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Arcadismo



Arcadismo

O Arcadismo, Setecentismo (anos 1700) ou Neoclassicismo é o período que caracteriza principalmente a segunda metade do séc. XVIII, tingindo as artes de uma nova tonalidade burguesa.

No início mostrava o barroquismo literário em plena decadência.

Uma literatura empolada, de louvação e encômios, em linguagens exageradamente metafórica, arrevesa e sentenciosa, praticada à sombra das academias. Mas, com declínio da aristocracia e com ascensão da burguesia, sente-se a tendência para uma renovação do gosto literário e do credo estético, com o esgotamento da literatura cortês do barroco. Desenvolve-se uma reação contra o barroquismo do seiscentos, expressa num amplo movimento de restauração classicizante, em que o espírito clássico ressurge sob a forma de neoclassicismo.

O Arcadismo

No séc. XVIII, as formas artísticas do Barroco já se encontram desgastadas e decadentes. O fortalecimento político da burguesia e o aparecimento dos filósofos iluministas formam um novo quadro sócio político-cultural, que necessita de outras fórmulas de expressão. Combate-se a mentalidade religiosa criada pela Contra-reforma, nega-se a educação jesuíta praticadas nas escolas, valoriza-se o estudo científico e as atividades humanas, num verdadeiro retorno à cultura renascentista. A literatura que surge para combater a arte barroca e sua mentalidade religiosa e contraditória é o Neoclassicismo, que objetiva restaurar o equilíbrio por meio da razão.

Dentre as variedades do neoclassicismo, figurou o movimento arcádico. No final do séc. XVII, fixou residência em Roma a jovem ex-rainha Cristina da Suécia, que renunciara ao trono e ao luteranismo, convertendo-se ao catolicismo. Inteligente e culta, desde a Suécia habituara-se a cercar-se de sábios e artistas, para discussão e leitura de trabalhos literários. Em Roma, atraiu para essas reuniões a fina flor da inteligência local, formando um cenáculo intelectual que, após sua morte, se transformaria na Arcádia (1690). Nasceu , assim, com regulamentos e programas, a nova academia, composta de 16 membros. Tinha o objetivo de reconduzir à fonte da natureza, à simplicidade de sentimento e de estilo, a poesia e, em geral, a literatura, que, na opinião dos seus componentes, estavam desviadas pelos cattivo gusto, herança do seiscentismo. O nome de Arcádia era dado na Grécia antiga à região do Peloponeso, morada do deus Pan, e onde a tradição imaginava residirem todos os pastores com seus míticos e plácidos costumes, em contato com a natureza, onde residiam a beleza, pureza e espiritualidade. Procuravam adoçar a dureza do viver mercê de uma disposição para o canto e a dança, as canções de amor e as pugnas poéticas, caracterizadas pela espontaneidade e simplicidade. Segundo Toffanin, era a pátria da antiga poesia pastoral. Por isso, o nome foi transferido para a academia italiana, acrescentando-se ainda a particular ressonância obtida pelo romance pastoral de Jacopo Sannazareo (1458-1530), intitulado Arcádia (1504). Os membros da nova Arcádia chamavam-se “pastores”, cada um adotando um nome pastoril, grego ou latino, sendo o presidente eleito e designado “guardião geral”.

As reuniões eram realizadas em parques e jardins. No combate ao estilo empolado do Barroco decadente, com sua retórica artificial e suas sutilezas conceptistas, visava o arcadismo ou movimento arcádico retornar à simplicidade, equilíbrio, naturalidade e clareza dos modelos clássicos, restabelecendo a poética antiga, a forma clássica, o buono stile, a naturalezza Del dire, na linha da liberdade e simplicidade anacreôntica e pindárica, ou de conformidade com o petrarquismo quinhentista, cantando o amor, a natureza, a vida simples e bucólica. Do ponto de vista formal, a simples e idílica alma lírica setecentista encontrou no verso solto, nas odes e elegias o instrumento ideal. Criou assim um novo estilo individual e de época, englobando-se no rococó literário.

