A pedra do reíno e o Principe do Sangue do Vai-e-Volta

Ariano Suassuna

FOLHETO LXXII

0 Almoço do Profeta Ah, nobres Senhores e belas Damas de peitos brandos! Vejam como é perigoso a gente se deixar possuir pelo fogo sagrado do sonho e da Poesia! Quando eu vi, tinha deixado, já, escapar essa confissão tremenda! O Corregedor, por outro lado, foi implacável. Como um Gavião, frechou sobre a presa que eu lhe oferecia, e, de dedo em riste, falou para Margarida: - Anote! Esse pormenor é importantíssimo para o inquérito! Aterrorizado, fiquei um momento em silêncio, olhando para ele, magnetizado por seus olhos de cobra, enquanto Margarida, impassível, anotava tudo, ao teleco-teco da máquina de escrever. Quando ela acabou, ainda meio atarantado, vi, porém, que o jeito era continuar no mesmo tom, como se aquilo que eu tinha dito fosse coisa sem gravidade e perigo maior. Assim, falei: - Além do manto de Cavaleiro, eu trouxera, também, minhas outras insígnias imperiais e proféticas. O senhor já ouviu falar num Rei de Portugal chamado Dom Henrique? - Dom Henrique, o Navegador? Já! - Não senhor, não é esse não! É outro, um velhinho, tio de Dom Sebastião. Ele era Cardeal, e, quando Dom Sebastião morreu na Batalha de Alcácer-Quibir, o velhinho subiu ao Trono. Ora, além dele ser Cardeal, estava velho e senil que era uma coisa demais! Portugal precisava de um herdeiro para o Trono que, sem isso, iria cair nas mãos de Felipe II, da Espanha, que era, também, tio de Dom Sebastião. Aí, o velhinho se animou. Conseguiu uma licença da Santa Sé para gerar um herdeiro para a Dinastia. Acontece, porém, que se a Santa Sé podia dar a licença não podia fazer o milagre que tornaria a licença eficaz. Pois bem: o velhinho já estava tão senil e caduco que meteram várias idéias na cabeça dele. Uma dessas, foi a de mamar nos peitos de uma Ama jovem para ver se, assim, recuperaria a virilidade, gerando um filho para o Trono. Conto isso somente para ilustração: porque, a mim, o que interessa em Dom Henrique é que eu sou, como ele, uma espécie de Cardeal-Rei, ou melhor, de Imperador e Profeta, sendo este o motivo das minhas insígnias. Naquele dia, como já disse, meu rifle "Seridó" já ia amarrado no arção da sela. A minha legendária espada "Pajeú" já estava pendurada à minha cintura. Assim, empunhei meu Ferrão sagrado e real, isto é, minha legendária lança "Cariri", a aguilhada sertaneja que me serve, ao mesmo tempo, de Cetro real, de Báculo profético e de Lança guerreira. E como já estava com meu chapéu de couro estrelado à cabeça, completei-o com a parte superior de metal, formando, assim, a legendária Coroa de couro e prata do Sertão. Agora, eu, Dom Pedro Dinis Quaderna, o Decifrador, podia me considerar legitimamente e liturgicamente vestido com as roupagens e insígnias indicadoras da minha qualidade de soberano, profeta e grão-mestre da "Ordem do Reino". Como o senhor vê, o meu é um posto que nada deve ao do meu antepassado Dom Dinis, o Lavrador, aquele outro Rei, de Portugal, que, sendo Poeta e Cantador como eu, tinha sido também, no seu tempo, grão-mestre da "Ordem de Cristo". Então, assim como lhe digo, de Coroa de couro e prata à cabeça, de manto vermelho às costas e empunhando a Lança com a mão direita, sustentei as rédeas com a esquerda e, pinicando "PedraLispe" no cachorro-da-espora, esquipei cerca de quilômetro e meio pela estrada, em direção à Vila, depois de dar tempo suficiente para que João Melchíades, Clemente e Samuel se adiantassem a mim. Cheguei, então, ao lugar que procurava. Apeei-me, puxei "Pedra-Lispe" para fora da estrada, amarrei-o pelo cabresto num pé de marmeleiro, e, a pé, comecei a subir o terreno ladeiroso, espinhento e empinado que leva a meu Lajedo. O cheiro do mato, ali, era, agora, um cheiro de folhas de marmeleiro machucadas, cheiro que se misturava a outro, mais longínquo, de madeiras resinosas mal queimadas. Não muito longe, alguém devia estar queimando alguma coivara e era o cheiro dela que se misturava ao das folhas de marmeleiro pisadas e acumuladas na sombra. Desde que eu era menino, Senhor Corregedor, que aquele lugar era sagrado para mim. Uma vez, errando por ali ao acaso e à aventura, eu encontrara um ninho de Juriti, pousado numa forquilha de marmeleiro. Havia, nele, dois ovos pequenos, lindos, brancos, puros,reluzindo sobre a penugem fofa e ainda quente, do calor da fêmea que voara, espantada por meus passos. Naquele Sábado de 1935, como para me advertir dos acontecimentos que iriam suceder, houve também uma aparição-de-pássaro. Não foi uma Juriti: foi uma Codorniz que levantou vôo de repente, quase de cima dos meus pés, assustando-me e encantando-me. Acho que o senhor, homem da Capital, nunca passou por isso, e portanto não pode saber como é! A gente vai andando no mato, e, de repente, um Tejo enterra os pés de bem perto, fazendo um estrupício danado! O coração da gente fica batendo com o susto e a excitação, principalmente quando se traz, por acaso, a espingarda. Mas, o melhor de tudo, é ouvir, logo depois que o bicho correu ou voou e tudo está calmo de novo, o silêncio e os barulhos normais do mato. Pois bem: naquele dia, a Providência e os astros enviaram a Codorniz para me avisar, e eu, homem cego e pecador, não entendi logo a advertência. Pelo contrário: como se aquele fosse um dia normal de Lajedo, comecei a subir o serrote que leva à minha pedra-de-ara, picando-me nos espinhos dos cactos e queimando-me nos acúleos cáusticos das Favelas e das folhas de Urtiga. Quando cheguei ao pé do Lajedo, já tinha levado uma furada de espinho de Mandacaru um pouco acima do joelho, e uma queimadura de Urtiga na mão. Isso, porém, não poderia ser considerado aviso especial da Providência, pois estava dentro do cabedal de acontecimentos normais daquela excursão. Mas o que veio logo depois, isso foi aviso, e aviso claro. A subida do Lajedo é facilitada por alguns blocos que tinham se destacado de cima, lascados pelo calor ou pelos raios, assim como por saliências, furnas e outras lascas menores, o que formava uma espécie de escada irregular e complicada, até o topo da pedra grande. Comecei a subir. Quando já estava perto da parte de cima, numa última volta que a subida dava, senti, de repente, uma dor terrível no pescoço, como se algum Demônio tivesse me picado com uma agulha envenenada: um Maribondo-Caboclo,' cuja casa eu tinha assanhado sem ver, dera-me uma ferroada. Novamente a Providência me dava um aviso, e eu insistia em continuar, inteiramente cego aos recados divinos! Cheguei à parte de cima da grande e alta pedra. Ia respirando fundo, coberto de suor e meio tonto, tanto pela dor como pelo veneno cáustico do terrível Maribondo vermelho, de duas polegadas de tamanho. A medida, porém, que a dor ia aliviando um pouco mais, o suor e o calor começaram a se dissipar, ante a ventania que soprava ali, no alto, ainda fresca e pura por estarmos no mês de junho, o mais agradável aqui do Sertão. Fiquei então sentado uma porção de tempo, recuperando-me ali, em cima da pedra, ao abrigo da folhagem de três árvores grandes que cercam meu Lajedo e cujas frondes ficam situadas acima do seu topo. São uma Braúna, um Angico e um pé de Tambor. A dor ia desaparecendo aos poucos, pelo menos em sua primeira fase. É verdade que, provavelmente, daí a pouco, eu começaria a sentir frio, febre e dor de cabeça, com os gânglios do pescoço e dos sovacos inchados. Mas como, felizmente, esses sintomas ainda não tinham aparecido, fiquei ali um bom pedaço de tempo sem fazer nada, a não ser devanear e sonhar, olhando a maçaranduba do Tempo e vendo, por entre os galhos do pé de Tambor, os telhados das casas da Vila, que podem ser avistados dali. Não todos, mas os da Rua da Usina o os da Rua do Chafariz, os telhados castanhos, batidos de Sol.

