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A pedra do reíno e o Principe do Sangue do Vai-e-Volta

Ariano Suassuna

-Cheguei lá na Fortaleza na terça-feira, pelas cinco horas da tarde, Clara. Confesso a você que não esperava encontrar aquela casa maravilhosa que encontrei! É verdade que você já tinha me falado nela. Eu já sabia que seu Pai tinha tido o bom gosto de restaurar uma velha Fortaleza, situada à beira-mar, para se instalar nela. Mas, não sei por quê - talvez por causa da Fortaleza de Santa Catarina que é situada, aqui na Paraíba, numa praia rasa, em Cabedelo - eu não esperava aquela Fortaleza enorme, acastelada em cima de pedras altíssimas, batidas pelo Mar! Olhe, Clara, dos séculos XVI, XVII e XVIII, foi isso o que de melhor nos ficou, em Arquitetura! Mesmo a bela arquitetura dos sobrados e casarões é menos bela do que a arquitetura despojada e monacal das Igrejas, Mosteiros e Casas-de-Missões, e do que a arquitetura nobre, maciça, militar e acastelada das Fortalezas do tipo de "São Joaquim da Pedra"! No dia em que cheguei lá, fazia uma tarde fresca e suave, e o sol, já descaindo, iluminava com uma luz dourada as enormes pedras cor de ferrugem, batidas pelas ondas; assim como iluminava, também, as altas e grossíssimas paredes que circundam a Fortaleza, paredes feitas de pedra-e-cal, escurecidas pelo tempo e cujo reboco caiu, roído pelo vento, pelas águas, pelo sal do Mar, de modo que as pedras enormes aparecem com uma nobreza vetusta que comove e nos dá um solene sentimento de respeito. Seu Pai aliás, Clara, teve o bom gosto de só refazer, no velho Forte, o essencial à restauração, não tirando o caráter da velha edificação acastelada e militar!' "Essa expressão, 'o caráter', Senhor Corregedor, assim como outras originalidades da fala de Gustavo estavam em moda nos círculos intelectuais e católico-reacionários da revista Fronteira!", expliquei. "Quando ele as pronunciava, acentuava o que dizia juntando todos os dedos da mão direita e esfregando-os delicadamente uns nos outros, como se estivesse tirando pó das suas pontas, num gesto que trouxera do Recife e que logo se tornaria, também, moda, entre todos os intelectuais que se reuniam em nossa Biblioteca Municipal Raul Machado. Gustavo continuou, dizendo a Clara: "'Meu carro ficou embaixo, abrigado numa construção nova que seu Pai fez, longe da Fortaleza, ao pé do promontório. Subi a pé, passando pela porta situada no lance térreo da construção o encimada pelo Escudo das Quinas. Segui pelo interior do Forte, por uma espécie de túnel ou galeria de tecto abaulado. .. ' "`Sim, é o corredor, como eu e Heliana chamávamos, quando éramos meninas', comentou Clara.

"`Pois o corredor, como diz você, está caiado de novo. Entretanto, sob a mão de cal, a gente pode ver a irregularidade das enormes pedras que dão à parede um ritmo, uma força, uma nobreza conventual realmente admiráveis!', falou Gustavo, novamente esfregando a ponta dos dedos, levantados para cima como uma flor de pétalas fechadas.

"'O resto, então, eu já sei!', disse Clara, com um sorriso leve e uma expressão sonhadora. 'Você subiu por uma escada de pedra que fica no fundo do corredor e faz uma curva, subindo pela direita. Aí, subindo a escada, chegou ao pátio da Fortaleza, lá em cima. Meu Pai, certamente, estava esperando você na porta da casa...' -Que abre a frente para o pátio e para as amuradas do Forte o que é a antiga casa-forte do Capitão que comandava a Fortaleza! Que maravilha é a casa de vocês, Clara! Sinto vergonha porque as nossas melhores famílias brasileiras ainda não se aperceberam de que essas Fortalezas deveriam ser os verdadeiros Castelos da nobreza nordestina, por serem nobres edificações à altura do Castelo, da torre de Duarte Coelho, em Olinda, ou da Casa da Torre de Tatuapara, na Bahia! Enquanto isso, enquanto damos todas essas nobres edificações ao desprezo e ao abandono, seu Pai, um dinamarquês, foi mais sensível do que a nossa Aristocracia, mais atento ao que existe de verdadeiramente grande e forte, como expressão do fundo épico da nossa Raça! Conversei muito com ele, Clara! E um homem, um homem dos meus, um forte, um daqueles que nós deveríamos mandar trazer para aqui às carradas, da Europa, para equilibrar, com um bom contingente godo e nórdico, o caldeamento racial ibérico-brasileiro. Os Fidalgos portugueses e espanhóis como contingente inicial dos nossos melhores o maiores, está muito bem! Minha aspiração é exatamente confirmar e exalçar em nosso sangue o sangue cavalheiresco e católico dos Conquistadores ibéricos! Infelizmente, com o que houve depois, com a mistura de Negros e índios nos contingentes raciais do Povo Brasileiro, precisamos de uma raça nórdica, marinheira e empreendedora, para o sangue do Brasil com que sonhamos!', disse ele, com uma expressão estranha em um entusiasmo meio doentio. 'Isto sem se falar em que nossa própria Aristocracia só teria a ganhar, cruzando o velho sangue ibérico com o nórdico, unindo-se, num tipo só, as qualidades senhoriais das duas Raças, o que, aliás, sucede com sua família. Aqui na Paraíba, há três famílias onde se deu esse feliz caldeamento racial: os Lauritzens, os Von Sohstens e vocês, os Swendsons. Os Von Sohstens, como bons viquingues que são e num grande rasgo de fidelidade ao ímpeto épico e marítimo de sua Raça, estão se dedicando à pesca da baleia, perto de Cabedelo, na Costinha, no litoral da Paraíba. O velho Christiano Lauritzen praticamente fez a grandeza de Campina Grande. Agora, é seu Pai, com esse belo tráfico de pedras preciosas e sua frota de barcaças! Infelizmente, três famílias dessas ainda é muito pouco! O Brasil, depois da nossa vitória, deverá fazer todos os sacrifícios, mandando buscar mil, dois mil, cinco mil homens como seu Pai, pagando-lhes a peso de ouro o serviço único e exclusivo de embelezar nossos homens e nossas mulheres, de procriar, de clarear e alourar nossa Raça, afinando-lhe o sangue, e fazendo-se assim, da nossa terra, um laboratório de experimentação racial, organizado de acordo com um plano preestabelecido! A Raça resultante teria todas as qualidades da nórdica e todas as da latina!' "`E o que foi que você conversou com meu Pai?', perguntou Clara, mudando de conversa e sorrindo um pouco do entusiasmo de Gustavo.