Além do seu caráter democrático, a Arcádia teve uma tendência supernacional. O movimento de reforma literária e lingüística irradiou-se em filiais pelos diversos reinos e cidades da Itália e em numerosos países estrangeiros, que se denominaram “colônias”.

Da Itália, o movimento arcádico passou a Portugal e ao Brasil. Empenhando que estava Portugal, no séc. XVIII, numa reação anti-castelhana, inclusive como reação paralela a restauração da independência, o movimento arcádico encontrou boa acolhida. As academias do século anterior foram-se transformando em corporações, do tipo ora arcádico, ora científico. De qualquer modo, no sentido da tradição clássica e também abrindo-se à influência francesa, que invadia o século.

Em Portugal, o arcadismo instalou-se com a Arcádia Lusitana (1756-1774), reunindo escritores de renome: Antônio Dinis da Cruz e Silva, Gomes de Carvalho, Manoel de Figueiredo, Cândido Lusitano, Domingos dos Reis Quita, Correia Garção, José Caetano de Mesquita. Houve, ainda, a nova Arcádia, no final do século XVIII, de que foram membros Bocage e José Agostinho de Macedo.

Com o arcadismo desenvolve-se no Brasil a primeira produção literária adaptada à realidade nacional. As obras começam a se afastar dos modelos portugueses ao descrever as paisagens locais e criticar a situação política do país.

Surgem vários poetas em Vila Rica, atual Ouro Preto (MG) – capital cultural e centro de riqueza na época –, grande parte deles ligada à Inconfidência Mineira. Os árcades constituem a primeira geração de escritores brasileiros.

A transição do barroco para o arcadismo no país dá-se em 1768, com a publicação do livro Obras Poéticas, de Cláudio Manuel da Costa. Entre os árcades destacam-se, ainda, Tomás Antônio

Gonzaga, autor de Marília de Dirceu; Basílio da Gama (1741-1795), de O Uraguai; e Silva Alvarenga (1749-1814), de Glaura. Apesar do engajamento pessoal, a produção desses autores não está a
serviço da política.

Características

Urbem (fuga da cidade): influenciados pelo poeta latino Horácio, os árcades fugere defendiam o bucolismo como ideal de vida, isto é, uma vida simples e natural, junto ao campo, distantes dos centros urbanos. Tal princípio era reforçado pelo pensamento do filósofo francês Jean Jacques Rousseau, segundo o qual a civilização corrompem os costumes do homens, que nasce naturalmente bom.

Aurea mediocritas (vida medíocre materialmente mas rica em realizações espirituais): outro traço presente advindo da poesia horaciana é a idealização de uma vida pobre e feliz no campo, em oposição à vida luxuosa e infeliz na cidade.

Ideas iluministas: como expressão artística da burguesia, o Arcadismo veicula também certos ideais políticos e ideológicos dessa classe, no caso, ideais do iluminismo. Os iluministas foram pensadores que defenderam o uso da razão, em contraposição à fé cristã, e combateram o absolutismo. Embora não sejam a preocupação central da maioria dos poetas árcades.

Idéias de liberdade, justiça e igualdade social estão presentes em apens alguns textos da época.

Convencionalismo amoroso: na poesia árcade, as situações são artificiais;não é o próprio poeta quem fala de si e de seus reais sentimentos. No plano amoroso, por exemplo, quase sempre é um pastor que confessa seu amor pr uma pastora e a convida para aproveitar a vida juntos à natureza.

Porém, ao se lerem vários poemas, de poetas árcades diferentes, tem-se a impressão de que se trata sempre de um mesmo homem, de uma mesma mulher e de um mesmo tipo de amor. Não há variações emocionais. Isso ocorre devido ao convencionalismo amoroso, que impede a livre expressão dos sentimentos, levando o poeta a racionaliza.

Ou seja, o que mais importava ao poeta árcade era seguir a convenção, fazer poemas de amor como faziam os poetas clássicos, e não expressar os sentimentos. Além disso mantém-se o distanciamento entre os amantes, que já se verifica na poesia clássica.