- A Rua da Usina é a rua da qual o cabra baixou para o leito seco do Rio Taperoá, sendo morto então, não é isso? - É, sim senhor! Mas isso não tem grande importância! O que interessa é que estava chegando a hora do almoço e eu precisava cumprir meus rituais da Ordem da Pedra do Reino.

- O quê, homem? - disse o Corregedor, com uma expressão cheia de segundas-intenções. - Os rituais da Pedra do Reino? Não me diga que você degolou algum cachorro ou mesmo algum menino! - Não senhor, o que fiz foi coisa muito mais importante do que isso! Ergui-me da ponta de pedra em que estava sentado, tirei o chapéu de couro, que coloquei a um lado. Forrei uma saliência chata do Lajedo, que me servia de Altar, com o Lenço de cambraia. Pendurei no pescoço, por uma corrente longa, o anel amarelo de Topázio. Coloquei no anular esquerdo o anel de Rubi vermelho, e, no direito, o anel verde de Esmeralda. Assim preparado, num dos lados do Altar de pedra, abri o Caminho Místico, do Santo Peregrino do Sertão, isto é, Santo Antônio Conselheiro de Canudos. Do outro, abri o Caderno Astrológico que meu Pai me legara, copiado cuidadosamente pelo próprio punho dele, com tinta negra e vermelha, herança inestimável para minha carreira de Poeta de sangue, de ciência e de planeta, de Decifrador e Mestre dos Arcanos do Taro. Coloquei também sobre o altar o pichel de vinho, o farnel com paçoca e queijo de coalho, o então comecei a cerimônia. Sim, Senhor Corregedor, a cerimônia. Porque na Igreja Católico-Sertaneja, o almoço não é somente uma refeição, não: é um nobre e litúrgico ritual, cuidadosamente planejado para servir ao mesmo tempo ao prazer, ao espírito e ao sangue dos nossos Fiéis! Modéstia à parte, não existe, no mundo, religião mais completa do que a minha! Nela, o almoço, principalmente quando organizado à base de paçoca com carne-de-sol o queijo de coalho, e também a bebida de vinho e a posse das mulheres, tudo isso é colocado a serviço da edificação da alma dos meus adeptos e seguidores! Veja o senhor: o judaísmo e o Cristianismo dos santos, mártires e profetas, levam ao Céu, mas são religiões severas e incômodas como o Diabo! O Maometanismo, pelo contrário, é uma religião deleitosa: permite que a gente mate os inimigos e tenha muitas mulheres, que coma e beba o que quiser. Em compensação, é danada para levar ao Inferno! A Igreja Católico-Sertaneja é a única religião do mundo que é bastante "judaica e cristã" para levar ao Céu e, ao mesmo tempo, bastante "moura" para nos permitir, aqui logo, os maiores e melhores prazeres que podemos gozar nesse mundo velho de meu Deus! Aliás, Vossa Excelência já deve ter notado isso, quando ouviu, há pouco, a história da Pedra do Reino que eu li para o senhor, porque tudo aquilo que aconteceu por lá eram os rituais executados por meus antepassados em sua extraordinária Desaventura trágico-epopéica. A carne-de-sol, o queijo de cabra, o vinho, as sobremesas de rapadura do Ceará ou de goiabada de Arcoverde, as mulheres - tudo isso faz parte dos rituais religiosos com que prestamos nosso culto à Divindade Sertaneja! - Divindade sertaneja? E existe uma, especial? Quem é? Não é Deus, não? - Conforme, Senhor Corregedor! Como o senhor sabe, essas coisas de religião são difíceis e complicadas. Isso, no geral. No que se refere ao Catolicismo Sertanejo, ele é, muito mais do que o Romano, povoado de coisas astrosas e fatídicas que o senhor só irá entendendo melhor aos poucos! Por enquanto, basta que eu lhe diga que a nossa Divindade Sertaneja é o mesmo Deus judaico e católico, se bem que seja mais parecido com aquele Deus do Deserto do que com o Deus que o Padre Renato nos apresenta na Missa. O nosso Deus é mais parecido com aquele que queimava a boca dos Profetas com uma brasa e que aparecia no Sertão da Judéia "vestido de coivara"! - "Vestido de coivara"? - disse o Corregedor, intrigado.

