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A pedra do reíno e o Principe do Sangue do Vai-e-Volta

Ariano Suassuna

Ao chegar do Recife para Taperoá, Gustavo mandara procurar, na rua e nas casas de fazenda da nossa Vila, mesas velhas, cadeiras, consolos e tudo quanto era de velharia, mais, dessa qualidade. Distribuíra tudo isso pela casa, cobrindo as mesas-decentro e forrando os oratórios com as coisas mais extravagantes - paramentos sacerdotais franjados de ouro que ele comprara em São João do Cariri, toalhas de renda, estribos de selas antigas, lavatórios de louça azul e branca e móveis que ninguém usava mais por terem se tornado "fora de moda". A casa ficara com tal aspecto que, um dia, a Velha do Badalo, uma velha doida que existe por aqui e que vende coentro de porta em porta, chegando na sala de visitas dos Moraes, julgou que estava numa capela, ajoelhou-se diante de uma mesa-de-centro enfeitada de paramentos roxos, benzeu-se e rezou bom pedaço de um terço, antes que os empregados a detivessem. Pois o contrato dos Moraes com o pedreiro Teodoro Barba-de-Bode referia-se a essa reforma. Naquele dia 1.0 de Junho de 1935, ele fora chamado para abrir umas seteiras nas duas paredes dos oitões da casa; depois da primeira parte das reformas, Gustavo Moraes se apercebera de que a casa dos GarciaBarrettos tinha mais aquele elemento de "arcaica rusticidade e beleza", e, inconformado, mandara abrir seteiras na dos Moraes. Chamado ao "Alto dos Borrotes" para fazer o trabalho de alvenaria e cantaria, Teodoro Barba-de-Bode, sabendo da inimizade que reinara outrora entre Antônio Moraes e meu Padrinho, Dom Pedro Sebastião, foi me consultar, indagando se devia, ou não, aceitar a incumbência, temeroso que estava "de sofrer algum malefício, por trabalhar naquela casa, ocupada por gente que pertencia ao partido do Diabo".

- Vê-se que o senhor instruiu bem os membros de seu Partido subversivo! - disse vivamente o Corregedor.

Eu suspirei: - Vossa Excelência já sabe de tudo e assim é melhor que eu confesse tudo de uma vez! De fato, Excelência, sempre achei que guerra é guerra, e, no caso, na luta entre os Moraes e os Garcia-Barrettos, tratava-se da sobrevivência do meu sangue e da minha Coroa! Esse foi o motivo de eu ter explicado a todos os meus amigos que devíamos cerrar fileiras em torno de Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto, Porque Dom Antônio Moraes era do lado do Diabo! Apesar disso, porém, naquele dia eu tranqüilizei Teodoro. Disse que ele podia, sem remorso, aceitar a encomenda de Gustavo Moraes, pois era até bom, para nós, que algum dinheiro pertencente ao lado do Mal e do Diabo, passasse para uma pessoa que, como ele, estava do lado do Bem e de Deus_ Expliquei-lhe que, com a morte do nosso velho Rei, Dom Pedro Sebastião, a nossa luta não se acabara, mas tinha assumido uma tática nova. Que, dentro dessa tática, ele devia aceitar aquela oportunidade rara: nenhum de nós tinha acesso à casa dos Moraes. Assim, ele aproveitasse, e entrasse lá, fazendo bem o serviço, mas com os olhos e os ouvidos bem abertos, pois como ninguém dá importância a um pedreiro, talvez lhe aparecesse a sorte de tomar conhecimento de alguma coisa vital, de alguma informação preciosa para o nosso Partido! - Está ouvindo, Dona Margarida? - disse o Corregedor, escandalizado. - Está vendo como esse pessoal é perigoso e sem escrúpulos? Anote, tudo isso é muito importante! Margarida anotou e eu continuei: - Naquele sábado, pois, Teodoro trabalhou a manhã toda, num altíssimo andaime, colocado num quarto situado do lado esquerdo do corredor que ligava a sala de visitas à sala de jantar do casarão. Estava realizando, já, o trabalho de caiação daquele lado, pois já abrira, na parede, as seteiras encomendadas por Gustavo Moraes. Teodoro tencionava, como quase todo mundo na Vila, ir para a rua à tarde, para assistir às Cavalhadas. Tinha tido, aliás, o cuidado de deixar isso bem claro, na véspera: no sábado, largaria o trabalho ao meio-dia, só voltando ao "Alto dos Borrotes" na segunda-feira pela manhã. Aconteceu, porém, que, no dia da chegada de Sinésio, aí pelas onze horas da manhã, Teodoro fez uma pausa em cima do andaime, para descansar, deitou-se um pouco e terminou adormecendo, com a cabeça repousando em cima de uma rodilha de estopa. Com o torpor causado pelo cansaço e pela fome que precede a hora do almoço, dormiu um bocado e ficou lá em cima, esquecido, com o pessoal da casa julgando que ele tinha largado o serviço, conforme o ajuste, e se retirado para a Vila. Todos os serviçais do casarão, atraídos pelas Cavalhadas, tinham descido para a Vila, depois de servido o almoço. A mulher de Antônio Moraes, Dona Eulália, não se dava bem com o marido e nunca estava onde ele estivesse, de modo que tinha ficado na casa que a família tinha no Recife, no bairro da Benfica. Quanto a Gustavo, aí pelas duas horas da tarde seu motorista lhe trouxera o carro com o qual ele nos deslumbrara naquele ano, comprado no Recife por uma fotografia publicada no Diário de Pernambuco e classificada por Samuel como "uma Limusine presidencial ou régia". Apanhara o carro o seguira também para a rua. Não porém para ver a Cavalhada o sim para viajar com a moça Clara Swendson Cavalcanti que ia, com ele, para a "Fortaleza de São Joaquim da Pedra", sua casa, situada numa alta e escarpada praia do litoral do Rio Grande do Norte. Arésio, como já expliquei, tinha desaparecido desde o dia anterior. Desse modo, no vasto casarão silencioso e agora quase deserto, tinham ficado somente o poderoso e sombrio Antônio Moraes, sua filha Genoveva, seu filho. mais moço Miguel - um rapaz doente, considerado meio idiota e ao qual ninguém dava importância - e, finalmente, Teodoro Barba-de-Bode, adormecido nas tábuas horizontais de seu alto andaime. Dormindo, ele não viu o belo almoço da família Moraes, refeição que, segundo Samuel, "constituía, já por si, uma obra de Arte, com uma toalha de linho branco e rendes colocada sobre a vasta mesa, com jarros de prata cheios de vinho e água gelada, e com antigas porcelanas azuis e brancas de Macau". Não viu, também, saírem os domésticos que iam para a Cavalhada, nem ouviu a "limusine régia" de Gustavo arrancar e se dirigir para a rua, guiada pelo motorista vestido de uniforme cáqui, com boné militar e luvas castanhas de couro. E, o que foi mais grave, não viu quando Genoveva entrou po ara seu quarto depois do almoço, deitando-se na cama antiga que lhe servia de leito de solteira. Genoveva usava, naquele momento, um vestido de linho "cor de pérola" que, como tudo o que aquela família usava ou fazia, representava algo de estranho e chocante para todos nós. Ela e seu irmão Gustavo, que lhe era muito afeiçoado, tinham sido os primeiros a exibir em nossa Vila aquele tal gosto meio monacal e, ao mesmo tempo, refinado, pelo que era antigo e esquisito. Uma das surpresas, porém, que o pessoal da Vila tinha quando tentava imitá-los, era descobrir que aquelas aparências de pobreza e despojamento saíam mais caras do que suas riquezas ostensivas e comuns. Outra surpresa era notar que, para o pessoal do círculo de Gustavo Moraes, uma coisa era usar alpercatas de couro por "gosto monacal e refinado", e outra muito diferente era usá-las à força, por pobreza. De qualquer modo, porém, os Moraes, por sua simples ação de presença, estavam começando a influenciar as pessoas mais ricas da Vila; sendo que, entre essas, começou logo a se destacar, dada sua -categoria intelectual e seu abono econômico, a Mãe aqui da nossa Margarida, a Poetisa e jornalista Dona Carmem Gutierrez Torres Martins, que, tendo notícia, por Samuel, das excentricidades e refinamentos de gosto dos Moraes, fazia tudo para imitá-los ao pé da letra, e ardia em ânsias de ser convidada por eles, nem que fosse uma vez, para as recepções do casarão.

