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A pedra do reíno e o Principe do Sangue do Vai-e-Volta

Ariano Suassuna

FOLHETO LXX

O Carneiro Cabeludo
O Comendador sentou-se, Senhor Corregedor, e, sob expectativa geral, Dom Ezequiel ergueu-se para nos apontar "o caminho do porto". Infelizmente, porém, se ele tinha mesmo, como dissera
o Comendador, "um roteiro seguro", concebido "nos escaninhos do espírito e no escrínio do seu coração paternal", nunca . nós viemos a saber qual era. Porque, quando ele ia começar a traçá-lo, ouviu-se um violento estrondo na porta da frente da Casa Paroquial, que até aquele momento permanecera fechada à chave. Com a violência da pancada dada por fora, a fechadura saltou longe, arrancada juntamente com um pedaço da madeira, que se lascara. Aí, as pessoas que estavam na sala, todas já com os nervos tensos pelo que vinha acontecendo na Vila e agora tomadas de surpresa
o espanto pelo estrondo, avistaram Arésio Garcia-Barretto, ainda meio desequilibrado pelo pontapé que dera com o solado de sua meia-bota na folha de madeira da porta, arrombando-a como acabo de. contar. Com o impulso que dera, o pé dele já pousou no chão na parte de dentro da sala. A folha de madeira da pesada porta bateu na parede e voltava violentamente. Ele segurou-a com a mão, recuperou o equip brio e entrou de vez na sala, tendo estampada no rosto uma expressão que apavorou logo todos aqueles que
o conheciam. "Estava inteiramente desvairado!", dizia-me, depois,
o Comendador, ainda assombrado com a violência, a quase demência do ato insano e brutal que Arésio cometeu. Devo, porém, ao senhor, umas palavras de explicação que esclarecem, embora não justifiquem, tudo o que ele fez. O filho mais velho de meu Padrinho era naquele ano, Senhor Corregedor, um homem de trinta
o cinco anos, mais alto. do que baixo. Mas era tão "ossudo, membrudo e fortalezado", que sua estatura alta ficava equilibrada pela robustez, dando a impressão de que ele era de altura só muito pouco acima da mediana. Qualquer pessoa que punha os olhos em cima dele, via logo que era um homem dotado de extraordinária força física, uma força que se tornava ainda maior e mais perigosa pela ferocidade de seu temperamento intratável, sujeito a impulsos estranhos e indomáveis, a desequilíbrios perigosos e desconhecidos em sua natureza total. Era moreno e carrancudo, de cabelos bastos, negros e encaracolados. Tinha a barba negra e cerrada. Não fina, como a de Gustavo, mas dura, grossa e crespa, sempre raspada, com exceção do bigode, preto e quase retangular, aparado domesmo tamanho da boca e cobrindo todo o lábio superior. Suas sobrancelhas também eram bastas e cerradas, negríssimas, e o sobrecenho, contraído e fechado, contribuía para aumentar ainda mais a impressão de ferocidade do rosto inteiro. Vestia naquele instante uma roupa de casimira cinzenta, e, sob os punhos limpíssimos da camisa branca, viam-se seus pulsos grossos, peludos e nodosos, terminando pela mão quadrada e grande, de dorso também coberto de pêlos, larga e grossa. Dom Eusébio Monturo, que tinha o hábito de fazer comparações disparatadas e que não suportava Arésio, costumava dizer que ele parecia "um cruzamento de Jumenta com carro preto", ou então "de um Carneiro preto, lanzudo e criminoso com uma Diaba fêmea que tivesse trepado com
o Carneiro sob forma de Cabra". Apesar dos exageros e da língua solta de Dom Eusébio Monturo, um Mestre em -Astrologia como eu saberia logo que, ao dizer isso, ele estava mais perto da verdade do que os outros talvez pensassem. De fato, Arésio, nascido a 22 de Março de 1900, tinha recebido, ao nascer, os influxos malfazejos do Planeta Marte, e pertencia, exatamente, ao signo do Carneiro, o que talvez explicasse a expressão de "cruzamento de Carneiro com Diaba fêmea" que Dom Eusébio usava em relação a ele. Como Vossa Excelência deve saber, Marte, Planeta ubicado no quinto Céu, é astro ardente, seco, do fogo, noturno e de ca- ' ráter masculino. Os nascidos sob seu influxo têm estatura média
o alta, cabelos negros ou vermelhos, às vezes lisos, às vezes encaracolados, "mas sempre curtos, duros e com aparência de escova", segundo nos ensina o Lunário Perpétuo.-O corpo dos "marcianos" acusa brutalidade: a cabeça é forte, o tronco é quadrado e peludo, os olhos são penetrantes e de expressão fixa, a voz é forte e metálica. São sempre corajosos, mas rudes e agressivos, com tendência à irascibilidade, ao ódio e à crueldade. Impõem seu comando
o são impelidos, pelo sangue de seu Planeta, a satisfazer as exigências de seus sentidos violentos e implacáveis, isto de modo brutal e em tudo - no jogo, nos prazeres do amor, nas bebidas e, eventualmente, nas orgias a que se entregam. A comida preferida deles é a carne sangrenta e meio crua, principalmente a carne de caça, assim como todos os demais pratos preparados com condimentos fortes. Nos casos benéficos, saem do contingente "marciano" da Humanidade os grandes Guerreiros, os Soldados e, aqui no Sertão, os grandes Cangaceiros. Nos casos em que o influxo de Marte pega uma alma pequena e uma compleição mesquinha surgida de outras circunstâncias, nascem os ferreiros e os açougueiros, que vão satisfazer, no exercício destas profissões, o gosto marciano pelo sangue, pelos metais e pelos instrumentos cortantes. Por outro lado, Senhor Corregedor, no caso de Arésio, o influxo de Marte se agravava, porque o signo em que ele é mais poderoso é
exatamente o do Carneiro, cujo elemento é o Fogo, cuja pedra é
o Rubi - pedra vermelha e cálida - cujos metais são o Ferro,
o ímã, o Azougue e o Aço, e cuja cor é o Vermelho-Sangue.