Conclusão

O Arcadismo em si, era formado por ideais renascentistas, da Antigüidade Clássica, pois o Barroco já havia ultrapassado os limites do que se considerava arte de qualidade.

Por emitir também princípios ideológicos iluministas, o arcadismo fez com que a burguesia crescesse e tomasse o poder sobre a nobreza.

Esse período foi marcado pela visão científica e pelo racionalismo, porque defendia uma literatura mais simples, objetiva, descritiva e espontânea, que se supõe à emoção, à religiosidade e ao exagero do Barroco.

Tal gênero predominou até o início do século XIX, quando surge o Romantismo.

Fonte: www.grupoescolar.com

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Arcadismo
Inconfidência Mineira, primeiro movimento nacionalista

Arcadismo
Cerimônia, no Congresso Americano, para apresentação da Declaração de Independência dos Estados Unidos. Essa carta inspirou o movimento da Inconfidência Mineira.

Na Inglaterra e na França, surge, em meados do século XVIII, uma burguesia que passa a dominar economicamente o estado, por meio do comércio ultramarino e da multiplicação dos estabelecimentos bancários.

A nobreza decai; a Igreja fica desacreditada, por suas polêmicas teológicas.

No século XVIII, houve muitas revoluções e lutas de independência. O Iluminismo europeu transforma esse século no Século das Luzes. O desenvolvimento do capitalismo mercantil prepara o terreno para a Revolução Francesa. A Independência dos EUA se dá em 1776.

Em 1757, Pombal expulsa os jesuítas de Portugal. O ensino, antes entregue nas mãos dos jesuítas, torna-se leigo. Fundam-se escolas nas mãos e academias. Há mudança no campo das artes, da ciência e da filosofia.

No Brasil, o centro econômico se transfere do Nordeste para Minas Gerais e Rio de Janeiro.

O Arcadismo nasceu em oposição aos exageros, os rebuscamento literário do Barroco. Há um retorno a uma literatura simples. Os modelos a seguir são os clássicos grego-latinos. A mitologia pagã é retomada como elemento estético.

Por isso, o Arcadismo é também chamado Neoclassicismo.

O Arcadismo ou Setencentismo se inicia em 1768. Dois fatos marcam o início do Arcadismo no Brasil: a fundação da Arcádia ultramarina e a publicação do livro Obras, de Cláudio Manuel da Costa.

O Arcadismo representa uma volta ao equilíbrio e à simplicidade dos modelos greco-romanos.

O Arcadismo defende uma função social da literatura e se preocupa com sua finalidade moral.

Existem dois momentos distintos no Arcadismo:

Momento Poético

O momento poético nasce de um retorno à natureza, conforme as tradições clássicas. Segundo Jean Jacques Rousseau, filosófico francês, o homem nasce bom; a sociedade o corrompe. Segundo esse filósofo, o homem deveria retornar à natureza pura. Para o árcade, toda a beleza, pureza e espiritualidade está na natureza. Ele procura os temas bucólicos, por isso.

A noção da supremacia do homem natural e a valorização da natureza vão permitir a entrada do Índio e da paisagem brasileira na nossa literatura. Tal tema será aprofundada no Romantismo.

Momento Ideológico

O momento ideológico do Setencentismo está ligado às mudanças político-sociais na Europa, bem como ao novo panorama cultural que se desenvolve em Portugal. Esse momento ficou conhecido como Iluminismo ou Ilustração e prega a doutrina da razão iluminada, das luzes da razão; e acredita que a razão é capaz de conduzir a humanidade ao progresso. Está voltado para a divulgação do saber juntamente com a exaltação da natureza.

O Marquês de Pombal foi um grande divulgador e defensor do Iluminismo em Portugal. O ensino Jesuítico dá lugar a uma escola renovada, progressista, que prepara o homem para ser livre e racional. Tais valores atingem o Brasil e a sua literatura. A cultura portuguesa vai abandonando a influência da Espanha, e recebe as idéias culturais e literárias da França, Itália, Inglaterra e Alemanha.

