diz: Singulus dies, singulas vitas puta. Se o Sol, que sempre é o mesmo, todos os dias tem um novo nascimento, e um novo ocaso, quanto mais o homem por sua natural inconstância tão mudável, que nenhum é hoje o que foi ontem, nem há de ser amanhã o que é hoje! Desenganemo-nos pois todos, e diga,.ou diga-se cada um com el-rei Ezequias: De mane usque ad vesperam finies me . E seja o última conclusão deste largo discurso; que então definiremos bem e conheceremos o que é esta vida e este mundo, quando entendermos que não só estamos nele em perpétua passagem, mas em perpétuo passamento.

VI

Assim passamos todos, e assim passa tudo para a vida; desengano verdadeiramente não só triste, mas tristíssimo, se este superlativo e outros de maior horror não foram mais devidos ao que, e depois de tudo passar, se segue. Depois da vida segue-se a conta; e sendo a conta que se há de dar, de tudo o que se passou na vida; tristíssima e terribilíssima consideração é que, passando tudo para a vida, nada passe para a conta. O que faz, e há de fazer dificultosa a conta são os pecados da vida, e de toda a vida. E que confusão será naquele dia tão cheio de horror e assombro, olhar para a vida, e para os pecados de toda ela, e ver que a vida passou e os pecados não passaram!

Desse passar e não passar, não só temos os documentos da Escritura, mas grandes e manifestos exemplos da mesma natureza. Cristo, Redentor e Juiz universal nosso, comparou o dia do Juízo a uma rede lançada no mar: Sagenoe missae in mare . O mar é este mundo; a rede é a compreensão da ciência e justiça divina; os que nela andam nadando já presos, ou com maior ou menor larqueza, são todos os homens. E assim como na rede, quando a malha é muito estreita, só a água pode passar e nenhuma outra coisa; assim passa somente por ela a vida, e tudo o mais (que são os pecados) fica dentro, e nada passa. Oh quão apertada e estreita é esta malha de rede de Deus; e quão fácil de passar, ainda por ela, a vida, que, como água, sempre está passando! Omnes morimur, et quasi aqua dilabimur. O mesmo Cristo comparou este passar e não passar ao crivo, quando disse a seus discípulos: Satanás expetivit vos ut cribraret sicut triticum . Assim como no crivo (diz S. João Crisóstomo, comentando estas palavras) , assim como no criva dando uma e muitas voltas passa o grão, e só fica a palha, assim neste mundo (que é todo furado) com a volta que dão os dias e os anos, passa a vida e os gostos dela: Et in novíssimo nihil remanet, nisi solum peccatum, e no fim, e para o fim só fica o pecado. De outro crivo fala Davi, que é o das nuvens, por onde se coa a água da chuva, o qual mais altamente nos inculca este mesmo documento: Cribrans aquas de nubibus coelorum . Desce a nuvem como esponja a beber no mar, e sendo a água do mar salgada e amargosa, passada porém pela nuvem, o que lá fica é o amargoso, e o que cá desce, o doce. Por isso com grande propriedade este passar e não passar se compara na nuvem ao crivo, e na vida e na conta à nuvem. O que passa por ela e cá logramos, é o doce da vida; o que fica lá em cima e não vemos, é o amargoso da conta.

Não podia Jó faltar a enobrecer este mesmo assunto, como tão próprio das suas experiências, com alguma semelhança que mais ainda no-lo declare. Diz que observou Deus todos os seus caminhos, e considerou as pegadas dos seus pés: Observasti omnes semitas meas, et vestigia pedum meorum considerasti. E por que considera Deus não os passos, senão as pegadas? Porque os passos passam, as pegadas ficam; os passos pertencem à vida que passou, as pegadas à conta, que não passa. Mas que diferentemente não passa Deus pelo que nós tão facilmente passamos! Nós deixamos as pegadas detrás das costas, e Deus tem-nas sempre diante dos olhos, com que as nota e observa: as pegadas para nós apagam-se, como formadas em pó, para Deus não se apagam, como gravadas em diamante. Tal é a consideração dos pecados, que na nossa memória logo se perde, e na ciência divina sempre está presente. O Setenta, em lugar de pegadas, trasladaram raízes: Et radices pedum meorum considerasti. Assim como os pés se chamam plantas, assim às pegadas lhes quadra. bem o nome de raízes. E por que deu este nome Jó às pegadas dos seus passos? Não só porque os passos passam, e as pegadas ficam; mas porque ficam como raízes fundas e firmes, e que sempre permanecem. As pegadas estão manifestas e vêem-se; as raízes estão escondidas e não se vêem: e assim tem Deus guardados invisivelmente todos os nossos pecados, os quais no dia da conta rebentarão como raízes, e brotarão nos castigos, que pertencem à natureza de cada um. Isto é o que tanto cuidado dava a Jó.

Finalmente, o apóstolo S. Paulo, pregando contra os que abusam da paciência e benignidade de Deus, e em vez de se aproveitarem do espaço que lhes dá para a penitência, gastam a vida em acumular pecados sobre pecados: não vês (diz), ó homem, que desprezas as riquezas do sofrimento e longanimidade divina, e que pelo contrário, segundo a dureza do teu coração, entesouras para ti a ira e vingança, que te espera no dia do Juízo? An divitias bonitatis ejus, et patientiae et longanimitatis contemnis? Secundum autem duritiam tuam, et revelationis justi judicii Dei? De maneira que ao pecar sobre pecar chama S. Paulo entesourar: thesaurizas tibi; porque ainda que a vida e os dias em que pecamos passam, os pecados que neles cometemos, não passam, mas ficam depositados nos tesouros da ira divina. Fala o apóstolo por boca do mesmo Deus, o qual diz no Deuteronômío: Nonne hoec condíta sunt apud me, et signata in thesauris meis? Mea est ultio, et ego retribuam in tempore. Estes tesouros, pois, que agora estão cerrados, se abrirão a seu tempo, e se descobrirão para a conta no dia do Juízo, que isso quer dizer, in dïe iroe, et revelationis justi judicii Dei. Considerai-me um homem rico, e que tem mais rendas cada ano do que há mister para se sustentar que faz este homem? Uma parte do que tem gasta, e outra parte entesoura. Pois isto é o que fazemos todos. Todos gastamos, e todos entesouramos; todos gastamos o que passa, e todos entesouramos a que não passa; o que gastamos, é o da vida; o que entesouramos, o da conta.

Infinita matéria seria, se agora houvéramos de reduzir à prática uma e outra parte desta demonstração, e pô-las ambas em teatro. Mas por isso nos detivemos tanto no primeiro ponto do nosso discurso. Não vimos nele, desde o principio do mundo, como tudo passou? Não vimos, como todos os que em tantos séculos viveram, passaram? Pois esse tudo que então passou para a vida, é o nada que não passou para a conta; e esses todos que então morreram, e agora estão sepultados, são os que ressuscitados neste mesmo dia hão de aparecer vivos diante do tribunal divino, para dar essa conta estreitíssima de quanto fizeram, Neste tribunal viu S. João assentado sobre um trono de admirável majestade o Supremo Juiz, e com aspecto tão terrível, que afirma fugiu dele o céu e a terra: Et vidi thronum magnum candidum, et sedentem super eum, a cujus conspectu fugit terra, et coelum . Diz mais, que viu a todos os mortos, grandes e pequenos, em pé, como réus, diante do mesmo trono: Et vidi mortuos magnos et pusillos stantes in conspectu throni. E finalmente conclui, que então apareceram e se abriram um livro e muitos livros, e que pelo que estava escrito nestes livros foram julgados todos, cada um conforme suas obras: Et libri aperti sunt; et alius liber apertus est, qui est vitae; et judicati sunt mortui ex his quoe scripta erant in libris secundum opera ipsorum. Desta distinção que o evangelista faz de livro a livros, se vê claramente, que o livro era da vida, liber qui est vitae, e que os livros eram da conta, porque pelos livros foram julgados os mortos: Et judicati sunt mortui ex his quoe scripta erant in libris. Assim entendem literalmente estes textos como soam, Beda e outros padres. Mas por que razão o livro da vida, era livro, e os livros da conta, livros? Porque o livro da vida contém os dias da mesma vida, que são poucos, e os livros da conta contêm os pecados cometidos nos mesmos dias, que são muitos. Assim que postos à vista no tremendo tribunal, de uma parte o livro, e, da outra os livros, então se verão juntas e concordes as duas combinações do nosso assunto: no livro, como tudo passa para a vida; nos livros, como nada passa para a conta.

VII

Este nada, do qual dizemos que nada passa para a conta, é o que agora havemos de examinar. Pergunto: se nada passa para a conta, parece que também o nada pode ser chamado a Juízo? E se acaso for chamado, escapará da conta o nada por ser nada? Creio que todos estão dizendo que sim. Mas é certo, e de fé, que também o nada, por mais qualificado que seja, há de ser chamado a Juízo, e porque nada passa para a conta, nem o mesmo nada há de passar sem ela, e mui rigorosa. Ninguém foi mais qualificado na lei da natureza que Jó, e ninguém mais qualificado na lei da graça que S. Paulo: e que dizia de si um e outro? Jó dizia que nada tinha feito contra Deus: Quia nihil impium fecerim. S. Paulo dizia que nada havia na sua consciência, de que ela o acusasse: Nihil mihi conscius sum . E este nada de Jó, e este nada de S. Paulo escaparam porventura da conta e do Juízo? Eles mesmos confessam, que de nenhum modo. Jó dizia que Deus o tinha posto a questão de tormento, como réu, para averiguar se o que ele tinha por nada, verdadeiramente era nada: Ut quoeras iniquitatem meam, ei peccatum meum scruteris, et scias, quia nihil impium fecerim. E S. Paulo dizia, que ele se não dava por justificado do que na sua consciência reputava por nada, porque desse nada não havia ele de ser o juiz, senão Deus: Nihil mihi conscius sum, sed non in hoc justificatus sum; qui autem judicat me, Dominus est. Eis aqui quão manifesta e provada verdade é, que nada passa para a conta, pois até do mesmo nada a há de tomar Deus, e tão estreita.

Mas qual é, ou pode ser a razão por que onde dois homens tão grandes, tão qualificados e tão santos, como Jó e S. Paulo, não reconhecem nada de culpa, lha haja, de argüir Deus, e pedir-lhes conta? A primeira razão e da parte de Deus (a qual só pode ignorar quem o não conhece) é, porque ainda nas coisas mais interiores nossas, conhece Deus muito mais de nós, do que nós de nós. Quando Cristo na mesa da última Ceia revelou aos apóstolos, que um deles o havia de entregar: Amen dico vobis, quia uns vestrum me traditurus est, diz o evangelista, que muito tristes todos com tal notícia, começou cada um a perguntar: Nunquid ego num, Domine? Porventura, Senhor, sou eu esse? Pedro, André, João e os demais, exceto Judas, bem sabia cada um de si, que não era o traidor, nem tal coisa lhe passara pelo pensamento; pois por que se não deixam estar muito seguros na boa fé da sua lealdade, mas pondo em dúvida o que não duvidavam, pergunta cada um a Cristo se é ele o traidor: Nunquid ego sum? Porque ainda que a própria consciência os não acusava, sabiam todos que sabia Cristo mais de cada um deles, do que eles de si. Eles conheciam-se, como homens, Cristo conhecia-os, como Deus. Esse foi o erro e engano de S. Pedro, que estava à mesma mesa! Pedro disse, que se fosse necessário daria a vida por Cristo; Cristo pelo contrário disse, que três vezes o havia de negar naquela noite. E por que foi esta a verdade? Porque Pedro falou pelo que ignorava de si, e Cristo pelo que conhecia dele. Hoc illi Christus pracnuntiabat qued in se ipse ignorabat, diz Santo Agostinho. E como o juiz daquele dia conhece mais de nós, do que nós de nós, não é muito que ele nos condene pelo que nós ignoramos, e que no seu juízo seja culpa, o que no nosso parece inocência.

A segunda razão, e da parte nossa é, porque assim como Deus sabe tanto de nós, assim nós sabemos muito pouco de Deus; e por isso as nossas razões não podem alcançar as suas. Um dia, depois de Cristo entrar triunfante em Jerusalém, vindo de Betânia para a mesma cidade, esuriit, teve fome; e como visse ao longe uma figueira verde e copada, encaminhou as passos até ela, para ver se acaso tinha algum fruto: Si quid forte inveniret in ea. Mas porque não achou mais que folhas, lançou-lhe o Senhor maldição de que eternamente não desse fruta: Nunquam ex te fructus nascatur in sempiternum; e no mesmo momento se secou a árvore desde as folhas até as raízes. É porém muita de notar neste caso, coma nota S. Marcos, que não era tempo de figos: Non enim erat tempus ficorum. Pois se não era tempo de aquela árvore ter fruto, por que a amaldiçoa Cristo, e a seca, não só para aquele ano, senão para sempre? Podia haver causa, ou desculpa mais natural de não ter fruto, que não ser tempo dele? Da árvore a que é comparado o justo, diz Davi, que dará o seu fruto no seu tempo: Et fructum suum dabit in tempore suo. Pois se é louvor nas melhores árvores darem a seu fruto, como foi culpa nesta não se achar nela fruto, quando não era tempo? O mesmo evangelista S. Marcos diz que esta sentença de Crista foi resposta que o Senhor deu à árvore: Et respondens dixit ei: Jam non amplius in aeternum ex te fructum quisquam manducet . Se a sentença de Cristo foi resposta que deu à árvore, sinal é que a ouviu primeiro, e ela alegou de sua justiça. Reparem aqui os juizes, ou condenadores, que nem a um tronco irracional e insensível condena Deus sem o ouvir. Mas que é a que alegou a árvore? Alegou o mesmo texto do evangelista; e estava. como dizendo maduramente ao Senhor: Eu bem tomara estar carregada de frutos maduros e sazonados, para os oferecer a meu Criador; porém a causa e impedimento natural de me achar sem eles, é por não ser ainda chegado o tempo: Non erat tempus ficorum. E que sem embargo desta réplica, ao parecer tão justificada, a condenasse Cristo, e com condenação eterna: in sempiternum! Assim foi. Mas com que fundamento, ou justiça? Entre todos os expositores da Escritura, mais letrados e de maior engenho, nenhum houve até agora que desse satisfação cabal a esta dúvida. E a razão de se lhe não achar razão, é porque as razões dos homens não alcançaram as de Deus, e onde não sabe descobrir culpa o juízo humano, a pode achar o divino. Por que não compreende o homem a Deus? Porque Deus é incompreensível. Pois também por isso os juízos humanos não compreendem os divinos, porque os divinos são incompreensíveis: Quam incomprehensibilia judicia ejus!

Sobre estes dois princípios tão manifestos, um da ciência de Deus para conosco, outro da nossa ignorância para com Deus, fica satisfeita e emudecida toda a admiração de que Deus haja de julgar até o que reputamos por nada, e nesse mesmo nada haja de argüir e achar culpas de que pedir e tomar conta no dia do Juízo. Só resta um escrúpulo, que ainda não acaba de se aquietar, e não menos que acerca da justiça com que Deus nos haja de castigar pelo que não conhecemos. É verdade que Deus sabe de nós o que nós ignoramos de nós, mas essa mesma ignorância nossa não só parece que nos desculpa, mas nos livra de ser pecado o que não conhecemos como tal. Sem vontade não há culpa, sem conhecimento não há vontade; como logo pode ser pecado, e castigado como pecado o que eu não conheço? Bem tinha decifrado esta teologia o autor do nosso provérbio: Quem ignorantemente peca, ignorantemente vai ao inferno. Uma só ignorância escusa do pecado, que é a invencível. Mas esta poucas vezes se acha. Os demais não só pecam no pecado, mas na ignorância com que o não conhecem. Não pecaram gravissimamente os judeus na morte de Cristo? E contudo diz S. Pedro que eles e os seus príncipes o fizeram ignorantemente: Scio quia per ignorantiam fecistis, sicut et Principes vestri . E o mesmo Cristo quando disse: Pater, ignosce illis, non enim sciunt quid faciunt ; justamente alegou por eles a ignorância, e pediu para eles o perdão. Se a ignorância os livrara do pecado, não tinham necessidade de perdão; mas pediu-lhes o Senhor o perdão, quando lhe confessou a ignorância, porque tão fora estiveram de ficar isentos do pecado, pela ignorância com que o cometeram, que antes a mesma ignorância lhes acrescentou um pecado sobre outro pecado. Um pecado, porque tiraram a vida. ao Messias não conhecido, e outro pecado, porque o não conheceram, tendo tanta obrigação como evidência para o conhecer.

Isto mesmo é o que se vê hoje entre os que conhecem e adoram Cristo; e não por acontecimento raro, senão comumente; nem só nas vidas, serão também nas mortes. Quantos pecados vemos, e quão grandes, nem emendados na vida, nem confessados na morte, os quais não só Deus, mas todo o mundo está conhecendo, e só os mesmos que os cometem os não conhecem! Não os conhecem, porque a largueza e relaxação da vida escurece a consciência e cega a alma; não os conhecem, porque o amor-próprio sempre escusa e aligeira o que nos condena; não os conhecem, porque os interesses e conveniências deste mundo trazem consigo o esquecimento do outro; não os conhecem, porque os não querem examinar, nem consultar com quem deviam; não os conhecem, finalmente, porque com ignorância afetada os não querem conhecer para os não emendar: Noluit inteligere, ut bene ageret, vede agora se castigará Deus justamente no dia do Juízo os pecados não conhecidos, se por cometidos merecem um castigo, e por não conhecidos outro maior? Porém se até aquele dia estarão desconhecidos e sepultados nas trevas desta maliciosa e ignorante ignorância, então ressuscitarão, sairão à luz, porque o mesmo juiz universal, como diz S. Paulo, com os resplendores de sua presença alumiará as consciências de todos os homens, e descobrirá manifestamente a cada um tudo o que nelas estava escondido e às escuras: Quoadusque veniat Domínus, qui et illuminabit abscondita tenebrarum. Por meio desta luz, desenganadas então, e assombradas as mesmas consciências do muito que verão sair debaixo do nada, que não viam ou não quiseram ver, nenhuma terá que estranhar, nem replicar à sentença, ainda que seja de eterna condenação, e todas dirão convencidas: Justus es, Domine, et rectum judicium tuum .

VIII

Oh que grande mercê de Deus fora, se hoje, que estamos na representação do mesmo dia do Juízo, o mesmo soberano juiz nos comunicara um raio daquela luz, para que víramos agora o que então havemos de ver, e com os pecados conhecidos nos presentáramos antes ao tribunal de sua misericórdia, que depois ao de sua justiça! Mas bendita seja a bondade do mesmo Senhor, que não só nos deixou comunicado na sua doutrina um raio daquela luz, senão três, se nós lhe não cerramos os olhos. Sendo a matéria de tudo o que passou para a vida, e não há de passar para a conta, tão imensa à capacidade humana, só a sabedoria divina a poderá compreender; e assim o fez Cristo Senhor Nosso, reduzindo-a, repartindo-a em três parábolas, nas quais nos ensinou em suma toda a conta que nos há de pedir, e de quê. A primeira parábola é dos ofícios, a segunda dos talentos, a terceira das dívidas. E este mesmo número e ordem seguiremos para maior distinção e clareza.

Quanto aos ofícios, diz a primeira parábola (que é a do Vilico) que houve um homem rico, o qual deu a superintendência das suas herdades a um criado, com nome de administrador delas. E porque não teve boa. informação de seus procedimentos, o chamou à sua presença, e lhe pediu conta, dizendo: Redde rationem villicationis tuae; jam enim non poteris villicare. Dai conta da vossa administração, porque desde esta hora estais excluído dela. Esta circunstância de ser a conta a última, e não se poder emendar, é uma das mais rigorosas do dia do Juízo. Vindo pois ao sentido da parábola: o homem rico é Deus; as suas herdades são as igrejas e as províncias; o administrador no espiritual é o papa, no temporal é o rei, e, abaixo destes dois supremos, todos os outros ministros eclesiásticos e seculares, que repartidamente têm inferior jurisdição sobre os mesmos súditos. A todos estes, pois, há de pedir Deus estreita conta, não só quanto às pessoas, senão também, e muito mais, quanto aos ofícios. Quanto à pessoa, há de dar cada um conta de si, e quanto aos ofícios, há de dar a mesma conta de todos aqueles que governou e lhe foram sujeitos. De sorte que o papa há de dar conta de toda a cristandade, o rei de toda a monarquia, o bispo de toda a diocese, o governador de toda a Província, o pároco de toda a freguesia, o magistrado de toda a cidade, e o cabeça da casa de toda a família. Oh, se os homens souberam o peso que tomam sobre si, quando com tanta ânsia e negociação pretendem e procuram os ofícios, ou seculares ou eclesiásticos, como é certo que haviam de fugir e benzer-se deles! Mas não os procuram pelo peso, senão pela dignidade, pelo poder, pela honra, pela estimação, e, mais que tudo hoje, pelo interesse. Porém, quando no dia de Juízo se lhes tomar a conta pelo peso, então verão onde os leva a balança.

Se é tão dificultoso dar boa conta da alma própria, que é uma, quão difícil e quão impossível será dá-la boa de tantas mil? Como é certo, que não temos fé, nem sabemos a que nos obriga! Vedes quantas almas há nesta cidade, quantas almas há nesta Província, quantas almas há em todo o reino? Pois sabei, se o ignorais, ou não advertis, que de todas essas almas hão de dar conta a Deus os que governam a cidade, a Província e o reino. Porque assim como sobre todos e cada um tem poder e mando, assim em todos e cada um são obrigados a lhes fazer guardar as leis, não só humanas, senão também as divinas. Não é isto encarecimento meu, senão doutrina sólida e de fé, pronunciada por boca de S. Paulo: Obedite praepositis vestris, et subjacete eis; ipsi enim pervigilant, quasi rationem pro animabus vestris reddituri . Obedecei, diz o apóstolo, a vossos superiores e sede-lhes muito sujeitos, porque a sua obrigação é zelar e vigiar sobre as vossas vidas, como aqueles que hão de dar conta a Deus de vossas almas. Vede quanto maior é a sujeição dos superiores que a dos súditos. Quantos são os súditos que estão sujeitos ao superior, tantas são as almas de que está sujeito o superior a dar conta a Deus. E posto que este oráculo bastava para nenhum homem que tem fé querer tomar sobre si uma tal sujeição, ouvi agora o que nunca ouviste. Nem todas as sentenças de Cristo estão escritas no Evangelho, algumas ficaram somente impressas na tradição de seus discípulos, entre as quais é tão notável como terrível esta: Omne peccatum, quod remissus, et indisciplinatus admiserit frater, ad negligentem protinus revertitur seniarem. Quer dizer: todos os pecados que cometem os súditos, se escrevem e carregam logo no livro das culpas do superior, porque há de dar conta deles. De modo que segundo esta sentença e revelação do mesmo Cristo, todos os homicídios, todos os adultérios, todos os furtos, todos os sacrilégios e mais pecados que os vassalos cometem na vida e reinado de um rei, e as ovelhas e súditos na vida e governo de um prelado, todos estes pecados se lançam logo e escrevem nos livros de Deus, debaixo do título do tal rei e debaixo do título do tal prelado, para se lhes pedir conta deles, no dia do Juízo.

Ponhamos agora este rei, e depois poremos também este prelado diante do tribunal divino, e vejamos que respondem a estes cargos. O rei é a cabeça dos vassalos; e quem há de dar conta dos membros, senão a cabeça? O rei é a alma do reino; e quem há de dar conta do corpo, senão a alma? Pedirá, pois, conta Deus a qualquer rei, não digo dos pecados seus e da sua pessoa, senão dos alheios e do ofício. E que responderá já não rei, mas réu? Parece que poderá dizer: Eu, Senhor, bem conhecia que era obrigado a evitar os pecados dos meus vassalos, quanto me fosse possível, mas a minha corte era grande, o meu reino dilatado, a minha monarquia estendida pela África, pela Ásia e pela América; e como eu não podia estar em tantas partes, e tão distantes, na corte tinha provido os tribunais de presidentes e conselheiros, no reino de ministros de justiça e letras, nas conquistas de vice-reis e governadores, instruídos de regimentos muito justos e aprovados. E isto ë tudo o que fiz e pude fazer. Também poderá meter nesta conta o seu próprio palácio, e aqueles de que se servia mais familiar e interiormente. Mas sobre todos cai a réplica. E estes que elegestes (dirá Deus) por que os elegestes? Não foram alguns por afeição, e outros por intercessão, e outros por adulação, e outros por ruim e apaixonada informação? E os que ficaram de fora com mais conhecido merecimento, por que os excluístes? Mas dado que todos fossem eleitos com os olhos em mim, e justamente, depois que na administração de seus ofícios conhecestes que não procediam como eram obrigados, por que os não removestes logo, por que os dissimulastes e conservastes, e, o que pior é, por que os despachastes de novo, e com mais autorizados postos? Se o que assolou uma Província o deixastes continuar na mesma assolação, e depois o promovestes a outro governo maior, como não fostes cúmplice das suas injustiças, e das culpas que ele em vez de remediar acrescentou com as suas, e com o exemplo delas? Se as suas tiranias vos foram manifestas, como as deixastes sem castigo, e os danos dos ofendidos sem restituição? Quantas lágrimas de órfãos, quantos gemidos de viúvas, quantos clamores de pobres chegavam ao céu no vosso reinado, porque para suprir superfluidades vãs, e doações inoficiosas, vossos ministras (por isso premiados e louvados) com impiedade mais que desumana, não os despojavam, mas despiam. Isto é o que poderá replicar Deus, emudecendo, e não tendo que responder o triste rei. E qual será a sua sentença? No dia do Juízo se ouvirá. O certo é que Davi, rei santo antes de pecador e depois de pecador exemplo de penitência, o que pedia perdão a Deus, era dos pecados ocultos e dos alheios: Ab occultis meis munda me, et ab alenis parce servo tuo. Mas os pecados ocultos naquele dia são manifestos, e dos alheios, por ter sido rei, se lhe pedirá tão estreita conta como dos próprios.

Entre agora o prelado a dar conta, e a ouvir em estátua o processo que depois da ressurreição lhe será notificado em carne. Oh que espetáculo será aparecer descoroado da mitra, e despido dos paramentos pontificiais diante da majestade de Cristo Jesus, aquele a quem o mesmo Senhor autorizou com o nome e poderes de seu vigário, e cuja humana e divina pessoa representou nesta vida! O pastor, et Idolum! lhe dirá Cristo: Tu que foste pastor no nome, e como ídolo te contentaste com a adoração exterior que não merecias, dá conta. Não ta peço das misérias ocultas, senão das públicas e escandalosas de tuas mal guardadas e desprezadas ovelhas. Eram miseráveis no temporal, e não trataste de remediar suas pobrezas, e eram muito mais miseráveis no espiritual, e não cuidaste de curar nem de preservar seus pecados. Se as rendas, que com tanta cobiça recolhias, e com tantas avarezas guardavas, eram o mou patrimônio, que eu adquiri, não menos que com o meu sangue, por que o não distribuíste aos meus verdadeiros credores, que são os pobres? Por que o dispendeste em carroças, criados e cavalos regulados, estando eles morrendo de fome, e em vestir as suas paredes de oiro e seda, andando elés despidos e tremendo de frio? Se o zelo de teus ministros visitava as vidas dos pequeninos, tratando mais de se aproveitar das condenações, que de lhes emendar as consciências; os pecados monstruosos dos grandes, que tão soberba e escandalosamente viviam na face do mundo, como os deixaste triunfar com perpétua imunidade, como se foram superiores às leis da minha Igreja?

Confesso, Senhor, responderá o prelado, que em uma e outra coisa faltei' mas não sem eausa. O que dispendi com minha casa e pessoa' foi para satisfazer aos olhos do vulgo, que só se leva destes exteriores, e para conservar a autoridade do ofício e veneração da dignidade. E se contra os pecados dos grandes me não atrevi, foi porque os seus poderes são inexpugnáveis; e julguei por menos inconveniente não entrar com eles em batalha, que com afronta e desprezo das mesmas leis da Igreja, ficar no fim da peleja vencido: e finalmente, Senhor em uma e outra omissão segui o exemplo universal, e o que usam neste ofício os que com mais poderosas armas, e com maiores jurisdições que a minha, costumam em toda a parte fazer o mesmo. ó ignorante! ó covarde! replicará Cristo. Tão ignorante e covarde, como se não tiveras lido as Escrituras, nem os Canones, e exemplos da mesma Igreja. Porventura Pedro, e Paulo, e os outros apóstolos que me imitaram a mim, e os seus verdadeiros sucessores, que os imitaram a eles, conciliavam a autoridade das pessoas e do ofício, ainda entre gentios, com os aparatos exteriores? Não sabes que esse mesmo povo, com cujos olhos te escusas, se por dares tudo aos pobres, te vissem desacompanhado, só, e a pé pelas ruas, e ainda com os pés descalços, então se ajoelhariam todos diante de ti, e te adorariam? E quanto à covardia de te não atreveres com os grandes, tendo a teu lado a espada de Pedro; contra quem se atrevia Davi, que foi o exemplar dos meus pastores? Entre as feras tomava-se com os leões, e entre os homens com os gigantes. Que fera mais fera que a imperatriz Eudóxia, e vê como a não temeu Crisóstomo; e que leão mais coroado que o imperador Teodósío, e vê como o humilhou e pôs a seus pés Ambrósio. Finalmente, se não seguiste o valor destes, senão 0 que chamas costume dos outros, agora verás em ti e neles, que se eles o costumam fazer assim, 2u também costumo mandar ao inferno os que assim o fazem. Isto baste quanto à conta dos ofícios, e tomem exemplo os ministros seculares na conta do rei, e os eclesiásticos na do prelado.

IX

Quanto à conta dos talentos, esta temos na parábola dos criados, a quem o rei encomendou diferentes cabedais, para que negociassem com eles enquanto fazia certa jornada: Negotiamini dum venio O rei é Cristo, a jornada foi a de sua subida ao céu, e a tornada há de ser no dia do Juízo ,em que há de pedir conta a cada um, do que negociou com os talentos que lhe deu, e do que lucrou e ganhou com eles: Post multum vero temporis venit dominus servorum illorum , et possuit rationem cum eis. Os talentos são os meios assim universais como particulares, com. que a providência divina assiste a todos os homens, e a cada um para sua salvação e perfeição; e os avanços ou ganâncias, são o aumento das virtudes, merecimentos e graça, que no exercício, agência e indústria, com que se aplicam os mesmos meios, alcançam os que não são negligentes. Quão exata pois haja de ser esta conta, e quão rigorosa para os que usarem mal do talento, na mesma história o temos. Os criados, a quem o rei fiou os talentos, eram três: ao primeiro entregou cinco, o qual granjeou outros cinco: ao segundo entregou dois, o qual granjeou outros dois; e ambos foram louvados; ao terceiro deu um só talento, o qual ele enterrou. E posto que na conta o ofereceu outra vez, e restituiu inteiro, porque não tinha negociado com ele, nem adquirido coisa alguma, o senhor não só o lançou fora de sua casa, e o mandou privar de talento, mas o pronunciou por mau criado: serve nequam, que foi a sentença de sua condenação. E se quem na conta torna a entregar o talento que Deus lhe deu, inteiro e sem defraudo, e condena, que será dos que o desbaratam e perdem, e talvez o convertem contra si, e contra o mesmo Deus?

Para inteligência desta gravíssima e perigosa matéria, havemos de supor o que se não cuida; e é que, não só são talentos os dotes da natureza, os bens da fortuna e os dons particulares da graça, senão também os contrários, ou privações de tudo isto. Não só é dote da natureza a formosura, senão também a fealdade; não só as grandes forças, senão a fraqueza; não só o agudo entendimento, senão o rude; não só a perfeita vista, senão a cegueira; não só a saúde, senão a enfermidade; não só a larga vida, senão a breve. Do mesmo modo nos bens que chamam da fortuna, não só é bem o ilustre nascimento senão o humilde; não só as dignidades altas, senão o lugar e ofício abatido; não só as riquezas, senão a pobreza; não só o descanso, senão os trabalhos; não só os sucessos prósperos, senão os adversos, não só os mandos, senão o ser mandado; nem só as vitórias e triunfos, senão o ser vencido. Finalmente, nas graças, ou dons da graça, não só é graça o dom das línguas, mas o não saber falar, ou ser mudo; não só o das letras e ciências, senão o da ignorância; não só o do conselho e discrição, senão o de não ter nem poder dar voto; não só o da ostentação e boato dos milagres, senão o de não ser em coisa alguma maravilhoso, senão totalmente desconhecido e desprezado.

A razão desta verdade interior e providência verdadeiramente divina, é, porque todas estas coisas, posto que entre si contrárias, podem ser meios que igualmente nos levem à salvação e promovam à virtude, principalmente sendo distribuídos por Deus e aplicados conforme o gênio de cada um, que por isso diz o texto, que foram dados os talentos: Uniquique secundum propriam virtutem . Assim que, tanto se podia aproveitar Raquel da sua formosura, como Lia da sua deformidade: tanto Aquitofel do seu entendimento, como Nabal da sua rudeza; tanto Matusalém dos seus novecentos anos, como o moço de Naim dos seus vinte; tanto Crasso dos seus tesouros como Jó da sua pobreza, tanto Júlio César da sua fortuna, como Pompeu da sua desgraça; tanto Alexandre Magno das suas vitórias, como Dario e Poro de ele os ter vencido; tanto Arão da soltura e eloqüência da sua língua, como Moisés do impedimento da sua; tanto o sutilíssimo Escoto da sua ciência, como frei Junípero da sua simplicidade; tanto S. Pedro dos seus milagres, como o Batista de nunca fazer milagre. Daqui se segue, que tanta conta há de pedir Deus ao rico da sua riqueza, como ao pobre da sua pobreza; tanta ao são da sua saúde, como ao doente da sua enfermidade; tanta ao honrado da sua estimação, como ao afrontado da sua injúria; e tanta a todos do que deu a uns, como do que negou a outros; porque se o rico pode granjear com o seu talento por meio da esmola, o pobre também pode com o seu por meio da paciência. E assim dos demais. Antes é certo que entre as coisas, que se chamam prósperas, ou adversas, mais eficazes são para o merecimento as que mortificam a natureza, que as que lisonjeiam o apetite; e mais seguras para a salvação as que pesam e carregam para a humildade, que as que elevam e desvanecem para a soberba. Só souberam manejar uns e outros meios e aproveitar-se com igualdade de ambos os talentos um S. Paulo, que dizia: Scio abundasse et scio esurire. E um Jó, que na mesma volta da sua primeira para a segunda fortuna, disse: Si bona suscepimus de manu Dei, mala quare non suscipiamus?Mas estes homens quadrados nascem poucas vezes no mundo. Os dados tão firmes se assentam com poucos pontos, como com muitos; e tão direitos estão com as sortes, como com os azares.

Desta maneira (e seja esta a única e importantíssima advertência) , desta maneira devemos aceitar como da não de Deus, e contentar-nos, com o talento, ou talentos, que Ele foi servido dar-nos, ou sejam como os cinco, ou como os dois, ou como um somente; e se pudera ser nenhum, ainda fora mais seguro. Quando o rei distribuiu os talentos aos criados, não lemos que algum deles se descontentasse da repartição. Se os que Deus deu a outros, são maiores que os vossos, eles terão mais, e vós menos de que dar conta ao mesmo Deus. Mas somos como os que lançam nas rendas dos reis, que só olham para o que recebem de presente, e não para a conta, que hão de dar de futuro. Admirável foi neste gênero a variedade e repartição de fortunas, com que Jacó (digamo-lo assim) fadou a seus filhos quando na hora da morte lhes lançou a bênção. Usou dos nomes de diferentes animais, e a Judas chamou leão: Catulus leonis Juda ; a Dan serpente: Fiat Dan coluber in via; a Benjamim lobo: Benjamin lupus rapax; a Nephtali cervo. Nephtali cervas emissus; A Issachar jumento: Issachar asinus fortis. Os animais todos têm suas inclinações, instintos e propriedades, e todos suas como virtudes, ou vícios naturais: o leão generoso, a serpente astuta, o lobo voraz, o cervo ligeiro, o jumento sofredor do trabalho. E debaixo destas metáforas significava Jacó aos filhos os talentos de cada um e o uso deles, e quais haviam de ser as ações e sucessos de suas vidas e descendências. E sendo assim, que estes mesmos irmãos sofreram tão mal ao mesmo pai fazer uma túnica a um deles de melhor estofa, que por isso a quiseram tingir em seu próprio sangue; como agora nenhum deles se queixa de o pai os vestir de tão diferentes peles e pêlos, e de lhes dar ou chamar tão diferentes nomes, e de tão diferente nobreza, quanto vai de lobo a cervo, de serpente a leão, e de leão a jumento? Por que na diferença da túnica obrava Jacó como pai em seu nome: na diferença e repartição o dos talentos, falava como profeta em nome de Deus; e como a distribuição era feita por Deus e os talentos dados por ele, posto que fossem tão diversos na estimação e crédito, quanto vai do império à servidão, e do leão ao jumento, todos abaixando a cabeça se contentaram e conformaram com a sua sorte, e nenhum houve que abrisse a boca para se queixar, ou metesse os olhos debaixo das sobrancelhas para mostrar descontentamento. E que dirão a isto os que tantas vezes deixaram a religião e a mesma fé, por não terem humildade, nem paciência para sofrer que se lhes antepusessem os que não podiam igualar no talento?

Todo o talento é arriscado á o perder, ou não dar boa conta dele a presunção humana. Os maiores pela soberba, os menores pela inveja, e os mínimos pela desesperação e pusilanimidade. Das casta destes últimos foi o que enterrou o talento, podendo ser melhor e mais celebrado que todos se o não enterrara. Puseram alguns teólogos em questão qual dos criados se mostrara mais industrioso, se o que com dois talentos granjeara dois, ou o que com cinco granjeara cinco; e como entre eles se não decidisse a questão, devolveu-se a uma academia de mercadores, os quais todos resolveram, que mais industrioso fora o que com dois negociara dois, que o que com cinco granjeara cinco; porque mais dificultoso é ganhar pouco com pouco, que muito com muito. E sobre esta, que é primeira máxima dos negociantes, provada com a experiência, acrescentaram que se o que teve um só talento granjeara outro, excederia sem comparação na indústria ao dos dois, e ao dos cinco. Grande consolação, e verdadeira, se a quisessem aceitar os talentos meridianos. Mas quem poderá curar a cegueira, e contentar a inveja dos que se vêem excedidos? Saul porque ouviu (vede a quem? porque ouviu que as chacotas lhe preferiam a Davi, tantas vezes e por tantos modos o quis matar, e por isso perdeu a coroa. E Dédalo, aquele famoso artífice, que preso em uma torre, inventou e formou as asas com que fugiu dela voando, vendo que Perdiz, seu discípulo, inventara o compasso e da imitação de uma espinha a serra, temendo que o havia de exceder no talento, o despenhou primeiro da mesma torre.

Mas ainda são mais arriscados os talentos, que na iminência se estremam sobre todos. Que havia de ser de Saulo se o mesmo Cristo descera do céu, e o derribara do cavalo para lhe enfrear o orgulho? Que havia de ser de Agostinho, de quem se rezava nas escolas católicas: A logica Augustini libera nos Domine; se amolecida com as lágrimas de sua mãe, ela (como um lírio que se gera das lágrimas de outro) o não tornara a gerar? Suceder-lhe-ia o que ao profundíssimo engenho de Tertuliano, e ao imenso de Orígines, os quais venerados como oráculos da sua idade, e primeiros mestres da Igreja, a perderam e se perderam. Mas que muito é que o barro caia, e se quebre, se o entendimento de Lúcifer, sendo o maior que Deus criou, excedendo-o só o do mesmo Deus, antes quis cair do céu, que ver-se nele excedido! Tanta conta têm como isto os talentos menores, e só por isso poderão dar boa conta.



X

A das dívidas é a que só nos resta, última, maior, e mais dificultosa de todas. Esta se contém na parábola do outro rei, o qual fez o que muitos não fazem, que é tomar conta aos criados de sua casa: Qui voluit rationem ponere cum servis suis. Do que logo se segue, no princípio das contas se mostra bem, que este chamado rei, seria o mais poderoso e rico monarca de quantos houve, ou não houve no mundo; porque o primeiro criado foi convencido de que era devedor à fazenda ou erário real de cento e vinte milhões de oiro. Tanto vêm a montar os que o texto chama decem millia talenta; porque falando Cristo com os hebreus, e na língua hebraica, também o cômputo e valor da dívida se há de entender de talentos, não gregos, senão hebraicos. Mas como era possível que um criado devesse a seu rei cento e vinte milhões? Respondo que quando a parábola dissera dez mil vezes outros tantos, ainda diria muito menos dó que queria significar. Porque este rei é Deus, e esta dívida é a dos benefícios que Deus tem feito ao homem; e como o menor benefício divino, por si mesmo, ou por seu autor, é de valor infinito, não há número em toda a aritmética, nem preço em todas as criaturas, com que se possa comparar, quanto mais igualar.

Santo Agostinho, para representar mais claro e mais patentemente esta conta, introduz ao mesmo Cristo fazendo-nos por sua própria pessoa os cargos do que lhe devemos, como fará no dia do Juízo: Quid est quod debui ultra facere vineae meae, et non feci ei? Que coisa há, que eu devesse fazer-te, ó homem, ou devesse fazer por ti, que não tenha feito? De nada te era. devedor, e como se o fora, de quanto tenho, de quanto posso, e de quanto sou, tudo empreguei e dispendi contigo. Criei-te quando não eras, tirando-se dos abismos do não ser ao ser; dei-te um corpo formado com minhas mãos, o mais perfeito; dei-te uma alma tirada de minhas entranhas, e feita à imagem e semelhança; ornei, e habilitei um e outro, com as mais excelentes potências, e os mais nobres sentidos, para que fossem os instrumentos com que me servisses e amasses; e tu, ingrato, que fizeste? Dá conta dos cuidados, pensamentos e máquinas do teu entendimento; das lembranças e esquecimentos da tua memória; dos desejos e afeições da tua vontade. Dá conta de todos os passos de teus pés, de todas as obras de tuas mãos, de todas as vistas dos teus olhos, de todas as atenções dos teus ouvidos, de todas as palavras de tua língua, e de tudo mais que tu sabes, e não cabe em palavras. Depois de criado, que seria de ti, se eu com o mesmo poder e providência te não conservara? De repente perderias o ser e tornarias ao nada donde saíste. Para tua conservação, te dei não só o necessário, senão o superabundante, e tanta imensidade de criaturas no céu e na terra, todas sujeitas a ti, e ocupadas em teu serviço. Dei-te um anjo, que de dia e de noite, velando e dormindo, te assistisse e guardasse, como sempre assistiu e guardou. Agora te revelo os perigos secretos e ocultos, de que foste livre por seu meio; e tu lembra-te dos públicos e manifestos, que experimentaste e viste. Quantos pereceram em outros muito menores? Quantos mais moços que tu, acabaram de mortes desastradas e repentinas, sem tempo, nem lugar de arrependimento e emenda que eu, sempre te concedi? Dá, pois, conta da vida, dá conta da saúde, dá conta dos anos, dá conta dos dias, dá conta das horas, sendo mui poucas, e contadas as que não empregaste em me ofender.

Até agora te referi as dívidas exteriores do poder; agora me responderás às interiores e pessoais do amor, e do muito que fiz e padeci por ti. Por ti depois de te fazer à minha imagem e semelhança, me fiz à tua, fazendo-me homem; por ti nasci nos desamparos de um presépio; por ti fui desterrado ao Egito; por ti vivi trinta anos sujeito à obediência de um oficial, ajudando o trabalho de suas mãos com as minhas, e acompanhando o suor do seu rosto com o meu; por ti, e para ti, saí ao mundo a pregar o reino do céu; por ti nas pereginações de toda a Judéia e Galiléia, sempre a pé, e muitas vezes descalço, padeci fomes, sedes, pobrezas, sem ter lugar de descanso, nem onde reclinar a cabeça, por ti recebi ingratidões por benefícios, ódios por amor, perseguições por boas obras; por ti suei sangue; por ti fui preso; por ti fui afrontado; por ti esbofeteado; por ti cuspido; por ti açoitado; por ti escarnecido; por ti coroado de espinhos; por ti, enfim, crucificado entre ladrões, aberto em quatro fontes de sangue, atormentado e afligido de angústias e agonias mortais, e ainda depois de morto, atravessado o coração com uma lança. De tudo isto pedi por ti perdão a Deus, e o pago que tu me deste, foi não me perdoar tornando-me a crucificar tantas vezes, quantas gravemente pecaste, como te mandei declarar pelo meu apóstolo: Rursum crucifigentes Filium Dei. Se as gotas de sangue que derramei por ti, tiveram conta, nem de uma só me pudera dar boa conta, ainda que padeceras por mim mil mortes; mas os milhares e os milhões foram das vezes que pisaste o mesmo sangue, sacrificando o infinito valor e merecimento dele, aos ídolos do teu apetite.

Ainda em certo modo a maior dívida, a de que agora te pedirei conta é a da vocação. Reservei o saíres à luz deste mundo para o tempo da lei da graça; chamei-te à fé antes de me poderes ouvir, antecipou-se o meu amor ao teu uso da razão, e fiz-te meu amigo pelo batismo. Com o leite e doutrina da Igreja, te dei o verdadeiro conhecimento de mim, benefício que por meus justos juízos em quatro e cinco mil anos não concedi a tantos, e de que ainda nos teus dias careceram muitos. Não tiveste juízo, nem consideração, para ponderar e pasmar, de que tendo a minha justiça razões para condenar um gentio que me não conheceu, as tivesse minha misericórdia para perdoar a um cristão, que conhecendo-me, tanto me ofendia. Perdida a graça da primeira vocação, caíste, e tornei-te a chamar, e dar a mão, para que te levantasses; levantado tornaste a reincidir uma e tantas vezes, e eu, posto que tão repetidamente ofendido, e com tão continuadas experiências da pouca firmeza de teus propósitos, e falsidade de tuas promessas, não cessei de te oferecer de novo meus braços, e te receber sempre com eles abertos; até que infiel, rebelde, e obstinado, cerrando totalmente os ouvidos a minhas vozes, te deixaste jazer no profundo letargo da impenitência final. Dá agora conta de tantas inspirações interiores minhas, de tantos conselhos dos confessores e amigos, de tantas vozes e ameaças dos pregadores, que ou não querias ouvir, ou ouvias por curiosidade e cerimônia; e também ta pudera pedir, de eu mesmo te não chamar eficazmente na hora da morte, porque o desmereceste na vida.

Sete fontes de graça deixei na minha Igreja (que é o benefício da justificação) para que nelas se lavassem as almas de seus pecados, e com elas se regassem e crescessem nas virtudes. Em uma te facilitei em tal forma o remédio para todas as culpas, que só com as confessar te prometi o perdão, que tu não quiseste aceitar, fugindo da benignidade daquele sacramento como rigoroso, e amando mais as mesmas culpas, que estimando o perdão. Em outra te dei a comer minha carne e a beber meu sangue, e juntamente os tesouros infinitos de toda a minha divindade, em penhor da glória e bem-aventurança eterna, que foi o altíssimo fim para que te criei. Desprezaste o fim, não quiseste usar dos meios; e porque escolheste antes estar para sempre sem mim no inferno, que comigo no céu; tua é, e não minha, a sentença que logo ouvirás com os outros mal-aventurados: Ite maledicti in ignem aeternum.

XI

Aqui parou a conta das dívidas, que era a última e maior partida que só estava para as contas. E aqui virão a parar todos os que tão descuidados vivem de as dar boas naquele dia. ó dia de ira! ó dia de furor! ó dia de vingança! ó dia de amargura! ó dia de calamidade! ó dia de miséria! ó dia estupendo! ó dia tremendo! ó dia sobre toda a compreensão terrível! Assim lhe chamam, com horror, os clamores dos profetas, pela estreitíssima conta que nele se nos há de pedir a todos. E se tudo passa para a vida, e nada passa para a conta; que cegueira, e que insânia é a dos que todos seus cuidados empregam no que passa, sem memória nem cuidado do que não há de passar? Pode caber em entendimento com juízo, maior loucura, que trabalhar de dia e de noite um homem, e cansar-se, e desvelar-se e matar-se, pelo que passa com a vida, e há de deixar com a morte, e não ser o único cuidado e desvelo, tratar só da que há de levar consigo, e do que só se lhe há de pedir conta? Ouçam estes loucos a Santo Agostinho: Peccas propter pecuniam? hic dimittenda est. Peccas propter villam? hic dimittenda est. Peccas prapter mulierem? hic dimittenda est. Et quidquid est propter quod peccas, hic dimittis, et ipsum peccatum, quod committis, tecum portas. Pecas, homem, por amor do dinheiro? e cá há de ficar o dinheiro. Pecas por amor da herdade? e cá há de ficar a herdade. Pecas por amor da mulher, ou tua, ou não tua? e cá há de ficar a mulher. Mas havendo de ficar cá tudo aquilo por que pecaste, o que só hás de levar contigo é o pecado. Toda a matéria dos pecados cá há de ficar, porque passou com a vida, e só o pecado há de ir conosco, porque não passou para a conta.

Parece-me, que para desenganar a quem tem fé, basta a evidência destes pontos. O que só quisera alcançar de Deus, e pedir aos que me ouvirem, é que tomem este desengano enquanto vivem neste mundo, e não 0 guardem para o inferno. Descreve o Espírito Santo no livro da Sabedoria, uma prática que tiveram entre si no inferno os que lá foram, depois de ter gastado a vida em tudo o que passa com a mesma vida; e o que falavam, era desta maneira: Ergo erravimus a via veritatis, et sol intelligentiae non est ortus nobis. O certo é (diziam) que erramos o caminho, e que andávamos às escuras, e que em tantos dias quantos vivemos, nunca nos amanheceu a luz do sol. Quid nobis profuit superbia: que nos aproveitaram a soberba, e glória vã das honras do mundo? Divitiarum jactantia quid contulít nobís: de que nos serviu a jactância das riquezas? E os gostos, delícias e passatempos em que elas se consomem, de que nos aproveitaram? Todas essas coisas passaram como a sombra: Transierunt omnia illa tanquam umbra. Todas passaram como o correio, que sempre caminha, e não pára: Tanquam nuntius percurrens. Todas passaram como a nau que vai cortando as ondas, e depois que passou, se lhe não acha rasto: Et tanquam navis, quoe pertransit fluctuantem aquam; cujus, cum praeterierit, non est vestigium invenire. Todos passaram como a ave, que voando e batendo o leve vento, que corta, nem sinal deixa do seu caminho: Aut tanquam avis quoe transvolat in aere verberans levem ventum, et nullum signum invenitur itineris illius. Todas passaram como a seta despedida do arco ao lugar destinado, que dividindo o ar, o qual logo se cerra e une, não se pode conhecer por onde passou: Aut tanquam saggitta emissa in locum destinatum, divisus aere in se reclusus est, ut ignoretur transitus ilIíus . Agora, agora, conhecem bem no inferno, e não acham comparação, com que bastantemente declarar a suma velocidade com que todas as coisas passam, e com a mesma pressa (dizem) passamos nós, porque apenas nascidos logo deixamos de ser, e sem deixar sinal algum de virtude, em nossos próprios vícios nos consumimos: Sic et nos nati continua desivimus esse: et virtutis quidem nullum signum voluimus ostendere: in malignitate autem nostra consumpti sumus .

Isto conferiam entre si naquela triste e tarde desenganada conversação os miseráveis condenados, os quais para maior dor, levantando os olhos ao céu, e vendo lá gloriosos e triunfantes os que trataram mais da estreiteza da conta, que da largueza da vida: Paenitentiam agentes, et proe angustia spiritus gementes ; com vozes quelhes saíam do interior angustiado, e com arrependimento e gemidos, que já não aproveitavam , dicentes infra se, diziam entre si e consigo: que é o que diziam? Hi sunt quos habuimus aliquando in derisum, et in similitudinem impraperii. Aqueles são os de que nós zombávamos, rindo-nos dos seus escrúpulos de consciência, e das penitências e rigores com que mortificavam seus corpos, quando nós só tratávamos de regalar os nossos, e satisfazer nossos apetites; e agora vemos que eles foram os prudentes e sisudos, e nós os loucos e insensatos, pois eles, pondo os olhos no fim e no prêmio de que nós não fizemos caso, estão gozando da glória entre os santos, coma nós padecendo as penas entre os condenados: Nos insensati vitam illorum cestimabamus insaniam, et finem illorum sine hanare: ecce quomodo computati sunt inter filios Dei, et inter santos sor illorum est . Tais são as coisas que disseram, conclui o Espírito Santo, e tais os discursos que fizeram no inferno os maus quando lá se viram. Talia dixerunt in inferno hi qui peccaverunt . Vejamos agora, e consíderemos bem, o que por misericórdia de Deus ainda temos tempo e vida, se é melhor aproveitar deste desengano neste mundo, ou guardá-lo para o inferno, e se folgaremos no dia da conta de ter imitado os prudentes, que eternamente hão de gozar a vista de Deus no céu, ou acompanhar as insensatos, que hão de padecer as penas do inferno por toda a eternidade?

Sermão da Primeira Oitava de Páscoa

Na ocasião em que chegou a nova de se ter desvanecido a esperança das minas, que com grandes empenhos se tinham ido descobrir.
Qui sunt hi sermones, quos confertis ad invicem ambulantes, et estis tristes? Nos autem sperabamus quia ipse esset redempturus Israel (1).

§ I

A tragédia dos dois primeiros atos da famosa comédia de Páscoa. As lágrimas da Madalena, a tristeza dos discípulos de Emaús e o malogro da expedição em busca das minas. Assuntos do sermão: Muito melhor foi não se descobrirem as minas esperadas, que descobrirem-se; em lugar das minas incertas, que se não descobriram, descobrirá Deus outras certas, e muito mais ricas. Em um dia tão alegre como o de Páscoa, em que, pela gloriosa Ressurreição de Cristo, Redentor nosso, se revogou com a mesma glória a antiga sentença de morte fulminada contra Adão e Eva, digna coisa de admirar é que nem nas filhas de Eva, nem nos filhos de Adão, se achem efeitos de alegria. Amanheceu o sol neste formoso dia mais arraiado que nunca, acrescentando tantos raios a seus naturais resplendores, quantos tinha eclipsado e escondido no dia da Paixão: e que é o que achou no mundo o mesmo sol, ou quando nasceu no Oriente, ou quando se foi pôr no Ocaso? Quando nasceu achou a terra orvalhada das lágrimas da Madalena, como se ela fora a aurora daquele dia: Mulier, quid ploras (2)?

E quando se ia pôr, achou a tristeza dos dois discípulos de Emaús: Et estis tristes(3) – como se neles se multiplicara, coberta de sombras, a estrêla da tarde, ou Vésper: Quoniam advesperascit(4). Tão trágicos como isto foram os dois primeiros atos ou aparências desta famosa comédia!

Para eu vos declarar quão naturais fossem as causas de um e outro sentimento, não me é necessário ir buscar o exemplo mais longe, pois a fortuna nestes mesmos dias vo-lo trouxe a casa. Não é grande desconsolação buscar, e não achar? Pois essa era a desconsolação da Madalena e das outras Marias: Non invento corpore ejus(5). Não é bastante motivo de tristeza esperar, e não suceder o que se esperava? Pois essa era a causa por que os dois discípulos iam tristes: Non autem sperabamus(6). Enquanto os cuidados e esperanças se põem na terra, não podem faltar desconsolações e tristezas à terra. As Marias desconsoladas, porque não acharam o que buscavam debaixo da terra: Veniunt ad monumentum(7) – e os discípulos tristes, porque lhes não sucedeu o que esperavam para remédio da sua terra: Quia ipse esset redempturus Israel(8).

Tais considero, senhores, nesta ocasião, ou tais são, ainda que se não considerem, as causas que parece nos fizeram menos alegres estas páscoas, as quais eu desejo a todos, e para todos peço a Deus tão liberais dos bens do céu, e também dos que não são do céu, quando o mesmo Senhor sabe que nos convém. Foram-se buscar debaixo da terra as minas de ouro ou prata, e, não se tendo achado depois de tanto trabalho, assim como as Marias se desconsolaram de verem malogradas as suas diligências, as suas prevenções, e ainda as suas despesas: Emerunt aromata(9) - assim confesso vos pode desconsolar o muito que nesta infeliz jornada se tem gasto de tempo, de cuidado e de fazenda. E assim como os discípulos iam tristes por ver baldadas e perdidas as esperanças, com que desejavam ver melhorada a sua pátria e restaurado o seu reino: Quia ipse esset redempturus Israel - assim vos concedo que é para entristecer e sentir não se ter conseguido a opulência própria, e da monarquia, que das mesmas minas desvanecidas, com tanto boato se esperavam. É, contudo, tão bom consolador Cristo, e tão apressado, que na mesma manhã enxugou as lágrimas das Marias, e na mesma tarde serenou a tristeza dos discípulos, como eu também determino aliviar a vossa hoje.

Resumindo-se, pois, à história do Evangelho, que, sendo sucedida ontem, reservou a Igreja para este segundo dia, dois afetos ou duas paixões naturais do ânimo consolou ou curou Cristo, Senhor nosso, nos dois discípulos de Emaús: a tristeza declarada e a esperança perdida: a tristeza declarada: Et estis tristes; a esperança perdida: Nos autem sperabamus. E sendo estes os mesmos dois afetos com que os corações da nossa cidade se acham menos quietos e satisfeitos, assim como o Senhor, mostrando-se vivo aos discípulos, sepultou a sua tristeza e ressuscitou a sua esperança, assim eu, para consolar uma e alentar outra, vos mostrarei vivamente duas verdades. A primeira, que muito melhor vos esteve não se descobrirem as minas esperadas que descobrirem-se. A segunda que, em lugar das minas incertas, que se não descobriram, vos descobrirá Deus outras certas, e muito mais ricas. Ambos estes assuntos parecem temporais, como também eram por causas temporais a tristeza e desesperação dos dois discípulos à ida; mas nem por serem temporais deixou de as consolar o divino Mestre, para as converter a elas e a eles em espirituais, como tornaram à volta. O mesmo pretendo eu com a graça do céu, que me ajudareis a alcançar: Ave Maria.

§ II

Nos autem sperabamus: Esperávamos de ter minas, e estamos desenganados de que as não há. Muitas vezes está a nossa perdição em sucederem as coisas como esperamos. Maldição de Jó à noite. O ouro e a prata as mais das vezes são como os dois cabritinhos de Jacó, com que enganou ao pai cego para levar a benção de Esaú.

Qui sunt hi sermones, quos confertis ad invicem ambalantes, et estis tristes?

Que práticas são estas que ides conferindo entre vós, e de que estais tristes? - Esta foi a pergunta que fez Cristo, Redentor nosso, aos dois discípulos que iam de Jerusalém para Emaús. E se eu fizesse a mesma no nosso Belém, e perguntasse às vossas conversações por que estais tristes, é certo que me havíeis de responder como eles responderam: Nos autem sperabamus: Esperávamos de ter minas, e estamos desenganados de que as não há, ou esperávamos que se descobrissem, e não se descobriram. E se eu instasse mais em querer saber o discurso ou conseqüência com que sobre este desengano fundais a vossa tristeza, também é certo havíeis de dizer, como eles disseram, que no sucesso que se desejava e supunha, estavam livradas as esperanças da redenção, não só desta vossa cidade, e de todo o Estado, senão também do mesmo Reino: Nos autem sperabamus quia ipse esset redempturus Israel. Ora, ouvi-me atentamente, e - contra o que imagináveis, e porventura ainda imaginais - vereis como nesta, que vós tendes por desgraça, consistiu a vossa redenção, e de quantos trabalhos, infortúnios e cativeiros vos reuniu e vos livrou Deus em não suceder o que esperáveis.

Primeiramente, havemos de supor que muitas vezes está a nossa perdição em sucederem as coisas como esperamos, e, pelo contrário, está o nosso remédio e a nossa conservação em não terem o sucesso que se pretendia. Em uma maldição muito encarecida de Jó, temos o mais claro e mais notável espelho que se pode imaginar desta verdade: Pereat nox, in qua dictum est: Conceptus est homo! Expectet lucem, et non videat, nec ortum surgentis aurorae (Jó 3, 3. 9): Maldita seja a noite em que fui concebido - diz Jó; - espere pela luz, e nunca amanheça; espere pela aurora, e nunca venha. - Parecer-vos-á - como pareceu a quem o disse - que esta era a maior desgraça que podia suceder à noite, e a maior praga que se lhe podia rogar, mas, bem considerando o caso, não era senão a maior dita e a maior ventura. O maior inimigo que tem a noite é a aurora: enquanto não amanhece, conserva-se e persevera a noite; tanto que amanheceu, ficou acabada e perdida. Logo, aquela que parecia maldição não era maldição, antes era o maior bem, a maior felicidade que se podia desejar e imprecar à noite, porque, se a noite esperasse pela manhã, em lhe suceder, como esperava, estava a sua perdição e o seu fim, e em lhe não suceder, como esperava, estava a sua conservação, o seu aumento e o seu ser.

O mesmo digo, senhores, da esperança das vossas minas, a qual eu nunca tive por bem fundada, e, perguntado, assim o disse. Lá se mostrou ouro e prata, mas estes dois metais as mais das vezes são como os dois cabritinhos de Jacó, com que enganou ao pai cego para levar a bênção de Esaú (10). Disse Jacó que o guisado que presentava ao pai era da caça, e ele não era do mato, senão do rebanho. Assim é o ouro e prata que lá levam: dizem que foi cavado da beta, e ele é fundido da bolsa. Por isso as minas não são minas para quem faz as despesas, e só são minas, como a bênção de Jacó, para os mesmos que as fingiram, e vêm ricos de mercês e salários, e cheios de jurisdições e onipotência, com que se fazem mais ricos. Mas, ou se não descobrissem as minas, porque as não há, ou porque, havendo-as, não quis Deus que se descobrissem, vede de quantos perigos e trabalhos vos remiu e livrou a misericórdia e providência divina em não suceder este descobrimento como esperáveis!


§ III

O que sucede ao campo que esconde tesouros. Em que param as amizades, as pazes e as confederações em havendo descobrimento de tesouros. Conselho das nações de Gog e Magog contra os hebreus. Advertência de Jeremias. Os tesouros de Ezequias e a cobiça dos babilônios. As minas de ouro e prata de Espanha e a conquista romana.

E para que comecemos pelos perigos que podem vir de fora e de mais longe, se este Estado, sem ter minas, foi já tão requestado e perseguido de armas e invasões estrangeiras, que seria se tivesse esses tesouros? Lá traz Cristo, Senhor nosso, a comparação de um campo, que era cultivado somente na superfície da terra, fértil de flores e frutos, porém, sabendo um homem, acaso, que no mesmo campo estava enterrado e escondido um tesouro: Thesauro abscondito in apro (Mt 13, 44) - o que fez com todo o segredo e diligência foi ir logo comprar o campo a todo custo, e deste modo ficou senhor, não do campo por amor do campo, senão do campo por amor do tesouro. De sorte que toda a desgraça do campo em mudar de senhorio, e passar de um dono a outro dono, esteve em ter tesouro dentro em si, e saber-se que o tinha. Contentemo-nos de que nos dêem os nossos campos pacificamente o que a agricultura colhe da superfície da terra, e não lhes desejemos tesouros escondidos nas entranhas, que espertem a cobiça alheia, principalmente quando os mesmos campos não estão cercados de tão fortes muros que lhe possam facilmente defender entrada.

Conta a Sagrada Escritura, no capítulo trinta e oito de Ezequiel - ou seja história do passado, ou profecia do futuro - que, sabendo as nações de Gog e Magog que os hebreus viviam ricos e descansados nas suas terras, fizeram conselho entre si de os irem conquistar, fundando esta deliberação em dois motivos: o primeiro, que tinham ouro e prata; o segundo, que não tinham muros. Um motivo os excitou à conquista, e outro lha facilitou. O que os excitou foi o ouro e a prata: Ecce ad diripiendam praedam congregasti multitudinem tuam, ut tollas argentum et aurum(11) - e o que os facilitou foi serem terras habitadas, sem muros nem fortificações: Ascendam ad terram absque muro; vectes, et portae non sunt eis(12). E terras que têm ouro e prata, e não têm muros fortes que as defendam, naturalmente estão expostas à cobiça e invasão dos inimigos, porque o ouro e a prata que têm, excita a cobiça, e os muros e fortificações que não têm, facilitam a invasão.

É verdade que os hebreus naquele tempo estavam muito seguros com a paz das outras nações, e já livres de suas armas: Ad terram, quae reversa est a gladio ad quiescentes, habitantesque secure(13). Mas esta segurança é muito enganosa. Onde há nova ocasião de interesse, não há confederação que dure. Ouvi um dito notável de Jeremias: Nunquid foederabitur ferram ferro ab aquilone, et aes (Jer 15, 12)? Cuidais que o ferro do norte - do norte diz nomeadamente: ab aquilone - cuidais que o ferro do norte se pode confederar com outro ferro, e o seu bronze com outro bronze? – Enganais-vos - diz o profeta àqueles com quem falava - e o mesmo vos certifico eu, sem ser profeta. Livrou-vos Deus da prata, porque vos quis livrar do ferro. A arte, com a prata, liga os outros metais; e a cobiça, com a prata, desfaz e rompe todas as ligas.

Confederados estavam os israelitas com os babilônios, e era tanta a amizade e boa correspondência entre um e outro rei, que Baradac, rei de Babilônia, soberbíssimo e potentíssimo, sabendo que Ezequias, rei de Israel, tinha convalescido daquela grave enfermidade em que esteve à morte, lhe mandou embaixadores com grandes presentes a lhe dar o parabém da saúde. Quis-se mostrar agradecido Ezequias, e, em sinal de benevolência e confiança, levou os mesmos embaixadores ao mais secreto do seu palácio, e ali lhes descobriu e manifestou todos os seus tesouros. Ele e eles ficaram mui satisfeitos; mas não eram passadas vinte e quatro horas, quando Deus mandou anunciar a Ezequias as perigosas e tristes conseqüências daquele descobrimento: Ecce dies venient, et auferentur omnia, quae in domo tua sunt, et quae thesaurizaverunt patres tui usque ad diem hanc, in Babylonem; non relinquetur quidquam, dicit Dominus. Et de filiis qui exibunt de te, quos genueris, tollent, et erunt eunuchi in palatio regis Babylonis (Is 39, s): E vós, Ezequias, fostes tão inconsiderado, que manifestastes os vossos tesouros aos embaixadores de Babilônia? Pois sabei, diz Deus, que os babilônios os virão buscar, e não só se farão senhores dos mesmos tesouros, sem deles deixar coisa alguma, senão que até a vossos próprios filhos cativarão e levarão presos a Babilônia, para lá se servirem deles.- Eis aqui em que param as amizades, as pazes e as confederações, em havendo descobrimento de tesouros. Dai graças a Deus de se frustrarem as vossas esperanças, e não lhe sejais ingratos com vos entristecer, pois assim vos quis livrar de tamanhos perigos.