"`Falamos de tudo aquilo que você sabe: de você, da situação do País e da nossa em particular, de mim, dos negócios...' "`E a respeito de Arésio Garcia-Barretto? Você falou na possibilidade do casamento dele com sua irmã Genoveva?' "`Sim, falamos disso, é claro, dada a amizade que havia entre seu Pai e o de Arésio. Seu Pai acha que, se Arésio quer, e Genoveva também, essa é a solução ideal para a situação que se criou. Quando falou nisso, ele me disse que falava como amigo que foi do velho fazendeiro morto e como atual amigo e sócio do meu Pai!' "'E por falar em Arésio e Genoveva, continua tudo no mesmo pé, entre os dois?', perguntou Clara, curiosa.

"`Continua!', disse Gustavo. `Pelo menos, é a minha opinião, não sei nada por intermédio deles! Você sabe Genoveva como é: não fala nada sobre essas coisas, retraída e orgulhosa como sempre foi. Quanto a Arésio, é o selvagem do qual você já tem notícia, apesar de nunca tê-lo visto, não é isso? Não digo assim por antipatia a ele. Pelo contrário! Para falar a verdade, tenho admiração e orgulho por aquilo que, em Arésio, mostra a força e a violência ancestral dos Senhores e Cavaleiros que foram os troncos da nossa Aristocracia! Por mim, o casamento dele com minha irmã se fará!', concluiu ele com uma expressão que fez Clara erguer para ele e logo abaixar de novo seus olhos azuis.

`E o testamento do Pai de Arésio?', indagou ela, depois de uma pausa, e já novamente com os olhos baixos. `Meu Pai falou alguma coisa sobre isso?' "'Seu Pai, como eu esperava, não sabe nada sobre esse pretenso e misterioso testamento! Diz que, em todo caso, se é que ele existe mesmo, ninguém sabe mais nenhuma notícia a seu respeito. O problema não seria nada se o velho fazendeiro degolado não tivesse se casado com a primeira mulher, Dona Maria da Purificação, Mãe de Arésio, com separação de bens, e, com a Mãe do outro, com comunhão de bens! Houve ainda, ao que dizem, algumas doações, feitas em vida do velho, ao rapaz que desapareceu. Agora, porém, no pé em que estão as coisas, se o juiz julgar tudo como nós esperamos, o rapaz será declarado ausente, e tudo será resolvido da melhor maneira!' "`Ausente é a mesma coisa que morto?', indagou Clara, sem levantar os olhos.

"`Para o caso da herança, acho que sim!', respondeu Gustavo, olhando-a fixamente, com uma expressão inquiridora.

"`Quer dizer que, quanto ao mais, não é a mesma coisa?', insistiu Clara com a mesma expressão meio penosa e ainda de olhos baixos.

"`O que é que você quer dizer com isso?', perguntou Gustavo com voz surda.

"`Eu, não quero dizer nada! No entanto, veja que você mesmo, quando falou dele ainda há pouco, não disse o rapaz que morreu, e sim o rapaz que desapareceu.' "`Tanto faz uma coisa como outra, e era o rapaz que morreu que eu queria dizer, porque não há mais dúvida de que Sinésio morreu mesmo!', disse Gustavo, pronunciando com dificuldade o nome do desaparecido. `De qualquer modo, se ele um dia aparecesse, você ainda se consideraria noiva dele?' -Não sei!', falou Clara, como se o assunto também lhe fosse penoso e sempre sem levantar os olhos.

"`Aliás, segundo você me disse', insinuou Gustavo, numa meia-pergunta, `não houve propriamente um noivado comum e firme, entre vocês dois, porque o pedido feito por ele foi feito a seu Pai e de modo inteiramente inesperado. Aliás, feito por ele, não, feito pelo Pai dele! E foi seu Pai quem concordou, não foi isso mesmo?' "`Foi!', assentiu Clara.