O sentimento nativista, nacionalista do Arcadismo está evidente no movimento político da Inconfidência Mineira.

A Escola Arcádia é também chamada de Escola Mineira, pois os poetas radicados em Minas Gerais são os maiores cultores desse estilo no Brasil.

O Ciclo da Mineração (ou Ciclo do Ouro) está ligado à Escola Arcádica, como um momento de nossa economia.

No Arcadismo, a luta do burguês culto a aristocracia se baseia na busca da natureza, de uma forma de vida simples, natural, bucólica, pastoril. Nada de centros urbanos monárquicos. Na verdade, essa luta ficava apenas no campo das idéias. Todos viviam na cidade. Essa busca da natureza, traduzida nas manifestações literárias, significava apenas um estado de espírito, um fingimento poético, uma postura política.

O Arcadismo observa duas teorias clássicas do poeta romano Horário:

Fugere urbem ( = fugir da cidade): valorização da natureza.

Carpe diem (goza o dia, aproveita a ocasião): preocupação em aproveitar, ao máximo, os momentos presentes, pois o tempo corre.

E observa também este outro preceito: “Inutilia truncat”: fora as inutilidades, os exageros, a linguagemm rebuscada.

Fonte: members.fortunecity.com

Arcadismo

ARCADISMO E O CONFRONTO BRASIL X PORTUGAL

O Arcadismo surge com a intenção de combater os excessos do Barroco, propondo um retorno à simplicidade, resgatando os valores renascentistas. Voltada para um novo público, formado pela burguesia, a literatura árcade veicula valores que vão de encontro ao tipo de vida levado pela aristocracia e à arte que esta apreciava: o Barroco. Assim, idealiza-se a vida natural em oposição à vida urbana, a humildade no lugar dos gastos exorbitantes da nobreza, o racionalismo em contraposição à fé, a linguagem simples e direta em oposição à linguagem complexa e elitista do Barroco.

O Arcadismo no Brasil foi cultivado na poesia épica, lírica e na modalidade satírica. Foram produzidas algumas epopéias – poemas que narram histórias de um povo ou uma nação, envolvendo aventuras, guerras, gestos heróicos, viagens, apresentando um tom de exaltação de heróis e suas ações. Muitas delas seguiam o modelo de Camões, uma vez que a literatura árcade buscava a retomada dos modelos clássicos, daí também ser denominada de 1Neoclassicismo, um novo Classicismo. Uma das epopéias mais importantes desse período foi a de Frei José Santa Rita Durão, intitulada O Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, publicada em 1781.

Essa obra narra as aventuras de Diogo Álvares Correia, náufrago português, que salvo da antropofagia, graças ao disparo de sua arma, passou a viver entre os índios e exercer importante papel na colonização das terras baianas. É um poema preso ao modelo de Camões, sendo formado por dez cantos, constituídos de versos decassílabos estruturados em oitavas rimas, ou seja, estrofes fixas de oito versos que seguem o mesmo esquema de rima, no caso abababcc. Possui passagens ostensivamente imitadas de Os Lusíadas de Luís de Camões, e segue a divisão tradicional da epopéia como a divisão em cinco partes (proposição, invocação, dedicatória, narração e epílogo).

Essa epopéia apresenta três elementos básicos: a colonização, a natureza e o índio. Podemos perceber a presença de temas como ‘brasilidade’ e ‘lusitanismo’, uma vez que em algumas passagens ele exalta as coisas do Brasil e em outras enaltece Portugal. A história narrada no poema acontece na Bahia; assim, ao longo da epopéia Durão mencionará lugares importantes desse estado, qualificando-os algumas vezes: “Descobriu o recôncavo afamado / Da capital brasílica potente.” (DURÃO, I, I)

Em alguns trechos expõe ainda a extensão, beleza e riqueza da terra: “Vós do áureo Brasil no principado”. (DURÃO, I, III).

No poema, os indígenas são representados ora como bons e justos, como o chefe Gupeva, ora maus e cruéis, como Jararaca.