Se em Espanha não houvera minas de ouro e prata - das quais, diz Estrabo, que eram as mais ricas do mundo - nunca os romanos iriam a lhe fazer guerra de tão longe, nem com tanto empenho e pertinácia. Assim o dá a entender a mesma Escritura Sagrada no primeiro livro dos Macabeus, referindo as conquistas dos romanos e a fama das suas vitórias: Et quanta fecerunt in regione Hispaniae, et quod in potestatem redegerunt metalla argenti et auri, quae illic sunt(14). Não diz que conquistaram os homens, senão as minas, porque as minas foram o motivo da guerra e da conquista. Como a gente de Espanha era tanta, tão remota e tão forte, gastou a potência romana na pertinência desta conquista duzentos e trinta e cinco anos – vede se serão cá necessários tantos! – até que finalmente a terra, as minas e os moradores, ficaram todos sujeitos ao jugo e domínio estranho, presidiados de suas legiões, tributários à sua cobiça, governados e oprimidos da sua tirania, e o mesmo ouro e prata – que, como diz o Espírito Santo, muitas vezes é redenção do homem – para eles foi a causa da servidão, e o reclamo que chamou de tão longe e lhes meteu em casa o cativeiro.


§ IV

Um dos maiores castigos que Deus podia dar ao Maranhão era descobrirem-se nele minas. Quais são os escondidos de Deus, de que fala Davi? As minas e seus descobrimentos são castigos escondidos debaixo de aparências contrárias. As minas do Cabo de S. Vicente, o promontório sagrado, sepulcro de Tubal e de Hércules.

Mas, dado que as minas tão esperadas e apetecidas não tivessem, por conseqüência de sua fama, estes perigos de fora, bastava a consideração dos trabalhos e misérias domésticas, que com elas se vos haviam de levantar de debaixo dos pés, para que o vosso juízo, se o tivésseis, tratasse antes de sepultar as mesmas minas depois de achadas, que procurar de as desenterrar e descobrir, ainda que foram muito certas. Um dos maiores castigos que Deus podia dar a esta cidade, e a este Estado, era descobrirem-se nele minas. E não sou eu o que o digo, senão a prudência e verdade de quem se não podia enganar.

No Salmo dezesseis pede Davi a Deus lhe faça justiça, e dê a seus inimigos o castigo que merecem, pela desumanidade de feras com que perseguiam sua inocência. E, depois de dizer que Deus tinha ouvido sua petição, profetiza o castigo que o justo Juiz havia de dar aos mesmos inimigos; e como se já lhos tivera dado, refere-o assim em poucas palavras: De absconditis tuis adimpletus est venter eorum (Sl 16, 14): Fartastes, Senhor, a sua fome, com os encher dos vossos escondidos. - Entram agora os intérpretes a examinar quais são os escondidos de Deus. E o sentido mais próprio e mais literal, com Símaco e outros, é que os escondidos de Deus são as minas de ouro e prata. O ouro e a prata tem-nos Deus escondidos lá no profundo da terra, onde os criou, e quando o mesmo Senhor é servido que se descubram as minas, então aparecem e se manifestam estes escondidos de Deus: De absconditis tuis. - Mas se Davi tinha pedido a Deus que lhe fizesse justiça, e castigasse a seus inimigos, e o mesmo Deus lhe tinha prometido de o fazer assim e de os castigar, como diz que lhes há de descobrir o ouro e a prata que tem escondidos nas minas, e os há de fartar delas: De absconditis tuis adimpletus est venter eorum? - Mais apertadamente ainda. Neste salmo, que todo é profético, assim como na pessoa de Davi é figurado Cristo, assim nas perseguições de Davi são significadas a crueldade e ingratidão com que Cristo foi tratado em vida por seus inimigos, e as maldades e pecados com que ainda hoje é desacatado e ofendido. Pois, em prêmio dessas ofensas, dessas maldades e desses pecados descobre Deus os seus tesouros que tem escondidos debaixo da terra, e enche e farta de ouro e prata aos que estão famintos de minas? Sim, porque essas minas que tanto se desejam e estimam, ordinariamente não as descobre, nem as dá Deus por merecimentos, senão em castigo de grandes pecados. Ouvi o comento de todos os padres gregos sobre o mesmo texto, divididos em duas opiniões, mas ambas concordes no que tenho dito: Illud autem de absconditis, alii quidem intellexerunt de suppliciis, alii vero de fussilibus metallis (15): Aqueles que o profeta chama os escondidos de Deus, uns dos santos padres entenderam que significam castigos, e outros que significam minas - e uns e outros não discrepam, mas concordam admiravelmente na mesma diferença de um e outro sentido. Por quê? Porque as minas, quando Deus as descobre, são castigos; e um dos maiores castigos que Deus dá por pecados é o descobrimento de minas: De metallis fussilibus, de supliciis.

E notai a misteriosa propriedade com que este gênero de castigos se chamam também os escondidos de Deus: De absconditis tuis - porque Deus umas vezes castiga com castigos manifestos, e outras vezes com castigos escondidos. Os castigos manifestos são os que todos temem e reconhecem por castigos, como são as fomes, as pestes, as guerras, e outras calamidades temporais; os castigos escondidos e ocultos são aqueles que não se reputam nem temem como tais, antes se estimam e desejam como felicidades e boas fortunas: e deste gênero são as minas e seus descobrimentos. São castigos escondidos debaixo de aparências contrárias, porque se apetecem, estimam e festejam enganosa e enganadamente, sendo certo que debaixo do preço e esplendor do ouro e prata se ocultam e escondem grandes trabalhos, aflições e misérias, com que a justiça divina, por pecados, quer castigar e açoitar as mesmas terras onde as veias destes metais se descobrem. Deus tanto pode açoitar com varas de ferro, como com varas de ouro e de prata; antes estes açoites são muito mais pesados, quanto a prata e ouro pesam mais que o ferro.

Aquela ponta de terra montuosa, que hoje chamamos Cabo de S. Vicente, antigamente se chamava Promontório Sagrado, por estar ali o sepulcro de Tubal, primeiro pai da nossa nação, e também o de Hércules, um dos mais famosos e amados reis da Lusitânia. Havia minas neste promontório, as quais, por causa da mesma veneração, também era vedado cavarem-se; e dizem as histórias daquele tempo que só em um caso se permitia aos moradores aproveitarem-se do ouro e da prata das ditas minas. Mas qual era este caso? Coisa verdadeiramente admirável, e muito digna de se notar. O caso era quando caía do céu algum raio que penetrasse a terra, e descobrisse os preciosos metais que nela estavam escondidos. De sorte que naquela terra, também nossa, o abrirem-se minas e o caírem raios do céu, tudo vinha junto, como se o céu nos pregara que o descobrimento de minas na terra não são felicidades e boas fortunas, como se imagina, senão execuções da ira de Deus, e castigos do céu.


§ V

Os martírios e horrores das minas de Potosi. Os anacoretas das minas de ouro e prata. Quais haviam de ser enterrados vivos naquelas furnas caso se descobrissem as minas? A pior de todas as ameaças: os ministros reais e quantos oficiais de justiça, de fazenda e de guerra que viriam, mandados ao Maranhão, para extração, segurança e remessa do ouro e da prata.

E para que vos não pareça que são isto encarecimentos lenitivos, inventados para divertir a tristeza, e dar espécie à consolação, troquemos este ouro e prata em miúdos, e vejamos os proveitos e interesses que do descobrimento de minas haviam de resultar à vossa terra, no caso em que se tivessem achado. Eu nunca fui ao Potosi, nem vi minas, porém nos livros que descrevem o que nelas passa, não só causa espanto, mas horror, ler a fábrica e as máquinas, os artifícios e a força, o trabalho e os perigos com que as montanhas se cavam, e as betas se seguem, e, perdidas, se tornam a buscar; os encontros de pedernais impenetráveis, ou de águas subterrâneas, que rebentam das penhas, as quais ou se hão de esgotar com bombas, ou abrir-lhes novo caminho, furando por outra parte os mesmos montes; o estrondo dos maços, das cunhas, das alavancas, e dos outros instrumentos de ferro, alguns dos quais têm cento e cinqüenta libras de peso, com que se batem, cortam e arrancam as pedras, ou se precipitam com maior perigo do alto: e tudo isto naquelas profundíssimas concavidades, ou infernos, onde nunca entrou o raio do sol, alumiados malignamente aqueles infelizes ciclopes só com a luz escassa e contrafeita de alguns fogos artificiais, cujo hálito, fumo e vapor ardente lhes toma a respiração, e muitas vezes os afoga.

Faz aqui padecer a cobiça muito mais do que profetiza Isaías que fará em algum tempo a penitência: Introibunt in speluncas petrarum, et in voragines terrae; projiciet homo idola argenti sui, et simulacra auri sui, quae fecerat sibi ut adoraret, talpas et vespertiliones (Is 2, 19 s): Meter-se-ão os homens pelas covas e pelas concavidades mais profundas da terra, não para buscar ouro ou prata, mas, abominando e lançando de si os ídolos, que do ouro e da prata tinham feito, toupeiras e morcegos. - Vede agora estas mesmas figuras como as ajunta e introduz toda a cobiça neste escuro e horrendo teatro da paciência sem virtude. Ali os penitentes arrependidos entram pelas grutas e concavidades da terra; aqui os cobiçosos e enganados também se metem, não pelas covas que a terra tem aberto, senão pelas que eles cavam e rompem à viva força, muito mais penetrantes e profundas. Ali desprezam-se os ídolos de ouro e prata, conhecida sua mentira e vaidade; aqui, estima-se e adora-se tanto a mesma vaidade que, por novos e ocultos caminhos de tantos estádios, se vai buscar e desenterrar o ouro e prata, para se fundirem e lavrarem ídolos. Ali as figuras dos ídolos são toupeiras e morcegos: talpas et vespertiliones - e aqui os homens, desfigurados como toupeiras, vivem debaixo da terra, sem ter olhos para ver a luz, e como morcegos fogem do sol e do dia, e se vão mais sepultar que viver naquela escura e perpétua noite. Ainda tem outra propriedade, porque uns, como toupeiras, com os pés e mãos na terra andam cavando, revolvendo e mudando continuamente, e outros, como morcegos suspensos no ar, estão picando as pedras e sangrando as suas veias com o corpo e com a vida pendente de uma corda. Houve jamais algum anacoreta, dos que habitavam as covas, que fizesse tal penitência? Pois ainda não ouvistes o mais temeroso dela.

Solapadas por baixo aquelas grandes montanhas, todo o peso imenso delas se sustenta sobre pilares da mesma matéria, que vão deixando a espaços, os quais, se enfraquecem ou quebram, como acontece muitas vezes, qual é o efeito? Toda a montanha, ou grande parte dela, cai de repente, e a multidão que andava desenterrando a prata, fica sepultada com ela, em um momento, sem outra notícia de tamanho e tão miserável estrago, que a que deu aos de muito longe o estrondo da ruína, e o tremor de toda a terra. Isto é o que se escreve, e se escreve muito menos do que verdadeiramente é. Baste, por prova, que a sevícia e crueldade dos Neros e Dioclecianos comutavam a morte e os tormentos dos cristãos em os mandar servir e trabalhar nas minas, e a Igreja, que com tanta dificuldade e consideração examina e avalia os merecimentos dos santos, canonizava e venerava por mártires aos que nelas acabavam a vida.

Agora vos pergunto eu: e estes martírios das minas, se as vossas se descobrissem, quem os havia de padecer? Dos degradados não falo, porque os que hoje se degradam para o Maranhão, então se haviam de degradar todos, e muitos mais para as minas. Os cavadores não seríeis os mais nobres e ricos da terra, mas quem haviam de ser senão os seus escravos? Quem havia de induzir todos aqueles instrumentos e máquinas por esses sertões dentro? Quem havia de contribuir o sustento, e levá-lo aos trabalhadores? Quem havia de cortar e acarretar àquelas serras estéreis - como são todas - as lenhas para as fornalhas e fundições? E aqueles lumes perpétuos e subterrâneos, com que óleos se haviam de sustentar, senão com os dos frutos agrestes que aqui se estilassem, e não com os dos olivais que de lá viessem? Sobretudo, se tantos milhares de índios se têm acabado e consumido em tão poucos anos, e com tão leve trabalho, como o das vossas lavouras, onde se haviam de ir buscar outros, que suprissem e suportassem quanto tenho dito? E quais haviam de ser os que, vendo-se enterrados vivos naquelas furnas, não fugissem para onde nunca mais aparecessem, levando o mesmo medo com eles aos demais? Tudo isto não o haviam de fazer nem padecer os que passeiam em Lisboa, porque também estas minas são como as da pólvora, que sempre arruinam, derrubam e põem por terra o que lhes fica mais perto. E isto é o que vós desejáveis para a vossa, e vos entristece, porque não sucedeu como esperáveis?

Ainda falta por dizer o que mais vos havia de destruir e assolar. Quantos ministros reais, e quantos oficiais de justiça, de fazenda, de guerra, vos parece que haviam de ser mandados cá, para a extração, segurança e remessa deste ouro ou prata? Se um só destes poderosos tendes experimentado tantas vezes que bastou para assolar o Estado, que fariam tantos? Não sabeis o nome do serviço real - contra a tenção dos mesmos reis - quanto se estende cá ao longe, quão violento é, e insuportável? Quantos administradores, quantos provedores, quantos tesoureiros, quantos almoxarifes, quantos escrivães, quantos contadores, quantos guardas no mar e na terra, e quantos outros ofícios de nomes e jurisdições novas se haviam de criar ou fundir com estas minas, para vos confundir e sepultar nelas? Que tendes, que possuís, que lavrais, que trabalhais, que não houvesse de ser necessário para serviço de el-rei, ou dos que se fazem mais que reis com este especioso pretexto? No mesmo dia havíeis de começar a ser feitores, e não senhores de toda a vossa fazenda. Nem havia de ser vosso o vosso escravo, nem vossa a vossa canoa, nem vosso o vosso carro e o vosso boi, senão para o manter e servir com ele. A roça haviam-vo-la de embargar para os mantimentos das minas; a casa haviam-vo-la de tomar de aposentadoria para os oficiais das minas; o canavial havia de ficar em mato, porque os que o cultivassem haviam de ir para as minas; e vós mesmo não havíeis de ser vosso, porque vos haviam de apenar para o que tivésseis ou não tivésseis préstimo, e só os vossos engenhos haviam de ter muito que moer, porque vós e vossos filhos havíeis de ser os moídos.

§ VI

A proposição de Horácio: o ouro é melhor não se achar nem se descobrir que achar-se. As coisas naturais, enquanto estão no seu próprio lugar, em que as situou a natureza, nenhum dano fazem. Enquanto no mundo não houve ouro, então foi a Idade de Ouro: depois que apareceu o ouro no mundo, então começou a Idade de Ferro. Que quer dizer o Gênesis quando diz que no princípio do mundo a terra estava vazia e vazia? Se na doação universal dos bens do Paraíso, Deus entrega como por lista a Adão todas as outras coisas, as minas de ouro e prata por que deixa de fora? O ouro e a prata, pedra de toque dos homens. Plínio e a felicíssima idade em que as coisas se contavam umas por outras: Os discípulos de Cristo e o perigo do dinheiro.

Parece-me que vos vejo dar assenso a tudo o que digo - que por isso desci a coisas tão particulares e domésticas - e também creio que já vossa esperança terá mudado de conceito à vista deste descobrimento de minerais, tão diversos do que ela desejava e supunha, os quais é certo que haviam de ser maiores e mais duros na experiência, do que os pode representar o meu discurso. Fique, logo, por conclusão que muito maior mercê vos fez Deus, e muito mais bem afortunados fostes em não se acharem as minas, que se o ouro e prata, que se supunha e esperava delas, se descobrisse. Ouvi a sentença de um gentio, fundado só na razão natural e experiência, sem nenhum princípio de fé, que a nós nos devia levantar mais da terra: Auram irrepertum, et sic melius situm cum terra celat: O ouro - diz Horácio - é melhor não se achar nem se descobrir, que achar-se: auram irrepertum. E por que? Porque, enquanto a terra o esconde e encobre: cum terra celat - está ele no sítio e lugar que lhe deu a natureza, que é o melhor: et melius situm. - Excelente razão. As coisas naturais, enquanto estão no seu próprio lugar em que as sitiou a natureza, nenhum dano fazem; tiradas dele, são muito danosas. A água no seu centro não pesa; o fogo na sua esfera não queima; a terra, se sobe ao ar, faz raios; o ar, se se mete debaixo da terra, faz terremotos, derruba casas e cidades; assim também o ouro e prata das minas. Enquanto estão escondidos lá no centro da terra, onde as pôs a natureza, conservam-se inocentes, e não fazem mal a ninguém; mas se se cavam e se tiram fora, então são muito perniciosas, e fazem grandes estragos. Olhai para o passado, se vos não quereis enganar com o presente.

Aquela idade dourada, tão célebre nos primeiros tempos, quem a fez? Parece que a havia de fazer o ouro, e não a fez o ouro que havia, senão o ouro que não havia, porque ainda se não tinha descoberto. Enquanto no mundo não houve ouro, então foi a Idade de Ouro: depois que apareceu o ouro no mundo, então começou a Idade de Ferro: Jamque nocens ferrum, ferroque nocentius aurum prodierat( * ). O que era necessário e útil para a vida e conservação dos homens, notou Sêneca, Demócrito, e ainda o mesmo Epicuro, que o pôs a natureza muito perto de nós, e muito descoberto e patente, como são as plantas, os frutos, os animais, pelo contrário, o que não só era inútil, mas pernicioso, pô-lo muito longe de nós, oculto e escondido, onde o não víssemos: e este é o ouro e a prata. Houve-se em tudo a natureza como mãe. A mãe dá a maçã ao filhinho, e esconde-lhe a faca. Por que? Porque quer que coma, mas não quer que se fira, e se o menino chora pelo que o há de ferir, não é justo que os homens de razão e de juízo tenham sentimento de meninos.
Esta mesma doutrina, como tão necessária – porque não cuideis que é só de filósofos – foi a primeira que nos ensinou a Sagrada Escritura logo no princípio do mundo: In principio creavit Deus caelum et terram. Terra autem erat inanis et vacua. (Gên 1, 1 s): No princípio criou Deus o céu e a terra; porém a terra estava vazia e vazia. – E que quer dizer que a terra estava vazia e vazia: inanis et vacua? Quer dizer que estava vazia por dentro e vazia por fora: vazia por dentro: inanis – porque ainda não tinha Deus criado no interior da terra os minerais; e vazia por fora: et vacua – porque também não tinha criado na superfície da mesma terra as plantas, as árvores e os animais. Criou, pois, Deus todas estas coisas naqueles primeiros seis dias, e, fazendo a Escritura muito particular e miúda relação das plantas, das árvores e dos animais, das minas e dos metais não faz menção alguma. Pois, se a Escritura tinha dito que a terra, em sua primeira criação, nascera vazia por dentro e por fora, e relata com tanta distinção e engrandece com tanto aparato como Deus a encheu e povoou por fora, por que cala totalmente, e não diz como a encheu e enriqueceu por dentro? Mais. Depois que Deus teve criado todas as coisas, e o homem, que foi a última, mostrou-lhe as ervas, as plantas, as árvores e seus frutos, e disse-lhe: - Eis aqui toda esta variedade, a qual criei, e vos dou para vosso sustento e regalo. – E fazendo vir diante do mesmo Adão todos os animais, disse-lhe da mesma maneira: - Também de todos estes vos dou o domínio, os quais criei para que vos ajudem e sirvam. – Agora cuidava eu que havia que acrescentar o Senhor: E não só tenho provido e aparelhado, para vosso sustento, serviço e conservação, todas estas coisas que vedes na superfície da terra, mas também lá no centro e entranhas dela, criei muitas minas de metais preciosos, para maior riqueza, grandeza e utilidade vossa, e de vossos descendentes. Mas nada disso disse Deus: tudo passou em silêncio, sem fazer das minas a menor insinuação. Pois, se Deus nesta doação universal entrega, como por lista, a Adão todas as outras coisas que tinha criado para ele, as minas de ouro e prata, que parecia – como hoje parece – que era a melhor e mais rica partida de todas, por que as deixa de fora? Porque todas as outras coisas que estão à face da terra, e o domínio e uso delas, era útil e necessário ao homem para sua conservação e sustento, e ainda para seu regalo; porém as minas, o ouro e a prata, não só não eram necessários nem úteis, mas supérfluos e perniciosos, e ocasião que lhe podia e havia de ser de gravíssimos danos. Por isso, assim como as tinha sepultado e escondido debaixo da terra, assim lhe escondeu e encobriu também a notícia delas, passando totalmente em silêncio, e não fazendo menção de tal coisa.

Mas vejo que me perguntam os curiosos, e me argúem os críticos: se as minas eram tão danosas e perniciosas ao homem, e por isso lhas escondeu e encobriu Deus, por que as criou, ou para que? Para responder a esta pergunta, faço-vos primeiro outra. E a Arvore da Ciência que foi a ocasião e origem de todos os males do mundo, por que a criou Deus no paraíso? Ou aquela árvore era boa ou má - como argumenta Santo Agostinho. - Se era má, para que a plantou Deus? Se era boa, para que a proibiu? Ameaça ao homem com a morte se comer daquele fruto, e pinta o mesmo fruto com tais cores, que levava após si os olhos- Pulchrum oculis, aspectaque delectabile(16)? Sim. Porque aquele fruto tão formoso não foi criado para que Adão comesse ou provasse dele, senão para que Deus tentasse a Adão, e o provasse com ele. E esta é também a razão por que Deus criou o ouro e a prata, e lhes deu tanta formosura de cores. Quílon, um dos sete sábios da Grécia, dizia que, assim como a pedra de toque prova o ouro e a prata, assim o ouro e a prata são a pedra de toque dos homens. Quereis provar quem são os homens? Tentai-os com ouro e com prata. Do ouro disse o Eclesiástico: Qui post aurum non abiit, probatus est in illo (17); e da prata disse Davi: Ut excludant eos, qui probati sunt argento.

E notai que o que nesta sentença ficou aprovado foi um só: Qui probatus est in illo - e os que ficaram reprovados e excluídos foram muitos: Ut excludant eos, qui probati sunt argento. Ora já que todos os dias pedimos a Deus que nos livre das tentações, ou que nos não meta nelas: Ne nos inducas intentationem – demos-lhe muitas graças, pois nos livrou desta, em que nós nos tínhamos metido.

E porque vos não fique a última desconsolação de não terdes com que bater moeda na vossa terra, saibam os que tanto a desejam e procuram que, posto que seja com boa tenção e bom zelo, é esta a maior traição que podem fazer à sua pátria. É possível que vos dê Deus uma terra tão abundante e tão fértil, que só com a comutação dos frutos e drogas dela vos sustentais e conservais há tantos anos, tão abastada e tão nobremente, sem haver nem correr nela dinheiro, e que desejeis e suspireis por dinheiro, sem o qual, e por isso mesmo, vos fez a vossa fortuna singulares no mundo? Plínio, que foi o homem que maior conhecimento teve de todo ele, entre outras muitas sentenças com que condena o uso do dinheiro, e louva o da comutação dos frutos naturais, diz estas notáveis palavras: Quam innocens, quam beata, imo vero et delicata esset vita, si nihil aliud quam supra terras concupisceret? Utinamque posset e vita totum abdicari aurum, ad perniciem vitae repertum, quantum feliciore aevo, cum res ipsae permatabuntur, inter se (18)? Quer dizer: que inocente, que bem-aventurada, e que deliciosa seria a vida dos homens, se eles se contentaram com o que nasce sobre a terra! Oxalá se pudera desterrar de todo o mundo o ouro descoberto para destruição da vida, e se trocaram os tempos e uso presente por aquela idade felicíssima, em que as coisas se comutavam uma por outras. – Até aqui o parecer daquele grande juízo, que ajuntou em si a ciência e compreensão de todos os séculos. E que, tendo-vos Deus feito mercê de que gozeis esta inestimável riqueza e felicidade natural, queirais abrir as portas a um inimigo tão universal e pernicioso como o dinheiro, que, no dia em que entrar na terra, vos há de empobrecer a todos de repente? Ouvi um caso admirável de Cristo, Senhor nosso, com seus discípulos.

Mandou-os o Senhor pregar pelo mundo, e proibiu-lhes nomeadamente que não tivessem ouro nem prata, nem levassem bolsa nem dinheiro consigo: Nolite possidere aurum, neque argentum, neque pecuniam in zonis vestris (Mt 10, 9). Vieram os discípulos da jornada, e fez-lhes o Divino Mestre esta pergunta: Quando misi vos sine sacculo, et pera, numquid aliquid defuit vobis (Lc 22, 35)? Quando vos mandei sem bolsa nem alforje, faltou-vos alguma coisa? – Responderam todos que nenhuma coisa lhe faltara: At illi dixerunt: nihil (Lc 22, 36). – Pois agora vos digo, replicou o Senhor, que quem tiver bolsa e dinheiro o leve consigo, e se tiver alforje, também: Sed nunc, qui habet sacculum, tollat similiter et peram (Lc 22, 36). – Com razão chamei a este caso admirável. Se Cristo tinha mandado aos discípulos sem bolsa nem dinheiro, e eles experimentaram e confessaram que nenhuma coisa lhes faltara, como depois desta experiência e desta confissão, lhes manda agora o contrário, e que levem dinheiro? Se eles tiveram dito que, por não levarem dinheiro, lhes tinham faltado muitas coisas necessárias à vida, então se seguia bem que o Senhor lho concedesse. Mas, tendo-lhes proibido o dinheiro, quando foram a primeira vez, e não lhes tendo faltado nada, agora lhes diz que o levem? Responde, depois de grandes admirações, S. João Crisóstomo. Cristo, Senhor nosso, queria exercitar seus discípulos na paciência, e que padecessem pobreza e falta do que lhes fosse necessário; e como quando foram sem dinheiro, nenhuma destas coisas lhes faltou, mandou-lhes que levassem dinheiro, para que tudo lhes faltasse. Ac si eis dixerit: hactenus cuncta vobis uberrine affluebant, nunc autem volo vos et inopiam experiri (19): Como se dissera o Senhor – diz Crisóstomo: - Até agora, sem dinheiro, tudo vos sobeja; pois agora quero que tenhais dinheiro, para que tudo vos falte, e sejais pobres. – Isto é o que querem, sem entender o que querem, os que desejam que entre e corra dinheiro nesta vossa terra. Se sem dinheiro, e só com uma comutação dos frutos naturais da terra, tendes abundantemente tudo o que é necessário para a vida, e muitos de vós o supérfluo, para que quereis dinheiro, senão para que tudo custe dinheiro, e, custando tudo dinheiro, todos sejais pobres? Benzei-vos desta tentação como da outra: lograi o que Deus vos deu tão abundantemente sobre a terra, e debaixo dela nem queirais minas, nem o que delas se bate.


§ VII

As minas, causa de opressão e ruína do Reino. Que utilidades se têm seguido à Espanha do seu famoso Potosi? Que faziam os rios de ouro do reinado de Salomão, provenientes das minas do Peru e do Brasil? Os magnetes atraem o ferro e os magnates o ouro.

Mas, antes que acabemos este ponto - com promessa de que o segundo será muito breve - não quero que me acuseis de pouco zeloso da opulência do Reino. E assim como vos tenho mostrado que as minas, no caso em que se descobrissem, seriam de grande dano, em particular para este Estado, assim acrescento agora que também para o mesmo Reino em geral antes haviam de ser de maior opressão e ruína, que de utilidade e aumento. E para que comecemos pelos exemplos mais vizinhos, que utilidades se têm seguido à Espanha do seu famoso Potosi, e das outras minas desta mesma América? A mesma Espanha confessa e chora que lhe não tem servido mais que de a despovoar e empobrecer. Eles cavam e navegam a prata, e os estrangeiros a logram. Para os outros é a substância dos preciosos metais, e para eles a escória. Lá disse Isaías, falando do Reino de Israel: Argentum tuum versum est in scoriam (20): e o mesmo se poderá dizer sem metáfora da prata de Espanha. Ainda, com mais doméstica propriedade, se lhe pode aplicar o dito do seu mesmo patrão, Santiago : Argentum vestrum aeruginavit(21) - pois a prata se lhe tem convertido em cobre, e a fama e opulência de tanto milhão em belhão.

E para que se não engane alguém com me dizer ou cuidar que a evidência deste mesmo exemplo nos servirá de doutrina e emenda, passemos a outro reino, ou a outro reinado mais sábio, qual foi, sem injúria dos presentes nem futuros, o de Salomão. Salomão, com a sua universal sabedoria, descobriu riquíssimas minas, e não outras, segundo opinião de graves autores, senão as mesmas deste Novo Mundo. As do Peru, que os espanhóis descobriram sem as buscar, e as do Brasil, que nós buscamos, e não descobrimos. Funda-se esta sentença no capítulo terceiro do segundo Livro dos Paralipômenos, onde, falando do ouro que daquelas partes vinha a Salomão, diz o texto hebreu: Aurum erat Paruaim (22). A qual palavra Paruaim é um nome do plural, cujo singular é Peru, com que vem a dizer o mesmo texto que aquele ouro se trazia de ambos os Perus, ou de um e outro Peru. Assim os declara Genebrardo, peritíssimo na língua hebraica: Aurum Paruaim in hebraeo appellatur quasi allatum ex utroque Peru(23). E daqui infere, como coisa evidente, que era tirado das minas deste novo Mundo: Quis non cernit novum hunc orbem nominari? E para que se veja que um destes Perus era o que hoje conserva o mesmo nome, e o outro este nosso, que chamamos Brasil - onde só podiam vir aportar as frotas de Salomão - diz o mesmo texto sagrado que uma das coisas novas, e nunca vistas na Ásia, que levavam as mesmas frotas, eram certos paus chamados ligna thyina, os quais, dizem os hebreus, citados por Tirino, que eram lignum Brasilium: pau do Brasil(24) . O Caldeu traslada coralium: coral, donde parece-lhe deram este nome pela semelhança da cor vermelha. Mas as obras, que o texto aponta se faziam deste pau, não podiam ser do que vulgarmente se chama Brasil, senão de outra madeira preciosa, das muitas que nele nascem.

Isto suposto - e não suposto também - ou fossem desta terra as minas de Salomão, ou de qualquer outra, vamos ao que rendiam, e em que se empregava, que é o que faz ao meu caso. O que traziam as suas frotas a Salomão, só em ouro, eram seiscentos e sessenta e seis talentos, que montam oito milhões, menos oito mil cruzados. Assim o conta pontualmente a Escritura: Pondus auri, quod afferebatur Salomoni per annos singulos, sexcentorum sexaginta sex talentorum auri(25). E não só traziam as frotas ouro, senão também muita prata, cuja quantidade era tão imensa na corte de Jerusalém, que, afirma a mesma Escritura, igualava às pedras da rua: Fecitque ut tanta esset abundantia argenti in Jerusalém, quanta et lapidum(26). Esta é a imensidade de ouro e prata que rendiam aquelas minas. Mas antes que vejamos em que todo este ouro e toda esta prata se gastava, deixai-me fazer um reparo, digno não só de admiração, mas de assombro e de pasmo.

Morto Salomão, sucedeu-lhe na coroa Roboão, seu filho, e a primeira proposta que lhe fizeram os povos juntos em cortes foi que tivesse piedade deles, e os aliviasse dos tributos com que estavam oprimidos em tempo de seu pai, porque eram insuportáveis. E chegou esta instância a termos tão apertados, e do cabo, que, não querendo Roboão condescender no que tão justamente pediam, das doze Tribos de que constava todo o reino, as dez lhe negaram a obediência e se rebelaram, e fizeram outro rei e outro reino, que nunca mais se sujeitou nem restituiu aos herdeiros de Salomão. Agora entra o meu reparo. Se o peso de ouro e a quantidade da prata que contribuíam as minas era tão excessiva - além dos direitos ordinários do reino, de que também faz menção a Escritura - com toda esta imensidade de tesouros, com todos estes rios de prata e ouro, que estavam sempre a correr: Per singulos annos - como não se aliviava a opressão dos vassalos, como se não levantavam ou diminuíam os tributos dos povos, antes cresciam e se multiplicavam ao mesmo passo, com tal excesso que os obrigavam a uma tal desesperação, e reduziram o reino a extrema ruína? Aqui vereis qual é o fruto das minas, e o que fazem esses rios de ouro e prata, trazidos de tão longe. Com as suas enchentes inundam a terra, oprimem os povos, arruinam as casas, destroem os reinos.

As causas naturais destes efeitos tão lamentáveis não são ordinariamente outras, senão as mesmas que precederam no reinado de Salomão. E quais foram estas? O luxo, a vaidade, a ostentação, a delícia, os palácios, as casas de prazer, as fábricas e máquinas esquisitas, e outras coisas tão notáveis como supérfluas, que chamavam à corte de Jerusalém os olhos do mundo, e vistas, desmaiavam a admiração, como aconteceu à rainha Sabá. As baixelas todas eram de ouro - porque da prata não se fazia caso - as mesas, e todas as outras alfaias, também de ouro, e, o que se não pudera crer, se o não referira a História Sagrada, até as lanças e escudos, em grande número, de ouro. Nestes monstros da vaidade - que sempre é maior que o poder - se consumiam aqueles imensos tesouros, e onde não chegavam os milhões das frotas, supriam os tributos dos vassalos. Quando as frotas haviam de partir, uns concorriam com o préstimo de suas artes para os aprestos, outros com as contribuições das suas herdades para os bastimentos, outros com o dinheiro amoedado para os soldos, outros com as próprias pessoas, embarcando-se forçados a uma tão dilatada, tão nova e tão perigosa navegação. E quando as mesmas frotas voltavam carregadas de ouro e prata, nada disto era para alívio ou remédio dos povos, senão para mais se encherem e incharem os que tinham mando sobre eles, e para se excogitarem novas artes de esperdiçar, e novas invenções de destruir. E se isto sucedia no reinado e governo de Salomão, vede se se pode esperar ou temes outro tanto, quando não forem Salomões os que tenham o governo!

Dos futuros condicionais e contingentes, ninguém é sabedor, senão Deus e os seus profetas. E assim não quero que me creiais a mim, senão a Isaías: Repleta est terra argento et auro, et non est finis thesaurorum ejus (Is 2, 7): Vejo a terra – diz Isaías - toda cheia de ouro e prata, e são tantos e tão grandes os seus tesouros que não têm fim. – Oh! ditosa e bem afortunada terra, em que não haverá já pobreza nem miséria, pois, estando toda cheia, a todos abrangerá a riqueza, e não haverá quem não tenha com que remediar a sua necessidade! Assim parece verdadeiramente. Mas vejamos se vê mais alguma coisa o profeta, e se é isto mesmo que nós inferimos. Vai por diante Isaías, e às palavras que tinha dito acrescenta as seguintes: Et repleta est terra ejus equis, et innumerabiles quadrigae ejus, et repleta est terra ejus idolis: opus manuum suarum adoraverunt (Is 2, 8): Depois de ver a terra cheia de ouro e prata, o que mais vi - diz o profeta – foi que a mesma terra estava cheia de cavalos, e que as suas carroças eram inumeráveis, e que os homens adoravam as obras de suas mãos, e faziam delas ídolos. - Eis aqui os aumentos que havia de ter o reino com os haveres que lhe prometiam as vossas minas. Encher-se-ia a terra de ouro e prata mas esse ouro e prata, posto que naturalmente desce para baixo, havia de subir para cima. Não havia de chegar aos pequenos e pobres, mas todo se havia de abarcar e consumir nas mãos dos grandes e poderosos, porque, como bem disse o outro, os magnetos atraem o ferro, e os magnates o ouro; e as obras pias em que esses tesouros se haviam de despender, eram, mais cavalos, e mais carroças, e mais galas, e mais palácios, e obras magníficas e ostentosas; e também haviam de ter parte nele os ídolos batizados, que lá se adoram, e que tantas vidas e fazendas têm destruído. E se estes eram os proveitos com que se havia de adiantar o reino no descobrimento das vossas minas , à custa da vossa fazenda, do vosso trabalho, da vossa opressão e do vosso cativeiro, vede se foi grande favor e providência do céu, que se não descobrissem, e se, tanto no particular como no geral, ia desencaminhada e errada a vossa esperança: Nos autem sperabamus.


§ VIII

Em lugar das minas incertas, que se não descobriram, descobrirá Deus outras certas e mais ricas. O milagre prometido por Cristo aos escribas e fariseus. Que foi buscar Cristo ressuscitado nas concavidades escuras e subterrâneas do interno? O que disseram os autores gentios dos mineiros do ouro e da prata, e o que Cristo fez penetrando o mais escondido e interior da terra. As almas dos patriarcas, tesouros inestimáveis que o Redentor do mundo tirou das suas minas. A profecia de Isaías e o descobrimento das minas secretas e dos tesouros ocultos. O preço por que foram compradas nossas almas. El-rei D. João, o Segundo, e as minas da Costa de África.

Desenganado assim e desvanecido o falso descobrimento das vossas minas, segue-se o verdadeiro das minhas, que vos prometi descobrir. E porque é certo e infalível, não necessita de tão largo discurso. Prometendo Cristo, Redentor nosso, aos escribas e fariseus, em lugar de um milagre do céu, que lhe pediam, outro milagre maior na terra, disse que, assim como Jonas estivera três dias e três noites no ventre da baleia, assim ele havia de estar no coração da terra outros tantos dias e noites, que foram os que se contaram desde a tarde de sua sagrada morte, até à manhã da sua gloriosa ressurreição. Alguns dizem que se cumpriu esta promessa e profecia na sepultura do Senhor. Mas esta interpretação é insuficiente e imprópria, porque, ainda que Cristo na sepultura esteve debaixo da terra, não esteve no coração da terra: In corde terrae (Mt 12, 40). O coração da terra não é junto à superfície, onde estava o sepulcro, senão o meio e centro dela, e o lugar mais interior e inferior, onde o Senhor desceu e se deteve aqueles três dias, e isso é o que cremos e significamos, quando dizemos não só que foi sepultado, senão que desceu ao inferno. Mas a que fim desceu Cristo ao inferno, estando já em estado glorioso, a que naturalmente é devido o céu? Que foi buscar àquelas concavidades escuras e subterrâneas, onde nunca entrou o sol? Foi buscar e descobrir umas minas mais ricas que toda a prata e todo o ouro, cujo preço e lugar só ele conhecia, e nenhum homem, nem anjo, senão ele as podia descobrir.

Quando os autores, ainda gentios, querem encarecer o extremo da cobiça furiosa e cega, com que os homens não duvidam de se meter e penetrar o mais profundo da terra, e ter sobre si as montanhas para chegar ao escondido das minas, dizem que até ao inferno vão buscar e desenterrar o ouro e a prata:

Itum est ad viscera terrae.
Quasque recondiderat, Stygiisque advexerat undis,
Effodiuntur opes irritamenta malorum (27),

disse com elegantes versos Ovídio. E não com menos elegante prosa, nem com menor ressentimento e juízo, Plínio: Imus in viscera ejus, et in sede manium opes quaerimus. Illa nos premunt, illa nos ad inferos agunt, quae occultavit, atque demersit (28). Isto, pois, que aqueles homens, que não tiveram conhecimento de Cristo, disseram por exageração e encarecimento dos mineiros do ouro e prata, isto mesmo, e em próprios termos, é o que realmente e em pessoa fez Cristo, penetrando o mais escondido e inferior da terra, e descendo verdadeiramente ao inferno, para descobrir, romper e abrir as suas minas, não de ouro ou prata, que acrescentam os males da terra, senão de outros muito mais preciosos metais, com que se acrescenta, ilustra e enriquece o céu.

A montanha onde começaram a romper-se estas minas foi o Monte Calvário, os instrumentos a cruz e os cravos; o sítio subterrâneo, onde elas estavam escondidas, o seio de Abraão; e as riquezas que delas tirou Cristo depois de tantos trabalhos, as almas. Tirou a alma do mesmo Abraão, que deu nome ao lugar. Tirou a alma de Abel, que foi a primeira que ali entrou. Tirou as almas de Adão e Eva, que, por um apetite, foram a causa de que eles, e seus filhos, do paraíso da terra não fossem tresladados ao céu. Tirou as almas dos antigos Patriarcas, Set, Noé, Isaac, Jacó, José e Moisés, cuja lei, posto que foi disposição, não teve virtude para levar os homens à glória, privilégio só da lei da graça. Tirou a alma de Jó, que no mesmo tempo se salvou na lei da natureza, e também - segundo parece - as dos outros amigos que tinham a mesma fé do verdadeiro Deus. Tirou as almas dos reis que foram justos e santos - muito menos porém em número do que foram as coroas - a alma de Josias, a alma de Ezequias, a de Josafá, a de Manassés, a de Davi. E se também não foi com ele a de Salomão, vede que desgraça? Tirou as almas dos profetas Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel e os demais, e com cada um deles em triunfo, as almas que com suas pregações tinham livrado do inferno. E por que não fiquem de fora as mulheres - cujas almas não faltou quem dissesse que não foram criadas à imagem e semelhança de Deus - tirou as almas de Sara, de Rebeca, de Raquel, a de Maria, irmã de Moisés, a de Ester, a de Rute, a da casta Susana, a da valente Judite. E com estas de mais conhecido nome, todas as outras que naquele escuro depósito estavam esperando longamente a vinda do Messias.

Das que lá entraram depois de Deus feito homem - se a história do rico avarento não foi mais antiga - tirou o Senhor singularmente a alma do pobre Lázaro, de que só se faz menção no Evangelho, a qual levaram ao mesmo seio de Abraão os anjos, ficando para sempre no inferno, ardendo em fogo e em inveja, a alma do mesmo rico, cuja fortuna neste mundo fora tão invejada. Também foi notável entre as almas deste tempo a de Simiano, aquele velho venturoso que teve a Cristo em seus braços, e, despedindo-se da vida, foi o que lá levou as primeiras novas, de que já ficava no mundo o Redentor dele. Os antigos tiveram para si que havia almas grandes e almas pequenas; e se isto assim fora, muito acrescentaram o número das almas pequenas às dos inocentes de Belém, os quais o Senhor não livrou da espada de Herodes, para agora as levar gloriosas consigo. Finalmente, sobre todo aquele numerosíssimo esquadrão, avultaram com excesso entre todas as almas grandes, quatro maiores - a de S. João Batista, a de S. Joaquim, a de Santa Ana, e a do que mereceu ser chamado pai do mesmo Cristo, o incomparável S. José.

Estes foram os tesouros inestimáveis que o Redentor do mundo tirou daquelas suas minas, que em espaço de quatro mil anos, desde o princípio do mesmo mundo, se foram multiplicando e crescendo sempre. Então se cumpriu a promessa que delas lhe tinha feito Deus por boca de Isaías, dizendo que lhe daria os tesouros escondidos e mais secretos e encobertos de toda a terra, e quebraria para isso portas de bronze e fechaduras de ferro: Portas aereas conteram, et vectes ferreos confringam; et dabo tibi thesauros absconditos, et arcana seeretorum(29) . Bem sei que estas palavras foram dirigidas exteriormente a el-rei Ciro, mas é certo que o interior da profecia falava expressamente com Cristo. Assim como o que tem diante de si a imagem de um santo parece que fala com a imagem, e fala com o santo, assim Isaías, falando no exterior com Ciro, que era figura e imagem de Cristo, com o mesmo Cristo é que falava propriamente, e de Cristo profetizava, e não de Ciro. O mesmo profeta se explicou logo, e se comentou a si mesmo e com tal individuação de palavras, que de nenhum modo se podem entender de Ciro, nem de outro algum homem, senão daquele que era homem e Deus juntamente: Vere tu es Deus absconditus, Deus Israel, salvator(30). Este, de quem falo debaixo do nome de Ciro, é verdadeiramente Deus escondido, Deus escondido e Salvador, Deus escondido, porque em Cristo estava a divindade escondida debaixo da humanidade; e Deus assim escondido Salvador, porque para Deus nos salvar se fez homem. E para tirar toda a dúvida, e que este Salvador não era homem como os outros homens da terra, senão Deus descido do céu, continua o mesmo profeta pedindo e instando ao mesmo céu que acabasse já de chover lá de cima o Justo, para que nascesse na terra o Salvador: Rorate, caeli, desuper, et nubes pluant justum; aperiatur terra, et germinet Salvatorem(31) - Assim que aquele príncipe, a quem Deus prometeu o descobrimento das minas secretas, e as riquezas dos tesouros mais ocultos e escondidos, não era Ciro, nem outro rei da terra, senão Cristo, verdadeiro Deus, também escondido, que desceu do céu, e que desceu, não para outro fim, senão para ser Salvador.

Mas, se Cristo, quando desceu do céu e veio à terra, nasceu na pobreza de um presépio; se como Filho escolheu Mãe pobre, e como Mestre discípulos pobres; se a primeira coisa que ensinou e pregou foi a pobreza; se viveu de esmolas como pobre, se morreu sem casa nem cama, é despido como extremamente pobre, se o que sempre condenou foram as riquezas, e, prometendo o céu aos pobres, só o dificultou e quase impossibilitou aos ricos: que tesouros são estes que Deus lhes prometeu, e que minas secretas e escondidas as que havia de descobrir? Não foram sem dúvida, nem são outras, senão aquelas almas tão preciosas como prezadas, que no seio de Abraão, como em tesouro, se iam depositando por todos os séculos, não só escondidas e encerradas, mas verdadeiramente cativas, para cujo descobrimento, liberdade e redenção desceu Cristo, como diz S. Paulo, às partes mais inferiores da terra: Ascendens in altum captivam duxit captivitatem. Quod autem ascendit, quid est, nisi quia et descendit primum in inferiores partes terrae(32)? E porque as mesmas almas não podiam sair daquele lugar subterrâneo, onde estavam presas e aferrolhadas, como em um cárcere de bronze, por isso juntamente com a promessa destes tesouros e destas minas, assegurou Deus ao mesmo Cristo, descobridor e conquistador delas, que primeiro quebraria as portas de bronze, e romperia as fechaduras de ferro: Portas aereas conteram, et vectes ferreos confringam, et dabo tibi thesauros absconditos, et arcana secretorum (33).

Assim comentam este lugar literalmente S. Jerônimo e Santo Agostinho. Mas quem poderá declarar dignamente o preço destes tesouros e o valor destas minas? Só por comparação do ouro e prata, que o mundo tanto preza e estima nas outras, se pode de algum modo rastear, e assim o fez S. Pedro, falando daquelas almas, e das nossas. Exorta-nos S. Pedro a que conservemos puras as nossas almas, com a obediência dos preceitos divinos, que todos se encerram na caridade: Animas vestras castificantes in obedientia charitatis(34) - e o motivo principal que para isso nos propõe é o preço e valor das mesmas almas : Scientes quod non corruptibilibus auro vel argento redempti estis, sed pretioso sanguine quasi agni immaculati Christi (1 Pdr 1 , 18): Advertindo e considerando - diz o Príncipe dos apóstolos - que essas almas não foram compradas com ouro ou prata, senão com o precioso sangue do mesmo Filho de Deus. - Não sei se reparais que não só diz S. Pedro o preço com que foram compradas as almas, senão também o preço com que não foram compradas. Não foram compradas, diz, com ouro nem com prata, senão com o sangue de Cristo. E não bastava dizer que foram compradas com o sangue de Cristo unido à divindade, e por isso de preço infinito? Bastava e sobejava. Mas como falava com a baixeza e vileza dos homens, que, como feitos de terra, não sabem levantar os pensamentos da terra, e tanto prezam e estimam o ouro e a prata, por isso ajuntou e ponderou que não foram compradas as almas com ouro nem com prata, senão com o preço infinito do sangue de Cristo, para que acabem de entender e de crer todos os que têm fé que são infinitamente mais preciosas as almas, e infinitamente mais ricas as minas, donde Cristo as foi buscar debaixo da terra, que todo o ouro e toda a prata que se tira ou pode tirar das outras.

Que bem o entendeu assim el-rei D. João, o Segundo, quando se descobriram as minas da Costa de África, que deram nome à mesma terra! Edificou-se ali o famoso castelo de S. Jorge; mas porque as despesas eram muitas, e a terra doentia, pôs-se em conselho de Estado, se se largaria. E como muitos dos conselheiros votassem que sim, que responderia el-rei? Respondeu que de nenhum modo se largasse. Porque eu - diz - não mandei edificar aquele castelo tanto para a defesa e conservação das minas, quanto para a conversão das almas dos gentios, e basta-me a esperança da salvação de uma só daquelas almas, para ter por bem empregadas todas essas despesas.


§ IX

O Rio das Almazonas e o Rio das Almazinhas. O desamparo e desprezo com que se estão perdendo as almas do Estado do Maranhão. O inferno superior e o inferno interior. Há casos em que a felicidade consiste, não em se achar o que se busca e deseja, senão em se não achar. O exemplo de Pedro, correndo ao sepulcro, e de Adão, enquanto se não achava entre todas as criaturas quem lhe fosse semelhante. Os tesouros do céu e os tesouros da terra. Peroração.

Estas são, senhores meus, as minas de que Cristo hoje subiu tão rico do centro da terra, estas as que eu vos prometi descobrir, e estas, e não outras, as minas do vosso Maranhão. Se Deus vos não deu as de ouro e prata, como esperáveis, ou vos fez mercê de que não se descobrissem, para vos livrar de tantas desgraças, como ouvistes, contentai-vos de vos ter dotado e enriquecido daquelas que na sua estimação - que só é a certa e verdadeira - foram dignas de ser compradas com seu próprio sangue. Este grande rio, rei de todos os do mundo, que deu o nome à vossa cidade, e a todo o estado, que ribeira tem na sua principal e maior corrente, ou nas de seus tão dilatados braços, que, em lugar das areias de ouro, de que outros fabulosamente se jactam, não esteja rico destas pérolas, que assim chamou Cristo às almas? Outros lhe chamam Rio das Almazonas, mas eu lhe chamo Rio das Almazinhas, não por serem menores, nem de menos preço - pois todas custaram o mesmo - mas pelo desamparo e desprezo com que se estão perdendo, quando o ouro e a prata se deseja com tanta ânsia, se procura com tanto cuidado e se busca com tanto empenho? Oh! almas remidas com o sangue do Filho de Deus, que pouco conhecido é o vosso preço, e que pouco sentida a vossa perda, digna só de se chorar com lágrimas de sangue! Mas os que tão pouco caso fazem da alma própria, como o farão das alheias?

Ora, já que o Senhor do mundo nos descobriu estas minas, e nos encareceu tanto o preço delas, e as pôs tanto à flor da terra, nesta terra de que vos fez senhores para este mesmo fim, não as desprezeis. Vede que injúria seria da fé e da caridade, e do mesmo sangue de Cristo, se, descendo ele ao centro da terra a buscar almas, nós as deixássemos perder e ir ao inferno, quando as podemos salvar para si, para nós e para o mesmo Cristo, sem cavar nem romper montanhas. E para que se anime o nosso zelo neste pequeno trabalho, e de tanto lucro, só quero que advirtamos todos que, fazendo-o assim, faremos em certo modo mais, sem sair da superfície da terra, do que fez o mesmo Cristo descendo ao centro dela. E de fé que Cristo desceu aos infernos: Descendit ad inferos. Também é de fé que há dois infernos, um inferior, e muito mais baixo, onde estava o rico avarento, e outro superior, e mais acima, onde estava Abraão e Lázaro. Deste inferno superior tirou Cristo todas as almas que lá estavam, mas do inferno inferior - ou Cristo descesse lá presencialmente, ou não - não tirou alma alguma. Contudo, Davi diz de si que o Senhor tirou a sua alma do inferno inferior: Eruisti animam meam ex inferno inferiori(35). Pois, se a alma de Davi, como a dos outros patriarcas, foi tirada do seio de Abraão, que é o inferno superior, como diz que a tirou Deus do inferno inferior, que é o inferno dos condenados, e que propriamente se chama inferno? Porque a alma de Davi livrou-a Deus duas vezes, e dois infernos: uma vez em vida, e outra vez depois da morte. Depois da morte, livrou-a do inferno superior, quando, com as outras almas santas, a tirou do seio de Abraão; e na vida livrou-a do inferno inferior, ao qual estava condenada a alma de Davi pelo pecado do adultério e homicídio, e onde havia de penar eternamente, se Deus, por sua grande misericórdia, a não livrara, como ele mesmo diz: Quia misericordia tua magna est super me, et eruisti animam meam ex inferno inferiore(36).
Eis aqui o estado em que estão toda essa infinidade de almas, cujo remédio e salvação fiou Deus do nosso zelo e da nossa cristandade. Os inocentes pelo pecado original irão ao Limbo, que também é inferno, pois não hão de ver a Deus para sempre. Porém, os adultos, assim pelos pecados atuais, como pela falta de fé e batismo, todos vão e estão indo continuamente ao inferno inferior. E deste inferno, donde Cristo hoje não tirou alma alguma, podemos nós tirar, sem sair da terra onde Deus nos pôs, tantos milhares de almas, e fazer delas um tesouro inestimável, tanto mais rico e precioso, quanto vale mais uma só alma que todo o ouro e prata, e todos os haveres do mundo. Ou cremos esta verdade, cristãos, ou não cremos? Se a não cremos, onde está a nossa fé, a nossa esperança e o nosso entendimento? Diga-se do nosso entendimento e da nossa fé o que hoje disse Cristo aos discípulos desesperados: O sulti, et tardi corde ad credentum! Mas, se temos fé e juízo, como não há de prevalecer a alegria, o gosto e a felicidade de Deus nos ter descoberto estas minas do céu, à falsa e mal entendida tristeza, de não termos achado as da terra que nela buscávamos?
Notou Santo Agostinho uma coisa digna do seu entendimento, que hoje sucedeu a S. Pedro: quando a Madalena esta manhã não achou o corpo do Senhor, que buscava na sepultura, veio toda a diligência dar conta a S. Pedro, o qual, não andando, senão correndo, foi logo a certificar-se e ver por seus olhos se era assim o que ouvia. E qual vos parece que seria o desejo que S. Pedro levava no coração? Santo Agostinho o diz: Ad sepulchrum celeri cursu festinat, laetior rediturus, si non inveniret quem quaerebat (37): Corria S. Pedro ao sepulcro, não com desejo de achar, senão de não achar, e para tornar da jornada muito mais alegre, se não achasse o que buscava. – Assim se alegra quem olha para as coisas com são juízo, e quem entende – como S. Pedro entendia – que há casos em que a felicidade consiste, não em se achar o que se busca e deseja, senão em se não achar. Enquanto se não achava entre todas as criaturas quem fosse semelhante a Adão: Adae vero non inveniebatur adjutor similis ejus(38) - foi Adão feliz; e tanto que se achou o que se não achava, daí lhe procederam todos os seus desgostos, todas as suas perdas, e todas as suas e nossas infelicidades. Alegrem-se, pois, com S. Pedro os que estavam tristes, por se não achar o que se buscou, e alegrem-se também, e muito mais com os dois discípulos de Emaús, de acharem, e de se descobrir tanto mais do que esperavam. Eles esperavam um bem particular e temporal, que era a redenção do reino de Israel: Nos autem sperabamus, quod ipse esset redempturus Israel - e o que acharam, sem o buscarem, foi a redenção espiritual e eterna do mundo, em que consistia a salvação das suas almas, e a de todas.

Todas devemos desejar que se salvem, e por todas havemos de oferecer nossos sacrifícios e orações a Deus. Mas, pois, não podemos cooperar à salvação de todas, ao menos não faltemos a estas tão desamparadas, às quais, por mais vizinhas, é mais devedora a nossa caridade. Sobretudo trate cada um, com verdadeiro zelo cristão, da doutrina e salvação, ao menos daquelas almas que têm em sua casa, e muito particularmente da sua, de que muitos vivem tão esquecidos. Acabemos de entender, e de nos desenganar, que só estes são os verdadeiros tesouros, e que não há outros, posto que a nossa cegueira lhes dê este nome. Concedo-vos que se descobrissem as minas que desejáveis, e que esta vossa cidade estivesse lajeada de barras de prata, e coberta de telhas de ouro: que importava tudo isto à alma? Havia de levar alguma coisa destas consigo? Havia-lhe de importar alguma coisa para a conta? Pois, se tudo cá há de ficar, por que não tomamos o conselho de Cristo, que tantas vezes nos disse que fizéssemos o nosso tesouro no céu: Thesaurizate vobis thesauros in caelo(39)? E notai que diz: Thesaurizate vobis: Entesourai para vós - porque todos os outros tesouros são para os que cá ficam. Costumavam os antigos mandar enterrar os tesouros debaixo das suas sepulturas, e por isso diz Jó que os que cavam tesouros se alegram quando acham algum sepulcro: Effodientes thesaurum gaudent vehementer cum invenerint sepulchrum (Jó 3, 21 s) (40) . E não é melhor que a alma ache os seus tesouros no céu, e se alegre com eles, do que alegrarem-se outros com a vossa sepultura e com à vossa morte, para se lograrem do que vós não podeis levar convosco? Ora, tenhamos, tenhamos fé, e entristeçam-nos somente nossos pecados, e alegre-nos somente a esperança bem fundada de nossa salvação. E para que até das minas que não achastes tireis algum fruto, seja o primeiro a confusão de fazermos tantas diligências pelos tesouros da terra, quando tão pouca fazemos pelos do céu, que hão de durar para sempre; e o segundo, o exemplo e resolução de fazer ao menos outro tanto pela salvação da alma e graça de Deus, a qual nos promete o mesmo Deus que acharemos sem dúvida, se assim a buscarmos: Si quaesieris eam quasi pecuniam, et sicut thesauros effoderis illam: tunc intelliges timorem Domini, et scientiam Dei invenies(41).


(1) Que é isso que vós ides praticando e conferindo um com o outro, e por que estais tristes? Ora, nós esperávamos que ele fosse o que resgatasse a Israel (Lc 24, 17. 21).

(2) Mulher, por que choras (Jo 20, 13)?

(3) E estais tristes (Lc 24, 17)?

(4) Porque é já tarde (ibid. 29).

(5) Não tendo achado o seu corpo (ibid. 23).

(6) Ora, nós esperávamos (Lc 24, 21).

(7) Chegaram ao sepulcro (Mc 16, 2).

(8) Que se ele fosse o que resgatasse a Israel (Lc 24, 21).

(9) Compraram aromas (Mc 16, 1).

(10) Gên 27, 9.

(11) Eis aí congregaste tu essa tua multidão para levares a prata e o ouro (Ez 28, 13).

(12) Eu virei sobre uma terra que está sem muros; não tem ferrolhos nem portas (Ez 28, 11).

(13) A esta terra, que foi salva da espada, a umas gentes que estão em paz, e se acham estabelecidas com segurança (Ez 28, 8. 11).

(14) E quanto tinham feito no país de Espanha, e como puseram debaixo do seu poder as minas de prata e de ouro, que ali há (l Mac 8, 3).

(15) Graeci PP. apud Cord.

(*) Assim o ferro pernicioso, como o ouro, mais pernicioso ainda (Ovid. Met. lib. I).

(16) Formosa aos olhos e deleitável à vista (Gên 3, 6).

(17) 0 que não correu atraído pelo ouro foi provado por ele (Eelo 31, 8. 10).

(18) Plin. in proem. lib. 33, et cap. 1.

(19) Chrysost. apud Caten.

(20) A tua prata se mudou em escória (IS 1, 22).

(21) A vossa prata se enferrujou (Tg 5, 3).

(22) 2 Par 3, 7.

(23) Genebrard. lib. I, Chronol.

(24) Tirin. in cap. 10, 3 Reg.

(25) O peso de ouro que se trazia a Salomão cada ano era de seiscentos e sessenta e seis talentos (3 Rs 10, 14).

(26) E: fez que houvesse tanta abundância de prata em Jerusalém quanta era também a das pedras (3 Rs 10, 27).

(27) 0 texto das Metamorfoses citado pelo autor é exatamente o seguinte:
Itum est in viscera terrae
Quasque recondiderat, Stygiisque admoverat umbris,
Effodiuntur opes, inritamenta malorum:
Penetramos nas entranhas da terra, arrancando dali o que ela ocultara, o que ela havia escondido nas sombras do Estige, tesouros que provocam nossos males (Ovid. Met. Lib. I, 138).

(28) Penetramos em suas entranhas, procurando riquezas na morada dos deuses. As substâncias que ela escondeu em suas profundezas nos atraem e nos impelem para as regiões infernais (Plin. H. N. lib. 33, §I).

(29) Arrombarei as portas de bronze, e quebrarei as trancas de ferro, e dar-te-ei os tesouros escondidos e as riquezas aferrolhadas (Is 45, 2s).

(30) Tu verdadeiramente és um Deus escondido, o Deus de Israel, o salvador (Is 45, 15).

(31) Destilai, ó céus, lá dessas alturas o vosso orvalho, e as nuvens chovam ao justo; abra-se a terra, e brote o Salvador (Is 45, 8).

(32) Quando ele subiu ao alto, levou cativo o cativeiro. Ora, que significa subiu, senão que também antes havia descido aos lugares mais baixos da terra (Ef 4, 8s).

(33) Ver nota 29, pág. 213.

(34) Fazendo puras as vossas almas na obediência da caridade (1 Pdr 1, 22).

(35) Livraste a minha alma do inferno inferior (Sl 85, 13).

(36) Porque a tua misericórdia é grande sobre mim, e livraste a minha alma do inferno inferior (ibidem).

(37) August. Serm. 132, de Temp.

(38) Mas não se achava para Adão adjutório semelhante a ele (Gên 2, 20).

(39) Mas entesourai para vós tesouros no céu (Mt 6, 20).

(40) Os que cavam em busca de um tesouro ficam transportados de alegria quando acham um sepulcro (Jó 3, 21s).

(41) Se a buscares como o dinheiro, e cavares pela achar, como os que desenterram tesouros, então compreenderás tu o temor do Senhor, e acharas a ciência de Deus (Prov 2, 4 s).

Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma - 1644

Diligite inimicos vestros (1).

I

Temos hoje em controvérsia os dois mais poderosos afetos, e os dois mais perigosos da vontade humana. Tão poderosos que, se a vontade o vence, é senhora; tão perigosos que, se eles vencem a vontade, é escrava. E que dois afetos são estes? Amor e ódio. O amor tem por objeto o bem, para o abraçar; o ódio tem por objeto o mal, para o fugir; e este é o poder universal, que se estende sem limite a quanto tem o mundo. Mas, como o mal muitas vezes anda bem trajado, e o bem, pelo contrário, mal vestido, daqui vem que, enganada a vontade com as aparências, facilmente ama o mal, como se fora bem, e aborrece o bem, como se fora mal: e aqui está o perigo. Os antigos diziam: amai a quem vos ama, e aborrecei a quem vos aborrece, isto é: querei bem a quem vos quer bem, e querei mal a quem vos quer mal. Mas este mesmo ditame, ainda hoje tão seguido, posto que parece fundado em igualdade e justiça, é o maior e mais perigoso erro que a Sabedoria divina veio alumiar e reformar ao mundo. Neste Evangelho nos manda Cristo amar aos inimigos, e em outro nos manda aborrecer os amigos; neste nos manda amar aos que nos têm ódio, em outro nos manda ter ódio aos que nos amam; e sendo o mesmo legislador divino o autor destes dois preceitos tão encontrados, daqui se deve persuadir a nossa pouca capacidade, que nem sabemos o que é amor, nem sabemos o que é ódio; nem sabemos amar, nem sabemos aborrecer; nem sabemos querer bem, nem sabemos querer mal. Engana-nos o mal com aparências de bem, e leva-nos o amor; engana-nos o bem com aparências de mal, e mete-nos no coração o ódio. E que fará a triste vontade enganada assim, e cativa? O desengano destes dois erros é o que eu determino pregar hoje, e ensinar, não às más, senão às boas vontades, como hão de saber amar, e como hão de saber aborrecer. É matéria em que, depois de disputada a controvérsia, vos hei de descobrir um admirável segredo. Ajudai-me a pedir a graça. Ave Maria.

II

Diligite inimicos vestros.

Amai vossos inimigos. Santo Agostinho, com o peso do seu singular juízo, sondando a profundidade deste preceito, diz assim: Recole in omnibus justificationibus Domini, nulla esse mirabiliora, nec difficiliora, quam ut suos quisque diligat inimicos (2). Lede todas as Escrituras Sagradas, ponderai todos os preceitos, conselhos e documentos divinos, e nenhum achareis — diz Agostinho — nem mais admirável, nem mais dificultoso que mandar Deus a um homem de carne e sangue, que ame a seus inimigos. — Admirável e dificultoso, diz o santo; e deixando o admirável para depois — como prometi — reparemos primeiro no dificultoso. É tão dificultoso este preceito, que os gentios o tiveram por impossível, e muitos hereges também, aos quais refuta doutissimamente e convence S. Jerônimo. Porém, em ser dificultoso, e muito, o mesmo S. Jerônimo concorda com Santo Agostinho, e com Jerônimo e Agostinho, todos os outros Santos Padres e Doutores da Igreja. Todos dizem e confessam que este é o mais rigoroso preceito da lei evangélica, e esta a mais árdua e dificultosa empresa da religião cristã. Se entre os homens se acham tão poucos que amem verdadeiramente a seus amigos, quão dificultosa e repugnante coisa será à natureza humana chegar a amar os próprios inimigos?

Ora, com isto se representar e praticar assim, eu cuido que esta doutrina, quando menos, é muito duvidosa, e que padece uma grande instância. Santo Agostinho, nas mesmas palavras que já referi, diz que leiamos todas as Escrituras, e que em nenhuma delas se achará preceito ou documento mais dificultoso; e eu digo que para achar preceito e documento mais dificultoso, não é necessário ler todas as Escrituras, nem muitas, porque basta só um texto do Evangelho. O mesmo Cristo que disse: Diligite inimicos vestros, diz assim no capítulo catorze de S. Lucas: Qui non odit patrem suum, et matrem, et uxorem, et filios, et fratres, et sorores, adhuc autem et animam suam, non potest meus esse discipulus (Lc. 14,26): Quem não aborrece a seu pai e a sua mãe, a sua mulher e a seus filhos, a seus irmãos e a suas irmãs, e, o que é mais, a si mesmo, não pode ser meu discípulo. — Este preceito obriga em todos aqueles casos em que o amor dos pais e parentes se encontra com a observância da lei de Deus. E geralmente é obrigação de todo o cristão não corresponder a quem o ama, se ilicitamente é amado, ainda que não fosse com perda da graça, senão da perfeição que professa. De maneira que, combinados os cânones da lei de Cristo, em uma parte manda-nos que amemos a quem nos aborrece: Diligite inimicos vestros, e em outra que aborreçamos a quem nos ama: Qui non odit patrem, et matrem, non potest meus esse discipulus. Agora pergunto eu: e qual destes dois preceitos é mais dificultoso: aborrecer um homem a quem o ama, ou amar a quem o aborrece? Responder com ódio ao amor, ou com amor ao ódio? Antes de resolver a questão, disputemo-la primeiro, e ouvi com atenção o que alegar por uma e por outra parte, porque vós haveis de ser os juízes.