Margarida lançou-me outro olhar feroz, mas não tugiu nem mugiu - ou melhor, não berrou nem rinchou, para ser mais sertanejo. Aliás, eu sabia que podia tripudiar à vontade, naquele assunto. A coisa de que ela tinha mais vergonha neste mundo eram as ridicularias intelectuais da Mãe e a caduquice do Pai, de modo que, para que eu não me detivesse na história, deixaria passar qualquer coisa que eu dissesse. Por isso, não comentou e eu continuei: - O vestido que Genoveva Moraes usava naquela tarde era do tipo ditado pelo gosto "monacal e despojado" que, como já disse, só as pessoas ricas podiam usar. De fazenda caríssima, era formado, quase que só, por uma túnica larga, apertada nos quadris por uma espécie de "cordão de São Francisco". Ela, que era alta e morena, de cabelos e olhos pretos, tinha quadris e busto magníficos. Eu não tenho grande atração pelas mulheres morenas, não, Doutor! Samuel, toda vez que começa a se exaltar muito em seus acessos de fidalguia e branquidade, gosta de chamar atenção para minha cor moreno-carregada, e diz que eu tenho "sangue casteado de Cavalo castanho", o que, na linguagem dele, é alusão às pitadas de sangue negro, vermelho, cigano, judaico e mouro que carrego. Não é de admirar, assim, que meu sangue castanho seja tarado pelas moças louras e brancas, principalmente da Aristocracia. Por outro lado, esses "segredos do sangue", como chama Samuel, me fazem pressentir que as moças louras têm uma certa atração por minha cara feita a machado, assim como por meu sangue de cavalo! - disse eu, lançando o olhar mais expressivo que pude conseguir para Margarida, que, fechando a cara, olhou para o outro lado.

Continuei, depois de suspirar: - Pois bem! Apesar dessa tara do meu sangue castanho pelas mulheres agalegadas, digo a Vossa Senhoria, com franqueza, que nunca pude ficar sossegado diante de Genoveva Moraes! Ela era dessas mulheres que, quando entram numa sala, deixam os homens perturbados e as outras mulheres de mau humor. Principalmente porque aqueles peitos magníficos, de que eu falei há pouco, ela tinha o atrevimento de usá-los soltos, por baixo do tal vestido monacal de linho. Diziam mesmo as más-línguas da rua que, "nos dias em que ela estava azeitada, mesmo, usava só o vestido, por cima do couro limpo". Acho que nunca ninguém tinha comprovado isso. Mas bastava o primeiro fato e a simples possibilidade do segundo para escandalizar e indignar metade da Vila e fascinar a imaginação da outra metade. Nos pés, Genoveva usava apenas uma sandália, presa ao tornozelo por uma correia também de couro. Ora, quando, naquele Sábado, Teodoro acordou - aí pelas duas e meia da tarde, mais ou menos - Genoveva estava deitada em sua cama, adormecida, fazendo a sesta. Acontece que a casa da família Villar era uma casa sertaneja típica.