- Eu digo desse jeito por "patriotismo sertanejo e brasileiro"! Mas, se o senhor prefere, pode dizer de um jeito mais estrangeiro. Nesse caso, o senhor se referirá ao Deus que aparecia no Deserto judaico "sob a forma de uma Sarça ardente!" Além disso, o senhor precisa saber de outras diferenças. Por exemplo: a Santíssima Trindade católica, comum, é formada por três pessoas. A nossa Santíssima Trindade tem cinco, e é sempre figurada através do animal heráldico e armorial brasileiro por excelência, a Onça Malhada. É por isso que, naquele dia, como eu vinha contando, eu me voltei, primeiro, para a direção do Pajeú, onde estão as duas Torres de pedra do nosso Reino. E, abrindo o Livro escrito pelo Peregrino do Sertão, comecei a recitar, em tom de salmodia, minha primeira invocação a Adonai, a terrível Divindade sertaneja e oncística que atende, também, pelo nome de AureadugW - Pelo nome de quê? - perguntou o Corregedor, novamente espantado.

- De Aureadugo, Excelência. "Adugo" é o nome tapuio da Onça Malhada. "Aureadugo" é o nome formado pela contração do artigo "áureo", isto é, "de ouro", parte direitista e tapirista de Deus, com a preposição "adugo". O "Aureadugo" é, portanto, a Onça Malhada e de Ouro do Divino. É o mesmo Adonai judaico e esses são os nomes mais terríveis do-Deus sertanejo do Deserto da Judéia. Por isso, naquele dia, voltando-me na direção do Pajeú, falei assim: "Ó Adonai! Ó meu Deus judaico-tapuia e mouro-sertanejo! Considerai que qualquer coisa é bastante para me tirar a vida! Uma gota de salmoura que desça ao coração entupindo uma artéria, uma veia importante que se rompa em meu peito, uma sufocação de tosse, uma forte opressão interna, um fluxo impetuoso do meu sangue, uma Cobra-Coral que me morda, uma febre, uma picada, um corisco de pedra-lispe incendiada, um raio, uma pedrinha de areia nos rins, um inimigo audacioso, uma pedra que se despenque de um serrote - tudo isso e qualquer coisa pode me coalhar o Fel e me cortar o Nó do sangue, roubando-me a vida em dois tempos! Por isso, Senhor, não leveis a mal que, enquanto estou aqui no Mundo, capaz de gozar esta vida que Vós mesmo engendrastes - juntando o barro da terra sertaneja com o Sol e o furor dos vossos lombos - eu vos preste as homenagens deleitosas que devo à Divindade e que as inicie bebendo uma boa lapada do meu Vinho Tinto e Sertanejo da Onça Malhada!" Dizendo estas palavras, Senhor Corregedor, peguei o pichel de couro de bode, tirei-lhe a tampa de madeira e, levando o gargalo à boca, ergui a cara para o céu e tomei a primeira grande lapada de vinho. Um doce calor e um suave formigamento começaram logo a me percorrer o sangue, aliviando mais a dor da ferroada do maribondo e convidando-me logo a me espichar em cima do Lajedo, para cochilar. Mas, nessas coisas de religião, eu sou duro e fiel: havia, ainda, várias partes do ritual a cumprir de modo que reagi e não me deitei. Eu lera estas palavras que acabo de ler de novo para o senhor, no Livro do Peregrino do Sertão. Voltei a página, molhando o dedo na língua, exatamente como via o Padre Renato fazer com o Missal, nas missas dos Domingos. Aí, li de novo, em voz alta: "Ó Adonai, ó Adugo, 6 Jaguar Sertanejo do Terrível! Considerai que sou um pecador, eu, bocado de terra parda e sertaneja amassada no sangue e no Sol! Por isso, em terra brevemente me vou de novo a converter! Lembrai-vos de quantas vezes, contra minha vontade, já me vi metido nas correrias, guerras e emboscadas do Sertão! Posso, de novo sem querer, me ver metido noutra e ser assassinado, com meu corpo deixado ao Sol, na estrada empoei rada, para ser comido pelos Carcarás! E mesmo que eu tenha a sorte de morrer na cama, ainda assim nada muda: serei sepultado na terra dura, quente e seca do Sertão, para ser pasto de animais cegos e salamandras de fogo, de pele luzidia! Sim, porque o General Dantas Barretto já adverte "todos nós de que, no chão sertanejo, os raios do Sol candente batem em cheio, com intensidade destruidora, e o solo abre as entranhas por grandes fendas em que se precipitam répteis famintos, à procura de alimentos que não encontram à superfície de fogo. Assim, este corpo, que agora me dá tantos estremeços de prazer com Maria Safira, há de apodrecer. Minha cara, minha boca, meus cabelos, hão de cair aos pedaços. Meus olhos vão ser comidos pelos Gaviões! Meu corpo se tornará um esqueleto, a princípio fétido e medonho; depois, embranquecidos pelo Sol, meus ossos hão de separar-se uns dos outros! Minha cabeça há de se apartar do tronco, como aconteceu com a de meu bisavô na Pedra do Reino! Assim, já que vou ser comido pelos Gaviões e Carcarás, pelos Urubus e Cachorros-do-Mato errantes no Sertão, 6 Senhor, não leveis a mal que agora, enquanto estou vivo, eu me deleite comendo a carne dos bichos que cacei e matei, principalmente agora essa carnede-paçoca e esses nacos de carne-de-sol assada, tirados do lombo e do patim do Bode que sangrei ontem, em vossa