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A pedra do reíno e o Principe do Sangue do Vai-e-Volta

Ariano Suassuna

Aliás, aproveito a oportunidade para assegurar a Margarida que não havia razão nenhuma para esses temores dela de que o Pai "fizesse vergonhas à família": aqui na Vila, todos nós gostávamos muito do velhinho Severo Torres Martins, e contávamos, uns aos outros, as graças dele, mais ou menos como Pais afetuosos ou irmãos mais velhos contam as traquinagens do caçula. Afinal de contas, Senhor Corregedor, todos nós conhecíamos a situação surgida entre ele e a mulher! Dona Carmern Gutierrez era filha de um rico "corretor de açúcar" da Paraíba, homem que, depois de uma juventude rica e ociosa, entrara em decadência financeira. O casamento de Dona Carmem com o rico Fazendeiro sertanejo Severo Torres Martins - naquele tempo com quarenta e cinco anos e trinta anos mais velho do que ela - tinha sido a única solução encontrada para a ruína familiar dos Gutierrez. Dona Carmem, agora, em 1935, era mulher de quarenta anos. Usava, ainda, as modas e os atavios do tempo em que fora moça. Sra magra, de pernas finas e arqueadas. Usava uma franja que lhe vinha até os olhos. O resto dos cabelos, pretos e estirados, cortados à nazarena, ladeavam-lhe o rosto formando dois arcos negros que, partindo do alto da cabeça - onde se repartiam por uma risca - vinham até o meio das bochechas. Tinha o rosto e todo o corpo finos e magros, os olhos grandes, pretos e meio aboticados. E, como os braços eram, também, finos e arqueados, ladeando o busto magro, Dom Eusébio Monturo, homem de língua solta e irreverente, dizia que o enorme medalhão que Dona Carmem fazia pender sempre do pescoço de uma longa corrente de prata destinava-se a indicar às pessoas se ela estava de frente ou de costas. Eusébio costumava acrescentar: "Aquela mulher é toda entre parênteses! Tem a cara entre parênteses, por causa do cabelo. Tem o corpo entre parênteses, por causa dos braços de macaco raquítico. E, por causa das pernas finas, cabeludas e meio arqueadas para dentro, tem, até, a perseguida entre parênteses!" O Corregedor deu um salto da cadeira e, meio estuporado, sem 'saber bem o que dizia, gritou para Margarida: - Pra cadeia! Preso! Está preso! Margarida assombrou-se um pouco, pensando que aquilo era com ela. Perguntou, cautelosa: - Pra cadeia? Preso? Quem? - Ele, é claro! - rugiu o Corregedor. - Ele, o "Dom"! Está preso! Vá chamar os soldados, Dona Margarida! Apesar dessas palavras ameaçadoras do Corregedor, eu estava tranqüilo. Sabia que Margarida não suportava a Mãe, motivo pelo qual não ficaria verdadeiramente ofendida pelo que eu dissera.

Por outro lado, quanto ao Pai, ela quereria evitar escândalos maiores. Eu calculara exatamente até onde podia ir, e, de fato, não me enganei. Sem demonstrar aversão maior nem menor do que aquela que tinha comumente por mim, ela interveio: - Deixe isso pra lá, Doutor! Se esse homem for preso, vai haver escândalo, e, mesmo, como eu já disse, essas coisas não me atingem! O que eu quero saber é se isso que ele disse interessa para o inquérito ou não, se eu anoto ou não! - Anote, anote! Serve, pelo menos, para dar uma idéia do caráter desse homem! - Do meu, não! - protestei. - Do de Dom Eusébio Monturo, que foi quem disse esses disparates! Eu, por mim, nunca falei mal de Dona Carmem, que era minha amiga e também nossa companheira, nas reuniões e cavaqueiras literárias da Biblioteca, assim como colaboradora da página literária e charadística que eu mantenho na Gazeta de Taperoá! - É verdade isso, Dona Margarida? - perguntou o Corregedor.

- Isso, o quê? - Isso de sua Mãe ser intelectual e colaboradora do jornal desse sujeito! - É, Doutor juiz! Minha Mãe tinha essas manias literárias, que trouxe da Paraíba, e alguns espíritos perversos daqui exploravam essa fraqueza dela! - O depoente era um desses? - Era o Chefe! - disse Margarida com ar feroz.