"`E, caso ele aparecesse, você se acharia na obrigação de manter a ele essa palavra, dada por seu Pai, cinco anos atrás?' "`Não sei!', repetiu Clara. `Qual é a opinião de meu Pai? Você falou com ele a respeito disso?' "`Falei muito por alto, porque, por culpa sua, Clara, eu não tinha uma atitude definitiva na qual me basear para falar com ele sem indiscrição de minha parte!', disse Gustavo; e como Clara deixasse passar sem comentário aquelas palavras, por culpa sua, que ele acentuara de propósito, continuou: `Falei com seu Pai somente por alto. Ele me contou que você tinha noivado com esse Sinésio com o consentimento dele e atendendo a um pedido, feito por carta, do Pai do rapaz. Naquele tempo, o Pai de Sinésio e o seu eram sócios e amigos, de modo que o consentimento era quase obrigatório! Seu Pai me deu a entender, porém, que, com a morte do Pai, a desaparição do filho, e as modificações havidas nas relações entre as duas famílias, ele se considerava desobrigado em relação a esse noivado. Mas falou somente quanto à parte pessoal dele, é claro; disse que, quanto a você, só você mesma poderia decidir!', concluiu ele; e, vendo que Clara se mantinha em silêncio, um lampejo de fria cólera passou por seus olhos. Mas ele logo se dominou, graças a sua boa educação. Depois de uma pausa, falou de novo, perguntando: "`Você já se decidiu?', o que disse forçando sua natureza e seus hábitos de perfeito cavalheiro, uma vez que, formulando essa pergunta, não deixava de incorrer numa intromissão direta na vida íntima de Clara. Mas a moça fugiu, de novo, a uma resposta direta: "`Não sei!', disse ela, lentamente. E acrescentou, pesando as palavras: `De qualquer modo, esteja Sinésio vivo ou morto, fique eu noiva dele ou não, casasse ele comigo ou não, isso não significaria nada diante do juramento que eu e você fizemos, não é mesmo?' "Parece, Senhor Corregedor, que havia qualquer coisa de envenenado nas últimas palavras de Clara. Gustavo empalideceu muito além do que já era, ficando com um ar de sonâmbulo. Seus lábios, normalmente vermelhos daquela maneira desagradável a que já me referi, estavam inteiramente descorados, e foi assim que ele falou: "`O nosso juramento! Você o manteria, de qualquer modo?' "`Sim, estou disposta a mantê-lo de qualquer maneira! E você?' "`Também! Sou capaz de repetir as palavras dele, agora, diante de você, como uma renovação de votos! É o sagrado juramento corintio da nossa Ordem da Esmeralda do Graal, o juramento dos nobres, dos raros e dos poucos!' "Então, Senhor Corregedor, depois dessas palavras estranhas, sempre com um ar meio esquisito de possesso do `mal sagrado', Gustavo tirou um pequeno Evangelho ou Missal do bolso interno do paletó e recitou as seguintes palavras, que, instruído pela velha parenta, localizei e copiei: `0 corpo não é para a fornicação, mas para o Senhor, e o Senhor é para o corpo. Fugi da fornicação. Todos os outros pecados que o homem cometer, são cometidos fora do corpo; mas aquele que comete fornicação, peca contra seu próprio corpo. Digo que seria bom para o homem não tocar em mulher alguma! Porque eu quero que todos vós sejais como eu mesmo (que não toco em mulher). Digo também aos solteiros e às viúvas que é bom para eles permanecerem assim (castos) como eu. O homem que está sem mulher, está cuidadoso das coisas que são do Senhor, de como há de agradar a Deus. Mas o homem que está com mulher, está cuidadoso das coisas que são do mundo, de como há de causar prazer a sua mulher. E assim, anda dividido. E a mulher solteira e virgem, cuida nas coisas que são do Senhor, para ser santa no corpo e no espírito. Mas a mulher que é casada, cuida nas coisas que são do mundo e de como dará prazer a seu marido. Assim, aquele que casa sua filha virgem, faz bem. Mas aquele que não a casa, faz melhor!'"

- Quando Gustavo acabou de dizer essas palavras, Senhor Corregedor, Clara estava olhando para ele com uma expressão também estranha e enigmática. Ninguém poderia dizer o que estava se passando exatamente por trás daqueles belos olhos azuis, naquele momento mais frios do que de costume - se zombaria, se uma fria aversão, ou se amor. Talvez fosse uma mistura de tudo isso. Entretanto, ela não fez nenhum comentário sobre o que ouvira. Como se lhe tivessem ocorrido outras lembranças, situadas numa outra ordem de idéias, perguntou: "'E minha irmã Heliana?' "`Que é que tem Heliana?', indagou Gustavo, um pouco surpreso com a mudança de rumo da conversa.

`Você esteve com ela?', insistiu a moça.

"`Não, não estive propriamente com ela! Tentei falar-lhe, uma vez, mas ela fugiu.' "`Onde estava ela, quando você a viu?' "`No pátio da casa, perto da amurada que dá vista para o mar, lá embaixo. Estava olhando para longe, com expressão distraída, na direção de quatro ou cinco barcaças que estavam ali ancoradas, com as velas frouxas mas ainda não enroladas. Que beleza é a frota de barcos de seu Pai, Clara! As barcaças mais comuns daqui são menores e têm as velas feitas de pano branco. As dele, vindas do Rio São Francisco, como ele me explicou, são enormes, com velas coloridas e com figuras rostrais esculpidas em madeira, na proa. Para lhe ser franco, confesso que sinto até uma sensação de prazer, só em falar nisso! É como se nos transportássemos para os tempos heróicos do nosso País, o tempo dos Conquistadores! Pois Heliana estava ali, sentada naquela saliência que serve de banco à amurada, parecendo, ela também, uma figura fora do tempo, olhando cismadoramente para o Mar verde-esmeralda e azul-turquesa, lá embaixo. Estava com ela a mulher que lhe faz companhia.' "`Chama-se Maria Elvira!', explicou Clara. `O trabalho de Maria Elvira é somente esse: fazer companhia a Heliana para atender a seus caprichos e, ao mesmo tempo, tomar conta dela. Mas, por favor, conte como tudo se passou!' "`Eu fiquei um instante parado na porta da casa, depois de tê-la avistado. Ela parece que me pressentiu, porque, de repente, voltou a cabeça, meio assustada, ergueu-se e depressa, quase correndo, de olhos baixos, fingindo que não tinha me visto, atravessou o pátio e desceu pela escada, saindo do Forte. Você me desculpe eu falar assim, mas ela corria com uma expressão meio selvagem, meio arisca... Não sei, também, se deva lhe contar o que aconteceu depois. .. ' "Por quê?', indagou Clara, franzindo o cenho, mas deixando transparecer, a contragosto, uma certa inquietude no rosto.

"`Você me conhece e sabe que estou lhe falando com o coração nas mãos, de maneira que entenderá, também, que só falo disso porque é a você! Acredite, Clara: sinto até uma sensação de culpa por ter seguido sua irmã, apesar de ter feito isso quase inconscientemente, num impulso! Foi um gesto quase instintivo, de minha parte, aquele de procurar quem parecia fugir de mim! Outra coisa que posso alegar em meu favor é que eu não tinha a menor idéia do que ia se passar! Depois, pensando naquilo que tinha feito, outra coisa que me intrigava era o fato de eu ter evitado que Heliana visse que estava sendo seguida por mim. Por que fiz isso? - tenho me perguntado muitas vezes, de quartafeira para cá. Encontrei duas causas para esse comportamento, tão estranho a meus modos. Primeiro, logo no começo, foi o temor de que Heliana, vendo-me, fugisse de novo, antes que eu pudesse falar com ela, e eu queria muito saber como era a única irmã que você tem. Depois, do meio para o fim, foi a obscura consciência, que começava a me inquietar, da indiscrição que eu estava cometendo! Daí em diante, eu já ficaria era profundamente envergonhado, se fosse surpreendido espreitando Heliana, que defendia sua solidão de modo tão evidente e selvagem. Foi aí que me escondi para que, quando ela se afastasse mais, eu pudesse voltar à Fortaleza sem ser visto por ela. Infelizmente, porém, foi esse também o instante em que Heliana tinha chegado ao lugar que talvez buscava, de modo que ela parou, com Maria Elvira, e eu fiquei encurralado por trás das moitas em que tinha me escondido, obrigado, já, agora, a cometer até o fim a indiscrição da qual há pouco queria fugir. As duas pararam junto a uma espécie de monte de pedras, pedras de tamanho médio, escuras, entulhadas uma por cima das outras, numa encosta situada não muito longe do Mar.' `Heliana estava com alguma coisa nas mãos?', interrompeu Clara, erguendo os olhos e quase ansiosa, ao ouvir a referência de Gustavo ao monte de pedras.