Gustavo Moraes, quando fizera as reformas, o contrário do que esperavam na Vila mas de acordo com as idéias do pessoal da revista Fronteira, deixara de estucá-la para que ela ficasse "com as pesadas vigas de braúna à mostra, de acordo com o estilo ntonasterial e afortalezado do Barroco do áspero século XVIII brasileiro". Assim, os grossos "brabos", as amplas "tesouras" e as pesadas "linhas" de madeira pousavam diretamente sobre as grossas paredes, sustentando o enorme telhado à vista de todo mundo. Os quartos e salas eram separados apenas por meiasparedes, de modo que o nosso Teodoro, do alto do seu andaime, assim que acordou, viu logo a moça Genoveva, deitada no mais completo abandono e desalinho, nos encantos de sua intimidade. E verdade que, na casa, reinava a semi-obscuridade comum ao interior dos casarões sertanejos quando estão de janelas fechadas. Mas a luz das seteiras recentemente abertas era suficiente para aclarar as coisas. Gustavo explicara, aliás, a Samuel, que as seteiras que mandaria abrir tinham dois objetivos. O primeiro, ligava-se to gosto do seu grupo e destinava-se a dar à velha casa "o ar, meio de Igreja, meio de Fortaleza, da arquitetura colonial brasileira". O segundo, era "diminuir a sinistra obscuridade que dominava a casa em certas horas do dia", quando a ventania escaldante dó Sertão obrigava aqueles delicados da Zona da Mata a fechar as janelas "para conservar, dentro da casa protegida pelas grossas paredes, uma temperatura mais fresca e agradável". No terceiro motivo, Gustavo Moraes não falara: era aquele sobre o qual já falei, isto é, o desejo que todos os Moraes tinham de não ficar trás em coisa nenhuma, no que se referia à casa da "Onça Malhada". Assim, naquela tarde, Teodoro, vendo a moça adormecida naquele desalinho de intimidade e aconchego, ficou apavorado, temendo que os Moraes, caso o descobrissem, julgassem que ele ficara ali de propósito, escondido para espreitá-la. Teodoro tinha notícia do gênio violento, orgulhoso, sombrio e maldoso do enigmático Antônio Moraes, e sabia que, se fosse descoberto, não sairia vivo da aventura. Vinham-lhe à lembrança as histórias que corriam na rua sobre um homem que, lá um dia, tinha aparecido morto junto a uma velha casa em ruínas que existia ali por perto, junto da Lagoa salgada situada nas terras dos Moraes. O homem fora morto por um tiro de rifle, e tinha sido encontrado sem o couro da sola dos pés, castrado e todo mutilado a faca, o que indicava que, antes de morrer, tinha sido submetido a terríveis torturas. O caso tinha ficado obscuro, mas dizia-se, na rua, que a morte do homem fora ordenada por Gustavo Moraes, em circunstâncias "que não tinham ficado esclarecidas de propósito, porque havia ali, misturadas, as coisas mais inconfessáveis". Com essa história na cabeça, Teodoro achou melhor se manter, no momento, em absoluto silêncio; quando Genoveva acordasse e saísse do quarto, ele resolveria o que fazer, de acordo com o rumo que tomassem as coisas. Ou recomeçaria a trabalhar, fingindo que tinha saído para o almoço e voltado depois para continuar o serviço, ou procuraria descer sem ser notado, tomando o caminho da rua, o que talvez fosse melhor, uma vez que a casa estava quase vazia. Continuou, portanto, deitado no andaime, parado e calado, sem imaginar que, dali de cima, iria ver lá embaixo, daí a pouco, uma cena que iria aumentar mil vezes mais o perigo -que sua vida porventura estivesse correndo.

Notei que, a despeito de si mesmos, Margarida e o Corregedor estavam acendendo os olhos e as ventas, motivo pelo qual tomei coragem e continuei: - Tinha se passado uma meia hora desde que Teodoro acordara. Contava-me ele no mesmo dia, à noite, que, por maior que fosse seu medo e por mais que tomasse a virtuosa resolução de "não olhar", de vez em quando Genoveva, adormecida, mudava de posição, exibindo tais encantos que todas as suas prudentes decisões eram aniquiladas e ele "olhava". Olhava sofregamente, como quem sabia que essas ocasiões são raras para um pedreiro e é preciso aproveitá-las, sob pena de arrependimento e remorso para o resto da vida. E foi aí, Senhor Corregedor, que, passando um bom pedaço de tempo, Teodoro ouviu o som de passos que vinham pelo corredor. Com as maiores cautelas, virou a cabeça, evitando que o andaime rangesse e revelasse sua presença ali. Viu, então, Antônio Moraes que se aproximava e parou diante do quarto da filha. Ele pareceu hesitar um pouco, mas depois, erguendo a mão, empurrou a porta que, estando apenas cerrada, cedeu e se abriu, dando-lhe passagem. Ele entrou, depondo a um canto, sobre uma arca, o chapéu-de-chile e a bengala. Aproximou-se, então, da cama e olhou a filha durante largo espaço de tempo. Depois, sentou-se à beira do leito e esboçou um gesto que, a princípio, pareceu a Teodoro de simples carinho paternal. O senhor conhece o Romance de Dona Silvana? - Não! - Minha Tia Filipa costumava cantá-lo quando eu era menino. Me lembro dele mais ou menos, e sei que começava assim:

"Andava Dona Silvava pelo corredor acima, viola de ouro levava, vai cantando uma Modinha. Chegou-se pra ela o Pai a quem o Diabo impelia; a cada passo que dava de amores a acometia: - Silvava, tu não te atreves uma noite a seres minha? - Fora uma, fora duas, fora, meu Pai, cada dia, malas Penas do inferno quem por mim las penaria? - Pená-las-ei eu, Silvava, que las peno todo dia.

Já perto da meia-noite, eis seu Pai que a acometia: - Mas se eu soubesse, Silvara, que estavas já corrompida, oh, Ias penas do Inferno por ti não Ias penaria! - Mas esta não é Silvana, é a Mãe que a paria. Também pariu Dom Alardes, senhor da Cavalaria! Também pariu a Dom Pedro, Prinspo da Infantaria", etc.

Quando parei aí, o Corregedor indagou, entre severo e curioso: - O senhor está insinuando que o pedreiro viu, naquele dia, entre Antônio Moraes e a filha uma cena desse tipo? - Senhor Corregedor, foi o que ele me disse! Teodoro julgou, a princípio, que Antônio Moraes estava simplesmente acordando a filha. Assim, a surpresa e o medo que ele teve foram terríveis, quando viu o homem, por cima do vestido, apalpar e acariciar os seios de Genoveva, seios que, segundo ele sabia pelos boatos, deveriam estar desnudos, embaixo. Mas, mesmo assim, parece que, depois de algum tempo, essa carícia por cima do vestido começou a ser insuficiente ao usineiro. Aí, pelo largo decote em forma de barco,

ele acariciou o ombro descoberto e logo insinuou a mão para dentro, acariciando já diretamente a pele macia e o bico dos seios. Como Genoveva não acordasse, dizia-me Teodoro, "o pecado e a doidice daquele homem do Diabo foi crescendo": ele se deitou ao lado da moça e, sem deixar de acariciar o seio com a mão esquerda, deslizou a direita embaixo, por sob o vestido que, com isso, se ergueu. Então, o homem montou, deitando-se sobre Genoveva...