- Não se incomode não, que o café dele está se coando! - falou o Corregedor, com ar de quem assumia um compromisso sagrado, e apesar do ditado que deixara escapar. - Pode continuar, Senhor Pedro Dinis Quaderna! - Muito bem, Excelência! Como eu ia dizendo: apesar desses atributos físicos a que já me referi, Dona Carmem usava aquele tipo de saia curta e blusa folgada na cintura e apertada nos quadris, ao modo de 1920. Costumava usar, também, um decote generoso que descobria o começo e o meio do busto magro, sempre protegido, em parte, pelo enorme medalhão do qual falava Dom Eusébio Monturo e que pendia da corrente de prata, pousando no lugar em que, normalmente, estaria começando o rego dos peitos, caso isso, nela, existisse um pouco mais. Era, talvez, por causa dessas roupas "ousadas" que lhe aconteciam tantas aventuras, ou melhor, que ela sempre escapava por um triz de ser vítima de alguma armada. Raro era o dia em que, saindo às ruas da nossa Vila, tão pacatas para as outras mulheres, Dona Carmem não chegasse em casa, ou na Biblioteca, contando um caso terrível que "quase" lhe sucedera. Aparecia sempre algum desconhecido, algum sertanejo bronco ou homem de maus costumes que a seguira e teria, mesmo, atentado contra seu pudor se ela não tivesse "tomado, a tempo, providências tão enérgicas". Outra característica importante da personalidade de Dona Carmem é que ela, aí por 1919 ou 20, fizera, com seu marido, pela Europa, uma viagem que, segundo o Professor Clemente, "não havia jeito de prescrever". A todo momento, essa viagem à Europa era invocada como apoio para as opiniões de Dona Carmem em casos de bom gosto, de teatro, de música, de moda e de literatura`. Pois bem: naquela noite, ela conversava com o Comendador Basílio Monteiro. De vez em quando, curvava-se profundamente, num gesto que lhe era habitual e que, conforme a necessidade, indicava, ora a profunda dor de que ela estava possuída ante uma comunicação dolorosa feita pelo interlocutor; ora um espanto enorme e mudo; ora uma vênia de respeito apesar das discordâncias que ela se reservava sobre as opiniões de quem falava; ora o riso ante uma "saída de espírito", um riso tão forte e convulsivo que ela não tinha forças para suportá-lo na posição vertical. Nesses momentos, os homens que tinham o privilégio de fruir da companhia de Dona Carmem costumavam, por mera curiosidade científica, espichar o pescoço e os olhos, tentando ver alguma coisa do que existia - ou não existia - abaixo do decote, pois, em tais momentos, é claro, o vestido se afastava do busto, deixando ver as profundezas. Infelizmente, porém, no momento exato, Dona Carmem costumava apertar o medalhão contra o peito com a mão espalmada, num gesto que parecia um mea culpa de Padre, em hora de Missa, de modo que, assim, ocultava da vista dos curiosos todas as surpresas que o vestido cobria.

- Deixe esses pormenores de lado e volte à história - disse o Corregedor severamente.

Obedeci: - Quem falava, agora, ali, na sala de visitas da Casa Paroquial, era o Comendador Basílio Monteiro, e o assunto era, como não podia deixar de ser, o importantíssimo sucesso da chegada, à nossa Vila, de Sinésio, ressuscitado e montado em seu cavalo branco.

`Eu nunca esperaria um acontecimento daqueles, minha cara Dona Carmem!', dizia o Comendador. `Confesso à senhora que, apesar de ser o homem ponderado que a senhora sabe, estive a ponto de ter um delíquio! Vou lhe dizer uma coisa: coisas como essas, só acontecem aqui, porque, infelizmente, este nosso Brasil é um País desgraçado! Num País decente, num País civilizado, como a Alemanha ou os Estados Unidos, uma coisa dessas não acontece, porque o Governo proíbe e toma, logo, todas as providências!' "`Sim, foi tudo tão inesperado!, disse Dona Carmem, acentuando a frase com o tom intelectual da revista Fronteira, curvando o peito e quase mostrando os ditos, daquela vez.

"`Qual foi a reação da senhora?', perguntou o Comendador, espichando os olhos no momento exato em que Dona Carmem interpunha o medalhão entre os caroços magros do peito e o rosto do homem, ansioso de curiosidade frustrada.

"`Ah, Comendador, não lhe conto! O senhor ainda não soube de nada?' "`Não!' "`É possível? Como se explica isso? Não lhe contaram a desagradável aventura que se passou comigo não?' "`Não senhora, Dona Carmem! Eu não soube de nada, absolutamente de nada!' "`Pois vai saber agora mesmo, meu caro Comendador! Eu estava, como o senhor sabe, no Palanque, quando aqueles homens . esquisitos soltaram as feras enjauladas no meio da Praça e começou o rebuliço! Senti uma fraqueza nas pernas, mas vi que, se desmaiasse, as Onças me comeriam, pelo que resolvi não desmaiar! Daí por diante, não sei mais, com exatidão, como as coisas se passaram: não sei se me tiraram do Palanque, meio desmaiada, não sei se saí sozinha, não sei se corri, não sei se me empurraram por causa do pânico geral. O que eu sei é que, quando dei acordo de mim, estava no beco que sai da Praça, parada, perturbada, imobilizada pelo terror, como acontece nos pesadelos, e sem saber que providência tomasse para escapar do perigo. De repente, eu me senti agarrada por trás, na altura dos quadris, ou, melhor, pela cintura e por mãos que, habituada como sou a essas tentativas, vi logo que não podiam ser de homem! Aliás, para ser mais precisa, vi logo que aquilo não era, de jeito nenhum, mão de gente! Apavorada, me virei para trás. Sabe o que era que estava me agarrando?' "'Era uma Onça!', disse o Comendador, com os olhos brilhando pela excitação da história.

"`Não, não era não, Comendador, e foi disso que me admirei! Naquele momento, ali, naquele lugar, a dois passos do local onde tinham soltado os bichos, o lógico, o natural, era que fosse uma Onça. Mas não era não, era um cachorro! Um cachorro grande, pardo, esquisito, mas um cachorro! Fiquei apavorada e não sei, mesmo, se acharei palavras para lhe contar o que se passou daí em diante!' "`Não, conte! Fique à vontade, Dona Carmem, a senhora está em casa! O que foi que aconteceu? O cachorro tentou mordê-la?' "`Não, ele não tentou me morder! Foi tudo muito esquisito, uma coisa muito estranha! Quando eu me virei, o cachorro tinha se agarrado em minha cintura com as patas dianteiras. As patas traseiras estavam no chão, e o senhor não imagina a situação embaraçosa em que fiquei quando, de repente, ele começou á fazer, com as ancas, uns movimentos estranhos em direção às minhas pernas e aos meus quadris! Ficou assim um bom pedaço de tempo, sem me soltar mas também sem me morder, e eu não sabia quais eram, na verdade, as intenções dele, ali, com aquela posição e aqueles movimentos estranhos! O pior é que, apavorada, eu não conseguia reagir nem me mover do lugar! Só depois que ele me soltou por sua própria vontade é que consegui reunir forças para fugir!' "`E o cachorro absolutamente não mordeu a senhora, Dona Carmem?', perguntou o Comendador, curioso.