"`Não!', respondeu Gustavo. `Mas a mulher, Maria Elvira, tinha, no caminho da Fortaleza até ali, tirado um pequeno galho de mato, do qual tirara as folhas com um canivete, arrepiando-lhe a casca em tiras, com a lâmina, perto da ponta da varinha.' "'Então, já sei o que aconteceu daí em diante!', disse Clara, parecendo mais aliviada. `Isso que você viu Maria Elvira fazer é um hissope, como a gente chamava, quando éramos pequenas. Vou lhe dizer como tudo se passou, quer ver? Quando elas chegaram junto das pedras, começaram a procurar casas de abelhas, enxuís que por ali se encontram, na loca de alguma pedra maior ou nos buracos formados por duas ou três das menores, amontoadas!' "`Foi isso mesmo!', concordou Gustavo, surpreendido ao ver Clara adivinhar tudo.

"`Elas acharam as abelhas?', perguntou Clara.

"`Acharam, sim!' "Então vou dizer o que houve depois. Maria Elvira deve ter acendido fogo para fazer fumaça e espantar as abelhas.' "`É verdade!', confirmou Gustavo. `O cheiro bom das folhas e madeiras mal queimadas chegava até o lugar em que eu estava escondido. Mas será que você sabe até o que aconteceu depois?' "`Daí em diante, é fácil adivinhar!', disse Clara, agora segura. `Depois de darem bastante tempo às abelhas para que saíssem, tonteadas pela fumaça, Heliana enfiou a varinha no enxu, e as cascas arrepiadas saíram, todas, molhadas de mel. Ela costuma fazer isso desde menina, é louca por mel de abelha, que ela dizia ter gosto misturado de flor e de sol!' "`E você sabe o que é que ela faz com o mel, depois de tirá-lo assim?' `0 que ela faz?', pergunta Clara, perplexa.

"`Bem, pelo menos o que ela fez! Não sei nem como lhe contar isso, eu não devia ter falado!' "`Não conte!', falou Clara, agora entregando-se ao desânimo e à inquietude. `Lá em casa, nós já estamos todos habituados com as estranhezas de Heliana! Não é que eu tenha vergonha nenhuma dela; não acho nada censurável no que ela faz, mesmo quando os outros acham que aquilo é mais do que esquisitice! Vá, diga: o que foi que Heliana fez, então?' "`Desabotoou o vestido!', disse Gustavo com uma expressão falsa e desmentindo, com ela, a resistência que afirmara sentir em contar tudo. `Depois de desabotoá-lo, abriu-o no peito e começou a passar o mel no busto! Nos seios! Para ser mais preciso, nos bicos dos seios!', acrescentou ele com um sorriso forçado, desagradável. `Ela ficou assim, passando o mel nas aréolas, devagar, uma porção de tempo, parecendo distraída e sonhadora. Não sei se era por efeito da luz, mas, do lugar em que eu estava, ela me parecia pálida, com os cabelos compridos soltbs nos ombros, finos, estirados e levemente agitados pelo vento que soprava do Mar. De que cor é o cabelo dela, Clara?' "`Castanho-claro e, como você pressentiu de longe, muito fino o leve. Mas ela não é propriamente pálida, é alva como eu, se bem que não seja loura!', explicou Clara, aliviada por poder desviar o assunto.

"`Foi a impressão que eu tive, pelo menos assim como pude vê-Ia, de passagem e de longe!', disse Gustavo. `Mas os olhos dela são da cor dos seus?' "`Não, são verdes! Ou melhor, são azul-esverdeados! Verdeazulados! Afinal, como é que se diz?', disse Clara, tentando sorrir. E acrescentou, com tristeza: 'Eu lhe peço desculpas, por ela!' "'Desculpá-la, eu? Não, de modo nenhum! Eu sou quem devo lhe pedir desculpa! Aliás, só estou lhe contando isso para, de certa forma, me explicar e me desculpar perante sua família! Eu nunca poderia desconfiar de que iria ver alguma coisa desse gênero!' "`Eu sei!', concordou Clara. `Nós já temos passado por outras situações semelhantes, todas constrangedoras. Heliana sempre foi meio estranha e selvagem, desde menina! Eu me acostumei, e posso dizer que, de certa forma, já posso aceitá-la como ela é. Meu Pai, coitado, é que só falta morrer de desgosto! Acredito que, diferentemente do que você pensou, não foi por espírito de Conquistador ou por fidelidade racial que ele foi morar em São Joaquim, não! É por causa de Heliana que ele prefere viver isolado, naquela Fortaleza afastada, longe de todo mundo! É por causa dessas coisas que, de vez em quando, ele manda Heliana, somente com Maria Elvira como companhia, de barcaça, para Nazaré do Cabo, em Pernambuco, para Penedo, em Alagoas, ou mesmo para o Sertão das Piranhas, onde nós temos uma fazenda. No Cabo, em Pernambuco, existe uma Fortaleza parecida com a nossa, lá, de São Joaquim da Pedra. Meu Pai tentou comprá-la também, para fazer dela outra das nossas moradias. Era conveniente porque ela fica em cima, mesmo, das pedras da Barra do Rio Suape, onde nossas barcaças têm porto e fazem escala. Mas ele não conseguiu comprar a terra da Fortaleza, de modo que ela ficou lá, arruinada, sem restauração. Então meu Pai comprou um terreno alto, perto do Forte, e, defronte da velha Fortaleza, construiu uma casa assobradada. As vezes, nós passamos tempos nesta casa do litoral de Pernambuco, principalmente quando meu Pai precisa controlar melhor as viagens e as cargas das barcaças. Eu evito sempre de ir para lá, já me basta o isolamento de São Joaquim! Mas Heliana adora essas viagens, e meu Pai aproveita esse gosto dela para distraí-la e, ao mesmo tempo, para evitar que ela passe muito tempo num lugar só. Porque, quando acontece isto, Heliana termina sempre fazendo alguma coisa no gênero do que você viu!', disse Clara, com alguma tristeza.