homenagem!" Voltei então as costas para meu Altar, Senhor Corregedor, e, numa trempe de pedras que já havia lá, suja de cinza por outros rituais semelhantes que eu celebrara noutros dias, acendi fogo. Usei, para isso, folhas secas e gravetos, que incendiei tirando, com uma placa de aço, faíscas na pedra do meu corrimboque. Tirando uma panela, que escondera, há muito tempo, já, numa pequena loca da pedra, coloquei e esquentei nela minha cheirosa e gostosa carne-de-sol com paçoca que a endemoninhada Maria Safira tinha preparado. Essa parte de comer carne assada, é, aliás, Senhor Corregedor, um dos rituais que eu cumpro com mais prazer e gosto no meu Catolicismo Sertanejo. Principalmente quando, como naquele dia, a paçoca está enriquecida com ovos cozidos, cebolas e toicinho-de-terreiro, tudo bem torrado, bem adubado e bem salgadinho! Comecei então, como vinha dizendo, a comer ritualmente os nacos de carne-de-sol, misturando-os com a paçoca e evitando os entalos e engasgos da comida seca e salgada, gostosíssima, com deliciosos e grandes goles do meu Vinho Sertanejo da -- Malhada. Quando me fartei de carne assada e paçoca, terminando outra parte do ritual, voltei ao Altar, folheei o Livro do Peregrino do Sertão e o Almanaque Astrológico, Zodiacal e Genealógico do Cariri, salmodiando de novo, nos seguintes termos: "Ó Adonai! O Onça Tapuia, Negra e Malhada do Divino do Sertão! Esta República dominada por Burgueses gordos é, sem dúvida, um grande mal para o Império do Sertão do Brasil! Ela pretende minar e desmoralizar o Povo da Onça Castanha e o nosso Catolicismo Sertanejo, esta obra-prima de Deus, religião mais perfeita e mais antiga do que o Catolicismo Romano! Este tem somente vinte séculos, enquanto a nossa sagrada Religião da Pedra do Reino foi fundada no Deserto sertanejo da Judéia, junto às Pedras do Reino do Sinai e do Tabor! O Presidente da República, seus cupinchas o os gordos ricos, entendem que podem governar, trair e vender o Império do Brasil a seu bel-prazer! No entanto, o Brasil está predestinado para o Monarca Castanho do Povo, aquele que foi legitimamente constituído por Deus para fazer o bem e a grandeza do Povo Brasileiro! Quanta injustiça nós, Católicos Sertanejos, contemplamos amargurados! O poder do Presidente não é legítimo, a República não é legítima! Todo poder legítimo é uma emanação da Onipotência eterna do Deus Sertanejo através do Povo, e portanto está sujeito à regra divina da nossa Santa Igreja da Pedra do Reino, tanto na ordem temporal como na espiritual! Todos os Brasileiros deveriam estar obedecendo a Quaderna, Príncipe, Pai e Profeta, porque, obedecendo a ele, é a Deus que todos obedecem! É evidente, para todas as pessoas de bem, que esta República permanece sob um princípio falso e só traz o mal, para o Povo Brasileiro! Ainda, porém, que ela trouxesse algum bem, ainda assim é má por si mesma, porque contraria a Lei sagrada do Povo e do Sertão! Quem não sabe que o digno Príncipe, o Senhor Dom Pedro Dinis Quaderna, deveria, logo, ser coroado como Dom Pedro IV, o Decifrador, Rei do Sertão, Imperador do Brasil e Sumo Pontífice da Igreja Católico-Sertaneja, sendo, como tal, reconhecido pelas Nações? Negar estas verdades, seria o mesmo que dizer que o Sol não é divino e não descobre sempre um novo dia, aos raios de seu fogo de Ouro! É erro, e erro grave, dizer que a família real dos Quadernas não deve mais governar o Brasil, como fez há um século, na Pedra do Reino do Sertão do Brasil! Uma coisa é o Sertão, outra é o Mundo! Se o Mundo fosse divino e absoluto, ainda se poderia duvidar. Mas o Sertão é que é divino, e o Sertão só jura e pune pelo sangue real dos Quadernas! Por isso, esta República da iniqüidade cairá por terra e, mais cedo ou mais tarde, Deus fará a devida justiça! A República se acaba breve: é princípio de Espinhos! O Príncipe é o verdadeiro dono do Brasil! Das ondas do Mar, Dom Sinésio Sebastião sairá com todo o seu Exército. Tira a todos, no fio da Espada, desse papel da República, e o sangue há de ir até a junta grossa. Quem for Republicano, mude-se para os Estados Unidos! O Tempo está chegando, o Século vem vindo! É preciso que Deus e o Povo não deixem em silêncio a causa verdadeira e a origem de todos os obstáculos que o Presidente da República e jseus cupinchas levantam, para impedir que a Família imperial dos Quadernas chegue de novo ao Trono do Brasil: é o medo, é o horror de que todos ficaram possuídos, ao saber que, na Pedra do Reino, há um século, Dom João II, o Execrável, mandou sacrificar sete mil Cachorros que, se o Reino 'tivesse continuado, teriam ressuscitado como indômitos Dragões, para devorar os poderosos e confirmar o Império, acabando a escravidão do Povo, & traição ao Brasil, e instaurando, de uma vez para sempre, a ustiça e a monarquia do Povo, através da Coroa de couro e prata da Onça Malhada do Sertão!" - De onde o senhor tirou toda essa lengalenga disparatada? perguntou o Corregedor, irritado.