Assim, quem combina o Signo do Carneiro com alguma conjunção
maligna de Planetas hostis, tem disposições incontroláveis para a violência, o egoísmo, os perigos, a sensualidade e a lascívia, para as rixas violentas e para as orgias, podendo praticar os maiores excessos, e chegar até aos crimes de 'sangue. E que o Signo do Carneiro impressiona o fel, o sangue, os rins e as partes genitais, sendo sua influência sobretudo violenta dentro da primeira Década
o "crítica" quando se dá "em trono e exaltação de Marte", o que sucede, exatamente, a 22 de Março, dia do nascimento astroso e fatídico de meu primo Dom Arésio Garcia-Barretto, o Príncipe Cáprico desta minha fatídica e astrosa Epopéia! Foi somente, pois, por não serem Mestres em Astrologia que as pessoas da sala ficaram espantadas com a brutalidade do gesto, para eles inesperado
o absurdo, de Arésio. Todos os que estavam na reunião eram favoráveis - ou pelo menos manifestavam uma indiferença benevolente - a ele, no seu conflito com o Pai e com o irmão mais moço por causa da herança da "Onça Malhada". Por outro lado,
o Bispo Dom Ezequiel, ancião de caráter tranqüilo e bondoso, entrado suavemente numa velhice compreensiva e cheia de mansidão, era estimado no Sertão inteiro, como um modelo de virtude. Pois foi exatamente para o Bispo que Arésio marchou depois de entrar na sala, com os olhos meio alheados, como se não visse mais ninguém. Os olhares de todos, esses estavam fixados nele e somente nele, como não poderia deixar de ser. Personagem visadíssimo, profundamente afetado pelos acontecimentos da tarde e pela chegada de Sinésio, aparecia ele agora em público daquela maneira violenta depois de se manter desaparecido desde a véspera, e irrompia inesperadamente na reunião para a qual não tinha sido convidado, primeiro porque ninguém sabia onde ele se encontrava, depois porque todos o temiam. Encaminhando-se para Dom Ezequiel, Arésio olhava-o fixamente nos olhos, e, segundo todos disseram depois, mantinha uma posição estranha enquanto andava, com o braço esquerdo erguido quase à altura do ombro e estirado para a frente, e com mão aberta, espalmada, em direção ao Bispo. Quando ele chegou junto de Dom Ezequiel, este estendeu-lhe a mão, como para dar a beijar o anel episcopal, isto apesar de que a mão com que Arésio parecia lhe solicitar isso fosse a esquerda, e não a direita, como manda o protocolo. E foi aí que tudo se precipitou. Quando Dom Ezequiel estendeu benevolamente a mão direita para ele, Arésio segurou-a com a mão esquerda e deu um puxão no Bispo que, perdendo o equilíbrio, foi como que caindo em sua direção. Mas Arésio, em vez de ampará-lo, soltou-lhe a mão, e, com o punho direito cerrado, deu-lhe um violento soco no rosto. Dom Ezequiel rolou no chão, com o rosto banhado em sangue, saído do nariz e de um corte que se abrira embaixo de seu olho. Todos ficaram imóveis, boquiabertos, paralisados pela vio1lacia e pelo inesperado do gesto insensato. Os Padres, primeiros
psair do estupor, correram para o Bispo e começaram a lhe restar o primeiro socorro. Quanto a Arésio, olhou um momento & Cena, como se não tivesse nada a ver com aquilo. Depois deu nieia.volta, e, sem trocar palavra com ninguém, sem dar nenhuma explicação sobre o que fizera, tomou de novo o caminho da porta
o saiu da sala, perdendo-se na meia escuridão que já tinha comea cobrir a Vila naquele momento.

FOLHETO LXXI

0 Caso do Jaguar Sarnento
Quando acabei de contar essa parte da história, o Corregedor ficou um momento pensativo, mas logo, sacudindo a cabeça, voltou ao ataque:
Muito bem, Dom Pedro Dinis Quaderna! - disse ele. - O senhor me contou vários acontecimentos sucedidos naquele dia. Deixou, porém, de se referir ao personagem mais importante de todos!
- Quem é, Senhor Corregedor?
- O senhor, Dom Pedro Dinis! Chegou, portanto, a sua hora, e eu quero saber, antes de mais nada, se é verdade mesmo, como diz a carta de denúncia, que o senhor estava no lajedo perto do qual dispararam o tiro!
- E verdade, sim, Senhor Corregedor! Enquanto, aqui na rua, se desenrolavam esses acontecimentos espantosos, eu, o Profeta
o Astrólogo-Épico que os previra e que os tinha esperado, confiantemente, durante os cinco anos que tinham se passado entre a morte de meu Padrinho e a ressurreição de Sinésio, estava ausente, alheio a tudo! Não é estranho? Estava fora, e impossibilitado, portanto, de participar de coisas que seriam decisivas para a vida de todos nós e, sobretudo, para a Epopéia que eu sonhava escrever há tanto tempo! O senhor perguntará: "Por que você estava fora?" A resposta é simples: é que, naquele dia, eu tinha resolvido almoçar no meu Lajedo sagrado!
