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A pedra do reíno e o Principe do Sangue do Vai-e-Volta

Ariano Suassuna

- Li uns pedaços, todo não! - Devia ler, Senhor Corregedor, é uma das melhores crônicas epopéicas que já se escreveram, com a queda do trono, coroas e monarquias do Cristo-Rei, com a catástrofe sangrenta da morte dele, com a degolação de João Batista, etc. Pois bem: no Evangelho, Mateus, Marcos e Lucas contam que, lá um dia, aquele rapaz, a princípio simples e pobre, chamado Manuel Jesus e filho de um Carpinteiro sertanejo, subiu a um serrote, a um Lajedo pedregoso e espinhento como os daqui. João, Tiago e Pedro estavam olhando para ele quando, de repente, tiveram uma "viração". O rosto daquele rapaz comum começou a ficar refulgente como o Sol e suas vestiduras pegaram a resplandecer. A partir daí, nunca mais aquele rapaz foi o mesmo: aquele donzel-errante, aquele joão-sem-direção do Deserto judaico, "virou-se" na figura do Terrível, o Cristo-Rei, um homem de palavras de fogo, um corisco a quem passaram a perseguir como um Cachorra danado e a quem terminaram vestindo com um Manto vermelho e coroando com uma Coroa real de espinhos, um Rei de Copas e Espada, de coração sangrento, sustendo nas mãos um Cetro de madeira que ele molhava com seu próprio sangue, como insígnia de sua realeza. E se estas visagens deixaram de acontecer a Pedro e a Tiago - não sei! - o certo é que nunca mais deixaram de acontecer a João. Tanto assim que, numa de suas visões - ou visagens, que é a mesma coisa - ele estava, um dia, olhando quatro Cavaleiros judaico-sertanejos que passavam, montados em cavalos magros, feios e comuns, quando, de repente, cavalos e Cavaleiros "se viraram" em cavalos e homens de Cavalhadas, sonhosos, heróicos o medalhados! - Como é? - disse o Corregedor, fazendo uma careta. - E lá na Judéia também havia Cavalhadas? - Havia, exatamente como aqui no Reino do Sertão e no Reino da Normandia, Senhor Corregedor. Ah, quanto a isso não tenha a menor dúvida, porque está lá, contado num livro consa484 grado. João conta que viu o Cordeiro abrir quatro selos e de cada selo sair um Cavalo, um branco, um vermelho, um preto e um amarelo, todos montados por Cavaleiros que traziam Arcos na mão e Coroas na cabeça, do mesmo jeito que, aqui nas Cavalhadas sertanejas, trazem lanças e capacetes. Como o senhor vê, com isso fica provado que na Judéia havia Cavalhadas. Com uma diferença somente para as daqui: nas Cavalhadas e Pastorais sertanejos, os cordões são somente dois, o Azul e o Encarnado. Nas Cavalhadas judaicas, organizadas pelo Cristo, como se vê por essas palavras de São João, havia quatro: o Branco, o Negro, o Encarnado o o Amarelo. Sabe quem teve, aqui no Brasil, uma "viração" parecida com aquela da Transfiguração do Cristo, Senhor Corregedor? - Não! - Euclydes da Cunha! Este, como um dos Profetas das terras desérticas de Canudos, viu Santo Antônio Conselheiro morrer do jejum de protesto e dos efeitos de um ferimento de bala. Como visionário e Profeta que era, viu, esticado no chão, o Santo o Profeta de todos nós, Sertanejos. Teve, aí, uma viração, e viu o Conselheiro transfigurado e exaltado, ressurreto "entre ' milhões de Arcanjos descendo - gládios flamívomos, coruscando na altura - numa revoada". É por tudo isso, Senhor Corregedor, que eu digo que Ezequiel e João eram os Conselheiros judaicos! É por isso que eu disse que, no dia em que chegou aqui o nosso Príncipe do Cavalo Branco, estreando sua grande Marcha desaventurosa de calamidades, vinha cercado por legiões de Arcanjos e Demônios perigosos! - Entendi! Pode continuar! - Tudo aquilo era muito importante para mim, Senhor Corregedor. Primeiro, por causa da "aventura da visagem da Onça", que já lhe contei. Depois por causa de outra, a "aventura da visão do Lajedo" que me sucedeu e que passo a lhe contar. Até hoje eu não sei direito como foi aquilo. Eu tinha me perdido na Catinga. Não sei se me sentei em dado momento, tendo adormecido e acordado depois. Acho que foi o que aconteceu, porque de repente dei comigo deitado, todo gafo, todo coberto de gafeiras, apodrecendo como um lázaro, ao pé de um enorme Lajedo, alto e inacessível. Aparecia-me a figura da Morte Caetana com sua CobraCoral e seus Gaviões. Sem falar, só olhando para mim, ela me fazia saber que unicamente escalando aquele rochedo, erguido verticalmente e