- Que história é essa, Senhor Quaderna! - interrompeu o Corregedor, asperamente, mas já um pouco azougado.

- Foi o que me contaram! - defendi-me.

- E a moça não acordou? - Era o que eu ia dizendo, quando o senhor me interrompeu!

Teodoro disse que, quando Antônio Moraes se montou mesmo, como um pai-d'égua que não distingue a filha das outras potrancas do rebanho, ele teve a impressão de que Genoveva já tinha acordado, pois viu no rosto dela uma expressão estranha, de quem sorria a contragosto. Mas, ao mesmo tempo, ela conservava os olhos meio fechados e a cabeça pendida para trás, de modo que ele não pôde me esclarecer, em sã consciência, se ela estava dormindo ou não, se estava ou não conivente com o que ia se passando. Aliás, explica-se essa dúvida de Teodoro, porque, naquele momento mesmo, apavorado com o que já vira, ele se encolheu no andaime e, com os olhos fechados, os dentes cerrados e o coração batendo, ficou, durante o resto da cena, sem olhar mais nada. Mas o resto da cena durou pouco e, se ele não via nada, não fechara os ouvidos, de modo que logo ouviu um gemido surdo, um gemido abafado, de Genoveva.

O Corregedor, com um ar falso e paternal, voltou-se para Margarida: - Dona Margarida, a senhora me perdoe! - disse ele. - Eu não sabia que o inquérito ia tomar esse rumo, e esse foi o motivo de eu ter aceito o seu gentil oferecimento! Se a senhora acha melhor, interromperei o depoimento, e pedirei ao Cartório que me mande um escrevente qualquer! Não, não tem importância! - disse Margarida, com o ar angélico e martirizado de quem, pelas "Virtuosas Damas do Cálice Sagrado", fazia qualquer sacrifício.

Eu desconfiava, porém, de que suas narinas estavam ofegantes não propriamente de indignação, assim como de que não era a ânsia de sacrifício dos mártires que a fazia manter-se como secretária do inquérito. Mas o Corregedor hesitava ainda e ponderou: - É que, pelo que vejo, terei que investigar certos pormenores sobre o caso e não sei como possa fazer isso, com a senhora aqui! - Vossa Excelência pode continuar, essas coisas não me atingem! - disse Margarida, ficando ainda mais vermelha e agitada do que estava.

- Eu, então, aceito e agradeço, porque, no caso, preciso de segredo absoluto e um escrevente não seria a mesma coisa que a senhora! Muito bem, Senhor Quaderna, vamos então continuar! O senhor, porém, veja como conta as coisas! - Doutor, acho que estou contando tudo do jeito mais discreto possível! Depois que o senhor chamou minha atenção por causa da história de Marcolino com minha burra, tenho procurado ser o mais delicado que sei: até procurado falar difícil eu tenho! Agora, o que não sei é como contar uma história danada como esta de jeito delicado e discreto! O senhor faça o seguinte: vá perguntando as coisas do seu jeito, porque aí fica menos difícil de responder! - Está bem! O senhor disse que a moça proferiu um gemido abafado: na sua opinião, o que foi que houve? O usineiro chegou a - como direi? - a consumar o delito? - Teodoro disse que não sabia me dizer, me garantir mesmo, se sim ou não! - Pode ser, então, que só nessa hora a moça tenha acordado: gritou, com a surpresa, e o Pai então teria abafado o grito, colocando-lhe a mão na boca! - É o que Teodoro acha, também, mais provável, principalmente porque, segundo ele me garantiu, Antônio Moraes permaneceu vestido o tempo todo! - Vestido? - Sim, Excelência, Teodoro afirmou, sempre, que Antônio Moraes não tirou a roupa, nem quando entrou, nem depois! E verdade que isso não garante grande coisa, e Teodoro disse que não podia avançar hipótese nenhuma com segurança, pois somente quando cessaram, embaixo, os ruídos abafados e os murmúrios que se seguiram ao gemido de Genoveva, foi que ele teve coragem de olhar de novo para lá. Já então, Antônio Moraes saía pelo corredor e Genoveva estava de pé, no meio do quarto, com um jeito meio indeciso. Antônio Moraes saiu pela frente da casa, e Teodoro viu Miguel, seu filho mais moço, de pé, na porta do seu quarto, que ficava do outro lado do corredor, defronte da camarinha de Genoveva. Pela posição em que Miguel estava, era impossível afirmar, também, se ele vira ou não alguma coisa do que se passara. Genoveva saiu do quarto para o corredor. Ao se deparar com o irmão, os dois se olharam um pouco, em silêncio. Depois, Miguel voltou a entrar no quarto, fechando a porta atrás de si, e Genoveva, cabisbaixa, saiu para os lados da sala de visitas, a da frente. Teodoro, aproveitando a oportunidade, desceu como um gato a escada do andaime, cruzou o corredor na ponta dos pés para o lado da cozinha e, saindo por trás da casa, entrou no mato do cercado, fez uma grande volta pelo Açude do Estado - evitando, assim, de passar pelo pátio da frente - e conseguiu chegar à Vila sem que ninguém o visse. A noite, passados já os acontecimentos terríveis que se desencadearam com a chegada de Sinésio, foi me procurar na "Távola Redonda" para me contar a história e pedir instruções. Eu o aconselhei a calar a boca, porque, de fato, se a história se espalhasse, os Moraes eram gente para acabar com a vida dele em poucas horas. Garanti-lhe silêncio da minha parte e despedi-o, porque tinha muita coisa a pensar e decidir, naquela noite terrível, decisiva para todos nós. Assim, Senhor Corregedor, esta é a primeira vez que conto esta cena diante de terceiros. Fiz isso em atenção ao senhor e atendendo a sua ordem de contar tudo, tintim por tintim! - Muito bem! - disse o Corregedor, novamente impenetrável. - E as outras pessoas que o senhor considerou afetadas pela chegada do rapaz?