- De fato, não deixa de ser estranho! Almoçar num Lajedo, quando o senhor tem tantos lugares abrigados para fazer suas refeições! Qual foi o motivo dessa decisão sua?
- De vez em quando, sinto vontade disso, Senhor Corregedor! É sempre como numa espécie de pressentimento; me vem aquela vontade e eu digo para mim mesmo: "Hoje, preciso almoçar no meu Lajedo!" Naquele dia, aconteceu isso, não sei por quê! Comecei corn aquela vontade, aquela vontade, e de repente senti que não devia ficar na Vila. De manhã, saí com Samuel e Clemente, para visitar uma Capela e a Gruta do Olho-d'Agua do Pedro. Nós nos perdemos na Catinga, na volta. Mas depois, ajudados pelo velho João Melchíades Ferreira, achamos de novo o caminho. Clemente e Samuel vieram para a Vila, e eu, que já saíra com meus alforjes preparados, fui almoçar no Lajedo, mesmo sabendo que, ao fazer isso, iria deixar de tomar meu lugar de Chefe na Cavalhada que eu mesmo tinha preparado com tanto cuidado para as duas horas da tarde.
- O senhor costuma faltar às Cavalhadas que organiza?
- Não senhor! Acho que aquela foi a primeira vez, e acho também que será a última! Digo isso porque chefiar Cavalhadas é uma das maiores glórias da minha vida! É um dos momentos em que me sinto como Carlos Magno chefiando seus Doze Pares de França; ou melhor, para ser mais patriota, como Dom Pedro I chefiando os Dragões da Independência, conforme aparece esse Usurpador da Coroa dos Quadernas no monumental quadro O Grito do I piranga, pintado pelo genial Pintor paraibano Pedro Américo de Figueiredo e Mello, Barão do Avaí, Cavaleiro da Ordem da Rosa e Grande do Império do Brasil!
- Quer dizer: o senhor confessa que nunca tinha faltado a Cavalhada nenhuma! Confessa que foi para o lugar de onde atiraram no cabra! E o único motivo que dá como explicação de tudo isso é uma espécie de "pressentimento" que lhe deu?
Vi que estava me desgraçando cada vez mais, de maneira que o único caminho que me restava era o de abrir mais meu jogo a fim de mostrar boa-fé. Resolvi ir adiante em minhas confissões e avancei:
- Senhor Corregedor, conhecendo, como conheço, os Enigmas e os fins ocultos de tudo o que se passou nessa história; conhecendo os fios secretos que ligavam todos os acontecimentos; conhecendo, ainda, o papel que tinha e tenho a desempenhar na "Guerra do Reino" e na "Demanda Novelosa do Reino do Sertão", só posso atribuir, mesmo, minha ausência da Vila naquele instante a uma disposição oculta da Providência Divina! Isto é tanto mais evidente porque, como-já disse, aquela era a primeira vez que eu me atrevia a faltar á uma Cavalhada! Eu tivera, aliás, o cuidado de prevenir meus irmãos, que faziam o papel de Rei Mouro do
Cordão Encarnado e de Rei Cristão do Cordão Azul, para que, em seus movimentos a cavalo, não fizessem nenhuma mesura que pudesse ser interpretada como preito de vassalagem ao Prefeito e ao Presidente do Conselho! Conheço muito bem a Humanidade,
o sabia que, ao primeiro sinal de fraqueza da família Quaderna, o prefeito, o Presidente do Conselho ou qualquer outro "RicoHomem" da Vila começaria logo a conspirar, iniciando seu trabalho de sapa para usurpar o Trono do Cariri, trono que, desde a morte de meu Padrinho, eu venho acumulando com os outros de Gênio da Raça Brasileira, Rei do Quinto Império do Sertão, Imperador do Divino e do Sete-Estrelo do Escorpião e com a dignidade de Profeta e Sumo-Pontífice da Igreja Católico-Sertaneja. É por isso que, como já disse, o pessoal, na hora de saudação, não se voltou para o Palanque. Tranqüilizado eu, portanto, por essas providências que tinha determinado, achei-me no direito de atender a meu pressentimento, indo almoçar no Lajedo que se encontra no lado direito de quem segue pela Estrada de Estaca Zero, Soledade e Campina Grande e que segue, daí, para o Mar, "o Mar, o Mar livre", como dizia Ruy Barbosa! Ora, Senhor Corregedor, se eu saía da rua em ocasião tão importante, foi, primeiro, por aquele desígnio secreto da Providência, e, depois, porque a Véspera de Pentecostes era e é um dia importantíssimo na Liturgia do meu Catolicismo sertanejo, uma data decisiva nos rituais astrológicos, zodiacais, mouro-cruzados e negro-vermelhos que o
integram!
- Bem, esse tal Catolicismo Sertanejo me interessa muito, porque, a meu ver, sua Igreja está estreitamente ligada, por seus rituais, com a morte do Rei Degolado, seu Padrinho, e com a ressurreição do tal Príncipe Alumioso da Bandeira do Sertão! Como foi que o senhor chegou à formulação dessa nova seita religiosa?
- Senhor Corregedor, a criação da minha Igreja Sertaneja foi muito parecida com a da minha Poesia-Epopéica! Foi uma questão, ao mesmo tempo, de fé, de sangue, de ciência, de estro e de planeta! Tudo surgiu a partir da minha herança do sangue da Pedra do Reino, de uma crise de Fé, de uma visagem que tive
o do cruzamento dos Astros zodiacais com as vicissitudes da minha vida-errante, extraviada e perdida por tudo quanto foi caminho
o descaminho deste nosso Sertão velho da Paraíba do Norte! Não sei se já contei a Vossa Excelência que fui destinado, por meu Pai, a ser o Padre da família Quaderna!