III

Primeiramente parece que é mais dificultoso amar a quem me aborrece, do que aborrecer a quem me ama. Provo. O agravo com que me ofende o inimigo é dor no coração próprio: a correspondência com que falto ao amigo é dor no coração alheio; e no remédio das dores sempre se acode primeiro à que mais lastima, e sempre é mais sensitiva a que está mais perto. Logo, mais natural é no homem o ódio ao inimigo que o amor ao amigo, porque no ódio ao inimigo acode-se à dor própria, com a vingança, no amor ao amigo acode-se à dor alheia, com a correspondência. Mais. Quando amamos a quem nos ama, governa-se a vontade pela razão; quando aborrecemos a quem nos aborrece, move-se o apetite pela ira, e os ímpetos da ira sempre são mais fortes que os impulsos da razão; sempre obram mais eficazmente os ofendidos que os obrigados, porque a ofensa corre por conta da honra, a obrigação por conta do agradecimento, e mais sofrível é o nome de desagradecido, que a nota de afrontado. Mais ainda. Quando amo a quem me ama, pago o que devo; quando me vingo de quem me ofendeu, pagam-me o que me devem. E quem há que não seja mais inclinado a receber a satisfação, que a pagar a dívida? Mais dificultoso é logo deixar de aborrecer a quem nos aborrece, que deixar de amar a quem nos ama. Só parece que está a experiência contra esta resolução, porque, sendo no mundo mais as ofensas que os benefícios, são mais as ingratidões que as vinganças: logo os homens, naturalmente, parece que são mais ingratos que vingativos. Mas não é assim, porque para a vingança é necessário poder, e para a ingratidão basta a vontade. E se é menor o número das vinganças, é por serem os homens menos poderosos, e não por serem menos inimigos.

Por outra parte, parece que é mais dificultoso aborrecer a quem nos ama, que amar a quem nos aborrece. Provo: Amar a quem me aborrece, é ser humano com quem o não é comigo; aborrecer a quem me ama, é ser cruel com quem mo não merece: o ser humano é ser homem, o ser cruel é ser fera. Logo, aborrecer a quem nos ama, tanto mais dificultoso é quanto mais repugnante à natureza. Mais, e é forte razão esta. Da parte do objeto tanto provoca o ódio a aborrecer, como o amor a amar; porém, da parte da potência, a vontade é mais inclinada a amar que a aborrecer, porque o amar é ato natural, o aborrecer violento. Donde se segue que, convidada igualmente a vontade do ódio do inimigo para aborrecer, e cio amor do amigo para amar, naturalmente se há de inclinar mais a amar ao amigo que a aborrecer ao inimigo. Logo, maior violência padece a vontade em aborrecer a quem nos ama que em amar a quem nos aborrece. Mais. Amar a quem nos aborrece, é ato de generosidade; aborrecer a quem nos ama, é ato de ingratidão. E que coração haverá tão irracional, que queira antes ser ingrato que generoso? Quem há de trocar a nobreza e fidalguia de uma generosidade pela vileza e baixeza de uma ingratidão? Finalmente, mais dificultoso é aborrecer sem causa que amar com razão. Em quem me aborrece há razão para o amar, porque se o aborrecer como inimigo, posso-o amar como próximo. Em quem me ama não há causa para o aborrecer, porque se o devo amar por próximo, por que o hei de aborrecer por amigo? Logo, mais dificultoso é aborrecer a quem nos ama, que amar a quem nos aborrece.

IV

Posta a questão nestes termos, para eu continuar o sermão, é necessário tomar primeiro os votos aos ouvintes, porque onde eles reconhecerem a maior dificuldade aí se devem empregar todas as forças do discurso. Que dizeis pois nestes dois casos? Tendes por mais dificultoso o amor dos inimigos ou o ódio dos amigos? Amar aos que vos aborrecem, ou aborrecer aos que vos amam? Todos se calam, ninguém me responde. Mas já vejo que quereis que os votos sejam secretos, para serem mais livres e mais verdadeiros. Vede se os interpreto e distingo bem. Destas grades para fora pode ser que haja alguns ânimos tão briosos ou vingativos, que tenham por mais dificultoso amar inimigos e perdoar agravos. Mas das mesmas grades para dentro — que é a melhor e principal parte do auditório — como os corações naturalmente são mais benignos, cuido eu que o amor há de ter por si os mais votos, e tanto mais e melhores, quanto mais bem entendidos. Do amor — dizem as almas mais discretas e de melhor coração — do amor me livre a mim Deus, que pelo ódio não me há de levar o diabo ao inferno. O estado religioso, como livre das injúrias do mundo, quase é incapaz de ódio; mas para o isentar do amor, que tem penas e asas, não bastam cercas nem muros. Dado pois, e não concedido, que algum amor modesto e comedido pudesse aqui entrar ou entrasse, não haver de amar neste caso, nem corresponder com amor um coração que é amado, não há dúvida que este é o ponto mais estreito e dificultoso, e este o preceito mais árduo da lei de Deus. Assim me parece, senhoras, que o está votando geralmente e concedendo o vosso silêncio. Com que vem a distinguir sutilmente, na segunda parte da nossa mesma questão, outro terceiro caso, tanto mais escrupuloso quanto mais delicado, e tanto mais dificultoso quanto mais repugnante. Não amar é menos que aborrecer a quem nos ama; e como no preceito de aborrecer se inclui também o de não amar, neste não amar, que é menos, consiste o mais da dificuldade. Assim entendo que o entendem e estão votando os melhores juízos. E por que não pareça que dissimulo a força da vossa razão, para mais facilmente a desfazer, pondo-me primeiro da vossa parte, a quero fortificar e defender quanto ela merece.

Primeiramente, o mesmo legislador desta sagrada república, S. Bernardo, sobre aquelas palavras dos Cânticos: Dilectus meus mihi, et ego illi (3), ainda das telhas acima diz que o amor com que a alma ama a Deus, nasce do amor com que Deus ama a alma: Amor Dei amorem animae parit. E acrescenta que por isso a alma ama, porque sabe que é amada: Nec dubitat se amari quae amat (4). No amor natural e cá da terra passa o mesmo. Um amor naturalmente chama por outro. E não há coração nem tão surdo, que se é chamado não ouça, nem tão mudo, que se ouviu não responda. Até as penhas dos desertos respondem às vozes, e o mesmo eco, que parece que é repulsa, é correspondência. A correspondência não é outra coisa que a reflexão do mesmo amor, que torna dobrado para donde veio. E assim como não há mármore nem bronze tão duro que, ferido do raio do sol, não responda ao mesmo sol com a reflexão do seu raio, assim não há coração tão de mármore na dureza, e tão de bronze na resistência, que, prevenido no amor, o não redobre e corresponda com outro.

É tão certa e experimentada esta força do amor, e tão constante no juízo de todos os sábios, que poetas, oradores, filósofos, e os mesmos Santos Padres a confessam e encarecem. Entre os poetas, todos sabem o epigrama de Marcial: Ut ameris, ama. Deixo outras citações de autores desta casta, porque são gente que mais professa a lisonja que a verdade. Entre os oradores, o príncipe de todos, Marco Túlio, escrevendo a Bruto, diz assim: Clodius valde me amat, quod cum mihi persuasum sit, non dubito quin illum quoque judices a me amari. Quer dizer: Clódio me ama muito, e como eu estou persuadido a isso, não duvido que vós também julgareis que eu o amo. — E por quê? Nihil enim minus homini ea, quam non respondere in amore us a quibus provocere: Porque não há coisa — diz — mais alheia do ser de homem, que não responder com amor a quem o amou primeiro. — De maneira que, em sentença daquele homem, de cuja língua estavam pendentes as sentenças de todos, o homem que foi amado de outro, ou o há de amar também, ou deixar de ser homem.

Entre os filósofos, Hecaton, referido e seguido por Sêneca — que é dobrada autoridade — disse o mesmo, mas com coturno filosófico e confiança de mestre dos mestres. As suas palavras, como se apregoasse e vendesse amor, são estas: Ego tibi monstrabo amatorium sine medicamento, sine herba, sine ullius veneficae carmine. Se alguém deseja que o amem, não peça ervas à natureza, nem confeições à medicina, nem feitiços à arte mágica: venha-se a mim, que eu lhe descobrirei um segredo de mais virtude que todas as ervas, de mais eficácia que todos os medicamentos, e de mais e maior força que todos os feitiços. E que segredo é este tão poderoso? Si vis amari, ama: Se queres ser armado, ama. — Não disse mais o filósofo, e nestas duas palavras compreendeu toda a filosofia do amor. Amar e ser amado, são relações mútuas e recíprocas que, posta ou suposta uma, logo naturalmente resulta a outra. E assim como o amor só com amor se conquista, assim não há amor tão forte, ou tão fortificado, que se não renda a outro amor. Vamos aos Santos Padres.

V

São João Crisóstomo, sem alegar a Hecaton, também grego, disse como própria a sua mesma proposição: Si vis amari, ama. Mas provou o que ele não tinha provado, com a natureza do mesmo amor. O amor essencialmente é união, e a união não pode unir um extremo sem que una também outro. Porventura, se vos atardes a um homem pode ele deixar de ficar também atado convosco? Não. Pois, da mesma maneira — diz Crisóstomo — se amastes, não podeis deixar de ser amado: Quomodo enim, si velis te ipsum alteri alligari, non aliter poteris, nisi ipsum quoque tibi ipsi alliges. Assim se uniu e atou Jônatas a Davi, e Davi logo ficou unido e atado com Jônatas. Os mesmos termos com que o conta a Escritura declaram o amor e mais a comparação: Anima Jonathae conglutinata est animae David (5). Não diz que Jônatas amou a Davi, e Davi a Jônatas, senão que a alma de Jônatas se grudou com a alma de Davi. Porque assim como uma tábua se não pode grudar com outra sem que ambas fiquem unidas, assim uma alma não pode amar outra alma sem que ambas se amem. O valor de Davi moveu a alma de Jônatas a que o amasse, e o amor de Jônatas obrigou a alma de Davi a que o correspondesse. Jônatas, não amado, amou; mas Davi, depois de amado, não pôde deixar de amar. O primeiro amor foi livre, o segundo necessário. Finalmente, conclui o mesmo S. Crisóstomo, que a vontade de cada um é a lei da vontade alheia: Voluntas tibi sit lex, porque, segundo cada um quiser ou não quiser amar, assim será ou não será amado. De sorte que o amar eu é mandar e obrigar a que me amem. O amor é o preceito, a correspondência a obrigação: o amar império, o ser amado obediência.

Santo Agostinho, em menos palavras não disse menos. Nulla major est ad amorem invitatio, quam amantem amore praevenire. Et nimis durus est animus, qui si dilectionem nolebat impendere, nolit rependere: O maior e mais certo motivo de ser amado, é antecipar o seu amor quem quer alcançar o alheio. Todos os outros motivos, por mais fortes que pareçam, e por mais usados que sejam, conquistam vaidade e engano, mas não verdadeiro amor. A formosura entretém os olhos, as dádivas enchem as mãos, a discrição lisonjeia os ouvidos, os regalos saboreiam o gosto, o poder e a majestade faz dobrar os joelhos; mas sujeitar e render o coração, só o amor. E o coração humano tão generoso, que não se rende senão a seu igual, nem há outro interesse, força ou arte com que se possa conquistar, senão amando: Nulla major ad amorem invitatio, quam amore praevenire. A palavra invitatio soa a invite, e o praevenire é ganhar por mão. Quem tomou a mão em amar primeiro, esse levou o resto ao amor. A razão é — diz Agostinho — porque se no mundo houver algum coração tão duro e duríssimo, que nem ame nem queira amar, nenhum haverá tão alheio de toda a humanidade — ainda que seja esse mesmo — o qual, depois de amado, não queira responder com amor: Et nimis durus est animus, qui si dilectionem nolebat impendere, nolit rependere. Notai muito aquele nolebat e este nolit. Antes de o amarem, poderá haver coração tão duro que não ame nem queira amar; mas, depois de se ver amado, há de amar e querer amar, ainda que não quisesse.

É tanto isto assim — para que eu também fizesse meu encarecimento – é tanto isto assim, que se Deus criara um coração de ferro, e este coração fosse amado, natural e necessariamente havia também de amar. Falando Plínio do magnete, ou calamita, ou pedra-ímã — que me não cabe na boca o nome do nosso vulgo descreve o seu amor com o ferro, ou os seus amores, desta maneira: Quid ferri duritia pugnatius? Sed cedit, et patitur amores. Trahitur namque a magnete lapide, dominatrixque illa rerum omnium materia, ut proprius venit, assistit, teneturque, et complexu haeret: Que dureza mais dura que a do ferro? E contudo esta matéria, domadora de todas as coisas, também se deixa penetrar e padecer de amor. É o ferro amado da pedra-ímã — a quem os franceses discretamente chamam pedra amante — e é tão milagrosa ou tão amorosa entre ambos a força desta natural simpatia, que a pedra, como amante, sempre está atraindo, e o ferro, como amado, sempre correspondendo. Ela o chama, ele se move; ela o guia, ele a segue; ela o eleva, ele se suspende; ela o ata, ele se deixa prender; se ela pára, ele pára; se sobe, sobe; se desce, desce; se anda à roda, rodeia; sempre juntos, sempre conformes, sempre unidos, e tão pegados entre si, como se um e outro foram de cera. E se isto obra no ferro uma qualidade oculta, que seria no coração, ainda que fosse de ferro, um amor declarado? Um ferro amado de uma pedra não pode deixar de pagar amor com amor. E poderá um coração humano amado não amar? Todos estais dizendo que não, e parece que dizeis bem.

Só tem esta regra ou opinião geral uma exceção contra si, a qual notou Santo Ambrósio, e, depois dele, Santo Agostinho, ambos pelas mesmas palavras. Ponderam o caso de José, e o valor mais que de homem com que fugiu e largou a capa nas mãos da senhora, e o que sobre tudo encarecem, é que, amado, não amou: Adamatus, non redamavit. Logo, não é tão certa nem tão universal a proposição que até agora pretendemos provar, nem tão repugnante e quase impossível ao coração humano não responder com amor quando é prevenido com outro, ou deixar de amar quando é amado. Bem pudera eu aqui responder que a exceção de um exemplo, quando é um só, ou raríssimo, não desfaz a regra geral, antes a confirma. E a mesma admiração com que os santos celebram este caso e lhe chamam prodigioso, vem a ser nova e maior prova de quão próprio e natural é da vontade e propensão humana, seguir sempre e obrar o contrário. Mas, com licença de Ambrósio e Agostinho, eu não consinto em que José amado não amasse, antes digo, que não só amou, mas com muito maior excesso do que foi amado. A egípcia, como vil, acusou a José, e o que começou amor, degenerou em vingança; José, pelo contrário, como honrado, estando inocente, não se desculpou, e o que parecia desamor, mostrou que era fineza. Fino com Deus, porque não quis pecar, fino com seu senhor, porque o não quis ofender, e mais fino com a mesma que o amou, porque, preso, carregado de ferros, e quase condenado à morte, não se desculpou a si pela não culpar a ela. Pagou-lhe o amor com lhe encobrir o delito. Ela cobriu-o com a capa, e este com o silêncio. Tão impossível é que o amor, ainda na terra mais dura e mais estéril, e ainda rejeitado e rebatido, não produza amor.

Mas, admitido que a egípcia amasse e não fosse amada, e José fosse amado e não amasse, falando em termos somente naturais e humanos, neste caso, ou noutro semelhante, qual estado ou qual fortuna seria mais cruel e mais detestável: a do que ama, e não é amado, ou a do que é amado, e não ama? Respondo que no tal acontecimento — de que Deus livre a todo o coração humano — o que ama e não é amado seria digno de maior compaixão, e o que é amado e não ama, de maior horror. Amar e não ser amado é o maior tormento; ser amado e não amar é a maior injustiça. Mas aquilo é padecer a sem-razão; isto é fazê-la: logo, melhor é amar e não ser amado, que ser amado e não amar, porque amar e não ser amado, é ser mártir; ser amado e não amar, é ser tirano. Sendo pois um excesso tão alheio da razão, tão indigno da humanidade, e tão contrário a toda a inclinação natural, não pagar amor com amor, quem duvida ou pode duvidar que não só o aborrecer a quem nos ama — que é ato — mas ainda o não amar somente — que é mera suspensão — seja a maior violência da liberdade humana, o maior aperto do coração, e a maior tirania da natureza?

VI

Ponderadas assim de qualquer modo as três dificuldades em que até agora nos detivemos — cujo peso e energia mais se pode sentir que declarar — que faria a vontade humana cercada ou sitiada por todas as partes, e combatida juntamente de três violências tão fortes? Um preceito lhe manda amar os inimigos, outro lhe manda aborrecer os amigos, e o terceiro, que deste se segue, lhe manda não amar nem corresponder — para que o digamos por seu nome — aos amantes. E, bastando qualquer destas obediências por si a fazer desmaiar e estremecer o mais animoso coração, todas juntas, que será? Pela parte do vivente, pela parte do sensitivo e pela parte do racional se vê o homem aqui nas mais apertadas angústias. Quem o manda amar o inimigo, parece que o quer insensível; quem o manda aborrecer o amigo, parece que lhe tira o racional; e quem o manda que, amado, não ame, parece que o supõe pedra ou morto. Que remédio, logo, para satisfazer tantas e tão dificultosas obrigações juntas, e para que não fique nelas o entendimento esmorecido, a vontade desesperada, e toda a alma oprimida? Não é tampouco suave a lei de Deus, que, se dificulta os preceitos, não facilite os remédios. Todas estas dificuldades, que tão feias e tão medonhas se representam ao coração humano, assim como elas são três, assim se vencem com três palavras, que são as que tomei por tema: Diligite — inimicos — vestros. Manda Cristo, Senhor nosso, que amemos nossos inimigos. E só com a imitação deste preceito, que tem alguma dificuldade, se observam os outros dois, sem nenhuma dificuldade. Disse só com a imitação, porque não é necessária a observância deste preceito para observar os outros. Mas, se este preceito trata dos inimigos, e os outros dois dos amigos, se este preceito manda amar, e um dos outros aborrecer, se este diz: amai a quem vos tem ódio, e o outro diz: não ameis a quem vos ama, como pode ser que na imitação deste preceito consista a observância dos outros? Não vos parece isto que digo uma coisa muito maravilhosa? Pois este é o segredo admirável que vos prometi.

Para inteligência dele havemos de supor, em primeiro lugar, que há dois gêneros de inimigos: uns inimigos que nos querem mal, e nos fazem mal com ódio, e outros inimigos que nos querem mal, e nos fazem mal com amor. Os inimigos que nos querem e fazem mal com ódio, são os que Cristo nos manda amar, e estes todos sabemos quais são; os inimigos que nos querem e fazem mal com amor, são os que o mesmo Cristo nos manda aborrecer, e estes porventura não sabeis nem imaginais quais sejam, e agora o sabereis. Sabeis quem são estes inimigos? São todos aqueles que por sangue e parentesco mais ou menos estreito, ou por inclinação natural, ou por trato, ou por benefícios, ou por esperanças e dependências, ou por graças e prendas pessoais, ou por qualquer outro motivo de afeição vos amam desordenadamente. A esposa santa dizia: Ordinavit in me charitatem (6). O amor ordenado é caridade, e o amor desordenado, ainda que a desordem seja ou pareça leve, nem é caridade, nem é amor: é ódio. Como pode ser amar nem querer bem o que me priva ou aparta do sumo bem?

Daqui se segue a segunda coisa que havemos de supor, e é que assim como há dois gêneros de inimigos, assim há dois gêneros de amar e dois gêneros de aborrecer. Há amar bem e amar mal, e há aborrecer mal e aborrecer bem. E em que se distinguem ou diferençam este amar e este aborrecer? Distinguem-se pelos afetos e também pelos efeitos, porque o amar mal é aborrecer, e o aborrecer bem é amar. Os antigos pintavam o amor e o ódio igualmente armados, ambos com arco e aljava; mas o amor diziam que atirava com setas de ouro, as quais tinham por efeito dar vida, e o ódio com setas de ferro, que tinham por efeito matar. Agora pergunto: e se o amor e o ódio trocassem as aljavas, que sucederia neste caso? Sucederia sem dúvida o que conta Anacreonte que sucedeu ao mesmo amor com a morte. Caminhavam — diz — o amor e a morte, cada um a seus intentos, e vieram ambos a fazer noite e albergar na mesma estalagem; levantaram-se muito cedo para continuar seus caminhos, e como havia ainda pouca luz, sucedeu que as aljavas se trocaram; e porque o amor levou as setas da morte, daqui veio que dali por diante as suas feridas foram mortais. O mesmo digo eu que sucederia no nosso caso, não fabulosa, senão verdadeiramente. Se o amor atirasse com as setas do ódio, o amar seria aborrecer; e se o ódio atirasse com as setas do amor, o aborrecer seria amar. Pois isto mesmo que sucederia é o que sucede, e isto mesmo que havia de ser, é o que é, diz Santo Agostinho. Porque o amor, amando mal, aborrece como se fora ódio; e o ódio, aborrecendo bem, ama como se fora amor: Si male amaveris, tunc odisti: si bene oderis, tunc amasti: Se amastes mal, então aborrecestes; se aborrecestes bem, então amastes. — É sentença expressa e sem variação alguma, tirada do mesmo texto de Cristo. E por que não pareça que o nome de admirável, que eu dei a este segredo, é posto por mim, o mesmo Agostinho lhe deu o mesmo nome: Magna et mira sententia.

Supostas estas duas verdades certas e evidentes, em que muitos corações andam tão enganados e tão cegos, cuidando que amam e são amados, quando aborrecem e são aborrecidos, vede quão fácil fica a execução, e quão natural e leve o exercício de todas aquelas que ao princípio nos pareciam dificuldades, violências e tiranias. Pergunto: não é muito fácil não amar eu a quem me não ama, e aborrecer a quem me aborrece? Sim. Pois isto é o que Deus nos manda. Se os que me amam, me amam mal, daqui se segue que tão fácil é não amar eu a quem me ama, como não amar a quem me não ama, porque quem me ama mal, não me ama. E do mesmo modo, tão fácil é aborrecer a quem me ama, como aborrecer a quem me aborrece, porque o amor de quem me ama mal, tão fora está de ser amor, que antes é aborrecimento e ódio. E se alguém disser que ao menos por esta via não guardo o preceito de amar aos inimigos, também infere mal e se engana, porque esse mesmo aborrecê-los e não os amar, é amá-los. A prova é manifesta, mas há mister atenção. Amar mal é aborrecer: Si male amaveris, tunc odisti: logo quem me ama mal, aborrece-me, e porque me aborrece, é meu inimigo. É meu inimigo? Logo, tenho obrigação de o amar: Diligite inimicos vestros. Tenho obrigação de o amar como inimigo? Logo sou obrigado a o aborrecer bem, assim como ele me ama mal; e se eu o aborreço bem, já o amo, porque aborrecer bem é amar: Si bene oderis, tunc amasti.

VII

Parece-me que temos filosofado assaz, posto que toda esta especulação foi necessária para chegarmos ao ponto em que estamos. Agora desçamos à prática dele, que é o que mais importa, e ponhamos o exemplo nas amizades, afeições e correspondências que no mundo se usam — e também nas que se abusam fora do mundo — para que a doutrina chegue a todos. Nenhum amor há mais natural, mais lícito e menos suspeitoso que o dos pais para com os filhos; e contudo é coisa que excede toda a admiração, dizer o divino Mestre, como referimos no princípio, que quem não aborrecer seu pai e sua mãe, não pode ser seu discípulo: Qui non odit patrem et matrem, non potest meus esse discipulus. Abaixo de Deus devemos amar os pais, que depois dele nos deram o ser. Como diz logo o mesmo Deus, que para ser seu discípulo é necessário aborrecer e ter ódio aos próprios pais? Bem se está vendo que este texto há mister declaração, e nenhum lha deu melhor que S. Gregório Papa. Muitas vezes o amor dos pais é desordenado, e não conforme a lei e amor de Deus. Não são todos como Jefté, que sacrificou a filha única, nem todos como Abraão, que não duvidou levar também ao sacrifício o seu primogênito. Quantos, por estabelecer a sucessão da casa, impedem o estado religioso às filhas, e quantos, por terem perto de si os filhos, não fazem caso de que eles andem muito longe de Deus? E pais que querem mais à sua casa que à minha alma, pais que estimam mais o seu gosto que a minha salvação, pais que, porque me deram a vida temporal, me apartam de segurar eu a eterna, vede se são merecedores de amor ou de ódio? Ditosas vós, que por amor do esposo do céu tivestes valor para deixar os pais da terra; ditosas, se por vontade sua os deixastes, e muito mais ditosas, se contra sua vontade fugistes deles. Eles, voluntariamente deixados, sacrificaram em vós o seu amor; e vós, violentamente fugindo deles, consagrastes neles o vosso ódio. Este é o ódio santo com que Cristo manda aborrecer pai e mãe, aos que se quiserem fazer dignos de sua escola; e este o verdadeiro aborrecimento com que lhe devem pagar os filhos o seu falso amor. Nem se encontra o preceito de amar os mesmos pais com este preceito ou conselho de os aborrecer — diz S. Gregório — porque, se eles me aborrecem com amor, justo é que eu os ame com ódio: Quasi enim per odium diligitur, qui dum prava non suggerit, non oditur. Eles aborrecem-me com amor, porque me amam mal: Si male amaveris, tunc odisti; e eu amo-os com ódio, porque os aborreço bem: Si bene oderis, tunc amasti.

Depois do amor dos pais — em que se compreendem todos os graus do sangue — debaixo do nome comum de amigos entrarão geralmente, e com maior decoro, todos os outros que amam e são amados. Quando os amigos eram verdadeiros amigos, era também o nome desta profissão sagrada e venerável: Illud amicitiae sanctum et venerabile nomem. Mas, depois que a sincera amizade, a qual entre o coro das virtudes tinha tão honrado lugar, se desceu de sua dignidade, e acompanhou com os vícios, que amigo ou chamado amigo há hoje que, assim como é o maior inimigo de si mesmo, o não seja também do seu amigo? Tertuliano, falando de certos hereges que negavam a ressurreição da carne, sendo porém grandes amadores dela, chamou-lhes discretamente os amicíssimos inimigos da carne: Inimicos carnis, et nihilominus amicissimos ejus. E, posta de parte a heresia, quem são os amigos do uso, sem lhes fazermos agravo, senão amigos inimicíssimos, ou amicíssimos amigos? E, se não, dizei-me os mais moços — para que guardemos esse respeito às cãs — dizei-me e confessai sem rebuço: de que vos servem esses que tendes por amigos mais íntimos, e que amizades são as suas? Irem convosco ao passeio e à comédia, levarem-vos à casa de jogo e às casas ou serralhos da ruim conversação; acompanharem-vos de noite aos furtos da honra alheia, ou à vingança oculta; serem vossos padrinhos no desafio a que vos levam já excomungado, e vos trazem morto ou mal ferido; serem os secretários de todos vossos cuidados e pensamentos, e os conselheiros de todas as traças, enredos e execuções de vossas loucuras e apetites sem freio; enfim, os cúmplices inseparáveis de todos vossos vícios e pecados, e as guias mais certas para o inferno, cujas estradas vos alargam e asseguram: e tudo isto com tal esquecimento da fé e desprezo da razão, como se não houvera outra vida, nem conta, nem consciência, nem alma, nem Deus. E se quanto tenho dito é menos do que calo e vós sabeis, julgai se pode haver algum inimigo mais cruel e mais inimigo que estes amigos? Não só são os maiores inimigos, mas muito maiores que o maior, porque o maior inimigo pode-vos tirar uma vez a vida do corpo, e estes tiram-vos mil vezes a vida da alma. Ouvi o que lhes diz, e como os trata o apóstolo São Tiago.

Adulteri, nescitis quia amicitia hujus mundi inimica est Dei (7)? Adúlteros, não sabeis que a amizade deste mundo, qual é a vossa, é inimiga de Deus? — Amizade inimiga lhe chama, porque debaixo do nome de amigos, são os mais cruéis inimigos, e não há amizade tão contrária, nem hostilidade tão fera, tão nociva e tão inimiga, como são estas amizades. Mas, reparemos no nome extraordinário de adúlteros, com que o apóstolo ou nomeia ou afronta estes amigos! O qual nome, não só parece impróprio de amigos ou inimigos, mas incapazes eles mesmos de se lhes poder aplicar. O adultério não se pode cometer ou executar, senão entre três: o adúltero, a mulher própria, a quem se nega o legítimo amor, e a estranha, que ilicitamente se busca e ama. Pois, se este ato trágico se não pode representar com menos de três figuras, se o adultério se não pode cometer senão entre três, como pode haver adultério entre dois amigos somente, e esses amados e conformes entre si, e nenhum ofendido do outro, nem aborrecido? Por isso o apóstolo, quando lhes chamou adúlteros, lhes chamou também ignorantes: Adulteri, nescitis? — porque não sabem que o seu amor é aborrecimento, a sua união discórdia, a sua fidelidade traição, e toda a sua amizade o maior ódio. O adúltero divide os seus afetos ou a sua paixão entre duas: a uma aborrece, a outra ama; a uma despreza, a outra estima; a uma ofende, a outra regala; a uma é infiel, a outra mostra fidelidade; a uma trata em tudo como amiga, e a outra como inimiga. E estas mesmas contrariedades, que no adultério se repartem por dois sujeitos, nesta falsa e adulterina amizade, todas se ajuntam e acumulam em um só, que é reciprocamente cada um dos falsos amigos. Como a sua amizade é inimiga e o seu amor não é amor, senão ódio, o mesmo que, enquanto amigo, é amado, estimado, defendido, favorecido e servido, e goza aparentemente os bens do amor, esse mesmo, enquanto inimigo, é aborrecido, ofendido, perseguido, maltratado e destruído, e padece verdadeiramente todos os males do ódio. E a razão destes efeitos tão encontrados e tão unidos não é outra, por última conclusão, senão a que temos dito. A amizade de tais amigos, e o amor dos que assim se amam, porque se amam mal, é verdadeiro ódio; que muito logo, que tendo-se verdadeiro ódio, se queiram mal e se façam mal? O mesmo que se querem, isto se fazem, assim como se fariam bem, se se quisessem bem. Mas quem se quer mal e se faz mal porque se ama mal, não se pode querer bem, nem fazer bem, senão aborrecendo-se bem: Si bene oderis, tunc amasti; si male amaveris, tunc odisti.

VIII

Tempo é já de colhermos as redes. E quantos corações se acharão — pode ser — enredados e presos nelas? Mas, se os peixes, que entre todos os animais são os mais brutos, fazem tanta força pelas romper e se libertar, que alma haverá tão irracional e tão insensível, que sendo a prisão mortal como é, queira antes a prisão que a liberdade? O que se possui com amor — diz o nosso São Bernardo — não se pode deixar sem dor. E que dor seria a de hoje — mas que lágrimas tão venturosas e tão alegres! — se de todos os corações que se amam se houvesse de fazer um apartamento geral? Este é, e este foi o meu intento em todo o discurso que ouvistes. E se lhe destes a atenção que vos pedi, bem creio tereis entendido quão fácil resolução será a que vos pretendo persuadir. Não digo que se deixem de amar os que se amavam, nem de querer-se bem os que se queriam bem: só digo que se se amavam, se amam, e se se queriam bem, não se queriam mal. Concordem-se logo em se amar os que se amam, mas amem-se como devem e como convém a ambas as partes. Quem diz que me ama, porque assim o cuida, ou me quer bem, ou me quer mal. Se me quer mal, quero-o amar como cristão: Diligite inimicos vestros; se me quer bem, quero-o amar como homem, porque todo homem, diz Cristo, ainda que seja gentio, ama a quem o ama: Si enim diligitis eos qui vos diligunt, nonne et ethnici hoc faciun (8)? Na nossa doutrina — que toda é do mesmo Cristo — uma e outra coisa vem a ser muito mais fácil. Se amar mal é aborrecer, que dificuldade tem aborrecer a quem me aborrece? E se aborrecer bem é amar, que dificuldade há em amar a quem me ama? Por isso digo que se amem os que se amam, mas de modo que se queiram bem e não se façam mal.

E porque neste apartamento — que é forçoso — das pessoas e nesta troca — que há de ser voluntária — de um amar, ou modo de amar, em outro, nem os mal-amados se queixem dos que bem os aborrecem, nem os bem aborrecidos dos que mal os amavam: consolem-se uns e outros com a queixa que fazia Davi dos que, pelo mesmo caso, se queixavam dele: Perfecto odio orderam illos, et inimici facti sunt mihi (Sl. 138, 22): Aborreci com perfeito ódio aos que devia aborrecer — diz Davi — e eles entenderam isto tão mal, que por isso se fizeram meus inimigos. — Pois, se vós os aborrecestes, que muito é que eles vos aborreçam? E se vós lhes tivestes ódio, que muito que eles também vos pagassem com ódio, e de amigos vossos se trocassem em inimigos? Muito é — diz Davi — e de quem entende pouco, o que vai de ódio a ódio. O ódio com que eu os aborreci foi ódio perfeito: Perfecto odio oderam illos; e ódio perfeito é verdadeiro amor. Pois, se eu os amei com verdadeiro amor, e essa é a perfeição do ódio com que os aborreci, que causa tiveram eles para se fazerem meus inimigos: Et inimici facti sunt mihi? Nenhuma causa tem logo de se queixar ou agravar deste ódio perfeito, nem os que não professam perfeição — porque também eles são obrigados à consciência — nem, e muito menos, os que a professam, porque seria cometer um sacrilégio, e consentir e concorrer para outro com dobrada ofensa e injúria — por não lhe chamar escândalo — da mesma perfeição. O que devem fazer nesta troca de amor imperfeito e ilícito com o ódio perfeito e santo, todos os que, amando-se mal, se aborrecem, é darem-se o parabém a si e ao seu mesmo amor, pois não pode haver parabém mais justo e bem-aceito, que quando o que era mal se trocou em bem, e quando se começam a querer bem sem engano os que, enganados e cegos, se queriam mal.

E se o nome de ódio — que sempre é odioso — ainda com ser perfeito, lhes causa algum horror, ouçam a suavidade divina com que a suprema verdade e sabedoria do mesmo Cristo lhe tirou todo este medo com outro maior: Qui amat animam suam, perdet eam; et qui odit animam suam, in vitam aeternam custodit eam (Jo. 12,25): Quem ama a sua alma, perdê-la-á, e quem lhe tiver ódio, salvá-la-á para sempre. — Não é melhor o ódio que me salva, que o amor que me perde? Não é melhor a triaga amargosa que me dá vida, que o veneno doce que me mata? Pois este é o amor e o veneno que o médico divino condena, e este o ódio e a triaga que receita, aprova e persuade. Oh! como é louco e sem juízo todo o amor desordenado! Pode haver maior loucura que estimar mais a enfermidade que a saúde, e mais a morte que a vida? Se vós amais mal, ao menos não mateis a quem vos ama. Animam suam, na língua em que falava Cristo, quer dizer a alma, a vida e a pessoa. E por que se não contentará quem vos ama, de ser amado como vós amais a vossa alma, como amais vossa vida, e como vos amais a vós mesmo? Não é isto desamar, nem pretendeu Cristo, quando o disse, que nos amássemos menos, mas que fizéssemos verdadeiros os encarecimentos vãos dos que se amam. Então amareis a quem vos ama como a vossa vida, como a vossa alma, e como a vós mesmo em alma e corpo, quando amardes e zelardes igualmente tanto a sua salvação como a vossa, a qual se não consegue nem pode conseguir senão por beneficio deste ódio: Qui odit animam suam, in vitam aeternam custodit eam.

Reparai se tendes fé naquele aeternam. A vida que depende deste ódio não é outra que a eterna. Esta é a que se perde por quatro dias de amor, e esta a que, por outros tantos de ódio, se assegura para sempre. E então, que digam e cuidem que se querem bem os que, só por se quererem, não querem o sumo bem! E que creiamos que nos amamos e não nos aborrecemos, quando nos aborrecemos para o céu e nos amamos para o inferno? Se vos amais, e estimais tanto o ser amado, por amor do vosso mesmo amor deveis fazer estas tréguas e esta suspensão de afetos, entre vós e com ele. Porque, se fordes ao céu, os mesmos que agora vos amais, lá vos haveis de amar eternamente. E, pelo contrário, se fordes ao inferno — o que Deus não permita — lá vós haveis de aborrecer com ódio imortal, enquanto o mesmo Deus for Deus. Será logo bem que, por um falso amor de poucos dias, percais o verdadeiro amor de toda a eternidade, e que este mesmo amor com que vos amais — e só porque vos amais — se haja de converter em ódio eterno?

IX

Mas ainda que não houvera inferno, nem paraíso, nem cristandade, nem religião, bastava só ter entendimento e juízo para que esta apreensão e quimera que se chama amor fosse aborrecida e detestada como rematada loucura. Se no mundo houvera amor, ainda que acima do mesmo mundo — como dizia — não houvera céu, nem abaixo dele inferno, eu vos concedera que amásseis; mas perder, não digo já a alma, de que agora não falo, mas a liberdade, a quietação, o sossego, o descanso e a vida, e condenar o triste coração ao perpétuo martírio de cuidados, confusões e tormentos, e a estar ou andar sempre penando fora de si, por uma imaginação fantástica do que não há nem é, nem o nome de loucura e cegueira basta a declarar o desvario de tão custoso engano.

E para que vos desenganeis que não há amor, e que este nome especioso, ainda nos que parece mais fino, é falso, ponhamos o exemplo em ambos os sexos, para que chegue o desengano a todos, e nem os homens se enganem com as mulheres, nem as mulheres com os homens. Entre os homens houve porventura algum amante mais perdido que Adão e Eva? Tão perdido que por ametade de uma maçã deu um mundo inteiro, e não pelo que era a maçã, senão pela mão de quem vinha. Tão perdido que perdeu o paraíso, se perdeu a si, e nos perdeu a nós e todos seus descendentes, por não perder um leve agrado de quem imaginava então que amava muito. Mas, assim como Adão se enganou com o pomo, se enganou também com o seu próprio amor. Chegou a ocasião de mostrar qual ele era, e logo desfez a mesma fineza tão grosseiramente que, sendo o preceito sob pena de morte, para ele se livrar a si, acusou a Eva: Mulier quam dedisti mihi (9). Enquanto cuidou que a pena da lei era somente cominação, grandes aparências de fineza — que tudo o que dissemos foram só aparências — mas tanto que viu que a devassa ia deveras, livre-me eu uma vez, e padeça Eva embora. Pois estes eram, Adão, os vossos amores, estas as vossas finezas, estes os vossos extremos tão afetuosos? Estes eram. Estes eram os de Adão, e estes são os de seus filhos, para que na primeira mulher aprendam as mulheres, e no primeiro homem se desenganem de todos.

E os homens, onde conheceram o amor das mulheres? Não é necessário repetir o exemplo, porque já o vimos na amante de José. Não reparou na autoridade, sendo princesa, nem na lealdade, sendo casada, nem na desigualdade, sendo ela senhora e ele escravo, porque nada disto via. Por isso diz a Escritura, não que pôs os olhos em José, senão que lhos lançou ou lhe atirou com eles: Injecit oculos in Joseph (10), para significar que em tudo o que fez e pretendeu obrou como cega. Mas, tanto que recuperou a vista, logo viu a falsidade de seu amor, e como se quisesse vingar a Eva, o mesmo que Adão disse a Deus disse ela ao marido: Ingressus est servus Hebraeus, quem adduxisti, ut illuderet mihi (Gên. 39,17): Eis aqui para que me trouxestes a casa o servo hebreu, para que ele se atrevesse a me querer descompor. — Oh! falsa! Oh! desleal! Oh! fementida! Oh! traidora! Agora, porém, só verdadeira, quando descobriste o avesso do teu coração, e nele o interior inconstante e já mudado com que a José enganavas e a ti mesma mentias. Mas, que muito é que mudasse tão de repente a cena de amor de uma mulher, quando o primeiro autor de semelhante tragédia foi o primeiro homem? Se os homens querem outro exemplo, lembrem-se do amor de Dalila para com Sansão. E se as mulheres quiserem também outro, não se esqueçam do amor de Amon para com Tamar, no mesmo dia com os maiores extremos amada, e no mesmo com muito maiores aborrecida. Assim tratou um homem, que tinha obrigações de ser honrado, a mulher mais ilustre de Israel; e assim pagou uma mulher, de que se tinha feito a maior confiança, ao homem mais famoso do mundo.

Eu bem ouço que as mulheres, e não os homens, têm a opinião da inconstância; mas eles são filhos delas. Olhai que bem o notou Jó com ser homem: Homo natus de muliere, nunquam in eodem statu permanet (Jó 14,1 s): O homem filho da mulher é tão vário, tão mudável e tão inconstante, que nunca permanece nem dura no mesmo estado. — Mas, se todo o homem nasce de mulher e de homem, por que lhe chama Jó neste caso só nascido de mulher: Homo natus de muliere? Porque os homens no sexo saem aos pais, e na inconstância às mães. Porém daqui mesmo se colhe que tão inconstantes são os homens como as mulheres: os homens, por filhos de tais mães, e as mulheres por mães de tais filhos: Homo natus de muliere. A mulher inconstante por condição, o homem inconstante por nascimento; a mulher, como a lua, por natureza; o homem, como o mar, por influência. Vede o que disse Cristo a uma mulher, a samaritana. Era ela não só a mais discreta de que se lê no Evangelho, senão também a mais sábia, pelas questões que altercou com o mesmo Cristo. E que lhe disse o Senhor? Quinque viros habuisti, et hunc quem habes non est tuus vir (11). Além do amigo que agora tens, já tiveste outros cinco. — Pois cinco amigos, um depois dos outros, uma só mulher, e não de muita idade? Aí vereis a inconstância do amor humano. Mas, reparai no que porventura não advertis. Ou a samaritana deixou aos cinco, ou os cinco a deixaram a ela: se eles a deixaram a ela, fiai-vos lá de amor de homens? E se ela os deixou a eles, quem se fiará de amor de mulher?

Bem digo eu logo que isto que no mundo se chama amor é uma coisa que não há nem é. É quimera, é mentira, é engano, é uma doença da imaginação, e por isso basta para ser tormento. Pode haver maior tormento que amar, quando menos em perpétua dúvida, amar em perpétua suspeita de ser ou não ser amado? Pois este é o inferno sem redenção a que se condenam todos os que amam humanamente, e tanto mais, quanto mais amarem. Ouvi umas palavras que tendes ouvido muitas vezes, mas com uma consideração em que nunca reparastes — Fortis est ut mors dilectio, dura sicut infernus aemutatio (Cân. 8,6): O amor é forte como a morte, e o ciúme cruel como o inferno. — Assim o declara o texto original hebreu, o grego, o siro e o arábico: Crudelis sicut infernus zelotipia. Todos sabeis que à morte, a qual é trânsito e passagem, se seguem outros dois termos de que se não passa: ou inferno ou paraíso. Pois, se o amor é como a morte: Fortis est ut mors dilectio, por que se não segue também depois do amor ou paraíso, ou inferno, senão inferno somente: Dura sicut infernus aemulatio? Porque o amor desta vida e deste mundo é uma morte que só tem precitos, e não tem predestinados; é uma morte pela qual sempre se vai ao inferno e nunca ao paraíso. O paraíso do amor — se o houvera — havia de ser amar e ser amado, e amado com certeza de nunca ser aborrecido. Mas como não há, nem pode haver no mundo, nem este amor, nem esta certeza, senão as dúvidas, os escrúpulos, as desconfianças, os receios e as suspeitas de se me amam ou não me amam, ou de que já me ama menos que dantes, ou que trocam o meu amor por outro, ou de que outrem pretende o que eu amo, em que consiste por vários modos o tormento crudelíssimo do ciúme, este ciúme sempre duvidoso, sempre crédulo, sempre fixo na imaginação, e nunca satisfeito, este é o inferno inevitável e sem redenção a que todos os que amam se condenam, e em que são atormentados duramente, sem fim e sem remédio: Dura sicut infernus aemulatio.

Pois, se o que neste mundo se chama amor, bem considerado e conhecido, e visto com os olhos abertos, é um inferno, que será se a este inferno ajuntarmos o da outra vida, no qual estão ardendo e arderão por toda a eternidade tantas almas infelizes, que por amarem o que não deviam, e como não deviam, não repararam em se condenar para sempre. Mas, graças ao divino Mestre e luz de nossas cegueiras, que se quisermos sair do abismo e labirinto delas, ainda estamos em tempo de trocarmos estes dois infernos por outros dois paraísos, um aqui, outro no céu. Aborreçamos com verdadeiro amor o que amávamos com verdadeiro ódio; queiram-se o verdadeiro bem os que verdadeiramente se queriam mal. E para que desde logo entremos no paraíso presente, livre de penas e cuidados, amemos só aquele soberano Amante — e mais os que o têm por Esposo — o qual é certo e de fé, que paga uma nossa vontade com duas suas, a divina e a humana, tão fiel, tão constante, tão amoroso, que a todos os que o amam com verdadeiro amor, posto que limitado, ele não deixou jamais de amar com amor imenso e infinito. Ego diligentes me diligo (Prov. 8, 17), diz o mesmo Cristo: Eu, Deus e Homem, amo a todos os que me amam. — E o nosso S. Bernardo, pregando aos seus religiosos, e ajuntando à certeza da fé as evidências do que tinha experimentado, dizia: Ego amans amari me dubitare non possum, non plusquam amare: Eu, quando amo a Jesus, de nenhum modo posso duvidar que também sou amado dele, tão seguro do seu amor, que não vejo com os olhos, como do meu, que sinto no coração.

E sendo isto assim, e o mesmo Cristo quem é, e nós cristãos, e tendo fé, que seja tal a nossa demência que o não amemos a ele, e empreguemos nosso coração em outro amor? E que haja almas racionais tão sem juízo e tão inimigas de Deus e de si, que contra si cometam uma tal desumanidade, e contra Deus um tão descomedido desprezo? Desprezo digo, porque, com nome de desprezado e enjeitado, se lamenta de nós o mesmo Senhor. Apareceu Cristo, Senhor nosso, a Santa Brígida, com rosto compungido e cheio de confusão, e como envergonhado e corrido lhe disse estas sentidas palavras: Ab omnibus neglectus sum, ab omnibus repulsus sum, quia nemo me in sua dilectione habere desiderat: Não estranhes, filha, que me saiam ao rosto estes sinais da mágoa e sentimento, porque todos me desprezam, todos me enjeitam e lançam de si, e não há quem aceite o meu amor. — Verdadeiramente que quem se não enternece com estas palavras e não se compadece do Filho de Deus, e não tem lástima ao seu amor, tão justamente queixoso e magoado, nem é cristão, nem é homem. E que seria se nós entrássemos também neste número dos que o enjeitam e desprezam?

Senhor, Senhor, não permita vossa bondade tal, nem nos castigue tão severamente a justa indignação de vosso amor. Todos prostrados a vossos pés nos arrependemos, não de o ter desprezado, não, que sempre o estimamos e adoramos como nosso, mas de o ter tão cegamente ofendido. Confessamos nossa cegueira, confessamos nossa ingratidão, só menor que vossa misericórdia. Ela nos valha com vosso piedosíssimo coração, e nós, com todos os nossos, desde esta hora, para sempre, abjuramos, renunciamos e condenamos a perpétuo esquecimento todo o outro afeto, todo o outro desejo e todo o outro pensamento, que não for de só a vós amar e querer. Morra nesta hora, e acabe-se nesta geral despedida, para sempre, todo o amor que não for de Jesus. E desengane-se toda a outra afeição, vista, conversação ou correspondência humana, que só com o aborrecimento daqui por diante será amada na terra, para que o falso e breve amor, convertido em verdadeiro, se continue eternamente, e dure sem fim no céu.

(1) Amai a vossos inimigos (Mt. 5,44).

(2) Aug. in Ps. 118.

(3) O meu amado é para mim e eu para ele (Cânt. 2,16).

(4) Bernard. Serm. 69.

(5) A alma de Jônatas se conglutinou com a de Davi (1 Rs. 18,1).

(6) Ordenou em mim a caridade (Cânt. 2,4).

(7) Adúlteros, não sabeis que a amizade deste mundo é inimiga de Deus (Tg. 4,4)?

(8) Por que se vós não amais senão os que vos amam, não fazem também assim os gentios (Mt. 5,46 s)?

(9) A mulher, que tu me deste (Gên. 3, 12).

(10) Lançou os olhos sobre José (Gên. 39,7).

(11) Tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu marido (Jo. 4,18).

Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma - 1651

Ego autem dico vobis: Diligite inimicos vestros, benefacile his qui oderunt vos (1).

I

Que depressa nos leva a Igreja a Deus, e com toda a alma! Anteontem nos excitou a memória, ontem nos ilustrou o entendimento, hoje nos aperfeiçoa a vontade. Excitou-nos a memória com a lembrança da morte: Memento homo quia pulvis es (2); ilustrou-nos o entendimento com o maior exemplo da fé: Non inveni tantam fidem in Israel (3); aperfeiçoa-nos a vontade com o ato mais heróico da caridade, que é o amor dos inimigos: Diligite inimicos vestros. Este ato, como tão singular da lei e tão próprio da profissão cristã, será o assunto único de todo o meu discurso. E, posto que a matéria do amor dos inimigos seja tão pregada e tão batida, o que determino tratar sobre ela é uma questão muito nova e muito própria deste lugar. Funda-se toda sobre aquele Vós do nosso texto: Ego autem dico vobis. E a questão ou dúvida é: se debaixo deste vós se entendem também as altezas e as majestades. As pessoas soberanas são superiores a toda a lei, e por isso será necessário examinar exatamente até onde se estende o preceito de Cristo, e resolver com a graça do mesmo Senhor, e sem lisonja de nenhum outro, se são obrigados também os reis a amar seus inimigos.

II

Primeiramente parece que não são obrigados. E está por esta parte toda a autoridade de Salomão em uma obra famosa de sua sabedoria e grandeza. No capítulo terceiro dos Cânticos descreve ele a fábrica de uma carroça triunfal, em que saía a passear pela corte de Jerusalém nos dias de maior solenidade. A matéria era dos lenhos mais preciosos e cheirosos do Líbano, as colunas de prata, o trono de ouro, as almofadas de púrpura, e no estrado onde punha os pés estava esculpida a caridade: Ferculum fecit sibi Rex Salomon de lignis Libani: columnas ejus fecit argenteas, reclinatorium aurem, ascensum purpureum; media charitate constravit (4). Nestas últimas palavras está o reparo, não só grande, mas digno de suma admiração. É possível que um rei tão sábio como Salomão, e não gentio, senão fiel, quando faz a maior ostentação de sua grandeza e majestade, leve a caridade debaixo dos pés? O rei assentado no trono, e a caridade debaixo dos pés do rei? O rei entronizado, e a caridade pisada: Media charitate constravit? Sim, porque cuidam alguns reis — ou obram como se o cuidaram — que tão fora estão de serem sujeitos às leis da caridade, que antes a mesma caridade e todas suas leis lhes estão sujeitas a eles. Não falo dos Neros, nem dos Calígulas, e muito menos dos Sardanapalos, que semelhantes monstros da natureza humana eram tiranos crudelíssimos, e não reis nem homem. Falo dos que são como Salomão naquele tempo, e do mesmo Salomão particularmente, o qual, para a pompa e vaidades inúteis, e para fazer a sua corte inveja das outras e ostentação de todo mundo, carregou e oprimiu os seus povos com tal excesso, que chegaram por desesperação a sacudir o jugo e privar da obediência e do reino a Roboão, seu primogênito. Se se antojava o apetite e vaidade de Salomão já perdido, que houvesse prata e mais prata: columnas argenteas, que houvesse ouro e mais ouro: reclinatorium aureum, que houvesse púrpura e mais púrpura: ascensum purpureum. — Tudo isto há de haver, dizia ele, por qualquer via, por mais violenta que seja. E, se a caridade o contradisser, mete-se a caridade debaixo dos pés. — Pois, não vês, ó rei sábio, a opressão e opressões do teu povo? Não ouves os gemidos dos pobres? Não te lastimam as lágrimas dos miseráveis? Não consideras que o nome de rei te obriga a ser pai dos vassalos? Não reconheces no seu mesmo sofrimento que todos te amam como filhos, e que, quando te aborreceram e foram teus inimigos, os deveras, contudo, amar? Onde está a proximidade? Onde está a humanidade? Onde está a caridade? Onde? Lá está, debaixo dos pés do rei, porque os reis não são sujeitos à caridade nem a suas leis: Media charitate constravit.

A este hieroglífico de Salomão se ajunta um argumento para mim de muito formal conseqüência. Os reis não são obrigados a amar os amigos: logo, muito menos, a amar os inimigos. Quem não tem amor para o amor, como há de ter amor para o ódio? Não há entre todos os corações humanos e entre todos os estados do mundo nem vontades mais desamoráveis que as soberanas, nem coisa mais oposta ao amor que a majestade. E por que razão, se razão se pode chamar? Por duas. Pela desigualdade e pela obrigação dos vassalos. O amor recíproco, que por outro nome se chama amizade, diz Aristóteles que o não pode haver senão entre iguais; e como entre os reis e os vassalos há uma desigualdade tão distante, como do inferior ao supremo, a mesma soberania, que os remonta sobre a igualdade, os desobriga da correspondência. E porque amaremos vassalos ao rei é obrigação natural, esta é a segunda isenção ou regalia que logram as majestades para nem lhes ser necessário amar para ser amados, nem depois de ser amados, ficarem obrigados a amar. Como o amor dos vassalos é dívida, nem os reis ficam obrigados à paga, nem os vassalos têm ação para a desejar nem pedir. Daqui se segue aquela grande dor — por lhe não chamar injustiça — de que tenha mais ventura com os reis o servir que o amar, porque os serviços alguma vez são premiados, o amor nunca é correspondido. Não seriam as majestades majestades se se sujeitassem a amar. Por quê? Por outras duas razões da sua parte. Amar é inclinar-se à vontade primeiro, e depois render-se; e o render-se é contra a potência da majestade, o inclinar-se contra a soberania. Por isso disse bem quem lhe conhecia esta condição, que nem pode haver majestade com amor, nem amor com majestade: Non bene conveniunt, nec in una sede morantur majestas et amor E se os reis, como dizia, nem amados se inclinam a amar os amigos, odiados e aborrecidos, como se hão de sujeitar a amar inimigos?

Seja exemplo o rei de melhor coração de quantos empunharam cetro. Teve Davi muitos e grandes inimigos — que não fora Davi se os não tivera. — E como os amava? Ele mesmo o diga: Persequar inimicos meos, et comprehendam illos, et non convertar; donec deficiant. Confringam illos, nec poteterunt stare; cadent subtus pedes meos (5). A meus inimigos hei-os de perseguir até os tomar às mãos, nem hei de desistir ou descansar até os desfazer e consumir de todo. Eu lhes quebrarei o orgulho e lhes torcerei o pescoço, até os meter debaixo dos pés. E se Cristo manda que não só façamos bem aos inimigos, mas que oremos por eles: Et orate pro persequentibus et calumniantibus vos (6), ouvi como os encomendava o mesmo Davi a Deus em suas orações: Averte mala inimicis meis, et in veritate tua disperde illos (7):O mal que me desejam meus inimigos, peço-vos, Senhor, que o convertais contra eles, e que pela má vontade que me têm, vós lhes ponhais as mãos e a boa vontade, destruindo-os e aniquilando-os — que isso quer dizer disperde. Finalmente, chegado à hora da morte, tempo em que até os corações mais duros não só perdoam a seus inimigos, mas lhes pedem perdão, duas mandas do testamento de Davi foram deixar muito encarregado a seu filho Salomão que de nenhum modo se esquecesse de mandar matar a Joab e a Semei, por certos agravos que lhe tinham feito. E se desta maneira amava a seus inimigos um rei canonizado, que se levantava à meia-noite a rezar o saltério, e debaixo da púrpura vestia cilícios, os que não são tão santos nem tão beatos, vede como guardaram o diligite inimicos vestrost (8), e como tomaram por si o dico vobist(9)?

III

Isto é o que se oferece pela primeira parte, e mais aparente que sólida da nossa questão; a segunda não só defende, mas define que também as altezas e majestades, por mais altas e soberanas que sejam, se entendem e compreendem debaixo daquele vobis, e que todas igualmente, como os outros cristãos, sem nenhuma exceção nem privilégio, estão sujeitos ao preceito de Cristo, e obrigados a amar seus inimigos e a lhes fazer bem: Diligite inimicos vestros, et benefacite his qui oderunt vos.

O fundamento desta obrigação está na primeira palavra do mesmo texto: Ego autem dico vobis. Ego: Eu. E quem é esse eu? Não é Platão, nem Licurgo, nem Numa Pompílio, cujas leis, contudo, por serem racionais, as veneravam e obedeciam todos os reis que alcançaram fama de justos; mas é aquele Eu que disse a Moisés: Ego sum qui sum (Êx. 3,14): Eu sou o que sou — o que só tem o ser de si, e o deu a todas as coisas; aquele Eu que faz os reis e também os desfaz, quando eles não fazem o que devem: Per me reges regnant (10); aquele Eu que traz escrito na orla da opa real: Rex Regum, et Dominus dominantium (Apc. 19,16): Rei dos reis, e Senhor dos senhores; aquele Eu de quem os reis são mais súditos do que os vassalos dos reis, porque os reis todos receberam o domínio e jurisdição da mão e consenso dos povos e, se conservam em si, e perpetuam na sua posteridade o mesmo poder e soberania, é por mercê e à mercê de Deus, enquanto ele for servido, e com um aceno da sua vontade não mandar o contrário. E este Eu: Ego autem dico vobis — este Eu é o que diz a todos, sem distinção nem exceção de pessoas ou dignidades: Diligite inimicos vestros, para que entendam os reis da terra e de terra: Et nunc, reges, intelligite: erudimini qui judicatis terram (11) — que este e qualquer outro preceito de Deus o devem receber não pesadamente, senão com alegria, e observar com temor e tremor: Servite Domino in timore, et exultate ei cum tremore (12), sob pena de que, se eles não amarem os inimigos, Deus os terá por inimigos a eles, e os destruirá, e perecerão como tais: Ne quandeo irascatur Dominus, et pereatis de via justa (13).

Nem faz contra isto o exemplo alegado de Davi, antes persuade o contrário, porque Davi era soldado de Deus e capitão general de seus exércitos, e aqueles, a quem chamava seus inimigos, eram os inimigos de Deus, observando tal diferença e distinção entre uns e outros, que aos inimigos seus amava e fazia bem, e só aos de Deus perseguia e fazia cruel guerra, tão insigne vingador das injúrias divinas, como perdoador das próprias. Assim perdoou tantas vezes a Saul, e desejou perdoar a Absalão, e sentiu e lamentou sua morte, como a de Abner, alegando sempre a Deus que a nenhum seu inimigo dera mal por mal: Si reddidi retribuentibus mihi mala (14), sendo eles tão ingratos que lhe davam mal por bem: Retribuebant mihi mala pro bonisti (15). E se mandou matar a Joab e a Semei, foi por justiça, como rei, e não por vingança, guardando estas duas sentenças e execuções para o testamento e para a hora da morte, para que se visse que o fazia por escrúpulo, e não por ódio. Este era o coração de Davi, e, por isso, coração verdadeiramente real e digno de que Deus tirasse a coroa da cabeça de Saul para lha pôr na sua, como o mesmo Saul confessou.

Andava Saul pelos montes à caça de Davi para lhe tirar a vida, quando acaso entrou só em uma gruta onde o mesmo Davi estava escondido com os poucos que seguiam sua fortuna. Todos lhe disseram e instaram que lograsse a ocasião que Deus lhe tinha metido nas mãos, e, com a morte de Saul, se livrasse de uma vez das suas perseguições. Mas ele, contentando-se com lhe cortar um retalho da roupa para amostra da sua fidelidade, depois que Saul saiu da gruta apareceu subitamente diante dele, e mostrando-lhe aquele testemunho tão claro do perigo em que estivera e da vida que lhe não quisera tirar nem consentir que lha tirassem, prostrado a seus pés lhe disse desta sorte: — Eis aqui, ó Rei de Israel, a quem andas buscando pelos desertos para o matar. Eis aqui aquele bichinho vil da terra, à caça do qual sai da sua corte em pessoa um tão grande monarca. Eis aqui como te merece que o persigas com tão mortal ódio, e o faças andar desterrado e fugitivo de ti por estes montes. -Ficou assombrado do que via e do que ouvia Saul, e, compungido, e com as lágrimas nos olhos, lhe disse: Agora conheço, Davi — e não só lhe chamou Davi, senão filho — agora conheço, filho, e sei certissimamente que hás de reinar, e que deste mesmo Reino de Israel, que eu chamo meu, hás de ser tu o rei. Nunc scio quod certissime regnaturus sis, et habiturus in manu tua regnum Israel (1 Rs. 24, 21). O que só te peço, é que me prometas e jures diante de Deus que a mesma piedade que usaste comigo, a terás da minha casa e descendência, e não extinguirás do mundo o meu nome: Jura mihi ne deleas semen meum post me, neque auferas nomem meum de domo patris mei (16). Tão certa e infalivelmente conheceu e creu Saul que havia Davi de ser rei. Mas aonde tirou esta certeza, que chama certíssima, e não antes, senão agora e neste mesmo caso: Nunc scio quod certissime regnaturus sis?

Abulense, e todos os outros expositores dizem que o inferiu Saul da generosidade de ânimo com que, sendo tão capital inimigo de Davi, ele lhe perdoara. Mas não é necessário que o digam expositores, porque o mesmo Saul o ponderou e o disse. Notai todas as palavras: Tu enim tribuisti mihi bona; ego autem reddidi tibi mala (Ibid. 18): Porque tu, Davi, deste-me bem por mal, sendo que eu sempre te dei mal por bem. Et tu indicasti hodie quae feceris mihi bona: quomodo tradiderit me Dominus in manum tuam, et non occideris me (Ibid. 19): E bem mostraste e provaste hoje isto que digo, pois, entregando-me Deus nas tuas mãos, e podendo-me matar, me deste a vida. Quis enim, cum invenerit inimicum suum, dimittet eum in via bona: Por que que homem há que, tendo seu inimigo debaixo da lança, lhe perdoe e o deixe ir em paz? Sed Dominus reddat tibi vicissitudinem hanc pro eo quod hodie operatus es in me (Ibid. 20): Mas eu confio e estou certo — concluiu Saul — que Deus não há de deixar sem prêmio esta diferença que hoje usaste comigo. E como? Tirando-me a mim a coroa da cabeça, e pondo-a na tua: Quia scio quod certissime regnaturus sis (17). Assim entendeu Saul, posto que obrava o contrário, que um homem que, tendo na sua mão a vingança, não sabia vingar agravos, um homem que, podendo fazer mal a seu maior inimigo, lhe fazia os maiores bens, um homem que pagava o ódio com amor, e a morte, que lhe queriam dar, com a vida, um tal homem como este, não o tinha Deus dotado de um coração tão generoso e tão real, senão porque o queria e havia de fazer rei: Quod regnaturus sis.

Reparem muito os reis no que inferiu com tanta certeza este rei, e reparem também no que eu agora quero inferir, não com menor certeza. Assim como é certo que Deus deu a coroa a Davi porque se não vingou de Saul, assim digo, e tenho por certo que, se Davi pelo contrário se vingara, ainda que Deus o tivesse destinado para a coroa, lha não havia de dar. Caso notável é que repartindo Jacó na hora da morte a bênção que tocava ou havia de tocar a cada um de seus filhos, a do cetro e coroa de Israel a desse e colocasse no quarto. Este quarto filho era então Judas, do qual descenderam os Davis, os Salomões e outros reis do reino por isso chamado de Judá, e do qual também descendeu Cristo. Mas, por que razão? O reino e a primeira bênção, segundo o uso dos patriarcas e conforme a lei natural que ainda hoje se observa, pertence ao primogênito, que era Rúben. E, posto que Rúben perdeu este direito e se fez indigno da coroa pela gravíssima injúria que cometeu contra seu pai, no incesto que todos sabem, a Rúben seguia-se, com o mesmo direito, Simeão, que era o filho segundo, e a Simeão se seguia Levi, que era o terceiro. Pois, por que não deu Jacó a bênção ou investidura do reino nem a Simeão, nem a Levi, senão a Judas, e, deixando deserdados daquele grande e supremo morgado ao segundo e ao terceiro filho, o assentou e instituiu no quarto?

Também aqui não havemos mister doutores, porque na bênção de ambos os deserdados dá o mesmo texto e o mesmo Jacó a causa: Simeon et Levi fratres, vasa iniquitatis bellantia. In consilium eorum non veniat anima mea, et in caetu illorum non sit gloria mea, quia in furore suo occiderunt virum, et in voluntate sua suffoderunt murum. Maledictus furor eorum, quia pertinax, et indignatio eorum, quia durat (18). Simeão e Levi foram aqueles dois irmãos que, para vingar a injúria que o príncipe Siquém tinha feito à sua irmã, mataram ao mesmo Siquém e a todos os siquemistas, e lhes destruíram e assolaram a cidade. E homens tão duros de coração, homens tão furiosos, pertinazes e vingativos — posto que a causa parecesse justificada — não só não são dignos de reinar, nem de ter o supremo domínio sobre os outros homens, mas merecem justissimamente que, se por outra qualquer via lhes pertence o cetro e a coroa, de nenhum modo, e em nenhum tempo a logrem, antes sejam para sempre privados e deserdados do reino, como eu, com a minha maldição, em nome de Deus os deserdo. — Isto disse e fez Jacó, deserdando e privando do reino aos dois filhos, a quem de direito pertencia, só por serem vingativos e não perdoarem agravos. E o mesmo sucederia sem dúvida a Davi, se ele, como perdão de Saul, lhe não tirara da cabeça a coroa de que, por inimigo, era indigno, e a pusera na sua.