cheio de Urtigas, é que eu cicatrizaria minhas gafas feridentas, unindo-me ao Divino. Eu começava a subir como num sonho, num pesadelo. Cortando-me e ferindo-me nas lascas, com a sola dos pés caindo ao contato com a pedra fumegante, conseguia chegar ao cimo. E aí, milagre dos milagres! eu desco485 bria, afinal, ou melhor, eu sentia com meu sangue, que tudo era divino: a Vida e a Morte, o sexo e a secura desértica, a podridão e o sangue. O Lajedo parecia com a Pedra do Reino, a do chuvisco prateado, e eu sabia, com o sangue, que, se conseguisse escalá-lo, experimentaria, no alto, de uma vez só, o gozo do Amor, o poder do Reino, a fruição da Beleza e a união com a Divindade, os quatro êxtases que lembram ao homem que, nesta Terra-Desértica, neste Sertão assírio e judaico, ele tem que se sobrepor à Esmeralda verde-lodo da Terrestre, ao Rubi vermelho e sangrento da Paixão, para atingir, assim, o Topázio de ouro da Hierosólima. Era uma coisa tão importante, Senhor Corregedor, que o senhor acredite: naquele dia, quando acordei realmente deitado perto dum Lajedo, tive uma decepção ao ver que não estava gafo e feridento conforme sonhara. Mas, daí em diante, tudo isso se incorporou às visagens e rituais da minha Igreja. Agora, ali, bêbado de vinho e de sonhos, meu Lajedo começou, também, a se povoar, mas não de cavalos, e sim de Mulheres, que logo começaram a me acariciar de maneira mais excitante que o senhor possa imaginar. Enquanto elas faziam isso, outra Mulher, nua, espichava-se deitada, em cima da pedra, ao meu lado, chamando-me para cima dela. Embaixo, no Tabuleiro pedregoso do Xadrez sertanejo, é que estavam, mesmo, as Damas, Cavaleiros e Peões do meu Reino, com Castelos pra todo canto, rios de prata serpeando pra todo lado, e punhais e diamantes cintilando no ar, com tropéis de cavalos e Bandeiras amarelas e vermelhas desfraldadas ao vento. De certo modo, é explicável que eu visse aquilo, também, porque, tendo sido criado por meu Pai, eu herdara dele a condição de Mestre nos arcanos das Três Astrologias. De fato, o que me aparecia agora, ali, era uma visagem de todo o Império do Sete-Estrelo do Escorpião, com seus Sete pontos-cardeais e seus Doze lugares sagrados - seis do Mar e seis do Sertão - governados pelos sete Planetas e pelos doze Signos do Zodíaco. Essa foi, aliás, a minha última visagem, enquanto acordado. Porque, imediatamente depois dela, amodorrado na madorna da saciedade, da embriaguez, do mormaço e da sombra, peguei no sono. A "viração", porém, continuou, agora agravada por todas essas coisas dementes que o sonho costuma nos trazer. Não havia, mais, aquela oposição entre a Mulher nua, que me tentava em cima do Lajedo, e o Reino do Sertão que se agitava e me deslumbrava lá embaixo. Agora, tudo era uma coisa só, pois o Reino me aparecia, ao mesmo tempo, como uma cena de Batalha bandeirosa e como uma bela Mulher nua, estendida e deitada sobre a grande cascata de ouro de seus próprios cabelos, com o corpo perfeito também dourado pelo Sol. Por esse "Reino da Princesa da Pedra Fina" que era ela, por essa 'Terra-Encantada, povoada de grutas e colinas, errava eu, também encantado e enfeitiçado, descobrindo, acariciando, tocando, descerrando, e logo, assolando, invadindo, bebendo, penetrando, mordendo, despeduçando - espichado sobre fontes umbrosas e regatos, em cujo musgo e a cujo remanso, na sombra esverdeada e fresca, reluziam frutes entreabertas e corolas - as corolas encarnadas das RosasVermelhas, as macias e brancas da flor do jasmim-cambraia, todas brilhando entre lianas coleantes que envolviam meu tronco e meu pescoço, acariciando-me as costas e buscando também avidamente o que morder e apertar. E foi chegando o momento em que tudo aquilo começou a se reunir numa sensação de tanto gozo e glória, que os cascos do Cavalo começaram a galopar em meu peito e nas minhas têmporas, pulsando e estremecendo ao ritmo do meu sangue. E eram cargas e tropéis, Guerreiras estranhas em desfiles o combates-mouros, ao som amarelo e vermelho dos Clarins, tudo se confundindo com o galope dos cavalos, com os gemidos da Mulher que estava chegando ao cume do Reino juntamente comigo, o finalmente com o tiro amarelo e ensolasado de um mosquete holandês que, ao mesmo tempo que partia de mim, me atingia no sangue, nos olhos e no centro de mim mesmo, com o estralejar e a fulguração do Cobre incendiado.