"`Não, não me mordeu! Olhe, Comendador, eu lhe digo uma coisa: já tenho tido que tomar providências enérgicas contra várias tentativas estranhas de homens de vários tipos, porque não sei o que é que eu tenho que sou um verdadeiro visgo para atrair ousadias dessa gente! Mas, de todos esses momentos desagradáveis, confesso que este de hoje foi o mais estranho e embaraçoso de todos! A coisa foi a tal ponto que, quando ele me soltou, meu primeiro pensamento foi: "Atrevido desse jeito, esse cachorro não pode ser daqui, de jeito nenhum!"' "`Aí é que a senhora se engana, Dona Carmem!', contestou o Comendador. `A senhora fala assim, mas é porque ainda está pensando nos cachorros sertanejos do nosso tempo, uns cachorros mais educados e respeitosos do que esses cachorros perdidos, de hoje! Tudo, agora, é um fim de mundo, minha senhora Dona Carmem, e os cachorros de hoje em dia não respeitam mais ninguém, são, todos, influenciados pelo comunismo! A senhora não se admire mais de nada, porque, do jeito que as coisas vão, daqui a pouco até os cachorros sertanejos menos conceituados vão andar por aqui no maior dos atrevimentos! Se ainda fosse um cachorro de respeito, um cachorro civilizado, como os da Alemanha, ainda ia! Mas um cachorro reles desses, um cachorro qualquer, de pé-de-serra, sentir-se no direito de se escanchar nas cadeiras das senhoras, aí não, é demais! E a senhora vai ver, isso é somente o começo! Dagora em diante, tudo vai caminhar de mal a pior! Com esse impostor perigoso que chegou aqui, hoje, com essa ciganagam, com essa negralhada ladrona que lhe serve de acompanhamento, a desordem vai ter tal impulso, vai aumentar tanto, que daqui a pouco, uma senhora de respeito não vai mais poder sair para a rua sem que os cachorros atrevidos faltem com o respeito devido a ela! Isso, com os cachorros: das pessoas então, não quero nem falar! A senhora sabe que o molecório da Vila está todo assanhado? Soube o que se passou, hoje à tarde, com o nosso fotógrafo, Seu Siqueira, logo depois da chegada desse rapaz perigoso que ninguém sabe quem é, mas que está cercado pela negralhada cigana?' "`Não, não soube de nada!', disse Dona Carmem, aboticando ainda mais os olhos aboticados, para demonstrar interesse.

"`Pois eu lhe conto! Não sei se a senhora soube que, logo depois da chegada do impostor, apareceu na rua, puxado em cima de um carrinho, o tal do Nazário Moura, um velho doido que o pessoal ignorante daqui tem como Profeta e que começou, logo, a gritar disparates, aumentando a agitação! Mal ele acabou de gritar suas sandices - e de ouvir outras tantas de Pedro Cego - foi empurrado de volta, para fora da Praça, por sua filha, Dina-meDói, que é quem serve de cireneu ao Profeta! Quando eles chegaram perto da venda de Bino, o tal do Profeta Nazário Moura mandou a filha comprar fumo de rolo para seus cigarros. Aí, um bando de desocupados, assanhados pela chegada desse perigoso rapaz e chefiados por Piolho, um ajudante de padaria, empurrou o carro de ladeira abaixo. Seu Siqueira estava, naquela hora, tirando um retrato da velha viúva, Dona Francisquinha Gabão, que estava vestida de preto, de chapéu preto e de véu preto, com sombrinha preta fincada no chão e sentada, muito tesa e bem-composta, diante da máquina-de-retrato, na sala da frente da casa de Seu Siqueira que, como a senhora sabe, serve de oficina a ele. A senhora conhece tanto Dona Francisquinha como Seu Siqueira. Sabe que todos dois são muito moucos, de modo que não se espantará pelo fato de, naquele instante, eles estarem ainda inteiramente alheios à agitação e à balbúrdia que tomou conta da nossa Vila! Seu Siqueira é homem sério e ponderado, e tem, como todos nós, horror a esse ambiente que está subvertendo até os costumes dos cachorros sertanejos! Pois bem: naquele momento, Seu Siqueira estava, já, com a cabeça enfiada dentro da máquina de fole, equilibrada no tripé. As chapas e o foco estavam, já, quase prontos, e ele estava coberto com aquele pano preto dos fotógrafos. Foi exatamente nesse instante que o carro, impelido furiosamente de ladeira abaixo, ganhando velocidade e conduzindo o Profeta que vinha aos gritos, pedindo socorro, bateu no meiofio da calçada e projetou violentamente o tal do Nazário Moura para dentro da oficina de Seu Siqueira. O Profeta caiu com o corpo em cima da máquina e com os pés na cara do nosso honrado correligionário, que caiu no chão com a violência da pancada. Com as pernas reviradas para o ar, numa situação muito desagradável para se ficar diante de uma senhora de respeito, Seu Siqueira, sufocado pela indignação e pelo pano preto, gritou: "Chuva de aleijado! É o comunismo! Até agora, Dona Francisquinha, ainda suportei essas campanhas do comunismo contra os cidadãos pacatos, mas chuva de aleijado é demais! Vou me mudar". E eu soube, de fontes fidedignas, que a resolução dele é mesmo inabalável: vai se mudar para Patos, onde o comunismo também já está causando desordens, mas pelo menos ainda não chegou a esse extremo de jogar chuva de aleijados na cabeça dos cidadãos ordeiros e produtivos da sociedade! Agora, veja a senhora, Dona Carmem, se tenho razão ou não tenho, quando digo que, com essa negralhada e esses impostores que invadiram a nossa Vila, isso aqui vai ficar, mesmo, um fim de mundo!"'