Os nativos são vistos com traços de bondade, de pureza, cuja perfeição é admirada pelos europeus, como no Canto III, mas também aparecem como selvagens, de hábitos estranhos, seres brutos, bárbaros e antropófagos:

Porque a gente cruel guardá-lo intenta, Até que sendo a si restituído, Como os demais vão comer, seja comido. (DURÃO, I, XXVIII)

Em alguns trechos Durão denuncia o estranhamento dos portugueses, diante da cultura indígena:

A brutal catadura, hórrida e feia
A cor vermelha em si mostram tingida
De outra cor diferente, que os afeia
Pedras e paus de embiras enfiado
Que na face e nariz trazem furados.”
(DURÃO, I, XIX).

No entanto quando é feita a descrição de Paraguaçu não é atribuído a esta as características acima. Ela é descrita como branca, diferenciando-se das demais índias:

Paraguaçu, gentil ( tal nome teve).
Bem diversa de gente tão nojosa,
De cor alva como a branca neve,
E donde não é neve, era de rosa:
O nariz natural, boca mui breve,
Olhos de bela luz, testa espaçosa,
De algodão tudo o mais, com manto espesso,
Quanta honesta encobriu, fez ver lhe o preço.”
(DURÃO, II, LXXVIII).

Como se percebe, Paraguaçu é apresentada com características e costumes que a aproximam dos europeus, como ter pele branca e rosada e andar com o corpo encoberto, diferindo-se assim dos demais nativos. Isso nos remete a um desprezo pelos costumes indígenas, uma vez que o destaque que Paraguaçu tem na obra é justamente devido a essas características européias que possui, daí ser aceitável que se case com o herói da história, Diogo.

A principal intenção de Durão era celebrar a colonização portuguesa do Brasil através da epopéia, assim como se pode perceber, apesar de boa parte do poema ser dedicada às guerras entre as tribos e ter quase todos os personagens indígenas, o herói não é um índio e sim um português, enaltecendo assim a visão do colonizador e não do colonizado.

Diferentemente de outras obras que tematizam a colonização do Brasil, sempre de forma conflituosa, mostrando a sobreposição da cultura européia diante da cultura indígena, Caramuru traz a união das duas culturas. União simbolizada através dos personagens: Diogo que é batizado Caramuru pela tribo de Gupeva e de Paraguaçu, batizada como Catarina depois de se casar com Diogo; assim, esses personagens vão oscilar entre essas duas civilizações, mesclando seus costumes. Diogo - Caramuru adquire então atributos indígenas como o seu espírito perante a guerra e Paraguaçu – Catarina acaba compreendendo e aceitando os costumes europeus, como o catolicismo.

Durão narra a colonização da Bahia, trazendo a união da cultura indígena e européia. Traz a figura do colonizador como um herói que através do amor, do respeito e do conhecimento que adquiriu com os nativos foi capaz de levar para a América o povoamento branco, a religião e o idioma

O Arcadismo brasileiro originou-se e teve expressão principalmente em Vila Rica (atual Ouro Preto), Minas Gerais. Seu aparecimento teve relação direta com a extração do ouro nas cidades mineiras no século XVIII, haja vista que insatisfeitos com os pesados impostos que recaiam sobre os minérios e outras mercadorias, os brasileiros passaram a discriminar os portugueses e a manifestar desejos de emancipação, que culminarão com a Inconfidência Mineira. Tudo isso contribuiu para que o século XVIII, no Brasil, fosse marcado por um forte sentimento nativista. O índio, a paisagem brasileira e a preocupação com a situação política do país assinalam o início da busca de uma identidade para a literatura nacional.

Esse período, em que se origina o Arcadismo na literatura, foi fortemente marcado pelas idéias iluministas. No Brasil, essas idéias deram origem ao movimento de Inconfidência Mineira, que teve como participantes alguns autores árcades entre eles Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga.