- Já, mas não entrou em maiores detalhes! - disse o Corregedor.
- Cheguei a fazer vários anos do Seminário, Senhor Corregedor! Mas, depois, descobri que não tinha vocação e saí!
- Consta, por aqui, na rua, que o senhor foi expulso do Seminário!
- Sim, e foi exatamente isso que me obrigou a descobrir que não tinha vocação e a sair do Seminário! Mas o que eu queria dizer é que, enquanto fui Seminarista, eu viajava daqui até Campina, a cavalo, para lá, tomar o trem da Paraíba! Me diga uma coisa, Senhor Corregedor: o senhor já leu o folheto chamado
O Estudante Que se Vendeu ao Diabo?
- Não!
- Lino Pedra-Verde versou, um dia, essa história, fazendo
o "romance" que eu imprimi e passei a vender aqui, na feira! É uma beleza, só o senhor vendo! Passa-se tudo na Espanha:
o Estudante vai para a Universidade de Salamanca, e, na estrada,
o Diabo dá a ele um Espelho, em troca da sua alma! Desde que li essa história, eu fiquei sabendo que os espelhos eram objetos ligados ao Diabo, às transações diabólicas e à posse diabólica das coisas boas da vida, isto é, o Poder, o dinheiro, as mulheres, as Coroas, os cavalos encantados, os tesouros, etc. Desde aí, também, nunca mais deixei de carregar um espelho comigo, principalmente quando ando nas estradas do Sertão!
O Corregedor deu outro bote para meu lado:
- O quê? - falou ele, arregalando os olhos. - Quer dizer que o senhor carrega sempre um espelho no bolso?
- Carrego, sim senhor! - disse eu, espantado.
- O senhor não disse que os sinais de sol que atraíram o cabra para a morte foram feitos com um espelho?
- Disse, sim senhor! - falei de novo, boquiaberto, porque era outra coincidência fatal que nunca tinha me ocorrido.
- Bem, então o senhor não há de reparar que isso me impressione! Foi de perto do Lajedo que saíram os sinais de sol feitos com um espelho, e o senhor estava no Lajedo, com um espelho no bolso... Anote, Dona Margarida! Muito bem! Agora, Dom Pedro Dinis, pode continuar a narração da sua visagem!
Sentindo a sensação de aperto no estômago se agravar, continuei:
- Senhor Corregedor, como eu vinha dizendo, posso garantir que o venerável e vetusto Seminário da Paraíba, instalado no velho Convento franciscano do século XVIII e situado perto da Casa da Pólvora onde Sinésio foi achado morto, foi minha Universidade, a Universidade de Salamanca da minha vida! Naquele tempo em que eu o freqüentava, lá um dia eu ia viajando pela estrada quando, cansado, parei junto de um serrote de pedras, para repousar e almoçar. O serrote ficava junto de uma encruzilhada. Era já perto do meio-dia e o sol estava de lascar! Fiquei debaixo de um pé de Imburana que havia ali, sombreando as
pedras, e resolvi esfriar um pouco o corpo, antes de almoçar. Momentos antes, quando estava tirando a sela do meu cavalo, eu tinha ouvido um tinido de metal dentro do bolso da carona. Meti a mão ali, e vi, então, que o pacote em que eu conduzia meus materiais de fazer a barba tinha-se aberto. Tirei para fora esses materiais, sentei-me perto do tronco da Imburana, encostei o espelho nele e, enquanto esfriava o corpo, peguei a navalha e comecei a afiá-la no afiador de couro que é o meu. Aí, Senhor Corregedor, por azar e fatalidade, juntaram-se quatro coisas perigosas e invocativas: encruzilhada de estrada sertaneja, metal de navalha, espelho de aço e cristal e, finalmente, couro com esmeril. Eu, na minha cegueira incauta, continuava passando e repassando a navalha de aço no afiador. Num certo momento, meus olhos pousaram, por acaso, no espelho que permanecia ali, em minha frente, em pé, encostado ao tronco. No mesmo instante, dei um salto e um grito de terror: refletido no espelho, estava o vulto de uma Onça, na estrada! Virando-me, aterrorizado, para o lugar em que, pela posição da imagem refletida, a Fera deveria estar, não vi nada! Onde estaria a Onça? Será que eu teria me enganado? Olhei de novo, rapidamente, para o espelho: lá estava, de novo, a Onça! Voltei-me para trás, pela segunda vez: nada! Ah, Senhor Corregedor, foi um dos momentos mais graves da minha vida! Só depois, já no curso da minha viagem com Sinésio, foi que pude avaliar, em toda extensão, o poder e a força diabólica do Espelho, o que depois contarei, quando narrar a Vossa Excelência a nossa incursão infernal pelo Reino Perigoso do Ladrido. Naquele dia, porém, vi logo que a Onça que eu avistava era uma típica "visagem de Espelho", parecida com aquela que o Diabo tinha proporcionado ao Estudante de Salamanca nas estradas poeirentas da Castela espanhola! Fiz das tripas coração, tomei coragem, resolvi desafiar o Destino e examinar a visagem. Iria me arrepender amargamente desta resolução! Olhei de novo a Onça, agora com cuidado. O que mais me aterrorizava é que ela não tinha o contorno preciso das Onças comuns. Não era, de modo nenhum, uma Onça que vagasse pela estrada ou pelas veredas, entre as pedras, as Catingas e os espinhos do Sertão! O que acontecia era o seguinte: ou a Onça crescera
o se tornara imprecisa no intervalo que decorreu entre a minha primeira olhada e a outra, ou então ela já era imprecisa, mesmo,
o eu não me apercebera no primeiro momento. O fato, porém, é que, agora, eu via que a Onça era, mesmo, era formada pelas pedras, o mato, as estradas, o Sol, de modo que, refletida no Espelho diabólico, eu estava envolvido por ela, colocado no próprio campo de pêlos de seu dorso. Me* diga uma coisa, Senhor Corregedor: quando o senhor era pequeno, alguém lhe contou a história do Bicho Homem e do Bicho Mundo? - Não!