"`Seu Pai prefere você a Heliana, não é verdade?' "`Não sei, talvez. Pelo menos, parece que é o que todos pensam!' -Foi o que concluí, pelo que pude observar e também por certas palavras que ele deixou escapar.' "`Talvez não seja propriamente uma preferência! É que eu sou mais razoável e também muito mais parecida com ele!' "`Notei isso, é estranho!', disse Gustavo, olhando Clara diretamente nos olhos. `Você se parece terrivelmente com seu Pai!' -Terrivelmente? Terrivelmente por quê?' "`Não sei! Acho que disse terrivelmente no sentido de demais. De qualquer modo, foi como elogio que falei, porque, para mim, dizer que você parece com seu Pai é elogio!' "`Para mim, também! Já Heliana, todo mundo diz que ela parece mais com minha Mãe quando era moça, se bem que todos dizem, também, que minha Mãe era muito menos bonita! Minha Mãe era uma pessoa assim, isolada no meio dos outros, como Heliana, se bem que não tanto! De qualquer modo, foi bom que você tivesse visto Heliana como viu, porque, assim, não fica mais enganado!' "`Enganado em que sentido?', perguntou Gustavo, empalidecendo novamente e contraindo tanto as mãos que agarravam a bengala que os dedos embranqueceram. 'O que é que você quer dizer com isso?' -Você poderá ' assim, de olhos abertos, pesar, os prós e os contras da sua amizade comigo!' "`Ninguém pesa os prós e os contras de uma amizade, Clara!', disse Gustavo com a voz meio estrangulada. `Agora, se você dissesse amor, aí seria diferente!' "`Amor?', disse Clara, quase com ironia. 'Eu fiz o juramento dos raros, dos nobres e dos poucos, de modo que sou proibida de tocar em todas essas coisas! Além disso, não sei se sou noiva ou não, porque esse Sinésio que eu só vi uma vez, há cinco anos, e com quem meu Pai contratou meu casamento, muita gente acredita que ele ainda está vivo!' "'Você, Clara, quando quer, sabe dizer as maiores crueldades!', disse Gustavo pondo-se ainda mais lívido.

"'Você também! Acho mesmo que foi com você que aprendiisso e muitas outras coisas mais!', retrucou Clara no mesmo tom. `De qualquer maneira, para mim e para você, e até para Sinésio, caso ele volte um dia, será a mesma coisa, tanto faz que eu seja noiva ou não! Casada ou solteira, casada com Sinésio ou com qualquer outro, eu só daria a ele, ou a esse outro, o amor coríntio, que é puro e casto e que, portanto, pode ser dividido, sem magoar ou ferir ninguém!' "Gustavo olhou para Clara sem dizer nada, Senhor Corregedor. Estava ainda muito pálido e a mão que conduzia a bengala continuava contraída como uma garra, sobre o castão de prata. Ele inclinou a cabeça, como num assentimento, mas não disse mais nada. Ficou com o rosto voltado para fora, olhando a desolada e áspera paisagem do Seridó, coberta de pedras, galhos secos e cardos. A paisagem corria ante seus olhos, com a velocidade do automóvel. E, naquele mesmo instante, Sinésio entrava na rua, montado em seu cavalo branco."