g- A maior parte das minhas palavras, Senhor Corregedor, era tirada das lições e escritos do Peregrino do Sertão. Mas o senhor compreende que eu tinha que acrescentar e adaptar certas coisas, para tudo ficar mais claro para o Povo Brasileiro, não é mesmo? Por exemplo: Santo Antônio Conselheiro diz, de fato, é que 'o digno Príncipe, o Senhor Dom Pedro III, tem poder legitimamente constituído por Deus para governar o Brasil". Mas eu substituí Dom Pedro III por Dom Pedro IV. Por outro lado, sempre que falo na Família Imperial, tenho o cuidado de esclarecer que estou falando dos Quadernas, senão daqui a pouco os Braganças vão logo ficar assanhados, pensando que minha referência ë a eles. Eu estava, Senhor Corregedor, vivendo um tempo de randes esperanças! Minha família tinha reinado sobre o Brasil etatamente de 1835 a 1838, de modo que o Século do Reino vinha chegando, e era tudo isso que se refletia nas minhas preces e invocações, no Lajedo. Terminada, então, aquela que acabo de contar, entrei pela parte da comida de queijo de coalho, que comecei a comer aos pedaços, com pão bem manteigado, ainda sempre acompanhando os bocados com meu Vinho Tinto da MaIhada. Depois de terminar o queijo com pão - parte das mais litúrgicas, porque, como o senhor sabe, o pão e o vinho tinto são coisas muito sérias - voltei ao meu Altar e, segurando em direção ao Céu o meu anel de pedra-amarela de Topázio, falei assim: `Ó meu Planeta! Ó Sol de Mercúrio! O Espada mercúrio-solar que o Zodíaco me destinou! O Lâmina astral de dois Gumes! Cobri-me com vossos raios, em exaltação, sob o influxo do meu duplo Signo Gêmeo e Arqueiro! Garanti minhas qualidades para as Artes e as Ciências Ocultas! Garanti-me meu Vinho, meu Reino, meu Poder, os Bodes para os sacrifícios, a Coroa e o Cetro no Trono da Pedra do Reino! Ó meu astroso e fatídico Planeta! Livrai-me da atual Mulher, mercuriana e endemoninhada que se apossou do meu sangue, e fazei aparecer diante de mim a Outra, a Venusiana de signo louro-cabrum com que sonho há tanto tempo! Dai-me aquela a quem seu Planeta, regando o órgão feminino da geração, coloque, no centro mesmo do seu corpo um ponto sagrado de Reino e Sangue, firme e seguro para mim, tanto na esfera espiritual como na esfera sexual!" Ao recitar essa parte, não deixei de lançar um rabo de olho para Margarida, para ver se ela tinha entendido meu apelo oculto. Mas Margarida, revelando, mais uma vez, sua natureza cruel, indiferente a mim, não me deu a menor importância, nobres Senhores e belas Damas de peitos brandos! Então, dando um suspiro, voltei-me novamente para o Corregedor e continuei a narração: - Terminada essa reza-forte, e acabado o queijo de coalho com pão, fui à carona, que levara comigo para o alto da pedra, a fim de retirar, do seu bolso, uns Umbus e Cajaranas que tinha trazido, assim como o pacote com os tacos de rapadura que seriam minha sobremesa naquele dia. No momento em que, enfiando a mão, tinha pegado tudo e já ia retirá-la, senti de novo uma violentíssima picada na ponta do dedo médio da mão direita: tinha sido picado por um Lacrau, ou melhor, por uma Lacraia, porque era uma bicha enorme, aurivermelha, uma bicha que eu, louco de dor e de raiva, consegui fazer sair do esconderijo e esmagar com a sola das alpercatas, em cima do Lajedo. Lembrei-me logo de que entre os versos de um Epigrama que eu tinha feito, aqui, contra um Poeta escalavrado, havia uma estrofe que dizia: "O Bode fede a Vida mas a Lacraia pica e traz a Morte. Vida é carne sentida: é Sina mal cumprida entre Clarões de má Cegueira e Sorte".

- O que é que o senhor quer dizer com isso? - perguntou o Corregedor.