FOLHETO LXVII

0 Emissário do Azul e as Juras de Castidade - É o que passo a contar a Vossa Excelência! - continuei. - Peço, aliás, toda a sua atenção, porque o que vou contar agora envolve, ao mesmo tempo, três pessoas que foram de importância decisiva para o destino de Sinésio, isto é, Gustavo, Clara e Heliana. Acontece que, enquanto em sua casa se passavam esses estranhos acontecimentos, Gustavo Moraes, no automóvel, em viagem para o Rio Grande do Norte, mantinha com Clara, irmã mais velha de Heliana, uma entrevista importantíssima. Ele realizara, há dois dias, uma viagem secreta para a "Fortaleza de São Joaquim da Pedra", onde conversara com o pai de Clara, combinando com ele aquela viagem de regresso da moça que tinha passado uns dias em nossa Vila. Agora, apanhara-a no "casarão das pinhas" onde ela estivera hospedada e que pertencia a uns parentes seus, o pessoal da família do Major Liberalino Cavalcanti de Albuquerque. Com Clara, fazendo-lhe companhia para a viagem, viera uma velha parenta sua que, daí a dois dias, deveria regressar com Gustavo no automóvel, deixando a moça em casa, com o Pai. De modo que, no "automóvel presidencial" de Gustavo iam agora, ali, pela estrada, para o Rio Grande do Norte, o motorista e a velha parenta na frente, e, no banco traseiro, ele e Clara. Gustavo, Senhor Corregedor, era um rapaz esbelto, de estatura pouco acima da mediana. Diferentemente do resto dos Moraes, que eram todos morenos, mas de um moreno que era carregado e sombrio em Antônio Moraes e corado e viçoso em Genoveva, Gustavo Moraes era moreno-claro e pálido, com lábios estranhamente e desagradavelmente vermelhos. Tinha o rosto fino e cabelos pretos bastíssimos, lisos. Sua barba era tão cerrada e escura que ele a raspava duas vezes por dia. Por isso, seu rosto fino, pálido nas faces, era de um azul-esverdeado nas mandíbulas, no queixo e no pescoço, sombreados pela barba preta, cuidadosamente escanhoada. Vendo o aspecto dele, não era necessário nem um Mestre, como eu, nas pduas Astrologias, a Onomântica e a Transcendental, para fazer Seu "diagnóstico astroso": qualquer simples "curioso" em Astrologia via logo que se tratava de um capricórnio-saturnal. Como Vossa Excelência deve saber, o "Capricórnio" - ou, sob sua forma férrea, a "Cabra" - é um signo governado, em Trono noturno, elo influxo maléfico-esverdeado de Saturno, com a presença e atuação do verde-lodo, da safira, do chumbo e do óxido de enxofre. Acho que, de todos os personagens que comparecem a esta história, era Gustavo Moraes o que eu conhecia menos bem. 0 motivo disto era, primeiro, o orgulho dos Moraes que, na Vila, só convidavam praticamente o Doutor Samuel Wan d'Ernes, "por ser, como eles, um Fidalgo dos engenhos pernambucanos, exilado e perdido nesta bárbara e bastarda terra do Sertão". O segundo motivo, era o ódio mortal que existia entre eles e a família de meu Padrinho, Dom Pedro Sebastião. Os Moraes eram uma família muito rica, de usineiros pernambucanos. Estabelecera-se em Taperoá principalmente em busca do algodão e dos minérios sertanejos, que estavam começando a ser explorados naquele tempo. Só se entendia a presença, em nosso fim de mundo, do sombrio e orgulhoso Antônio Moraes pelo fato de ele ter se tornado sócio e testa-de-ouro de uma empresa estrangeira. De fato, já naquele ano, como Clemente e Samuel nos explicaram, a "Sanbra" e a "Anderson Clayton", firmas anglo-americanas e judaicas, tinham começado a disputa dos nossos mercados de algodão e "outros grupos enigmáticos, a serviço d'Eles, estavam se apossando dos minérios de cobre e tungstênio da Paraíba". Segundo Clemente, "essa era a origem escusa de toda aquela escusa fortuna de Antônio Moraes", a quem, por causa dessas interpretações, eu hesitava e hesito ainda em outorgar o tratamento de Dom. Logo que viera se estabelecer entre nós,. Antônio Moraes comprara uma grande propriedade, os "Angicos". Segundo dizia a Samuel, chegara à conclusão de que a indústria açucareira de Pernambuco estava ultrapassada e encaminhava-se para a falência. Por isso, resolvera mudar de atividade e os minérios do Cariri eram fundamentais para isso. Clemente porém dizia que aqueles montes e montes de pó-de-pedra que reluziam nas beiras dos caminhos dos "Angicos" continham coisas muito enigmáticas e perigosas. Eram "minérios raros, indispensáveis às industrias bélicas d'Eles". De fato, logo depois, Antônio Moraes começou não só a extrair, mas também a comprar barato umas pedrinhas pretas que ele chamava de "colombitas" e que mandava para o Recife, onde elas eram embarcadas em navios, embaladas em grandes caixas de madeira destinadas "a Eles". De uma forma ou de outra, estabelecido nos "Angicos", ligado às companhias estrangeiras pelo algodão e pelos minérios, Antônio Moraes começou a querer rivalizar com Dom Pedro Sebastião sobre o domínio do nosso Reino do Cariri. Como, além disso, tivesse surgido entre os dois uma questão de terras por causa de um pedaço estéril de Tabuleiro que separava as duas propriedades e pelo qual ninguém entendia que dois homens tão ricos e poderosos se batessem tão violentamente, um ódio mortal surgira entre os dois Fidalgos, que viveram se odiando até a morte do velho Rei, em 1930. Os negócios principais da "Onça Malhada" eram os couros, o algodão e as pedras preciosas. Os de Antônio Moraes eram os minérios, de modo que eles poderiam, talvez, ter convivido sem briga. Mas como, ao lado disso, Antônio Moraes tivesse se aliado à "Sanbra" e, a princípio por influência do gringo campinense Christiano Lauritzen, tivesse introduzido novps métodos industriais de beneficiamento de algodão em Taperoá, a separação, a luta e o ódio entre os dois aumentaram a ponto de a situação ficar insuportável. Não é preciso dizer que essa separação e esse ódio tomaram também, imediatamente, o caráter de luta política. Foi assim que, na "Guerra de Doze" que ensangüentou o Sertão paraibano em 1912, o nosso velho Rei do Cariri tomou o partido do Coronel Rego Barros, dos Dantas e do Bacharel Santa Cruz, representantes do velho Partido Liberal do tempo do Império; Antônio Moraes imediatamente tomou o outro lado, o do Senador Epitácio Lindolpho da Silva Pessoa, herdeiro do Partido Conservador e do primeiro partido republicano do Senador Venâncio Neiva. Também foi por causa disso que, em 1930, na "Guerra de Princesa", Dom Pedro Sebastião tomou o partido dos Sertanejos comandados pelo Coronel José Pereira, e Antônio Moraes o da Polícia e do governo do Presidente João Pessoa. Assim, por causa desses ódios entre as duas famílias, eu não conhecia Gustavo tão intimamente quanto conhecia Arésio, Silvestre e Sinésio. Quanto