- Tia Filipa me contou, várias vezes! Dizem que, no começo, quando Deus tinha acabado de faze-lo, o Bicho Homem vinha por uma estrada, quando encontrou o Bicho Mundo e atreveu-se a enfrentá-lo. No meio do combate foi que ele se apercebeu de que, de fato, o Bicho era fêmea, o que tornava a luta perigosa e desigual para o Homem. Mas era tarde! Com os poderes de encantação fêmea que tinha, a Bicha envolveu o Homem, encantou-o, diminuiu ele de tamanho até transformá-lo num homem e então, quando ele estava do tamanho de um piolho em relação a ela, soltou-o entre seus pêlos, para ele viver ali agarrado, como um carrapato. É por isso que todos nós, agora, vivemos assim, agarrados, chupando o sangue do mundo e errando por entre seus pêlos. Contei essa história a meu Padrinho de crisma, o Cantador João Melchíades, e ele escreveu sobre isso uns versos que diziam assim:
"Foi no começo da Tinha,
da Peste, ao combate Louco: Deus foi, distraiu-se um pouco, perdeu o Fio da Linha! O Homem, divino, vinha na Estrada do Sol do Mundo. Na luz do Sol moribundo bateu-se com a Bicha Estranha,
o a feiticeira Castanha
o encantou, no Profundo!
Agora, encantado a fundo, erra entre os pêlos da Sonsa
que é Fêmea, que é Parda, é Onça, que ele não vê porque é baixo
o que, julgando que é Macho, ungiu com o nome de Mundo!"
- A propósito de quê, essa versalhada? - indagou o Corregedor.
- Ora, Senhor Corregedor, é claro! É que, ali na estrada, era isso que eu estava vendo pela primeira vez, graças ao aço e ao azougue diabólico do Espelho! Só agora eu via que, de fato, eu não passava de um piolho, de um carrapato chupa-sangue e pardo, errante entre os pêlos da Onça! O pior, porém, é que não se tratava nem de uma Onça digna, uma Onça Malhada como aquela que o Profeta Nazário e Pedro Cego tinha visto! Era uma Onça enorme e mal definida, leprosa, desdentada, sarnenta e escarninha, uma Entidade malfazeja que, ao mesmo tempo que me envolvia e tragava, era tragada, também, aos poucos, por um Buraco perigoso,
oco e vazio, cheio de cinza. Enquanto era devorada pelo Buraco, cia erguia o rosto cego e maldoso contra a face do Tempo, que a crestava cada vez mais, encarquilhando e desfazendo em Pó, em cinza e em sarna, o que ainda lhe restava de sua vida demente
o sem grandeza! Por entre os pêlos e chagas sarnentas dessa Onçaparda, eu não via agora, mas sabia, com certeza, que errava a Raça piolhosa dos homens, raça também sarnenta e sem grandeza, coçando-se idiotamente como um bando de macacos diante da Ventania crestadora, enquanto espera a Morte à qual está, de véspera, condenada!
Eu já tinha terminado a narração da minha visagem. Mas o Corregedor, parece que esperava alguma coisa de sensacional, para
o fim, porque perguntou:
- E então?
- Foi só isso! - confessei.
- Só?
- Bem, se eu quisesse impressionar o senhor, poderia inventar um final mais grandioso, mas não estou aqui para lhe mentir, de modo que devo confessar que não sucedeu. mais nada! Nem sequer desmaiei, como Pedro Cego, quando viu a visagem dele! Acho mesmo que prosaicamente cochilei um pouco, pois tinha me espichado no chão para meditar sobre o que vira, o sono veio e adormeci. Mas, de qualquer forma, foi um acontecimento decisivo para mim, porque, a partir daí, nunca mais a imagem da OnçaParda se desligou, para mim, da imagem do Mundo. A cara da Onça, mesmo, eu nunca mais vi, como naquele dia: mas, de vez em quando, uma paisagem sertaneja, tornada mais peluda, parda
o espinhosa por ser coberta de Facheiros, me lembra o couro sarnento dela! Eu já lhe disse que Samuel e Clemente me consideram absolutamente incapaz de ser o Gênio da Raça Brasileira?
- Mais ou menos!
- Mas acho que não lhe disse o motivo principal da opinião deles!
- Acho que não!