De tão longe ia Deus estabelecendo e fundando já o preceito que hoje havia de promulgar por sua própria boca, ensinando, com tão graves e temerosas experiências, aos reis que quando dissesse: Ego dico vobis, também falava com eles. E notem os que de presente reinam que com muito maior razão lho diz hoje Cristo do que o disse antigamente, porque aquele Eu: Ego autem, ainda então não era o que hoje é. Era Deus, era supremo Legislador, era Rei dos Reis, mas ainda não era Rei que tivesse pedido perdão pelos que o crucificavam, nem Rei que tivesse tomado por título Rei dos que lhe tiraram a vida. Lendo Santo Agostinho no título da cruz Rex Judaeorum (Jo. 19,19), admira-se muito de que Cristo tomasse título de Rei dos judeus, sendo Rei de todo o mundo e de todas as nações dele. Nos quatro braços da mesma cruz se significava o domínio que tinha o Rei crucificado sobre as quatro partes do mundo; e nas letras hebraicas, gregas e latinas, que eram as mais universais, o senhorio e império de todas as nações. Pois, se Cristo era Rei de todo o mundo e de todos os homens, por que toma só por título o de Rei dos judeus? Porque, ainda que era Rei de todos, e morrera por todos, só os judeus foram aqueles que lhe tiraram a vida, e onde foi maior o amor dos inimigos, ali assentou melhor o título de Rei. Rei de todos, Redentor de todos, e o que perdoou os pecados de todos; mas dos judeus, de quem recebeu os maiores agravos, dos judeus que lhe tiveram o maior ódio, dos judeus que mais que todos foram seus inimigos, desses particularmente Rei: Rex Judaeorum. Para que acabem de entender os que são e se chamam reis, que não só pelo preceito que lhes pus, senão pelo exemplo que lhes dei, e para perpetuarem os seus reinos, como eu eternizei o meu, todos sem exceção, são obrigados ao amor dos inimigos, e todos a fazer bem aos que lhes tiverem ódio: Diligite inimicos vestros, et benefacite his qui oderunt vos.

IV

Declarado o dico vobis, e provado como também aos reis compreende o preceito de amar os inimigos, segue-se a declaração do diligite, e o modo com que os hão de amar, cuja prática, se for como se usa, não tem menos dificuldade nem menor perigo. Mas, antes que cheguemos a este ponto, é necessário averiguar outro, e saber e distinguir quem são os inimigos dos reis. Perguntando um doutor da lei a Cristo, Senhor nosso, que havia de fazer para se salvar, respondeu o Senhor que amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo, fazendo-lhe primeiro repetir o texto: Diliges Dominum Deum tuum ex toto corde tuo, et proximum tuum sicut te ipsum (19). Porém o doutor, para se justificar, como diz S. Lucas: Volens justificare seipsum (20), desta mesma resposta de Cristo levantou outra questão, dizendo: Et quis est meus proximus (Lc. 10,29)? Bem está que seja eu obrigado a amar a meu próximo, mas esse meu próximo, quem é? O mesmo digo eu, ou me podem dizer e perguntar a mim. Bem provado está que os reis têm obrigação de amar a seus inimigos; mas esses inimigos dos reis, quem são? A resposta não é fácil, antes tal e de tão mau gosto, que se eu a der, como devo, também pode granjear inimigos.

Começando pelos de mais longe, parece que os inimigos dos reis são os que lhes impugnam o reino, os que lhes sitiam as cidades, os que lhes infestam os mares, os que lhes roubam as conquistas, e os outros, que por qualquer modo lhes fazem guerra. Mas estes não são os de que mais propriamente fala Cristo. Os que nos fazem guerra -posto que a nossa língua equivocamente lhes dê o mesmo nome — não se chamam propriamente inimicos, chamam-se hostes. Inimicos são os inimigos por inimizade e ódio, como costumam ser os de dentro: hostes são os inimigos por hostilidade e por guerra, que só podem ser os estranhos e os de fora. Isto posto Tertuliano teve para si que nenhum cristão podia ser hoste: Christianus nullius est hostis. E, persistindo coerentemente neste seu parecer, chegou a afirmar que nenhum rei podia ser cristão, nem algum homem, que fosse cristão, podia ser rei: Si christiani Caesares esse possent, aut Caesares christiani. E que fundamento teve ou podia ter este antiquíssimo autor, e de muito são e profundo juízo em outras matérias — ao qual S. Cipriano chamava o Mestre — para ensinar uma doutrina tão alheia do que hoje se pratica em toda a cristandade? O fundamento que teve foi o exemplo da humildade e paciência de Cristo, persuadindo-se que as armas do cristão não podia ser a espada, que o mesmo Senhor mandara embainhar a S. Pedro, senão a mansidão e a paciência. E como via, pelo contrário, que à obrigação e oficio dos reis e imperadores eram necessárias as armas e os exércitos para defender seus estados e vingar as injúrias que lhes fizessem ou intentassem fazer seus inimigos, esta mesma vingança dos inimigos julgou que os excluía da lei do Evangelho e os fazia incapazes de ser cristãos, definindo como por conclusão e vidente que todo aquele que por este modo fizesse mal a seus inimigos, e, por conseqüência, os não amasse, se fosse rei, não podia ser cristão, e, se quisesse ser cristão, havia de deixar de ser rei.

Este erro de Tertuliano — que ainda hoje seguem os hereges anabatistas — se refutou e desfez publicamente daí a cento e vinte anos, com a conversão e batismo do imperador Constantino Magno, que foi o primeiro príncipe cristão que houve no mundo, o qual, contudo, sendo convertido pelo mesmo São Pedro, nem por isso desistiu da guerra e empresas militares, armando, como dantes, exércitos, dando batalhas, alcançando vitórias, conquistando cidades e províncias. Nem daqui se segue que ele ou outro imperador e rei cristão pudesse ter ódio a seus inimigos e fazer-lhes mal, porque — como bem supunha Tertuliano nesta parte — seria obrar direitamente contra o preceito expresso de Cristo, que manda amar e fazer bem a todos e quaisquer inimigos: Diligite inimicos vestros, et benefacite his qui oderunt vos.

Mas, se esses reis cristãos, na invasão das terras de seus inimigos, talam os campos, arrasam castelos, escalam cidades e derramam tanto sangue, matando homens a milhares, como podem fazer tudo isto e amar juntamente aos mesmos seus inimigos? Eu o direi, e respondo a uma pergunta com outra. Quando o legítimo juiz, segundo o merecimento dos autos, condena à morte e à confiscação de bens um réu, e manda executar nele a sentença, pode fazer isto sem ódio? É certo que não só sem ódio, senão amando muito ao mesmo homem, e não procedendo àquele rigor senão muito a seu pesar, e obrigado somente das leis da justiça, de que é ministro. Pois, do mesmo modo obra o rei cristão na guerra que faz a seus inimigos, porque naqueles casos ele e só ele é o legítimo juiz. Qual cuidais que é a maior dignidade e autoridade do rei? Porventura o domínio e superioridade suprema sobre tantas cidades e povos, de quantos se compõe um reino ou muitos reinos? Não. A maior autoridade e soberania dos reis é que nas controvérsias com outros príncipes estranhos eles sejam, e Deus fiasse deles o serem, juízes em causa própria. E como os reis são juízes, e juízes postos por Deus em seu lugar, assim como o juiz inferior pode sentenciar o réu a perdimento da vida e da fazenda, sem ódio, antes com amor, assim o rei, na guerra justa e julgada por sua própria autoridade, pode mandar matar e despojar seus inimigos, amando-os juntamente, e observando o preceito de os amar: Diligite inimicos vestros.

Isto quanto à primeira parte do preceito está claro; mas quanto à segunda ainda parece dificultoso, porque Cristo não só manda que amemos aos inimigos, senão que lhes façamos bem: Et benefacite his qui oderunt vos. Pois, se o rei cristão, com a guerra e hostilidades dela, faz a seus inimigos o maior mal desta vida, antes os dois maiores males, que é despojá-los dos bens que possuem e da mesma vida se resistirem, como pode estar com isto o não lhes fazer mal — que não basta — mas o fazer-lhes positivamente bem, que é o que manda o preceito: Diligite, et benefacite? Também a esta pergunta respondo com outra dentro no mesmo exemplo. Quando o juiz, entre dois litigantes, condena o injusto possuidor, e o executa com violência, privando-o do que injustamente possuía, faz-lhe bem ou mal? Não há dúvida que lhe não faz mal, senão bem, e o maior de todos os bens. Por quê? Porque o obriga a restituir por força o que nunca havia de restituir por vontade, e por meio desta restituição, sem a qual se não podia salvar, o põe em estado de salvação. Tal é o bem e grandíssimo bem que os reis cristãos fazem aos outros príncipes seus inimigos, quando, por meio da guerra justa e poderosa, recuperam deles as terras, cidades ou reinos que eles ou seus maiores lhes tinham usurpado. Porque, obrigando-os por força a restituir o alheio, os desobrigam da restituição que nunca haviam de fazer de grado, sendo, nestes casos, mais venturosos os despojados e vencidos do que cuidam e festejam os vencedores. A espada antigamente era a insígnia do juiz, por onde disse São Paulo: Non enim sine causa gladium portat(21); e como os juízes inferiores não têm jurisdição nem alçada sobre os pleitos dos reis, o que eles não podem com a espada da justiça, fazem os reis com a justiça da espada. É verdade que derramam sangue, e muito sangue; mas, assim como o médico o tira sem querer mal nem fazer mal, assim o podem fazer os reis, não por ódio, senão com boa vontade, e não para matar o corpo mal afecto, senão para o descarregar do humor que o mata, e o reduzir à saúde. Esta é a reta intenção com que deve proceder na guerra todo o rei justo, por duas razões: a primeira, para obedecer ao preceito de Deus, que é o Senhor dos exércitos; a segunda, para o fazer propício a suas armas que, movidas por ódio ou vingança, nunca podem ter bom sucesso. Assim o entendeu e deixou escrito aquele tão grande rei como soldado, Davi: Si reddidi retribuentibus mihi mala, decidam merito ab inimicis meis inanis (22).

V

Temos visto e distinguido quais são os inimigos que se chamam hostes, e declarado em todo o rigor da Teologia como se podem amar e devem amar, ainda quando se lhes faz ou faça guerra — matéria muito própria do tempo presente, e não menos necessária a purificar a emulação nacional, que entre gente de pouca nobreza e entendimento passa talvez a ser ódio. — Agora, recolhendo-nos dos muros ou das raias a dentro, segue-se ver quais sejam os outros que propriamente se chamam inimicos:

Diligite inimicos vestros. E, suposto que não falamos de inimigos em geral, senão dos inimigos dos reis, dentro dos limites da nossa questão, uma coisa entendo neste ponto, e outra parece que se não pode entender. Entendo que os inimigos dos reis, neste caso, não podem ser outros senão os vassalos; mas não entendo, nem sei como se pode entender nem imaginar — ao menos entre nós — que haja homem tão indigno e tão vil que mereça tão abominável nome. Se o primeiro e maior amor dos vassalos é o do seu rei; se os mortos suspiravam por este nome, e nele se sustentam os vivos; se, para o sustentar, defender e conservar, todo o outro amor já não é amor, desprezando-se a fazenda, o sangue, a vida, a mulher, os filhos, como pode ser que haja ainda, ou possa haver, não digo homens, senão monstros que sejam e se possam chamar inimigos dos reis? Eu não direi quais são, porque o não sei entender, como já disse; mas referirei e me referirei somente aos que os nomeiam, e são testemunhas todas legais, e a quem a opinião do mundo dá grande crédito.

Entre os políticos, Xenofonte, Tácito, Cassiodoro; entre os históricos, Tito Lívio, Suetônio, Quinto Cúrcio; entre os filósofos, Sêneca, Plutarco, Severino Boécio; entre os Santos Padres, Jerônimo, Crisóstomo, Gregório, Agostinho, Bernardo — deixando os demais -todos, só com discrepância no encarecimento, dizem e ensinam concordemente que os inimigos dos reis, e os maiores inimigos, são os aduladores. E, suposto que sejam os aduladores, como logo se provará largamente, onde vivem, ou onde estão encastelados estes inimigos dos reis? É certo que não são os que lavram os campos, nem os que aram os mares, nem os que presidiam as torres, nem os que pleiteiam nos tribunais, nem os que comerciam nas praças, nem menos todos os outros que, com o trabalho de suas mãos, servem à república e só conhecem de palácio as paredes, e as adoram de fora. Logo, se não são os que somente as vêem de fora, devem de ser sem dúvida os que as freqüentam de dentro, verificando-se também dos reis o que Cristo pronunciou geralmente de todos os homens: Inimici hominis domestici ejus (23). Os domésticos, os familiares, os que só são admitidos a ouvir e ser ouvidos, estes são os aduladores e por isso, os inimigos. Assim comenta o texto de Cristo S. Bernardino de Sena, declarando que a razão de serem inimigos os domésticos, é por serem aduladores, e que esta pensão ou desgraça é a mais perniciosa dos príncipes: Nihil principi pernitiosius esse potest, quam domesticus inimicus, hujusmodi autem sunt adulatores.

S. Gregório Magno que, depois de grandes cargos políticos nas duas maiores cortes, de Roma e Constantinopla, foi cabeça suprema de toda a Igreja, e por si mesmo e seu juízo, ciência e experiência, uma das mais eminentes cabeças do mundo, não só diz que os aduladores secretos são públicos inimigos dos reis, mas dá por regra e cautela aos mesmos reis, que quando virem que são maiores os louvores com que forem adulados deles, tanto os reconheçam por maiores inimigos, e creiam que o são: Tanto majores hostes credendi sunt, quanto magis laudibus adulantur. E se isto não vêem claramente todos os reis, é porque é tal o doce veneno da lisonja que, entrando pelos ouvidos, lhes cega também os olhos. Por isso S. Pedro Damião, tão prático e desenganado das cortes, que por fugir muito longe delas, renunciou à púrpura, a que compararia os aduladores de palácio? Comparou-os às andorinhas de Tobias, as quais, fazendo o ninho na sua casa, lhe pagaram a hospedagem com lhe tirar a vista. Tais — diz ele — são os aduladores: Quidum adulationis oleo audientis caput impinguant, interiores oculos, ne solida lucefruantur, excaecant.

Santo Agostinho, autor em toda a matéria primaz, com doutrina tirada da escolha de el-rei Davi, ensina que há dois gêneros de inimigo: uns que perseguem, outros que adulam; mas que mais se há de temer a língua do adulador que as mãos do perseguidor: Duo sunt genere enim eorum, persequentium et adulantium, sed plus persequitur lingua adulatoris, quam manus persecutoris. A mão do perseguidor arma-se com a espada, com a lança, com a seta, com o veneno, e com todos os outros instrumentos de ferir e matar, que a fúria e violência do fogo acrescentou à dureza do ferro; e, contudo, diz o maior doutor da Igreja que mais se há de temer a língua desarmada do adulador, que todas as armas do perseguidor e inimigo. Mas, porque dirão os palacianos — como dizem aos da nossa profissão — que falou Santo Agostinho como teólogo e como santo, e não como político, ponhamos-lhe de um lado a Pitágoras e do outro a Sócrates, que nem foram teólogos, nem santos, mas ambos famosíssimos mestres da república mais política, qual foi a de Atenas. Que diz Pitágoras? Gaude potius arguentibus quam adulantibus, et tanquam deteriores inimicis adulatores aversare: Gosta antes dos que te arguem que dos que te adulam, e tem maior aversão aos aduladores que aos inimigos, porque são piores. — E Sócrates, que diz? Adulatorum benevolentiae tanquam hostibus dato terga, fuge infortunium: A benevolência dos aduladores dá-lhe logo as costas, e foge deles como de inimigos, por que te não suceda algum infortúnio dos que a adulação traz sempre consigo. — Creiam ao menos a Sócrates e a Pitágoras os que não quiserem dar crédito a Santo Agostinho.

Sinésio, aquele insigne varão que compôs os livros De Regno e, depois de governar prudentissimamente o mundo, com igual zelo e santidade governou e ilustrou a Igreja, escrevendo ao imperador Arcádio, o conselho que lhe dá sobre todos, exortando a que o observe como primeiro e maior cuidado, é que não consinta junto a si aduladores, e se guarde e vigie deles, porque, por mais cercado que esteja de guardas o seu palácio, a adulação se sabe introduzir sutilissimamente sem ser sentida, e bastará ela só para primeiro o sujeitar e dominar a ele, e depois o despojar do império: Sola quippe alulatio nec quicquam vigilantibus satellitibus in ima usque conclavia sensim penetrat, et imperium depraedatur. Coisa dificultosa parece que, tendo Arcádio presidiado o seu império com as legiões romanas, e não havendo então inimigo estranho que com poderosos exércitos lhe fizesse guerra, houvesse de bastar poucos homens desarmados para, dentro em sua própria casa, destruírem o imperador e mais o império. Mas tão oculta e poderosa guerra é a que faz aos príncipes a adulação, e tão perniciosos inimigos, mais que todos, são os aduladores. Ouçam os políticos o texto da sua Bíblia: Adulatio perpetuum malum regum, quorum opes saepius assentatio, quam hostis evertit: A adulação é aquele perpétuo mal ou achaque mortal dos reis, cuja grandeza, opulência e impérios muitas mais vezes destruiu a lisonja dos aduladores que as armas dos inimigos.

Comentando este texto de Cornélio Tácito outro Cornélio de maior erudição, de melhor juízo e de mais largas experiências que ele, confirma a verdade do seu dito com a falta da verdade, de que só carecem os que são senhores de tudo, e com os exemplos de Nero, César e Roboão, todos desastradamente perdidos, não por inimigos de fora, mas pelos aduladores domésticos: Et quidem reges abundant rebus omnibus in aula, excepta veritate. Quid Neronem castissime educatum crudelem fecit? Adulatio. Quid Caesarem contra patriam rebellare fecit? Adulatio. Quid Roboam tyrannum reddit? Adulatio. Nem a Roboão aproveitou ter por pai a Salomão, nem a Nero ter por mestre a Sêneca, nem a César ter-se esmerado nele a natureza em o dotar de uns espíritos tão generosos e verdadeiramente reais, para que a adulação de seus próprios familiares a um não corrompessem as virtudes, a outro não despojassem do reino, a outro não tirasse a vida, e a todos não destruísse tão infausta e miseravelmente, como todos sabem. Esta mesma conclusão inferiram sobre a lição de todas as histórias do mundo aqueles dois grandes historiadores, que em sentença de Lípsio, depois de Salústio e Lívio, merecem os dois seguintes lugares: entre os latinos Cúrcio, e entre os espanhóis Mariana. Regnum saepius ab assentatoribus quam ab hostibus everti solet — diz Cúrcio na história de Alexandre. — Vide hic ut magis adulatio, quam hostis, reges et principes perdat — diz Mariana no Comentário de Oséias. — De sorte que tudo o que se sabe por vista ou por memória dos períodos e catástrofes dos reinos e dos fins mal-afortunados dos reis e causas deles, as menos vezes se deve atribuir aos inimigos de fora, que são os que só se temem, senão a quem? Aos lisonjeiros e aduladores de dentro, aos que têm as entradas francas e as chaves tão douradas como as línguas, aos que participam os segredos e arcanos da monarquia, e os que só são admitidos a dizer e a ser ouvidos; enfim, aos inimigos interiores e domésticos, que são os que mais se deveram temer.

VI

Antes, porém, que refira o que dizemos demais — pois somente sou relator neste ponto — para que se ouça com maior atenção e se dê inteiro crédito ao que eles disserem, é necessário sossegar primeiro um escrúpulo ou suspensão com que estou vendo que este nome de inimigo dos reis, ou se reputa por injusta censura, ou, quando menos, por demasiado encarecimento. Todas as pessoas que os reis admitem assistência mais interior de palácio, além das qualidades e talentos que os fazem dignos de tão soberana eleição, ninguém pode duvidar que o seu maior cuidado e desvelo é servir e agradar ao seu príncipe, e que eles são os que mais lhes desejam a vida e procuram a saúde; eles os que mais solicitam o bem, a conservação e aumento do reino; eles os que, de dia e de noite, sem descansar, mais se empregam e mais trabalham no que mais que tudo importa. E, posto que as suas palavras — como pede o respeito e reverência real -se pronunciem vestidas ou adornadas com algum daqueles enfeites que popularmente se chamam lisonjas, nem por isso desmerece o afeto de seus corações o nome de amigos, e verdadeiros amigos: com que vem a ser afronta, não só injusta e caluniosa, mas indigna de se dizer nem ouvir, que sujeitos tão ilustres e tão leais sejam chamados inimigos dos reis, e se lhes aplique no texto de Cristo a censura de inimicos vestros.

Tudo isto digo eu também, e geralmente assim, é. Mas, porque nesta regra, como em todas, pode haver alguma exceção, ouçamos sobre ela o mesmo legislador, que é o melhor intérprete das suas leis. E assim o mesmo Cristo que diz Diligite inimicos vestros, será também o que nos declare estes inimigos quem são, e como são, e como não podem deixar de o ser. Nemo potest duobus dominis servire (Mt. 6,24), diz Cristo: Ninguém pode servir a dois senhores. — E por quê? Porque, se tiver amor a um, há de ter ódio ao outro: Aut enim unum odio habebit, et alterum diliget. Suposta esta definição infalível da suma verdade, pergunto agora: e os que servem aos reis em palácio, a quantos senhores servem? Se alguns se não quiserem lisonjear também a si mesmos, é força que confessem que servem a dois senhores: ao senhor rei, e ao senhor interesse próprio. Logo, segue-se que, se amam a um, têm ódio a outro, e que se de um destes senhores são amigos, do outro são inimigos: Aut enim unum odio habebit, et alterum diliget. Notai que não diz Cristo: Unum diliget et alterum non diliget, senão: Unum odio habebit, et alterum diliget porque se não pode servir e amar a um, sem ser inimigo do outro. E, se em algum dos que servem ao rei se provasse que ama mais o seu interesse que o rei, provado estava que este tal é inimigo do rei.

O Papa chama-se Servus Servorum, é, creio eu, que a muitos reis se pudera estender o mesmo título sem ofensa da Sé Apostólica. Por que há tantos que queiram servir de perto aos reis? Por que querem que também os reis os sirvam a eles? Não digo tanto. Servem aos reis porque lhes serve o servi-los. Arrima-se a hera à torre, não por amor da torre, senão por amor de si, não porque queira coroar a torre — que as coroas de hera não são as dos reis — mas porque a hera não pode crescer sem arrimo, e ela quer crescer e subir. Por isso vemos tão subidos e tão crescidos os que talvez, antes de chegarem a este arrimo, mal se levantavam da terra. Pelo contrário, vemos também que muitos se retiraram do serviço do rei, porque lhe negaram ou dilataram a subida. Logo, ao senhor interesse é que serviam, e não ao rei. Sete anos de pastor servira Jacó a Labão, pai de Raquel, mas não servia a ele: servia a ela. E por que servia Jacó a Raquel, e não a Labão? Porque Raquel era a que amava. Porque amava a Raquel, por isso servia a Labão, e o amor não está no por isto, está no porquê. Porque amam o seu interesse, por isso servem ao rei. Indigna coisa, por certo, que seja o rei o Labão, quando o vil interesse é a Raquel. Mas ouçamos a outro melhor autor.

Stellio manibus nititur, et moratur in aedibus regis (Prov. 30,28): A aranha — diz Salomão — não tem pés, e, sustentando-se sobre as mãos, mora nos palácios dos reis. — Bom fora que moraram nos palácios dos reis e tiveram neles grande lugar os que só têm mãos. Mas a aranha não tem pés, e tem pequena cabeça, e sabe muito bem o seu conto. Sobe-se mão ante mão a um canto dessas abóbadas douradas, e a primeira coisa que faz é desentranhar-se toda em finezas. Com estes fios tão finos, que ao princípio mal se divisam, lança suas linhas, arma seus teares, e toda a fábrica se vem a rematar em uma rede para pescar e comer. Tais são — diz o rei que mais soube — as aranhas de palácio. Quem vir ao princípio as finezas com que todos se desfazem e desentranham em zelo do serviço do príncipe, parece que o amor do mesmo príncipe é o que unicamente os trouxe ali; mas, depois que armaram os teares como tecedeiras, e as redes como pescadores, lago se descobre que toda a teia, por mais fina que parecesse, era urdida e endereçada a pescar, e não a pescar moscas. E se não, veja-se o que todos pescam: as melhores comendas, os títulos, as presidências, os senhorios, e, talvez, diz o mesmo Salomão, que sendo a malha tão miúda, pescam o mesmo dono da casa. Homo, qui blandis fictis que sermonibus loquitur amico suo, recte expandit gressibus ejus (24), As palavras brandas do adulador são redes que ele arma para tomar nelas ao mesmo adulado. — E este é o artifício sem arte dos aduladores reais. Servem lisonjeiramente aos príncipes para os ganhar ou lhes ganhar a graça, e para se servirem da mesma graça para os fins que só pretendem de seus próprios interesses. E como, por declaração do mesmo legislador do nosso texto, ninguém pode servir a dois senhores sem amar a um e ser inimigo do outro, provado fica, sem réplica, e concluído, que quantos forem em palácio os amigos de seus interesses, tantos são os inimigos dos reis.

VII

E se eles disserem que são isto discursos, também eu folgara muito que não só foram discursos, senão muito mal fundados e muito falsos; mas no nosso mesmo texto o benefacere é prova do diligere: Diligite, et benefacite. Vejamos, pois, o bem ou mal que os aduladores fazem aos reis, e logo se verá claramente se os amam ou são seus inimigos. A maior fatalidade dos reis é nascerem todos em signo de ser louvados. Lançou Jacó a bênção a Judas, seu quarto filho, e as palavras por onde começou foram estas: Juda, te laudabunt fratres tui (Gên. 49,8): Judas, a ti louvarão teus irmãos. — Os irmãos eram onze, e muitos deles tiveram muito que louvar; pelo contrário, Judas não deixou de fazer muitas ações dignas de ser vituperadas. Pois, se nos outros houve também coisas merecedoras de louvor, e em Judas merecedoras de vitupério, por que se dá por bênção só a Judas que ele será o louvado, e que todos o louvarão: Te laudabunt? Porque Judas, como vimos ao princípio, ainda que era o filho quarto, foi o que levou o cetro e a coroa, e em quem se fundou o direito hereditário da casa e sucessão real, e é bênção ou fatalidade dos reis que tudo o que fizerem ou quiserem, ainda que não seja louvável, seja louvado: Te laudabunt. Se o rei, como Saul, tomar para si os despojos de Amalec consagrados a Deus, e os aplicar a usos profanos: Te laudabunt. Se o rei, como Davi, por uma simples informação suspeitosa, singular e sem nenhuma legalidade, privar do patrimônio a Mefiboset, e o der ao seu criado Siba: Te laudabunt. Se o rei, como Salomão, para edificar soberba e deliciosamente o bom ou mau retiro do Líbano, derrubar as casas dos poucos poderosos, e queimar as choupanas dos miseráveis: Te laudabunt. Se o rei, como Roboão, sobre o jugo pesadíssimo e intolerável de seu pai, acrescentar tributos sobre tributos, opressões sobre opressões, e rigores sobre rigores, nadando todo o reino em rios de lágrimas: Te laudabunt. E quem são os panegiristas destes louvores? Não são os que padecem o dilúvio fora da arca, não são os que moram e morrem fora das paredes de palácio, senão os que vivem e reinam de portas a dentro. Estes são os aduladores, que louvam o que não deveram louvar, e aplaudem o que não deveram aplaudir; e ajudam o que deveram estorvar, atentos somente a não desgostar ou entristecer o agrado em que têm fundado seus interesses, sem atenção ao crédito e à fama, nem talvez à consciência dos mesmos reis, como verdadeiros inimigos: In malitia sua laetificaverunt regem (25).

Eu bem creio do bom entendimento de alguns, que no mesmo tempo em que louvam e aplaudem com a boca, gemem e choram com o coração. Nem eles deixam de o confessar assim, onde não é perigoso o sigilo. Mas, como servem mais ao próprio interesse que ao rei, esta covarde dependência lhes equivoca a dor com a alegria, e o coração com a língua. Caso verdadeiramente lamentável e trágico, mas já representado no teatro de Roma. Depois que o imperador Nero se esqueceu de si, e da temperança e compostura real em que fora criado, fez tão pouco caso da própria autoridade e decência, que, entre os citaredos e estriões, saía no teatro público a competir com eles em todas as baixezas ridículas daquelas artes, próprias de gente vil e infame. A este espetáculo ou ludíbrio da maior fortuna, assistiam todas as ordens, senatória, consular e eqüestre; assistiam os centuriões, os tribunos, e toda a flor das legiões romanas; assistiam principalmente todos os familiares do palácio imperial, e, entre eles, diz com grande ponderação Tácito: Et maerens Burrhus, ac laudans. Era Afrânio Burro homem de grave e maduro juízo, mestre ou aio que tinha sido, com Sêneca, do mesmo Nero. E, quando todos os outros faziam grandes aplausos às mudanças, saltos e gestos do imperador citaredo, como se foram outros tantos triunfos, só Afrânio estava triste, mas também louvava como os demais: Et maerens Burrhus, ac laudans. Pois, homem ou animal — que te não quero chamar com o nome próprio, por não parecer que o faço apelativo — se conheces a indecência, a desautoridade e a afronta do teu príncipe, se estás engolindo as lágrimas e afogando os gemidos, por que ao menos não emudeces e calas, para que veja Nero na tua tristeza a tua dor, e leia no teu silêncio o teu voto? Mas no mesmo tempo em que estás chorando o que condenas, hás de louvar o que choras: Et maerens Burrhus, ac laudans? Sim, que tais são os aduladores de palácio, ainda os de maiores obrigações e de menos corrupto juízo.

Uns autores comparam estes aduladores ao camaleão que, não tendo cor certa nem própria, se reveste e pinta de todas as cores, quaisquer que sejam as do objeto vizinho. Outros os comparam à sombra, que não tem outra ação, figura ou movimento que a do corpo interposto à luz, do qual nunca se aparta, e sempre, e para qualquer parte o segue. Outros o comparam ao espelho, retrato natural e recíproco de quem nele se vê, porque, se lhe pondes os olhos, olha para vós, se rides, ri, se chorais, chora, lágrimas, porém, sem dor, e riso sem alegria, que não fora o espelho adulador se assim não fora. Mas, como o camaleão, a sombra e o espelho tudo são assistentes mudos, a comparação de Santo Agostinho é a mais própria e semelhante de todas, porque os comparou ao eco: Jucundum est, ac volupe cum clamantibus nobis responsant sylvae, et, acceptas, voces, numerosiori repercussu reddunt. Talis echo adulator. — O eco sempre repete o que diz a voz, nem sabe dizer outra coisa; e onde as concavidades são muitas, é cena verdadeiramente aprazível ver como os ecos se vão respondendo sucessivamente uns aos outros, e todos sem discrepância dizendo o mesmo. O que disse a primeira voz é o que todos uniformemente repetem. E isto que fez a natureza nos bosques, faz a adulação nos palácios, diz Agostinho. Diz o rei que quer fazer uma guerra, e, ainda que a empresa seja pouco provável, e o sucesso de perigosas conseqüências, que respondem os ecos? Guerra, guerra, guerra. Diz que quer fazer uma paz, e, ainda que a ocasião seja intempestiva e os pactos e condições pouco decorosos, que respondem os ecos? Paz, paz, paz. Diz que quer enriquecer o erário, e para isso multiplica os tributos, e, ainda que os fins ou pretexto tenham mais de vaidade que de utilidade, que respondem os ecos? Tributos, tributos, tributos.

E para que eu também acrescente a minha comparação, são parecidos os aduladores aqueles quatro animais do Apocalipse, os quais cercavam o trono do cordeiro dominador da terra, e tendo cada um deles quatro rostos e quatro línguas, nenhuma coisa diziam nem sabiam dizer, senão amém: Et quatuor animalia dicebant: Amen (26). Pois, para isto assistem ao trono, para isto os tem junto a si o supremo dominante? Para isto tanta diversidade de rostos e tanto aparato de línguas? Sim, para isto, e só para isto; para quando sair do trono a voz, eles dizerem os améns. E para que os améns digam com o rosto, e o rosto não desdiga do que eles dizem, por isso, sendo a voz uma só, os rostos são muitos, e tão vários quantos podem ser os afetos da majestade adulada. Se o rei está benigno e humano, para isso tem rosto de homem: facies hominis. Se está colérico e irado, para isso tem rosto de leão: facies leonis. Se está sobrelevado e altivo, para isto tem rosto de águia: facies aquilae. Se está melancólico e carregado, para isto tem rosto de bezerro: facies bovis (Ez. 1,10). Enfim, muitos rostos e uma só voz, porque sempre a língua e os gestos estão aparelhados, ou na vontade, declarada para a aprovar, ou na inclinação, só presumida para a prevenir.

VIII

A intenção reta dos príncipes não é esta, senão que cada um diga livremente o que entende, e aconselhem o que mais importa; mas, como o norte sempre fixo do adulador é o interesse e conveniência própria, nenhum há que se fie deste seguro real, e todos temem arriscar a graça onde têm posta a esperança Dizia Sêneca — e dizia o que obrava -que antes queria ofender com a verdade que agradar com a lisonja: Maluerim veris offendere, quam placere adulando. Mas, quem era Sêneca? Era aquele grande estóico, em cuja estimação a maior riqueza era o desprezo de todas. Era tão opulento o seu patrimônio que só ele pudera fundar e enriquecer muitas casas, e tão grandes como as que hoje são titulares, e tudo renunciou Sêneca, e aplicou ao fisco real. E quem com a sua fazenda quer acrescentar os tesouros do rei, escolhe antes ofender com a verdade que agradar com a adulação. Porém, aqueles que com os tesouros do rei querem acrescentar a sua casa e enriquecer a sua pobreza ou a sua vaidade, que se pode crer ou esperar que façam? Que digam cinqüenta lisonjas para granjear uma comenda, e que não se atrevam a dizer meia verdade por se não arriscar a perdê-la. Oh! reis! Oh! monarcas do mundo, que por esta causa, e só por esta, é digna de compaixão a vossa suprema fortuna!

O Salmo Miserere mei, Deus não só o fez Davi para lamentar a sua miséria como pecador, senão também como rei. Esse foi o seu pensamento e o seu sentimento quando disse: Tibi soli peccavi (Sl.50,6): Eu, Senhor, só para vós pequei. — E por que só para vós, e não para os outros? Porque só vós me estranhastes o meu pecado, porque fui pecador, e nenhum dos outros mo estranhou, porque era rei. — Em próprios termos Esíquio: Quoniam reliquis omnibus ei tanquam regis indulgentibus, solus Deus misit Nathan, et nefarium scelus neprehendit. O pecado de Davi só para Deus foi pecado, porque para todos os outros, como era rei, foi indulgência Eis aqui de que serve aos reis o ser rei, e quão lisonjeiramente o servem os que o servem. Se alguma vez na antecâmara de Davi — onde ele o não ouvisse — se tocou no seu pecado, o que os palacianos discorriam era desta maneira. Que o amor de Bersabé fora um galanteio de príncipe soldado; que o casar-se com ele fora uma honrada restituição de sua fama; que o matar a Urias fora um conselho necessário, prudente e generoso, porque o fez morrer nobremente na guerra: prudente, porque pareceu acaso o que foi indústria, e necessário, porque o modo mais seguro de sepultar o agravo é meter debaixo da terra o agravado. Tão levemente se falava em palácio em um caso, mais que escandaloso, atroz, chamando ao adultério galanteio, ao homicídio necessidade, e à aleivosia prudência. No capítulo oitavo do Segundo Livro dos Reis se nomeiam as pessoas de que constava a casa e família superior de Davi, e é coisa que excede todo o encarecimento da lisonja, que em tantos homens de tão grandes qualidades e suposições se não achasse nem um só que, ou por zelo da honra, ou por escrúpulo da consciência, ou por obrigação do ofício, ou por memória de benefícios e mercês recebidas, se atrevesse a acudir a um rei na sua desgraça, e lhe abrir os olhos com a verdade em tão perigosa cegueira (2 Rs. 8,16 ss). Por isso ele, considerando o seu desamparo, e conhecendo o risco da própria salvação, orava e clamava a Deus dizendo: Salvum me fac, Domine, quoniam defecit sanctus, quoniam diminutae sunt veritates a filiis hominum (Sl. 11,2): Salvai-me vós, Senhor; acudi-me e socorrei-me como Deus, porque entre os homens já não acho nem um só que tenha virtude e valor para me dizer a verdade.

Dois porquês aponta Davi nestas palavras, muito dignos de reparo: porque faltaram os santos: Quoniam defecit sanctus e porque faltaram homens que com inteireza lhe dissessem a verdade: Quoniam diminutae sunt veritates a filiis hominum: Filii hominum, em frase da Escritura, significa os homens de ilustre geração, quais são os que assistem ao lado dos reis; e de lhes faltarem estes se lamenta Davi. Pois, por que faltaram os santos, por isso não há quem fale verdade aos reis? Sim: de um porquê se segue o outro porquê. Porque faltaram os santos, que são os que não querem nada deste mundo, essa é a razão por que Davi e os outros reis não têm quem lhes diga a verdade, estando cercados de tantos que os lisonjeiam e adulam. Até entre os gentios era verdadeira esta conseqüência. Entre os gentios também, por seu modo, havia santos, os quais eram os filósofos, principalmente estóicos e cínicos. Diógenes, filósofo cínico, queria tão pouco das coisas deste mundo, que nem uma choupana tinha em que viver; e morava dentro em uma cuba. Foi-o ver por maravilha Alexandre Magno, e, dizendo-lhe com sua natural magnificência que pedisse quanto quisesse, que responderia Diógenes? — Peço-te que não tires o que me não podes dar. — E disse isto porque era inverno, e Alexandre, com a sombra do corpo, lhe tirava o sol. Parece-vos que adularia aos reis um homem que tão pouco queria deles? Bem o mostrou em uma famosa resposta sua, que refere Valério Máximo. No tempo em que reinava Dionísio em Sicília, estava Diógenes à porta ou à boca da sua cuba, lavando umas ervas para comer, e disse-lhe um dos que passavam: — Se tu adularas a Dionísio, não comeras ervas. — E ele respondeu: — E se tu te contentaras com comer ervas, não adularas a Dionísio: Si tu Dionysio adulati velles, isto non ederes. Cui respondit: Si tu ista edere velles, Dionysio adulari nolles. Porque os reis se não servem de homens que se contentem com comer ervas, por isso estão comidos de aduladores, e cercados de inimigos: Quoniam defecit sanctus. Para ser santo deste gênero não é necessário que faça milagres o que serve ao rei: basta ser homem que se contente com o seu pouco, e não aspire a ter mais do que tem, nem a ser mais do que é.

Mas, se há algum destes — que sim há — o primeiro cuidado dos quatro animais que estão in circuito throni, e nele têm cercados ou sitiados os reis, o primeiro e maior cuidado dos aduladores é que Dionísio não ouça a Diógenes, antes se asseste contra ele toda a artilharia, para que não suceda romper as linhas da circunvalação, e, por força ou por vontade, se retire muito longe da corte. É texto e caso expresso da Escritura Sagrada, não já em homem filósofo, senão profeta El-rei Jeroboão, depois da divisão das coroas de Israel e Judá, tinha o seu palácio em Betel, e junto dele a mesquita que edificara aos dois bezerros de ouro, para divertir o povo de irem sacrificar ao templo de Jerusalém. Vivia na mesma cidade de Betel o profeta Amós, o qual dizia a Jeroboão algumas verdades das que Deus revelava acerca daquele reino e seu perigo. E, como os aduladores de Jeroboão se temessem da eficácia e energia de Amós, ao qual caluniavam com o rei, que totalmente lhe não tinha perdido o amor e reverência, um deles chamado Amasias, se foi ter com o profeta, e lhe disse em termos de amizade estas palavras: Qui vides, gradere, fuge in terram Juda, et comede ibi panem, et prophetabis ibi. Et in Bethel non adjicies ultra ut prophetes, quia sanctificatio regis est, et domus regni est (Am. 7,12 s) (27). Quer dizer: Tu Amós, que vês os futuros, põe-te e logo a caminho, e foge daqui, e vai-te e para a tua pátria: lá comerás o teu pão, e profetizarás; porém, aqui não te aconteça falar mais palavra, porque Betel é a casa e palácio do reino, a santificação do rei. — Reparai muito nesta última cláusula, que em moral e político sentido fecha admiravelmente todo o nosso discurso: Quia sanctificatio regis est, et domus regni est. De maneira que exortando Amasias ao profeta Amós, ou cominando-lhe que se saia da corte e fuja dela, o motivo que alega para isso é que a casa e palácio real é a santificação do rei. E por quê? Não pudera melhor definir um adulador o que é palácio. E o palácio, na definição dos aduladores, a santificação do rei, porque ali são santificados os reis e todas as suas ações; e quanto o rei faz, ordena, deseja ou imagina, tudo é santo. Se Jeroboão se divide de Roboão, seu legítimo senhor, ainda que seja rebelião, santo. Se proíbe ao povo que apareça no Templo de Jerusalém três vezes no ano, ainda que seja contra a lei expressa de Deus, santo. Se levanta altares aos bezerros de ouro, e os manda adorar, ainda que seja manifesta e pública idolatria, santo. — E por que tu, Amós — dizia Amasias — aconselhas outra coisa ao rei, contra o que todos seus criados lhe aprovamos, e não queres ajuntar atua voz com as nossas, dizendo também conosco: santo, santo, santo — não só não hás de entrar mais em palácio, mas sair logo da corte e de todo o reino: Gradere, et fuge in terram Juda, et in Bethel non adjicies ultra ut prophetes.

Tal é a sagacidade dos aduladores e sua potência. E tão tiranizadas andam entre eles as mesmas majestades aduladas, que não só lhes não dizem a verdade, nem querem que outros lha digam, mas afastam e lançam muito longe da corte a todos os que lha podem dizer. Não é isto manifesta tirania? Biantes, um dos sete sábios da Grécia, perguntado qual era o animal mais venenoso, respondeu que, dos bravos, o tirano, dos mansos, o adulador. Em chamar veneno à adulação acertou-lhe o nome; mas em distinguir o tirano do adulador não disse bem, porque todo o adulador é tirano. O maior tirano que houve no mundo foi Herodes; mas os seus aduladores ainda foram maiores tiranos, porque o rei foi tirano dos vassalos, e os aduladores foram tiranos do rei. O texto de Miquéias, que lhe explicaram acerca do nascimento do novo rei, fala expressamente de dois nascimentos do Messias, um temporal, como homem, e outro eterno, como Deus: o temporal, como homem: Ex te enim exiet dux qui regat populum meum (28); o eterno, como Deus: Et egressus ejus ab initio, a diebus aeternitatis(29). E os aduladores, que fizeram? Calaram totalmente o segundo nascimento, e só fizeram menção do primeiro, com que, enganado Herodes, e supondo que o nascido em Belém era somente homem, e não Deus, entendeu que o podia matar, e assim deliberou a morte dos inocentes. Mas qual foi o motivo deste engano? O que os aduladores têm em todos os seus, que é o próprio interesse. Divinamente São João Crisóstomo: In adulationem profecto regis, ut ad humanae gratiale lucrum veritatis damna proficerent. Sendo a matéria tão grave, e a mais grave que podia haver, pois envolvia a coroa e a salvação, não duvidaram, contudo, os aduladores de mentir e lisonjear ao rei, para que os danos da verdade fossem lucros do interesse: Ut ad humanae gratiae lucrum damna veritatis proficenent. Tão certa é a proposição do nosso assunto, e tão verdadeira e sólida a razão fundamental dele, que todos os que em palácio são amigos do seu interesse, são inimigos do rei: Inimicos vestros.

IX

Suposto, pois, que os aduladores são inimigos dos reis, como todos os outros cristãos têm também obrigação de amar a seus inimigos e fazer-lhes bem, seguia-se agora exortar os príncipes a este amor e beneficência: Diligite inimicos vestros, et benefacite his qui oderunt vos. Mas este meu sermão hoje será a primeira oração evangélica que, contra todas as leis da retórica, acabará sem peroração. Se a cristandade de todos os príncipes católicos na observância deste preceito de Cristo é tão comum, geralmente, e tão notória, que sendo os aduladores de palácio os seus maiores inimigos, esses são os maiores validos, os mais favorecidos e os mais amados conforme o diligite, e esses os mais cheios de honras, mercês e benefícios, conforme o benefacite, nenhum lugar nos fica para a peroração do discurso, pois os mesmos exemplos deste amor e beneficência real excedem todos os limites da eficácia a que se podia estender a exortação. Assim víramos estimados, premiados e satisfeitos os que não servem à sombra de telhados de ouro nem ao calor de braseiros de prata, senão ao sol e ao frio, lidando com as ondas e com as balas.

Uma só invectiva me ocorria para poder acabar o sermão, mas essa contra el-rei Davi, estranhando-lhe e repreendendo muito o modo tão alheio desta caridade com que ele tratava aos aduladores seus inimigos. No Salmo sessenta e nove diz Davi estas palavras, ou as torna a repetir, porque já tinha dito as mesmas no Salmo trinta e nove: Avertantur retrorsum, et erubescant, qui volunt mihi mala; avertantur statim erubescentes, qui dicunt mihi; Euge, euge (30)! Primeiro que tudo se deve advertir, em confirmação do que fica dito, que aqueles qui dicunt mihi: Euge, euge são os mesmos qui volunt mihí mala, porque adular é querer mal, e ser adulador é ser inimigo, e quantos são os euges que vos dizem, tantos são os males que vos querem. E a estes aduladores, que Davi reconhecia por seus inimigos, que é o que lhes fazia ou resolvia fazer como rei? Quatro coisas. Primeira, que experimentassem a grande aversão que lhes tinha: Avertantur, avertantur. Segunda, que logo saíssem de sua casa, e não aparecessem mais em sua presença: Avertantur statim. Terceira, que não fossem adiantados em nada, senão abatidos e atrasados: Avertantur retrorsum. Quarta e última, que pois se não envergonharam de ser aduladores, padecessem a vergonha de ser conhecidos publicamente e tratados como tais: Avertantur et erubescant; avertantur statim erubescentes. — Isto é, Davi, o que vós fazíeis aos aduladores, vossos inimigos como rei; mas não é isto o que lhes devíeis fazer como profeta, que tão clara luz tivestes do Evangelho de Cristo. Pois, se Cristo vos manda que ameis a vossos inimigos: Diligite inimicos vestros — como vós os aborreceis tanto que os não podeis ver, e os lançais de vossa casa e de vossa presença? E se Cristo vos manda que lhes façais bem: Et benefacite his qui odenunt vos — como vós lhes fazeis tanto mal que os afrontais e envergonhais, não secretamente, mas com infâmia pública, que para homens que tiveram tantos postos, é o maior vitupério?

Responde Davi, e a invectiva que eu fazia contra ele, revolta ele contra mim. — E tu, pregador, és filósofo e teólogo, e ainda não sabes a definição do amor? Amare est valle bonum alicui: Amar é querer bem àquele a quem se ama. — E que maior bem posso eu querer a um adulador, que fazer que não continue em tão vil exercício? E que maior benefício pode esperar de mim um amigo do seu interesse, e inimigo da verdade, que tirá-lo da ocasião de fazer traições à mesma verdade e a vender infamemente pelo interesse? Se eles, adulando-me, são meus inimigos, maiores inimigos são de si mesmos, e eu quero que cessem deste ódio que se têm, tanto maior quanto menos conhecido. E se, adulando-me, podem fazer mal ao meu governo e à minha coroa, muito maior é o mal que se fazem às suas consciências e às suas almas, e eu quero que desistam deste grande mal contra seu gosto, pois o não hão de fazer por vontade. Se Assuero, depois que conheceu a cobiça e falso amor de Amã, o lançara de sua graça e de sua casa, não chegara ele a ser tão mofino, que viesse a morrer em um pau; e o que aquele rei não soube fazer a tempo a seus aduladores, faço eu logo aos meus, sem o dissimular, porque os amo e lhes desejo o verdadeiro bem, e quero observar neles o preceito de Cristo: Diligite inimicos vestros, et benefacite his qui oderunt vos. — Deste modo rebateu Davi a minha invectiva, e, ajuntando eu ao exemplo que me alegou de Amã, o de Sejano em Roma, o de Olivato em França, o de Wolsey em Inglaterra, o de Álvaro de Luna em Espanha, e os da antiga e fresca memória no nosso Portugal, conheci a verdade sobre-humana da razão de Davi, e fiquei convencido dela.

Mas, porque eu em todo este sermão só professei e protestei referir, e não ajuizar, posto finalmente agora entre dois extremos tão contrários, como o de el-rei Davi e o dos outros reis, acabarei com o exemplo do primeiro fundador da nossa corte, o qual, entre um e outro extremo, tomou um tal meio de composição, que, parece, satisfez a ambos. E que meio foi este? Ouvir os aduladores, mas não se mover por eles. S. Pedro Damião e outros santos comparam os aduladores às sereias, as quais com a suavidade das suas vozes de tal modo encantavam os navegantes, que voluntariamente se lançavam e precipitavam às ondas, e se afogavam no mar em que elas viviam. Houve de passar por este mesmo mar — que era junto a Sila e Caribdes, — o fundador de Lisboa, Ulisses, e, usando da sua ciência e sagacidade, que fez? Navegava em uma formosa galé da Grécia, e para que a chusma não faltasse à voga dos remos, nem a outra gente náutica à mareação das velas, e todos escapassem do encanto das sereias, tampou-lhes a todos os ouvidos, de tal sorte que as não ouvissem. Ele, porém, para que pudesse ouvir as vozes, deixou os ouvidos abertos, e para não padecer os efeitos do encanto, nem se precipitar ao mar, como acontecia a todos, mandou-se atar ao mastro tão fortemente, que, ainda que quisesse, não se pudesse bulir nem mover. Esta é a história ou fábula engenhosamente fingida por Homero para ensinar que os varões sábios e constantes, como Ulisses, ainda que ouçam os aduladores e o contraponto doce das suas lisonjas, nem por isso se hão de deixar vencer de seus enganos e artifícios, mas persistir e continuar a derrota certa, sem mudar, deter nem torcer a carreira do bom governo. Assim o pudera fazer também quem tanto confiar ou presumir de sua constância, e não conhecer que isto mesmo, ainda somente dito, é fábula. Mas, se eu tivera autoridade para emendar a Homero, e confiança para aconselhar a Ulisses, não o havia de querer com os ouvidos abertos e as mãos atadas, senão com os ouvidos tapados e as mãos soltas, porque, com os ouvidos tapados não daria entrada à adulação, e com as mãos soltas seriam todas as ações suas, e, como suas, verdadeiramente reais. Deste modo se conquista no mundo a fama imortal, e se assegura também no céu a glória eterna.

(1) Mas eu vos digo: Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos têm ódio (Mt. 5,44).

(2) Lembra-te homem que és pó.

(3) Não achei tamanha fé em Israel (Mt. 8,10).

(4) O rei Salomão fez uma cadeirinha de madeira do Líbano: fez-lhe as colunas de prata, o reclinatório de ouro, a subida de púrpura; o meio de tudo ornou-o do que há de mais precioso (Cânt. 3,9 s). — Trad. de Pe. Antônio Pereira de Figueiredo.

(5) Perseguirei os meus inimigos, e apanhá-los-ei, e não me volverei até que eles acabem. Eu lhes quebrarei as forças, e eles não poderão ter-se em pé, e cairão debaixo de meus pés (Sl. 17,38 s).

(6) E orai pelos que vos perseguem e caluniam (Mt. 5,44).

(7) Faze voltar os males sobre os meus inimigos, e na tua verdade destrói-os (Sl. 53,7).

(8) Amai a vossos inimigos (Mt. 5,44)

(9) Eu vos digo.

(10) Por mim reinam os reis (Prov. 8,15).

(11) E agora, ó reis, entendei; instruí-vos, os que julgais a terra (Sl. 2, 10).

(12) Servi ao Senhor em temor, e alegrai-vos nele com tremor (Sl. 2, 11).

(13) Para que não suceda que se ire o Senhor, e pereçais do caminho da justiça (Sl. 2, 12).

(14) Se paguei com mal aos que mo faziam (SI. 7, 5).

(15) Tomavam-me a mim males por bens (SI. 34, 12).

(16) Jura-me que não hás de aniquilar a minha geração depois de mim, nem hás de extinguir o meu nome da casa de meu pai (1 Rs. 24,22).

(17) Porque sei que certissimamente hás de reinar(l Rs. 24,21).

(18) Simeão e Levi, irmãos, instrumentos de uma carniceria cheia de injustiça. Não permita Deus que nos seus conselhos intervenha a minha alma, e que a minha glória entre nos seus conluios, porque na sua sanha mataram aquele homem, e conforme a sua vontade arrombaram um muro. Maldito o seu furor, porque é obstinado, e maldita a sua ira, porque é inflexível (Gên. 49,5 ss).

(19) Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e ao teu próximo como a ti mesmo (Lc. 10,27).

(20) Querendo justificar-se a si mesmo (Lc. 10,29).

(21) Porque não é debalde que ele traz a espada (Rom. 13,4).

(22) Se paguei com mal aos que mo faziam, caia eu com razão debaixo de meus inimigos, sem esperan-ça (Sl. 7,5).

(23) Os inimigos do homem serão os seus mesmos domésticos (Mt. 10,36).

(24) O homem que, quando fala ao seu amigo, usa de uma linguagem lisonjeira e fingida, arma uma rede aos seus passos (Prov. 29,5).

(25) Eles alegraram ao rei com a sua malícia (Os. 7,3).

(26) E os quatro animais respondiam: Amém (Apc. 5,14).

(27)-Sai daqui, homem de visões, foge para a terra de Judá, e come lá o teu pão, e ali profetizarás. Mas não
aconteça mais profetizar em Betel, porque aqui é a religião do rei e o assento do seu estado (Am. 7,12 s).

(28) Porque de ti sairá o condutor que há de comandar o meu povo (Mt. 2,6).

(29) Cuja geração é desde o princípio, desde os dias da eternidade (Miq. 5,2)

(30) Voltem-se atrás e sejam envergonhados os que me desejam males. Voltem-se logo, cheios de confusão os que me dizem: Bem, bem (Sl. 69, 4)!

Sermão da Primeira

Na ocasião em que chegou a nova de se ter desvanecido a esperança das minas, que com grandes empenhos se tinham ido descobrir.
Qui sunt hi sermones, quos confertis ad invicem ambulantes, et estis tristes? Nos autem sperabamus quia ipse esset redempturus Israel (1).

§ I

A tragédia dos dois primeiros atos da famosa comédia de Páscoa. As lágrimas da Madalena, a tristeza dos discípulos de Emaús e o malogro da expedição em busca das minas. Assuntos do sermão: Muito melhor foi não se descobrirem as minas esperadas, que descobrirem-se; em lugar das minas incertas, que se não descobriram, descobrirá Deus outras certas, e muito mais ricas. Em um dia tão alegre como o de Páscoa, em que, pela gloriosa Ressurreição de Cristo, Redentor nosso, se revogou com a mesma glória a antiga sentença de morte fulminada contra Adão e Eva, digna coisa de admirar é que nem nas filhas de Eva, nem nos filhos de Adão, se achem efeitos de alegria. Amanheceu o sol neste formoso dia mais arraiado que nunca, acrescentando tantos raios a seus naturais resplendores, quantos tinha eclipsado e escondido no dia da Paixão: e que é o que achou no mundo o mesmo sol, ou quando nasceu no Oriente, ou quando se foi pôr no Ocaso? Quando nasceu achou a terra orvalhada das lágrimas da Madalena, como se ela fora a aurora daquele dia: Mulier, quid ploras (2)?

E quando se ia pôr, achou a tristeza dos dois discípulos de Emaús: Et estis tristes(3) – como se neles se multiplicara, coberta de sombras, a estrêla da tarde, ou Vésper: Quoniam advesperascit(4). Tão trágicos como isto foram os dois primeiros atos ou aparências desta famosa comédia!

Para eu vos declarar quão naturais fossem as causas de um e outro sentimento, não me é necessário ir buscar o exemplo mais longe, pois a fortuna nestes mesmos dias vo-lo trouxe a casa. Não é grande desconsolação buscar, e não achar? Pois essa era a desconsolação da Madalena e das outras Marias: Non invento corpore ejus(5). Não é bastante motivo de tristeza esperar, e não suceder o que se esperava? Pois essa era a causa por que os dois discípulos iam tristes: Non autem sperabamus(6). Enquanto os cuidados e esperanças se põem na terra, não podem faltar desconsolações e tristezas à terra. As Marias desconsoladas, porque não acharam o que buscavam debaixo da terra: Veniunt ad monumentum(7) – e os discípulos tristes, porque lhes não sucedeu o que esperavam para remédio da sua terra: Quia ipse esset redempturus Israel(8).

Tais considero, senhores, nesta ocasião, ou tais são, ainda que se não considerem, as causas que parece nos fizeram menos alegres estas páscoas, as quais eu desejo a todos, e para todos peço a Deus tão liberais dos bens do céu, e também dos que não são do céu, quando o mesmo Senhor sabe que nos convém. Foram-se buscar debaixo da terra as minas de ouro ou prata, e, não se tendo achado depois de tanto trabalho, assim como as Marias se desconsolaram de verem malogradas as suas diligências, as suas prevenções, e ainda as suas despesas: Emerunt aromata(9) - assim confesso vos pode desconsolar o muito que nesta infeliz jornada se tem gasto de tempo, de cuidado e de fazenda. E assim como os discípulos iam tristes por ver baldadas e perdidas as esperanças, com que desejavam ver melhorada a sua pátria e restaurado o seu reino: Quia ipse esset redempturus Israel - assim vos concedo que é para entristecer e sentir não se ter conseguido a opulência própria, e da monarquia, que das mesmas minas desvanecidas, com tanto boato se esperavam. É, contudo, tão bom consolador Cristo, e tão apressado, que na mesma manhã enxugou as lágrimas das Marias, e na mesma tarde serenou a tristeza dos discípulos, como eu também determino aliviar a vossa hoje.

Resumindo-se, pois, à história do Evangelho, que, sendo sucedida ontem, reservou a Igreja para este segundo dia, dois afetos ou duas paixões naturais do ânimo consolou ou curou Cristo, Senhor nosso, nos dois discípulos de Emaús: a tristeza declarada e a esperança perdida: a tristeza declarada: Et estis tristes; a esperança perdida: Nos autem sperabamus. E sendo estes os mesmos dois afetos com que os corações da nossa cidade se acham menos quietos e satisfeitos, assim como o Senhor, mostrando-se vivo aos discípulos, sepultou a sua tristeza e ressuscitou a sua esperança, assim eu, para consolar uma e alentar outra, vos mostrarei vivamente duas verdades. A primeira, que muito melhor vos esteve não se descobrirem as minas esperadas que descobrirem-se. A segunda que, em lugar das minas incertas, que se não descobriram, vos descobrirá Deus outras certas, e muito mais ricas. Ambos estes assuntos parecem temporais, como também eram por causas temporais a tristeza e desesperação dos dois discípulos à ida; mas nem por serem temporais deixou de as consolar o divino Mestre, para as converter a elas e a eles em espirituais, como tornaram à volta. O mesmo pretendo eu com a graça do céu, que me ajudareis a alcançar: Ave Maria.

§ II

Nos autem sperabamus: Esperávamos de ter minas, e estamos desenganados de que as não há. Muitas vezes está a nossa perdição em sucederem as coisas como esperamos. Maldição de Jó à noite. O ouro e a prata as mais das vezes são como os dois cabritinhos de Jacó, com que enganou ao pai cego para levar a benção de Esaú.

Qui sunt hi sermones, quos confertis ad invicem ambalantes, et estis tristes?

Que práticas são estas que ides conferindo entre vós, e de que estais tristes? - Esta foi a pergunta que fez Cristo, Redentor nosso, aos dois discípulos que iam de Jerusalém para Emaús. E se eu fizesse a mesma no nosso Belém, e perguntasse às vossas conversações por que estais tristes, é certo que me havíeis de responder como eles responderam: Nos autem sperabamus: Esperávamos de ter minas, e estamos desenganados de que as não há, ou esperávamos que se descobrissem, e não se descobriram. E se eu instasse mais em querer saber o discurso ou conseqüência com que sobre este desengano fundais a vossa tristeza, também é certo havíeis de dizer, como eles disseram, que no sucesso que se desejava e supunha, estavam livradas as esperanças da redenção, não só desta vossa cidade, e de todo o Estado, senão também do mesmo Reino: Nos autem sperabamus quia ipse esset redempturus Israel. Ora, ouvi-me atentamente, e - contra o que imagináveis, e porventura ainda imaginais - vereis como nesta, que vós tendes por desgraça, consistiu a vossa redenção, e de quantos trabalhos, infortúnios e cativeiros vos reuniu e vos livrou Deus em não suceder o que esperáveis.

Primeiramente, havemos de supor que muitas vezes está a nossa perdição em sucederem as coisas como esperamos, e, pelo contrário, está o nosso remédio e a nossa conservação em não terem o sucesso que se pretendia. Em uma maldição muito encarecida de Jó, temos o mais claro e mais notável espelho que se pode imaginar desta verdade: Pereat nox, in qua dictum est: Conceptus est homo! Expectet lucem, et non videat, nec ortum surgentis aurorae (Jó 3, 3. 9): Maldita seja a noite em que fui concebido - diz Jó; - espere pela luz, e nunca amanheça; espere pela aurora, e nunca venha. - Parecer-vos-á - como pareceu a quem o disse - que esta era a maior desgraça que podia suceder à noite, e a maior praga que se lhe podia rogar, mas, bem considerando o caso, não era senão a maior dita e a maior ventura. O maior inimigo que tem a noite é a aurora: enquanto não amanhece, conserva-se e persevera a noite; tanto que amanheceu, ficou acabada e perdida. Logo, aquela que parecia maldição não era maldição, antes era o maior bem, a maior felicidade que se podia desejar e imprecar à noite, porque, se a noite esperasse pela manhã, em lhe suceder, como esperava, estava a sua perdição e o seu fim, e em lhe não suceder, como esperava, estava a sua conservação, o seu aumento e o seu ser.

O mesmo digo, senhores, da esperança das vossas minas, a qual eu nunca tive por bem fundada, e, perguntado, assim o disse. Lá se mostrou ouro e prata, mas estes dois metais as mais das vezes são como os dois cabritinhos de Jacó, com que enganou ao pai cego para levar a bênção de Esaú (10). Disse Jacó que o guisado que presentava ao pai era da caça, e ele não era do mato, senão do rebanho. Assim é o ouro e prata que lá levam: dizem que foi cavado da beta, e ele é fundido da bolsa. Por isso as minas não são minas para quem faz as despesas, e só são minas, como a bênção de Jacó, para os mesmos que as fingiram, e vêm ricos de mercês e salários, e cheios de jurisdições e onipotência, com que se fazem mais ricos. Mas, ou se não descobrissem as minas, porque as não há, ou porque, havendo-as, não quis Deus que se descobrissem, vede de quantos perigos e trabalhos vos remiu e livrou a misericórdia e providência divina em não suceder este descobrimento como esperáveis!


§ III

O que sucede ao campo que esconde tesouros. Em que param as amizades, as pazes e as confederações em havendo descobrimento de tesouros. Conselho das nações de Gog e Magog contra os hebreus. Advertência de Jeremias. Os tesouros de Ezequias e a cobiça dos babilônios. As minas de ouro e prata de Espanha e a conquista romana.

E para que comecemos pelos perigos que podem vir de fora e de mais longe, se este Estado, sem ter minas, foi já tão requestado e perseguido de armas e invasões estrangeiras, que seria se tivesse esses tesouros? Lá traz Cristo, Senhor nosso, a comparação de um campo, que era cultivado somente na superfície da terra, fértil de flores e frutos, porém, sabendo um homem, acaso, que no mesmo campo estava enterrado e escondido um tesouro: Thesauro abscondito in apro (Mt 13, 44) - o que fez com todo o segredo e diligência foi ir logo comprar o campo a todo custo, e deste modo ficou senhor, não do campo por amor do campo, senão do campo por amor do tesouro. De sorte que toda a desgraça do campo em mudar de senhorio, e passar de um dono a outro dono, esteve em ter tesouro dentro em si, e saber-se que o tinha. Contentemo-nos de que nos dêem os nossos campos pacificamente o que a agricultura colhe da superfície da terra, e não lhes desejemos tesouros escondidos nas entranhas, que espertem a cobiça alheia, principalmente quando os mesmos campos não estão cercados de tão fortes muros que lhe possam facilmente defender entrada.

Conta a Sagrada Escritura, no capítulo trinta e oito de Ezequiel - ou seja história do passado, ou profecia do futuro - que, sabendo as nações de Gog e Magog que os hebreus viviam ricos e descansados nas suas terras, fizeram conselho entre si de os irem conquistar, fundando esta deliberação em dois motivos: o primeiro, que tinham ouro e prata; o segundo, que não tinham muros. Um motivo os excitou à conquista, e outro lha facilitou. O que os excitou foi o ouro e a prata: Ecce ad diripiendam praedam congregasti multitudinem tuam, ut tollas argentum et aurum(11) - e o que os facilitou foi serem terras habitadas, sem muros nem fortificações: Ascendam ad terram absque muro; vectes, et portae non sunt eis(12). E terras que têm ouro e prata, e não têm muros fortes que as defendam, naturalmente estão expostas à cobiça e invasão dos inimigos, porque o ouro e a prata que têm, excita a cobiça, e os muros e fortificações que não têm, facilitam a invasão.

É verdade que os hebreus naquele tempo estavam muito seguros com a paz das outras nações, e já livres de suas armas: Ad terram, quae reversa est a gladio ad quiescentes, habitantesque secure(13). Mas esta segurança é muito enganosa. Onde há nova ocasião de interesse, não há confederação que dure. Ouvi um dito notável de Jeremias: Nunquid foederabitur ferram ferro ab aquilone, et aes (Jer 15, 12)? Cuidais que o ferro do norte - do norte diz nomeadamente: ab aquilone - cuidais que o ferro do norte se pode confederar com outro ferro, e o seu bronze com outro bronze? – Enganais-vos - diz o profeta àqueles com quem falava - e o mesmo vos certifico eu, sem ser profeta. Livrou-vos Deus da prata, porque vos quis livrar do ferro. A arte, com a prata, liga os outros metais; e a cobiça, com a prata, desfaz e rompe todas as ligas.