FOLHETO LXIX

A Estranha Aventura do Cavalo Concertante Nesse momento, Senhor Corregedor, o marido de Dona Carmem e pai, aqui, da nossa Margarida, o velhinho Severo Torres Martins, que tinha deixado passar, aparentemente sem ouvi-las, a história do fotógrafo e a aventura desagradável vivida por sua mulher, conseguiu iludir a vigilância da filha. Marcou carreira para a mesa dos doces e, chegando lá, antes que pudessem impedi-lo, enfiou a mão no bolo maior, que estava pousado no centro da mesa. Tirou, assim, um grande punhado do açúcar que confeitava o bolo, encheu a boca e, ao mesmo tempo, com a maior destreza, meteu outro punhado de bolinhos menores e pastéis-denata no bolso. A nossa Margarida, com medo de escândalo maior, achou melhor, talvez, deixá-lo assim mesmo, de modo que o velhinho ficou na maior das felicidades, junto da mesa, de boca cheia, mastigando e lambendo os beiços, com a cara branca de açúcar. Coincidiu que, naquele momento, o Bispo foi passando por perto de Dona Carmem, que aproveitou a deixa. Outra das fraquezas dela era apresentar sempre o marido elogiando "o aprumo e a lucidez perfeita em que ele se encontrava, nos seus setenta anos fortes e espigados". Assim, ela falou para o Bispo: "`Dom Ezequiel, permita que eu beije a sua mão!', disse Dona Carmem, começando a se ajoelhar.

-Não, não se ajoelhe não, minha filha!', foi dizendo Dom Ezequiel.

"`Ah, não, de modo nenhum! Ajoelhada, faço questão da hierarquia e das genuflexões! Vossa Excelência certamente não se lembra de mim, sendo o homem ocupado que é e vendo tantas caras novas! Sou Carmem Gutierrez Torres Martins, Presidenta Perpétua das Virtuosas Damas do Cálice Sagrado de Taperoá, a Vida-Casta, como nós chamamos! Estive com Vossa Excelência em Patos, numa visita que o senhor fez lá. Fui a Patos naquela ocasião, chefiando a ala feminina da comitiva de Taperoá, que lhe foi prestar as devidas homenagens.' "`Ah sim, lembro-me perfeitamente da visita a Patos!', disse o Bispo, sem desmentir Dona Carmem, mas também sem se comprometer. `Como vai a senhora?' "`Vou muito bem, Excelência, e agradeço a Vossa Excelência o seu interesse, e a gentileza de se lembrar! Lembrou-se de mim nas suas orações, como lhe pedi? Não, não responda, é uma indiscrição minha perguntar isso, só agora me apercebo! Mas Vossa Excelência não conhece meu marido, Severo Torres Martins! Olhe, é este aqui! É um homem admirável, Dom Ezequiel, permita que eu tenha a corujice de falar assim! Severo está com setenta anos, mas faz gosto! Aprumado, duro, forte que é uma beleza! E, o que é mais importante, inteiramente lúcido! Severo, filhinho, fale aqui com Dom Ezequiel!' "`Ezequiel? Conheço! Não é o vaqueiro de Antônio Villar?', disse o velhinho, aproximando-se, lambendo os beiços sujos de açúcar e com os bolsos atulhados de sequilhos.

"`Filhinho, esse aqui é Dom Ezequiel! Dom Ezequiel, este é meu marido, Severo Torres Martins!', disse Dona Carmem, procurando não tomar conhecimento do equívoco do marido.

"`Muito prazer! Seu criado!', disse Severo estendendo educadamente a mão ao Bispo, de modo correto, se bem que um tanto ensinado.

"`Severo, beije a mão de Dom Ezequiel!', disse Dona Carmem, tornando-se mais animada à medida que via o marido se sair bem.

"Eu? beijar mão desse vulto? Por quê? Beijo nada!', falou Severo, com um tom displicente mas firme, inteiramente inesperado ante os modos do começo. E acrescentou: `Meu Pai já morreu: por que é que eu iria, agora, beijar mão de barbado? Só beijo se ele me der um doce!', concluiu ele, querendo logo aproveitar a oportunidade de aumentar sua provisão de sequilhos. e pastéis.