- Sei não senhor! Eu estava comendo carne de bode e bebendo vinho, e agora, picado por uma lacraia, era como se o Bode fosse um signo da Vida, e a Lacraia envenenada um signo armorial da Morte! Era mais um aviso dos astros e da Providência! O que eu sei é que, se não caí logo morto, ali, estatelado, foi porque já estava ficando vacinado aos poucos com a espinhada do Mandacaru, as queimadelas de Urtiga e com o veneno do Maribondo-Caboclo. Acho também que o Vinho tinto ajudava, espalhando o sangue, sendo esse o motivo de eu não ter morrido! Sentei-me, esperei um bocado para que a dor aliviasse mais, e só então comecei a comer os Umbus e as Cajaranas, cujo suco, por sorte, como todo mundo sabe, é ótimo para veneno de Lacraia fêmea. Estava, agora, chegando ao fim da refeição ritual, de modo que tinha de me apressar nas preces, voltando a me dirigir de novo diretamente à Onça Malhada do Divino. Terminando de comer as frutinhas, fui novamente ao Altar e falei para a Divindade assim: "Quando chegar o Século do Reino, e for anunciada a Vigília de fogo, o Senhor enviará a Coluna de brasas sobre o acampamento e o território dos estrangeiros e dos criminosos e poderosos aliados seus. A Onça de fogo do Sertão destruirá seus Exércitos, despedaçando as rodas dos carros-de-combate, e todos os traidores serão arrojados do Sertão para o fundo do Mar. Dirão assim os Estrangeiros: `Fujamos dos Brasileiros e outros Latinos, porque o Deus de Fogo peleja a favor deles e contra nós!' E o Deus de Fogo dirá a Quaderna: `Estende a tua Mão desde a Pedra do Reino até o Mar, para que as águas de Sal se voltem contra os Estrangeiros e corroam seus Carros diabólicos, suas máquinas de fogo e sua cavalaria de engenhos de chamas!' E assim será! Quando Quaderna estender sua mão, quando o Rei brandir o seu Cetro e o Profeta seu Báculo, o Príncipe do Povo, o Moço do Cavalo Branco será suscitado e o Mar fará soçobrar os traidores, refluindo depois, ao amanhecer, para o lugar que ocupava. Naqueles dias, o Rei escreverá um Canto para o ensinar ao Povo do Brasil, aos filhos do Sertão do Mundo. E depois de suscitado o Príncipe pelo Canto, o Senhor do Fogo ordenará a Sinésio, filho de Dom Pedro Sebastião, dizendo: `Anima-te, sê forte e tem coragem, porque tu farás entrar os Filhos do Sertão no Reino que lhes prometi, e eu estarei com o Povo'. Como de fato: logo que Quaderna acabar as palavras deste Canto e desta Lei no seu Livro, ordenará aos Sertanejos que levem a Arca de Pedra da Aliança do Senhor do Fogo, dizendo: `Tomai este Livro e enterrai-o ao pé das Torres de pedra da Catedral encantada do Reino, para que ele sirva de fundamento e pedra-angular para o Império do Brasil'. E quando os Estrangeiros fugirem, desbaratados, juntamente com os traidores que os apóiam, encontrar-se-á o sagrado Deserto do Sertão com as Aguas salgadas e sagradas do Mar. Assim, naquele dia, o Senhor do Fogo livrará o Sertão, e o Povo verá seus inimigos mortos na Praia do Mar, pelo castigo que a mão poderosa da Divindade executará contra eles, contra sua injustiça, sua dureza e sua iniqüidade. Então Quaderna, subindo à sua Pedra, entoará com o Povo o sagrado Canto que o mesmo Quaderna fez, dizendo: `Cantemos ao Deus de Fogo do Sertão, porque ele manifestou gloriosamente seu poder, precipitando no Mar as máquinas e as empresas, os engenhos infernais dos Estrangeiros e traidores, castigando a força e o opróbrio dos Poderosos que nos oprimiam e exaltando o Sertão, com sua coragem, suas pedras, seus espinhos, seus cavalos e seus Cavaleiros!'" Persignando-me então, Senhor Corregedor, dei as costas ao Altar pela última vez, e comecei a comer tacos e tacos de rapadura, sendo que, agora, não os acompanhava mais com Vinho e sim com gostosos goles d'água, bebidos no gargalo do meu chaguer de couro. Este, deixando rever um pouco de umidade, tinha esfriado a água de dentro que, derretendo a rapadura dentro da boca, chegava mesmo na hora e estava uma delícia, principalmente com a sede que tinham me deixado o Sol, o sal da carne e o Vinho do pichel. E, chegando ao fim dessa parte, foi erguendo a água sacrifical para Deus que lhe dirigi minha última súplica, dizendo: "Meu Deus Sertanejo! Minha Onça Malhada, meu divino jaguar de sangue, fogo e pedras preciosas! Eu não creio em nada! Vinde inflamar meu sangue com aquele dom de fogo chamado a fé, mesmo que vossa Fé venha a me queimar com a ventania deste meu Reino sagrado e sangrado, o Espinhara, o `sertão' incendiário e abrasador! Esta ventania de fogo queima e maltrata, mas cura e cicatriza, e é, portanto, o começo da Salvação. Õ Onça-Vermelha do Pai! Ó Onça Negra do Diabo! Ó Onça-Parda e Castanha do Filho! O Corça Branca! O Gavião de Ouro do Sol do Espírito Santo! É preciso que a Onça do Mundo - sarnenta, chagada e purulenta - se transfigure na Onça de Ouro Malhado, assentada, não mais sobre o Buraco vazio, devorador e cego da cinza, mas sim sobre o Lajedo firme e forte do Divino! Só assim, meu Reino será verdade, só assim meu sangue e meus ossos serão verdade, só assim será verdade a Furna do Mundo e a Furna sagrada para onde todos nós caminhamos e que sagra a Onça da Vida pela Onça da Morte, realizando sua união final com a Onça Sagrada do Senhor de Fogo! É isso o que espero de Vós, Senhor, agora e por todos os séculos dos séculos. Amém!"