Confederados estavam os israelitas com os babilônios, e era tanta a amizade e boa correspondência entre um e outro rei, que Baradac, rei de Babilônia, soberbíssimo e potentíssimo, sabendo que Ezequias, rei de Israel, tinha convalescido daquela grave enfermidade em que esteve à morte, lhe mandou embaixadores com grandes presentes a lhe dar o parabém da saúde. Quis-se mostrar agradecido Ezequias, e, em sinal de benevolência e confiança, levou os mesmos embaixadores ao mais secreto do seu palácio, e ali lhes descobriu e manifestou todos os seus tesouros. Ele e eles ficaram mui satisfeitos; mas não eram passadas vinte e quatro horas, quando Deus mandou anunciar a Ezequias as perigosas e tristes conseqüências daquele descobrimento: Ecce dies venient, et auferentur omnia, quae in domo tua sunt, et quae thesaurizaverunt patres tui usque ad diem hanc, in Babylonem; non relinquetur quidquam, dicit Dominus. Et de filiis qui exibunt de te, quos genueris, tollent, et erunt eunuchi in palatio regis Babylonis (Is 39, s): E vós, Ezequias, fostes tão inconsiderado, que manifestastes os vossos tesouros aos embaixadores de Babilônia? Pois sabei, diz Deus, que os babilônios os virão buscar, e não só se farão senhores dos mesmos tesouros, sem deles deixar coisa alguma, senão que até a vossos próprios filhos cativarão e levarão presos a Babilônia, para lá se servirem deles.- Eis aqui em que param as amizades, as pazes e as confederações, em havendo descobrimento de tesouros. Dai graças a Deus de se frustrarem as vossas esperanças, e não lhe sejais ingratos com vos entristecer, pois assim vos quis livrar de tamanhos perigos.

Se em Espanha não houvera minas de ouro e prata - das quais, diz Estrabo, que eram as mais ricas do mundo - nunca os romanos iriam a lhe fazer guerra de tão longe, nem com tanto empenho e pertinácia. Assim o dá a entender a mesma Escritura Sagrada no primeiro livro dos Macabeus, referindo as conquistas dos romanos e a fama das suas vitórias: Et quanta fecerunt in regione Hispaniae, et quod in potestatem redegerunt metalla argenti et auri, quae illic sunt(14). Não diz que conquistaram os homens, senão as minas, porque as minas foram o motivo da guerra e da conquista. Como a gente de Espanha era tanta, tão remota e tão forte, gastou a potência romana na pertinência desta conquista duzentos e trinta e cinco anos – vede se serão cá necessários tantos! – até que finalmente a terra, as minas e os moradores, ficaram todos sujeitos ao jugo e domínio estranho, presidiados de suas legiões, tributários à sua cobiça, governados e oprimidos da sua tirania, e o mesmo ouro e prata – que, como diz o Espírito Santo, muitas vezes é redenção do homem – para eles foi a causa da servidão, e o reclamo que chamou de tão longe e lhes meteu em casa o cativeiro.


§ IV

Um dos maiores castigos que Deus podia dar ao Maranhão era descobrirem-se nele minas. Quais são os escondidos de Deus, de que fala Davi? As minas e seus descobrimentos são castigos escondidos debaixo de aparências contrárias. As minas do Cabo de S. Vicente, o promontório sagrado, sepulcro de Tubal e de Hércules.

Mas, dado que as minas tão esperadas e apetecidas não tivessem, por conseqüência de sua fama, estes perigos de fora, bastava a consideração dos trabalhos e misérias domésticas, que com elas se vos haviam de levantar de debaixo dos pés, para que o vosso juízo, se o tivésseis, tratasse antes de sepultar as mesmas minas depois de achadas, que procurar de as desenterrar e descobrir, ainda que foram muito certas. Um dos maiores castigos que Deus podia dar a esta cidade, e a este Estado, era descobrirem-se nele minas. E não sou eu o que o digo, senão a prudência e verdade de quem se não podia enganar.

No Salmo dezesseis pede Davi a Deus lhe faça justiça, e dê a seus inimigos o castigo que merecem, pela desumanidade de feras com que perseguiam sua inocência. E, depois de dizer que Deus tinha ouvido sua petição, profetiza o castigo que o justo Juiz havia de dar aos mesmos inimigos; e como se já lhos tivera dado, refere-o assim em poucas palavras: De absconditis tuis adimpletus est venter eorum (Sl 16, 14): Fartastes, Senhor, a sua fome, com os encher dos vossos escondidos. - Entram agora os intérpretes a examinar quais são os escondidos de Deus. E o sentido mais próprio e mais literal, com Símaco e outros, é que os escondidos de Deus são as minas de ouro e prata. O ouro e a prata tem-nos Deus escondidos lá no profundo da terra, onde os criou, e quando o mesmo Senhor é servido que se descubram as minas, então aparecem e se manifestam estes escondidos de Deus: De absconditis tuis. - Mas se Davi tinha pedido a Deus que lhe fizesse justiça, e castigasse a seus inimigos, e o mesmo Deus lhe tinha prometido de o fazer assim e de os castigar, como diz que lhes há de descobrir o ouro e a prata que tem escondidos nas minas, e os há de fartar delas: De absconditis tuis adimpletus est venter eorum? - Mais apertadamente ainda. Neste salmo, que todo é profético, assim como na pessoa de Davi é figurado Cristo, assim nas perseguições de Davi são significadas a crueldade e ingratidão com que Cristo foi tratado em vida por seus inimigos, e as maldades e pecados com que ainda hoje é desacatado e ofendido. Pois, em prêmio dessas ofensas, dessas maldades e desses pecados descobre Deus os seus tesouros que tem escondidos debaixo da terra, e enche e farta de ouro e prata aos que estão famintos de minas? Sim, porque essas minas que tanto se desejam e estimam, ordinariamente não as descobre, nem as dá Deus por merecimentos, senão em castigo de grandes pecados. Ouvi o comento de todos os padres gregos sobre o mesmo texto, divididos em duas opiniões, mas ambas concordes no que tenho dito: Illud autem de absconditis, alii quidem intellexerunt de suppliciis, alii vero de fussilibus metallis (15): Aqueles que o profeta chama os escondidos de Deus, uns dos santos padres entenderam que significam castigos, e outros que significam minas - e uns e outros não discrepam, mas concordam admiravelmente na mesma diferença de um e outro sentido. Por quê? Porque as minas, quando Deus as descobre, são castigos; e um dos maiores castigos que Deus dá por pecados é o descobrimento de minas: De metallis fussilibus, de supliciis.

E notai a misteriosa propriedade com que este gênero de castigos se chamam também os escondidos de Deus: De absconditis tuis - porque Deus umas vezes castiga com castigos manifestos, e outras vezes com castigos escondidos. Os castigos manifestos são os que todos temem e reconhecem por castigos, como são as fomes, as pestes, as guerras, e outras calamidades temporais; os castigos escondidos e ocultos são aqueles que não se reputam nem temem como tais, antes se estimam e desejam como felicidades e boas fortunas: e deste gênero são as minas e seus descobrimentos. São castigos escondidos debaixo de aparências contrárias, porque se apetecem, estimam e festejam enganosa e enganadamente, sendo certo que debaixo do preço e esplendor do ouro e prata se ocultam e escondem grandes trabalhos, aflições e misérias, com que a justiça divina, por pecados, quer castigar e açoitar as mesmas terras onde as veias destes metais se descobrem. Deus tanto pode açoitar com varas de ferro, como com varas de ouro e de prata; antes estes açoites são muito mais pesados, quanto a prata e ouro pesam mais que o ferro.

Aquela ponta de terra montuosa, que hoje chamamos Cabo de S. Vicente, antigamente se chamava Promontório Sagrado, por estar ali o sepulcro de Tubal, primeiro pai da nossa nação, e também o de Hércules, um dos mais famosos e amados reis da Lusitânia. Havia minas neste promontório, as quais, por causa da mesma veneração, também era vedado cavarem-se; e dizem as histórias daquele tempo que só em um caso se permitia aos moradores aproveitarem-se do ouro e da prata das ditas minas. Mas qual era este caso? Coisa verdadeiramente admirável, e muito digna de se notar. O caso era quando caía do céu algum raio que penetrasse a terra, e descobrisse os preciosos metais que nela estavam escondidos. De sorte que naquela terra, também nossa, o abrirem-se minas e o caírem raios do céu, tudo vinha junto, como se o céu nos pregara que o descobrimento de minas na terra não são felicidades e boas fortunas, como se imagina, senão execuções da ira de Deus, e castigos do céu.


§ V

Os martírios e horrores das minas de Potosi. Os anacoretas das minas de ouro e prata. Quais haviam de ser enterrados vivos naquelas furnas caso se descobrissem as minas? A pior de todas as ameaças: os ministros reais e quantos oficiais de justiça, de fazenda e de guerra que viriam, mandados ao Maranhão, para extração, segurança e remessa do ouro e da prata.

E para que vos não pareça que são isto encarecimentos lenitivos, inventados para divertir a tristeza, e dar espécie à consolação, troquemos este ouro e prata em miúdos, e vejamos os proveitos e interesses que do descobrimento de minas haviam de resultar à vossa terra, no caso em que se tivessem achado. Eu nunca fui ao Potosi, nem vi minas, porém nos livros que descrevem o que nelas passa, não só causa espanto, mas horror, ler a fábrica e as máquinas, os artifícios e a força, o trabalho e os perigos com que as montanhas se cavam, e as betas se seguem, e, perdidas, se tornam a buscar; os encontros de pedernais impenetráveis, ou de águas subterrâneas, que rebentam das penhas, as quais ou se hão de esgotar com bombas, ou abrir-lhes novo caminho, furando por outra parte os mesmos montes; o estrondo dos maços, das cunhas, das alavancas, e dos outros instrumentos de ferro, alguns dos quais têm cento e cinqüenta libras de peso, com que se batem, cortam e arrancam as pedras, ou se precipitam com maior perigo do alto: e tudo isto naquelas profundíssimas concavidades, ou infernos, onde nunca entrou o raio do sol, alumiados malignamente aqueles infelizes ciclopes só com a luz escassa e contrafeita de alguns fogos artificiais, cujo hálito, fumo e vapor ardente lhes toma a respiração, e muitas vezes os afoga.

Faz aqui padecer a cobiça muito mais do que profetiza Isaías que fará em algum tempo a penitência: Introibunt in speluncas petrarum, et in voragines terrae; projiciet homo idola argenti sui, et simulacra auri sui, quae fecerat sibi ut adoraret, talpas et vespertiliones (Is 2, 19 s): Meter-se-ão os homens pelas covas e pelas concavidades mais profundas da terra, não para buscar ouro ou prata, mas, abominando e lançando de si os ídolos, que do ouro e da prata tinham feito, toupeiras e morcegos. - Vede agora estas mesmas figuras como as ajunta e introduz toda a cobiça neste escuro e horrendo teatro da paciência sem virtude. Ali os penitentes arrependidos entram pelas grutas e concavidades da terra; aqui os cobiçosos e enganados também se metem, não pelas covas que a terra tem aberto, senão pelas que eles cavam e rompem à viva força, muito mais penetrantes e profundas. Ali desprezam-se os ídolos de ouro e prata, conhecida sua mentira e vaidade; aqui, estima-se e adora-se tanto a mesma vaidade que, por novos e ocultos caminhos de tantos estádios, se vai buscar e desenterrar o ouro e prata, para se fundirem e lavrarem ídolos. Ali as figuras dos ídolos são toupeiras e morcegos: talpas et vespertiliones - e aqui os homens, desfigurados como toupeiras, vivem debaixo da terra, sem ter olhos para ver a luz, e como morcegos fogem do sol e do dia, e se vão mais sepultar que viver naquela escura e perpétua noite. Ainda tem outra propriedade, porque uns, como toupeiras, com os pés e mãos na terra andam cavando, revolvendo e mudando continuamente, e outros, como morcegos suspensos no ar, estão picando as pedras e sangrando as suas veias com o corpo e com a vida pendente de uma corda. Houve jamais algum anacoreta, dos que habitavam as covas, que fizesse tal penitência? Pois ainda não ouvistes o mais temeroso dela.

Solapadas por baixo aquelas grandes montanhas, todo o peso imenso delas se sustenta sobre pilares da mesma matéria, que vão deixando a espaços, os quais, se enfraquecem ou quebram, como acontece muitas vezes, qual é o efeito? Toda a montanha, ou grande parte dela, cai de repente, e a multidão que andava desenterrando a prata, fica sepultada com ela, em um momento, sem outra notícia de tamanho e tão miserável estrago, que a que deu aos de muito longe o estrondo da ruína, e o tremor de toda a terra. Isto é o que se escreve, e se escreve muito menos do que verdadeiramente é. Baste, por prova, que a sevícia e crueldade dos Neros e Dioclecianos comutavam a morte e os tormentos dos cristãos em os mandar servir e trabalhar nas minas, e a Igreja, que com tanta dificuldade e consideração examina e avalia os merecimentos dos santos, canonizava e venerava por mártires aos que nelas acabavam a vida.

Agora vos pergunto eu: e estes martírios das minas, se as vossas se descobrissem, quem os havia de padecer? Dos degradados não falo, porque os que hoje se degradam para o Maranhão, então se haviam de degradar todos, e muitos mais para as minas. Os cavadores não seríeis os mais nobres e ricos da terra, mas quem haviam de ser senão os seus escravos? Quem havia de induzir todos aqueles instrumentos e máquinas por esses sertões dentro? Quem havia de contribuir o sustento, e levá-lo aos trabalhadores? Quem havia de cortar e acarretar àquelas serras estéreis - como são todas - as lenhas para as fornalhas e fundições? E aqueles lumes perpétuos e subterrâneos, com que óleos se haviam de sustentar, senão com os dos frutos agrestes que aqui se estilassem, e não com os dos olivais que de lá viessem? Sobretudo, se tantos milhares de índios se têm acabado e consumido em tão poucos anos, e com tão leve trabalho, como o das vossas lavouras, onde se haviam de ir buscar outros, que suprissem e suportassem quanto tenho dito? E quais haviam de ser os que, vendo-se enterrados vivos naquelas furnas, não fugissem para onde nunca mais aparecessem, levando o mesmo medo com eles aos demais? Tudo isto não o haviam de fazer nem padecer os que passeiam em Lisboa, porque também estas minas são como as da pólvora, que sempre arruinam, derrubam e põem por terra o que lhes fica mais perto. E isto é o que vós desejáveis para a vossa, e vos entristece, porque não sucedeu como esperáveis?

Ainda falta por dizer o que mais vos havia de destruir e assolar. Quantos ministros reais, e quantos oficiais de justiça, de fazenda, de guerra, vos parece que haviam de ser mandados cá, para a extração, segurança e remessa deste ouro ou prata? Se um só destes poderosos tendes experimentado tantas vezes que bastou para assolar o Estado, que fariam tantos? Não sabeis o nome do serviço real - contra a tenção dos mesmos reis - quanto se estende cá ao longe, quão violento é, e insuportável? Quantos administradores, quantos provedores, quantos tesoureiros, quantos almoxarifes, quantos escrivães, quantos contadores, quantos guardas no mar e na terra, e quantos outros ofícios de nomes e jurisdições novas se haviam de criar ou fundir com estas minas, para vos confundir e sepultar nelas? Que tendes, que possuís, que lavrais, que trabalhais, que não houvesse de ser necessário para serviço de el-rei, ou dos que se fazem mais que reis com este especioso pretexto? No mesmo dia havíeis de começar a ser feitores, e não senhores de toda a vossa fazenda. Nem havia de ser vosso o vosso escravo, nem vossa a vossa canoa, nem vosso o vosso carro e o vosso boi, senão para o manter e servir com ele. A roça haviam-vo-la de embargar para os mantimentos das minas; a casa haviam-vo-la de tomar de aposentadoria para os oficiais das minas; o canavial havia de ficar em mato, porque os que o cultivassem haviam de ir para as minas; e vós mesmo não havíeis de ser vosso, porque vos haviam de apenar para o que tivésseis ou não tivésseis préstimo, e só os vossos engenhos haviam de ter muito que moer, porque vós e vossos filhos havíeis de ser os moídos.

§ VI

A proposição de Horácio: o ouro é melhor não se achar nem se descobrir que achar-se. As coisas naturais, enquanto estão no seu próprio lugar, em que as situou a natureza, nenhum dano fazem. Enquanto no mundo não houve ouro, então foi a Idade de Ouro: depois que apareceu o ouro no mundo, então começou a Idade de Ferro. Que quer dizer o Gênesis quando diz que no princípio do mundo a terra estava vazia e vazia? Se na doação universal dos bens do Paraíso, Deus entrega como por lista a Adão todas as outras coisas, as minas de ouro e prata por que deixa de fora? O ouro e a prata, pedra de toque dos homens. Plínio e a felicíssima idade em que as coisas se contavam umas por outras: Os discípulos de Cristo e o perigo do dinheiro.

Parece-me que vos vejo dar assenso a tudo o que digo - que por isso desci a coisas tão particulares e domésticas - e também creio que já vossa esperança terá mudado de conceito à vista deste descobrimento de minerais, tão diversos do que ela desejava e supunha, os quais é certo que haviam de ser maiores e mais duros na experiência, do que os pode representar o meu discurso. Fique, logo, por conclusão que muito maior mercê vos fez Deus, e muito mais bem afortunados fostes em não se acharem as minas, que se o ouro e prata, que se supunha e esperava delas, se descobrisse. Ouvi a sentença de um gentio, fundado só na razão natural e experiência, sem nenhum princípio de fé, que a nós nos devia levantar mais da terra: Auram irrepertum, et sic melius situm cum terra celat: O ouro - diz Horácio - é melhor não se achar nem se descobrir, que achar-se: auram irrepertum. E por que? Porque, enquanto a terra o esconde e encobre: cum terra celat - está ele no sítio e lugar que lhe deu a natureza, que é o melhor: et melius situm. - Excelente razão. As coisas naturais, enquanto estão no seu próprio lugar em que as sitiou a natureza, nenhum dano fazem; tiradas dele, são muito danosas. A água no seu centro não pesa; o fogo na sua esfera não queima; a terra, se sobe ao ar, faz raios; o ar, se se mete debaixo da terra, faz terremotos, derruba casas e cidades; assim também o ouro e prata das minas. Enquanto estão escondidos lá no centro da terra, onde as pôs a natureza, conservam-se inocentes, e não fazem mal a ninguém; mas se se cavam e se tiram fora, então são muito perniciosas, e fazem grandes estragos. Olhai para o passado, se vos não quereis enganar com o presente.

Aquela idade dourada, tão célebre nos primeiros tempos, quem a fez? Parece que a havia de fazer o ouro, e não a fez o ouro que havia, senão o ouro que não havia, porque ainda se não tinha descoberto. Enquanto no mundo não houve ouro, então foi a Idade de Ouro: depois que apareceu o ouro no mundo, então começou a Idade de Ferro: Jamque nocens ferrum, ferroque nocentius aurum prodierat( * ). O que era necessário e útil para a vida e conservação dos homens, notou Sêneca, Demócrito, e ainda o mesmo Epicuro, que o pôs a natureza muito perto de nós, e muito descoberto e patente, como são as plantas, os frutos, os animais, pelo contrário, o que não só era inútil, mas pernicioso, pô-lo muito longe de nós, oculto e escondido, onde o não víssemos: e este é o ouro e a prata. Houve-se em tudo a natureza como mãe. A mãe dá a maçã ao filhinho, e esconde-lhe a faca. Por que? Porque quer que coma, mas não quer que se fira, e se o menino chora pelo que o há de ferir, não é justo que os homens de razão e de juízo tenham sentimento de meninos.
Esta mesma doutrina, como tão necessária – porque não cuideis que é só de filósofos – foi a primeira que nos ensinou a Sagrada Escritura logo no princípio do mundo: In principio creavit Deus caelum et terram. Terra autem erat inanis et vacua. (Gên 1, 1 s): No princípio criou Deus o céu e a terra; porém a terra estava vazia e vazia. – E que quer dizer que a terra estava vazia e vazia: inanis et vacua? Quer dizer que estava vazia por dentro e vazia por fora: vazia por dentro: inanis – porque ainda não tinha Deus criado no interior da terra os minerais; e vazia por fora: et vacua – porque também não tinha criado na superfície da mesma terra as plantas, as árvores e os animais. Criou, pois, Deus todas estas coisas naqueles primeiros seis dias, e, fazendo a Escritura muito particular e miúda relação das plantas, das árvores e dos animais, das minas e dos metais não faz menção alguma. Pois, se a Escritura tinha dito que a terra, em sua primeira criação, nascera vazia por dentro e por fora, e relata com tanta distinção e engrandece com tanto aparato como Deus a encheu e povoou por fora, por que cala totalmente, e não diz como a encheu e enriqueceu por dentro? Mais. Depois que Deus teve criado todas as coisas, e o homem, que foi a última, mostrou-lhe as ervas, as plantas, as árvores e seus frutos, e disse-lhe: - Eis aqui toda esta variedade, a qual criei, e vos dou para vosso sustento e regalo. – E fazendo vir diante do mesmo Adão todos os animais, disse-lhe da mesma maneira: - Também de todos estes vos dou o domínio, os quais criei para que vos ajudem e sirvam. – Agora cuidava eu que havia que acrescentar o Senhor: E não só tenho provido e aparelhado, para vosso sustento, serviço e conservação, todas estas coisas que vedes na superfície da terra, mas também lá no centro e entranhas dela, criei muitas minas de metais preciosos, para maior riqueza, grandeza e utilidade vossa, e de vossos descendentes. Mas nada disso disse Deus: tudo passou em silêncio, sem fazer das minas a menor insinuação. Pois, se Deus nesta doação universal entrega, como por lista, a Adão todas as outras coisas que tinha criado para ele, as minas de ouro e prata, que parecia – como hoje parece – que era a melhor e mais rica partida de todas, por que as deixa de fora? Porque todas as outras coisas que estão à face da terra, e o domínio e uso delas, era útil e necessário ao homem para sua conservação e sustento, e ainda para seu regalo; porém as minas, o ouro e a prata, não só não eram necessários nem úteis, mas supérfluos e perniciosos, e ocasião que lhe podia e havia de ser de gravíssimos danos. Por isso, assim como as tinha sepultado e escondido debaixo da terra, assim lhe escondeu e encobriu também a notícia delas, passando totalmente em silêncio, e não fazendo menção de tal coisa.

Mas vejo que me perguntam os curiosos, e me argúem os críticos: se as minas eram tão danosas e perniciosas ao homem, e por isso lhas escondeu e encobriu Deus, por que as criou, ou para que? Para responder a esta pergunta, faço-vos primeiro outra. E a Arvore da Ciência que foi a ocasião e origem de todos os males do mundo, por que a criou Deus no paraíso? Ou aquela árvore era boa ou má - como argumenta Santo Agostinho. - Se era má, para que a plantou Deus? Se era boa, para que a proibiu? Ameaça ao homem com a morte se comer daquele fruto, e pinta o mesmo fruto com tais cores, que levava após si os olhos- Pulchrum oculis, aspectaque delectabile(16)? Sim. Porque aquele fruto tão formoso não foi criado para que Adão comesse ou provasse dele, senão para que Deus tentasse a Adão, e o provasse com ele. E esta é também a razão por que Deus criou o ouro e a prata, e lhes deu tanta formosura de cores. Quílon, um dos sete sábios da Grécia, dizia que, assim como a pedra de toque prova o ouro e a prata, assim o ouro e a prata são a pedra de toque dos homens. Quereis provar quem são os homens? Tentai-os com ouro e com prata. Do ouro disse o Eclesiástico: Qui post aurum non abiit, probatus est in illo (17); e da prata disse Davi: Ut excludant eos, qui probati sunt argento.

E notai que o que nesta sentença ficou aprovado foi um só: Qui probatus est in illo - e os que ficaram reprovados e excluídos foram muitos: Ut excludant eos, qui probati sunt argento. Ora já que todos os dias pedimos a Deus que nos livre das tentações, ou que nos não meta nelas: Ne nos inducas intentationem – demos-lhe muitas graças, pois nos livrou desta, em que nós nos tínhamos metido.

E porque vos não fique a última desconsolação de não terdes com que bater moeda na vossa terra, saibam os que tanto a desejam e procuram que, posto que seja com boa tenção e bom zelo, é esta a maior traição que podem fazer à sua pátria. É possível que vos dê Deus uma terra tão abundante e tão fértil, que só com a comutação dos frutos e drogas dela vos sustentais e conservais há tantos anos, tão abastada e tão nobremente, sem haver nem correr nela dinheiro, e que desejeis e suspireis por dinheiro, sem o qual, e por isso mesmo, vos fez a vossa fortuna singulares no mundo? Plínio, que foi o homem que maior conhecimento teve de todo ele, entre outras muitas sentenças com que condena o uso do dinheiro, e louva o da comutação dos frutos naturais, diz estas notáveis palavras: Quam innocens, quam beata, imo vero et delicata esset vita, si nihil aliud quam supra terras concupisceret? Utinamque posset e vita totum abdicari aurum, ad perniciem vitae repertum, quantum feliciore aevo, cum res ipsae permatabuntur, inter se (18)? Quer dizer: que inocente, que bem-aventurada, e que deliciosa seria a vida dos homens, se eles se contentaram com o que nasce sobre a terra! Oxalá se pudera desterrar de todo o mundo o ouro descoberto para destruição da vida, e se trocaram os tempos e uso presente por aquela idade felicíssima, em que as coisas se comutavam uma por outras. – Até aqui o parecer daquele grande juízo, que ajuntou em si a ciência e compreensão de todos os séculos. E que, tendo-vos Deus feito mercê de que gozeis esta inestimável riqueza e felicidade natural, queirais abrir as portas a um inimigo tão universal e pernicioso como o dinheiro, que, no dia em que entrar na terra, vos há de empobrecer a todos de repente? Ouvi um caso admirável de Cristo, Senhor nosso, com seus discípulos.

Mandou-os o Senhor pregar pelo mundo, e proibiu-lhes nomeadamente que não tivessem ouro nem prata, nem levassem bolsa nem dinheiro consigo: Nolite possidere aurum, neque argentum, neque pecuniam in zonis vestris (Mt 10, 9). Vieram os discípulos da jornada, e fez-lhes o Divino Mestre esta pergunta: Quando misi vos sine sacculo, et pera, numquid aliquid defuit vobis (Lc 22, 35)? Quando vos mandei sem bolsa nem alforje, faltou-vos alguma coisa? – Responderam todos que nenhuma coisa lhe faltara: At illi dixerunt: nihil (Lc 22, 36). – Pois agora vos digo, replicou o Senhor, que quem tiver bolsa e dinheiro o leve consigo, e se tiver alforje, também: Sed nunc, qui habet sacculum, tollat similiter et peram (Lc 22, 36). – Com razão chamei a este caso admirável. Se Cristo tinha mandado aos discípulos sem bolsa nem dinheiro, e eles experimentaram e confessaram que nenhuma coisa lhes faltara, como depois desta experiência e desta confissão, lhes manda agora o contrário, e que levem dinheiro? Se eles tiveram dito que, por não levarem dinheiro, lhes tinham faltado muitas coisas necessárias à vida, então se seguia bem que o Senhor lho concedesse. Mas, tendo-lhes proibido o dinheiro, quando foram a primeira vez, e não lhes tendo faltado nada, agora lhes diz que o levem? Responde, depois de grandes admirações, S. João Crisóstomo. Cristo, Senhor nosso, queria exercitar seus discípulos na paciência, e que padecessem pobreza e falta do que lhes fosse necessário; e como quando foram sem dinheiro, nenhuma destas coisas lhes faltou, mandou-lhes que levassem dinheiro, para que tudo lhes faltasse. Ac si eis dixerit: hactenus cuncta vobis uberrine affluebant, nunc autem volo vos et inopiam experiri (19): Como se dissera o Senhor – diz Crisóstomo: - Até agora, sem dinheiro, tudo vos sobeja; pois agora quero que tenhais dinheiro, para que tudo vos falte, e sejais pobres. – Isto é o que querem, sem entender o que querem, os que desejam que entre e corra dinheiro nesta vossa terra. Se sem dinheiro, e só com uma comutação dos frutos naturais da terra, tendes abundantemente tudo o que é necessário para a vida, e muitos de vós o supérfluo, para que quereis dinheiro, senão para que tudo custe dinheiro, e, custando tudo dinheiro, todos sejais pobres? Benzei-vos desta tentação como da outra: lograi o que Deus vos deu tão abundantemente sobre a terra, e debaixo dela nem queirais minas, nem o que delas se bate.


§ VII

As minas, causa de opressão e ruína do Reino. Que utilidades se têm seguido à Espanha do seu famoso Potosi? Que faziam os rios de ouro do reinado de Salomão, provenientes das minas do Peru e do Brasil? Os magnetes atraem o ferro e os magnates o ouro.

Mas, antes que acabemos este ponto - com promessa de que o segundo será muito breve - não quero que me acuseis de pouco zeloso da opulência do Reino. E assim como vos tenho mostrado que as minas, no caso em que se descobrissem, seriam de grande dano, em particular para este Estado, assim acrescento agora que também para o mesmo Reino em geral antes haviam de ser de maior opressão e ruína, que de utilidade e aumento. E para que comecemos pelos exemplos mais vizinhos, que utilidades se têm seguido à Espanha do seu famoso Potosi, e das outras minas desta mesma América? A mesma Espanha confessa e chora que lhe não tem servido mais que de a despovoar e empobrecer. Eles cavam e navegam a prata, e os estrangeiros a logram. Para os outros é a substância dos preciosos metais, e para eles a escória. Lá disse Isaías, falando do Reino de Israel: Argentum tuum versum est in scoriam (20): e o mesmo se poderá dizer sem metáfora da prata de Espanha. Ainda, com mais doméstica propriedade, se lhe pode aplicar o dito do seu mesmo patrão, Santiago : Argentum vestrum aeruginavit(21) - pois a prata se lhe tem convertido em cobre, e a fama e opulência de tanto milhão em belhão.

E para que se não engane alguém com me dizer ou cuidar que a evidência deste mesmo exemplo nos servirá de doutrina e emenda, passemos a outro reino, ou a outro reinado mais sábio, qual foi, sem injúria dos presentes nem futuros, o de Salomão. Salomão, com a sua universal sabedoria, descobriu riquíssimas minas, e não outras, segundo opinião de graves autores, senão as mesmas deste Novo Mundo. As do Peru, que os espanhóis descobriram sem as buscar, e as do Brasil, que nós buscamos, e não descobrimos. Funda-se esta sentença no capítulo terceiro do segundo Livro dos Paralipômenos, onde, falando do ouro que daquelas partes vinha a Salomão, diz o texto hebreu: Aurum erat Paruaim (22). A qual palavra Paruaim é um nome do plural, cujo singular é Peru, com que vem a dizer o mesmo texto que aquele ouro se trazia de ambos os Perus, ou de um e outro Peru. Assim os declara Genebrardo, peritíssimo na língua hebraica: Aurum Paruaim in hebraeo appellatur quasi allatum ex utroque Peru(23). E daqui infere, como coisa evidente, que era tirado das minas deste novo Mundo: Quis non cernit novum hunc orbem nominari? E para que se veja que um destes Perus era o que hoje conserva o mesmo nome, e o outro este nosso, que chamamos Brasil - onde só podiam vir aportar as frotas de Salomão - diz o mesmo texto sagrado que uma das coisas novas, e nunca vistas na Ásia, que levavam as mesmas frotas, eram certos paus chamados ligna thyina, os quais, dizem os hebreus, citados por Tirino, que eram lignum Brasilium: pau do Brasil(24) . O Caldeu traslada coralium: coral, donde parece-lhe deram este nome pela semelhança da cor vermelha. Mas as obras, que o texto aponta se faziam deste pau, não podiam ser do que vulgarmente se chama Brasil, senão de outra madeira preciosa, das muitas que nele nascem.

Isto suposto - e não suposto também - ou fossem desta terra as minas de Salomão, ou de qualquer outra, vamos ao que rendiam, e em que se empregava, que é o que faz ao meu caso. O que traziam as suas frotas a Salomão, só em ouro, eram seiscentos e sessenta e seis talentos, que montam oito milhões, menos oito mil cruzados. Assim o conta pontualmente a Escritura: Pondus auri, quod afferebatur Salomoni per annos singulos, sexcentorum sexaginta sex talentorum auri(25). E não só traziam as frotas ouro, senão também muita prata, cuja quantidade era tão imensa na corte de Jerusalém, que, afirma a mesma Escritura, igualava às pedras da rua: Fecitque ut tanta esset abundantia argenti in Jerusalém, quanta et lapidum(26). Esta é a imensidade de ouro e prata que rendiam aquelas minas. Mas antes que vejamos em que todo este ouro e toda esta prata se gastava, deixai-me fazer um reparo, digno não só de admiração, mas de assombro e de pasmo.

Morto Salomão, sucedeu-lhe na coroa Roboão, seu filho, e a primeira proposta que lhe fizeram os povos juntos em cortes foi que tivesse piedade deles, e os aliviasse dos tributos com que estavam oprimidos em tempo de seu pai, porque eram insuportáveis. E chegou esta instância a termos tão apertados, e do cabo, que, não querendo Roboão condescender no que tão justamente pediam, das doze Tribos de que constava todo o reino, as dez lhe negaram a obediência e se rebelaram, e fizeram outro rei e outro reino, que nunca mais se sujeitou nem restituiu aos herdeiros de Salomão. Agora entra o meu reparo. Se o peso de ouro e a quantidade da prata que contribuíam as minas era tão excessiva - além dos direitos ordinários do reino, de que também faz menção a Escritura - com toda esta imensidade de tesouros, com todos estes rios de prata e ouro, que estavam sempre a correr: Per singulos annos - como não se aliviava a opressão dos vassalos, como se não levantavam ou diminuíam os tributos dos povos, antes cresciam e se multiplicavam ao mesmo passo, com tal excesso que os obrigavam a uma tal desesperação, e reduziram o reino a extrema ruína? Aqui vereis qual é o fruto das minas, e o que fazem esses rios de ouro e prata, trazidos de tão longe. Com as suas enchentes inundam a terra, oprimem os povos, arruinam as casas, destroem os reinos.

As causas naturais destes efeitos tão lamentáveis não são ordinariamente outras, senão as mesmas que precederam no reinado de Salomão. E quais foram estas? O luxo, a vaidade, a ostentação, a delícia, os palácios, as casas de prazer, as fábricas e máquinas esquisitas, e outras coisas tão notáveis como supérfluas, que chamavam à corte de Jerusalém os olhos do mundo, e vistas, desmaiavam a admiração, como aconteceu à rainha Sabá. As baixelas todas eram de ouro - porque da prata não se fazia caso - as mesas, e todas as outras alfaias, também de ouro, e, o que se não pudera crer, se o não referira a História Sagrada, até as lanças e escudos, em grande número, de ouro. Nestes monstros da vaidade - que sempre é maior que o poder - se consumiam aqueles imensos tesouros, e onde não chegavam os milhões das frotas, supriam os tributos dos vassalos. Quando as frotas haviam de partir, uns concorriam com o préstimo de suas artes para os aprestos, outros com as contribuições das suas herdades para os bastimentos, outros com o dinheiro amoedado para os soldos, outros com as próprias pessoas, embarcando-se forçados a uma tão dilatada, tão nova e tão perigosa navegação. E quando as mesmas frotas voltavam carregadas de ouro e prata, nada disto era para alívio ou remédio dos povos, senão para mais se encherem e incharem os que tinham mando sobre eles, e para se excogitarem novas artes de esperdiçar, e novas invenções de destruir. E se isto sucedia no reinado e governo de Salomão, vede se se pode esperar ou temes outro tanto, quando não forem Salomões os que tenham o governo!

Dos futuros condicionais e contingentes, ninguém é sabedor, senão Deus e os seus profetas. E assim não quero que me creiais a mim, senão a Isaías: Repleta est terra argento et auro, et non est finis thesaurorum ejus (Is 2, 7): Vejo a terra – diz Isaías - toda cheia de ouro e prata, e são tantos e tão grandes os seus tesouros que não têm fim. – Oh! ditosa e bem afortunada terra, em que não haverá já pobreza nem miséria, pois, estando toda cheia, a todos abrangerá a riqueza, e não haverá quem não tenha com que remediar a sua necessidade! Assim parece verdadeiramente. Mas vejamos se vê mais alguma coisa o profeta, e se é isto mesmo que nós inferimos. Vai por diante Isaías, e às palavras que tinha dito acrescenta as seguintes: Et repleta est terra ejus equis, et innumerabiles quadrigae ejus, et repleta est terra ejus idolis: opus manuum suarum adoraverunt (Is 2, 8): Depois de ver a terra cheia de ouro e prata, o que mais vi - diz o profeta – foi que a mesma terra estava cheia de cavalos, e que as suas carroças eram inumeráveis, e que os homens adoravam as obras de suas mãos, e faziam delas ídolos. - Eis aqui os aumentos que havia de ter o reino com os haveres que lhe prometiam as vossas minas. Encher-se-ia a terra de ouro e prata mas esse ouro e prata, posto que naturalmente desce para baixo, havia de subir para cima. Não havia de chegar aos pequenos e pobres, mas todo se havia de abarcar e consumir nas mãos dos grandes e poderosos, porque, como bem disse o outro, os magnetos atraem o ferro, e os magnates o ouro; e as obras pias em que esses tesouros se haviam de despender, eram, mais cavalos, e mais carroças, e mais galas, e mais palácios, e obras magníficas e ostentosas; e também haviam de ter parte nele os ídolos batizados, que lá se adoram, e que tantas vidas e fazendas têm destruído. E se estes eram os proveitos com que se havia de adiantar o reino no descobrimento das vossas minas , à custa da vossa fazenda, do vosso trabalho, da vossa opressão e do vosso cativeiro, vede se foi grande favor e providência do céu, que se não descobrissem, e se, tanto no particular como no geral, ia desencaminhada e errada a vossa esperança: Nos autem sperabamus.


§ VIII

Em lugar das minas incertas, que se não descobriram, descobrirá Deus outras certas e mais ricas. O milagre prometido por Cristo aos escribas e fariseus. Que foi buscar Cristo ressuscitado nas concavidades escuras e subterrâneas do interno? O que disseram os autores gentios dos mineiros do ouro e da prata, e o que Cristo fez penetrando o mais escondido e interior da terra. As almas dos patriarcas, tesouros inestimáveis que o Redentor do mundo tirou das suas minas. A profecia de Isaías e o descobrimento das minas secretas e dos tesouros ocultos. O preço por que foram compradas nossas almas. El-rei D. João, o Segundo, e as minas da Costa de África.

Desenganado assim e desvanecido o falso descobrimento das vossas minas, segue-se o verdadeiro das minhas, que vos prometi descobrir. E porque é certo e infalível, não necessita de tão largo discurso. Prometendo Cristo, Redentor nosso, aos escribas e fariseus, em lugar de um milagre do céu, que lhe pediam, outro milagre maior na terra, disse que, assim como Jonas estivera três dias e três noites no ventre da baleia, assim ele havia de estar no coração da terra outros tantos dias e noites, que foram os que se contaram desde a tarde de sua sagrada morte, até à manhã da sua gloriosa ressurreição. Alguns dizem que se cumpriu esta promessa e profecia na sepultura do Senhor. Mas esta interpretação é insuficiente e imprópria, porque, ainda que Cristo na sepultura esteve debaixo da terra, não esteve no coração da terra: In corde terrae (Mt 12, 40). O coração da terra não é junto à superfície, onde estava o sepulcro, senão o meio e centro dela, e o lugar mais interior e inferior, onde o Senhor desceu e se deteve aqueles três dias, e isso é o que cremos e significamos, quando dizemos não só que foi sepultado, senão que desceu ao inferno. Mas a que fim desceu Cristo ao inferno, estando já em estado glorioso, a que naturalmente é devido o céu? Que foi buscar àquelas concavidades escuras e subterrâneas, onde nunca entrou o sol? Foi buscar e descobrir umas minas mais ricas que toda a prata e todo o ouro, cujo preço e lugar só ele conhecia, e nenhum homem, nem anjo, senão ele as podia descobrir.

Quando os autores, ainda gentios, querem encarecer o extremo da cobiça furiosa e cega, com que os homens não duvidam de se meter e penetrar o mais profundo da terra, e ter sobre si as montanhas para chegar ao escondido das minas, dizem que até ao inferno vão buscar e desenterrar o ouro e a prata:

Itum est ad viscera terrae.
Quasque recondiderat, Stygiisque advexerat undis,
Effodiuntur opes irritamenta malorum (27),

disse com elegantes versos Ovídio. E não com menos elegante prosa, nem com menor ressentimento e juízo, Plínio: Imus in viscera ejus, et in sede manium opes quaerimus. Illa nos premunt, illa nos ad inferos agunt, quae occultavit, atque demersit (28). Isto, pois, que aqueles homens, que não tiveram conhecimento de Cristo, disseram por exageração e encarecimento dos mineiros do ouro e prata, isto mesmo, e em próprios termos, é o que realmente e em pessoa fez Cristo, penetrando o mais escondido e inferior da terra, e descendo verdadeiramente ao inferno, para descobrir, romper e abrir as suas minas, não de ouro ou prata, que acrescentam os males da terra, senão de outros muito mais preciosos metais, com que se acrescenta, ilustra e enriquece o céu.

A montanha onde começaram a romper-se estas minas foi o Monte Calvário, os instrumentos a cruz e os cravos; o sítio subterrâneo, onde elas estavam escondidas, o seio de Abraão; e as riquezas que delas tirou Cristo depois de tantos trabalhos, as almas. Tirou a alma do mesmo Abraão, que deu nome ao lugar. Tirou a alma de Abel, que foi a primeira que ali entrou. Tirou as almas de Adão e Eva, que, por um apetite, foram a causa de que eles, e seus filhos, do paraíso da terra não fossem tresladados ao céu. Tirou as almas dos antigos Patriarcas, Set, Noé, Isaac, Jacó, José e Moisés, cuja lei, posto que foi disposição, não teve virtude para levar os homens à glória, privilégio só da lei da graça. Tirou a alma de Jó, que no mesmo tempo se salvou na lei da natureza, e também - segundo parece - as dos outros amigos que tinham a mesma fé do verdadeiro Deus. Tirou as almas dos reis que foram justos e santos - muito menos porém em número do que foram as coroas - a alma de Josias, a alma de Ezequias, a de Josafá, a de Manassés, a de Davi. E se também não foi com ele a de Salomão, vede que desgraça? Tirou as almas dos profetas Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel e os demais, e com cada um deles em triunfo, as almas que com suas pregações tinham livrado do inferno. E por que não fiquem de fora as mulheres - cujas almas não faltou quem dissesse que não foram criadas à imagem e semelhança de Deus - tirou as almas de Sara, de Rebeca, de Raquel, a de Maria, irmã de Moisés, a de Ester, a de Rute, a da casta Susana, a da valente Judite. E com estas de mais conhecido nome, todas as outras que naquele escuro depósito estavam esperando longamente a vinda do Messias.

Das que lá entraram depois de Deus feito homem - se a história do rico avarento não foi mais antiga - tirou o Senhor singularmente a alma do pobre Lázaro, de que só se faz menção no Evangelho, a qual levaram ao mesmo seio de Abraão os anjos, ficando para sempre no inferno, ardendo em fogo e em inveja, a alma do mesmo rico, cuja fortuna neste mundo fora tão invejada. Também foi notável entre as almas deste tempo a de Simiano, aquele velho venturoso que teve a Cristo em seus braços, e, despedindo-se da vida, foi o que lá levou as primeiras novas, de que já ficava no mundo o Redentor dele. Os antigos tiveram para si que havia almas grandes e almas pequenas; e se isto assim fora, muito acrescentaram o número das almas pequenas às dos inocentes de Belém, os quais o Senhor não livrou da espada de Herodes, para agora as levar gloriosas consigo. Finalmente, sobre todo aquele numerosíssimo esquadrão, avultaram com excesso entre todas as almas grandes, quatro maiores - a de S. João Batista, a de S. Joaquim, a de Santa Ana, e a do que mereceu ser chamado pai do mesmo Cristo, o incomparável S. José.

Estes foram os tesouros inestimáveis que o Redentor do mundo tirou daquelas suas minas, que em espaço de quatro mil anos, desde o princípio do mesmo mundo, se foram multiplicando e crescendo sempre. Então se cumpriu a promessa que delas lhe tinha feito Deus por boca de Isaías, dizendo que lhe daria os tesouros escondidos e mais secretos e encobertos de toda a terra, e quebraria para isso portas de bronze e fechaduras de ferro: Portas aereas conteram, et vectes ferreos confringam; et dabo tibi thesauros absconditos, et arcana seeretorum(29) . Bem sei que estas palavras foram dirigidas exteriormente a el-rei Ciro, mas é certo que o interior da profecia falava expressamente com Cristo. Assim como o que tem diante de si a imagem de um santo parece que fala com a imagem, e fala com o santo, assim Isaías, falando no exterior com Ciro, que era figura e imagem de Cristo, com o mesmo Cristo é que falava propriamente, e de Cristo profetizava, e não de Ciro. O mesmo profeta se explicou logo, e se comentou a si mesmo e com tal individuação de palavras, que de nenhum modo se podem entender de Ciro, nem de outro algum homem, senão daquele que era homem e Deus juntamente: Vere tu es Deus absconditus, Deus Israel, salvator(30). Este, de quem falo debaixo do nome de Ciro, é verdadeiramente Deus escondido, Deus escondido e Salvador, Deus escondido, porque em Cristo estava a divindade escondida debaixo da humanidade; e Deus assim escondido Salvador, porque para Deus nos salvar se fez homem. E para tirar toda a dúvida, e que este Salvador não era homem como os outros homens da terra, senão Deus descido do céu, continua o mesmo profeta pedindo e instando ao mesmo céu que acabasse já de chover lá de cima o Justo, para que nascesse na terra o Salvador: Rorate, caeli, desuper, et nubes pluant justum; aperiatur terra, et germinet Salvatorem(31) - Assim que aquele príncipe, a quem Deus prometeu o descobrimento das minas secretas, e as riquezas dos tesouros mais ocultos e escondidos, não era Ciro, nem outro rei da terra, senão Cristo, verdadeiro Deus, também escondido, que desceu do céu, e que desceu, não para outro fim, senão para ser Salvador.

Mas, se Cristo, quando desceu do céu e veio à terra, nasceu na pobreza de um presépio; se como Filho escolheu Mãe pobre, e como Mestre discípulos pobres; se a primeira coisa que ensinou e pregou foi a pobreza; se viveu de esmolas como pobre, se morreu sem casa nem cama, é despido como extremamente pobre, se o que sempre condenou foram as riquezas, e, prometendo o céu aos pobres, só o dificultou e quase impossibilitou aos ricos: que tesouros são estes que Deus lhes prometeu, e que minas secretas e escondidas as que havia de descobrir? Não foram sem dúvida, nem são outras, senão aquelas almas tão preciosas como prezadas, que no seio de Abraão, como em tesouro, se iam depositando por todos os séculos, não só escondidas e encerradas, mas verdadeiramente cativas, para cujo descobrimento, liberdade e redenção desceu Cristo, como diz S. Paulo, às partes mais inferiores da terra: Ascendens in altum captivam duxit captivitatem. Quod autem ascendit, quid est, nisi quia et descendit primum in inferiores partes terrae(32)? E porque as mesmas almas não podiam sair daquele lugar subterrâneo, onde estavam presas e aferrolhadas, como em um cárcere de bronze, por isso juntamente com a promessa destes tesouros e destas minas, assegurou Deus ao mesmo Cristo, descobridor e conquistador delas, que primeiro quebraria as portas de bronze, e romperia as fechaduras de ferro: Portas aereas conteram, et vectes ferreos confringam, et dabo tibi thesauros absconditos, et arcana secretorum (33).

Assim comentam este lugar literalmente S. Jerônimo e Santo Agostinho. Mas quem poderá declarar dignamente o preço destes tesouros e o valor destas minas? Só por comparação do ouro e prata, que o mundo tanto preza e estima nas outras, se pode de algum modo rastear, e assim o fez S. Pedro, falando daquelas almas, e das nossas. Exorta-nos S. Pedro a que conservemos puras as nossas almas, com a obediência dos preceitos divinos, que todos se encerram na caridade: Animas vestras castificantes in obedientia charitatis(34) - e o motivo principal que para isso nos propõe é o preço e valor das mesmas almas : Scientes quod non corruptibilibus auro vel argento redempti estis, sed pretioso sanguine quasi agni immaculati Christi (1 Pdr 1 , 18): Advertindo e considerando - diz o Príncipe dos apóstolos - que essas almas não foram compradas com ouro ou prata, senão com o precioso sangue do mesmo Filho de Deus. - Não sei se reparais que não só diz S. Pedro o preço com que foram compradas as almas, senão também o preço com que não foram compradas. Não foram compradas, diz, com ouro nem com prata, senão com o sangue de Cristo. E não bastava dizer que foram compradas com o sangue de Cristo unido à divindade, e por isso de preço infinito? Bastava e sobejava. Mas como falava com a baixeza e vileza dos homens, que, como feitos de terra, não sabem levantar os pensamentos da terra, e tanto prezam e estimam o ouro e a prata, por isso ajuntou e ponderou que não foram compradas as almas com ouro nem com prata, senão com o preço infinito do sangue de Cristo, para que acabem de entender e de crer todos os que têm fé que são infinitamente mais preciosas as almas, e infinitamente mais ricas as minas, donde Cristo as foi buscar debaixo da terra, que todo o ouro e toda a prata que se tira ou pode tirar das outras.

Que bem o entendeu assim el-rei D. João, o Segundo, quando se descobriram as minas da Costa de África, que deram nome à mesma terra! Edificou-se ali o famoso castelo de S. Jorge; mas porque as despesas eram muitas, e a terra doentia, pôs-se em conselho de Estado, se se largaria. E como muitos dos conselheiros votassem que sim, que responderia el-rei? Respondeu que de nenhum modo se largasse. Porque eu - diz - não mandei edificar aquele castelo tanto para a defesa e conservação das minas, quanto para a conversão das almas dos gentios, e basta-me a esperança da salvação de uma só daquelas almas, para ter por bem empregadas todas essas despesas.


§ IX

O Rio das Almazonas e o Rio das Almazinhas. O desamparo e desprezo com que se estão perdendo as almas do Estado do Maranhão. O inferno superior e o inferno interior. Há casos em que a felicidade consiste, não em se achar o que se busca e deseja, senão em se não achar. O exemplo de Pedro, correndo ao sepulcro, e de Adão, enquanto se não achava entre todas as criaturas quem lhe fosse semelhante. Os tesouros do céu e os tesouros da terra. Peroração.

Estas são, senhores meus, as minas de que Cristo hoje subiu tão rico do centro da terra, estas as que eu vos prometi descobrir, e estas, e não outras, as minas do vosso Maranhão. Se Deus vos não deu as de ouro e prata, como esperáveis, ou vos fez mercê de que não se descobrissem, para vos livrar de tantas desgraças, como ouvistes, contentai-vos de vos ter dotado e enriquecido daquelas que na sua estimação - que só é a certa e verdadeira - foram dignas de ser compradas com seu próprio sangue. Este grande rio, rei de todos os do mundo, que deu o nome à vossa cidade, e a todo o estado, que ribeira tem na sua principal e maior corrente, ou nas de seus tão dilatados braços, que, em lugar das areias de ouro, de que outros fabulosamente se jactam, não esteja rico destas pérolas, que assim chamou Cristo às almas? Outros lhe chamam Rio das Almazonas, mas eu lhe chamo Rio das Almazinhas, não por serem menores, nem de menos preço - pois todas custaram o mesmo - mas pelo desamparo e desprezo com que se estão perdendo, quando o ouro e a prata se deseja com tanta ânsia, se procura com tanto cuidado e se busca com tanto empenho? Oh! almas remidas com o sangue do Filho de Deus, que pouco conhecido é o vosso preço, e que pouco sentida a vossa perda, digna só de se chorar com lágrimas de sangue! Mas os que tão pouco caso fazem da alma própria, como o farão das alheias?

Ora, já que o Senhor do mundo nos descobriu estas minas, e nos encareceu tanto o preço delas, e as pôs tanto à flor da terra, nesta terra de que vos fez senhores para este mesmo fim, não as desprezeis. Vede que injúria seria da fé e da caridade, e do mesmo sangue de Cristo, se, descendo ele ao centro da terra a buscar almas, nós as deixássemos perder e ir ao inferno, quando as podemos salvar para si, para nós e para o mesmo Cristo, sem cavar nem romper montanhas. E para que se anime o nosso zelo neste pequeno trabalho, e de tanto lucro, só quero que advirtamos todos que, fazendo-o assim, faremos em certo modo mais, sem sair da superfície da terra, do que fez o mesmo Cristo descendo ao centro dela. E de fé que Cristo desceu aos infernos: Descendit ad inferos. Também é de fé que há dois infernos, um inferior, e muito mais baixo, onde estava o rico avarento, e outro superior, e mais acima, onde estava Abraão e Lázaro. Deste inferno superior tirou Cristo todas as almas que lá estavam, mas do inferno inferior - ou Cristo descesse lá presencialmente, ou não - não tirou alma alguma. Contudo, Davi diz de si que o Senhor tirou a sua alma do inferno inferior: Eruisti animam meam ex inferno inferiori(35). Pois, se a alma de Davi, como a dos outros patriarcas, foi tirada do seio de Abraão, que é o inferno superior, como diz que a tirou Deus do inferno inferior, que é o inferno dos condenados, e que propriamente se chama inferno? Porque a alma de Davi livrou-a Deus duas vezes, e dois infernos: uma vez em vida, e outra vez depois da morte. Depois da morte, livrou-a do inferno superior, quando, com as outras almas santas, a tirou do seio de Abraão; e na vida livrou-a do inferno inferior, ao qual estava condenada a alma de Davi pelo pecado do adultério e homicídio, e onde havia de penar eternamente, se Deus, por sua grande misericórdia, a não livrara, como ele mesmo diz: Quia misericordia tua magna est super me, et eruisti animam meam ex inferno inferiore(36).
Eis aqui o estado em que estão toda essa infinidade de almas, cujo remédio e salvação fiou Deus do nosso zelo e da nossa cristandade. Os inocentes pelo pecado original irão ao Limbo, que também é inferno, pois não hão de ver a Deus para sempre. Porém, os adultos, assim pelos pecados atuais, como pela falta de fé e batismo, todos vão e estão indo continuamente ao inferno inferior. E deste inferno, donde Cristo hoje não tirou alma alguma, podemos nós tirar, sem sair da terra onde Deus nos pôs, tantos milhares de almas, e fazer delas um tesouro inestimável, tanto mais rico e precioso, quanto vale mais uma só alma que todo o ouro e prata, e todos os haveres do mundo. Ou cremos esta verdade, cristãos, ou não cremos? Se a não cremos, onde está a nossa fé, a nossa esperança e o nosso entendimento? Diga-se do nosso entendimento e da nossa fé o que hoje disse Cristo aos discípulos desesperados: O sulti, et tardi corde ad credentum! Mas, se temos fé e juízo, como não há de prevalecer a alegria, o gosto e a felicidade de Deus nos ter descoberto estas minas do céu, à falsa e mal entendida tristeza, de não termos achado as da terra que nela buscávamos?
Notou Santo Agostinho uma coisa digna do seu entendimento, que hoje sucedeu a S. Pedro: quando a Madalena esta manhã não achou o corpo do Senhor, que buscava na sepultura, veio toda a diligência dar conta a S. Pedro, o qual, não andando, senão correndo, foi logo a certificar-se e ver por seus olhos se era assim o que ouvia. E qual vos parece que seria o desejo que S. Pedro levava no coração? Santo Agostinho o diz: Ad sepulchrum celeri cursu festinat, laetior rediturus, si non inveniret quem quaerebat (37): Corria S. Pedro ao sepulcro, não com desejo de achar, senão de não achar, e para tornar da jornada muito mais alegre, se não achasse o que buscava. – Assim se alegra quem olha para as coisas com são juízo, e quem entende – como S. Pedro entendia – que há casos em que a felicidade consiste, não em se achar o que se busca e deseja, senão em se não achar. Enquanto se não achava entre todas as criaturas quem fosse semelhante a Adão: Adae vero non inveniebatur adjutor similis ejus(38) - foi Adão feliz; e tanto que se achou o que se não achava, daí lhe procederam todos os seus desgostos, todas as suas perdas, e todas as suas e nossas infelicidades. Alegrem-se, pois, com S. Pedro os que estavam tristes, por se não achar o que se buscou, e alegrem-se também, e muito mais com os dois discípulos de Emaús, de acharem, e de se descobrir tanto mais do que esperavam. Eles esperavam um bem particular e temporal, que era a redenção do reino de Israel: Nos autem sperabamus, quod ipse esset redempturus Israel - e o que acharam, sem o buscarem, foi a redenção espiritual e eterna do mundo, em que consistia a salvação das suas almas, e a de todas.

Todas devemos desejar que se salvem, e por todas havemos de oferecer nossos sacrifícios e orações a Deus. Mas, pois, não podemos cooperar à salvação de todas, ao menos não faltemos a estas tão desamparadas, às quais, por mais vizinhas, é mais devedora a nossa caridade. Sobretudo trate cada um, com verdadeiro zelo cristão, da doutrina e salvação, ao menos daquelas almas que têm em sua casa, e muito particularmente da sua, de que muitos vivem tão esquecidos. Acabemos de entender, e de nos desenganar, que só estes são os verdadeiros tesouros, e que não há outros, posto que a nossa cegueira lhes dê este nome. Concedo-vos que se descobrissem as minas que desejáveis, e que esta vossa cidade estivesse lajeada de barras de prata, e coberta de telhas de ouro: que importava tudo isto à alma? Havia de levar alguma coisa destas consigo? Havia-lhe de importar alguma coisa para a conta? Pois, se tudo cá há de ficar, por que não tomamos o conselho de Cristo, que tantas vezes nos disse que fizéssemos o nosso tesouro no céu: Thesaurizate vobis thesauros in caelo(39)? E notai que diz: Thesaurizate vobis: Entesourai para vós - porque todos os outros tesouros são para os que cá ficam. Costumavam os antigos mandar enterrar os tesouros debaixo das suas sepulturas, e por isso diz Jó que os que cavam tesouros se alegram quando acham algum sepulcro: Effodientes thesaurum gaudent vehementer cum invenerint sepulchrum (Jó 3, 21 s) (40) . E não é melhor que a alma ache os seus tesouros no céu, e se alegre com eles, do que alegrarem-se outros com a vossa sepultura e com à vossa morte, para se lograrem do que vós não podeis levar convosco? Ora, tenhamos, tenhamos fé, e entristeçam-nos somente nossos pecados, e alegre-nos somente a esperança bem fundada de nossa salvação. E para que até das minas que não achastes tireis algum fruto, seja o primeiro a confusão de fazermos tantas diligências pelos tesouros da terra, quando tão pouca fazemos pelos do céu, que hão de durar para sempre; e o segundo, o exemplo e resolução de fazer ao menos outro tanto pela salvação da alma e graça de Deus, a qual nos promete o mesmo Deus que acharemos sem dúvida, se assim a buscarmos: Si quaesieris eam quasi pecuniam, et sicut thesauros effoderis illam: tunc intelliges timorem Domini, et scientiam Dei invenies(41).


(1) Que é isso que vós ides praticando e conferindo um com o outro, e por que estais tristes? Ora, nós esperávamos que ele fosse o que resgatasse a Israel (Lc 24, 17. 21).

(2) Mulher, por que choras (Jo 20, 13)?

(3) E estais tristes (Lc 24, 17)?

(4) Porque é já tarde (ibid. 29).

(5) Não tendo achado o seu corpo (ibid. 23).

(6) Ora, nós esperávamos (Lc 24, 21).

(7) Chegaram ao sepulcro (Mc 16, 2).

(8) Que se ele fosse o que resgatasse a Israel (Lc 24, 21).

(9) Compraram aromas (Mc 16, 1).

(10) Gên 27, 9.

(11) Eis aí congregaste tu essa tua multidão para levares a prata e o ouro (Ez 28, 13).

(12) Eu virei sobre uma terra que está sem muros; não tem ferrolhos nem portas (Ez 28, 11).

(13) A esta terra, que foi salva da espada, a umas gentes que estão em paz, e se acham estabelecidas com segurança (Ez 28, 8. 11).

(14) E quanto tinham feito no país de Espanha, e como puseram debaixo do seu poder as minas de prata e de ouro, que ali há (l Mac 8, 3).

(15) Graeci PP. apud Cord.

(*) Assim o ferro pernicioso, como o ouro, mais pernicioso ainda (Ovid. Met. lib. I).

(16) Formosa aos olhos e deleitável à vista (Gên 3, 6).

(17) 0 que não correu atraído pelo ouro foi provado por ele (Eelo 31, 8. 10).

(18) Plin. in proem. lib. 33, et cap. 1.

(19) Chrysost. apud Caten.

(20) A tua prata se mudou em escória (IS 1, 22).

(21) A vossa prata se enferrujou (Tg 5, 3).

(22) 2 Par 3, 7.

(23) Genebrard. lib. I, Chronol.

(24) Tirin. in cap. 10, 3 Reg.

(25) O peso de ouro que se trazia a Salomão cada ano era de seiscentos e sessenta e seis talentos (3 Rs 10, 14).

(26) E: fez que houvesse tanta abundância de prata em Jerusalém quanta era também a das pedras (3 Rs 10, 27).

(27) 0 texto das Metamorfoses citado pelo autor é exatamente o seguinte:
Itum est in viscera terrae
Quasque recondiderat, Stygiisque admoverat umbris,
Effodiuntur opes, inritamenta malorum:
Penetramos nas entranhas da terra, arrancando dali o que ela ocultara, o que ela havia escondido nas sombras do Estige, tesouros que provocam nossos males (Ovid. Met. Lib. I, 138).

(28) Penetramos em suas entranhas, procurando riquezas na morada dos deuses. As substâncias que ela escondeu em suas profundezas nos atraem e nos impelem para as regiões infernais (Plin. H. N. lib. 33, §I).

(29) Arrombarei as portas de bronze, e quebrarei as trancas de ferro, e dar-te-ei os tesouros escondidos e as riquezas aferrolhadas (Is 45, 2s).

(30) Tu verdadeiramente és um Deus escondido, o Deus de Israel, o salvador (Is 45, 15).

(31) Destilai, ó céus, lá dessas alturas o vosso orvalho, e as nuvens chovam ao justo; abra-se a terra, e brote o Salvador (Is 45, 8).

(32) Quando ele subiu ao alto, levou cativo o cativeiro. Ora, que significa subiu, senão que também antes havia descido aos lugares mais baixos da terra (Ef 4, 8s).

(33) Ver nota 29, pág. 213.

(34) Fazendo puras as vossas almas na obediência da caridade (1 Pdr 1, 22).

(35) Livraste a minha alma do inferno inferior (Sl 85, 13).

(36) Porque a tua misericórdia é grande sobre mim, e livraste a minha alma do inferno inferior (ibidem).

(37) August. Serm. 132, de Temp.

(38) Mas não se achava para Adão adjutório semelhante a ele (Gên 2, 20).

(39) Mas entesourai para vós tesouros no céu (Mt 6, 20).

(40) Os que cavam em busca de um tesouro ficam transportados de alegria quando acham um sepulcro (Jó 3, 21s).

(41) Se a buscares como o dinheiro, e cavares pela achar, como os que desenterram tesouros, então compreenderás tu o temor do Senhor, e acharas a ciência de Deus (Prov 2, 4 s).

Sermão da Quinta Dominga da Quaresma

Si dixero quia non scio eum, ero similis vobis, mendax (1).

§ I

A verdade e a mentira: a verdade do pregador e a mentira dos ouvintes. As três espécies de mentiras com que os escribas e fariseus hoje contradisseram, caluniaram e quiseram afrontar e desonrar o Filho de Deus.

Temos juntamente hoje no Evangelho duas coisas que nunca podem andar juntas: a verdade e a mentira. E por que não podem andar juntas, por isso as temos divididas; a verdade no pregador, a mentira nos ouvintes; o pregador muito verdadeiro, o auditório muito mentiroso. Uma e outra coisa disse Cristo aos escribas e fariseus, com quem falava. O pregador muito verdadeiro: Si veritatem dico vobis (2); o auditório muito mentiroso: Ero similis vobis, mendax (3).

De três modos - que há muitos modos de mentir - mentiram hoje estes maus ouvintes. Mentiram, porque não creram a verdade; mentiram, porque impugnaram a verdade; mentiram, porque afirmaram a mentira. Não crer a verdade é mentir com o pensamento; impugnar a verdade é mentir com a obra; afirmar a mentira é mentir com a palavra. Tudo isto lhe tinha profetizado a Cristo seu pai Davi, quando disse: In multitudine virtutis tuae mentientur tibi inimici tui (4). De muitos modos mostrareis eficazmente a verdade de vosso ser, mas vossos inimigos vos mentirão também por muitos modos; mentir-vos-ão não crendo; mentir-vos-ão impugnando; mentir-vos-ão mentindo, como hoje fizeram. Disse-lhes Cristo que era Filho de Deus verdadeiro, a quem eles chamavam Pai sem o conhecerem: disse-lhes que os que recebessem e observassem sua doutrina viveriam eternamente, e aqui mentiram não crendo a verdade: Si veritatem dico vobis, quare non creditis mihi ( 5)? Disse-lhes mais, que Abraão desejara ver o seu dia, isto é, o dia em que havia de descer do céu à terra, e nascer homem entre os homens, e que, finalmente, o vira com grande júbilo e alegria da sua alma, e aqui mentiram impugnando a verdade: Quinquaginta annos nondum habes, et Abraham vidisti (Jo 8, 57)? Tu não tens ainda cinqüenta anos, e viste Abraão? - E o bezerro que vós dissestes que vos livrara do Egito, quantos anos tinha? Não era nascido e gerado naquele mesmo dia? O ditame com que o tivestes por Deus era falso, mas a suposição com que entendestes que em Deus podia haver duas gerações, uma antes e outra depois, era verdadeira. Respondeu Cristo: Antequam Abraham fieret, ego sum (Jo 8, 58): Antes que Abraão fosse, eu já era. - Mas este era, declarou-o pela palavra Ego sum: eu sou para que entendessem que era aquele mesmo Deus, que quando se definiu a Moisés disse: Ego sum qui sum (Êx 3, 14): Eu sou o que sou porque no eterno não há passado, nem futuro: tudo é presente. Enfim, mentiram afirmando a mentira, porque disseram que Cristo era samaritano e endemoninhado: Samaritanus es, et daemonium habes (6). E para mentirem duas vezes em uma mentira, repetiram a mesma blasfêmia ratificando o que tinham dito e alegando-se a si mesmos: Nonne bene dicimus nos ( 7)? Mal é dizer mal, mas depois de o haverdes dito, dizerdes ainda que dizeis bem, é um mal maior sobre outro mal, porque é estar obstinado nele.