"O Bispo, Senhor Corregedor, que já estava começando a ficar meio intrigado, riu aliviado, julgando que Severo estava gracejando com o ditado popular, "não faço isso nem que você me dê um doce'. Dona Carmem, ou se iludiu também ou quis aproveitar o engano do Bispo para disfarçar e bater em retirada: "`Ah, Severo!', disse ela. `Já está você com suas brincadeiras, filhinho! Severo é assifn, Dom Ezequiel, não repare os modos dele não! Nos primeiros momentos de cerimônia, ele fica calado, mas depois, principalmente se simpatiza com a pessoa a quem está sendo apresentado, não se cala!' "Foi pior, Senhor Corregedor! Severo, pensando de novo nos bolos, deixara de prestar atenção ao sentido, de modo que só ouvia, agora, o zumbido das palavras da mulher. As duas últimas soaram em seus ouvidos como uma palavra só, sicala, uma palavra que, tocando em certas coisas, despertou, nele, uma porção de recordações misturadas, umas do Sertão, mas a maioria ligada à célebre viagem que ele e Dona Carmem tinham feito à Europa: "`Sicala?', indagou ele, pondo-se novamente alerta e vivo. 'Conheci, era um cavalo! Sicala era o cavalo de sela do Coronel Queiroga, de Pombal! E o que eu achei mais esquisito era ele ser, ao mesmo tempo, um cavalo e um teatro! Digo isso porque depois, quando a gente viajou para a Europa, eu e Carminha, a gente passou numa cidade da Itália, e o cavalo do Coronel Queiroga estava lá, com o nome de Sicala de Milão! Eu não me lembro direito como era não, porque, ali na Europa, a confusão é grande! Mas me lembro que era uma coisa assim: ou era o cavalo que tinha se virado num teatro, ou era o teatro que era um cavalo que cantava! Sei não, a misturada era grande! Mas eu me lembro bem que Sicala estava lá: não me lembro se tinha cabeça e rabo, mas tinha frente e fundo, isso tinha! O pessoal entrava pela frente e saía pelo fundo do cavalo, e eu só me admirava era de que um homem sério e sisudo, como o Coronel Queiroga, de Pombal, deixasse aquele pessoal estrangeiro tomar essas liberdades com o cavalo de sela dele! Digo isso porque, comigo, a coisa é outra! Por fundo de cavalo meu, eu não deixo nem entrar nem sair galego de qualidade nenhuma!' -Filhinho, que brincadeiras disparatadas são essas?', disse Dona Carmem, aflita, já arrependida de ter mexido naquela casa de maribondos. `Você, tão respeitoso, tão sério, tão lúcido, vir com essas conversas para o nosso Bispo?' "`Bicho?', perguntou Severo, intrigado. 'E esse vulto preto, aí, é um bicho? Que bicho é esse, Carminha? É um dos bichos que soltaram da jaula, agora de tarde? Se é, que diabo de qualidade de bicho é essa, que usa saia preta? Será uma burra preta que fala, como Sicala cantava? Ou é um macacão-de-cheiro, vestido de saia?' "`Filhinho, pelo amor de Deus!', disse Dona Carmem, mais morta do que viva.

"`Ah, já sei o que ele é!', continuou Severo, sem dar importância à interrupção e provando que estivera mais atento do que se pensara à conversa de sua mulher com o Comendador. `Já sei que qualidade de bicho é esse, aí! É um cachorro, um cachorro de circo, desses que aparecem de saia, nos Circos, pulando fogo! Uma vez, passou um Circo aqui, e lá eu vi um cachorrão grande, vestido de saia, engraçado, que pulava uns arames de fogo! Você se lembra, Carminha? E era um cachorro grande, de saia, quase do tamanho desse tal Ezequiel, aí! Agora, uma coisa eu lhe digo, Carminha: abra o olho com esse cachorro de saia preta, porque esses cachorros de Circo são espertos e safados como o Diabo! Não vá ser esse, aí, o cachorro que fudeu você, no beco, hoje de tarde!"'

Aproveitando os dois segundos de estupefação do Corregedor, nobres Senhores e belas Damas que me ouvem, eu disparei, falando na carreira, para evitar a repreensão e mesmo a Cadeia que, infalivelmente, se seguiria, caso eu desse oportunidade a que o espanto acabasse, começando a indignação: - Como Vossa Excelência vê, Senhor Corregedor, o Pai aqui da nossa Margarida tinha voltado ao estado de inocência da infância e era isso o que o tornava tão estimado de todos nós, nenhuma pessoa daqui levando a mal ou estranhando nele aquilo que, noutros, seria inconveniente. O Bispo Dom Ezequiel, que era uma pessoa boníssima, parece que entendeu tudo, também; e, não querendo deixar Dona Carmem mais aflita do que já estava, aproveitou a entrada dos dois últimos convocados que vinham chegando, e afastou-se discretamente. O pessoal, pressentindo que a reunião, mesmo, ia enfim começar, fez logo um silêncio cheio de tensão. O Bispo colocou-se na cabeceira da grande mesa oval que servia para as reuniões da Irmandade, tendo, à direita, o Padre Renato e o Padre Marcelo, e, à esquerda, o Padre Daniel e o Comendador Basílio Monteiro que, na qualidade de Presidente da Irmandade das Almas, tinha o privilégio de iniciar, junto aos Padres, o grupo dos leigos. Aliás, como Presidente da Irmandade, o Comendador estava se sentindo ali como uma espécie de anfitrião; foi explicando isso que começou suas palavras nos seguintes termos "`Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Bispo, Reverendos Padres, minhas senhoras, meus senhores! Na qualidade de Presidente da Irmandade das Almas e como filho natural da nossa Vila, sinto-me no dever de iniciar a reunião, como pessoa humilde que recebe, em sua casa, pessoas ilustres e importantes! Acontecimentos da mais alta gravidade sucederam-se e estão acontecendo ainda, em nossa Vila. E, parece que por um decreto emanado das profundezas insondáveis da Providência Divina, acontece tudo isso, por sorte nossa, no mesmo dia em que devia chegar aqui essa figura de Pastor e Prelado que é o Bispo Dom Ezequiel, figura exemplar de antístite paraibano. Não preciso dizer a todos

que a situação do nosso País é gravíssima. O Comunismo, lobo disfarçado de ovelha, prepara seu assalto às instituições, e somente os cegos é que não viram, ainda, o perigo que nos cerca por todos os lados, ameaçando retirar Deus dos altares, a Pátria do convívio das nações e a Família de sua posição inabalável de centro da sociedade. O Chefe escolhido e confesso desta, agitação é aquele mesmo homem nefasto, já conhecido de todos nós desde que, em 1926, passou pelo Sertão da nossa pequenina e gloriosa Paraíba, ensangüentando o solo sagrado da nossa terra com o sangue dos mártires, dos Sacerdotes, das pessoas ordeiras e pacatas. Que o diga o sangue do Padre Aristides Ferreira Leite, degolado em Piancó pela "Coluna Prestes", juntamente com outros heróicos defensores da honra sertaneja. Mas, naquele ano de 1926, o nefando Luís Carlos Prestes agitava o Brasil não ainda em nome do Comunismo, mas sim movido por um ideal de certa forma elogiável, aquele mesmo ideal que veio a se corporificar e legitimar, depois, na gloriosa e vitoriosa Revolução de 1930'.