Cláudio Manuel da Costa foi um dos mais importantes escritores árcades brasileiros, se destacando na poesia lírica. Sua obra, produzida na transição do Barroco para o Arcadismo, apresenta características dessas duas escolas literárias.

Sua poesia fala da vida no campo, das paisagens pastoris; mas é considerada, por alguns críticos, como pertencente ao Barroco, por fugir da linguagem simples priorizada pelo Arcadismo, fazendo uso de padrões cultistas, utilizando metáforas,como no soneto abaixo:

Aquela cinta azul, que o céu estende
A nossa mão esquerda, aquele grito,
Com que está toda a noite o corvo aflito
Dizendo um não sei quê, que não se entende;
Levantar-me de um sonho, quando atende
O meu ouvido um mísero conflito,
A tempo, que o voraz lobo maldito
A minha ovelha mais mimosa ofende;
Encontrar a dormir tão preguiçoso
Melampo, o meu fiel, que na manada
Sempre desperto está, sempre ansioso;
Ah! queira Deus, que minta a sorte irada:
Mas de tão triste agouro cuidadoso
Só me lembro de Nise, e de mais nada.
(CLÁUDIO apud INFANTE, 2004,186)

E inversões de período, como no trecho de soneto abaixo:

Leia a posteridade, ó pátrio rio,
Em meus versos teu nome celebrado;
Por que vejas uma hora despertado
O sono vil do esquecimento frio;

Essa sua linguagem empolada, que não entrega o sentido e dificulta a compreensão do poema, contraria os princípios do Arcadismo, que preconizava uma poesia de linguagem simples, acessível a um novo público: a burguesia.

Cláudio é considerado ainda, um predecessor do Romantismo, devido ao subjetivismo contido em suas obras. Os seus poemas são, muitas vezes, a expressão de sua sentimentalidade:

Destes penhascos fez a natureza
O berço, em que nasci: oh quem cuidara,
Que entre pedras tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza!
Amor, que vence os tigres, por empresa
Tomou logo render-me; ele declara
Contra o meu coração guerra tão rara,
Que não me foi bastante a fortaleza.
Por mais que eu mesmo conhecesse o dano,
A que dava ocasião minha brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano:
Vós, que ostentais a condição mais dura,
Temei, penhas, temei; que Amor tirano,
Onde há mais resistência, mais se apura.
(CLÁUDIO apud INFANTE, 2004,186)

Em grande parte de suas obras, Cláudio fala da sua pátria, certamente esta não é a mesma que será exaltada pelos românticos no século XIX, uma vez que no século XVIII, o Brasil ainda era colônia de Portugal, não se constituindo em uma pátria de fato. O patriotismo de Cláudio diz respeito então, à capitania das Minas Gerais, lugar onde nasceu.

Cláudio Manoel da Costa produz uma literatura que fala do Brasil, mais especificamente de Minas Gerais, representando nela a riqueza desse estado (extração de metais preciosos, principalmente o ouro) e seu amor pelo mesmo: “(...) e nos centros deles adorar as preciosidades daqueles metais que tem atraído a este clima os corações da Europa”, diz ele no Prólogo das Obras, publicado em 1768. Entre os poemas publicados, temos a Fábula do Ribeirão do Carmo, que se constitui em um pequeno mito de origem explicando a exploração do ouro no turvo rio que corta Mariana, antiga Vila de Ribeirão do Carmo. Nesse poema o rio é personificado, daí o nome de fábula, e vai ser o eu lírico em quase todo o poema. Antes de se transformar no rio da glória do ouro, o Ribeirão foi um pastor que por amor tentou roubar uma pastora prometida a Apolo; para castigá-lo, o deus transforma-o no rio; para aumentar o rigor da pena seu leito será repleto de ouro, o que acabará ocasionando a sua posterior destruição pela ambição humana

Em seus poemas, como Soneto II, percebe-se o patriotismo através da exaltação de Minas Gerais, seus rios e suas riquezas:

Leia a posteridade, ó pátrio rio,
Em meus versos teu nome celebrado;
Por que vejas uma hora despertado
O sono vil do esquecimento frio;
Não vês nas tuas margens o sombrio,
Fresco acento de um álamo copado;
Não vês ninfa cantar, pastar o gado
Na tarde clara do calmoso estio.
Turvo banhando as pálidas areias
Nas porções do riquíssimo tesouro
O vasto campo da ambição recreias.
Que de seus raios o planeta louro
Enriquecendo o influxo em tuas veias
Quanto em chamas fecunda, brota em ouro

Embora, na sua poesia, a ‘Brasilidade’ seja um tema presente, ele é acusado por alguns críticos de ‘Lusitanismo’, enaltecendo algumas vezes Portugal e mostrando certo desprezo pelo Brasil. Essa crítica se baseia em trechos de suas obras: “Desta inculta região vive Itamonte”, (COSTA apud VALLE, 2003,116). O termo inculta, utilizado pelo autor sugere um menosprezo pela região.

Há trechos do Prólogo ao leitor que também denunciam a exaltação de Portugal:

Aqui entre a grossaria dos gênios que menos pudera eu fazer que entregarme ao ócio e sepultar-me na ignorância, (...). A desconsolação de não poder substalecer aqui as delicias do Tejo, Lima e do Mondego, me fez entorpecer o engenho dentro do meu berço, mas nada bastou para deixar de confessar a seu respeito a maior paixão. ( COSTA apud VALLE, 2003, p.111).

Como se pode perceber, nesse trecho, Cláudio revela certa aspiração à vida que tinha levado em Portugal, manifestando uma angustia quanto à vida no Brasil; mas vale ressaltar que o autor acrescenta que, mesmo assim, nutre uma paixão e respeito pela sua pátria. O autor ora manifesta seu amor a sua terra natal, ora suspira pela vida em Portugal.

Tomás Antônio Gonzaga é o mais popular dos poetas árcades, uma vez que apresenta uma linguagem artisticamente bem-realizada e comunicativa capaz de sintetizar o ideal de vida das classes burguesas ascendentes.

Gonzaga cultivou a poesia lírica reunida na obra Marília de Dirceu, na qual o autor com o pseudônimo de Dirceu mostra sua paixão por Maria Dorotéia, cujo pseudônimo é Marília; e a poesia satírica, reunida na obra Cartas Chilenas poemas satíricos em que Tomás Antônio Gonzaga critica os desmandos do governador de Minas, Luís da Cunha Menezes.

A poesia de Tomás Antônio Gonzaga apresenta algumas inovações em relação aos outros poetas árcades. Tais inovações apontam para uma transição entre Arcadismo e Romantismo.

Devido ao seu envolvimento na Inconfidência Mineira, Tomás Antônio Gonzaga foi preso no Brasil, sendo depois exilado para Moçambique. Tal experiência dá à obra de Gonzaga maior subjetividade, espontaneidade e emotividade, características do Romantismo, uma vez que a distância da mulher amada e o sofrimento decorrente disso não são meros temas clássicos convencionais, assumindo nesse caso, feição de pura verdade. Tendo assim, uma poesia mais emotiva e mais espontânea.

Em Marília de Dirceu, o autor exalta as riquezas existentes no Brasil:

Tu não verás, Marília, cem cativos
tirarem o cascalho c a rica terra,
ou dos cercos dos rios caudalosos,
ou da minada serra,
Não verás separar ao hábil negro,
do pesado esmerila a grossa areia
e já brilharem os granetes de oiro
no fundo da bateia.
Não verás derrubar os virgens matos,
queimar as capoeiras inda novas
servir de adubo à terra a fértil cinza,
lançar os grãos nas covas.
Não verás enrolar negros pacotes
das sêcas fôlhas do cheiroso fumo
nem espremer entre as dentadas rodas
da doce cana o sumo.

O eu-lírico se remete ao que se perdeu: o futuro prometido, em que gozaria dos prazeres oferecidos por uma posição social confortável, o que, como o poema anuncia, não se realizará.