FOLHETO LXVIII

O Caso do Cachorro Malcomportado Quando acabei de contar isso, o Corregedor estava me ouvindo com uma cara meio dura. Perguntou: - Dom Pedro Diniz Quaderna, isso tudo o que o senhor contou agora é verdade, mesmo, ou é "estilo régio"? - Bem, Senhor Corregedor, como eu já disse, soube de todas essas histórias por intermédio de terceiros, e, "como dizia a vaca quando começou a correr atrás de Mestre Alfredo, quem conta um conto aumenta um ponto". Assim, não seria nada demais que eu, por minha vez, aumentasse meu ponto, pois é, mesmo, uma característica das Epopéias essa de seu fogo vir sempre coberto de fumaça. Mas, como "não há fumaça sem fogo", o senhor tenha paciência, "compre cinco tostões de cá-te-espero" e, no fim, com a argúcia jurídica e gaviônica que todos lhe reconhecem, poderá decifrar, com os elementos que estou lhe fornecendo, a estranha Desaventura de Sinésio, o Alumioso e Quaderna, o Decifrador, na Demanda Novelosa do Reino do Sertão! Uma explicação, porém, preciso lhe dar. Já lhe contei que meu Pai me transmitiu sua enorme admiração por José de Alencar. Foi exatamente quando eu começava a aprender com meu Padrinho, João Melchíades, a "Arte da Poesia". Eu já estava furiosamente entregue à leitura dos folhetos, quando li O Guarani. Por isso, entendi logo que, na história de José de Alencar, havia um Rei, Dom Antônio de Mariz, acastelado no seu Solar do Paquequer; uma Princesa loura chamada Ceci; outra morena, chamada Isabel; havia um escudeiro e uma guarda de Doze Pares de França -do Cordão Azul, comandada por Álvaro de Sá. Havia um Príncipe mouro-vermelho, Peri, e os Tapuias-aimorés eram uma espécie de Cavaleiros descalços e Arqueiros, pertencentes ao Cordão Encarnado. Depois, instruído por Clemente e Samuel, vi Joaquim Nabuco escrever sobre José de Alencar, dizendo: "Cecília é um tipo mal esboçado, uma criança que devia fechar melhor a janela à noite (para não estar atraindo a sensualidade brutal de Peri e Loredano com seus encantos). Ninguém sabe se ela amou, ou não, Álvaro de Sá, nem por que amou Peri. Esse Anjo está muito perto de ser um monstro, apesar de seus grandes olhos azuis. Cecília tinha dezoito anos quando se resolveu a acompanhar o Tapuia de tez de cobre para viver com ele no Deserto. Todos querem saber o que vai ser da filha de Fidalgos que se abandona assim a um selvagem, apesar de todo o rubor que lhe tinge de uns longes cor-de-rosa as linhas puras do colo acetinado. Sua prima Isabel tem mais pudor, talvez, mas é de uma sensualidade desenfreada. Mesmo quando ela tinha somente na fisionomia a alma do amor, era já de uma sensibilidade tal que o leve roçar da espiguilha no seu colo aveludado (o da outra era acetinado!) causava-lhe sensações voluptuosas. Isabel é uma bacante. O Senhor José de Alencar só pensou, ao criar essas duas, em formar esse eterno contraste de suas heroínas, as morenas e as louras". Joaquim Nabuco dizia, ainda, que, na obra inteira de José de Alencar só se via era essa eterna e cansativa oposição, "o Corpo com seus instintos de Fera, e a Alma, com sua castidade. O Jumento e o Anjo alternam-se a cada instante, as duas naturezas, a animal e a divina". Depois que li tudo isso, Senhor Corregedor, tive uma iluminação! Vi que, na história de Sinésio, havia uma Princesa loura como Ceci, que era Clara, e outra morena como Isabel, que era Genoveva Moraes. E tomei conhecimento doutra Princesa cuja biografia é narrada também por José de Alencar: é Lúcia, ou Lucíola. O maior encanto, o maior enigma dessa mulher é que ela tem duas naturezas separadas, a de Anjo casto e a de Jumenta no cio. Quando se revelava, nela, a natureza de Anjo, diz José de Alencar que "tudo era branco e resplandecente como sua fronte serena: por vestes, trazia somente cassas e rendas, por jóias, somente pérolas; nem uma fita, nem um aro dourado manchava essa nítida e cândida imagem". Mas, quando aparecia a natureza de Jumenta no cio, tudo era diferente. O narrador de sua história, que a possuiu uma vez, fala disso assim: "O penteador de veludo voou pelos ares, as tranças luxuriosas dos cabelos negros rolaram pelos ombros, arrufando-se ao contato da pele veludosa, e eu vi aparecer aos meus olhos pasmos, nadando em ondas de luz, no esplendor de sua completa nudez, a mais formosa bacante que esmagara outrora, com o pé lascivo, as uvas de Corinto. A posse foi delírio, convulsão de prazer tão vivo que, através do imenso deleite, traspassava-me uma sensação dolorosa, como se eu me revolvesse no meio de um sono opiado sobre um leito de espinhos. O prazer a estorcia em cãibras pungentes. Todo o vinho tinha lhe passado pelos lábios. Agitando as longas tranças negras, retraiu os rins num requebro sensual, imitando os mistérios de Lesbos e o rito afrodisíaco das virgens de Pafos. Mas seu amor era como certas plantas vorazes - a urze das paixões, o cacto selvagem dos nossos campos". Está vendo, Senhor Corregedor? Além disso, José de Alencar esclarece que, quando estava assim, como Asna selvagem no cio, as roupas de Lucíola eram inteiramente diferentes da cassa virginal e branca. Usava ela "um vestido escarlate, com largos folhos de renda preta, bastante decotado para deixar ver as suas belas espáduas. Júbilo satânico dava a essa estranha criatura ares fantásticos entre as roupas de negro e escarlate". Ora, apesar de toda a genialidade de José de Alencar, Joaquim Nabuco descobriu nele um grave defeito. Diz Nabuco, a respeito dessa contradição de Lucíola, que José de Alencar não tinha "o direito de dar uma vida independente, florescente de sensualidade, ao corpo, e uma outra, de virgindade e pureza, à alma". Foi aí que eu vi que podia ganhar minha luta com José de Alencar, porque, com a história de Sinésio, eu poderia ser muito mais completo do que ele, por causa de Heliana, Clara era como Cecília, Genoveva como Isabel: uma, loura e angélica, a outra, morena, ardente e no cio. Mas Heliana juntava tudo isso, não em contradição e separadamente, Senhor Corregedor, e sim em unidade, unindo a Verbena, a urze, a urtiga, o Vinho, o mel das abelhas, e o amor felino da Onça jovem e fêmea, isto é, o negro-escarlate da Paixão e a cassa da Pureza, ambas ardentes. De fato, pelo que pude ver e adivinhar de seu amor por Sinésio, assim era Heliana! E eu, tendo conhecido Heliana como meninae-moça e, depois, como moça e mulher, poderia dizer dela tudo o que José de Alencar disse de tantas outras, sempre separando em muitas o que, em Heliana, era espanto e unidade, fogo e canto do sangue. É que, quando eu e Sinésio vimos pela primeira vez aquela que seria a Dama e princesa de sua vida, ela estava com doze anos, a mesma idade da irmã de Lucíola. Era um fruto verde, como a Emília de Diva. Depois, "aveludada pela pubescência", despertava nela a mulher, na "atitude da corça arisca", assim como Gustavo pôde vê-Ia naquele dia, perto do Mar. O cabelo dela, era como se tivesse sido formado somando-se o louro de Ceci e Clara com o escuro de Lucíola e Isabel, para dar num cabelo castanho-claro, fino, macio, dourado. Seu amor era "vinho, fruto e chamas embebidas em mel" e era daí que se originava também a penugem macia e rara que lhe dourava as coxas "alvas mas amorenadas pelo Sol". Assim, tudo o que lhe disse é verdade e pode ficar documentado em seu inquérito. Mas é, também, estilo régio, e vai me servir, na minha Epopéia, para eu ser mais completo, modelar e de primeira classe do que José de Alencar! - Muito bem! Vá, então, adiante, a respeito dos outros acontecimentos importantes daquele dia! Continuei: - Bom, para contar o que aconteceu ainda de mais importante naquela Véspera de Pentecostes de 1935, devo agora seguir os passos de Arésio desde o momento em que ele soube da chegada de seu irmão Sinésio na Vila. Como já disse, Arésio, desde a noite de Sexta-Feira, estava desaparecido, ausente da casa dos Moraes, onde se hospedara. Ninguém sabia onde ele se encontrava, o que, aliás, era comum suceder com ele, de modo que ninguém estranhou isso, a princípio. Arésio às vezes metia-se no mato durante dias e dias, caçando, o que fazia com uma obstinação e uma ferocidade terríveis. Às vezes, viajava repentinamente, a cavalo, ou então de carro ou na carruagem que fora de seu Pai e que ele, estranhamente, conservava em uso, quando já ninguém andava mais assim, aqui na Vila. Nesse último caso, quando a viagem era feita de carruagem, podia-se, porém, saber que ele ia para uma velha casa arruinada, situada num cercado solitário e selvagem da fazenda dos Garcia-Barrettos. Outras vezes, em saídas que davam o que falar, na rua, durante dias e dias, Arésio organizava grandes "festas saturnais e orgiáticas" na minha "Estalagem à Távola Redonda". As "saturnais" tinham sido batizadas assim pelo Doutor Samuel Wan d'Ernes, que sempre participava delas para beber vinho às custas de Arésio, o qual, nessas ocasiões, entregava-se às fantasias mais desvairadas, às liberalidades mais extravagantes, às mais "enlouquecidas e delirantes dissipações", como dizia o genial Bardo brasileiro, Álvares de Azevedo. Era perigoso contrariá-lo nesses momentos. Não era aconselhável nem ao menos ficar nas suas proximidades, porque Arésio, inesperadamente e sem motivo, agredia, às vezes, o primeiro que aparecia, simplesmente porque não tinha gostado de um olhar insistente e curioso ou interpretara mal um gesto inocente e descuidado da pessoa. Mais de uma vez, Senhor Corregedor, eu o vi quebrar os móveis da "Távola Redonda", atirando-os contra as pessoas ou contra as paredes! - E o senhor não protestava não? - Não senhor! Primeiro, porque seria arriscado. Mesmo gostando de mim como gostava, lá à maneira dele, num momento como esses Arésio podia me desconhecer, e eu estaria gravemente ferido ou morto em dois tempos! Depois, ele pagava sempre em dobro, generosamente, todos os prejuízos que me dava. Finalmente, como, mesmo nos dias de "saturnal" comum e sem quebra de móveis, ele gastasse à larga, dando-me bons lucros, eu não me incomodava absolutamente com suas violências.