"Levado pelo som de suas palavras, Senhor Corregedor, o Comendador Basílio Monteiro tinha ido um pouco mais longe do que desejava, uma vez que a maioria dos presentes era pouco entusiasta da `gloriosa Revolução de 1930'. Mas 'o fogo sagrado do ideal e da eloqüência' se apossara, mesmo, do Comendador, de modo que ele continuou no mesmo tom: -Depois, porém, Luís Carlos Prestes abandonou, pelo Comunismo, a trilha que tinha seguido até ali! A bandeira que ele sustentava e conduzia caiu-lhe das mãos e veio recair nos braços do grande Herói paraibano que, hoje, passados cinco anos de sua morte, todos nós ainda choramos, o Presidente João Pessoa, o maior dos Brasileiros, "o incrível João Pessoa" - para usar a expressão do genial escritor Adhemar Vidal - o Mártir que ungiu com seu sangue as liberdades republicanas do Brasil!' -Muito bem!', disseram fracamente duas ou três vozes discretas, um pouco discretamente demais para o que esperava e desejava o orador, o qual, começando a se aperceber de que devia abandonar aquele terreno polêmico, voltou ao assunto principal: -Meus senhores! Todo mundo sabe que Luís Carlos Prestes, exilado do Brasil desde 1927, foi procurado pelos revolucionários, nas vésperas de 1930, para se colocar novamente à frente da insurreição que se preparava. Mas ele repeliu aqueles que o convidavam, porque, segundo suas próprias palavras, se convertera ao Credo vermelho e só acreditava, daí por diante, numa Revolução inspirada pelo Comunismo ateu, regime que ele faria tudo para implantar em nossa Pátria! Prestes não teve escrúpulos, então, de se apropriar de vultosa quantia em dinheiro que os revoltosos de 1930 tinham lhe entregue; e, desde aquela data, não houve um só dia em que ele não conspirasse e tramasse o assalto ao Poder. Todo mundo sabe que ele, vestido de Padre e com um passaporte falso, entrou novamente no Brasil, sob o nome de Antônio Villar. Todo mundo sabe que ele e seus companheiros estão conspirando na sombra, preparando uma Revolução para, talvez ainda neste nosso ano de 1935, tomar o Poder e instaurar uma República soviética em nossa Pátria. O fantasma vermelho do Comunismo ameaça-nos por todos os lados. Os cidadãos pacatos não podem mais trabalhar, porque os Comunistas e revoltados de toda natureza inventam, a toda hora, greves, picuinhas, agressões e atentados de todos os tipos, para perturbar o progresso e o trabalho produtivo e ordeiro. Hoje, mesmo, o honrado fotógrafo de nossa Vila, homem remediado e de boa família, sofreu um desses atentados; o mesmo, quase, pode-se dizer de uma das Damas mais ilustres da nossa sociedade. E por que se atrevem a tanto, os agitadores? - pergunto. Porque estamos invadidos e ameaçados, com os nossos campos talados e nossa Vila assaltada pela agitação. Sim, meus caros conterrâneos! Hoje entrou aqui, na nossa querida Vila de Taperoá, um grupo armado, que introduziu em nossa terra a desordem e o morticínio, ameaçando a vida dos Pais de família e a honra de suas filhas e esposas. Segundo os primeiros boatos, trata-se de uma tribo de Ciganos. Mas serão Ciganos, mesmo? Como se explica, então, o atrevimento com que se comportaram diante das autoridades? Os ciganos são gente matreira e sem confiança; mas são, também, subservientes, procurando sempre tratar bem as autoridades a fim de não serem compelidos a abandonar sua vida de vagabundagem e ladroeira! E, caso a versão seja verdadeira, todo mundo sabe que o Cigano Praxedes é homem perigoso, que já andou envolvido em mais de um caso misterioso, em mais de um crime, em mais de um atentado a bala. Digamos que são Ciganos: como se explica, então, que viesse com eles um Sacerdote, um Frade, um homem de Deus, quando todos nós sabemos que não se pode confiar na religião dos Ciganos? E além disso todo esse pessoal que chefia a tribo é, perdoem-me o vigor da expressão estranho e suspeito. Quem será esse tal Doutor Pedro Gouveia? Quem será esse Frei Simão, ou melhor, quem é o lobo vestido de ovelha que se esconde por trás desse nome, quando todos nós sabemos que não é o hábito que faz o Monge? E chego ao ponto nevrálgico da questão: quem será, na verdade, este rapaz que se apresenta hoje, aqui, com o nome daquele moço infortunado que morreu há três anos, em 1932, coroando, sua morte, a série de infortúnios e tragédias que se abateu sobre a ilustre família GarciaBarretto? Quem terá sido o homem que atirou nesse rapaz, morrendo logo em seguida, a tiro, de maneira tão misteriosa? A meu ver, esse atentado, ou melhor, esse simulacro de atentado, não passou de uma outra farsa, com a qual os Comunistas pretendem jogar areia e uma cortina de fumaça diante dos olhos das pessoas respeitáveis. A situação é grave, meus Senhores! Nosso País está dividido entre dois extremismos. A meu ver e salvo melhor juízo, um deles é mais perigoso, de modo que, apesar do conhecido equilíbrio das minhas posições, chego quase a dar razão aos que se ergueram na defesa de Deus, da Pátria e da Família. Mas, de qualquer modo, o fato é que os dois são, entre si, adversários implacáveis, assim como, para nós, inimigos irreconciliáveis das nossas instituições. O que sucedeu hoje, aqui, é, portanto, muito claro. Quem quiser formar sobre os acontecimentos de hoje uma idéia segura, basta verificar de que lado ficou, logo, a ralé, esse Povo indisciplinado, mal-educado e analfabeto que é a mancha vergonhosa da face do nosso Brasil. Na Inglaterra ou nos Estados Unidos, um fato desses não aconteceria! Pergunto: de que lado ficou esse Povo, ignorante, fanático e miserável? Do lado daqueles que invadiram nossa Vila nas caladas da noite! Logo, estes, e não os outros, é que são os revolucionários, e seus adversários 'devem receber todo nosso apoio! Ouçam meu brado dê alerta! Sim, porque o pior aqui, hoje, é a cegueira daqueles que, entre nós, deveriam ser as colunas, os sustentáculos da sociedade! Ninguém quer ver o perigo! A continuarmos assim, quando cuidarmos, estaremos com o inimigo dentro das nossas muralhas, com os cidadãos mais conspícuos da Pátria sendo fuzilados! Certamente acham que eu exagero! Mas pergunto-e repito: o Padre Aristides não foi fuzilado e sangrado em Piancó, em 1926, por essa mesma gente que agita e subverte, hoje, o nosso País? Assim, ninguém tenha dúvida! O que aconteceu hoje, aqui, é algo de muito grave! A Coluna suspeita que entrou em nossa Vila é um grupo Comunista armado, e o atentado cometido contra aquele que parece