- Dizem eles que sou incapaz de escrever qualquer coisa que se áproveite porque, em contato com os folhetos e romances de safadeza eu contraí três defeitos gravíssimos, o "desvio heróico",
o "desvio obsceno" e a "galhofa demoníaca". Eu fiquei realmente impressionado com isso, Senhor Corregedor, porque, por um motivo ou por outro, de fato, foi nisso que me tornei, num safado galopeiro e galhofeiro. Eu ria de tudo, em tudo o Diabo me mostrava
o me mostra seu Espelho danado de mil faces. Pensam que eu rio por alegria, ou então, só por escárnio e deboche. Mas que alegria posso ter, sem ser Imperador do Brasil e sabendo que meu riso provém de uma tentação? Meu riso também não era de
desespero: é apenas que eu vejo a Danada em todos os seus aspectos! Foi, felizmente, nesse tempo, que me caiu nas mãos um livro do genial escritor paraibano Humberto Nóbrega a respeito de Augusto dos Anjos. Li, nesse livro, que os Poetas que têm "a preocupação de cantar a Dor universal" têm uma espécie de face bifronte: por um lado, são "facetos, êmulos de Gregório de Mattos na arte de chasquear"; por outro, vêem "na alegria uma doença e na tristeza a sua única saúde". Um Poeta desse tipo é, segundo Humberto Nóbrega, ao mesmo tempo "patético, trágico, burlesco e espirituoso"; é um "fescenino e irreverente" e também um "hipocondríaco que padece de melancolia".
- Que é que isso tem a ver com a Onça que o senhor viu? - perguntou o Corregedor.
- É que, mesmo tendo eu tomado precauções, nunca mais permitindo que se juntassem perto de mim aqueles quatro elementos diabólicos, aquela visagem me jogou, de uma vez para sempre, no buraco cheio de cinza, na descoberta de que o mundo era um Bicho sarnento e os homens os piolhos e carrapatos chupasangue que erram por entre seus pêlos pardos, sobre seu couro chagado, escarificado e feridento, marcado de cicatrizes e peladuras, e queimado a fogo lento pelo Sol calcinante e pela ventania abrasadora do Sertão. Aliás, acho que estou exagerando um pouco: não foi propriamente no desespero que caí, foi numa espécie de vazio cego e meio insano. Naquele dia, quando acordei do meu cochilo dormido embaixo da Imburana, fiquei um momento me coçando, olhando em torno e procurando sentir com as idéias aquilo que já pensara com o sangue. Sentia que algo de decisivo me acontecera. Sabia que, por mais que eu tentasse me distrair daí para a frente, eu mesmo estava, como a Onça, sendo calcinado por aquela ventania do Inferno. Tudo aquilo que eu possuía de sangue e de vida, estava, aos poucos, sendo queimado, calcinado, transformado em cinza, em sarna e em pó. Quisesse ou não quisesse, eu tinha nascido do sangue da Onça-Parda, da Onça cega e sarnenta do Mundo. Assim, não admirava que meu destino e meu sangue estivessem ligados ao sangue e ao destino dela, daquela Onça que procurava, penosamente, indignamente, se manter de pé, com as quatro patas em cima da terra dura e seca do mundo, exposta à ventania de fogo e cinza quente que a crestava, atraindo-a para o centro do buraco cego de onde era soprada. Lembro-me de que, enquanto me coçava, com um terror desanimado e sem grandeza, o pensamento que me dominava era o de que eu só tinha, para opor à visagem malfazeja que o espelho me mostrara traçada nas pedras e espinhos do Sertão, aquelas quatro ou cinco idéias abstratas que tinham me fornecido no velho Convento franciscano que servira ao Arcebispo da Paraíba, Dom
Adauto Aurélio de Miranda Henriques, para instalar o Seminário
o Paraíba, minha pobre e - descobrira eu agora! - impotente Universidade de Salamanca! Só uma voz eu ouvira, lá, e que tinha força para, talvez, se contrapor ao buraco cego e vazio da Visagem, soprada pelo vento seco e quente da Morte: era a voz daqueles Cantadores que, como os nossos, do Deserto do Sertão, tinham cantado, no Deserto judaico, chefiados pela voz rouca e cheia de brasas de Isaías e Ezequiel. Mas esses, Profetas parecidos com
o nosso Nazário Moura - e a terminar com os dois últimos e mais danados deles, João e Emanuel - exigiam, em troca da força e do exorcismo que me dessem, que eu fosse sóbrio, casto e humilde. Ora, o senhor já sabe que meu maior desejo, desde que nós, os Quadernas, perdemos a terra e a Coroa, era exatamente conseguir nova oportunidade de Trono, para, com isso, me entregar à gula, ao vinho, às mulheres e aos combates guerreiros, tornandome um homem poderoso, desejado e temido. Eu não queria me tornar um rico vulgar e sem imaginação, como o Comendador Basílio Monteiro, porque, com meu sangue fidalgo, nunca dei para Burguês. Meu sonho sempre foi o de ser um daqueles grandes Senhores, Cangaceiros e Príncipes que apareciam nos folhetos. Era arriscado. Mas, se eu me tornasse Gênio da Raça Brasileira, poderia alcançar tudo isso sem matar ninguém e também sem ter a garganta cortada, destino de todo Guerreiro que se preza. Foi aí: que li Sonho de Gigante, um livro de J. A. Nogueira, que Samuel me emprestou. Falava-se, lá, na possibilidade de um Brasileiro escrever um livro bifronte, tendo, por um lado, o "arremesso patriótico e épico" e, por outro, a "gargalhada vergalhante"; um livro que aliasse "a hilaridade a um fundo mais ou menos visível
o amargas preocupações e escura melancolia", com "uma face de sonhos lunares e amor ao Absoluto, e outra solar, heróica". Vi, então, que, mesmo com aquelas contradições e mais com a obsessão
o cinza que a visagem da Onça tinha instilado em meu sangue, talvez por aí eu conseguisse instaurar, no meu sangue, a unidade,
o na Arte a mais alta nobreza do "estilo régio". Dos folhetos, havia dois que me impressionavam muito: eram a História de Carlos Magno e os Doze Pares de França e O Rei Orgulhoso na Hora da Refeição. Pela leitura deles, eu via que os Heróis parece que só faziam três coisas, na vida: porque, quando não estavam na mesa, comendo e bebendo vinho, estavam, ou na estrada, brigando, montados a cavalo, armados de espadas e com bandeiras desfraldadas ao vento, ou então na cama, montados em alguma Dama, trepando senhoras e donzelas desassistidas. Vida era aquela, a vida dos Cangaceiros medievais como Roberto do Diabo, ou dos Guerreiros sertanejos como Jesuíno Brilhante, homens vestidos de Armaduras de couro, armados de espadas compradas em Damasco ou no Pajeú, bebendo vinho de Jurema e Manacá, vencendo mil batalhas e sempre aptos a possuir mil mulheres. Estas, mesmo quando não gostavam disso no começo, terminavam gostando no fim: primeiro, por causa da fama deles; depois porque, como me dizia uma recém-casada sertaneja em meu "Consultório Sentimental e Astrológico", "esse negócio de fuder no começo é um pouco incomodatício, mas depois até entrete". Estava eu, pois, nesses impasses, quando descobri aquilo que minha família escondia cuidadosamente de todos nós: nossa descendência do Rei Dom João Ferreira-Quaderna, o Execrável, em cruzamento com a Princesa Isabel, prima dele!