Estas são as mentiras com que os escribas e fariseus hoje contradisseram, caluniaram e quiseram afrontar e desonrar ao Filho de Deus, como o Senhor lhes disse: Ego honorifico Patrem meum, et vos inhonorastis me (8). Mas, posto que a Sabedoria eterna fosse caluniada e injuriada por semelhante gente, nem por isto ficou afrontado nem desonrado Cristo, porque tudo o que disseram dele e lhe fizeram foi por inveja, por ódio, por raiva, por vingança, e quando as causas são estas, as injúrias não injuriam, as afrontas desafrontam, as desonras honram. Não está muito honrado Cristo? Dizei-o vós. Ora eu, que pregarei neste dia, em que tanto se espera o assunto dos pregadores? Hei também de dizer-vos uma grande injúria, uma grande afronta e uma grande desonra da vossa terra. Contudo, ainda que as verdades causam ódio, espero que não haveis de ficar mal comigo, porque hei de afrontar todos para desafrontar a cada um. O discurso dirá como. Ave Maria.

§II

O Domingo das verdades. No Maranhão a corte da mentira. O galante apólogo do diabo. O M de Maranhão. No Maranhão até o sol e os céus mentem.

Si dixero quia non scio eum, ero similis vobis, mendax (9).

A este Evangelho do Domingo Quinto da Quaresma chamais comumente o domingo das verdades. Para mim todos os domingos têm este sobrenome, porque em todos prego verdades, e muito claras, como tendes visto. Por me não sair, contudo, do que hoje todos esperam, estive considerando comigo que verdades vos diria, e, segundo as notícias que vou tendo desta nossa terra, resolvi-me a vos dizer uma só verdade. Mas que verdade será esta? Não gastemos tempo. A verdade que vos digo é que no Maranhão não há verdade.

Cuidavam e diziam os sábios antigos, que em diferentes ilhas do mundo reinavam diferentes deidades: que em Creta reinava Júpiter, que em Delos reinava Apolo, que em Samos reinava Juno, que em Chipre reinava Vênus, e assim de outras. Se o império da mentira não fora tão universal no mundo, pudera-se suspeitar que nesta nossa ilha tinha a sua corte a mentira. Todas as terras, assim como tem particulares estrelas, que naturalmente predominam sobre elas, assim padecem também diferentes vícios, a que geralmente são sujeitas. Fingiram a este propósito os alemães uma galante fábula. Dizem que quando o diabo caiu do céu, que no ar se fez em pedaços, e que estes pedaços se espalharam em diversas províncias da Europa, onde ficaram os vícios que nelas reinam. Dizem que a cabeça do diabo caiu em Espanha, e que por isso somos furiosos, altivos, e com arrogância graves. Dizem que o peito caiu em Itália, e que daqui lhes veio serem fabricadores de máquinas, não se darem a entender, e trazerem o coração sempre coberto. Dizem que o ventre caiu em Alemanha, e que esta é a causa de serem inclinados à gula, e gastarem mais que os outros com a mesa e com a taça. Dizem que os pés caíram em França, e que daqui nasce serem pouco sossegados, apressados no andar, e amigos de bailes. Dizem que os braços com as mãos e unhas crescidas, um caiu na Holanda, outro em Argel, e que daí lhes veio - ou nos veio - o serem corsários. Esta é a substância do apólogo, nem mal formado, nem mal repartido, porque, ainda que a aplicação dos vícios totalmente não seja verdadeira, tem contudo a semelhança de verdade, que basta para dar sal à sátira. E, suposto que à Espanha lhe coube a cabeça, cuido eu que a parte dela que nos toca ao nosso Portugal é a língua, ao menos assim o entendem as nações estrangeiras que de mais perto nos tratam. Os vícios da língua são tantos, que fez Drexélio um abecedário inteiro e muito copioso deles. E se as letras deste abecedário se repartissem pelos estados de Portugal, que letra tocaria ao nosso Maranhão? Não há dúvida, que o M. M - Maranhão, M - murmurar, M - motejar, M - maldizer, M - malsinar, M - mexericar, e, sobretudo, M - mentir: mentir com as palavras, mentir com as obras, mentir com os pensamentos, que de todos e por todos os modos aqui se mente. Novelas e novelos, são as duas moedas correntes desta terra (10), mas têm uma diferença, que as novelas armam-se sobre nada, e os novelos armam-se sobre muito, para tudo ser moeda falsa.

Na Bahia, que é a cabeça desta nossa província do Brasil; acontece algumas vezes o que no Maranhão quase todos os dias. Amanhece o sol muito claro, prometendo um formoso dia, e dentro em uma hora tolda o céu de nuvens, e começa a chover como no mais entranhado inverno. Sucedeu-lhe um caso como este a D. Fradique de Toledo, quando veio a restaurar a Bahia no ano de mil seiscentos e vinte e cinco. E tendo toda a gente da armada em campo para lhe passar mostra, admirado da inconstância do clima, disse: En el Brasil hasta los cielos mientem. Não sei se é isto descrédito, se desculpa. Que mais pode fazer um homem, que ser tão bom como o céu da terra em que vive? Outra terra há em Europa ( * ), na qual eu estive há poucos anos, em que se experimentaram cada dia as mesmas mudanças, pelas quais Galeno não quis curar nela; porém, ali há outra razão, porque como a terra tem jurisdição sobre o céu, segue o céu as influências da terra. Mas o que se disse do Brasil por galanteria, se pode afirmar do Maranhão com toda a verdade. É experiência inaudita a que agora direi, e não sei que fé lhe darão os matemáticos que estão mais longe da linha. Quer pesar o sol um piloto nesta cidade onde estamos, e não no porto, onde está surto o seu navio, senão com os pés em terra: toma o astrolábio na mão com toda a quietação e segurança. E que lhe acontece? Coisa prodigiosa! Um dia acha que está o Maranhão em um grau, outro dia em meio, outro dia em dois, outro dia em nenhum. E esta é a causa por que os pilotos que não são práticos nesta costa, areiam, e se têm perdido tantos nelas. De maneira que o sol, que em toda a parte é a regra certa e infalível por onde se medem os tempos, os lugares, as alturas, em chegando à terra do Maranhão, até ele mente. E terra onde até o sol mente, vede que verdade falarão aqueles sobre cujas cabeças e corações ele influi. Acontece-lhes aqui aos moradores o mesmo que aos pilotos, que nenhum sabe em que altura está. Cuida o homem nobre hoje que está em altura de honrado, e amanhã acha-se infamado e envilecido. Cuida a donzela recolhida que está em altura de virtuosa, e amanhã acha-se murmurada pelas praças. Cuida o eclesiástico que está em altura de bom sacerdote, e amanhã acha-se com reputação de mau homem. Enfim, um dia estais aqui em uma altura, e ao outro dia noutra, porque os lábios são como o astrolábio. É isto assim? A vós mesmos o ouço, que eu não o adivinhei. vede se é certa a minha verdade: que não há verdade no Maranhão.

§ III

A influência do clima no nascimento de vícios e virtudes. Os dois vícios dos cretenses: mentira e preguiça. As mais desfechadas mentiras que nunca se ouviram nem imaginaram. A mentira, filha primogênita do ócio. A proposição de Davi. O juízo temerário. A língua, a fera mais dificultosa de enfrear.

Ora, eu me pus a especular a causa por que o clima e o céu desta terra influi tanta mentira, e parece-me que achei a causa verdadeira e natural. Assim como o céu com uma virtude influi outra virtude, assim o clima, que também se chama céu, com um vício influi outro vício. Ponhamos o exemplo na verdade, que é a virtude contrária da mentira: Veritas de terra orta est (Sl 8, 12), diz Davi: A verdade nasceu da terra. - E logo advertiu que a terra de que falava não era toda a terra, senão a sua: Et terra nostra dabit fructum suum (11). Mas donde lhe veio aquela terra - que era a de Promissão - donde veio uma virtude tão singular no mundo, que nascesse dela a verdade? O mesmo profeta o disse: Veritas de terra orta est, et justitia de coelo prospexit ( 12). Toda esta virtude da terra veio-lhe do céu. Influiu o céu na terra a justiça, e nasceu nela a verdade. A verdade é filha legítima da justiça, porque a justiça dá a cada um o que é seu. E isto é o que faz e o que diz a verdade, ao contrário da mentira. A mentira, ou vos tira o que tendes, ou vos dá o que não tendes; ou vos rouba, ou vos condena. A verdade não: a cada um dá o seu, como a justiça. E porque o céu influiu naquela terra a justiça, por isso influiu e nasceu nela a verdade. Influiu uma virtude, e nasceu outra.

O mesmo passa nos vícios. Se o clima influi soberba, nasce a inveja; se influi gula, nasce a luxúria; se influi cobiça, nasce a avareza; se influi ira, nasce a vingança. E para nascer a mentira, que é o que influi? Ociosidade. Onde o clima influi ócio, dá-se a mentira a perder. Nasce, cresce, espiga, e de um não-sei-quê, tamanho como um grão de trigo, podeis colher mentiras aos alqueires. Estes são os dois vícios do Maranhão, e estas as duas influências deste clima - ócio e mentira. - O ócio é a primeira influência, a mentira a segunda; o ócio a causa, a mentira o efeito. Não há terra no mundo que mais incline ao ócio ou à preguiça, como vós dizeis, e esta é a semente de que nasce tão má erva. Ouvi a S. Paulo. Fala o apóstolo da Ilha de Creta, que é a Cândia, que hoje vai conquistando o turco, e diz assim : Cretenses semper mendaces, ventres pigri (13): os cretenses têm dois vícios, que sempre se acham neles: mentirosos e preguiçosos. Pudera dizer mais, se falara da nossa ilha, e de toda esta terra? Digam-no os naturais. Nem a sua diligência nem a sua verdade o pode negar. Não há gente mais mentirosa nem mais preguiçosa no mundo. Deitados na sua rede: Ventres pigri; ouvidos nas suas palavras: semper mendaces. Mas como estas virtudes vêem do céu, como são influências do clima, pegaram-se também aos portugueses. Falta a verdade, porque sobeja a ociosidade. Dai-me vós homens ociosos, que eu vo-los darei mentirosos. E se não, vamos ao Evangelho.

As mais desfechadas mentiras, que nunca se ouviram nem imaginaram, foram as que hoje lhe disseram a Cristo na cara os escribas e fariseus, pelas quais o mesmo Senhor lhes chamou mentirosos: Ero similis vobis, mendax (Jo 8, 55). Disseram que era samaritano e endemoninhado. E não só o disseram esta vez, como advertiu Orígenes, mas assim o diziam publicamente; Nonne bene dicimus nos, quia samaritanus es tu, et daemonium habes ( 14 ) ? E notai o que disseram mais abaixo: Nunc cognovimus, quia samaritanus est tu, et daemonium habes (Jo 8, 52): (15). Agora conhecemos que és samaritano e endemonhinhado. - Pois, se agora o conhecestes, como o dizíeis dantes? Porque os mentirosos dizem as coisas antes de as saberem. Mas, tornemos à substância da mentira. Cristo lançava os demônios de todos os corpos, e eles chamam-lhe endemoninhado; Cristo era galileu natural de Nazaré, e chamam-lhe samaritano. E se o diziam pela religião e pelos costumes, os samaritanos eram idólatras e apóstatas da lei, e Cristo era o legislador e reformador dela. Estas eram as mentiras que diziam os escribas e fariseus. E o povo, que dizia? Dizia a verdade: que Cristo era um grande profeta, que era o Rei prometido de Israel, que era o Messias. Pois, se o povo simples e sem letras conhecia e dizia a verdade, os escribas e fariseus, que se prezavam de sábios, como cuidavam e diziam tão desatinadas mentiras? Porque os escribas e fariseus era gente abastada e ociosa, e o povo não. Ide-lhe ver as mãos, achar-lhas-eis cheias de calos. Quem trabalha, trata da sua vida; quem está ocioso, trata das alheias. Quem trabalha, como cuida no que faz, fala verdade, porque diz as coisas como são. O ocioso, como não tem que fazer, mente, porque diz o que imagina.

Esta é a razão por que a mentira é filha primogênita do ócio. Vede como se forma dentro em vós mesmos este monstruoso parto. Quem está ocioso não tem mais que fazer que pôr-se a imaginar; da ociosidade nasce a imaginação, da imaginação a suspeita, da suspeita a mentira. É a imaginação no ocioso como a serpente de Eva. Estava ociosa Eva no paraíso, entrou a serpente coleando-se mansamente sem pés, mas com cabeça; começou pela especulação, e acabou pela mentira. Começou pela especulação: Cur praecepit vobis Deus ( 16); e acabou pela mentira, e duas mentiras: Nequaquam moriemini: eritis sicut dii (17). Consentiu Eva na mentira peçonhenta: de Eva passou a Adão, de Adão ao gênero humano. Não sucede assim às mentiras imaginadas, que vós, como bicho da seda, gerastes dentro em vós mesmos, fabricando de vossas entranhas a mortalha para vós e o vestido para os outros? Meterá a língua a tesoura; e sem tomar as medidas à verdade, vós lhes cortareis de vestir. Por que cuidais que se dizem tantas coisas mal feitas? Por que se fizeram? Não, que a mim me consta do contrário. É porque se imaginaram; e tanto que vieram à imaginação, já estão na prancha da língua.

Que bem o disse Davi: Tota die iniquitatem cogitavit lingua tua (Sl 51, 4): Todo o dia a vossa língua estava cuidando e imaginando maldades (18). Tota die: todo o dia. Vede se era ocioso aquele de quem falava Davi: todo o dia não tinha outra coisa que fazer. E que fazia? Estava a sua língua cuidando e imaginando maldades. Não sei se reparais na impropriedade das palavras. O cuidar, o imaginar, é obra do entendimento, não é da língua: a língua fala, o entendimento imagina. Pois, se a imaginação está no entendimento, como diz Davi que estes fabricadores de maldades imaginavam com a língua: Tota die iniquitatem cogitavit lingua tua? Falou Davi com esta que parece impropriedade, para declarar com toda a propriedade o que queria dizer. Não diz que imagina com a língua, porque a língua imagine, que isso não pode ser; mas diz que imaginam com a língua, por duas razões: primeira, porque a sua língua não diz o que é senão o que imagina; segunda, porque quanto lhes vem à imaginação, logo o põe na língua. O mesmo Davi: Cogitaverunt et locuti sunt iniquitatem (19): Em imaginando a maldade, logo a dizem, sem outra causa para a dizerem mais que a sua maldade, sem outro fundamento mais que a sua imaginação. Por isso lhes chama o profeta verba praecipitationis (20), tão precipitados em afirmar quanto imaginam sem consideração, sem advertência, sem reparo, sem escrúpulo, sem temor de Deus, sem meter espaço nem fazer diferença entre o imaginar e o dizer, como se tiveram a imaginação na língua, ou a língua na imaginação, como se a língua fôra a que imagina, ou a imaginação a que fala: Cogitavit injustitiam lingua tua. Quantas vezes se diz do honrado e da honrada, do inocente e da inocente o que nunca lhes passou pela imaginação? Mas basta que o maldizente o imagine ou o queira imaginar, para o pôr na conversação e na praça, e o afirmar com tanta certeza, como se o lêra em um Evangelho. Deus nos livre de tais línguas, e muito mais de tais imaginações, porque se a vossa honra lhes entrou na imaginação, nenhum remédio tendes: não há de parar aí, há de passar à língua: Cogitaverunt, et locuti sunt (21).

Daqui entendereis a razão de um notável preceito de Deus, que por uma parte parece rigoroso, e, por outra, menos necessário. Proíbe Deus, sob pena de pecado mortal e de inferno, que ninguém tenha juízo temerário do seu próximo. Juízo temerário é cuidar eu e julgar mal de meu próximo dentro do meu pensamento. Pois, se o meu juízo fica dentro do meu pensamento, e não sai fora, nem pode fazer bem nem mal ao próximo, por que o proíbe Deus com tanta severidade? Primeiramente notai e adverti quão estimada é, e quão delicada para com Deus a honra e a reputação de cada um de nós. Nem cá dentro no meu entendimento, nem cá dentro na minha imaginação quer Deus que estejais mal reputado. Zela Deus e cia a vossa honra e a vossa reputação, até de mim para comigo. Vede quanto ciará e sentirá que passe aos ouvidos, e ande pelas bocas de uns e outros. Daqui nasce a razão por que Deus proíbe tão rigorosamente os juízos temerários. Não quer que haja juízos temerários, para que não haja falsos testemunhos. Os falsos testemunhos formam-se na língua: os juízos temerários formam-se na imaginação; e como da imaginação à língua há tão pouca distância, para que não haja falsos testemunhos na língua, proíbe que não haja juízos temerários na imaginação. Não se contentou Deus com meter o inferno entre a imaginação e a língua, com um preceito de pecado mortal, mas meteu outra vez o inferno entre o entendimento e a imaginação, para que com estes dois muros de fogo tivesse defendida a nossa honra das nossas línguas. E, contudo, isto não basta. Por que? Porque em se passando a primeira muralha, está vencida a segunda; em chegando à imaginação, já está na língua: Cogitaverunt, et locuti sunt.

Senhores meus, vivemos em uma terra muito ociosa, e por isso muito sujeita a imaginações. Aqui se há de pôr o remédio. Diz o apóstolo S. Tiago que não há fera mais dificultosa de enfrear que a língua. Para se pôr o freio na língua, hão-se de meter as cabeçadas na imaginação. Nos vossos engenhos, para que não corra a levada, pondes o resisto no açude. O primeiro a quem mentis é a vós. Não mentiram as línguas a todos se as imaginações não mentiram a cada um. Aqui é que se há de pôr o resisto. Jó, que conhecia muito bem a simpatia das potências com os sentidos, dizia: Pepigi faedus cum oculis meis, ut ne cogitarem de virgine (22): Fiz concerto com os meus olhos, para estar seguro dos meus pensamentos. - Concertai-vos com os vossos pensamentos, se quereis estar seguro das vossas línguas. Mas porque dais entrada a quanto quereis no pensamento, por isso dizeis tantas coisas que nunca passaram pelo pensamento.

§ IV

Quantas voltas dão as palavras desde a boca até os ouvidos. O exemplo dos apóstolos. Os que ouvem pelos ouvidos e os que ouvem pelos corações. O que ouviram Moisés e Josué ao descer do Sinai. As mentiras e as formas do fundidor. O notável artifício com que a natureza formou os nossos ouvidos. Como saíram torcidas da boca dos fariseus as palavras de Cristo. A quimera e a mentira. A primeira mentira que no mundo se disse foi feita de duas verdades. As falsas testemunhas diante de Pilatos.

Vejo que estão agora alguns no auditório mui contentes, dizendo consigo que isto não fala com eles, porque é verdade que não são mudos, e que quando se acham em conversação também falam nas vidas alheias; mas que não são homens que digam o que imaginam: dizem o que ouvem, e quem diz o que ouve não mente. Ora, estai comigo. Se vós soubéreis quantas voltas dão as palavras desde a boca até os ouvidos, não houvéreis de dizer isso, ainda que foreis mui verdadeiros. Quero-vos pôr o exemplo na melhor boca e nos melhores ouvidos do mundo. Perguntou S. Pedro a Cristo que havia de ser de S. João. Respondeu o Senhor: Sic eum volo manere (Jo 21, 22): Quero que fique assim. - Isto é o que Cristo disse. E os apóstolos que disseram? Exiit sermo inter fratres, quod discipulus ille non moritur: Começaram a dizer uns com os outros que S. João não havia de morrer. - E acrescenta o Evangelista: Et non dixit Jesus non moritur, sed sic eum volo manere (Jo 21, 23): E Cristo não disse que ele não havia de morrer, senão que queria que ficasse assim. - Pois, se Cristo o não disse, como o disseram os apóstolos? Eles é certo que não quiseram dizer uma coisa por outra, mas desde a boca aos ouvidos são tantas as voltas que dão as palavras, ou no que soam, ou no que significam, que o que na boca de Cristo é ficar, nos ouvidos dos apóstolos é não morrer. Não podia haver nem melhor boca que a de Cristo, nem melhores ouvidos que os dos apóstolos; e se entre o dizer de tal boca e o perceber de tais ouvidos sucedem estas contradições, que será quando a boca não é de Cristo, e quando os ouvidos não são de S. Pedro nem de S. João? Quantas vezes vos disseram uma coisa e percebestes outra? Quantas vezes ouvis o que não ouvis? Quantas vezes entre a boca do outro e os nossos ouvidos ficou a honra alheia pendurada por um fio? E queira Deus que não ficasse enforcada. Isto acontece quando os homens ouvem com os ouvidos; mas quando ouvem com os corações, ainda é muito pior. E os corações também ouvem? Nunca vistes corações? Os corações também têm orelhas, e estai certos que cada um ouve, não conforme tem os ouvidos, senão conforme tem o coração e a inclinação.

Enquanto Moisés estava no Monte Sinai recebendo a lei de Deus, pediram os judeus a Arão que lhes fundisse um bezerro de ouro. E como era o primeiro dia da dedicação daquela imagem, celebraram-no eles com grandes festas. Desce do monte Moisés com Josué, ouviram as vozes ao longe: disse Moisés: - Eu ouço cantar a coros; - disse Josué: - Não é senão tumulto de guerra (Êx 32, 18). Aqui temos choros castrorum (23). Se as vozes eram as mesmas, como a um parecem música e a outro parecem trombetas? A razão é clara. Moisés era religioso, Josué era soldado: ao religioso, parecem-lhe as vozes do côro; ao soldado, de guerra. Cada um ouve conforme o seu coração e a sua inclinação. Deus nos livre de um coração mal inclinado. Se ouvir um Te Deum laudamus há de dizer que ouviu uma carta de excomunhão. Os que ouvem são os ouvidos, mas os que ouvem bem ou mal são os corações. Tudo o que entra pelo ouvido faz eco no coração, e conforme está disposto o coração, assim se formam os ecos. Ainda vos hei de declarar isto com outra comparação mais própria. Na fundição de Arão a temos.

Quer um fundidor formar uma imagem. Suponhamos que é de S. Bartolomeu com o seu diabo aos pés. Que faz para isto? Faz duas formas de barro, uma do santo e outra do diabo, e deixa aberto um ouvido em cada uma. Depois disto derrete o seu metal em um forno, e, tanto que está derretido e preparado, abre a boca ao forno, corre o metal, entra por seus canais no ouvido de cada forma, e em uma sai uma imagem de S. Bartolomeu muito formosa, noutra uma figura do diabo, tão feia como ele. Pois, valha-me Deus, que diferença é esta? O metal era o mesmo, a boca por onde saiu a mesma, e, entrando por um ouvido faz um santo, entrando por outro ouvido faz um diabo? Sim, que não está a coisa nos ouvidos, senão nas formas que estão lá dentro. Onde estava a forma do diabo, saiu um diabo; onde estava a forma do santo, saiu um santo. Senhores meus, todos os nossos ouvidos vão a dar lá dentro em uma forma, que é o coração. Se o coração é forma do santo, tudo o que entra pelo ouvido é santo; se é forma do diabo, tudo o que entra pelo ouvido é diabólico.

Querei-lo ver? Olhai para o nosso Evangelho. Disse Cristo aos escribas e fariseus: Ego honorifico Patrem meum (Jo 8, 49): Eu honro a meu Pai: Ego non quaero gloriam meam (ibid. 50): Eu não busco a minha glória: Si quis sermonem meum servaverit, mortem non videbit in aeternum (ibid. 51 ): Se alguém guardar os meus preceitos, viverá eternamente. - Ouvidas estas palavras, quem não diria, quando menos, que era um santo quem as dizia, principalmente tendo provado a sua doutrina com tantos milagres? E os escribas e fariseus que disseram? Nunc cognovimus quia daemonium habes (ibid. 52): Agora conhecemos que trazes dentro em ti o demônio. - Pois, também de umas palavras tão santas e tão divinas formam estes homens um conceito tão diabólico? Sim, também, porque tais eram as formas em que receberam o que lhes entrou pelos ouvidos. Aqueles malditos homens eram filhos do diabo, como Cristo lhes disse nesta mesma ocasião: Vos ex patre diabolo estis (24) - e de uns corações diabólicos, de umas formas endemoninhadas, ainda que o metal fosse tão divino, que havia de sair senão um demônio: daemonium habes? Isto sucedeu às palavras de Cristo, para que vejamos o que pode suceder às demais. É verdade que as formas não são todas umas. Assim como sai um diabo e outro diabo, pode sair também um S. Bartolomeu; mas, ainda assim, o melhor é não entrar por ouvidos de homens, posto que as formas não sejam do diabo, senão do santo, porque se a forma é do diabo, ficais diabo, e se é de S. Bartolomeu, ficais esfolado. Ninguém passou pelos dois estreitos da boca e ouvidos humanos que não deixasse neles, quando menos, a pele.

Notável é o artifício, com que a natureza formou os nossos ouvidos. Cada ouvido é um caracol, e de matéria que tem sua dureza. E como as palavras entram passadas pelo oco deste parafuso, não é muito que quando saem pela boca, saiam torcidas. Tornemos às de Cristo hoje. Disse o Senhor aos seus ouvintes: Abraham exsultavit ut videret diem meum vidit, et gavisus est (Jo 8, 56): Abraão desejou ver minha vinda ao mundo, viu-a, e alegrou-se. - Isto é o que entrou pelos ouvidos dos escribas e fariseus. E que é o que saiu pelas bocas? Quinquaginta annos nondum habes, et Abraham vidisti (Jo 8, 57 )? Ainda não tens cinqüenta anos, e viste Abraão? - Vede como saíram torcidas as palavras dos ouvidos à boca. Cristo disse que Abraão vira a ele, e os fariseus dizem que dissera que ele vira a Abraão: Et Abraham vidisti. Assim torceram o nome, e mais o verbo. Ao nome mudaram-lhe o caso, e ao verbo a pessoa. Cristo disse o nome em nominativo, e eles puseram-no em acusativo; Cristo disse o verbo na terceira pessoa, e eles puseram-no na segunda. De Abraham vidit, formaram Abraham vidisti. Eis aqui como saem as palavras dos ouvidos à boca, torcidas e retorcidas: torcidos os nomes, torcidos os verbos, torcidas as pessoas; torcidos os casos. Então dizeis que dissestes o que ouvistes.

Mais sucede nesta passagem dos ouvidos à boca. Como os ouvidos são dois, e a boca uma, sucede que, entrando pelos ouvidos duas verdades, sai pela boca uma mentira. Parece coisa de trejeito, mas é tão certa, que a primeira mentira que se disse no mundo foi desta casta: uma mentira feita de duas verdades. Antes que vo-la diga, quero-vos mostrar como isto pode ser. Quando quereis dizer que fulano é grande mentiroso, dizeis que é uma quimera. Mas que coisa é quimera? Mui poucos de vós deveis de o saber. Quimera é um animal fingido, composto de dois animais verdadeiros: um monstro, meio homem, meio cavalo, é quimera; um monstro, meio águia, meio serpente, é quimera; um monstro, meio leão, meio peixe, é quimera; mas não há tais monstros nem tais quimeras no mundo. De maneira que as ametades são verdadeiras; os todos, ou monstros que delas se compõem, são fingidos. As ametades são verdadeiras, porque há homem e cavalo, há águia e serpente, há leão e peixe; os monstros que se compõem destas ametades são fingidos, porque não há tal coisa no mundo. Isto mesmo fazem os mentirosos: partem duas verdades pelo meio, e, sem mudar nem acrescentar nada ao que dissestes, de duas verdades partidas fazem uma mentira inteira. Tal foi a mentira que disse o diabo a nossos primeiros pais, e foi a primeira mentira que no mundo se disse: Cur praecepit vobis Deus, ut non comederetis de omni ligno paradisi (Gên 3, 1 ) ? Por que vos mandou Deus - diz o diabo a Eva - que de todas as árvores, quantas há no paraíso, não comêsseis? - Há tal mentira como esta? E foi feita de duas verdades. Deus deu a nossos primeiros pais uma permissão e um preceito: a permissão foi: comei de todas as árvores; o preceito foi: não comais desta árvore. E que fez o diabo? Do comei de todas as árvores, tomou o de todas as árvores, e do não comais desta árvore, tomou o não comais, e, ajuntando o não comais com o de todas as árvores, disse que mandara Deus que de todas as árvores não comessem. Pode haver maior mentira? Pois foi grudada de duas verdades. Defendei-vos lá agora das vossas mentiras, com dizer que dissestes as mesmas palavras que ouvistes e que não acrescentastes nada. Que importa que não acrescenteis, se diminuístes? Pior é uma verdade diminuída, que uma mentira mui declarada, porque a verdade diminuída na essência é mentira, e tem aparências de verdade; e mentiras que parecem verdades são as piores mentiras de todas.

Mas por que acabemos de uma vez com as mentiras de ouvidas, para que seja mentira o que dizeis, não é necessário que oiçais mal nem que diminuais ou acrescenteis o que ouvistes: pode um homem dizer pontualmente o que ouviu, e ouvir pontualmente o que disseram, e com tudo isso mentir. Quando os judeus acusaram a Cristo diante de Pilatos, buscavam diversos falsos testemunhos, e nenhum concluía. Ultimamente, diz o Evangelista que vieram duas testemunhas falsas, as quais disseram que ouviram dizer a Cristo que, se o Templo de Jerusalém se desfizesse, ele o reedificaria em três dias. Para inteligência deste testemunho havemos de saber que, entrando Cristo no Templo de Jerusalém, e achando que nele estavam comprando e vendendo, fez um azorrague das cordas que ali estavam, e a açoites lançou fora os que compravam e vendiam. Espantados eles da resolução de Cristo, disseram que lhes desse algum sinal do poder com que fazia aquilo. Respondeu o Senhor: Solvite templum hoc, et in tribus diebus excitabo illud (25). Pois, se Cristo disse, derribai o Templo, e em três dias o levantarei, e eles testemunharam o que lhe ouviram, como eram testemunhas falsas: Venerunt duo falsi testes (26)? O Evangelista o declarou: Ille autem dicebat de templo corporis sui (Jo 2, 21 ): Falava do templo do seu corpo - o qual templo o Senhor excitou três dias depois de derrubado, que foi no dia da ressurreição. E como Cristo disse aquelas palavras em um sentido, e eles as referiram em outro, ainda que as palavras eram as mesmas que tinham ouvido, sem mudar, nem acrescentar, nem diminuir, as testemunhas eram falsas. Cuidais que para mentir e para dizer testemunhos falsos é necessário mudar, diminuir ou acrescentar as palavras que ouvistes? Não é necessário nada disso: basta mudar-lhes o sentido, ou a intenção, ainda que as não entendais, porque haveis supor que as podem ter, e mais quando as pessoas são tais - como era a de Cristo - que podem falar com mistério. Quantas vezes se dizem as palavras sinceramente com uma tenção muito sã, e vós as interpretais e corrompeis de maneira que de um louvor fazeis um agravo, de uma confiança uma injúria, de uma galantaria uma blasfêmia, e de uma graça levantais uma tal labareda, que se originaram dela muitas desgraças. E se isto sucede quando os homens dizem o que ouviram, e só o que ouviram, que será quando dizem o que imaginaram, e o que sonharam, ou que ninguém imaginou nem sonhou?

§V

A mentira dos olhos. Quais toram as coisas de que se formou o engano dos moabitas na campanha contra os reis de Israel. O cego do Evangelho. O que aconteceu aos cegos vigiadores, que vão estudar de noite o que hão de rezar de dia. O negrume das nuvens e da água.

Também contra este segundo discurso há quem cuide que está adargado. Dizem alguns, ou diz algum: não sou eu daqueles, porque a mim nunca me saiu pela boca coisa que me entrasse pelos ouvidos: para afirmar, hei de ver com os olhos primeiro; e se para isso for necessário que os olhos não durmam quarenta noites, estando vigiando a uma esquina, hei-o de fazer sem descansar, até ver averiguada a minha suspeita. Ah! ronda do inferno! Ah! sentinela de Satanás! Este mesmo, se lhe mandar o confessor que faça exame de consciência meio quarto de hora antes de se deitar, não o há de poder fazer com o sono. Mas, para destruir honras, para abrasar casas, estará feito um Argos quarenta noites inteiras. Não cuidem, porém, estes malignos vigiadores, que por aí se livrarão de mentirosos. Fostes, vigiastes, observastes, vistes, dissestes, e tendes para vós que falastes verdade? Pois mentistes muito grande mentira. Os olhos mentem de dia, quanto mais de noite. Grande caso! No Livro quarto dos Reis, capítulo terceiro ( 4 Rs 3, 22) : Saíram em campanha contra os moabitas el-rei de Israel, el-rei de Judá e el-rei de Edon. Estavam ainda os exércitos para dar batalha na manhã seguinte: eis que, ao romper do sol, olharam os moabitas para os arraiais dos inimigos, e viram que pelo meio deles corria um rio de sangue. Começaram a aclamar com grande alegria: - Sangue, sangue, sem dúvida que os três reis pelejaram esta noite entre si, e mataram-se uns aos outros: vamos a recolher os despojos. - Saíram os moabitas correndo tumultuariamente; mas eles foram os despojados e os vencidos, porque o sangue que viram, ou se lhes afigurou que viram, não era sangue. Foi o caso que passava um rio por meio dos arraiais dos três reis, e como ao sair do sol feriram os raios na água que ia correndo, fez tais reflexos a luz, que parecia sangue. E esta aparência de sangue, tão enganosamente visto, e tão falsa, e tão facilmente crido, foi o que precipitou aos moabitas, e os levou a meterem-se nas mãos de seus inimigos. Se reparais no caso, as duas coisas mais claras que há no mundo é o sol e a água. Os nossos provérbios o dizem: Claro como a água, claro como a luz do sol. E quais foram as coisas de que se formou aquele engano nos olhos dos moabitas, com que cuidaram que o rio era sangue? Uma coisa foi o sol, e outra coisa foi a água: o sol, porque feriu com seus raios as águas, e as águas porque, feridas, deram com os reflexos aparências de sangue. De sorte que se enganaram os olhos nas duas coisas mais claras que há no mundo. Pois, se os olhos se enganam nas coisas mais claras, como se não enganarão nas mais escuras, e às escuras? De dia, engana-vos o sol, e, de noite, quereis-vos desenganar com as trevas?

Dir-me-eis que havia lua e estrelas quando vistes. Essa pequena luz é a que cega mais, porque faz que umas coisas pareçam outras. Trouxeram um cego a Cristo, pos-lhe o Senhor as mãos nos olhos, e perguntou-lhe se via? Respondeu o cego: Video homines velut arbores ambulantes (Mar 8, 24): Senhor, vejo os homens como árvores que andam. - Mais cego estava agora este cego que dantes, porque dantes não via nada, agora via umas coisas por outras. Os homens que são de tão diferente figura e estatura, via-os como árvores, e as árvores que estão presas com raízes na terra, via que andavam como homens. Eis aqui o que tem ver com pouca luz. O mesmo acontece a estes cegos vigiadores, que vão estudar de noite o que hão de rezar de dia: Video homines velut arbores ambulantes. O cego de Cristo, figurava-se-lhe que os homens eram árvores, e estes cegos do diabo, figura-se-lhes que as árvores são homens. Põem-se a espreitar, veem uma árvore em um quintal: eis lá vai um homem. A árvore está tão pregada pelas raízes que dois cavadores a não arrancarão em um dia, e ele há de jurar aos Santos Evangelhos, que viu entrar e sair aquele vulto; arbores ambulantes. Oh! maldito ofício! oh! infernal curiosidade! Já se os olhos levarem alguma nuvenzinha, como sempre levam, ou de desconfiança, ou de ódio, ou de inveja, ou de suspeita, ou de vingança, ou de outra qualquer paixão, aí vos gabo eu: Tenebrosa aqua in nubibus aeris (27). Notou Davi admiravelmente que a água nas nuvens é negra. Vedes lá vir um aguaceiro escuro mais que a mesma noite: que negrume é aquele? Não é mais que água e nuvem: a nuvem é um volante, a água é um cristal; e destes dois ingredientes tão puros e tão diáfanos se faz uma escuridade tão negra e tão espessa. Se quem vai vigiar e espreitar a vossa vida e a vossa honra levar alguma nuvem diante dos olhos, ainda que seja tão delgada como um volante, por mais que a vossa vida e a vossa honra seja tão clara e tão pura como um cristal, há-lhe de parecer escura e tenebrosa: Tenebrosa aqua in nubibus aeris. Finalmente, reduzindo todo o discurso, ou discursos: mentem as línguas, porque mentem as imaginações; mentem as línguas, porque mentem os ouvidos; mentem as línguas, porque mentem os olhos; e mentem as línguas, porque tudo mente, e todos mentem.

§ VI

A consolação e a desafronta da mentira. Bem-aventurados vós, quando os homens disserem todo o mal de vós, mentindo. A razão por que Cristo, quando o diabo o nomeou por Filho de Deus, lhe mandou que calasse. O engano e a falsa suposição em que estão os que não tem prática interior da terra. A confissão dos falsos testemunhos.

Tenho acabado de provar a matéria que propus. Mas parece-me que estais dizendo - como disse no princípio - que tenho dito muitas afrontas à vossa terra. Porém eu digo - como também prometi - que antes a tenho desafrontado. E senão, pergunto: Qual vos está melhor: que seja verdade o que se diz, ou que sejam mentiras? Não há dúvida que vos está melhor que sejam mentiras. Pois isto é o que eu tenho dito. Se fora verdade o que se diz, era grande afronta vossa; mas, como tenho mostrado que tudo são mentiras, ficais todos muito honrados.Hoje vos restituí vossa honra, porque provei que mentem todos os que dizem mal de vós. Vós bem sabeis melhor que eu que tudo são mentiras; mas eu tomei por minha conta este manifesto por amor dos forasteiros que me ouvem, que não são práticos nos costumes da terra. Dos apóstolos de Cristo se diziam e se haviam de dizer muitos males, porque é uso do mundo dizer mal dos bons. E o Senhor, para os desafrontar e animar disse-lhes esta divina sentença: Beati eritis cum maledixerint vobis homines, et dixerint omne malum adversum vos mentientes (Mt 5, 11): Bem-aventurados vós, quando os homens disserem todo o mal de vós mentientes: mentindo. Nesta palavra está a consolação e a desafronta. Se os homens dizem mal, falando verdade, é grande desgraça; mas se eles dizem mal mentientes: mentindo, não importa nada. Por isso disse, e quero que saibam todos, que o que nesta terra se diz são mentiras. O mentiroso conhecido há de se entender às avessas; e entendido às avessas, nem afronta, nem mente, porque diz verdade. E assim haveis de entender tudo o que ouvis. Guarde-vos Deus de que o mentiroso diga bem de vós, porque é sinal que sois o contrário do que ele diz. Essa foi a razão porque Cristo, quando o diabo o nomeou por Filho de Deus, lhe mandou que calasse, porque, como o diabo é pai da mentira, em dizer que era Filho de Deus dizia que o não era. E esse foi também o modo geral com que o mesmo Senhor hoje se desafrontou de todas as injúrias que os escribas e fariseus lhe tinham dito, qualificando-os por mentirosos: Ero similis vobis, mendax. ( 28 )

É verdade que os forasteiros a quem eu prego esta doutrina fazem um terrível argumento contra a nossa terra. Chegam a este porto, põem os pés em terra, e, ouvindo dizer mal de todos e de tudo, fazem este discurso: Ou estes homens mentem, ou falam a verdade; se falam verdade, esta é a mais má terra de todo o mundo, pois, nela se cometem tantas maldades; e se mentem também a terra é muito má, pois os homens tem tão pouca consciência, que levantam tantos falsos testemunhos. - Este é o argumento que parece não tem fácil solução. Mas eu respondo a uma e outra parte dele. Quanto à primeira, digo que as maldades que se dizem são falsas, e que, como falsas, não se devem crer. São falsas? - insta a outra parte - logo onde os homens levantam tantos falsos testemunhos, não pode ser senão a pior terra do mundo. Eis aí o engano e a falsa suposição em que estão os que não têm prática interior da terra. No Maranhão é verdade que há muitas mentiras, mas mentirosos, isso não; muito falso testemunho, sim, mas quem levante falso testemunho, por nenhum caso. Pois, como pode isto ser? Como pode ser que haja falsos testemunhos, sem haver quem os levante? Eu vo-lo direi. Nas outras terras os homens levantam os falsos testemunhos; nesta terra os falsos testemunhos levantam-se a si mesmos. Se vos parece dificultosa a proposição, vamos à prova. Confessa-se um homem, e, chegando ao quinto mandamento, diz: Padre, acuso-me que eu desejei a morte a um homem, e o busquei para o matar, e propus de lhe fazer todo o mal que pudesse. - E por quê? - Porque me tirou a minha honra com um falso testemunho de que eu estava tão inocente como S. Francisco. - Irmão, perdoai-lhe, para que Deus vos perdoe. - Passamos adiante, chegamos ao oitavo mandamento: - Levantastes algum falso testemunho? - Não, Padre, pecado é de que nunca me acusei, seja Deus louvado. - Vem uma mulher, chega ao quinto: Digo a Deus minha culpa, que eu há tantos meses que tenho ódio a uma mulher, e roguei-lhe muitas pragas, que a fala e a confissão lhe faltasse na hora da morte, e que nem nesta vida nem na outra lhe perdoava; que seus filhos visse ela mortos diante de si a estocadas frias. - Por quê? - Porque me levantou um aleive a mim e a uma filha minha, com que nos infamou em toda esta terra, e não me atrevo a lhe perdoar. - Ora, senhora, estamos em Quaresma; alguma coisa havemos de fazer por amor de um Deus que padeceu tantas afrontas e se pôs em uma cruz por amor de nós. - Enfim, compungiu-se, prometeu de perdoar. Chega o confessor ao oitavo mandamento. - E vossa mercê levantou algum falso testemunho? - Senhor padre, melhor estréia me dê Deus: muito grande pecadora sou, mas nunca Deus permita que eu diga das pessoas o que nelas não há; se ouço alguma coisa, ajudo também, mas levantar falso testemunho, nunca em minha vida o fiz. - Isto que aqui vos pus em dois, acontece infinitas vezes. De maneira que no quinto todos se queixam que lhes levantam falsos testemunhos; no oitavo ninguém se acusa de levantar falso testemunho. Logo, bem dizia eu que nesta terra os falsos testemunhos se levantam a si mesmos. Em suma, que temos aqui os pecados, mas não temos os pecadores: temos os falsos testemunhos, mas não temos as falsas testemunhas. Isto é o que posso cuidar. Mas, se acaso é o contrário, miseráveis daqueles que assim vivem! Grande miséria é que os falsos testemunhos se levantem; mas maior miséria é, que, depois de levantados, se faça deles tão pouco caso e tão pouco escrúpulo. Ou deixais de confessar o falso testemunho, conhecendo que o levantastes ou não o conhecendo: se o deixastes de confessar conhecendo-o, mentis a Deus; se o deixais de confessar pelo não conhecer, mentis-vos a vós. E uma e outra cegueira, é bem merecido castigo: que minta a Deus e que se minta a si mesmo, quem mentiu tão gravemente contra seu próximo, e que de um ou de outro modo se vá ao inferno!

§ VII

Aborrecer a mentira não só por consciência mas por conveniência. Quantas mentiras se dirão cada dia no Maranhão? Quantas cabem a cada casa? O pecado que mais facilmente se comete e com mais dificuldade se restitui. Exortação.

Senhores meus, se algum sermão não tinha necessidade de exortação era este. Só vos digo, como a homens e como a cristãos, que não só por consciência, mas por conveniência se deve aborrecer a mentira e amar a verdade. Por conveniência, porque viveis em uma terra muito pequena. Em toda a parte fazem muito mal as mentiras, mas nas terras grandes têm saca e têm muito por onde se espalhar; nas terras pequenas, todas ali ficam. Em Lisboa muita mentira se diz, mas repartem-se as mentiras por todo o reino e por todo o mundo. Chegou navio de Levante, fala-se nas guerras do turco, nas do veneziano, nas do tártaro, nas do polaco; fala-se no Papa, nos cardeais, nos outros príncipes e potentados de Itália: dizem-se muitas mentiras, mas repartem-se; umas caem em Constantinopla, outras em Veneza, outras em Roma, outras na Toscana, Sabóia, etc. Vem navio do Norte, fala-se em el-rei de França, no imperador, no sueco, no parlamento de Inglaterra, nos Estados de Holanda e Flandres: dizem-se muitas mentiras, mas repartem-se, por Paris, por Londres, por Viena de Áustria, por Amsterdam, por Estocolmo, etc. Partem também os nossos correios todos os sábados, e levam grande cópia das mentiras por todo o reino e o mesmo é das frotas do Brasil e da Índia; porém as mentiras do Maranhão não têm nem outra parte donde vir nem outra parte para onde ir: aqui nascem e aqui ficam; e quando as mentiras todas ficam na terra, e todas vos caem em casa, ainda por conveniência e razão de estado as haveis de lançar fora. E se não, fazei-me por curiosidade duas contas, as quais eu agora não posso fazer. Uma é: quantas mentiras se dirão cada dia no Maranhão? A outra: quantas casas há nesta cidade, e logo reparti as mentiras, e vereis quantas cabem a cada casa! E que será em uma semana, que será em um mês, que será em um ano?

Pois, se tudo isto vos fica em casa, e é força que assim seja, não é muito pouca razão de estado, e muito grande sem-razão, que vos andeis levantando falsos testemunhos, que vos andeis infamando e afrontando uns aos outros? Não fora muito melhor serdes todos muito amigos, muito conformes, amardes-vos todos, honrardes-vos todos, autorizardes-vos todos, e poupardes todos desgostos? Há outros pecados que parece que os pode desculpar o gosto ou o interesse; mas o mentir e o levantar falso testemunho? Que dão a um homem por mentir? Que gosto se pode ter em levantar um falso testemunho? Se é por me vingar de meu inimigo, muito maior mal me faço a mim que a ele, porque a ele, quando muito, tiro-lhe a honra: a mim condeno-me a alma. Ora, cristãos, por reverência daquele Senhor - que sendo Deus se preza de se chamar Verdade - que façamos hoje uma muito firme e muito verdadeira resolução de não haver paixão nenhuma, nem respeito, nem interesse que vos faça torcer nem faltar um ponto à verdade; quanto ao passado, que examinemos muito devagar e muito escrupulosamente se temos faltado à verdade em alguma coisa, principalmente em matéria da honra de nossos próximos. Olhai, senhores, que este, este é o pecado que mais facilmente se comete, e com mais dificuldade se restitui. Olhai, cristãos, que as balanças em que se pesam as consciências na outra vida são muito delicadas, e que será grande desgraça ir ao inferno para sempre por um falso testemunho. O remédio está em uma consciência muito bem examinada, em uma confissão muito bem feita, e em uma satisfação muito verdadeira, advertindo-vos e protestando-vos da parte de Deus, que sem estas três condições, nem nesta vida podeis alcançar a graça, nem na outra merecer a glória.

(1)Se disser que o não conheço serei como vós, mentiroso (Jo 8,55)

(2) Se eu vos digo a verdade (Jo 8, 46).

(3) Serei como vós, mentiroso (Jo 8, 55).

(4) Por ocasião do teu grande poder se convencerão de mentira os teus inimigos (Sl 65, 3).

(5) Se eu vos digo a verdade, por que me não credes (Jo 8; 46)?

(6) Tu és um samaritano, e tens o demônio (Jo 8, 48).

(7) Não dizemos nós bem (Jo 8, 48)?

(8) Eu dou honra a meu Pai, e vós a mim desonrastes-me (Jo 8, 49).

(9) Se disser que o não conheço, serei como vós, mentiroso (Jo 8, 55).

(10) A moeda corrente nesta terra são novelos de fio de algodão.

(*) Roma.

(11) E a nossa terra produzirá o seu fruto (Sl 84, 13).

(12) A verdade nasceu da terra, e a justiça olhou desde o céu (Sl 84, 12).

( 13) Os de Creta sempre são mentirosos, ventres preguiçosos (Tit 1, 12).

( 14) Não dizemos nós bem que tu és um samaritano e que tens demônio (Jo 8, 48)?

(15) A Vulgata (Jo 8, 52) traz apenas: Nunc cognovimus quia daemonium habes.

(16) Por que vos mandou Deus (Gên 3, 1)?

(17) Bem podeis estar seguros que não morrereis de morte: sereis como uns deuses (Gên 3, 4 s).

(18) A Vulgata traz injustitiam e não iniquitatem (Sl 51, 4).

(19) Cogitaram e falaram iniqüidade (Sl 72, 8).

(20) Palavras de precipitação (Sl 51, 6).

(21) Cogitaram, e falaram (Sl 72, 8).

( 22 ) Fiz concêrto com os meus olhos de certamente não cogitar nem ainda em uma virgem (Jó 31, 1).

(23) Coros de música no campo dos exércitos (Cânt 7, 1)

(24) Vós sois filhos do diabo (Jo 8, 44).

(25) Desfazei este templo, e eu o levantarei em três dias (Jo 2, 19).

(26) Chegaram duas testemunhas falsas (Mt 26, 60).

(27) Água tenebrosa nas nuvens do ar (Sl 17, 12).

(28) Serei semelhante a vós, mentiroso (Jo 8, 55).

Sermão da Segunda Dominga da Quaresma - 1651

Resplenduit facies ejus sicut sol: vestimenta autem ejus facta sunt alba sicut nix (1).

I

O quinto Domingo da Quaresma chama-se vulgarmente, na nossa terra, o Domingo das Verdades; e este segundo Domingo em que estamos, se é lícito falar assim, chamara-lhe eu o Domingo das Mentiras. Mas que fundamento posso eu ter — me dirão todos, e com razão — que fundamento ou motivo posso eu ter para dar um nome tão novo, e ainda tão mal soante e indecente a um dia tão sagrado, como são entre todos os do ano os domingos, e a um domingo tão singular, como é entre todos os desta santa quarentena aquele a que a Igreja dedicou o mistério altíssimo da Transfiguração do Senhor. As causas por que Cristo, Senhor nosso, se transfigurou com tantas circunstâncias de resplendor, grandeza e majestade, descendo do céu o Padre, subindo do seio de Abraão Moisés, e vindo do Paraíso Terreal Elias, e assistindo a tudo os três maiores apóstolos — como notam com Santo Agostinho os Padres, e com Santo Tomás os teólogos — foram duas: a primeira, para nos dar algumas mostras na terra da glória que havemos de gozar no céu; a segunda, para que a verdade da mesma glória ficasse provada e estabelecida com o testemunho universal de todas as três leis: a da natureza em Moisés, a da escrita em Elias, e a da graça nos apóstolos, e, sobretudo, com a voz infalível do mesmo Deus, que de todos foi ouvida. Pois, se no mistério e testemunho da Transfiguração de Cristo não só se contém a glória da bem-aventurança em si mesma, senão também a verdade da mesma glória para conosco, e esta glória e esta verdade é o que hoje celebra e manda pregar a todos os fiéis a Igreja Católica, como me atrevo eu a dizer que um dia tão solene e glorioso, e mais do céu que da terra, se pode ou podia chamar o Domingo das Mentiras? Respondo que por isso mesmo, e que em sentido bem entendido e decente se pode chamar assim. E por quê? Porque o que hoje se prega são as excelências da glória do céu, e tudo o que se apregoa e encarece da glória do céu, posto que no que se quer dizer seja verdade, no que se diz é mentira.

Agora vereis se é arrojamento o que digo. Entre os extraordinários favores que Deus fez a Davi, como homem tanto do seu coração, um deles foi, e porventura o maior, arrebatá-lo um dia, e levá-lo em espírito ao céu, onde, correndo as cortinas ao trono da majestade divina e a todo o teatro da glória, lhe mostrou a que ele havia de gozar depois, quando o Filho de Deus, e Filho do mesmo Davi, a comprasse com seu sangue. Vendo, pois, Davi a glória dos bem-aventurados, que havia de ser também sua, que conceito vos parece que faria da glória? Ele mesmo o disse, e foi admirável: Ego dixi in excessu meo: Omnis homo mendax (2). Naquele êxtase em que fui arrebatado e levado ao céu, que fiz depois de ver o que vi, foi dizer e exclamar que todo o homem mente. — Notável conseqüência! Pedro vendo a glória do Tabor, diz: Bonum est nos hic esse (3), e Davi, vendo a glória do céu, diz: Omnis homo mendax? Sim, e com admirável discurso. Como se dissera: é possível que esta é a bem-aventurança do céu, é possível que isto é o que lá no mundo chamamos glória? Ora, o certo é que nenhum homem há que falando da glória não diga uma coisa por outra; nenhum homem há que falando da glória diga o que ela é, senão o que não é; enfim que, falando da glória, todo o homem mente: Omnis homo mendax. Este foi o conceito que fez Davi quando foi arrebatado ao céu, e nem eu tinha habilidade para dar em tão alto pensamento, nem tivera confiança para sair com ele a público, se o não dissera primeiro, comentando as mesmas palavras, Teodoro Heracleota, insigne entre os Padres gregos, que floresceu a mil e trezentos anos, bispo, de Heracléia, na Trácia, e doutíssimo intérprete das Escrituras Sagradas, como dele escreve S. Jerônimo no catálogo dos escritores eclesiásticos (4). As suas palavras são estas: Exclamavit David in excessu suo: Omnis homo mendax: qui enim voce ineffabilia hortatur; mendax est, non quod oderit veritatem, sed quia deficit in rei intellectae expositione: Exclamou Davi no seu êxtase — diz o grande Heracleota — e não duvidou dizer que todo o homem mente, porque todo o homem que quis explicar com palavras as coisas que são inefáveis, e não tem termos com que se declarar, necessariamente há de mentir, não porque seja inimigo da verdade, mas porque a não pode dizer como ela é. — E esta é a razão e o sentido verdadeiro com que eu digo que o dia em que os pregadores falamos das excelências da glória é o dia das mentiras.

II

Mas, antes que passemos adiante, deixai-me provar que o sentido que acabo de referir é o próprio e genuíno do texto de Davi. A regra certa de conhecer o verdadeiro sentido de qualquer texto, como ensinam, com Santo Agostinho, todos os teólogos e intérpretes das Escrituras, é a coerência que tem o texto com os antecedentes e conseqüentes dele. Se o que fica atrás e o que se segue adiante correm naturalmente e concordam com o que diz o texto, é sinal certo e evidente de que aquele é o seu próprio, literal e verdadeiro sentido. Vejamos agora que diz Davi antes e depois de referir o seu êxtase e a exclamação que nele fez.

As palavras antecedentes são estas, e nenhuma outra mais, porque assim começa o Salmo: Credidi propter quod locutus sum: ego autem humiliatus sum nimis (Sl. 115,10): Eu — diz Davi — falei conforme o que cri, e fiquei muito humilhado. — Pois, de falar conforme o que cria podia ficar humilhado um tão grande profeta? Só no caso presente, sim. O que cria Davi era o que lhe ensinava a fé, e nenhuma coisa pode humilhar a fé, senão a vista. Foi arrebatado ao céu, viu lá o que é a glória, e como as evidências claras da glória excedem infinitamente todas as apreensões escuras da fé, ficou humilhado, e como envergonhado Davi do pouco que tinha dito da mesma glória, quando falou dela guiado somente pelo que cria: Credidi propter quod locutus sum, ego autem humiliatus sum nimis. Aquele cego de seu nascimento, a quem Cristo deu vista, muitas vezes tinha ouvido falar no sol; mas quando, com os olhos abertos, viu verdadeiramente o que é o sol, então conheceu quão diferente e quão baixo conceito era o que tinha feito da sua luz e da sua formosura, que só conhecia de ouvidas. O mesmo lhe sucedeu a Davi. Tinha falado da glória só pelo que tinha ouvido à fé, e por isso, quando a viu com seus olhos, ficou tão humilhado, tão confuso e tão corrido do pouco que tinha dito, que não duvidou de se desdizer e se desmentir a si mesmo e a todos os homens que dela falaram: Ego dixi in excessu meo: Omnis homo mendax.

As palavras que logo acrescenta e se seguem imediatamente ao mesmo texto são estas: Quid retribuam Domino pro omnibus quae retribuir mihi(5)? Não pode haver maior coerência nem maior propriedade. Com que pagarei — diz — a Deus o muito com que Deus me pagou? — Pois, Davi, já Deus vos pagou, estando vós ainda nesta vida? Sim, porque já me mostrou no meu êxtase a glória que me tem aparelhado, e com que me há de pagar no céu. Por isso lhe chama propriamente, não dádiva nem mercê, senão retribuição: Pro omnibus quae retribuit mihi. A glória é a retribuição, o prêmio e a paga com que Deus paga no céu os serviços que lhe fazemos na terra; e como Deus naquele êxtase mostrou a Davi a glória com que lhe havia de pagar seus serviços, por isso ele, com afeto de agradecimento e com desejo de fazer algum novo serviço a Deus, que fosse digna correspondência de tamanho prêmio, querendo pagar uma retribuição com outra retribuição, rompeu naquelas palavras: Quid retribuam Domino pro omnibus quae retribuit mihi? Mas, como desejava Davi pagar a Deus esta mesma paga, se os bem-aventurados, quando a recebem, nem a pagam nem a podem pagar? A razão e diferença é porque os bem-aventurados do céu já não estão em estado de merecer nem servir. Porém Davi, depois de arrebatado e levado ao céu, tornou a este mundo, e por isso era capaz de pagar a Deus a mesma paga que lhe tinha mostrado, e uma retribuição com outra.

Duvidoso pois Davi, e excogitando o modo que podia ter nesta vida para pagar a Deus com paga equivalente à mesma glória que lhe tinha aparelhado no céu, alumiado pelo mesmo Deus, deu em um pensamento altíssimo, com que milagrosamente se confirma tudo o que dizemos: Calicem salutaris accipiam, et nomem Dommi invocabo (Sl. 115,13): Oferecerei a Deus em sacrifício o cálix do Salvador, invocando seu santo nome. E deste modo lhe agradecerei e pagarei a mesma glória que me tem aparelhado no céu. Pois, o cálix do Salvador é o agradecimento e a paga com que Davi há de pagar a Deus a glória com que o mesmo Deus há de pagar e remunerar a Davi os seus serviços? Sim. Nem pode haver outra igual. E por quê? Porque o preço com que o Salvador nos comprou a glória foi o cálix do sangue da sua Paixão, que é o mesmo cálix e o mesmo sangue que se consagra no Sacramento; e só oferecendo-se a Deus em sacrifício este cálix e este sangue, se pode pagar a Deus a glória que nos dá na bem-aventurança, porque é pagar a glória, não só com preço igual, senão com o mesmo preço com que foi comprada. Comprou-se a glória com o cálix do sangue do Salvador? Pois com o cálix do mesmo sangue a pagarei eu a Deus, porque só por este modo pode ser a retribuição do agradecimento igual à retribuição do prêmio: Quid retribuam Domino pro omnibus quae retribuit mihi? Calicem salutaris accipiam, et nomem Domini invocabo.

De maneira — tornando ao nosso texto — que, sendo Davi arrebatado em espírito e levado ao céu, viu lá a glória dos bem-aventurados, e, comparando o conhecimento claro e verdadeiro da glória que viu com o conceito que fazem da mesma glória e que dizem dela os que a não viram, o que inferiu desta vista, e a conseqüência que tirou, foi dizer que todo o homem mente: Ego dixi in excessu meo: Omnis homo mendax — não absolutamente, e em qualquer outra matéria, senão particularmente nesta, e quando falam da glória. Digo quando falam da glória, porque só neste sentido se verifica com propriedade o texto de Davi, o qual absolutamente tomado, e como vulgarmente se entende, tem grande contrariedade na mesma Escritura. No capítulo catorze do Apocalipse diz S. João que viu muitos milhares de homens, em cuja boca nunca se achou mentira: In ore eorum non est inventum mendacium (Apc. 14,5). Tal foi Natanael, de quem disse Cristo: Ecce vere Israelita in quo dolus non est (6). Tal foi o Batista, de quem canta a Igreja: Ne levi posses maculare vitam crimine linguae (7). E, verdadeiramente, para não mentir, não é necessário ser santo, basta ser honrado, porque não há coisa mais afrontosa, nem que maior horror faça a quem tem honra, que o mentir. Pois, se é de fé que há tantos que nunca mentiram, como diz Davi que todo o homem mente: Omnis homo mendax? Os que querern defender a proposição de Davi no sentido vulgar, dizem que não fala do ato nem do hábito da mentira, senão da corrupção da natureza. Mas, se basta a corrupção da natureza para dizer que todo o homem é mentiroso, também bastará para dizer que todo o homem é homicida, ladrão e adúltero, o que ninguém jamais disse, nem pode dizer. Aqui vereis quão próprio e verdadeiro é o sentido em que temos declarado, com Teodoro, o texto de Davi. Quando diz que todo o homem mente, não fala em geral de toda a matéria, senão daquela que atualmente estava vendo no seu êxtase, que era a glória; e desta só, e em particular, é que diz que ninguém houve que falasse dela que não mentisse.

Mas, suposto que Davi inferiu e tirou esta conseqüência da glória que viu, eu também quero inferir e tirar conseqüências da sua proposição. — Dizeis, Davi, que todo o homem, quando fala da glória, mente porque diz menos do que é? Logo, também vós, que sois homem, quando falastes da glória, mentistes? — Concedo, diz Davi, que esse mentir não é culpa. — E se vós, que fostes o mais alumiado de todos os profetas, nesse sentido mentistes, diremos também que os outros profetas, quando nela falaram, mentiram? — Também, diz Davi — no sentido em que eu o disse, que tanto o disse por mim, como por eles. — E se os profetas, quando falaram da glória, mentiram, que diremos dos evangelistas? — No mesmo sentido em que falou Davi, ele diz que sim, e eu também com ele. E não temais que seja descrédito da verdade dos evangelistas, senão crédito da excelência da glória. Estai comigo, e assentemos o admirável desta proposição sobre as bases mais sólidas da Teologia.

Santo Tomás, dividindo a mentira em suas espécies, na questão cento e dez, artículo segundo, diz assim com Aristóteles, a quem cita no quarto das Éticas. Vede se são os dois corifeus da Filosofia e da Teologia. Mendacium in duo dividitur, scilicet, in mendacium quod transcendit verita tem in majus, et mendacium quod deficit a veritate in minus: A mentira, diz Santo Tomás, divide-se em duas espécies: uma por excesso e outra por defeito; a mentira por excesso é a que excede a verdade, porque diz mais; a mentira por defeito é a que falta à verdade, porque diz menos. — Funda-se esta divisão — a qual é adequada — na oposição que a mentira tem com a verdade, porque a inteireza da verdade consiste em dizer o que é, assim como é; e assim como dizer mais do que é, é mentira por excesso, assim dizer menos do que é, é mentira por defeito. E desta segunda espécie de mentira — que é natural, e não moral — nem os profetas, nem os evangelistas se podem livrar quando falam da glória, não porque não queiram dizer a verdade, e a digam do modo que podem, mas porque as verdades da glória são tão altas, tão sublimes e tão superiores a toda a capacidade e linguagem humana, que, por mais que digam o que é, sempre dizem muito menos.

III

Comecemos pelos evangelistas, e seja São Mateus o primeiro no mesmo Evangelho de hoje. Conta São Mateus a famosíssima história da Transfiguração de Cristo, Senhor nosso, no Monte Tabor, aonde levou consigo os três mais avantajados e mais familiares discípulos, e se lhes manifestou glorioso. E que é o que refere desta glória o evangelista? Diz que o rosto do Senhor ficara resplandecente como o sol, e as suas vestiduras alvas como a neve: Resplenduit facies ejus sicut sol: vestimenta autem ejus facta sunt alba sicut nix (Mt. 17,2). Por certo que se a glória que Cristo mostrou aos discípulos não foi mais que esta, nem é necessária para a ver ir ao céu, nem ainda subir ao monte: resplendor como o do sol e brancura como a da neve, em qualquer vale se acha e de qualquer vale se vê. S. João Crisóstomo, descrevendo o resplendor que terão no céu os corpos gloriosos dos bem-aventurados, diz que farão tanta vantagem à luz do sol, quanta faz a luz do sol a uma candeia: Erit lux non quae nunc est, sed plane alia, quae hanc tantum superabit fulgore, quantum ista lumen lychni. E se a luz de qualquer corpo glorioso não só é tão superior à do sol, senão totalmente diversa e doutra espécie: Non quae nunc est, sed plane alia, sendo o resplendor do corpo de Cristo glorioso quase infinitamente maior que o de todos os bem-aventurados, como diz o evangelista que era como o sol? Santa Teresa, a quem Cristo repetidamente mostrou as mesmas galas do Tabor, diz que aquele resplendor e brancura são tão diferentes de tudo o que cá se vê e a que se sabe o nome, que a neve lhe parecia preta, e o sol escuro e indigno de se porem nele os olhos. Os mesmos três apóstolos experimentaram bem no mesmo caso esta grande diferença, porque com a vista do Senhor transfigurado ficaram tão assombrados e atônitos que estavam fora de si, como notou São Marcos: Non enim sciebat quid diceret: erant enim timore exteriti (8). Logo, se em homens costumados a ver o sol e a neve causou aquela vista tão estupendos efeitos, muito diferentes eram do sol e da neve o resplendor e brancura que viam. Finalmente, S. João Damasceno, Santo Epifânio, S. Gregório Nazianzeno, Santo Agostinho e outros Padres dizem que aquele resplendor e aquela brancura não só emanou do corpo glorioso, nem só da alma sempre bem-aventurada de Cristo, senão da mesma divindade do Verbo unida hipostaticamente a uma e outra parte da humanidade sagrada, da qual divindade, como de fonte e princípio principal, se difundiam no rosto e nas vestiduras do Senhor aqueles admiráveis efeitos, em prova manifesta e quase sensível de que o homem que viam era juntamente Deus, como logo apregoou a voz do Padre: Hic est Filius meus dilectus (9). O Verbo Divino chama-se nas Escrituras resplendor da glória e figura da substância do Padre: Splendor gloriae et figura substantiae ejus (Hebr. 1,3); e também se chama candor e brancura da luz eterna: Candor est enim lucis aeternae (Sab. 7,26). E deste resplendor divino é que manou o resplendor do rosto, e deste candor, também divino, a brancura das vestiduras na Transfiguração de Cristo.