Margarida cochichou qualquer coisa no ouvido do Corregedor que se voltou para mim, dizendo: - Dona Margarida está falando, aqui, que foi por intermédio de Arésio que o senhor montou essa casa-de-recurso e tavolagem! É verdade? - É, sim senhor! Arésio sempre demonstrou por mini, em todos os dias de sua vida, uma estima inalterável, uma estima que ele, estranhamente e diferentemente de tudo o que se esperava dele, não me retirava, nem mesmo quando eu cometia certos atos e tomava certas posições que, em outro qualquer, ele consideraria crimes imperdoáveis. Ele sempre achou graça em mim, que fui seu companheiro mais velho, na "Onça Malhada".

- É verdade que, depois de aparecer o dissídio entre Arésio e o Pai dele, o senhor tomou o partido de Sinésio contra o do irmão mais velho? - É, sim senhor, e esse foi um dos tais atos de que falei há pouco. Arésio tinha uma profunda aversão, um ódio cerrado, intenso e irreconciliável pelo Pai e pelo irmão mais moço! Naquele Sábado, com o sol já descambando para o poente, enquanto o Povo sertanejo, sarapantado com tudo o que acontecera, começara a se aglomerar diante da velha casa dos Garcia-Barrettos onde Sinésio se fechara depois do incidente do cabra, o Bispo de Cajazeiras, Dom Ezequiel Veras, entrou em nossa Vila, passando, porém, quase despercebida a sua chegada, por causa do tumulto que dominava a rua. Chegou o Bispo e dirigiu-se logo para a Casa Paroquial, entrando pelos fundos da moradia do nosso velho Vigário, Padre Renato, varão encanecido e endurecido, desses de virtude antiga, implacável e sem contemplações. O Padre, que tinha mandado um mensageiro esperar o Bispo, a fim de que este já entrasse na Vila sabendo tudo o que estava acontecendo, trancou-se logo com Dom Ezequiel, a quem narrou, agora com todos os pormenores, o que sucedera até aquele momento. A entrevista do Vigário com Dom Ezequiel, foi secreta, não assistindo a ela nenhum dos Padres da comitiva do Bispo nem os dois Padres jovens que ajudavam o nosso virtuoso Pároco em seu trabalho entre nós, isto é, o Padre Daniel e o Padre Marcelo - É verdade que o Padre Renato tinha dificuldade de se entender bem com esses dois auxiliares dele? - É, sim senhor! - De qual dos dois ele gostava menos? - Acho que era do Padre Daniel, que era o mais cheio de idéias, o mais agitado, pelo menos no começo! - Anote isso, Dona Margarida, é muito importante! Pode continuar, Dom Pedro! - disse o Corregedor, já denotando uma familiaridade que me desagradou por um lado, mas que por outro me mostrou com o "Dom" já se tornara corriqueiro para ele, ligado ao meu nome.

Continuei: - O Bispo e o Padre Renato combinaram, então, que só fossem avisadas da chegada de Dom Ezequiel "as pessoas ricas, mais esclarecidas e mais responsáveis, da Vila". De uma em uma, cuidadosamente, a fim de não se chamar a atenção do Povo, deveriam elas ser convocadas para a Casa Paroquial. Foram logo encarregados dessa missão delicada o Sacristão, José Deda, e Siá Maria Cabocla, uma mulher que, por seu agarrado com os Padres da nossa Vila, era chamada zombeteiramente, ora de "A Padreca", ora de "A Sacristã". Passando da maneira menos notada que fosse possível, o Sacristão e a Padreca deveriam ir às casas escolhidas e determinadas por Padre Renato, recomendando às pessoas convocadas que viessem de uma em uma, pelos lados da Rua de São José e da Praça da Feira, de modo a evitar as proximidades da Rua Álvaro Machado e da Praça das Cavalhadas onde se encontrava Sinésio. Como o senhor pode imaginar, para a Aristocracia e a Burguesia urbana taperoaenses a chegada de Dom Ezequiel foi um desafogo. Todos, agora, sentiam-se meio protegidos, e a sensação geral de alívio foi resumida e expressa pelo Comendador Basílio Monteiro com a frase de que "O barco, com um bom timoneiro à proa, significava meio caminho andado, principalmente agora, quando todos pressentiam que havia, já, quem velasse nas trevas e indicasse, pela antiga lanterna da autoridade, a entrada segura para o porto". Assim, Senhor Corregedor, com as maiores cautelas, escondidas do Povo, foram se reunindo na Casa Paroquial as pessoas mais poderosas da nossa terra. Chegou o Comendador Basílio Monteiro, que tirara suas vestes suntuosas de Presidente da Irmandade das Almas para ser menos notado. Chegou a nossa querida Dona Carmem Gutierrez Torres Martins, ainda com as roupas de Presidenta Perpétua da "Vidacasta", acompanhada por seu marido, o velhinho Severo Torres Martins, e aqui por nossa cara Secretária, Margarida, filha dela, que bem pode contar essa parte da reunião.