à moça Clara, eu a conhecia sempre melhor, desde o tempo em que servira de emissário de meu Padrinho, Dom Pedro Sebastião, junto ao Pai dela, o "gringo" Dom Edmundo Swendson, sócio do velho Rei Degolado no negócio dos couros e das pedras preciosas. Aliás, para que Vossa Excelência não estranhe o nome das duas Damas jovens e alouradas que desempenharam papel tão terrível no destino de Sinésio, devo lembrar que são umas quatro ou cinco as estirpes fidalgas nórdico-sertanejas e flamengo-nordestinas que existem entre nós: os Wan der Leys, os Wan d'Ernes, os Von Sohstens, os Lauritzens e outros, alguns deles chegados no século XVII, outros depois, mas todos importantes. Os Swendsons e os Lauritzens são dos mais recentes. O primeiro Swendson veio para cá com aquele outro Fidalgo sertanejo-dinamarquês, Dom Christiano Lauritzen, Senhor da Vila Nova da Rainha de Campina Grande. Como sabem todos os bons historiadores e genealogistas do Nordeste, Dom Christiano Lauritzen veio para o Brasil no século XIX. Deixou o Recife e o Litoral, e veio se estabelecer em Campina Grande, onde se casou com a filha de um Fidalgo sertanejo, Dom Alexandrino Cavalcanti de Albuquerque, Senhor da fazenda "Cabeça-do-Boi". Dom Alexandrino, como se vê por seu nome, pertencia ao ramo sertanejo e paraibano dessa famosa estirpe fidalga dos Cavalcantis de Albuquerque, da qual descende. todo nordestino que se preza, motivo pelo qual todos nós nos consideramos descendentes de El-Rei Dom Dinis, o Lavrador, distinto soberano e Cantador português, quase tão bom, em seu tempo, como Francisco Romano e Inácio da Catingueira no nosso. O casamento do dinamarquês Christiano Lauritzen com Dona Elvira Cavalcanti de Albuquerque integrou definitivamente o "gringo" na Aristocracia brasileira e foi origem de uma nobilíssima progênie que ainda hoje abrilhanta o nosso sertão da Paraíba. Quanto a Dom Edmundo Swendson, veio ele da Dinamarca, com Christiano Lauritzen, e casou-se com outra Cavalcanti, parenta de Dona Elvira, mas do ramo dos Cavancantis do Sertão da Serra Negra, sertão que se estende da Paraíba até o Rio Grande do Norte. Os Cavalcantis de Albuquerque Lauritzen fixaram-se na velha sesmaria da "Cabeça-do-Boi", situada a umas cinco ou seis léguas de Campina Grande, em pleno Sertão do Cariri, numa das regiões mais ásperas e pedregosas da nossa Província. Os Cavalcanti-Swendsons, com Dom Edmundo à frente, dedicaram-se ao tráfico das pedras preciosas, motivo pelo qual resolveram se fixar no litoral do Rio Grande do Norte. Num grande monte pedregoso, situado a pique sobre o Mar, ali bem perto do lugar em que o Vaqueiro vira a Bicha Bruzacã sair dos lombos do verde Tigre para as terras fogosas do Sertão, Edmundo Swendson encontrou uma velha, grande e quadrada Fortaleza do século XVII, com torreões seteirados nos quatro cantos e com velhas paredes de pedra subindo muito alto, numa linha inclinada que, partindo das rochas batidas pelo Mar, davam àquela Fortaleza um aspecto ao mesmo tempo de cadeia, de quartel e de Castelo à beira-mar. Dom Edmundo comprou, por uma ninharia, todo o pedaço de terra onde estava a velha e maciça Fortaleza; e o pessoal que morava por perto achou a coisa mais esquisita do mundo "aquele gringo comprar exatamente o trecho de praia mais alto e pedregoso, sem coqueiros nem cajueiros que dessem lucros". Espantar-se-iam ainda mais quando "o gringo" começou a limpar o entulho que recobria a velha Fortaleza, restaurando-a em suas linhas originais e trazendo sua mulher para morar com ele, ali, "naquele fim de mundo e naquele lugar soturno". De fato, porém, Dom Edmundo Swendson precisava de um lugar que, servindo-lhe de casa, servisse também de ancoradouro à frota de barcaças que ele adquiriu e aumentou aos poucos, na medida das necessidades do seu comércio de couro e pedras preciosas. Só depois e aos poucos também, por intermédio de meu Padrinho que financiara, como . sócio, os primeiros negócios de Dom Edmundo, é que fomos sabendo todos esses pormenores. Quando eu o conheci, seus negócios já cobriam o Nordeste inteiro, o iam do ouro do Piancó ao berilo e às águas-marinhas do Sertão do Picuí. Isto sem se falar de outros negócios que ele realizava lá para os lados do Sertão do Rio São Francisco e que incluíam o mármore, os couros de boi, de bode e de carneiro. As barcaças da frota do "gringo" eram, aliás, construídas nesse Sertão do São Francisco. Eram maiores do que as barcaças comuns; movidas a vela, tinham na frente aquelas "carrancas" que costumam colocar nos barcos do Rio São Francisco. No nosso litoral, as barcaças, além de menores, não têm carrancas, de modo que os barcos do "gringo" foram encarados como novo fator de estranheza para o pessoal da Praia. Como dizia Samuel, esses barcos "com as figuras rostrais esculpidas na proa pareciam verdadeiros e antigos Navios de madeira", o que, aliás, tivemos oportunidade de verificar na viagem que fizemos neles e que marcaria um dos episódios mais importantes da "odisséia marítima" de Sinésio, o Alumioso. Essas barcaças de Dom Edmundo subiam e desciam o Rio São Francisco. As maiores iam somente do Mar até Penedo, onde pegavam a carga deixada pelas menores, que desciam até ali desde o Sertão das Piranhas. De Penedo então voltavam as maiores, subindo pelo Mar para o Norte e fazendo escala em Maceió, em Barra do Camarajibe, em Tamandaré e São José da Coroa Grande, até chegarem à Barra do Rio Suape, em Pernambuco, lugar onde Dom Edmundo Swendson tinha outra casa, perto da Fortaleza de Nazaré do Cabo. Daí, com outras escalas em Itamaracá e na Baía da Traição, da Paraíba, chegavam até a antiga "Fortaleza de São Joaquim da Pedra", o Castelo rochoso, situado à beira-mar, no litoral do Rio Grande do Norte, a tal Fortaleza da qual eu vinha falando. Fora assim, Senhor Corregedor, o Fidalgo nórdico-sertanejo Dom Christiano Lauritzen quem pusera seu compatriota Edmundo em contacto com Dom Pedro Sebastião, Rei do Cariri; e eu acredito que, se Christiano Lauritzen não tivesse morrido quando morreu, as relações existentes entre os Garcia-Barrettos e os Cavalcanti-Swendsons não teriam se rompido depois da morte de meu Padrinho, com repercussões tão terríveis sobre o destino das duas filhas moças de Dom Edmundo - Clara e Heliana - e dos dois filhos varões legítimos de meu Padrinho - Arésio e Sinésio. Mas, quando se trata dessas questões de sina, de destino, parece que uma espécie de cegueira se abate, mesmo, sobre todos os implicados, Senhor Corregedor! Eu mesmo, desde o começo, tinha elementos que me possibilitariam prever tudo o que ia acontecer. Sabia que Dom Pedro Sebastião era amigo e sócio do Fidalgo dinamarquês-sertanejo.