- Ah, e sua família escondia isso de vocês?
- Escondia, sim senhor! Aquele meu bisavó de sangue godo, o Padre Wanderley, Pai da minha avó, Bruna Wanderley, cortara do nosso nome o Ferreira e só deixara o Quaderna, que meu bisavô, o Execrável, usava pouco e ficara praticamente desconhecido. Meu Pai, Dom Pedro Justino Quaderna, sabia de tudo, porque o Pai dele, Dom Pedro Alexandre lhe contara. Mas, depois de casado com minha Mãe, uma moça fidalga se bem que bastarda, filha do Barão do Cariri e irmã de Dom Pedro Sebastião GarciaBarretto, resolvera "sepultar aquelas histórias todas no olvido e no passado", como dizia ele, no seu estilo almanáquico, e já prenunciando o Poeta que eu iria ser, por herdar a "ciência" dele - bebida no Lunário Perpétuo e no Livro de São Cipriano. Além disso, meu Pai era lido e relido no Dicionário Corográ f ico do Estado da Paraíba, de Coriolano de Medeiros, e nas Datas e Notas para a História da Paraíba, do genial Irineu Pinto. Daí em diante, meu Pai se tornou, além de redator do Almanaque do Cariri, um pouco médico, com as receitas do Lunário, um pouco Poeta, um pouco orador, e um pouco historiador e Genealogista. O Professor Clemente e o Doutor Samuel, quando morávamos na "Casa-Forte da Torre da Onça Malhada", costumavam ridicularizar meu Pai, a quem chamavam "o Fidalgote Raizeiro". Raizeiro, por causa das receitas do Lunário e dos- chás de ervas, e Fidalgote porque meu
Pai, não sei como, descobrira que nós, Quadernas, éramos descendentes do Rei Dom Dinis, o Lavrador. Esse foi, aliás, o motivo de meu nome: lendo, não sei onde, que um bisneto, por linha bastarda, de El-Rei Dom João II, de Portugal, tinha recebido o nome de Dom Pedro Dinis de Lencastre, resolveu "seguir também essa tradição da família" e me botar o nome de Dom Pedro Dinis Quaderna. O que foi, de fato, para mim, um traçado régio dos Astros: primeiro, por causa do nome Pedro - pedra e Dom Pedro I - e depois porque Dom Dinis era, como eu, ao mesmo tempo Rei e Cantador, o que indicava coisas muito sérias na minha pretensão de ser Rei e Gênio da Raça, isto é, Poeta, Deci
frador, e Cantador nacional do Brasil. Apesar, porém, de todas as precauções de meu Pai, meu Padrinho de crisma, João Melchíades Ferreira, o Cantador da Borborema, me revelou tudo sobre a Pedra do Reino - a história das degolas, o Vinho encantado, as noivas que meu bisavô dispensava na noite de núpcias e antes dos maridos, etc. Vi que meu bisavô fora Rei, mas fora, também, Profeta de um Catolicismo que Pereira da Costa chamava de "particular", sertanejo. Vi também que aquele era o Catolicismo que me convinha, uma religião que, a um só tempo, me permitia ser Rei e Santo Profeta, permitindo-me ter tantas mulheres quantas eu pudesse, comer as carnes que quisesse em qualquer dia da semana e beber tanto vinho quanto me desse na veneta, incluindo-se entre estes o Vinho sagrado da Pedra do Reino, que nos mostrava o Tesouro antes mesmo que ele fosse desencantado e descoberto. Era, em suma, uma religião que me salvava a alma e, ao mesmo tempo, permitia que eu mantivesse meu bom comer, meu bom beber e meu bom fuder, coisas com as quais afastava a tentação da visagem da Onça e da Cinza. Ao mesmo tempo, eu tomava, por caminhos de acaso, conhecimentos dos "escritos" deixados pelo Profeta e santo Peregrino do Sertão, o Regente do Império do Belo Monte de Canudos, Santo Antônio Conselheiro. Na Astrologia, eu já fora iniciado por meu Pai que, como redator do Almanaque do Cariri, era Mestre nos Arcanos do Taro e dono da Chave da Cabala. Assim que tomei conhecimentos dessas coisas, fundi num fogo só esses elementos dispersos, e descobri imediatamente que a nova Religião fundada por mim, o Catolicismo Sertanejo, estava em harmonia absoluta com o programa da minha vida, influenciada, como sempre e em tudo, por Samuel e Clemente. Como Catolicismo, era uma religião bastante monárquica, cruzada e ibérica para satisfazer o primeiro; e como Sertaneja, era suficientemente popular e negro-tapuia para ser considerada com simpatia pelo segundo. Posso, então, concluir, dizendo a Vossa Excelência que foram esses os acontecimentos que me trouxeram à minha atual condição de Profeta da Igreja Católico-Sertaneja e Príncipe de Sangue do Trono do Sertão do Brasil!- Entendo! - disse o Corregedor.