Em Cartas Chilenas – obra escrita em versos decassílabos brancos, com estrofação livre – há um jogo de disfarces: Fanfarrão Minésio é pseudônimo do governador Luís da Cunha Menezes; “Chilenas” equivale a “mineiras”; Santiago a Vila Rica. O autor das cartas é identificado como Critilo, e seu destinatário Doroteu é, na verdade, Cláudio Manuel da Costa.

Nesta obra, o autor inicia sua carta endereçada a Doroteu (Cláudio Manuel da Costa) informando sobre os índios que aqui viviam e seus costumes, ressaltando principalmente os que eram diferentes dos europeus.

Não queres que te informes dos costumes Dos incultos gentios? Não perguntas Se entre eles há nações, que os beiços furam... (GONZAGA, 1957, 87)

Percebe-se certo desprezo aos índios, quando ele traz “incultos gentios”, indicando menosprezo aos costumes indígenas e certa exaltação ao lusitanismo.

Tomás Antonio Gonzaga assume uma brasilidade, quando faz críticas à administração do governador Cunha Menezes, funcionário do governo português que dita regras aos brasileiros, colocando-os na condição de servos que têm por função trabalhar para enriquecer a metrópole, retirando para isso todas as riquezas brasileiras.

O chefe onipotente logo envia
atrevidos soldados, que, chegando
a casa do escrivão, os nomes riscam
do rol dos delinqüentes e lhe arrancam
da fechada gaveta os próprios autos.
Ousado, indigno chefe, que governo;
que governo nos fazes? A milícia
ergueu-se para guarda dos vassalos
e tu, e tu trabalhas por que seja
a mesma que nos prive do sossego.
(GONZAGA, 1957,281)

O Arcadismo permitiu o surgimento de um grupo intelectual que produziu uma literatura, a qual se pode considerar voltada para o Brasil. A epopéia de Santa Rita Durão foi considerada, por fundadores do nacionalismo, um verdadeiro poema nacional, visto que narra a vida indígena com aproveitamento e sistematicidade.

Cláudio Manuel da Costa introduz em suas obras o patriotismo, exaltando a sua pátria, Minas Gerais. Tomas Antonio Gonzaga é outro autor que, embora não tenha nascido no Brasil, escreve sobre o país, mais especificamente sobre Minas Gerais.

Essas obras compõem uma literatura que fala do Brasil, desempenhando um papel fundamental na formação do caráter nacional da nossa literatura. Tematiza questões como o indianismo, o nacionalismo, o patriotismo e o regionalismo, sendo apontada por alguns teóricos como precursora e indicadora do Romantismo do século XIX, que também terá tais questões como tema.

REFERÊNCIAS

CANDIDO, Antônio. Estrutura literária e função Histórica In: Literatura e Sociedade: estudos de teoria e história literária. 8.ed. São Paulo: T.A Queiroz, 2000.p.169-192.

CEREJA, William Roberto; MAGALHÃES, Tereza Cochar. Português: linguagens. São Paulo: Atual, 2003, p. 131-148.

DURÃO, Santa Rita. Caramuru. São Paulo: Martin Claret, 2003.

FARACO, Carlos Emílio, MOURA, Francisco Marto. Língua e Literatura. São Paulo: Ática. p. 332 – 348.

FIGUEIREDO, Luciano. Narrativa das rebeliões: linguagem política e idéias radicais na América Portuguesa Moderna. In: Brasil Colônia. São Paulo: Revista USP, n.57, p.6-27.

GONZAGA, Tomás Antônio. Cartas Chilenas. Edição crítica de M. Rodrigues Lapa. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1957.

INFANTE, Ulisses. Textos: leituras e escritas: literatura, língua e produção de textos. São Paulo: Scipione, 2004, p. 169-193.

VALLE, Ricardo Martins. A construção da posteridade ou A gênese da ruína: um ensaio sobre Cláudio Manoel da Costa. In: Brasil Colônia. São Paulo: Revista USP, n.57, p.104- 121.

Jeane de Araújo Oliveira
Maria Danúsia de Araújo Oliveira

Fonte: www.seara.uneb.br

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