ser o Chefe deles só pode ter duas explicações: ou foi cometido por grupos extremistas adversários, ou, o que me parece mais provável, foi somente uma farsa, destinada a mascarar alguma dissensão interna, alguma condenação imposta por algum secreto Tribunal Revolucionário ao homem que morreu. É preciso colocar de sobreaviso os olhos que não querem ver e os ouvidos que não querem ouvir. Pouco antes da nossa reunião, ouvi algumas opiniões, colhidas aqui entre as melhores pessoas da nossa sociedade, a maioria achando que o acontecimento de hoje nada tem a ver com os Comunistas e a Revolução, que é somente uma briga de família. Todos sabem que fui, durante toda a minha vida, um seguidor da família Pessoa e do Partido Epitacista, herdeiro de Venâncio Neiva e do velho Partido Conservador, da Monarquia. Assim, fui sempre adversário da nobre família Garcia-Barretto. Mas adversário leal e sincero! Nada tenho a ver com os dramas que persegui ram essa ilustre família. O que me preocupa, portanto, nos acontecimentos de hoje, é tudo o que está oculto por trás deles. Dizem que a Coluna rebelde que invadiu hoje a nossa Vila nada tem a ver com a Revolução preparada pelos Comunistas. Dizem isso baseados no fato de que ela vem acompanhada por um Frade. Respondo, em contrapartida: assim como Luís Carlos Prestes entrou no Brasil vestido de Padre e com o nome de Antônio Villar, um dos seus homens de confiança pode ter vindo para o Sertão da Paraíba, vestido de Frade e com o nome de Frei Simão do Coração de Jesus. Além disso, mesmo que esse Frade fosse um verdadeiro Sacerdote, ungido e consagrado, de que garantia pode isso nos servir, num tempo em que o próprio Clero está infiltrado de revolucionários, principalmente entre os Padres jovens?' "Aqui, Senhor Corregedor, o Comendador Basílio Monteiro lançou um olhar fuzilante e denunciador contra o Padre Marcelo o o Padre Daniel. Segundo Dona Carmem me disse depois, notava-se. seu desejo de que esse olhar fosse anotado e sublinhado pelo Bispo. Dom Ezequiel, porém, era homem prudente e conciliador: ficou impassível, por não entender, por não ouvir, ou então por achar que a denúncia não era tão grave quanto o Comendador julgava. Este continuou: "`Pergunto, ainda, o seguinte: os Senhores não acham estranho que o rapaz, Chefe dessa Coluna que nos invadiu hoje, tenha indagado ao homem do atentado onde é que poderia encontrar Antônio Villar? Objetam-me que, aqui em Taperoá, na sua pacata fazenda "Panati", existe um fazendeiro com este mesmo nome, o nosso honrado Antônio Dantas Villar que, por sua posição social o por suas tradições de família, está acima de qualquer suspeita de Comunismo. Mas o nosso, o Antônio Villar que todos nós conhecemos, qualquer pessoa poderia tê-lo indicado ao rapaz do cavalo branco! Assim, não se explica que o homem que morreu tenha respondido que não sabia onde o tal Antônio Villar se encontrava! Indagam, ainda, os incrédulos: - Que interesse existe, para os Comunistas, em invadir e ocupar uma Vilazinha perdida e isolada no Sertão da Paraíba? Respondo, em primeiro lugar, que nossa Vila não é tão perdida assim, e nem o será nunca, a não ser que os Comunistas a botem a perder, de vez! Em segundo lugar, pergunto: - Que interesse havia, para Luís Carlos Prestes, em atacar Piancó, em 1926? Piancó é uma Vila mais longínqua, mais isolada e menos importante ainda, do ponto de vista estratégico, do que a nossa gloriosa Vila de Taperoá! Lembrem-se de que o nosso Cariri paraibano está situado a meio caminho, numa posição central e portanto estratégica, em relação aos dois maiores o mais importantes focos Comunistas do nosso Brasil, isto é, Natal, Capital do Rio Grande do Norte, e Recife, Capital do progressista Estado de Pernambuco! Em Natal e no Recife, o Exército está minado pela Revolução! Ao contrário, todos sabem que o Batalhão sediado na Capital da Paraíba, o nosso glorioso e invicto 22.11 Batalhão de Caçadores, é legalista e tradicionalmente fiel às instituições! Eis aí, então, o verdadeiro motivo de os Comunistas procurarem apoio, não na Capital paraibana, e sim no Sertão do nosso Estado. Dir-me-ão que, neste caso, seria mais lógico que eles escolhessem, para invadir, a Cidade de Campina Grande, a Rainha da Serra da Borborema, a mais progressista e importante do Sertão. Mas eu explico também, facilmente, o motivo de não terem, eles, agido assim: é que, havendo em Campina um Quartel e um Batalhão da Polícia Paraibana, a repressão seria imediata e violenta! Assim, era muito melhor fazer o que eles fizeram, atacando e invadindo uma Cidade menor, que provavelmente se entregaria sem luta, como de fato se entregou, podendo, agora, servir de base para o ataque, a Campina Grande primeiro, e à Capital depois! Não foi assim que agiu, em 1912, a Coluna revolucionária dos Chefes sertanejos, o Doutor Dantas e o Bacharel Santa Cruz? Está ainda em nossa memória a lembrança das cenas de saque, de sangue, de violência contra a vida e a propriedade, de assaltos à honra e ao pudor, cenas levadas a cabo aqui, em nossa Vila, pela Coluna dos revoltosos daquele ano, comandados pelo Negro Vicente, por Seu Hino, por Germano, Severino Mãezinha e outros Chefetes de grupo, a mando de dois Chefes sertanejos que não se envergonharam de manchar seus títulos de raça e ilustração, assaltando e tomando seis cidades sertanejas. Lembrem-se de que esses dois Chefes levantaram oitocentos homens de armas, assaltando e tomando Monteiro, São Tomé, Taperoá, Patos, Soledade e Santa Luzia do Sabugi. Assaltaram, ainda, a sétima, a Vila Real de São João do Cariri, preparando, assim, a tomada de Campina Grande, quando o Exército interveio e os revolucionários de 1912 foram desbaratados. Lembrem-se de que essas coisas não são episódios isolados, pois, na "Guerra de Doze", fazia sua estréia nas lutas e insurreições sertanejas, o filho de um dos Chefes, João Duarte Dantas, aquele mesmo que depois, em 1930, mataria o Presidente João Pessoa, cometendo o magnicidio que deflagrou a Revolução de 1930! Sei que aqui, nesta ilustre Assembléia, existem pessoas inatacáveis, que foram correligionárias desses dois Chefes revoltados! Não me refiro aos presentes, que sempre estiveram ao lado da Lei e não aprovaram a Revolução de 1912!' "'O senhor está enganado!', disse o Coronel Joaquim Coura, imediatamente. `O senhor falou, aí, que foi, sempre, correligionário dos Pessoas. Eu, ao contrário, fui sempre adversário deles.