FOLHETO LXXIII

Cavalhadas de São João na Judéia Saciado da fome que vinha sentindo desde que tinha me perdido na Catinga, Senhor Corregedor, e religiosamente dessedentado da sede espiritual do Deserto Sertanejo, espichei-me então à sombra do pé de Braúna que ficava à direita do Lajedo. Deitado meio de lado, com a cabeça sobre uma pedra sobre a qual eu colocara o manto enrolado, à guisa de travesseiro, comecei a olhar o Tabuleiro que ali, naquela hora, centelhava para todo lado, sob o Sol violentíssimo do meio-dia sertanejo. Meus olhos, treinados como os dos Gatos-Maracajás, percorriam os lugares importantes em que naquele momento estavam, ou deviam estar ao que eu presumia, os personagens mais importantes da terrível história de sangue, de amor e de cavalarias bandeirosas, ligada ao nome e à pessoa de Dom Pedro Sebastião, o Rei Degolado que fora meu tio, cunhado e Padrinho. Note Vossa Excelência que, naquele momento, mais ou menos à uma hora da tarde, Sinésio, o Alumioso ainda não tinha chegado ali, de modo que não deixa de ser um sinal astroso e fatídico que, sem qualquer causa aparente, eu estivesse me lembrando dele e do Pai. É verdade que eu pensava em escrever um Romance-Epopéico tendo como centro de enigma o de-crime-e-sangue, a morte de meu Padrinho. Mas por que me lembrava disso exatamente agora? Eu evocava o velho Rei barbado e profético em Canudos, em 1897. Na Pedra do Reino do Pajeú, para onde ele viajara uma vez comigo, na célebre viagem ligada ao Tesouro e seu roteiro. Evocava-o na "Guerra de Doze", travada no Sertão da Paraíba, em 1912. Também em 1930, quando ele, vestindo seu famoso Gibão medalhado de guerra, lutara contra o famoso "Batalhão Provisório" do Presidente João Pessoa. Via-o ao lado de seu filho predileto, o mais moço, Sinésio, nas coroações de Imperador do Divino Espírito Santo. E finalmente via-o mais uma vez deitado no chão da "Torre da Casa-Forte da Onça Malhada", ensangüentado e degolado, na mesma posição em que, ainda sem fôlego pela subida da escada e pelo arrombamento da porta, eu o tinha avistado, começando a gritar desatinado, pelo terror, pelo choque e pelo desespero. Agora, deitado ali sobre meu Lajedo, eu estava começando a sentir mais os efeitos do vinho, dos signos e dos rituais astrológicos da Igreja CatólicoSertaneja. A grande vantagem dos Zodíacos, cartas de Baralho, bandeiras, Brasões, mantos com Cruzes e Crescentes, estrelas de Prata, Lanças e outras insígnias régias da minha Igreja e da minha Monarquia, era que, com eles, eu enchia o Buraco cego e vazio do Mundo e o Deserto-Assírio da minha alma. Sentindo meu sangue pulsar com violência, não havia mais como duvidar de mim. Meu sangue me garantia a existência do meu corpo, e o corpo, a da minha Alma. Por sua vez, o Mundo tomava outro aspecto. Além de, agora, divinamente embriagado, eu ter certeza de que eu mesmo existia, olhava para o lugar onde, pouco antes, tinha visto o Pardo Mundo - Onça sarnenta, assentada sobre o abismo da Cinza - e não via mais esse animal tinhoso, e sim uma Onça Malhada, bela, reluzente e gloriosa, gigantesca, de pêlo cor de ouro e malhas pardo-avermelhadas. A Raça piolhosa dos Homens e os Lacraus peçonhentos que eram os animais, apareciam-me, agora, como uma Cavalgada muito bem organizada, realizada por Reis, Valetes, Rainhas, Damas e Bispos, montados a cavalo, uma Cavalgada bela, gloriosa, cheia de espadas e bandeiras. Sua caminhada pela tez de fera do Mundo, não me parecia mais uma agitação covarde e mesquinha, como uma tentativa ignominiosa e inútil de fuga realizada por inapeláveis condenados à Morte, mas sim uma Cavalhada como as que eu fazia aqui na rua e que eram, também, rituais do meu Catolicismo - as minhas Procissões. Essa Cavalhada do Mundo - da qual Deus era o Chefe e Rei-Mouro-e-Cruzado (como eu era das minhas) - não se arrastava mais, acovardada e feia, em direção do Reino de Cinza da Morte, mas sim galopava valentemente em direção ao Sol Divino, ao Sol do Terrível. Por isso, o Mundo não me aparecia mais como um animal doente e leproso, como um lugar sarnento e pardo, nascido do Acaso, mas sim como um Sertão glorioso,fundado na Pedra, ao mesmo tempo harmonioso e ardente. Do mesmo modo, a parte deste Mundo que me fora dada - o Sertão não era mais somente o sertão" que tanta gente via, mas o Reino com o qual eu sonhava, cheio de cavalos e Cavaleiros, de frutas vermelhas de Mandacaru reluzentes como estrelas, bicadas pelas flechas aurinegras dos Concrizes e respondendo às cintilaç$es prateadas de outras estrelas - as estrelas dos peitos das Damas, as estrelas negro-vermelhas dos sexos femininos, as estrelas de metal ostentadas nos estandartes das Cavalhadas ou nos chapéus de couro usados pelos Tangerinos, Vaqueiros e CangaCeiros, os Fidalgos da minha Casa Real com suas coroas de couro de Barão. O próprio Deus não era mais aquele sopro tênue das outras religiões: aparecia-me como a Santíssima Trindade Sertaneja, um Sol ardente e glorioso, formado por cinco animais num só. Era a Onça Malhada do Divino, formada por cinco bichos: a Onça-Vermelha, a Onça Negra, a Onça-Parda, a Corça Branca e o Gavião de Ouro, ou seja, o Pai, o Diabo, o Filho, a Compadecida e o Espírito Santo.

- Dom Pedro Dinis Quaderna, já notei, duas vezes, que, na sua religião, o Diabo faz parte da Santíssima Trindade e o Espírito Santo é sempre representado por um Gavião. Por que é isso? - perguntou o Corregedor.

- Bem, Excelência, tudo isso aparece aí, primeiro, porque é verdade, depois por causa da influência de Samuel, de Clemente e, de certa forma, do Padre Daniel. O Diabo é um revoltado do Partido Negro-Vermelho, e portanto precisa ser reabilitado e integrado na Divindade. Depois, no meu Catolicismo, os bichos que servem de insígnia ao Divino são todos rigorosamente brasileiros e sertanejos. Por exemplo: na minha linguagem, nunca entram leões ou águias, bichos estrangeiros, mas sim Onças e Gaviões. Ora, além dessa fidelidade brasileira e sertaneja, sempre achei essa história de representar o Espírito Santo por uma pombinha, meio afrescalhada. Fique logo claro que o Espírito Santo não tem nada com isso: a culpa é de quem inventou! Essa história da "pombinha" não tem nada de Profecia-Sertaneja, é frescura desses Profetas aveadados do estrangeiro! É por isso que, no meu Catolicismo Sertanejo, o Espírito Santo é um Gavião, bicho macho e sangrador, e não essa pombinha que sempre me pareceu meio suspeita. Segundo nossas crenças, Senhor Corregedor, foi a Onça Malhada do Sol Divino que nos fez, a mim e ao Mundo, segundo sua própria imagem. Assim, não admira que o jaguar divino fizesse em relação ao Mundo o mesmo que eu, como Rei, faço com o Sertão. Por isso é que Deus pegou o Campo azul e incendiado da bandeira do Céu, dispondo nele as peças de ouro e prata de seu Brasão, coruscante de sóis e estrelas, com o Cruzeiro, o Sol e o Escorpião. Até mesmo a Morte, Senhor Corregedor, era, agora, para mim, uma sagração bela e heráldica, armorial. Aparecia-me como uma gigantesca Cobra-Coral, enroscada no Céu à nossa espreita. Era negra de "sable", branca de "prata" e vermelha de "goles", com asas de Gavião, com dentes e garras de Onça - uma Cobra cujo veneno passava a ser, para nós, o óleo sagrado, necessário para ungir-nos, indispensável à sagração sem a qual não podemos unir-nos ao Divino para identificarmo-nos com ele, para nos tornarmos também divinos. Bem, Senhor Corregedor: então, naquele dia, os sonhos do vinho tinto e os sonhos zodiacais e embandeirados do Catolicismo Sertanejo começaram a se juntar com as cintilações que o Sol ia tirando aqui e ali em pontas de pedra, em lascas de quartzo e em cristais de malacachetas, e, de repente, quando menos eu esperava, tive uma "viração".