Mas, cego, nunca pensei que fossem dar no terrível resultado em que deram os "cruzamentos de sangue e de destino" que ocorreram entre Sinésio, nosso Príncipe da Legenda Ensangüentada do Sertão, e as duas filhas de Dom Edmundo Swendson, Dona Clara, a loura, e Dona Heliana, a dos olhos verdes, que foi o grande amor de sua vida. Clara era a filha mais velha de Dom Edmundo e de Dona Catarina Cavalcanti de Albuquerque, naquele tempo já falecida. Puxara mais à raça do Pai. Era mais alta do que baixa, tinha grandes olhos redondos e azuis, os cabelos de um louro bronzeado,

o nariz reto, o queixo e as ancas firmes. Quem conhece, como eu, o folheto da Descrição das Mulheres por seus Sinais notaria que ela tinha quatro defeitos físicos que, como acontece sempre nas moças bonitas, eram, nela, quatro encantos a mais: suas panturrilhas eram um pouco espessas e musculosas, contrastando de

modo um pouco forte demais com os tornozelos e os joelhos finos, suas pernas eram um quase-nada arqueadas, sendo que na direita havia, entre o joelho e o tornozelo, na parte de fora, um sinal arredondado, claro; a testa ampla contrastava, um pouco mais do que o permitido, com o queixo, que era forte nas mandíbulas mas fino na ponta; e finalmente, quem olhasse durante tempo suficiente seu dorso, notaria que a espádua direita era um pouco mais alta do que a esquerda. Clara herdara esse último defeito de sua Mãe. Mas, em Dona Catarina, a diferença entre as duas espáduas era mais pronunciada, principalmente porque seus ombros eram magros e um pouco altos, ombros de asmática. Os ombros de Clara, porém, eram cheios, servindo de remate a braços esplendorosos. Era isso que transformava num encanto a mais aquela espádua um pouco abaulada que, em sua Mãe, era realmente um defeito físico. Clara, porém, não tinha consciência dessas diferenças; e a humilhação que sentira desde menina por aquilo que julgava ser uma espécie de mancha ou vergonha familiar hereditária, dava a seus olhos azuis uma tristeza, uma certa altivez melancólica que os salvavam da frieza ou da insignificância que se casam, na maioria das vezes, a essa cor. Por outro lado, tenho hoje a convicção, Senhor Corregedor, de que a espádua alta e o sinal da perna não eram senão a marca que a Divindade apusera nela para dar um aviso aos demais; eram a marca do Terrível, a marca que fazia de Clara uma "assinalada"; ainda que, como os acontecimentos posteriores iriam demonstrar, muito mais assinalada e terrível do que ela fosse sua irmã, a doce, bela e sonhosa Heliana, a moça dos olhos verdes

o das mãos cobertas que foi como urna pedra-de-raio a fulminar o destino de Sinésio.

- Eram, pois, mais ou menos as duas e meia da tarde daquele Sábado, Senhor Corregedor! - continuei. - Gustavo Moraes tinha apanhado Clara no casarão das pinhas e agora viajavam pela estrada que, cortando o Cariri, entra, perto da Vila do Junco, para a do Seridó do Rio Grande do Norte. Iam por aquela região áspera que, naquele junho, já começava a ficar crestada, pois o estio de 1935 começou antes do tempo. A conversa entre os dois parecia meio difícil, quase penosa, mesmo, entremeada, segundo me contaram depois, de pausas, de pensamentos ocultos e de subentendidos.