Pois, se a comparação do sol e da neve, aplicada a qualquer corpo bem-aventurado e glorioso, mais é injúria que semelhança; se o resplendor e brancura do rosto e vestiduras de Cristo excediam com infinitas vantagens a formosura e galas de toda a corte do Empíreo, e se estes dois reflexos da majestade, ou estas duas amostras da glória no Senhor dela mais tinham de divinas que de sobrenaturais, e no candor e na luz eram raios expressos da divindade, como diz o evangelista que o resplendor do rosto era como o sol: Resplenduit facies ejus sicut sol — e a brancura das roupas como a da neve: Vestimenta autem ejus facta sunt alba sicut nix? Aqui vereis com quanta verdade disse Davi que nas matérias da glória omnis homo mendax, não excetuando nenhum homem, ainda que seja evangelista. A verdade dos evangelistas em todas as outras matérias é tão adequada como infalível; mas quando chegam a falar da glória, não por defeito do historiador, mas por excesso da mesma glória, são tão imperfeitas as cores com que a pintam, e tão desiguais as semelhanças com que a descrevem, que não dizem o que é como é, senão como não é. Declaram o muito pelo pouco, encarecem o mais pelo menos, explicam o que chamam semelhante pelo que não tem semelhança, enfim, de tal maneira narram as verdades da glória, que sempre ficam dentro dos termos e divisão da mentira. Não diz Santo Tomás que a mentira por defeito é dizer menos do que é: Mendacium, quod deficit a veritate in minus? Pois isto é o que sucede até aos evangelistas quando falam da glória.

IV

No carro de Ezequiel, chamado o carro da glória de Deus, o rosto de homem significava a S. Mateus, e o de águia a São João. Ora, vejamos se o evangelista S. João, como águia de mais aguda vista, alcança a dizer mais que S. Mateus. No capítulo vinte um e vinte dois do seu Apocalipse diz São João que viu descer do céu a cidade triunfante da glória, ornada como a esposa no dia das bodas: Vidi civitatem Jerusalem novam descendentem de caelo a Deo, paratam, sicut sponsam ornatam viro suo (10). E, começando a descrição da cidade, assim como Deus a fábrica do mundo, pela luz, diz que a alumiava a claridade de Deus, e que esta claridade era semelhante a uma pedra preciosa, e esta pedra preciosa semelhante a jaspe, e este jaspe semelhante a cristal: Habentem claritatem Dei, et lumen ejus simile lapidi pretioso, tanquam lapidi jaspidis, sicut crystallum (11). O jaspe, de que aqui fala São João, não é aquela pedra vulgar e grosseira a que nós damos o mesmo nome, mas outra, só parecida com ela no arremedado ou remendado das cores, a que os gregos chamaram esfingites. Desta pedra refere Suetônio que lavrou para si uma galeria o mesmo imperador Domiciano, que desterrou para a Ilha de Patmos a São João. E acrescenta Plínio que pouco antes tinha sido descoberta em Capadócia, no tempo de Nero, o qual com lâminas da mesma pedra vestira o interior do Templo da Fortuna, e era tal o seu natural resplendor que, com as portas e janelas fechadas ao sol, conservavam a luz do dia.

Vai por diante o evangelista na sua descrição da Cidade da Glória, cujos muros altíssimos e fortíssimos diz que eram edificados em quadro, e todos deste mesmo jaspe. Mediu-os um anjo com uma cana de ouro, e achou que tinham por cada lado doze mil estádios de comprimento, que fazem das nossas léguas quatrocentas e quarenta e quatro, para que até o número seja quadrado, em tudo significador de firmeza. Nos quatro lanços do muro havia doze portas, as quais nunca se fechavam, porque naquela região não há noite. E destas doze portas, três olhavam para o Oriente, três para o Ocidente, três para o Setentrião, três para o Meio-Dia, em sinal de que para todas as partes do mundo, e para todas as nações e estados dele, sem excluir a ninguém, está o céu patente. As portas todas eram da mesma arquitetura, e todas da mesma grandeza, proporcionada à altura e à magnificência dos muros, e cada uma delas aberta em uma pérola: Et singulae portae erant ex singulis margaritis (Apc. 21,21). Se no antigo Panteão, que era o templo de todos os deuses, e, por isso, figura do céu, se mostra ainda hoje, por maravilha, a porta dele aberta em uma só peça de mármore, quão admiráveis seriam aquelas portas, muito maiores que o mesmo templo, abertas em uma só pérola? A estas doze portas respondiam outros tantos fundamentos, sobre os quais assentava toda a cidade, e cada um era lavrado não da mesma, senão de várias pedras, e tão preciosas como várias. O primeiro fundamento, diz São João, era de diamante, o segundo de safira, o terceiro de carbúnculo, o quarto de esmeralda, o quinto de rubi, o sexto de sárdio, o sétimo de crisolito, o oitavo de berilo, o nono de topázio, o décimo de crisópraso, o undécimo de jacinto, o duodécimo de ametista. E, segundo o número e ordem destes doze fundamentos, estavam esculpidos e gravados neles os mesmos doze apóstolos, porque só fundada na fé e doutrina dos apóstolos pode estar segura a esperança de entrar na glória.

Mas, se tão suntuoso e magnífico era o exterior da Cidade, qual vos parece que seria ou será o interior. Toda a cidade, em toda a sua grandeza, todos seus edifícios e palácios — que todos são palácios reais — todas suas ruas e praças, diz o evangelista que eram de ouro puro e sólido, mas não ouro espesso, como o nosso, senão diáfano e transparente como vidro: Ipsa vero civitas aurum mundum simile vitro mundo, et platea civitatis aurum mundum tanquam vitrum perlucidum (12). De sorte que a Cidade da Glória no pavimento, nas paredes e no interior dos aposentos, toda é um espelho de ouro, porque todos perpetuamente se vêem a si mesmos, todos vêem a todos, e todos vêem tudo. Nada se esconde ali, porque lá não há vício; nada se encobre, porque tudo é para ver; nada se recata ou dissimula, porque tudo agrada; e por que tudo é amor, tudo se comunica. Ainda tem outra excelência aquela bem-aventurada cidade, a qual, se lhe faltara, não fora da glória. Vindo a Roma, nos tempos de sua maior opulência e grandeza, um embaixador de Pirro, rei dos epirotas, não fazia fim de admirar o que o poder e a arte tinha junta naquele empório de riquezas e delícias. — E perguntado pelos romanos se achava algum defeito na sua cidade. — Sim, acho — respondeu o embaixador. — E qual é? — Que também em Roma se morre. — Não assim, diz São João, nesta riquíssima cidade que vos tenho descrito: Mors ultra non erit, ne que luctus, neque clamor; neque dolor erit ultra (Apc. 21, 4): Não há lá morte, nem lutos, nem dor, nem queixa — porque do trono do supremo Rei sai um rio de cristal que rega toda a cidade, cujas margens estão cobertas de árvores, e as árvores carregadas de frutos, e os frutos melhores que os da Árvore da Vida, que não só fazem os homens imortais, senão eternos: Fluvium aquae vivae, splendidum tanquam crystallum, procedentem de sede Dei et Agni. In medio plateae ejus, et ex utraque parte fluminis lignum vitae (13).

V

Esta é, senhores, a Cidade da Glória, descrita pelo evangelista São João; e basta que fosse assim como se descreve para ser merecedora das nossas saudades, e que fizéssemos mais do que fazemos por ir viver nela. Mas é necessário entender com distinção isto mesmo que está dito. Em dizer o evangelista que naquela bem-aventurada pátria não há morte, nem dor, nem tristeza, nem queixa, nem algum dos outros acidentes que tão molesta fazem a vida deste vale de lágrimas, é verdade entendida assim como soa, em que não pode haver dúvida. Porém isto não é dizer o que há no céu, senão o que não há. Não há mortes, não há dores, não há trabalhos. O demais, que pertence à magnificência e riqueza da mesma cidade, o ouro, as pérolas, os diamantes, e todo o outro aparato e preço da pedraria de que são edificados os muros, e quanto eles abraçam e cercam é o de que só se duvida. E com razão. Alguns doutores têm por provável que tudo isto haja no céu; os demais o negam absolutamente, e, para mim, com evidência. Os vossos mesmos olhos e os vossos mesmos pensamentos me hão de fazer a prova. Pergunto: Vistes já ouro, vistes já pérola, vestes já diamantes, e todas as outras pedras de preço, de que São João fabrica a Cidade da Glória? Sim. Logo é certo e evidente que a Cidade da Glória não é edificada desse ouro nem dessas pedras. Por quê? Porque São Paulo, que foi ao céu e viu o que lá há — diz que o que Deus tem aparelhado na bem-aventurança para os seus escolhidos são tudo coisas que nunca os olhos viram. Oculus non vidit quae praeparavit Deus iis qui diligunt illum (14). Logo, pelo mesmo caso que nós vemos esse ouro e essas pedras, segue-se com evidência que não são esses os materiais de que é fabricada a Cidade ou Corte da Glória. Dirá alguém que, ainda que vemos ouro e pedras preciosas, não vimos nunca cidade alguma, nem ainda uma só casa fabricada desse ouro e dessas pedras, e a cidade que descreve São João não só é cidade de qualquer modo, senão uma cidade de mais de quatrocentas léguas em quadra. Boa solução ou instância. Mas eu torno a perguntar: e imaginando vós com o pensamento, podeis conceber e fabricar nele uma cidade tão grande como esta, edificada toda de ouro, de diamantes e pérolas? Não há dúvida que, sem sermos tão grandes arquitetos, como Vitrúvio, a podemos imaginar e idear assim, e ainda mais a gosto de cada um. Logo a Cidade da Glória não é como a descreve S. João, porque o mesmo São Paulo diz que o que Deus lá nos tem aparelhado não só não o viram jamais olhos, mas que nem o pode conceber o pensamento, nem entrar na imaginação humana: Oculus non vidit; nec in cor hominis ascendit (15). Pois, se isto é assim com verdade infalível e irrefragável, como nos pinta o evangelista São João e nos descreve a Cidade de Deus feita toda de ouro e pedras preciosas?

Explicarei este desenho do discípulo amado de Cristo com o que aconteceu a um discípulo de Zêuxis, famosíssimo pintor da antigüidade. Disse-lhe o mestre que, por obra de examinação lhe pintasse uma imagem da deusa Vênus com todos os primores da formosura a que pudesse chegar a sua arte. Fê-lo assim o discípulo, e, com estudo e aplicação de muitos dias e desvelo de muitas noites, presentou o quadro ao mestre. Via-se nele a deusa, toda ornada e enriquecida de jóias, que mais pareciam roubadas à natureza que imitadas da arte: nos dedos anéis de diamantes, nos braços braceletes de rubis, na garganta afogador de grandes pérolas, no toucado grinalda de esmeraldas, nas orelhas chuveiros de aljôfar, no peito um camafeu em figura de cupido, cercado de uma rosa de jacintos, com os ais da mesma flor por raios; as alpargatas semeadas de todo o gênero de pedraria, as roupas recamadas de ouro e tomadas airosamente em um cintilho de safiras. Esta era a forma do quadro, e nele todo o engenho e arte do discípulo. Estava esperando a aprovação do mestre. Mas que vos parece que lhe diria Zêuxis? Fecisti divitem, quia non potuisti facere pulchram: Fizeste-a rica, porque a não pudeste fazer formosa. — O mesmo digo eu ao ouro, às pérolas e às pedras preciosas com que São João nos descreve a Cidade da Glória. — Evangelista sagrado, riquíssima está a cidade que nos pintastes; mas fizeste-la tão rica porque a não pudeste fazer formosa. A formosura que espera ver a nossa fé no céu não é como esta, em que só se pode enlevar a cobiça da terra. Bem o advertistes vós, águia divina, quando tomastes por salva que a cidade que descrevíeis era descida do céu à terra: Civitatem Jerusalem descendentem de caelo(16). O ouro, os diamantes, as pérolas, tudo é terra e da terra. E como pode o lustroso e precioso da terra informar-nos com verdade da beleza sobrenatural e formosura inestimável da glória? É verdade que São João, na idéia que formou, imaginou quanto se podia imaginar, e na descrição que fez, disse quanto se podia dizer; mas como as coisas da glória são tão diversas de tudo o que se vê, e tão levantadas sobre tudo o que se imagina, por mais e mais que se diga delas, sempre se diz menos. E como o dizer menos na Filosofia de Aristóteles e na Teologia de Santo Tomás é uma das espécies da mentira, ninguém se deve admirar que, no sentido em que falo, pareça que o maior dos evangelistas incorresse na sua visão aquela gloriosa censura que Davi, também arrebatado no seu êxtase, deu a todos os que falam na glória: Ego dixi in excessu meo: Omnis homo mendax(17).

VI

Dos evangelistas passemos aos profetas. Isaías, que é o maior de todos, e neste ponto é singular entre os demais, porque viu a Deus no trono da glória, diz assim: A saeculo non audierunt, neque auribus perceperunt, quae praeparasti expectantibus te (18). Quer dizer que as coisas que nos esperam, e Deus nos tem preparado na glória são tão altas, tão sublimes e tão superiores a tudo o de que neste mundo se tem notícia, que nunca jamais chegaram aos ouvidos dos homens. Que sejam as coisas da glória maiores que tudo o que viram os olhos e tudo o que pode inventar a imaginação, já o mostramos; mas que sejam também maiores que tudo o que ouviram os ouvidos, é coisa para mim muito dificultosa. Que há, ou que pode haver que não tenham ouvido os ouvidos? Ouviram tudo o que escreveram os historiadores; ouviram tudo o que fingiram os poetas; ouviram tudo o que especularam os filósofos; ouviram tudo o que publicou, acrescentou e exagerou a fama; ouviram tudo o que, debaixo do mais sagrado secreto, descobriu e não calou o silêncio. Mas não está aqui a dificuldade. Pois, em que está? Está em que os ouvidos têm ouvido tudo o que disseram os profetas, e tudo o que está escrito e dito nas Escrituras Sagradas. Argumento agora assim. É certo que os profetas e os outros escritores sagrados falam muitas vezes na glória, e no que Deus tem prometido e aparelhado no céu para bem-aventurança e prêmio dos que o servem nesta vida. Também é certo que tudo o que nos profetas e nos outros livros sagrados se diz e neles está escrito, nós o lemos e ouvimos. Logo, se as Escrituras Sagradas dizem o que Deus nos tem aparelhado na glória, e nós ouvimos tudo o que dizem essas mesmas escrituras, como diz Isaías que ninguém ouviu o que Deus nos tem aparelhado na glória: A saeculo non audierunt quae praeparasti expectantibus te?

A solução deste fortíssimo argumento é a mais evidente prova de tudo o que imos dizendo. Os profetas e as outras Escrituras falam da glória, nós ouvimos tudo o que dizem os profetas e as Escrituras, e, contudo, não ouvimos nada da glória, porque, por mais que os profetas e as Escrituras digam da glória, nunca chegam a dizer o que ela é. E porque eles, dizendo, não dizem, por isso nós, ouvindo, não ouvimos: A saeculo non audierunt. Mais ainda. Se ninguém ouviu o que é a glória, segue-se que nem os profetas, que falaram dela, o ouviram. Maravilhosa conseqüência, mas verdadeira! E assim é. Ouviram uns profetas aos outros profetas, e ouvia-se cada um a si mesmo; mas nem ouvindo todos a todos, nem ouvindo-se cada um a si, ouviam o que é a glória, porque, por mais levantado que seja o espírito dos profetas, por mais sublime que seja o seu estilo, e por mais que sobre-humana a sua eloqüência, em chegando a falar da glória, ou não dizem o que é, ou dizem o que não é. Dizem figuras, dizem comparações, dizem semelhanças, mas todas essas comparações são tão desiguais, todas essas semelhanças tão diferentes, e todas essas figuras tão pouco parecidas, que nas comparações fica a glória totalmente abatida, nas semelhanças desluzida, e nas figuras desfigurada. E se não, vejamos ou ouçamos o que os mesmos profetas têm dito.

Quer Isaías que comecemos desde o princípio do mundo: A saeculo non audierunt. Seja assim. E quais foram desde o princípio do mundo as figuras com que Moisés e os outros profetas nos representaram a glória? A primeira foi o Paraíso Terreal, depois o Tabernáculo e a Arca do Testamento, o Maná, a Terra de Promissão, a cidade de Jerusalém, o Templo de Salomão. Mas que semelhança têm estas coisas, por mais que fossem os milagres da natureza e da arte, com a glória do céu? No Paraíso Terreal entrou a serpente e o pecado; e a primeira prerrogativa da glória é a segurança da graça, em que todos os que lá vivem são confirmados. No Tabernáculo de Moisés andou a Arca do Testamento com os filhos de Israel peregrinando pelo deserto: no céu está Deus e os bem-aventurados de assento, como na própria pátria. O Maná, posto que tinha todos os sabores, não durava de um dia para o outro, porque se corrompia; e a glória não só é perpétua e incorruptível em si, mas aos mesmos nossos corpos de carne faz incorruptíveis e imortais. Da Terra de Promissão se dizia, por encarecimento, que manava leite e mel: mas que comparação tem o leite com os deleites do céu, e o mel com as doçuras da glória? A cidade de Jerusalém quer dizer Visão de Paz: e quantas vezes se viu a mesma Jerusalém combatida, sitiada e destruída com guerras? Só no céu é a paz segura e sem temor, porque dentro não pode haver desunião, e de fora não chegam lá inimigos. No Templo de Salomão estava coberto com um véu o Sancta Sanctorum, donde Deus, oculto e invisível, falava por oráculos, e onde só podia entrar o Sumo Sacerdote uma vez no ano: mas na glória, sem véu nem cortina, se deixa Deus ver e gozar manifesto a todos, e não em um só dia ou ano — que fora assaz — senão por toda aquela eternidade, inteira sem divisão e continuada sem limite, em que não há anos nem dias.

Que mais dizem os profetas? Dizem que o céu é um rio de delícias que sempre corre: Torrente voluptatis tuae potabis eos(19). Mas, se todo o mar oceano, comparado com a imensidade das delícias celestiais, é estreito, que será um rio? E se as mesmas delícias são permanentes e eternas, e não diversas, senão sempre as mesmas, como podem ser correntes? Dizem que o céu é um perpétuo convite de esquisitos e soberanos manjares: Faciet Dominus in monte hoc convivium pinguium, pinguium medulatorum(20). Mas os convites começam com fome, continuam com gosto, e acabam com fastio. A glória, pelo contrário, é uma perpétua satisfação do desejo e um perpétuo desejo da mesma satisfação, em que não há fome, porque a fome molesta, nem fastio, porque o fastio cansa, nem o gosto acaba jamais, porque não tem fim. Dizem que é um reino em que todos os que nele entram recebem a coroa da mão de Deus: Accipient regnum decoris, et diadema speciei de manu Domini (21). Mas o reino compõe-se de rei e vassalos, e na glória, não há súditos: só são sujeitos a Deus, por vontade, os que reinam com ele, e essa mesma sujeição amorosa é o cetro da liberdade e a coroa do alvedrio. Dizem que é um dia de bodas com vínculo indissolúvel: Sponsabo te mihi in sempiternum(22). Mas que amor ou que gosto há nas bodas que em poucos dias não enfraqueça ou se mude? Cresce com a esperança, satisfaz-se com a novidade e diminui com a posse. Na glória não é assim, porque o bem infinito sempre é novo, e onde a novidade não envelhece, o amor e o gosto não diminui. Dizem, finalmente, que a alegria da glória será como a dos lavradores no dia da messe, quando colhem o fruto dos seus trabalhos, e como a dos soldados vitoriosos, quando repartem os despojos dos inimigos vencidos: Laetabuntur coram te, sicut qui laetantur in messe, sicut exultant victores capta praeda, quando dividunt spolia (23). Mas, que semelhança tem a baixeza destas comparações e a desproporção de todas as outras, para medirmos ou estimarmos por elas as felicidades do céu? Mais parecem inventados para abater a grandeza da glória, para escurecer seu resplendor e para afear sua formosura que para nos representar nem as sombras do que ela é.

Quase lhes aconteceu aos profetas com o céu lá de cima, que não vemos, o mesmo que aos matemáticos e astrólogos com este céu cá de baixo, onde chega a nossa vista. Viram os matemáticos esse labirinto de luzes, de que está semeada sem ordem toda a esfera celeste, tão diversas na grandeza, como várias no movimento e infinitas no número; e para assentar alguma coisa certa em uma confusão tão imensa, que fizeram? Repartiram o mesmo céu, e fingiram em todo ele grande multidão de figuras, umas naturais, outras fabulosas. Aqui puseram um touro, ali um leão, acolá uma serpente; aqui um cervo, ali um cisne, acolá uma águia; em uma parte a Hércules, em outra a Orion, em outras a Medusa, a Berenice, a Andrômeda; o cavalo Pégaso voando com asas, o rio Erídano volteando a corrente, a nau Argos navegando; um golfinho, um caranguejo, uma balança, um carro, o escorpião, o centauro, a hidra, o capricórnio, e outras quimeras como estas, tão feias nos aspectos como nos nomes. Pois, no céu há estes animais, estas fábulas, estes monstros? Não, que tudo são estrelas resplandecentes e formosas. Mas foi necessário aos matemáticos fingir no céu estas mentiras e pôr lá estas fábulas, para, por meio delas, se entenderem entre si e ensinarem de algum modo ao mundo a verdade do que passa no céu.

Perdoai-me a comparação, profetas sagrados, e agradecei à reverência dos vossos oráculos não usar eu do nome e da licença que já me deu um de vós, e o mais alumiado de todos. No céu não há segadores, messes, nem soldados, nem despojos; no céu não há convites, nem bodas, nem inundação de torrentes; no céu não há Jerusaléns, nem Tabernáculos, nem Paraísos Terreais, nem Terras de Promissão, que tudo isso é terra e coisas da terra. Mas vós, como matemáticos do céu empíreo, pusestes lá todas essas figuras, com tão pouca semelhança e proporção, como com necessária impropriedade, para por meio delas ensinar a nossa rudeza, e, pela consideração dos gostos grosseiros que percebemos, nos levantar a fé e o pensamento à conjectura dos que não alcançamos. Nem podia haver outro argumento ou experiência que melhor nos demonstrasse o eminentíssimo conceito que devemos fazer das coisas da glória, pois os vossos mesmos entendimentos, ainda sobrenaturalmente elevados, não têm conceitos nem palavras bastantes com que nos declarar suas grandezas.

VII

E se os mesmos profetas, quando chegam a falar da glória, dizem tanto menos do que ela é, ou verdadeiramente o que não é, que podemos nós, os pregadores, dizer em matéria que tanto excede toda a capacidade mortal? Por isso, ainda quando mais encarecemos, sempre mentimos. Só São Paulo pudera pregar da glória, porque era pregador que a viu com seus olhos; mas, ouçamos o que ele disse depois de a ver: Raptus est in Paradisum, et audivit arcana verba, quae non licet homini loqui (2 Cor. 12, 4): Eu — diz São Paulo, falando de si em terceira pessoa — fui arrebatado ao céu, e lá vi o que Deus tem aparelhado para os seus escolhidos; mas são coisas tais que me não é lícito dizê-las. — Neste não me é lícito reparo. Que coisa mais lícita, que coisa mais justa, que coisa mais santa, mais útil e mais necessária que falar da glória do céu, e mais quem a tinha visto? O rico avarento teve para si que faria maior impressão de temor em seus irmãos a pregação de Lázaro, porque tinha visto as penas do inferno; e não há dúvida que também em nós excitaria muito mais o desejo a pregação de São Paulo, porque tinha visto a glória do céu. Pois, se esta pregação era tão eficaz e tão útil para a salvação de muitas almas que tão esquecidas vivem do céu, por que se escusa São Paulo de pregar e apregoar os bens da glória, e se escusa com lhe não ser lícito: Non licet?

Há casos em que muitas coisas vedadas se dispensam e se podem fazer licitamente, mas a mentira, ainda em matéria leve, é de sua natureza tão intrinsecamente má, que em nenhum caso é lícito mentir. E porque o mentir nem por salvar almas é lícito, e as coisas da glória se não podem dizer sem mentir, por isso São Paulo, em todo o rigor da palavra, se escusou com lhe não ser lícito: Non licet homini loqui. De sorte que, reduzido nas matérias da glória a termos ou de mentir ou de calar, tomou por expediente o calar, porque lhe não era lícito o mentir. Mas, se a São Paulo não era lícito falar na glória com este defeito, logo também aos profetas e aos evangelistas não foi lícito? Sim, foi, porque eles não tinham visto a glória; S. Paulo sim. S. Paulo, como testemunha de vista, tinha obrigação de dizer tudo o que vira, sob pena de desacreditar e infamar a glória; os demais, que a não tinham visto, não eram obrigados a dizer de suas grandezas senão o que podiam, e do modo que podiam, como fizeram. E, posto que disseram da glória muito menos do que ela é e merece, nem por isso incorreram em culpa, porque quando Davi disse que todos mentiam, falou da mentira material, a qual não é ilícita nem culpável, antes, neste caso, louvável e de grande glória da mesma glória. A razão da diferença é porque, como define Santo Agostinho: Mentiri est contra mentem ire. O mentir, com mentira formal e ilícita, é dizer um homem o contrário do que entende. Os outros escritores sagrados no que disseram da glória disseram o que entendiam e o que podiam; porém, São Paulo, ainda que dissesse o que podia, sempre havia de dizer contra o que entendia, como homem que tinha visto a glória, e por isso não lhe era lícito: Non licet homini loqui.

Assim calou o maior pregador do mundo, e assim pudera também a Igreja mandar os pregadores que calássemos neste dia, pois o calar sempre é lícito. Mas quis antes que disséssemos — ou mentíssemos esse pouco que podemos dizer, do que passarmos totalmente em silêncio as grandezas da glória, porque a maior grandeza das suas grandezas é não se poder falar nelas sem mentir.

E se algum crítico acaso tiver estranhado a palavra e o assunto, saiba que usar talvez da mentira para persuadir a verdade, não só não encontra as leis da boa e verdadeira retórica, mas é um dos maiores primores da sua energia. Fala Sêneca da hipérbole, tão usada de todos os que falaram em coisas grandes, e diz assim: In hoc omnis hyperbole extenditur, ut ad verum mendacio venia (24): O fim por que a hipérbole se estende tanto fora dos mesmos limites do que pretende persuadir, é porque quer chegar à verdade por meio da mentira: mente e diz mais do que a coisa é, para que se lhe venha a crer o que é: Nunquam tantum sperat hyperbole, quantum audet: Não é tão mal-entendida a hipérbole, que espere tanto do ouvinte quanto ela se atreve a afirmar. Sed incredibilia affirmat, ut ad credibilia pervenit: Mas afirma o que é incrível, para que se lhe creia tudo o que se pode crer. — Por este exemplo ficará entendido o fim e fundamento do meu discurso. O estilo que segui foi uma hipérbole às avessas. Há hipérbole por excesso e hipérbole por diminuição, e ambas mentem para chegar à verdade: Ut ad verum mendacio veniat. A hipérbole por excesso diz o muito que se não pode crer, para que se creia o que é; e a hipérbole por diminuição diz o pouco que se pode dizer, para que se creia o que será. O que será a glória do céu é o que se colhe eficazmente do meu discurso.

É certo que bastava só a consideração ou a suspensão deste que será, para todos os que temos fé nos levantarmos sobre todas as coisas da terra e as tratarmos com o desprezo que pede o altíssimo fim para que fomos criados. Se tudo o que temos dito, se tudo o que todos disseram, se tudo o que todos escreveram, se tudo o que todos imaginaram, em comparação da glória merece nome de mentira, a verdade que será? Há mentiras que se vêem, como diz o Espírito Santo: Visa mendacia(25), e tais são as aparências deste céu inferior que vemos ou cuidamos que vemos. Cuida o vulgo que vê o céu, e engana-se, porque não chega lá a nossa vista. Isto que chamamos céu é uma mentira azul, e o que chamamos íris ou arco celeste é outra mentira de três cores; e, se as mentiras do céu da terra são tão formosas, quais serão as verdades do céu do céu: Caelum caeli Domino (Sl.113, 16)? S. Bernardo, sem subir tanto acima, tomou por empresa uma harpa com a letra que dizia: Quid erit in patria? Se no desterro há tal harmonia e tal suavidade, na pátria, que será? Mas muito melhor o nosso Davi, depois que viu na mesma pátria, não o que será por conjectura, senão o que é por realidade, trocou a empresa e desencordoou a sua harpa. E que disse? Que tudo quanto tinha cantado a ela, e quanto cantam e contam todos os que falam na glória, tudo é mentira: Ego dixi in excessu meo: Omnis homo mendax.

VIII

Suposto, pois — dai-me agora uma breve atenção — suposto pois que tudo o que se tem dito, tudo o que se diz e tudo o que se pode dizer da glória que nos espera no céu é tanto menos, e tão pouco, e tão nada que sem encarecimento se pode chamar mentira, que havemos, ou que podemos fazer para saber verdadeiramente o que é e como é a glória? Não há nem pode haver mais que um só meio, mas esse muito certo e adequado. E qual é? Ir ao céu, e vê-la. Perguntaram uma vez a Cristo dois que queriam ser seus discípulos onde morava: Rabbi, ubi habitas (26)? E o Senhor, que não tinha casa na terra, senão no céu — donde nunca saiu ainda quando veio ao mundo — que respondeu? Venite, et videte (Jo. 1,39): Vinde, e vê-lo-eis. — E sem irem e verem não o podiam saber? Não. Excelentemente Alcuíno e Beda: Ideo non dixit ubi habitaret, sed illos ut venirent et viderent invitavit, quia habitatio, idest gloria Christi, videri quidem potest, verbis explicare non potest (27): Não disse o Senhor onde morava aos que o queriam saber, e somente lhes respondeu que viessem e vissem: Venit et videte, porque a morada de Cristo é a glória, e o que é, e como é a glória, só se pode ver, mas não se pode dizer: Videri potest, explicari non potest. Isto é o que respondeu Cristo, e isto é o que eu digo e o que só podem dizer os pregadores sobre este assunto. Façamos muito por ir ao céu, e lá veremos o que é a glória: Venite, et videte: Vinde, e vê-lo-eis. — E quando, por mercê de Deus, formos ao céu, e virmos verdadeiramente o que é a glória, então veremos e conheceremos também quão pouca semelhança tem de verdade quanto cá se diz e se ouve.

Quando a Rainha Sabá viu a corte e Casa Real de Salomão, não só admirada do que se via, mas, como diz o texto sagrado, quase desmaiada de pasmo, rompeu nestas palavras: Non credebam narrantibus mihi, donec ipsa veni et vidi oculis meis, et probavi quod media pars mihi nuntiata non fuerit: major est sapientia tua et opera tua, quam rumor quem audivi. Beati viri tui, et beati servi tui, qui stant coram te semper (3Rs. 10,7): Eu, sapientíssimo rei Salomão, quando estava nas minhas terras — diz a rainha — muitas coisas tinha ouvido da vossa sabedoria, da vossa grandeza, da vossa corte e da magnificência da vossa casa, às quais porém não dava crédito, por me parecerem incríveis; mas, depois que vim e as vejo com meus olhos, já tenho conhecido e provado que nem ametade se me tinha dito do que verdadeiramente é. Bem-aventurados os vossos servos, e bem-aventurados os vossos cortesãos, pois têm e gozam a felicidade de estar sempre em vossa presença. -Parece que não pudera dizer mais se falara com Deus na glória. E se as grandezas da corte e casa de Salomão as não pode crer nem perceber uma rainha tão sábia, senão depois de vir e ver: donec ipsa veni et vidi — e se tudo o que tinha ouvido na sua terra não chegava a ser ametade do que agora via com seus olhos, que proporção e que semelhança pode ter o pouco ou nada que cá dizemos e ouvimos, com o muito, com o infinito, com o imenso da glória que lá vêem os que a gozam? Por isso o Senhor e Autor dela nos diz: Venite et videte: Vinde e vede.

Mas o mal e a desgraça é que todos querem ver, e há muito poucos que queiram vir. Todos querem ver e gozar a glória, mas há poucos que queiram vir e seguir a Cristo pelo caminho que ele nos veio ensinar para chegarmos a ela. Se o divino Mestre trocara os termos, e assim como disse: Venite et videte, dissera: Videte et venite, se fora possível e conveniente que primeiro se nos desse vista da glória, e depois se nos prometessem os meios de a conseguir, como é certo que não seria necessário que Deus nos chamasse ou rogasse, senão que nós mesmos, arrebatados daquela imensa formosura e felicidade incompreensível, não só com vontade e desejo, mas com ímpeto e violência romperíamos por todas as dificuldades da vida, e pela mesma vida e mil vidas por alcançar tanto bem. Porém, que merecimento seria então o da fé, que prêmio o da esperança, e que valor o da caridade, sendo necessária, e não livre? Para maior bem do mesmo bem, e para maior aumento da mesma glória nos pede Deus primeiro os passos e depois nos promete a vista: Venite, et videte.

E verdadeiramente, que, ainda que o caminho do céu e a passagem deste Cabo de Boa Esperança tivera maiores dificuldades, bem se puderam empreender todas, sem o testemunho da vista, debaixo da palavra de Cristo. Quando o mesmo Senhor, antes de se fazer homem por nós, disse a Abraão que deixasse a sua pátria, não lhe prometeu o céu, senão outra terra, e não lha mostrou então, mas somente lhe disse que Iha mostraria depois: Veni in terram quam mostravero tibi (28). E que fez Abraão debaixo desta palavra? Apenas se pode dizer sem injúria e afronta da nossa fé. Deixou a pátria, deixou a casa nobre e rica que tinha herdado de seus pais, deixou a companhia dos parentes, o amor dos amigos, a familiaridade dos conhecidos, para ir peregrinar entre gentes estranhas. Enfim, rompeu todas aquelas cadeias com que a criação e a natureza costuma prender o coração humano, que tudo nota e pondera a história sagrada. E que tudo isto executasse com tanta prontidão de ânimo um homem que pouco antes fora gentio e adorava os deuses falsos? Sim — diz Santo Estêvão — e ninguém se espante, porque o Deus, que mandou a Abraão que fizesse este divórcio e renúncia geral de quanto tinha e amava no mundo, era o Deus da glória: Deus gloriae apparuit Patri nostro Abraham, et dixit ad illum: Exi de terra tua et de cognatione tua, et veni in terram quam mostravero tibi (29). Em toda a Sagrada Escritura se não lê ou dá a Deus semelhante título ou epíteto de Deus da glória, senão neste lugar unicamente. E por que usou de tal paráfrase aquele famoso pregador apedrejado a quem, entre as mesmas pedras, se lhe abriu o céu? Não foi só para encarecer a fineza do que Abraão obrara, mas para distinguir os motivos que ele podia ter na mesma obra, e nós podemos ter nas nossas. Se não fazemos grandes coisas por amor de Deus porque é Deus, ao menos por que as não faremos porque é Deus da glória: Deus gloriae? Fazê-las por Deus porque é Deus, é fineza: fazê-las por Deus porque é Deus da glória, é conveniência; fazê-las por Deus porque é Deus, é amor de Deus; fazê-las por Deus porque é Deus da glória, é amor-próprio. E que nem por este amor-próprio, nem porque Deus nos há de premiar com a glória lhe façamos tais serviços que sejam merecedores dela? Grande miséria!

E se é miséria grande o pouco que fazemos por alcançar e ver a glória, muito maior miséria e o muito que fazemos pela perder e não ver. Cada pecado que cometemos é um pecado e duas ofensas: uma ofensa contra Deus, e outra ofensa contra a glória. Assim o entendeu aquele moço pródigo, a quem a experiência das pagas que o mundo dá restituiu o entendimento que o mesmo mundo lhe tinha tirado. Pater, peccavi in coelum et coram te (Lc. 15,18): Pai meu — dizia ele falando com Deus — pequei contra o céu e pequei contra vós: contra o céu, que é a glória para que fui criado, e contra vós, que sois o Deus que me criastes para ele. — Em primeiro lugar pôs a ofensa do céu, e no segundo a de Deus, porque como era homem que se tinha posto à soldada, mais sentia a perda do galardão que o desagrado do amo. Eu já me contentara que nas nossas fidalguias se usaram com o céu e com Deus estes desprimores. Se não deixamos os pecados por contrição, e por serem ofensas de Deus, deixemo-los ao menos por atrição e porque nos privam da glória. Não ofender a Deus porque é Deus é obrigação; não o ofender por não perder a glória é interesse. E sendo nós tão interesseiros ou tão servos e tão escravos dos interesses da terra que, ao menos pelos interesses do céu e da glória, não deixemos de ofender a quem no-la há de dar ou tirar para sempre? Não foi o Pródigo o pródigo; nós o somos, e mais feiamente. Ele disse: Peccavi in caelum, e não foi pródigo do céu, senão da fazenda; nós somos avarentos da fazenda e pródigos do céu e da glória.

Oh! como podem temer que não são criados para ela os que tão pouco fazem pela ver, ou tanto fazem pela não ver! De quantos deixaram o coração no Egito, nenhum chegou a ver a Terra de Promissão, porque sem vir não há ver, e quem não vem de todo o coração, não se move. Desde essas moradas eternas nos está Cristo glorioso chamando e convidando a todos, e dizendo como aos que lhe perguntaram onde morava: Venite,et videte: Vinde, e vede. Venite, nos diz agora aquele mesmo Senhor, que no dia do juízo, unidas outra vez nossas almas a estes mesmos corpos, há de dizer aos que ouvirem sua voz: Venite benedicti(30). Vinde, nos diz. E donde, e para onde? Da terra para o céu, do desterro para a Pátria, do cativeiro para a liberdade, da guerra para a paz, da tempestade para o porto, do trabalho para o descanso, do tempo para a eternidade, do vale de lágrimas para o Monte da Glória. E que haja ainda quem duvide vir? Venite: Vinde. E não vos digo — diz o Senhor, que venhais como eu vim pelo Monte Calvário: basta-me que venhais pelo Tabor, o mais ameno do mundo, contanto que venhais em meu seguimento. E se ainda pelo Tabor não vos atreverdes a vir, como Pedro, João e Diogo, pelo caminho estreito dos conselhos, vinde como Moisés e Elias, pelo mais largo dos Mandamentos, que para isso fiz dois caminhos, desejando que venham todos: Venite. Vinde, enfim, e vereis o que antes de vir se não pode ver: Venite, et videte. Vereis o que nunca vistes, vereis o que nunca ouvistes, vereis o que nunca imaginastes, e vereis quão diferentes, quão outras e quão infinitamente incomparáveis são as coisas da glória a todas as que lá vos disseram os meus profetas e evangelistas, não por eles quererem mentir — que não é possível — mas porque tudo o que há na terra, ou desde a terra se vê no céu, nenhuma comparação tem nem semelhança com o que vê e goza na glória. Em particular vos convido, como homens, a ver gloriosa em seu trono a minha Humanidade. — E então julgareis se os raios de que se coroa são de sol, e a cor de que veste, de neve: Resplenduit facies ejus sicut sol, vestimenta autem ejus facta sunt albo sicut ni (31).

(1) O seu rosto ficou refulgente como o sol, e as suas vestiduras se fizeram brancas como a neve (Mt. 17,2).

(2) Eu disse no meu êxtase: Todo o homem é mentiroso (Sl. 115,11).

(3) Bom é que nós estejamos aqui (Mt. 17,4).

(4) Div. Hier. in Cathal. Scrip. Eccles.

(5) Que darei eu em retribuição ao Senhor, por todos os benefícios que me tem feito (Sl. 115, 12)?

(6) Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo (Jo. 1,47).

(7) Chysost. Paraenet. I ad Theo.

(8) Porque não sabia o que dizia, pois estavam atônitos de medo (Mc. 9,5).

(9) Este é aquele meu querido Filho (Mt. 17,5).

(10) Vi a cidade, a Jerusalém nova, que da parte de Deus descia do céu, adornada como uma esposa ataviada para o seu esposo (Apc. 21,2).

(11) "A qual linha a claridade de Deus, e o lustre dela era semelhante a uma pedra preciosa, como pedra de jaspe, à maneira de cristal (Apc. 21, 11).

(12) E a mesma cidade era de puro ouro, semelhante a um vidro claro, e a praça da cidade era de puro ouro, como vidro transparente (Apc. 21, 18,21).

(13) O rio da água da vida, resplandecente como cristal, que saía do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da sua praça, e de uma e de outra parte do rio, estava a árvore da vida (Apc. 22, 1 5).

(14) O olho não viu o que Deus tem preparado para aqueles que o amam (1 Cor. 2,9).

(15) O olho não viu, nem jamais veio ao coração do homem (1 Cor. 2,9).

(16) A cidade de Jerusalém, que descia do céu (Apc. 21,2).

(17) Eu disse no meu êxtase: Todo o homem é mentiroso (Sl. 115,11).

(18) Desde o século os homens não ouviram, nem com os ouvidos perceberam o que tens preparado para os que te esperam (Is. 64,4).

(19) E os farás beber na torrente das tuas delícias (Sl. 35, 9).

(20) E o Senhor fará neste monte um banquete de manjares substanciais, de substanciais tutanos (Is. 25,6).

(21) Receberão da mão do Senhor um reino de honra e um diadema brilhante (Sab. 5,17).

(22) Então me desposarei eu contigo para sempre (Os. 2, 19).

(23) Eles se alegrarão quando tu lhes apareceres, bem como os que se alegram no tempo da messe, bem como exultam os vencedores com a presa que tomaram, quando repartem os despojos (Is. 9,3).

(24) Seneca, lib. 7 de Benef c. 23

(25) Visões enganosas (Eclo. 34,2)

(26) Rabi, onde assistes tu (Jo. 1,38)?

(27) Relatia Maldonato ibi.

(28) Vem para a terra que eu te mostrarei (Gên. 12, 1).

(29) Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, e lhe disse: Sai do teu país e da tua parentela, e vem para a terra que eu te mostrar (At. 7,2 s).

(30) Vinde, benditos (Mt. 25,34).

(31) O seu rosto ficou refulgente como o sol, e as suas vestiduras se fizeram brancas como a neve (Mt. 17,2).

Sermão de Dia de

Alii autem caedebant ramos de arboribus, et sternebant in via (1).

I

Como Deus não se agrada de afetos súbitos, senão de corações preparados, maravilhosas são as disposições cada vez maiores e mais estreitas, com que a Igreja Católica, nossa mãe, governada pelo Espírito Santo, de muito longe nos começou a preparar, e foi preparando sempre, para que chegássemos dignamente a este dia, e entrássemos como convém nesta sagrada semana. Para chegar ao Sancta Sanctorum, que era o lugar mais sagrado do templo de Jerusalém, traçou Deus a entrada com tal artifício, que primeiro se passasse por três estâncias, tão misteriosas no sítio como na medida, porque quanto eram mais interiores, tanto se estreitavam mais. A primeira e a segunda se chamavam átrios, e a terceira propriamente templo. Por estes como degraus de reverência e culto, e com todas estas disposições de sempre maior recolhimento e aperto, se chegava finalmente ao Sancta Sanctorum; e com as mesmas quer e ordenou a Igreja que entrássemos nós à Semana Santa, porque assim como o Sancta Sanctorum era o lugar mais sagrado do templo, assim a Semana Santa é o Sancta Sanctorum do tempo.

As três estâncias que o precedem, e já passamos, tanto mais estreitas quanto mais interiores, foram, a primeira, desde a Septuagésima até a Quaresma; a segunda, do princípio da Quaresma até a Dominga próxima, chamada da Paixão; a terceira, da mesma Dominga da Paixão até o dia presente. Na entrada da Septuagésima se começaram a enlutar os altares, e cessaram no canto eclesiástico as aleluias, sendo esta cerimônia exterior o primeiro prelúdio ou reclamo da penitência, para que não dissolutos, mas compungidos, entrássemos no tempo santo da Quaresma. Começou a Quaresma com a memória da cinza e do pó que somos, e com o jejum universal; continuou com tanta freqüência de sermões, com tantas procissões de modéstia, compunção e piedade cristã, com tantas mortificações secretas e públicas, e com tanta efusão violenta do próprio sangue; e, não se dando por satisfeita com todas estas demonstrações, a Igreja, para maior representação de sua justa dor e tristeza, na dominga proximamente passada, correu totalmente as cortinas aos altares, e até as imagens sacrossantas de Cristo crucificado nos encobriu e escondeu com aquele véu negro, para que, eclipsado assim e escurecido o Divino Sol de nossas almas, chegássemos com maior assombro e santo horror aos dias em que somos entrados.

Os antigos, como se lê em São Bernardo, chamavam a esta semana a Semana Penosa, pelos tormentos e penas que Cristo nosso Redentor nela padeceu, e pelo sentimento e dor com que nós as devemos corresponder e acompanhar. A Igreja universal lhe chama a Semana Maior, porque nela se consumaram os maiores mistérios de nossa Redenção, os maiores excessos do amor e misericórdia divina, e o maior e mais tremendo exemplo de sua justiça. Nós, em significação de todas estas coisas juntas, chamamos vulgarmente à mesma semana a Semana Santa, mas não sei se as nossas ações e exercícios nela respondem às obrigações de tão sagrado nome. Ora eu tão escandalizado do que algumas vezes acontece, como zeloso do que é bem se veja e reconheça em todos estes santos dias, o assunto que somente vos determino pregar hoje é este: que deve fazer todo o cristão para que a Semana Santa seja santa? A matéria, nem pode ser mais pia, nem mais útil, nem mais própria da ocasião, se aquele Senhor, que hoje chorou sobre a cidade de Jerusalém, puser seus divinos olhos na nossa, e nos assistir com sua graça. Peçamo-la por intercessão da Virgem Senhora, com tão devoto afeto de nossos corações, que a mereçamos alcançar. Ave Maria.

II

Santo Agostinho, São Basílio e São Pedro Crisólogo comparam os quarenta dias da Quaresma aos quarenta dias do dilúvio universal. Naquele dilúvio esteve Deus quarenta dias chovendo castigos; neste está outros quarenta dias chovendo misericórdia. Mas somos os homens tão protervos, que nem por bem, nem por mal pode Deus conosco: os castigos não nos emendam, as misericórdias não nos abrandam. Barro, enfim. Assim como o barro se endurece com os raios do sol, assim nós com os favores do céu não nos abrandamos, antes nos endurecemos mais. O mesmo que lhes sucedeu àqueles antigos homens no primeiro dilúvio, nos acontece a nós neste segundo.

Começou a chover o dilúvio de Noé: alagaram-se na primeira semana os vales e os quartos baixos dos edifícios; subiram-se os homens aos quartos altos. Choveu a segunda semana; venceram as águas os quartos altos, subiram-se aos telhados. Choveu a terceira semana: sobrepujou o dilúvio os telhados, subiram-se às torres. Choveu a quarta semana: ficaram debaixo das águas as torres e as ameias mais altas, subiram-se aos montes. Choveu a quinta semana: ficaram também afogados os montes, subiram-se finalmente às árvores, e assim estavam suspensos e pegados nos ramos. Postos neste estado os homens, já não tinham para onde subir, e não lhes restava mais que uma de duas: ou nadar, ou acolher-se à Arca, ou deixar-se afogar e perecer no dilúvio. Oh! se nos víssemos bem neste grande espelho! E quantos de nós estamos hoje no mesmo estado! Desde o princípio da Quaresma começou Deus a querer-nos conquistar as almas, e nós sempre a retirar e a fugir de Deus de semana em semana. Passou a primeira semana da Quaresma, guardamo-nos para a segunda; passou a segunda, deixamo-nos para a terceira; passou a terceira, esperamos para a quarta; passou a quarta, dilatamo-nos para a quinta; passou a quinta, apelamos para a sexta; já estamos na sexta e na última semana deste dilúvio espiritual, já estamos, como os do outro dilúvio, com as mãos nos ramos das árvores, ou com os ramos das árvores nas mãos: Caedebant ramos de arboribus (2).

Em dia de ramos estamos, e chegados a este dia e a esta semana precisa, em que não há já para onde retirar, que é o que nos resta? Ou afogar e perecer, ou resolver e nadar para a Arca. Os daqueloutro dilúvio não podiam nadar nem salvar-se na Arca de Noé, uns porque estavam muito longe, outros porque não sabiam dela, e todos porque a Arca não tinha mais que uma porta, e essa estava fechada por fora, e tinha Deus levado as chaves, como diz o texto. Cá no nosso dilúvio não é assim. O Noé é Cristo, Salvador e reparador do mundo, e a Arca em que salvou o gênero humano é a sua cruz. Assim lhe chama a Igreja no hino corrente deste tempo: Atque portum praeparare Arca mundo naufrago. O antigo Noé não tinha porta por onde recolher os que se quisessem valer da Arca; mas o nosso Noé divino está com cinco portas abertas, e abertas em si mesmo, para recolher e salvar todos os que se quiserem valer dele e de sua cruz. Oh! que diferente dilúvio é este daquele! Naquele morreram todos os homens, e salvou-se só Noé; neste morreu e afogou-se só o divino Noé: Veni in altitudinem maris, et tempestas demersit me (3), para que todos os homens se salvem. Os que pereceram naquele dilúvio são os que não se quiseram persuadir, e se foram dilatando até que não tiveram remédio. E será bem que nós, chegados a este dia, ainda nos dilatemos mais, e pereçamos como eles? Perecer não, cristãos, pelo que nos merece o amor de Cristo e suas santíssimas chagas. Aproveitemo-nos ao menos destes poucos dias da Semana Santa, já que dos de toda a Quaresma nos não soubemos aproveitar.

Diz São Basílio Magno que os anjos de cada cidade, desde o princípio da Quaresma, vão escrevendo em um livro os que jejuam e os que não jejuam. Assim como os párocos no mesmo tempo tomam a rol todos os fregueses, para lhes pedirem conta da confissão e comunhão, assim o fazem os anjos para a tomarem do jejum. Mas além destes dois livros, ainda há outro terceiro, de que muito mais dificultosamente nos havemos de desobrigar. E que livro é este? É o que vedes naquele altar. O primeiro livro é o do pároco, o segundo o do anjo, o terceiro o de Cristo. Em todos os dias da Quaresma nos manda Cristo ler um novo Evangelho — o que não se faz nos outros dias do ano — e por este diário da doutrina havemos de ser também examinados todos os que nos chamamos cristãos. Ouvi ao profeta Davi, falando deste livro em nome da Igreja universal, que daquele altar e desta cadeira nos lê estas lições tão mal aprendidas: Imperfectum meum viderunt oculi tui, et in libro tuo omnes scribentur: dies formabuntur et nemo in eis (Sl. 138, 16): Os vossos olhos, Senhor, — diz a Igreja — vêem as minhas imperfeições, isto é, as imperfeições daqueles de que eu me componho, que são os cristãos; todos se escreverão no vosso livro; formar-se-ão os dias, e ninguém neles.

O lugar é escuro, mas admirável. Que tenha Deus livro em que se escrevam os defeitos e pecados de todos, e os nomes de todos os que os cometem, e os dias em que se cometem, é coisa muito sabida e vulgar nas Escrituras. Mas que dias são estes que se chamam formados, e nos quais ninguém se acha: Dies formabuntur, et nemo in eis? São propriissimamente os dias da Quaresma, em cada um dos quais nos propõe Cristo uma forma particular do Evangelho, pela qual forma, como por exemplar e idéia de nossas ações, nos devemos nós também formar e reformar, que esse é o intento deste tempo santo. E porque geralmente ninguém se reforma nem conforma com o que se lhe propõe no Evangelho daquele dia, por isso diz o profeta que os dias se formam, e ninguém se acha neles: Dies formabuntur, et nemo in eis. De sorte que o nemo refere-se ao formabuntur como se dissera: Dies formabuntur et nemo in eis, idest, formabuntur Os dias dão a forma, e ninguém se conforma com ela, porque, sendo a forma de cada Evangelho ordenada cada dia à reformação de cada vício, em vez de se ver a emenda e reformação, continuam as mesmas deformidades, e pode ser que maiores.

Oh! se aqui aparecera agora este livro como está notado e cotado na mente divina, se se abrira este livro diante de todos, e se começara a ler publicamente o que cada um fez ou deixou de fazer nesta Quaresma, que vergonha havia de ser, e que confusão a de muitos, quando se fossem confrontando dia por dia a forma dos Evangelhos e a deformidade das vidas! Veio um primeiro dia da Quaresma, veio uma Quarta-feira de Cinzas, pôs-nos a Igreja diante dos olhos não só a memória, senão a mesma morte, e quantos houve que mudassem de vida? Veja-se o livro neste dia: Dies formabuntui; et nemo in eis. Passou o dia, e ninguém se achou escrito nele. Continuamos na mesma vida, como se ela nunca houvera de acabar, e tão esquecidos da conta, como se Deus no-la não houvera de pedir. Chegou uma primeira sexta-feira de Quaresma, leu-se aquele admirável Evangelho do amor dos inimigos, e quantos houve que deixassem os ódios, quantos que se arrependessem dos propósitos da vingança, quantos que se reconciliassem e se pedissem perdão? Dies formabuntur, et nemo in eis. Passou o dia, e os ódios não passaram: ainda fulano se não corre com fulano, ainda se não falam, ainda se não saúdam, ainda inimigos, ainda escandalosos, ainda não cristãos, como de antes. Chegou o Domingo das Tentações, vimos como Cristo no-las ensinou a vencer com tanto despego, sendo tão naturais, e com tanta resolução, sendo tão fortes. Mas quantas vitórias alcançamos depois disso contra o demônio? Dies formabuntur, et nemo in eis. O demônio sempre vencedor, e vencedor sem batalha, porque onde o pecar é hábito, não .há resistência. Tantas vezes vencidos quantas tentados, e o que pior é, antes de tentados, vencidos não sendo já necessário ao demônio tentar a muitos, porque eles são os que buscam as tentações, e os piores tentadores.

Chegou o segundo Domingo da Glória: vimos transfigurado a Cristo, e arrebatado a São Pedro no Monte Tabor. E quem houve que por saudades do céu se despegasse um pouco da terra? Também em tal dia, folha em branco: Dies formabuntur, et nemo in eis. Tão apegados à terra, tão cegos, tão enterrados e tão toupeiras nela, como se o céu não fora criado para nós, nem nós para ele, e como se o Filho de Deus o não comprara para nós com seu próprio sangue. Chegou o terceiro Domingo do Diabo Mudo, e quantos houve que aprendessem a saber calar os pecados alheios, e a confessar, como convém, os próprios? Dies formabuntur et nemo in eis. Ainda aquele miserável, ainda aquela mesquinha, que traz encoberto o pecado há tanto tempo, se não deliberou a o confessar, acrescentando em cada confissão fingida um novo sacrilégio, sem reparar que é justo juízo de Deus, provado com muitos exemplos, que falte a fala e a confissão na morte, a quem a não faz como deve na vida. Chegou finalmente uma sexta-feira de Lázaro ressuscitado de quatro dias, e que moço ou velho houve que, à sua imitação, — se levantasse da sepultura, em que podres de seus vícios jazem há tantos meses, e pode ser que tantos anos? Chegaram os dias da conversão da Samaritana e da Madalena, uma de baixa condição, outra nobre e senhora, e que mulher houve perdida, ou arriscada a se perder, que reparasse na sua mesma perdição, e abrisse os olhos à sua cegueira? Dies formabuntur, et nemo in eis. Ainda continuam os mesmos pensamentos e malditos cuidados, ainda as mesmas correspondências, ainda as mesmas ocasiões, ainda as mesmas torpezas, ainda os mesmos escândalos, e ainda continua e arde o mesmo fogo para se continuar no do inferno.

Eis aqui, cristãos, como muitos de vós tendes passado a Quaresma, perdendo tantos dias em que pudéreis abrir os olhos, e em que pudéreis entrar dentro em vós, cerrando sempre os ouvidos às vozes do céu, e fechando os corações às inspirações divinas. Os dias que passaram já não podem tornar, nem têm remédio; os que estão por vir daqui até quinta-feira — que é a última reserva das consciências mais descuidadas — não são mais que três dias; vede se será bem que até estes deixemos passar debalde, e que nem de um prazo tão estreito nos aproveitemos.

Vomitado da baleia, como muitas vezes ouvistes, o profeta Jonas nas praias de Nínive, entrou por aquela grandíssima cidade pregando ou apregoando a altas vozes: Adhuc quadraginta dies, et Ninive subvertetur (Jon. 3, 4): Daqui a quarenta dias se há de subverter Nínive. — Assim se lê no texto sagrado da Bíblia, chamada Vulgata, de que hoje usa a Igreja. Porém os Setenta intérpretes, que também são autores canônicos, em lugar de quarenta dias, põem somente três, e dizem que disse Jonas: Adhuc tres dies, et Ninive subvertetur: Daqui a três dias se há de subverter Nínive. — Todos estais vendo o encontro destas duas escrituras e a dificuldade delas, porque se é certo que Jonas disse, daqui a quarenta dias, como pode concordar com a mesma verdade que dissesse: daqui a três? S. Isidoro Pelusiota soltou admiravelmente a dúvida, e diz que uma e outra coisa disse o profeta, não no mesmo, senão em diferentes tempos. Quando começou disse: daqui a quarenta dias; quando acabou, disse: daqui a três. Foi o caso desta maneira. Entrou Jonas o primeiro dia pregando e dizendo: Daqui a quarenta dias se há de subverter Nínive — e muitos dos ninivitas zombaram do que dizia o estrangeiro. Amanheceu o segundo dia, continuou o profeta a mesma pregação, mas diminuindo um dia, que era o que já tinha passado, e disse assim: Daqui a trinta e nove dias se há de subverter Nínive; porém os que não tinham feito caso dos primeiros brados, também o não fizeram dos segundos. Amanheceu o dia terceiro, foi por diante Jonas com sua pregação: Daqui a trinta e oito dias se há de subverter Nínive; e os maus ouvintes como dantes. Passaram dez dias, passaram vinte, passaram trinta, e Jonas sempre diminuindo, até que finalmente chegaram os dias a ser trinta e sete: então disse o profeta o que referem os Setenta intérpretes: Adhuc tres dies, et Ninive subvertetur: Daqui a três dias se há de subverter Nínive — porque estes só faltavam para cumprimento do prazo que Deus lhe tinha dado. Vendo, pois, os rebeldes que já lhes não restavam mais que três dias, ainda que até ali tinham estado tão obstinados e insensíveis, o mesmo aperto do tempo os fez entrar em si. Consideraram que a ameaça do profeta era muito conforme a suas culpas, creram que as vozes daquele homem verdadeiramente eram de Deus, e, reconhecendo de perto o mesmo perigo, em que não reparavam quando se lhes representava mais longe, resolveram-se de todo o coração a se converter. Cobrem as cabeças de cinza, vestem-se de cilício, publicam jejum universal, em que ninguém comesse bocado, prostram-se por terra, batem os peitos, choram e clamam ao céu, e desde o rei até o menor da cidade, desde os homens até os animais do campo, fizeram aquela tão celebrada e tão notável penitência, com que mereceram que Deus levantasse o castigo e lhes perdoasse.

Os ninivitas eram gentios; nós por graça de Deus somos cristãos. Cada cidade é uma Nínive grande, cada casa uma Nínive pequena, e cada alma uma Nínive maior que ambas. Ainda que em todos os dias nos podemos converter a Deus, o tempo que sua divina misericórdia nos sinalou particularmente para a penitência dos pecados são os quarenta dias da Quaresma: Adhuc quadraginta dies. O dia maior destes quarenta, e em que todos, ou por verdadeira devoção, ou por costume e cerimônia, nos lançamos geralmente aos pés de Cristo e lhe pedimos perdão em um Sacramento e o recebemos em outro, é o dia de Quinta-Feira de Endoenças. Neste grande dia, segundo a disposição de cada um, ou se convertem ou se subvertem as Nínives, ou se convertem ou se perdem as almas, como se perdeu a de Judas. Lançai agora a conta aos dias que nos restam para este último, e achareis que somos chegados a termos que não são já mais que três: Adhuc tres dies. Oh! que desgraça seria tão indigna do caráter e piedade cristã, se os que imitaram, aqueles gentios em se dilatar, os não imitarem, posto que tarde, em se converter! Os ninivitas, diz Cristo, que se hão de levantar no dia do Juízo, e acusar aquele povo duro e incrédulo, a quem o Senhor pregava e não se convertia. Por reverência do mesmo Cristo, que não queiramos nós também que se levantem contra nós. Se os ninivitas, sem fé nem batismo, se o seu rei, que era Sardanapalo, o mais vicioso de todos os homens, vendo-se reduzidos a um termo tão apertado, conheceram o seu perigo, e por meios tão extraordinários lhe buscaram remédio, nós, a quem Deus com os braços abertos, há tantos dias no-lo está oferecendo tão fácil, por que o desprezaremos?

Acabemos de nos desenganar, antes que se acabe o tempo: Ecce nunc tempus acceptabile (4). Acabemos de tratar da salvação, antes que se fechem as portas da misericórdia: Ecce nunc dies salutis (5). Ou fazemos conta de nos converter deveras a Deus alguma hora, ou não: se não fazemos esta conta, para que somos cristãos? Por outro caminho mais largo podíamos ir ao inferno. Mas se nenhum há tão rematadamente inimigo de sua alma, que ao menos não tenha tenção de algum dia a tirar do poder do demônio e a dar a Deus, quando há de ser este dia? Que dia, ou que dias mais a propósito podemos ter ou esperar que estes da Semana Santa? Que dias mais a propósito para pedir a Deus perdão dos pecados, que aqueles mesmos dias em que Deus se pôs em uma cruz por meus pecados? Que dias mais a propósito para alcançar e ter parte nos merecimentos do sangue de Cristo, que os dias em que se está derramando o mesmo sangue? Agora, agora, e não depois, é o tempo aceito a Deus: Ecce nunc tempus acceptabile. Estes dias, estes, e não os futuros, incertos e enganosos, são os dias da salvação: Ecce nunc dies salutis.

III

Suposto pois, cristãos, que este é o tempo, e suposto que os dias são tão precisos que não temos outros para que apelar, o que resta é recuperar o perdido, e que nos aproveitemos deles com tais atos de verdadeira contrição e devoção, que esta Semana Santa, como o é em si, seja em nós também santa. Os ramos que cortaram das árvores os que hoje saíram a receber a Cristo: Caedebant ramos de arboribus, posto que São Mateus não declare quais fossem, São João diz que eram de palma, e São Lucas de oliveira. E com os dois afetos que estes ramos significavam, devemos nós seguir e acompanhar o Senhor em todos seus passos, oferecendo estes humildes obséquios a seus sacratíssimos pés, que isto quer dizer: Et sternebant in via (6). A palma é símbolo da paciência, como a oliveira da misericórdia e compaixão; e tais eram os dois mistérios que encerrava o aparato e diferença daqueles ramos: padecer e compadecer. Desta maneira receberemos e acompanharemos a nosso bom Rei e Redentor muito melhor que a ingrata e inconstante Jerusalém, se não só hoje, mas todos estes dias, padecermos alguma coisa com ele, e nos compadecermos dele. Tudo resumiu São Paulo a uma só palavra, quando disse: Si tamen compatimur (7).Uma coisa é compadecer, e outra padecer com: compadecer, é compadecer dele; padecer com, é padecer com ele; e tanto nos merecem a paciência as suas penas, como a compaixão o seu amor. Toda a sua sagrada humanidade do corpo e alma de Cristo nos mereceu sempre muito, mas nunca tanto como nestes dias: padecendo na imitação de seus tormentos, acompanharemos seu santíssimo corpo, e compadecendo-nos na meditação de suas dores, acompanharemos sua santíssima alma.

Digo pois, quanto ao corpo, que havemos nesta semana de procurar padecer alguma coisa em todos os cinco sentidos, assim como Cristo padeceu em todos. Adão e Eva, em um só pecado, pecaram com todos os cinco sentidos. Pecaram com o ouvir, ouvindo a serpente; pecaram com o ver, olhando para a fruta; pecaram com o palpar, tirando-a; pecaram com o cheirar, cheirando-a; pecaram com o gostar, comendo-a. Com todos os cinco sentidos pecaram nossos primeiros pais, e nós, tão herdeiros de suas misérias como de suas culpas, em todos pecamos infinitas vezes. E como Cristo vinha pagar pelo pecado de Adão e pelos nossos, quis padecer também em todos os cinco sentidos.

Padeceu no sentido de ver, vendo fugir a todos seus discípulos: vendo que um o entregou tão aleivosamente; vendo que outro o negou três vezes; vendo-se atar e levar preso, e a tantos tribunais; vendo-se tapar os olhos; vendo-se despir no Pretório, e estar despido no Calvário tantas horas à vista de todo o mundo, e no meio de dois ladrões; sobretudo, vendo a desconsolada Mãe ao pé da cruz, em cujo coração e em cujos olhos estava outras três vezes crucificado. Finalmente, vendo os meus pecados e os vossos, com que tão ingratos havíamos de ser a tanto amor, que todos naquela hora lhe eram presentes.

Padeceu no sentido do ouvir, ouvindo o Deus-te-salve aleivoso da boca de Judas; ouvindo os crimes e testemunhos falsos com que foi acusado; ouvindo as vozes e brados com que os mesmos que hoje o aclamaram rei lhe pediam a morte; ouvindo a sentença com que o iníquo juiz o entregou à vontade de seus inimigos; ouvindo o pregão de malfeitor e alvorotador do povo; ouvindo as injúrias e blasfêmias dos príncipes dos sacerdotes na cruz, e as dos mesmos ladrões que com ele estavam crucificados, e não ouvindo em todo este tempo uma só palavra de consolação aquele mesmo Senhor que com palavras e obras tinha consolado a tantos.

Padeceu no sentido do olfato, ou de cheirar, porque morreu entre os ascos e horrores do Monte Calvário, chamado assim das caveiras e ossos dos malfeitores que ali se justiçavam, os quais, ou porque os enterravam mal os algozes, ou porque depois os desenterravam os cães, estavam espalhados por todo o monte, e de mistura com a corrupção do sangue faziam aquele infame lugar horrendo, hediondo, asqueroso e insuportável ao cheiro. E como divino pagador de nossos pecados, não só escolheu o gênero da morte, senão também a circunstância do lugar; para satisfazer nele pelos excessos do olfato, quis que fosse tão infeccionado e malcheiroso.

Padeceu no sentido do gosto, não só pelo fel e vinagre que lhe deram a beber, senão muito mais por aquela ardentíssima sede, maior incomparavelmente que todos os outros tormentos, porque só ela obrigou ao pacientíssimo Redentor a pedir alívio. Mas podendo mais o desejo de padecer por nós, que a força da natureza na humanidade enfraquecida e exausta, provou o azedo do vinagre e o amargoso do fel, para mortificar o gosto, e não quis levar para baixo o úmido, para não moderar o ardor nem aliviar a sede.

Padeceu, finalmente, no sentido do tato, não ficando em todo o sagrado corpo parte alguma que não fosse martirizada com particular tormento. Padeceu nos braços as cordas e cadeias, no rosto as bofetadas, na cabeça a coroa de espinhos, nos ombros o peso da cruz, nas costas os milhares de açoites, nas mãos e nos pés os cravos, e em todos os ossos, em todos os nervos, em todas as veias, em todas as artérias a suspensão, a aflição, a violência mais que mortal de estar três horas no ar pendente de um madeiro até expirar nele.