O Corregedor voltou-se para Margarida e indagou: - É verdade, isso? A senhora compareceu, mesmo, a essa reunião? - Compareci, Doutor! - disse Margarida, baixando os olhos e pondo-se vermelha, pois já sabia que eu ia contar ao Corregedor tudo o que se passara com o Pai e a Mãe dela na Casa Paroquial.

O Corregedor voltou-se de novo para mim: - Está bem! Mas, mesmo Dona Margarida tendo ido lá, continue contando, você mesmo! Quero saber de tudo é através de suas versões e opiniões! Depois, se eu achar necessário, vou acareá-lo com as outras pessoas implicadas ou citadas no inquérito! Respondi, seguro: - Quem não deve, não teme, Senhor Corregedor! O que eu estou lhe contando é a pura expressão da verdade, e, desta vez, nem Margarida pode me desmentir nem duvidar do que digo, porque foi a Mãe dela quem me contou tudo! Mas, como eu vinha dizendo: chegou o Coronel Francisco Bezerra, homem pertencente a uma das mais antigas e fidalgas linhagens do Sertão do Seridó do Rio Grande do Norte. Chegou o Coronel Francisco Fernandes Pimenta, homem também pertencente a poderosa e grande família, espalhada pelos sertões do Sabugi e do Cariri. Chegou o Coronel Júlio Motta, da antiga linhagem dos Mortas, de Limoeiro. Chegou o Coronel Pedro de Farias Castro. Chegou o Coronel Joaquim Coura, de família pertencente às hostes do velho Partido Liberal, do tempo da Monarquia. Chegou o Coronel José Carneiro de Queiroz, com seu irmão, Manuel, ambos correligionários políticos do Coronel Coura. Chegou o Coronel Liberalino Cavalcanti de Albuquerque, parente de Clara e Heliana pelo lado materno. Chegou o Coronel Jocelino Villar de Carvalho, Chefe das antigas hostes monarquistas do Partido Conservador. Chegou o Coronel Deusdedit Villar de Carvalho, primo do outro, Deusdedit Villar de Araújo, mas seu adversário politico e mais conhecido, na rua, pelo nome de sua fazenda - Deusdedit do SeteEstrelo. E outros e outros, que seria fastidioso citar. Vossa Excelência, porém, não estranhe que, na lista, eu tenha deixado de me referir ao Prefeito Abdias Campos, ao Presidente do Conselho Alípio da Costa Villar, ao Professor Clemente e ao Doutor Samuel: apesar de poderosos, eram, todos quatro, meio suspeitos ao Padre Renato, uns por "anticlericalismo", outros por "indiferença religiosa" e outros, ainda, por "demasiada estranheza nos modos e no comportamento". À medida que chegavam, o Padre Renato, seus auxiliares e os Padres da comitiva do Bispo, iam atendendo a um e a outro como podiam, dentro das acomodações, meio monacais, meio "casa de solteiro", da Casa Paroquial. Esperava-se a chegada do último convidado, que tardava um pouco porque era o que morava mais longe. Enquanto o esperavam, estabelecera-se, na sala, aquele tipo de conversação, meio abafada mas animada, que precede o momento realmente importante das reuniões - casamentos, enterros, etc. Num desvão de janela, conversavam Dona Carmem Gutierrez Torres Martins e o Comendador Basílio Monteiro.

Margarida levantou os dedos da máquina, e falou com voz opressa: - Doutor, o senhor proíba esse homem de continuar falando! O Corregedor, surpreso, voltou-se para ela: - Parar? Por quê? - Isso que ele quer contar, agora, não tem interesse nenhum, para o inquérito! - Ah, não! - protestei. - Tem interesse, e muito! Se eu não contar tudo, depois o Doutor, aí, vai dizer que eu estou malintencionado, escondendo leite, feito vaca sem-vergonha! Não senhora, de jeito nenhum! Ou eu conto tudo, ou tomam nota de tudo, ou eu não assino meu depoimento, não tem que me faça! Doutor, eu tenho ou não direito de contar tudo o que considere importante? - Tem! - disse o Corregedor. - De que se trata, Dona Margarida? É algo inconveniente? Quer que eu chame outra pessoa para anotar o inquérito? Margarida curvou-se, vencida: - Não senhor, deixe! É melhor, mesmo, que seja eu quem ouça e anote tudo! - Pois então continue, Bibliotecário Quaderna! Quanto à senhora, Dona Margarida, não se incomode não: vou apurar tudo o todas as contas dessa gente vão ser ajustadas! Vá, fale, Senhor Quaderna! - disse o Corregedor, voltando ao tom cortante do início e tirando-me o título de "Dom" que já tinha se acostumado tanto a me conceder.

Continuei, com um suspiro: - O marido de Dona Carmem e Pai, aqui, da nossa Margarida, isto é, Severo Torres Martins, o velhinho arrumadinho e bonitinho de quem já falei a Vossa Excelência, estava perto da mulher dele e do Comendador Basílio Monteiro, mas não prestava atenção nenhuma ao que os dois diziam. Limitava-se a babar, lançando, de vez em quando, um olhar impaciente para os bolos o doces que estavam na saleta anexa, preparados desde a manhã, pelas mãos das beatas, para a chegada do Bispo. O velhinho não estava interessado em nada, a não ser nesses doces. Esperava, contido mas meio indócil, desde o meio-dia, que acabassem com aquela maçada de Cavalhadas, festejos, discursos e conversas inúteis, para que então ele se lançasse ao que verdadeiramente importava. Segundo Dona Carmem me contou depois, aqui a nossa Margarida, junto dele, vigiava-o com expressão ansiosa e atenta, temerosa que estava de que ele praticasse alguma coisa "que talvez cobrisse a família inteira de vergonha".

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