- Como foi que o senhor tomou conhecimento disso? - Senhor Corregedor, lembro mais uma vez que sou um Epopeieta, de modo que tenho certas liberdades que me são outorgadas pelo Gavião macho-e-fêmea e sertanejo que me serve de Musa. Entre essas liberdades, está a de adivinhar e profetizar as conversas que não ouvi! - Está certo, mas isso aqui ainda não é a Epopéia: é um depoimento que, depois, vai lhe servir de material bruto para ela e, para mim, de processo. Assim, deixe de lado suas liberdades de Epopeieta e seja claro. Como foi que o senhor soube dessa conversa? - Está bem, vou dizer a Vossa Excelência! Não lhe escondo que, como Astrólogo e dizedor de sortes, mantenho, na "Távola Redonda", um consultório astrológico e sentimental onde comparecem moças, rapazes, cavalheiros e senhoras dos mais poderosos desta Vila! Assim, as histórias que ouço diariamente, lá, são as mais incríveis! Raras são as pessoas, aqui da rua, cuja vida íntima eu não conheça, às vezes nos pormenores mais comprometedores! Olhe, Senhor Corregedor: eu estou com quarenta e um anos de idade, e ainda fico espantado com a facilidade que as pessoas têm de contar certas coisas e de conversar na frente dos outros sobre os assuntos mais íntimos. Isso acontece muito quando o terceiro é uma pessoa colocada abaixo dos que conversam: parece que eles julgam essas pessoas cegas ou surdas, incapazes de entender qualquer coisa! Pois foi o que aconteceu naquele dia com Gustavo e Clara. Eles conversavam, no carro, na presença do motorista e da velha parenta que, dentro dos nossos costumes sertanejos, servia de companhia à moça em sua viagem. Daí os subentendidos e alusões secretas da conversa. Acontece, porém, que aquela senhora idosa, que eles pareciam julgar cega, surda, muda e burra como uma porta, tinha me tomado, há muito tempo, como confidente e consultor astrológico. Ao contrário do que julgavam, tinha uma maldade cortante, uma má-idéia sistemática sobre as pessoas, o que lhe dava um faro de cachorro para descobrir os segredos e as maldades dos outros. Foi ela quem me contou tudo, e com uma argúcia, uma penetração que teriam deixado Gustavo assom416 brado, caso tivesse tido conhecimento de nossa conversa. Aliás, Senhor Corregedor, tendo-se em vista que a chegada de Sinésio se daria cerca de uma hora depois, a conversa de Clara com Gustavo parecia comunicada de alguma coisa de profético ou de pressentimento. Gustavo vestia calças de uma fazenda meio aveludada, de cor vinho-castanha. O paletó era de linho branco, desses que a gente chama aqui de "lonado". A camisa era azul. Os sapatos, pardos, e as meias azuis, da mesma cor da camisa. Estava com gravata verde-clara e trazia bengala de castão de prata, que segurava com as duas mãos, apoiada verticalmente no chão do carro. De vez em quando, nos momentos de maior reflexão, apoiava o queixo sobre o castão da bengala, baixando a cabeça e entrecerrando os olhos, num gesto que lhe era habitual e que estava sendo imitado por tudo quanto era de intelectual da nossa Vila. Conto todos esses pormenores para dar a Vossa Excelência uma idéia da impressão, do espanto que ele vinha causando na rua, com aquelas elegâncias tão diferentes das nossas. Até a data de sua chegada recente do Recife, o homem elegante que nos surpreendia e esmagava a cada instante com sua superioridade e sua originalidade nesse campo, era o Doutor Samuel Wan d'Ernes. Quando, porém, Gustavo de Moraes apareceu entre nós, depois de tantos anos de ausência, desbancou em dois tempos o nosso Promotor que, sem outra alternativa para se sair bem do cotejo, escondeu sua humilhação e seu despeito atrás de furiosas comparações entre sua própria "sobriedade" e a "pretensão" e o "espalhafato de mau gosto" das roupas de Gustavo Moraes. Isso não o impediu, porém, mesmo cobrindo o rival de remoques, primeiro de invejá-lo e depois de imitá-lo furiosamente, quase morrendo de alegria e orgulho depois que passou a ser convidado para a casa dos Moraes. Quanto a Clara, vestia, naquele momento, um vestido preto, meio transparente, com ramagens lilases, que se casava maravilhosamente com seus cabelos louros. As meias cor de creme, finíssimas, ajustavam-se perfeitamente às pernas, cobertas pelo vestido até pouco abaixo do joelho. Corretamente sentada no banco traseiro do carro, tendo juntos os pés calçados de sóbrios sapatos pretos, repousava ambas as mãos sobre os joelhos que elas ajudavam a se manter unidos. Ouvia Gustavo com uma expressão indefinida, entre atenta e sonhadora. E Gustavo falava, falava sem cessar, como era, aliás, seu hábito. Tudo o que ele dizia, tinha sempre bom gosto, elegância e originalidade, "um bom gosto e uma inteligência até excessivos", como notou Samuel a princípio, "uma originalidade meio artificial que terminava causando uma sensação de mal-estar, uma frieza e uma agudeza meio assustadoras, que afastavam toda possibilidade de haver alguma coisa de vivo e de bondoso naquela alma". Mas isso eram sutilezas de Samuel, no tempo em que ainda não fora recebido pelos Moraes. Nós todos, sem nos importarmos com suas análises, nas raras ocasiões em que tínhamos oportunidade de ver e ouvir Gustavo, ficávamos seduzidos e embasbacados pela inteligência e pela novidade de tudo o que ele dizia. Naquela tarde, pois, Gustavo dava conta a Clara da viagem que fizera dois ou três dias antes, por aquela mesma estrada, para a "Fortaleza de São Joaquim da Pedra", onde fora se entender com o Pai dela sobre vários assuntos, sendo um deles a viagem que agora fazia, levando Clara de volta para casa. Gustavo dizia a Clara:

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