Pois, se estes são os dias em que o meu Deus padeceu tão cruelmente em todos os cinco sentidos, e tão amorosamente por mim, não será justo que eu também em todos os sentidos padeça alguma coisa por ele? Nenhum coração me parece que haverá tão ingrato e tão insensível, que se não deixe mover desta razão: Hoc enim sentite in vobis, quod et in Christo Jesu (Flp. 2,5), diz São Paulo: O que Cristo Jesus sentiu em si, devemos nós sentir em nós — ele por amor de nós, e nós por amor dele. E se a vossa devoção deseja saber e me pergunta de que modo poremos em prática este recíproco sentimento, mortificando-nos também em todos os nossos sentidos, digo primeiramente que mortifiquemos o ver, andando nestes dias com grande modéstia e recato, e negando aos olhos as vistas de todas as criaturas, e apartando-os principalmente daquelas que mais nos agradam e mais nos apartam de Deus. Os olhos têm dois ofícios: ver e chorar; e mais parece que os criou Deus para chorar que para ver, pois os cegos não vêem e choram. Já que tantos dias damos aos olhos para ver, já que tão cansados andam os nossos olhos de ver, não lhes daremos alguns dias de férias, para que descansem em chorar? Chorem os nossos olhos os nossos pecados nestes dias, e chorem muito em particular o não haverem antes cegado que ofendido a Deus. Ah! Senhor, quanto melhor fora não ter olhos, que ter-vos ofendido com eles!

O sentido de ouvir mortificá-lo-emos, retirando-nos esta semana de todas as práticas e conversações, não só ilícitas e ociosas, mas ainda das lícitas. Troquemos o ouvir pelo ler, lendo todos estes dias algum livro espiritual em que Deus nos fale e nós o ouçamos. A quem não está muito exercitado no orar, é mais fácil o ler, e muitas vezes mais proveitoso. Na oração falamos nós com Deus; na lição fala Deus conosco. E de quantas coisas — que fora melhor não ouvir — ouvimos todo o ano aos homens; estes dias ao menos, bem é que ouçamos a Deus.

No sentido do olfato pouco têm que mortificar os homens nesta terra, porque não vejo nela este vício. Nas mulheres, se nelas há alguma demasia, lembrem-se de que nesta semana derramou a Madalena os seus cheiros e os seus ungüentos aos pés de Cristo. E para os aborrecerem e detestarem para sempre, saibam que a última disposição da morte do mesmo Senhor foram estes cheiros. Porque a Madalena derramou os ungüentos, se excitou a cobiça de Judas; porque em Judas se excitou a cobiça, tratou da venda; porque vendeu a seu Mestre, o prenderam e o mataram. Por isso o Senhor disse — e este é o sentido literal: -Mittens haec unguentum hoc in corpus meum, ad sepeliendum me fecit (8), como se dissera: Estes ungüentos são para a minha sepultura, porque destes ungüentos se me há de ocasionar a morte.

O sentido do gosto, ainda que se tenha mortificado por toda a Quaresma com o jejum ordinário, nestes dias é bem que haja para ele alguma particular mortificação. Muitos santos do ermo passavam esta semana inteira sem comer, e pessoas de mui diferente estado, não no ermo, senão nas cortes, passam em jejum de quinta-feira até sábado. Nos maiores dias desta semana é estilo das mesas dos grandes príncipes não se porem nelas mais que ervas; para estes dias se fizeram propriamente os jejuns de pão e água: ao menos estes dias não são para regalo. O cordeiro mandava Deus que se comesse com alfaces agrestes, porque o agreste e desabrido no comer destes dias é a melhor disposição para comer quinta-feira o Divino Cordeiro sacramentado.

O sentido do tato, como o mais vil e mais delinqüente que todos, é razão que seja nestes dias mais mortificado. Quando Urias veio do exército com aviso a el-rei Davi, disse-lhe o rei que fosse descansar à sua casa. E ele, que respondeu? E bem, Senhor: está o meu general dormindo sobre a terra na campanha, e eu que me haja de deitar em cama? Não farei tal desprimor. — E foi-se deitar em uma tábua no corpo da guarda. A cama em que dormiu o último sono da morte o nosso Jesus, bem sabeis qual foi. Pois, será justo que quando ele tem por cama o duro madeiro da cruz, descanse o nosso corpo tão regaladamente como nos outros dias? Alguma diferença é bem que haja nestes. Ao menos o nosso rei e seus filhos, de quinta-feira até domingo não se deitam em cama, nem se assentam, senão no chão, assistindo sempre ao Senhor, sem sair nunca da Capela Real, nem de dia, nem de noite. Estas são as noites e os dias para que se fizeram as penitências: para estas noites se fizeram os pés descalços, para estas noites as disciplinas, e para estes dias e para estas noites os cilícios. Que poucos cilícios deve de haver no Maranhão? Não vos escuseis com isto.

Quando os ninivitas se resolveram a fazer penitência, mandaram que todos, não só os homens, senão também os animais, se cobrissem de cilício. Que fosse tão universal a penitência, que até aos animais a estendessem, não me espanta, porque a contrição, quando é verdadeira, dá nestes extremos. O que sobretudo pode admirar a muitos é que, sendo a cidade tão grande, que só de crianças inocentes tinha cento e vinte mil, e, sendo os moradores tão ociosos, que os mandava Deus subverter, houvesse em tal cidade e entre tal gente tantos cilícios, que se pudessem cobrir deles tanta imensidade de homens, mulheres e meninos, e até os animais. Se o não dissera a Escritura, parecera coisa incrível, mas é muito fácil de crer. Os cilícios, não é necessário que sejam tecidos de sedas de camelo, como os do Batista; de qualquer coisa áspera se faz um cilício, se há devoção e vontade de o trazer. Um irmão tivemos na Companhia, chamado Luís Gonzaga, o qual era filho herdeiro dos Marqueses de Castiglione, em Itália; e como em casa de seu pai houvesse mais instrumentos de cavalaria que de penitência, tomava o devoto moço umas esporas de roseta, e, pondo-as de uma parte e de outra, fazia delas cilício. E porque aplicou as esporas desta maneira a seu corpo, correu com tanta velocidade a carreira da virtude e perfeição, que em menos de vinte e três anos, que só teve de vida, mereceu ser — como já é — contado entre os beatos. Assim que, para haver cilícios, não são necessários camelos nem teares, se há vontade e devoção.

Estas são as mortificações com que os nossos cinco sentidos hão de imitar nesta semana as penas de Cristo. Não falo na continência de outros vícios, porque sei que estamos em terra de cristãos. Mas porque também estamos em terra de soldados, advirto que em dia de Ramos se cerram as portas às casas de jogo, e que não é coisa que devam consentir os oficiais nem ao soldado mais perdido. Queixa-se Cristo pelo profeta de que no dia de sua Paixão lhe jogassem as vestiduras: Et super vestem meam miserunt sortem (9). Assim foi que os que crucificaram ao Senhor, depois que o tiveram posto na cruz, lançaram as mãos aos dados, e jogaram os sagrados vestidos. E acrescenta logo o evangelista: Et milites quidem haec fecerunt (Jo. 19,24): E os que fizeram isto foram os soldados. — Os soldados foram também os que crucificaram ao Senhor, mas o evangelista não faz a reflexão em que eles o crucificaram, senão em que jogaram as vestiduras, porque o crucificar a Cristo foi obediência de seus maiores, o jogar as vestiduras foi vício depravado seu. Sabeis quem joga em tais dias como estes? Só quem crucifica a Cristo, e quem jogara suas sagradas vestiduras, se as tivera. Quero-vos contar o que me sucedeu em Inglaterra. Iam comigo dois portugueses, os quais em um domingo se puseram a jogar as tábulas em uma estalagem; saiu o hóspede muito assustado, e como fora de si: — E bem, senhores, quereis que me venham queimar a casa? — Queimar a casa? E por quê? — Porque é esse um jogo que se pode ouvir de fora, e se o ouvirem, ou souberem os magistrados, sou perdido. — Assim o dizia este homem, e assim havia de ser. E para que mais vos admireis, a cidade, ou vila, era Dovres, porto e escala marítima, onde todos, sem se excetuar um só, são hereges. Oh! vergonha dos que tanto nos prezamos do nome de católicos! Se em terra de hereges é sacrilégio jogar as tábulas em um domingo ordinário, que será jogar, ou estes ou outros jogos, em uma Semana Santa, em terra onde se adora a cruz e as imagens de Cristo, e se celebram os mistérios de sua morte? Seja esta também uma das mortificações que pertencem ao corpo.

IV

E a alma, que há de fazer? O corpo, imitar; a alma, meditar: o corpo com os ramos da palma, a alma com os da oliveira. A alma nestes santos dias há de fazer do coração um Monte Calvário, levantar nele um Cristo crucificado, e pôr-se desta maneira a contemplar suas dores. Oh! quem pudera explicar-se agora com o pensamento, e falar com o silêncio! Quando os amigos de Jó o foram visitar nos seus trabalhos, diz a Escritura Sagrada que estiveram uma semana inteira olhando só para ele, sem falarem palavra. Assim o hão de fazer nossas almas esta semana, se são amigas de Jesus: olhar, calar e pasmar. Oh! que vista! Oh! que silêncio! Oh! que admiração! Oh! que pasmo! Só três coisas dou licença a nossas almas que se possam perguntar a si mesmas no meio desta suspensão. Quem padece? Que padece? Por quem padece? E que meditação esta para uma eternidade!

Quem padece? Deus, aquele ser eterno, infinito, imenso, todo-poderoso, aquele que criou o céu e a terra com uma palavra, e o pode aniquilar com outra; aquele, diante de cujo acatamento, os principados, as potestades e as dominações, e todas as hierarquias estão tremendo. Este Deus, cuja grandeza, este Deus, cuja majestade, este Deus, cuja soberania incompreensível só ele conhece inteiramente, e todos os entendimentos criados com infinita distância de nenhum modo podem alcançar, este, este é o que padece. Aqui se há de fazer uma pausa, e pasmar. São Bernardo, cheio de pasmo e assombro nesta mesma consideração, rompeu dizendo: Ergo ne credendum est, quod iste sit Deus, qui flagellatur, qui conspuitur, qui crucifigitur? É possível que se há de crer que este, que padece tantas injúrias e afrontas, e a mesma morte, é aquele mesmo Deus imortal, impassível, eterno, que não teve princípio, e é o princípio e fonte de todo ser? Este, este é; que nem ele fora Deus, nem a nossa fé fora fé, se ela não fizera, e nós não crêramos o que excede toda a capacidade humana. Por isso Isaías, quando entrou a falar da Paixão, como profeta que sobre todos era o mais eloqüente, o exórdio por onde começou, foi aquela pergunta: Quis credidit auditui nostro (Is. 53,1)? Quem haverá que dê crédito ao que há de ouvir de minha boca? — Tão alheio é quem padece do que padece, e este é Deus. Vede se há bem de que pasmar aqui.

Depois de considerarmos que é Deus quem padece, então se segue a consideração do que padece. E não só havemos de trazer à memória o que já vimos que padeceu exteriormente em todos os sentidos do corpo, mas muito mais devemos considerar e ponderar o que padeceu no interior da alma e em todas suas potências. Com dois nomes, ou com duas semelhanças nos declarou nosso amorosíssimo Redentor o que padeceu em sua Paixão, com nome e semelhança de cálix, quando disse a S. Pedro: Calicem, quem dedit mihi Pater, non vis ut bibam illum (Jo. 18,11)? O cálix que mc deu meu Padre, não queres que o beba? — E com nome e semelhança de Batismo, quando disse a todos os discípulos: Baptismo habeo baptizari, et quomodo coarctor usque dum perficiatur (Lc. 12,50)? Eu hei de ser batizado em um batismo, o qual desejo com grandes ânsias e aperto do coração até que chegue. — De sorte que declarou o Senhor o que havia de padecer por nós, já chamando-lhe cálix, já batismo, e por quê? Porque o batismo recebe-se por fora, o cálix bebe-se por dentro, e Cristo, Redentor nosso, em toda sua Paixão não só padeceu por fora os martírios do corpo, senão também, e muito mais, por dentro os tormentos da alma. Por fora padeceu os tormentos dos açoites, dos espinhos, dos cravos, da lança, que o banharam todo em sangue, e por isso lhes chamou Batismo; por dentro padeceu as tristezas, os tédios, os temores, as angústias e agonias, que, sem ferro, lhe tiraram também sangue no Horto, e lhe penetravam mortalmente a alma: Tristis est anima mea usque ad mortem (10).

Oh! quem pudesse entrar profundamente no interior da alma de Jesus, e entender o que naquele consistório sacratíssimo e secretíssimo das suas três potências passava e se conferia em tantas horas! A memória, desde o princípio do mundo representava os pecados de todos os homens, por quem satisfazia a divina justiça; o entendimento ponderava o pouco número dos mesmos homens que se haviam de aproveitar do preço infinito daqueles tormentos, e a vontade se desfazia com dor de ver perder tantas almas por sua culpa, sem achar consolação alguma a tamanha perda; e esta era a tristeza que ocupava toda a alma do Salvador, e com três cravos mais agudos e penetrantes a crucificava. Aqui havemos de fazer a segunda pausa, e pasmar tanto daquele infinito amor, como da nossa infinita cegueira. Oh! Senhor, quantos pode ser que vísseis então, dos que agora se acham nesta mesma igreja, que, por que haviam de desprezar e condenar as suas almas, agonizavam a vossa! Considere cada um se porventura, ou eterna desventura, é algum destes, e veja bem o seu perigo, enquanto tem tempo.

Este é o Deus que padece, estas as penas e dores que padece, e só resta ver por quem padece. Se a fé me não ensinara outra coisa, cuidara eu que padecia Deus pelo céu, porque vejo o sol eclipsado e coberto de luto; cuidara que padecia pela terra, porque a vejo tremer e arrancar-se de seu próprio centro; cuidara que padecia pelas pedras, porque as vejo quebrarem-se umas com outras e abrirem-se as sepulturas; cuidara que padecia pelo Templo de Jerusalém, porque vejo rasgar-se de alto a baixo o véu do Sancta Sanctorum; cuidara que padecia por este mundo elementar, porque vejo confusos, perturbados, atônitos e com prodígios de sentimento e assombro todos os elementos. Mas não são estas as criaturas por quem padece Deus, posto que todas confessam que padece seu Criador; e, com serem irracionais e insensíveis, quiseram acabar com ele quando o vêem morrer. Quem são logo aqueles por quem padece o Autor da natureza, e por quem morre o Autor da vida? Sou eu, sois cada um de vós, e somos todos os homens. Por nós, e só por nós padece Deus; por nós, e só por nós padece quanto padece. Por nós que, depois de nos criar, o não respeitamos; por nós que, depois de nos sustentar, o não servimos; por nós que, depois de nos remir, o não obedecemos; por nós que, depois de morrer por nosso amor, o não amamos; por nós que, depois de se pôr em uma cruz por nós, o tornamos a crucificar mil vezes; por nós que, esperando-nos assim, e chamando-nos com os braços abertos, não queremos acudir a suas vozes; por nós, enfim, que, sabendo que nos há de julgar, e nos prometeu o céu, se o não ofendermos, queremos antes o inferno sem ele, que o céu com ele. Isto é o que faz todo o homem que peca mortalmente, e isto o que continua a fazer enquanto se não tira do pecado, para que vejais se tem razão, não só de pasmar, mas de perder o juízo.

V

Estes são, cristãos, os três pontos breves e altíssimos que havemos de meditar nestes poucos dias, os quais torno a repetir, para que vos fiquem bem na memória: Quem padece, o que padece, e por quem padece? Espero de vossa cristandade, que não só para estes dias da Semana Santa, senão para todos os de vossa vida, haveis de tomar esta devoção tão devida ao que nos merece o amor de quem deu a sua por nós. E ninguém se escuse com dizer que não sabe meditar ou discorrer, porque Deus não quer discursos, senão vontades, antes, nem ainda vontades nos pede; só com memórias se contenta: Hoc facite in meam commemorationem(11): Filhos — diz Cristo — dei a vida, dei o sangue, dei-me todo a mim mesmo por vosso amor; não quero de vós outra paga, senão que vos lembreis de mim. — De quantas coisas disse e fez o Filho de Deus na vida e na morte, nenhuma é mais para enternecer, e ainda magoar qualquer coração humano, que esta última recomendação com que se despediu de nós. Que Deus, feito homem por amor dos homens, e morto por amor dos homens, chegue a pedir aos mesmos homens que se lembrem dele? Oh! amor! Oh! benignidade divina! Oh! dureza! Oh! ingratidão humana! É Deus tão amoroso e tão benigno que nos pede a nossa memória, e somos tão duros e tão ingratos, que é necessário a Deus que no-la peça. Não me enternece tanto, nem me move tanto à compaixão tudo o que Cristo padeceu, quanto o que argüi no seu coração e nos nossos esta lastimosa recomendação. E que lástima seria, cristãos, ou que lástima é tão indigna, e tão afrontosa de nossos corações, que, pedindo-nos um tão bom Senhor só a memória, ainda essa lhe neguemos?

Ora, por reverência do sangue, da morte e de toda a Paixão de Jesus, que não seja assim ao menos nestes santos dias. Lembremo-nos de suas dores, lembremo-nos de suas penas, lembremo-nos de suas chagas, e, sobretudo, lembremo-nos de seu amor. Com esta memória nos levantemos ao amanhecer, com esta memória nos recolhamos à noite, e nesta memória gastemos alguma parte dela. Particularmente vos encomendo muito esta única memória nas igrejas e no correr das igrejas. Grande fraqueza é a dos homens, e grande a astúcia do demônio, que até nesta Santa Semana nos arme laços e no-los teça da nossa própria devoção. As igrejas não se hão de correr por ostentação, nem por festa, nem por curiosidade, nem para ver quem vai, e como vai, e com quem vai, senão para ir com os olhos no chão, e a alma mui dentro em si mesma, considerando que naquele mesmo dia e por aqueles mesmos passos ia Deus com uma cruz às costas a morrer por mim, para que eu não morresse eternamente, e padecendo tantas afrontas e penas, para me livrar das do inferno. Oh! que memória esta para nos tirar tudo o mais da memória! Finalmente, chegados à igreja, haveis de imaginar que chegais ao Monte Calvário — que não é imaginação, senão verdade de fé, porque ali estava realmente o mesmo Cristo — e fazer com efeito o que fizéreis, se então estivera o Senhor na cruz, e o víreis com vossos olhos.

Com esta modéstia e com esta consideração havemos de correr e visitar as igrejas, e com a mesma, e muito maior, assistir nelas aos Divinos Ofícios, e não olhando, falando e conversando, que é um abuso maldito, o qual, não se vendo em outra alguma parte da cristandade, só em Espanha e Portugal — onde tanto nos prezamos de católicos — se tem introduzido, com escândalo e abominação até dos hereges. Oh! se assistíramos nas nossas igrejas como eles nas suas, posto que indignas de tão sagrado nome, onde não há altar, nem cruz, nem está Cristo! Por amor do mesmo Cristo, cristãos e cristãs, que não cometamos uma tão grande indecência, e não façamos um tão público e manifesto agravo à fé com que cremos que aquele Senhor, que temos presente no Santíssimo Sacramento, é o mesmo que esteve por nós crucificado no Calvário. No Calvário assistiram a Cristo a Virgem Senhora nossa, São João, Santa Maria Madalena, e outras Marias, e é coisa digníssima de se notar que em todos os quatro evangelistas se não diz que alguma de todas estas pessoas falasse uma só palavra. Todos viam e consideravam o que passava, mas ninguém falava, porque os mistérios da Paixão querem-se venerados com suma atenção e meditados com sumo silêncio.

Façamos, pois, todos nestes dias este pequeno sacrifício — de que ninguém tem causa para se escusar — e com satisfação do muito que temos ofendido a Deus com nossas línguas, ofereçamos-lhes o não falarmos com outrem, senão com ele, ao menos enquanto estivermos na sua presença. De tudo o mais que até aqui tenho dito, fará cada um o que seu fervor e devoção lhe ditar; mas deste silêncio, modéstia e reverência nas igrejas, a ninguém excetua o mesmo Cristo. Lembremo-nos que somos cristãos, e que em alguma coisa se há de ver que o somos, e que desse mesmo sermão, e das advertências que nele vos tenho feito, vos há de pedir Deus estreita conta. Lembremo-nos de quantas Semanas Santas têm passado sem nos aproveitarmos delas, e que pode mui bem ser que seja esta a última para alguns de nós. Quantos viram a passada, que não vêem esta, e quantos verão esta, que não hão de ver a que vem! Se soubéramos de certo que havia de ser esta a última Semana Santa de nossa vida, que havíamos de fazer? Pois, façamos isso mesmo, e não o façamos por temor da nossa morte, senão por amor de Jesus.

Ah! Senhor, que as minhas palavras são de regelo, e estes corações, sem vossa graça, de bronze. Quando expirastes na cruz, inclinastes a cabeça sobre o peito, em sinal que havíeis de pôr os olhos em vós, e não em nós, em vosso coração, e não em nossos pecados. Desse mesmo coração alanceado e ofendido saíram os dois elementos com que formastes vossa Igreja; saíam também agora os espíritos vitais, espíritos de vida e graça, com que a reformeis. E, assim como alumiastes e destes vista ao mesmo que vos feriu, assim, posto que tão ferido e ofendido de nós — pois está sempre vivo no vosso coração o mesmo amor — saia dele um raio de luz que alumie nossas cegueiras. Fertilize, Senhor, este sangue, e regue esta água que saiu de vosso coração, nossas almas, que todas rendidas a vosso amor, e prostradas ao pé de vossa cruz, contritas e humilhadas, vos pedem perdão de todas suas culpas e de todas as ofensas vossas até esta hora cometidas. Nunca mais, Senhor, ofender-vos, nunca mais, por serdes vós quem sois. Assim o prometemos e protestamos firmissimamente. E assim o esperamos, clementíssimo Jesus, de vossa misericórdia infinita, dos merecimentos de vossa Paixão, e dos auxílios de vossa graça. Amém.

(1) E outros cortavam ramos de árvores, e juncavam com eles a passagem (Mt. 21,8).

(2) Cortavam ramos de árvores (Mt. 21, 8).

(3) Cheguei ao alto-mar, e a tempestade me submergiu (Sl. 68, 3).

(4) Eis aqui agora o tempo aceitável (2 Cor. 6, 2).

(5) Eis aqui agora o dia da salvação (2 Cor. 6, 2).

(6) E juncavam com eles a passagem (Mt. 21,8).

(7) Se é que todavia nós padecemos com ele (Rom. 8,17)

(8) Porquanto derramar ela este bálsamo sobre o meu corpo, foi ungir-me para ser enterrado (Mt. 26,12).

(9) E lançaram sorte sobre a minha túnica (Sl. 21, 19).

(10) A minha alma está numa tristeza mortal (Mt. 26, 38).

(11) Fazei isto em memória de mim (Lc. 22, 19).

Sermão de Nossa Senhora do Ó - 1640

Ecce concipies in utero, et panes Filium (1).

I

A figura mais perfeita e mais capaz de quantas inventou a natureza e conhece a geometria é o círculo. Circular é o globo da terra, circulares as esferas celestes, circular toda esta máquina do universo, que por isso se chama orbe, e até o mesmo Deus, se sendo espírito pudera ter figura, não havia de ter outra, senão a circular. O certo é que as obras sempre se parecem com seu autor; e fechando Deus todas as suas dentro em um círculo, não seria esta idéia natural, se não fora parecida à sua natureza. — Daqui é que o mais alumiado de todos os teólogos, S. Dionísio Areopagita, não podendo definir exatamente a suma perfeição de Deus, a declarou com a figura do círculo: Velut circulus quidam sempiternus propter bonum, ex bono, in bono et ad bonum certa, et nusquam oberrante glomeratione circummiens. Estes são os dois maiores círculos que até o dia da Encarnação do Verbo se conheceram; mas hoje nos descreve o Evangelho outro círculo, em seu modo maior. O primeiro círculo, que é o mundo, contém dentro em si todas as coisas criadas; o segundo, incriado e infinito, que é Deus, contém dentro em si o mundo; e este terceiro, que hoje nos revela a fé, contém dentro em si ao mesmo Deus. Ecce concipies in utero, et paries Filium: hic erit magnus, et Filius Altissimi vocabitur (2). Nove meses teve dentro em si este círculo a Deus, e quem poderá imaginar que, estando cheio de todo Deus, ainda ali achasse o desejo, capacidade e lugar para formar outro círculo? Assim foi, e este novo círculo, formado pelo desejo, debaixo da figura e nome de O, é o que hoje particularmente celebramos na expectação do parto já concebido: Ecce concipies et paries. De um e outro círculo travados entre si, se comporá o nosso discurso, concordando — que é a maior dificuldade deste dia — o Evangelho com o título da festa, e o título com o Evangelho. O mistério do Evangelho é a conceição do Verbo no ventre virginal de Maria Santíssima; o título da festa é a expectação do parto e desejos da mesma Senhora, debaixo do nome do O. E porque o O é um círculo, e o ventre virginal outro circulo, o que pretendo mostrar em um e outro é que, assim como o círculo do ventre virginal na conceição do Verbo foi um O que compreendeu o imenso, assim o O dos desejos da Senhora na expectação do parto foi outro circulo que compreendeu o eterno. Tudo nos dirão, com a graça do céu, as palavras que tomei por tema. Ave Maria.

II

Ecce concipies in utero, et paries.

Uma das maiores excelências das Escrituras divinas é não haver nelas nem palavras, nem sílaba, nem ainda uma só letra que seja supérflua ou careça de mistério. Tal é o misterioso O que hoje começa a celebrar, e todos estes dias repete a Igreja, breve na voz, grande na significação, e nos mistérios profundíssimo. Mas, contra este mesmo princípio, parece que no nosso texto, com ser tão breve, não só temos uma letra, senão uma sílaba e uma palavra supérflua. E que sílaba, e que palavra? In utero. Dizendo o anjo à Senhora: Ecce concipies et paries, que conceberia e pariria o Filho de Deus, bem claramente se entendia não só a substância do mistério, senão o modo e o lugar, e que este havia de ser o sacrário virginal do ventre santíssimo. Supérfluo parece logo sobre a palavra concipies, acrescentar in utero. Mas esta embaixada deu-a o anjo, mandou-a Deus, e refere-a o evangelista, e nem Deus, nem o anjo, nem o evangelista haviam de dizer palavras supérfluas. A que fim, pois, quando se anuncia este oráculo — que foi o maior que veio, nem virá jamais do céu à terra — se diz e se repete por três bocas, uma divina, outra angélica, e outra mais que humana, que o mistério da conceição do Verbo se há de obrar sinaladamente no útero ou ventre da Mãe: Ecce concipies in utero? Sem dúvida porque era tão grande a novidade, e tão estupenda a maravilha, que necessitava a fé de toda esta expressão. Haver-se Deus de fazer homem, novidade foi que assombrou aos profetas quando a ouviram. Porém, que esse mesmo Deus, sendo imenso, se houvesse ou pudesse encerrar em um círculo tão breve, como o ventre de uma Virgem: In utero? Esta foi a maravilha que excede as medidas de toda a capacidade criada.

Considerai a imensidade de Deus, e vereis até onde chega e se estende o significado desta pequena, ou desta grande palavra: In utero. Imensidade é uma extensão sem limite, cujo centro está em toda a parte, e a circunferência em nenhuma parte: Cujus centrum est ubique, circumferentia nusquam. Ponde o centro da imensidade na terra, ponde-o no sol, ponde-o no céu empíreo, está bem posto. Buscai agora a circunferência deste centro, e em nenhuma parte a achareis. Por quê? A razão é porque sendo a terra tão grande, e o sol cento e sessenta vezes maior que a terra, e sendo o céu muitos milhões de vezes maior que o sol e o empíreo, com excesso incomparável maior que os outros céus, todas essas grandezas têm medida e limite: a imensidade não. Deus, por sua imensidade, como bem declarou S. Gregório Nazianzeno, está dentro no mundo e fora do mundo: Deus in universo est, et extra universum. Mas se fora do mundo não há lugar, porque não há nada, onde está Deus fora do mundo? Está onde estava antes de criar este mundo. Se Deus não estivera neste espaço, onde hoje está o mundo, não o pudera criar; e como Deus, fora do mundo, pode criar infinitos mundos, também está em todos esses espaços infinitos, a que chamamos imaginários. E porque outrossim os espaços imaginários, que nós podemos imaginar mas não podemos compreender, não têm limite, por isso o centro da imensidade, que se pode pôr dentro ou fora do mundo, nem dentro nem fora do mundo pode ter circunferência. Comparai-me o mar com o dilúvio. O mar tem praias, porque tem limite; o dilúvio, porque era mar sem limite, não tinha praias: Omnia pontus erat, deerant quoque litora ponto. Assim a imensidade de Deus — quanto a comparação o sofre. — Está a imensidade de Deus no mundo e fora do mundo; está em todo lugar e onde não há lugar; está dentro, sem se encerrar, e está fora, sem sair, porque sempre está em si mesmo. O sensível, o imaginário, o existente e o possível, o finito e o infinito, tudo enche, tudo inunda, por tudo se estende, e até onde? Até onde não há onde, sem termo, sem limite, sem horizonte, sem fim, e, por isso, incapaz de circunferência: Circumferentia nusquam.

III

Mas, ó grandeza sobre todas as grandezas, ó milagre sobre todos os milagres, o do ventre virginal de Maria! Não se diga já que a imensidade de Deus não tem circunferência, pois o ventre de Maria, assim como Deus é imenso, o concebe todo dentro em si, assim como é imenso, o compreende, assim como é imenso, o cerca. Aquela mesma imensidade de Deus, a que não podem fazer circunferência os orbes celestes, nem o globo inteiro do universo, nem os espaços imaginários, sempre mais e mais infinitos, essa mesma imensidade, e não outra, é a que abraça, encerra e contém dentro em si o círculo daquele ventre puríssimo. E se aquele sagrado círculo verdadeiramente cerca ao mesmo Deus, quão grande ele é em toda sua imensidade, diga-se sim que o centro da imensidade divina está em toda a parte: Cujus centrum ubique, mas não se diga já que em nenhuma parte tem a circunferência: Circumferentia nusquam, porque o círculo do ventre virginal é a parte onde tem uma circunferência tão capaz e tão cabal, que a todo Deus imenso como é, abraça e cerca. Não é pensamento meu, senão do profeta Jeremias, ou do mesmo Deus por sua boca.

Creavit Dominus novum super terram (Jer. 31,22), diz o profeta Jeremias: Criou Deus uma coisa nova sobre a terra — e tão nova que nem na terra se viu, nem no céu se imaginou semelhante. E que coisa nova e tão nova é esta: Femina circumdabit virum: Uma mulher a qual há de cercar o varão. — O varão por antonomásia neste caso é o Verbo Eterno encarnado. Todos os outros homens, quando se geram e concebem no ventre da mãe, não são homens, nem ainda meninos, porque só têm a vida vegetativa ou sensitiva, e ainda não estão informados com a alma racional; porém, o Verbo Encarnado, Cristo, desde o primeiro instante de sua conceição, foi varão perfeito e perfeitíssimo, não só com todas as potências da alma e do corpo, senão também com o uso delas. Assim como o primeiro Adão nunca foi menino, senão homem e varão perfeito, desde o instante de sua criação, assim também o segundo Adão, e com maior maravilha, porque foi varão perfeito, não em corpo e estatura varonil, como o primeiro, mas naquela quantidade mínima em que são concebidos os outros homens. Essa é a razão por que o mesmo Cristo, à diferença de todos os que nasceram de mulher, se chama em frase da Escritura, aquele que foi gerado varão: Vir oriens nomen ejus (3). Deste varão, pois, nunca menino e sempre homem, porque sempre homem e Deus, deste é que fala Jeremias, quando diz que uma mulher o havia de cercar: Femina circumdabit virum.

Mas por que se declara este profeta pela palavra cercar, termo também novo e inaudito? Isaías, profetizando o mesmo mistério, disse: Ecce virgo concipiet, et pariet Filium, et vocabitur nomem ejus Emmanuel (4): que uma virgem conceberia e pariria a Deus. Pois, se Jeremias se tinha empenhado em dizer uma coisa nova e nunca ouvida: Creavit Dominus novum super terram, por que a não pondera também pela maravilha da conceição e parto virginal, e em lugar de dizer que a mulher de que fala conceberá e parirá a Deus feito homem, não diz que o conceberá e parirá, senão que o cercará: Femina circumdabit virum? Sem dúvida porque a maior maravilha do mistério da Encarnação é chegar nele Deus a estar cercado. Estar Deus cercado dentro do ventre virginal, sendo imenso, foi fazer que a imensidade tivesse circunferência; e ajuntar a circunferência com a imensidade foi mais que ajuntar a virgindade com o parto. Ajuntar a virgindade com o parto foi inventar Deus um nascimento digno da sua divindade, porque, como diz S. Bernardo, havendo Deus de ter mãe, não podia ser senão virgem, e havendo uma virgem de ter filho, não podia ser senão Deus. Mas, cercando a mesma Virgem, dentro do claustro materno, a todo Deus, e ajuntando a circunferência com a imensidade, foi maior maravilha e maior obra. Por quê? Porque foi fazer outro imenso maior que o imenso. Valha-me São Boaventura: Immensum vas non potest esse plenum, nisi immensum sit illud quo est plenum: Maria autem vas immensissimum fuit, ex quo illum, qui caelo major est, continere potuit (5). Supõe e prova juntamente o Doutor Seráfico, que o ventre virginal foi imenso, porque a capacidade que recebe e contém dentro em si o imenso, não pode ser senão imensa. Deus é imenso: logo o ventre virginal, que concebeu e teve dentro em si a Deus, também é imenso. E basta isto? Não. Maria autem vas immensissimum fuit, ex quo illum, qui caelo major est, continere potuit. Não só diz que o ventre de Maria foi imenso, senão imensíssimo. E por que, teólogo divino? Porque cercou a Deus. Quando um imenso cerca outro imenso, ambos são imensos, mas o que cerca maior imenso que o cercado; e por isso, se Deus, que foi o cercado, é imenso, o ventre que o cercou, não só há de ser imenso, senão imensíssimo. A boa filosofia admite que pode haver um infinito maior que outro infinito, porque se houver infinitos homens, também os cabelos hão de ser infinitos; porém o infinito dos cabelos, maior que o infinito dos homens. Pois, assim como pode haver um infinito maior que outro infinito, assim pode haver um imenso maior que outro imenso. E tal foi o claustro virginal de Maria: Ecce concipies in utero. Deus, que foi o concebido, imenso; e o útero, que o concebeu, porque o cercou, imensíssimo: Maria autem vas immensissimum fuit.

Ainda temos melhor autor que São Boaventura, com ser tão grande doutor, que a Igreja o fez supernumerário aos quatro doutores da grega e aos quatro da latina. E que autor é este? A mesma Virgem, Senhora nossa. Falando a Senhora de si no capítulo vinte e quatro do Eclesiástico, diz estas palavras: Gyrum caeli circuivi sola (Eclo. 24,8): O círculo que cerca o céu, eu só o cerquei. — Admiravelmente dito. O círculo criado, que cerca o mundo, é o céu; o circulo incriado e imenso, que cerca o céu, é Deus; e o círculo imensíssimo, que cercou a esse Deus imenso, é Maria: Gyrum caeli circuivi sola. Demos o seu a seu dono. O comento e o pensamento é de Ricardo de Sancto Laurentio: Gyrum caeli, id est, illum, qui claudit omnia, Christum scilicet, qui est gyrus ingyrabilis, circuivi gremio uteri mei. O círculo que cerca o céu é aquele que cerca e encerra em si todas as coisas, que é Deus. Este círculo, porém, por sua essência e grandeza, é tal que se não pode cercar: Gyrus ingyrabilis. Não se podia declarar uma coisa tão nova, sem se fazer também uma palavra nova: gyrus, porque Deus, por sua imensidade, cerca tudo; e juntamente ingyrabilis, porque essa mesma imensidade, como dizíamos, o faz incapaz de circunferência e de poder ser cercado. Mas esse impossível, que a essência e definição da imensidade não permitia, venceu a capacidade, não só imensa, mas imensíssima, do útero e grêmio virginal de Maria: illum, qui claudit omnia, qui est gyrus ingyrabilis, circuivi gremio uteri mei. Isto é o que disse o Eclesiástico, quando pronunciou em nome da Senhora: Gyrum caeli circuivi sola; isto o que tinha profetizado Jeremias, quando disse: Femina circumdabit virum; e isto o que lhe anunciou o anjo, quando disse: Ecce concipies in utero.

IV

Já o dito até aqui bastava para que eu desse por desempenhada a promessa de que o círculo do útero virginal foi um O que compreendeu dentro em si o imenso. Mas será bem que o mesmo imenso o diga, resumindo também a um O a sua imensidade. Apareceu Cristo, Senhor nosso, ao evangelista S. João na primeira visão do seu Apocalipse, e disse-lhe: Ego sum alpha et omega, principium et finis (Apc. 1,8): Eu sou o Alfa e o Ômega, porque sou o princípio e o fim de tudo: o princípio, enquanto Criador do mundo, e o fim, enquanto reparador dele. Alfa e Ômega são a primeira e última letra do alfabeto grego, o qual começa em A e acaba em O. E esta foi a razão e o mistério porque, sendo Cristo hebreu e S. João também hebreu, não lhe falou o Senhor em hebraico, senão em grego, porque o alfabeto grego acaba em O, e o hebraico não. O alfabeto hebraico também começa em A, que é o seu aleph; e para significar, na primeira letra, as obras da criação, enquanto Cristo é princípio, tanto servia o alfabeto hebraico como o grego. Porém o Senhor usou do grego, sendo estranho, e deixou o hebraico, sendo natural e da própria língua, porque, para significar na última letra o mistério da reparação, enquanto o mesmo Cristo é fim, só o O tinha propriedade e semelhança. E esta semelhança, em que consiste? Consiste em que a figura do O é circular, e assim como o O é um círculo, assim o mistério da Encarnação foi outro círculo: Deus humanatus dicitur esse circulus, ut circumferentia dicatur humanitas, centrum autem divinitas (6). O mistério da Encarnação do Verbo — diz S. Boa-ventura — foi um círculo porque, vestindo-se Deus de nossa carne, a humanidade de Cristo cercou e encerrou em si a divindade. E por este modo inefável ficou sendo a mesma divindade o centro, e a humanidade a circunferência. Sendo, pois, o mistério da Encarnação, que foi o fim e última perfeição de todas as obras de Deus, este perfeitíssimo círculo, por isso Cristo disse a S. João que, assim como ele, enquanto primeiro princípio, é a primeira letra, A, assim, enquanto último fim, é a última letra, O: Ego sum Alpha et Omega.

Mas todos os que tiverem qualquer notícia dos elementos da língua grega, porão aqui uma dúvida, que está muito à flor da terra, fundada no mesmo O e no mesmo alfabeto. No alfabeto grego não há um só O, senão dois; um que se chama Ômega, que quer dizer O grande, e outro que se chama ômicron, que quer dizer O pequeno. Logo, falando Cristo, como falava, do mistério de sua Encarnação, parece que se havia de comparar ao O pequeno, e não ao O grande. O nome de grande, não só em comparação do homem, mas absolutamente, e fora de toda a comparação, compete à divindade. Pelo contrário, a humanidade, ainda comparada com outras criaturas, é pequena, e menor que elas: Minuisti eum paulo minus ab angelis (7). Pois, se Cristo falava de si enquanto homem, por que se não compara ao O pequeno, senão ao O grande, e por que não diz: Ego sum omicron, senão Omega. A razão é porque, falando Cristo da sua humanidade na metáfora de O e de circulo, não devia considerar nela o que era, senão o que cercava. Cercava a divindade do Verbo, cercava toda a imensidade divina, e um círculo de tão infinita capacidade, que fazia circunferência à mesma imensidade, não podia formar um O que não fosse o maior de todos: Ego sum alpha et omega, principium et finis. Enquanto Deus, que é o princípio, era Alfa; enquanto homem, que é o fim, era Ômega. Mas, sendo tão grande o Ômega, que encerrou dentro em si o Alfa, sendo tão grande e tão imenso o O, que encerrou dentro em si o A, como podia ser O pequeno?

Para bem vos seja, Virgem puríssima, esta grandeza da humanidade de vosso Filho, e para bem outra vez, porque não seria tão grande a capacidade daquele O, se do círculo, onde foi concebido, a não participara. Manílio, no livro quarto da sua Astronomia, diz uma coisa admirável, e é que os que nascem debaixo do signo de Virgem recebem desta influência tal graça no escrever, que uma letra sua contém uma palavra: Hic et scriptor erit, felix cui littera verbum est (8). Eu não direi o fundamento que teve Manílio para sair com este axioma, nem os outros astrônomos o comentam facilmente. Mas o certo é que Cristo nasceu debaixo do signo da Virgem, o certo é que Cristo nesse mesmo mistério diz de si que é um O, e o certo é que esta letra e este O contém a primeira e maior palavra, que é o Verbo Eterno: Cui littera Verbum est. Grande, singular, imensa capacidade do Filho, mas participada do útero virginal da Mãe, em que foi concebido enquanto homem: Ecce concipies in utero. Enquanto Deus, também Cristo foi concebido no útero do Pai: Ex utero, ante luciferum, genui te(9). Notai, porém, a diferença, mais com pasmo que com admiração. O Pai-Deus de tal maneira concebeu o Filho, Deus, que encerrou nele toda a sua essência em uma palavra; e a Mãe-Virgem de tal maneira concebeu ao Filho-Homem, que encerrou nele a mesma essência em uma letra: a palavra é o Verbo, a letra é o O: Cui littera Verbum est.

V

Assentado, como temos visto, que o círculo do ventre virginal, na conceição do Verbo, foi um O que compreendeu o imenso, segue-se agora mostrar como o O dos desejos da mesma Senhora, na expectação do parto, foi um círculo que compreendeu o eterno. A eternidade e o desejo são duas coisas tão parecidas, que ambas se retratam com a mesma figura. Os egípcios, nos seus hieroglíficos, e antes deles os caldeus, para representar a eternidade pintaram um O, porque a figura circular não tem princípio nem fim, e isto é ser eterno. O desejo ainda teve melhor pintor, que é a natureza. Todos os que desejam, se o afeto rompeu o silêncio, e do coração passou à boca, o que pronunciam naturalmente é O. Desejou Davi água da cisterna de Belém, e antes de declarar aos soldados qual era o seu desejo, adiantou-se um O a dizer o que desejava: Desideravit ergo David, et ait: O, si quis mihi daret potum aquae de cisterna, quae est in Bethlehem (10)!O O foi a voz do desejo: as demais a declaração. E como a natureza em um O deu ao desejo a figura da eternidade, e a arte em outro O deu à eternidade a figura do desejo, não há desejo, se é grande, que na tardança e duração não tenha muito de eterno.

Os desejos da Virgem Santíssima, que todos eram: Oh! quando chegará aquele dia! Oh! quando chegará aquela ditosa hora, em que veja com meus olhos e em meus braços ao Filho de Deus e meu! Oh! quando? Oh! quando? Oh! quando? Estes desejos da Senhora começaram na conceição e acabaram no parto. Mas, desejos que começaram e acabaram? Desejos que tiveram princípio e fim? Como podiam ser eternos? Como podia igualar a duração de uma eternidade o espaço que foi somente de nove meses? Entre a conceição e o parto não meteu o anjo mais que um et ecce concipies et paries. Mas não é coisa nova nesta mesma embaixada trocar a Senhora alguma palavra do anjo em outra. Assim como trocou o Eva em Ave, assim trocou o et em o. E reduzidos os nove meses ao círculo perfeito deste O, não é muito que fossem eternos. O mesmo et, sem mudança, se não diz toda a eternidade, diz parte dela, e na eternidade não há parte que não seja eterna. No et do anjo começaram a ser eternos os desejos, que também então começaram a ser; e no O tão continuado e repetido da Senhora, acabaram de cerrar o círculo da sua eternidade. Nem é contra a extensão natural da eternidade a limitação do tempo de nove meses, porque não devemos conceder menos à capacidade do coração da Senhora do que à do ventre santíssimo. A maior capacidade que criou a natureza é a do coração humano; e se o ventre de Maria foi capaz de encerrar o imenso, por que não seria capaz seu coração de estreitar o eterno? O eterno e o temporal são tão opostos como a eternidade e o tempo. A eternidade não conta dias nem meses; o tempo sim, que por isso contou nove desde a conceição até o parto da Virgem, a quem S. João Damasceno chamou: Officina miraculorum. E se nesta oficina miraculosa o eterno se pode fazer temporal, o tempo por que se não poderia fazer eterno?

Naquela famosa carroça, que descreve o profeta Ezequiel, na qual ia ou era levado Deus, o artifício das rodas era admirável, porque dentro de uma roda estava ou se revolvia outra roda: Rota in medio rotae (11). E que duas rodas eram estas? Uma era a roda do tempo, e a outra a roda da eternidade, diz Santo Ambrósio: Rota in medio rotae, veluti vita intra vitam, quod in hac vita corporis, vitae volvatur usus aeternae. A roda do tempo é pequena e breve; a roda da eternidade é grandíssima e amplíssima, e, contudo, a roda do tempo encerra e revolve dentro em si a roda da eternidade, porque, qual for a vida temporal de cada um, tal será a eterna, diz o santo. De maneira que a maravilha destas duas rodas era que, sendo a eternidade tão grande e tão imensa, a roda da eternidade se encerrava dentro da roda do tempo. Agora pergunto eu: e qual era a carroça de Deus, que sobre estas rodas se movia? Não só era a Virgem Santíssima, como alegorizam os Santos Padres, mas era a mesma Virgem, sinaladamente no espaço dos nove meses que teve a Deus em suas entranhas. Assim como o que vai ou é levado em uma carroça não dá passo nem tem outro movimento senão o da carroça, assim o filho, enquanto está nas entranhas da mãe, não se move ou muda de lugar senão quando se move a mesma mãe, e deste modo se houve ou andou Cristo em todos os nove meses que se contaram desde a sua conceição até o seu nascimento. Depois de concebido partiu logo às montanhas de Judéia a santificar o seu precursor, das montanhas tornou para Nazaré, de Nazaré foi a Belém, e não só nestas jornadas mais largas, mas em todos seus movimentos, nenhum passo deu a Majestade humanada, que não fosse na mesma carroça real, que por isso se chamava sua, como própria da pessoa do Verbo. E como esta carroça de Deus representava a Mãe do mesmo Deus, em todo aquele tempo que o trouxe dentro em si, por isso as rodas sobre que se movia eram fabricadas e travadas com tal artifício, que dentro da roda do tempo se revolvia a roda da eternidade, para significar que os dias e meses que passaram desde a conceição até o parto, posto que parecessem breves na duração, eram, no desejo, eternos.

VI

E se me perguntarem os filósofos, como podia o desejo fazer eternos aqueles dias, sendo de tão poucos meses, respondo que o modo foi, e a razão é porque os desejos da Senhora e os OO dos mesmos desejos — que também são rodas — unidos e acrescentados à roda do tempo, posto que o tempo fosse finito, eles o multiplicavam infinitamente. Assim o disse Davi, falando da mesma carroça de Deus: Currus Dei decem millibus multiplex (12). O caldeu lê: centum millibus; Santo Agostinho: millies millibus; S. Jerônimo: innumerabilis; Novatiano: infinitus, imensus. Quer dizer que o número na carroça de Deus se multiplica a milhares, a dezenas de milhares, a centenas de milhares, a contos e milhões de milhares; em suma, que chega a ser inumerável, infinito, imenso. Não se poderá declarar o que digo nem com melhor comparação nem com mais apropriado exemplo que este da multiplicação da aritmética: Decem, centum, millies millibus multiplex. Sabeis como eram os OO dos desejos da Senhora nos dias, nas horas, nos momentos de todos aqueles meses da expectação do sagrado parto, em que, depois de concebido o Filho de Deus em suas entranhas, suspirava pelo ver nascido? Eram os OO dos desejos da Senhora na multiplicação do tempo como as cifras da aritmética, que também são OO. Ajunta-se a cifra ao número, e que faz? A primeira cifra multiplica dez, a segunda cento, a terceira mil, e se chegar a vinte e quatro cifras quantas são as horas do dia, multiplicam tantos milhares sobre milhares, e milhões sobre milhões que excedem a capacidade de toda a compreensão humana. Perguntam curiosamente os matemáticos, se desde o centro da terra até o céu estivesse todo este mundo cheio de areia miudíssima, quanto seria o número daqueles grãos de areia? Esta questão excitou já antigamente Arquimedes, ainda mais estendida, e não é dificultosa de resolver, porque medida primeiro geométrica, mente a capacidade ou côncavo do céu da lua, logo, por demonstração aritmética, se colhe com certeza quanto seria o número das areias que o podem encher. Mas, reduzido este mesmo número inumerável a figuras aritméticas, parece coisa digna de admiração que todo ele somado se venha a resumir em uma unidade e trinta e duas cifras somente. Passemos agora dos OO destas cifras aos OO dos desejos da Senhora.

Os OO dos desejos da Virgem Santíssima, no espaço daqueles nove meses, não se hão de contar por dias, nem por horas, nem por minutos, senão por instantes, porque não houve instante em todo este tempo, nem de dia nem de noite, em que no coração da Senhora se não estivessem multiplicando os mesmos OO, suspirando e anelando sempre por aquela hora, que tanto mais tardava e se alongava, quanto era mais desejada. E digo nem de dia nem de noite, porque ainda que o brevíssimo sono dava suas tréguas aos sentidos, o coração, que não se podia apartar donde tinha o seu tesouro, como vela que sempre ardia, sempre vigiava: Ego dormio, et cor meum vigilat (13). Pois, se os OO de trinta e três cifras multiplicavam ou multiplicariam aquele número sem conta, os de tantos e tão continuados instantes, que em cada parte de tempo são infinitos, vede se o fariam eterno? A multiplicação artificial das cifras — sem mudarem a figura, que sempre é o mesmo O — consiste em que a segunda cifra excede proporcionalmente a primeira, a terceira a segunda, a quarta a terceira, e assim as demais. E a este mesmo medo se excederam e iam excedendo também os OO dos desejos da Senhora, sendo sempre os seguintes maiores e mais intensos que os que tinham precedido. A razão teológica e conatural deste argumento era porque a cada desejo da Mãe de Deus correspondia novo aumento de graça, a cada aumento de graça, maior amor do mesmo Filho, e ao maior amor, maior e mais intenso desejo. Assim que, sendo os círculos dos primeiros OO grandes, os que lhes iam sucedendo mais e mais sempre eram maiores. Dê-nos aqui o exemplo a natureza, assim como até agora no-lo deu a arte.

Se acaso ou de indústria lançastes uma pedra ao mar sereno e quieto, ao primeiro toque da água vistes alguma perturbação nela; mas tanto que esta perturbação se sossegou, e a pedra ficou dentro no mar, no mesmo ponto se formou nele um círculo perfeito, e logo outro círculo maior, e, após este, outro e outros, todos com a mesma proporção sucessiva, e todos mais estendidos sempre, e de mais dilatada esfera. Este efeito maravilhoso celebra muito Sêneca, no primeiro livro das suas questões naturais, e dele aprenderam os filósofos o modo com que a voz e a luz se multiplicam e dilatam por todo o ar. Mas, se a natureza, na multiplicação e extensão destes círculos teve outro intento mais alto, sem dúvida foi para nos declarar, com a propriedade desta comparação, o modo com que os OO dos desejos da Senhora, ao passo com que se multiplicavam, juntamente se estendiam. A Virgem Maria era o mar, que isto quer dizer Maria: a pedra era o Verbo encarnado; Cristo: Petra autem erat Christus(14); o primeiro toque da pedra no mar foi quando o anjo, na embaixada à Virgem, lhe tocou em que havia de ser Mãe, com bênção sobre todas as mulheres: Benedicta tu inter mulieres (Lc. 1,19). E que sucedeu então? Duas coisas notáveis. A primeira, que a serenidade daquele mar puríssimo se turbou um pouco: Turbata est in sermone ejus (15); a segunda que, sossegada esta perturbação: Ne timeas Maria (16), no mesmo ponto em que a Senhora disse: Fiat mihi secundum verbum tuum (17), e a pedra desceu a seu centro, logo os círculos, que eram os OO dos desejos da Senhora, se começaram a formar e crescer no seu coração de tal sorte, que sempre os que se iam sucedendo e multiplicando, à medida do amor, que também crescia, eram mais crescidos também, e de maior e mais estendida esfera.

VII

Agora vejamos estes círculos ou estes OO do desejo, unidos ao círculo ou à roda do tempo, que efeitos causaram nele? Os efeitos foram que, sendo o período da expectação do parto tão breve como de nove meses, o fizeram eterno. E por que ou como? Porque cresceu o desejo à proporção do amor, e o tempo à proporção do desejo. Não me creiais a mim, senão aos dois maiores doutores da Igreja, Nazianzeno, entre os gregos, e Agostinho, entre os latinos. S. Gregório Nazianzeno, com prefação de que afirma uma grande verdade, diz que um só dia de ardente e ansioso desejo é igual a todo o tempo a que se pode estender a vida humana: Profecto vel unicus dies totius vitae humanae instar est desiderio laborantibus. A duração que as Escrituras dão comumente à vida humana são cem anos; e se cada dia de desejos intensos se mede por cem anos de duração, e a cada dez dias respondem dez séculos, que são mil anos, vede quantos milhares sobre milhares se podiam encerrar no círculo de nove meses? E se isto afirma com tanta asseveração Nazianzeno, por antonomásia o Teólogo, sem determinar objeto nem sujeito, que seria se supusesse que o objeto desejado era Deus, e o sujeito que desejava, o coração da Mãe de Deus? Por isso Santo Agostinho remeteu toda a questão a Deus, como Senhor dos tempos e autor dos desejos. E diz que travou Deus o tempo com o desejo reciprocamente de tal sorte que, dilatando o tempo, estende o desejo, e estendendo o desejo, dilata o tempo: Deus, dilatando, extendit desiderium. Sendo, pois, os OO dos desejos da Senhora uns círculos tão estendidos, como vimos, bem se infere quão dilatados seriam neles os círculos do tempo. Tão dilatados que a roda do tempo pôde compreender em si a roda da eternidade: Et rota in medio rotae. Mas para que é recorrer a argumentos de doutores, se temos no próprio caso o testemunho expresso da mesma Senhora do O. E quando deu a Senhora este seu testemunho, e com que palavras? Com as mais adequadas ao seu pensamento, e as mais bem medidas com os seus desejos. Disse que os seus desejos eram como o seu desejado: Dilectus meus totus desiderabilis; dilectus meus totus desideria (Cânt. 5, 16): O meu amado é todo para desejar, e os meus desejos são como todo ele. — Assim o traslada e interpreta a versão caldaica. E se os desejos da Senhora se mediam totalmente com o seu desejado, e o desejado era imenso, infinito, eterno, vede se seriam também eternos os seus desejos?

Finalmente, para que não pareça encarecimento o que digo, deixai-me abater o discurso, para melhor o provar, e ouvi como os desejos de quem desejava muito menos, só por serem do mesmo desejado, foram também eternos. Quando Jacó, despedindo-se de seus filhos na hora da morte, lhes lançou a bênção — a qual juntamente era bênção e profecia — o último termo que sinalou a todas as felicidades que lhes prometia foi a vinda do Messias, a quem chama o desejo dos montes eternos: Donec veniret desiderium collium aeternorum (18). Grandes e misteriosas palavras! Chama Jacó ao Messias não o desejado, senão o desejo, porque havia de ser desejado tão singular e unicamente, que os desejos de todas as outras coisas, em comparação deste desejo, nem eram, nem mereciam nome de desejos. Mas por que lhe não chama desejo dos homens, senão desejo dos montes e dos outeiros: Desiderium collium? Porventura porque até as criaturas insensíveis, sem uso de razão, nem conhecimento de tanto bem, o haviam de desejar a seu modo e suspirar por ele. Assim explicam alguns este lugar, com a energia daquela mesma figura com que disse o poeta: Ipsae te, Tytire, pinus, ipsi te fontes, ipsa haec arbusta vocabant. Porém Jacó, no verdadeiro sentido em que falava, entendeu por montes e outeiros os patriarcas e profetas, assim passados como futuros, nos quais só se conservava a fé explícita de que o Messias havia de ser Filho de Deus. E por isso a esposa, falando da mesma vinda do Messias, dizia: Ecce iste veniet saliens in montibus, transiliens colles (19). E chamam-se os patriarcas e profetas montes e outeiros, porque, assim como os montes e outeiros se levantam sobre os vales, e, extremando-se da outra terra, se avizinham mais ao céu, assim os patriarcas e profetas, pela eminência da dignidade, da santidade e do conhecimento de Deus, em respeito do outro povo, mal disciplinado e rude, e incapaz de tão altos mistérios, eram os montes e outeiros do mundo. Mas agora entra a dúvida, em que todos, creio, tendes já reparado, e é por que lhes chama eternos: Desiderium collium aeternorum? Os patriarcas e profetas, ainda que lhes demos a antigüidade, desde o primeiro de todos, que foi Adão, de Adão até a morte de Jacó se passaram dois mil anos; e se a continuarmos depois de Jacó, desde a morte de Jacó até a vinda do Messias, passaram outros dois mil. Quanto mais que nesta segunda idade as vidas dos homens, por mais patriarcas e profetas que fossem, eram tão breves como as nossas. Pois, se estes montes e outeiros caíam, e se sepultavam, e se desfaziam em cinzas em tão breve tempo, como lhes chama Jacó eternos: Desiderium collium aeternorum? Na palavra desiderium disse Jacó o porquê. Não vedes que o desejo desses patriarcas e profetas, em que viveram, todo era suspirar pela vinda do Messias, todo era clamar ao céu e a Deus, que acabasse já de vir: Donec veniret? O mesmo Jacó dizia: Salutare tuum expectabo (20); Moisés: Mitte quem missurus est (21); Davi: Ostende nobis, Domine, misericordiam tuam, et salutare tuum da nobis (22); Isaías: Rorate caeli desuper, et nubes pluant justum; aperiatur terra, et germinet salvatorem(23). E como os desejos dos patriarcas eram tão intensos, e a tardança do bem desejado tão dilatada, ainda que o tempo das vidas fosse tão breve, a dilação dos desejos o fazia eterno. Eram grandes, eram santos, eram eminentíssimos nas pessoas, mas muito mais se estendia neles o tempo do que os levantava a dignidade: a dignidade os fazia montes, e o desejo, eternos: Desiderium collium aeternorum.

Nem mais nem menos tomou estas medidas Davi, a quem os desejos e o desejado tocavam de mais perto: Cogitavi dies antiquos, et annos aeternos in mente habui (24). Quando considero a antigüidade dos patriarcas e profetas — assim entendem este lugar os mais graves expositores — quando considero os tempos antigos, a tradição dos patriarcas e a fé dos profetas, aqueles homens tão alumiados de Deus, que desde então esperavam e desejavam o que eu hoje só desejo e espero, os dias, no meu entendimento, são anos, e os anos, eternidades: Cogitavi dies antiquos, et annos aeternos in mente habui. Ainda tem maior mistério a distinção e repartição destes tempos. A Adão revelou-lhe Deus que se havia de fazer homem, mas não disse como, nem de quem; a Abraão revelou-lhe que havia de ser da sua descendência e da sua nação; a Davi, que havia de ser da sua casa e da sua família. E quanto mais de perto tocava este bem aos homens, tanto mais se excitava neles o desejo, e tanto mais crescia, com o desejo, a dilação. Na antigüidade remotíssima de Adão os momentos eram dias; na menos remota de Abraão, os dias eram anos; mas na mais próxima, e já vizinha, de Davi, os anos eram eternidades: Et annos aeternos in mente habui. Tudo isto sucedia segundo aquela regra natural, que quanto o bem desejado está mais vizinho, tanto é maior o desejo. Bem assim como a pedra no ar, que quanto mais se chega ao centro, tanto com maior velocidade se move: Desiderium acuit absentis vicinitas, disse com verdadeira sentença o Cômico (25). E se esta vizinhança já em Davi fazia do tempo eternidades, só porque sabia Davi que havia de nascer em sua casa, que seria no coração da Virgem Santíssima, que já o tinha concebido em suas entranhas? Os dois que avaliaram estes desejos por eternos foram nomeadamente Davi e Jacó, os mesmos dois de que o anjo anunciou havia Cristo de ser herdeiro: Dabit illi Dominus Deus sedem David patris ejus, et regnabit in domo Jacob in aeternum (26). E se Jacó e Davi de tão longe reconheciam esta eternidade, como a não compreenderia o coração da Senhora dentro nos OO dos seus desejos, tanto mais intensos quantos mais vizinhos, e tanto mais dilatados quanto mais intensos? Um patriarca dizia: O Sapientia! Outro suspirava: O Adonay! Outro clamava: O Radix Jesse! Os demais: O Clavis David! O Oriens! O Rex Gentium! O Emmanuel! Mas nenhum disse, nem podia dizer: Ó Filho! E se os OO daqueles desejos faziam uns círculos tão dilatados, que eram eternos: — Desiderium collium aeternorum, et annos aeternos in mente habui (27) — que seriam os OO daquele coração e daquela Mãe, que o tinha concebido em suas entranhas e o havia de ver nascido em seus braços: Ecce concipies in utero, et panes Filium.

VIII

Certo estou já que não haverá quem duvide que os desejos da Senhora foram eternos. O que só receio, pelo contrário, é que não falte quem ponha dúvida a serem desejos. O bem — replicará algum filósofo — o bem, que é o objeto da vontade, assim como tem diferentes tempos, assim causa na mesma vontade diferentes afetos. Porque o bem, ou é presente, ou passado, ou futuro: se é presente, causa gosto; se é passado, causa saudade; se é futuro, causa desejo. E como o bem, e sumo bem, objeto dos afetos da Senhora, que era o Filho único de Deus e seu, não só o tinha presente, senão mais que presente, porque o tinha dentro em si mesma, parece que antes havia de causar em seu coração júbilos de gosto, e não ânsias nem desejos. Quem discorre desta sorte ainda não tem entendido que a presença, para ser presença, há de ter alguma coisa de ausência. O objeto da vista, para se poder ver, há de ser presente; se está pegado e unido à mesma potência, é como se estivera ausente: há de estar apartado dos olhos para se poder ver. Assim a presença, para ser presença, não há de passar a ser íntima, nem há de estar totalmente unida, senão, de algum modo, distante. É a queixa de Narciso, com verdadeira razão, em história fabulosa: Quod cupio mecum est: inopem me copia fecit: O que desejo, tenho-o em mim; e porque o tenho em mim, careço do que tenho. — Pois, que remédio? Votum in amante novum: o remédio é um desejo novo, qual nunca desejou quem amasse. E que desejo é este? Velle quod amamus abesse: desejar que o que amo se ausente e se aparte de mim. — Tal era o desejo da Senhora, e tal a razão do seu desejo. Carecia do mesmo bem que tinha, porque o tinha dentro em si. Por isso suspirava e desejava com ânsia vê-lo já fora, e esta era a causa dos seus OO: Quis mihi det te fratrem meum, ut inveniam te foris (28): Oh! quem me dera, irmão e filho meu — irmão porque tomastes de mim a natureza humana, e filho, porque eu vo-la dei — oh! quem me dera ver-vos já fora de minhas entranhas, porque dentro delas, posto que vos tenho e possuo, não vos posso gozar. Ut inveniam te; diz ainda com maior energia: Oh! quem me dera achar-vos! Como se dissera a ansiosa Mãe, falando como mesmo Filho: — No dia em que vos concebi, foi como se vos perdera e vos escondêsseis de mim, porque vos não posso ver. Se me pergunta a fé, onde estais: Ubi est Deus tuus (29)? respondo, com toda a certeza que dentro em mim. Mas se mo perguntam os olhos, só lhes posso responder que ainda vos busco e suspiro por vos achar: Ut inveniam te. E sendo esta a presença do seu bem — ausente por muito presente — vede se tinha razão a Senhora de o desejar com ânsias, e suspirar mais e mais por ele?

Deseja a Virgem Santíssima gozar a seu Filho ao medo com que o Padre Eterno o goza, pois era Filho comum de ambos. Voai agora, se puderes tanto, os que pusestes a dúvida. Descreve o evangelista S. João a geração eterna do Verbo, e diz que o Filho estava junto ao Padre, ou perto dele: Et Verbum erat apud Deum (30). Aquele apud, assim como foi escândalo aos arianos, assim tem sido reparo altíssimo a todos os maiores teólogos. Não diz Cristo, falando da mesma geração sua enquanto Deus, que ele está no Padre, e o Padre nele: Ego in Patre, et Pater in me est (Jo. 14,10)? Pois, por que não diz também S. João que o Verbo estava no Padre, senão junto a ele: Et Verbum erat apud Deum? E se estava junto a ele, onde estava, e qual era o seu lugar: Ubi erat hoc Verbum? Quis erat locus ejus? — pergunta Ruperto. E responde que o lugar onde estava o Verbo, era a distinção real com que a pessoa do Padre se distingue do Filho, e a pessoa do Filho se distingue do Padre: Verbum erat apud Deum, ut de personis non dubites, dum alteram audis esse vel fuisse ad alteram. O mesmo tinha dito antes dele São Basílio e depois de ambos o diz Santo Tomás. Mas ouçamos discorrer altamente na matéria altíssima a Ricardo Vitorino. Deus é sumamente bom e sumamente beato: enquanto sumamente bom, é suma e infinitamente comunicável; logo, não se podia comunicar infinitamente senão a quem também fosse Deus, e este é o Filho. Enquanto sumamente beato, não podia ser ou estar só, porque não há felicidade sem companhia: logo, quem lhe fizesse companhia nesta suma felicidade, havia de ser distinto dele; e esta é a distinção real que há entre o Filho e o Padre.

Neste segundo ponto, que é o nosso, as palavras de Ricardo são: Felicitas summa non potest esse unius solitarii sine consortio; Deus autem est sume felix, quare consortio debet habere. E se alguém replicar que antes de haver mundo Deus estava só, porque somente havia Deus, responde Tertuliano contra Praxéias, distinguindo uma soledade da outra, tão profundamente como costuma: Deus ante omnia solus erat, ipse sibi, et mundus, et locus, et omnia: solus autem, quia nihil extrinsecus praeter illum. Caeterum ne tum quidem solus, habebat enim secum rationem suam, hanc Graeci logon dicunt: Deus antes do mundo estava só, porque fora de si não tinha produzido coisa alguma. Porém ainda então não estava só, porque estava acompanhado do Verbo, o qual tinha consigo. Notai muito a palavra habebat secum. De maneira que na natureza divina, sumamente comunicável, não bastou que o Padre tivesse o Filho em si: Ego in Patre; mas, para que o mesmo Padre não estivesse só, e para qu