Aqui, na Vila, segui sempre os Garcia-Barrettos, desde muito moço, desde o Barão do Cariri, Pai do nosso Chefe, Pedro Se bastião Garcia-Barretto, degolado em 1930 pelos agentes do Governo da Paraíba! Quanto à Revolução de 1912, tenho muito orgulho de ter tomado parte nela! Assim como tenho orgulho de ter tomando parte na "Guerra de Princesa", sempre ao lado dos Dantas, do Coronel José Pereira e dos Garcia-Barrettos!' -Eu também! Eu também!', ecoaram várias vozes, já num tom meio hostil.

"`Deixemos, então, esse terreno, pois não é a Guerra de Doze nem a de Trinta o que me preocupa agora!', disse o Comendador. `Passo a um exemplo tirado do Estado do Ceará: não foi assim que agiram os romeiros revoltados do Padre Cícero, quando saíram do Juazeiro, invadindo e tomando todas as Vilas e Cidades sertanejas, e chegando, assim, até as portas de Fortaleza, a Capital do Estado, que eles tomaram e saquearam, em 1913? Pois foi de modo semelhante, pela mesma razão, com a mesma astúcia e tática, que agiram os rebeldes que invadiram, hoje, a nossa Vila, sob o disfarce de uma tribo de Ciganos, Ciganos armados? Ciganos que, segundo corre na rua, reagiram a bala contra uma emboscada na estrada? E está provado que o plano deles deu certo! Tanto assim que a Polícia fugiu, deixando os nossos lares e as nossas casas de comércio expostas à sanha dos salteadores! A essa altura, estamos à mercê deles! Não existem mais autoridades constituídas, não existe mais Prefeito, não existe mais Delegado, não existe mais Polícia, não existe mais Juiz de Direito, não existe mais nada! O nosso Prefeito, agora, é Luís do Triângulo! O Delegado é o Cigano Praxedes! O Juiz de Direito é o Doutor Pedro Gouveia! A nossa Lei é a do trabuco dos Cangaceiros! Uma República comunista está instaurada em Taperoá! E eu diria, mesmo, que o nosso Pastor agora é Frei Simão, se não nos restasse, aqui, a figura do nosso Bispo, que, como um raio de luz ferindo as trevas, chegou no momento exato, apontando ao nosso barco o caminho do porto que nos servirá de abrigo seguro. Esse é o motivo da nossa reunião. Esperamos, agora, a palavra de Sua Excelência Reverendíssima, para seguir cegamente a sua orientação, o roteiro que ele tem a nos oferecer e cujas linhas certamente já concebeu nos escaninhos de seu privilegiado espírito e no escrínio do seu coração paternal!'"

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