- Uma "viração"? O que é isso? De que "viração" o senhor está falando? É, por acaso, à brisa sertaneja que o senhor quer se referir? - Não senhor! Aliás, não lhe faltando com o respeito, o senhor está revelando pouco conhecimento dessa questão das ventanias sertanejas! Senhor Corregedor, aqui no Sertão - terra espinhenta, parda, pobre e pedregosa da Esquerda - absolutamente não existe nenhuma "brisa", que é uma ventaniazinha romântica, besta e da Direita, muito freqüente no estrangeiro, e que no máximo, pode aparecer aqui no Brasil, uma vez ou outra, só na Zona da Mata! O vento daqui do Sertão, ou é o cariri noturno, ou o espinhara, o vento abrasador do meio-dia e das tardes da Catinga! Quando eu digo "viração", refiro-me a outra coisa muito diferente. As "virações" são uns acessos apocalípticos que me assaltam de vez em quando, atacado que sou do "mal sagrado" dos Vates, dos Poetas escumejantes e dos Profetas. Sofriam -disso, também, Dom Pedro I, Machado de Assis e dois Profetas sertanejos que viveram no Deserto Judaico! - Quem eram? Antônio Conselheiro e seu bisavô? - Não senhor, o Profeta Ezequiel e o Profeta João de Patmos, mais conhecido como São João, O Evangelista, assim como meu bisavô era conhecido por Dom João, o Execrável. Ezequiel era sujeito a "virações". Digo isso porque o Padre Renato, aqui, um dia, numa Missa, leu um trecho da Crônica-Epopéica que ele escreveu. O Profeta conta, nesse trecho, que, estando um dia olhando um Deserto cheio de ossos - que deviam ser esses esqueletos, caveiras e costelas de boi que a gente encontra aqui, às dúzias, no Sertão - teve, de repente, uma visagem. Os ossos se juntavam aos poucos, iam se reunindo até completarem os esqueletos, e lá vinha uma ventania de fogo, e os esqueletos dançando, e começavam a aparecer umas grandes pedras preciosas se incendiando em cima daquilo tudo, e surgia uma Safira enorme, o um Crisólito, tudo incendiado pela luz do fogo, e Carros de chamas, e Querubins armados de espadas reluzentes, com asas de ouro e prata, e o Anjo, e o Touro com asas, e a Onça e o Gavião... Era um negócio terrível, Excelência, um verso mortuário, cheio de ossamentas e, ao mesmo tempo, glorioso, prateado, cheio de cravações de pedras estreladas. Não sei se já disse a Vossa Excelência que eu, Samuel e Clemente temos, todos três, nossos "jogos políticos e de Partido" ...

- Não, não disse não! Jogos políticos? Isso me interessa muito! O que é que o senhor chama de "jogos políticos"? São as tramas que tecem para conseguir seus objetivos? - Não senhor, são os jogos, os jogos mesmo! Clemente, que só vê, no Mundo, a realidade parda e afoscada dos famintos o miseráveis, escolheu como jogo preferido dele, o "jogo da Dama", que, "sendo pobre e despojado, feito de pedras negras e pedras brancas, é bem a figura e imagem da luta dos Povos negros contra os brancos e ricos do Mundo". Samuel, que só vê a parte sonhadora e brasonada do Mundo, com seus Fidalgos, escudos e bandeiras, escolheu o "jogo do Xadrez", por ser povoado "de Reis, Rainhas e Bispos, que governam os Peões, montados em Cavalos e protegidos por Torres fidalgas e guerreiras de combate". Eu, sem ter mais o que escolher, resolvi, como sempre, unir as duas idéias opostas deles num jogo só, o do Baralho, conciliando os naipes aurinegros do Povo, isto é, Paus e Espadas, com os naipes aurivermelhos da Fidalguia brasileira, Copas e Ouro. Assim, em vez de rebaixar o Povo, o que eu faço é erguer o Povo aurinegro e os Reis aurivermelhos a uma Fidalguia só, com os Reis negros de Paus e Espada conquistando as Damas aurirrubras de Copas e de Ouro. É que, tendo sofrido a influência concomitante de Clemente e Samuel, tanto acho belas as partes esquerdistas e despojadas da realidade sertaneja - fosca, parda, pedregosa, empoeirada, faminta, miserável, cheia de ossamentas de Vacas, Cabras e jumentas mortas - como acho belo o Sonho de prata e joiaria que, às vezes, vem se juntar a ela para transfigurá-la. Muitas vezes já me aconteceu isso, quando, nas tardes de muito sol, estou, por acaso, em cima do meu Lajedo. Estou ali, em cima, olhando o Mundo sertanejo, fosco e empoeirado, porém já se animando de uma Coroa gloriosa que o Cobre e o Ouro do sol-poente vai lhe emprestando. Se, nesse momento, sucede passar por ali um Cigano, montado num cavalo cujos arreios estão enfeitados de moedas e medalhas, e o Sol começa a tirar faíscas nesses metais ou nas malacachetas incrustadas nas pedras, na mesma hora dá-se, em mim, uma "viração"; meu sangue e minha cabeça se incendeiam, e a realidade parda e afoscada se funde ao fogo do Sol e dos diamantes do sonho. O Sertão selvagem, duro o pedregoso vira o "Reino da Pedra do Reino", e enche-se de Condes calamitosos e Princesas encantadas, eles vestidos de Pares de França das Cavalhadas, e elas de Rainhas do Auto dos Guerreiros. O pobre "tabuleiro sertanejo" vira um enorme Tabuleiro de Xadrez ou Mesa de Baralho, dourado pelo Sol glorioso e ardente. Assim, Senhor Corregedor, não é querendo ser orgulhoso não, mas esse fenômeno da "viração" a que eu sou sujeito, é coisa muito venerável, uma vez que sucedia àquele outro Apóstolo o Profeta Sertanejo que foi São João de Patmos, o Evangelista. Acontecia, também, a todos aqueles outros Profetas sertanejos que contaram a história do Cristo. O senhor já leu o Evangelho?