- Então, já pode entender também por que a Véspera de Pentecostes era, naquele ano de 1935, tão importante para mim, a ponto de me tirar da Vila no momento em que ia se realizar uma Cavalhada! Do ponto de vista litúrgico, político e guerreiro, começaria, no dia seguinte, o tempo do Fogo pentecostal. Por outro lado, do ponto de vista astrológico e zodiacal, naquele ano o Tempo de Pentecostes coincidia com a força total do Signo de Gêmeos, que é o meu. Por isso, naquela manhã, antes de sair a cavalo com Clemente e Samuel, fui para a minha "Estalagem à Távola Re465
donda". Os vinte e quatro Cavaleiros que iam tomar parte na Cavalhada esperavam, lá, por mim, para receber ordens - incluindo-se entre eles, é claro, meus irmãos que iam ser Cavaleiros e Reis, à tarde. Entreguei a todos as roupas, os mantos, as selas, as lanças e demais arreios e apetrechos-de-boniteza para a festa. Dei ordem para que fosse servido a eles, na "Távola Redonda", um almoço que eu extorquira - e pago a peso de ouro - da Prefeitura. Dei a meus irmãos as últimas instruções. Ensinei como deviam se portar com as bandeiras e estandartes, diante do Palanque, para não mostrar nem vassalagem nem subserviência diante daquelas autoridades da República. Lamentava não poder presidir ao almoço daqueles Cavaleiros da "Távola Redonda", mas tinha minhas obrigações litúrgicas noutro ponto. Comecei, por minha vez, a fazer meus preparativos para almoçar no Lajedo, onde iria cumprir alguns rituais altamente importantes e eficazes da Igreja Católico-Sertaneja. Para isso eu teria de cumprir certas obrigações litúrgicas, vestindo-me de modo especial: calça e camisa "gandola" cáquis, alpercatas de rabicho e chapéu de couro estrelado de metal à cabeça, com signo-de-salomão e tudo. Tinha, ainda, o manto, é verdade. Mas este, eu o coloquei, dobrado, no bolso direito da carona de "Pedra-Lispe", primeiro porque ia sair acompanhado de meus dois Mestres, e depois porque eu só tenho coragem de vesti-lo na estrada, já longe dos olhares dos indiscretos da Vila. Maria Safira, amante minha, tinha saído. Mas, antes de sair, ordenara a Dina-me-Dói - a filha do Profeta Nazário, que morava conosco na "Távola Redonda" - que me preparasse um farnel com paçoca, rapadura e queijo de coalho. Havia, ainda, um chaguer de couro, cheio d'água bem friinha, e um pichel, também de couro de bode, cheio, até o gargalo de madeira, com meu famoso "Vinho Tinto da Malhada". Tomando tudo isso, e mais umas cajaranas que Lino Pedra-Verde tinha me mandado de Estaca Zero, coloquei comidas e bebidas no bolso esquerdo da carona. Voltei ao interior da "Távola Redonda", fui ao meu quarto e, abrindo meu cofre de segredo, peguei meu "anel de pedra amarela, de topázio", meu "anel de pedra verde, de esmeralda", e meu "anel de pedra vermelha, de rubi", assim como meu lenço de cambraia, perfumado a benjoim e capim-sândalo. Peguei também o manuscrito do Caminho Místico do Peregrino do Sertão, e o Caderno de Anotações Astrológicas e Genealógicas que tinha sido de meu Pai. Fechei o cofre, voltei à rua, desamarrei "Pedra-Lispe" do pé-de-tambor, e, montado, fui me juntar a meus dois Mestres, com quem saí para a Catinga. Como já disse, perdemo-nos no mato, mas terminamos encontrando o caminho da volta, já ao meio-dia, graças a meu Padrinho, João Melchíades, que nos guiou até a Estrada Real. Aí, Clemente e Samuel seguiram com ele para a rua. Assim que os três dobraram na primeira curva da Estrada, olhei em torno, certifiquei-me de que estava realmente só. Então, tirei do bolso da carona o Manto litúrgico. Explico isso, porque tenho outro, o régio, feito de pedaços costurados de couro de Onça e GatoMaracajá. Mas aquele era o Manto profético, feito de pano vermelho, cortado por uma Cruz de ouro e tendo quatro crescentes, também de ouro, colocados nos quatro quadriláteros vermelhos formados pelos braços da Cruz. Tinha escolhido esse Manto, primeiro porque o Vermelho é a cor litúrgica de Pentecostes, e depois porque, num tempo que eu julgava próximo, por causa do "Século do Reino", aquela seria, aproximadamente, a forma e a cor dos nossos Estandartes, das bandeiras de nossas tropas, para a "Guerra do Reino do Sertão do Brasil"!

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