FOLHETO LXXIV

A Astrosa Desaventura dos Gaviões Cegadores - Creio, Senhor Corregedor, que umas duas horas tinham se passado. Eram, mais ou menos, de duas para duas e meia da tarde. Naquele instante, já tinha acontecido aquela cena entre Antônio Moraes e Genoveva, e estava se desenrolando a conversa entre Gustavo e Clara, no automóvel. Eu comecei a acordar. Somente então verifiquei que aquele "sonho de joiaria e safadeza" que eu vinha sonhando, tinha, de fato, algumas ligações com a "realidade raposa e afoscada", ali constituída pela Estrada e pelo Tabuleiro, lá embaixo. Realmente, fora essa realidade que provocara pelo menos a parte final do meu sonho, pois a Estrada que passava a cerca de uns cem metros do Lajedo, estava, de fato, naquele instante, povoada por um tropel ruidoso de carretas, miados de animais selvagens, piados metálicos de Gaviões e gritos de almocreves tangendo burros. Sem saber direito do que se tratava, pois estava ainda adormecido quando aquilo começara, era talvez isso o que eu vinha ouvindo em sonho, aqueles cascos de cavalos, o tinir dos estribos batendo nas esporas de metal dos Cavaleiros, o chiar das rodas das carretas, os gritos surdos dos cargueiros que conduziam os animais enjaulados e as bagagens. Só mais tarde, já mais perto do crepúsculo - e enquanto Arésio dava no Bispo aquele soco terrível que o prostrou, ensangüentado - é que eu viria a saber, aqui na Vila, que aquela era a cavalgada que nos trazia de volta a figura alumiosa do nosso Prinspo da Bandeira do Divino do Sertão. Mesmo que o soubesse, porém, eu não poderia ter observado nada naquele instante, porque a outra parte do sonho, a do tiro do mosquete em meus olhos, tinha também sua razão de ser, como descobri imediatamente, por mal dos meus pecados. Sucede que eu tinha me deitado à sombra da Braúna. Mas, enquanto eu dormia, o Sol tinha caminhado um bom pedaço, de modo que tinha me atingido a cara. Mesmo com os olhos ainda fechados, sua luz violenta tinha me encantado completamente. Possivelmente fora essa luminosidade que, no sonho, "se virara" num tifo amarelo de mosquete holandês, semelhante àqueles que tinham sido disparados contra os Brasileiros durante a "Batalha dos Guararapes", no século XVII, como Samuel e Clemente não se cansavam de me dizer desde que eu era menino. Isto, quanto aos olhos somente, graças a Deus. Porque, felizmente, no outro "centro vital" que eu sentira explodir no sonho, quem me atingira não fora galego safado de qualidade nenhuma, mas sim a bela Galega que eu tivera a sorte de encontrar naquele dia, nua e deitada, evocada e invocada pelo Vinho e por meus rituais astrológicos de encantação. Quanto aos olhos, porém, Senhor Corregedor, logo acontecia algo que ia agravar minha situação: no momento em que eu ia acordando, não tomei consciência imediata de que o Sol já chegara a meu rosto, de modo que, sem tomar precaução nenhuma, abri os olhos diretamente para ele. Fui imediatamente deslumbrado por uma luz fulgurante, que me deixou, desta vez, completamente encandeado, durando isso o tempo exatamente necessário para me impedir de ver claramente a cavalgada de Sinésio, o Alumioso, que ia passando pela estrada, em procura da Vila, onde entraria daquele modo aciganado, glorioso e epopéico que já lhe contei. A impressão do círculo do Sol, em meus olhos, enchera minha vista obscurecida de fantasmagorias e cosmoramas luminosos, nos quais eu via o enorme globo fulgurante boiar numa espécie de vasto fogo feito de chumbo derretido, por entre velas, Barcos o bandeiras, Esferas de ouro e frutos incendiados. Minha fronte começou a latejar de dor-de-cabeça, como se realmente tivesse sido atingida de raspão por uma bala incandescente. Para atrapalhar ainda mais minha vista, acontece que a cavalgada de Sinésio estava levantando uma poeiragem enorme, na estrada. O pó pardo-vermelho, dourado pelo Sol, envolvia os Cavaleiros, que passavam, numa nuvem de imagens tão "alumiosas e encobertas" quanto o próprio Príncipe que ali vinha. A dor, agora, dava-me a sensação de um anel de ferro quente ou de um cinturão de fogo que apertasse impiedosamente minha fronte. E como, ao mesmo tempo, eu começasse a ouvir mu som de trompa - provavelmente a mesma buzina de caça que Sinésio tocaria logo depois, na Praça - o fogo sagrado da Epopéia começou a me agitar, soprado pelas cordas da Tiorba do genial Bardo brasileiro, Dom Raymundo Correa. Insensivelmente e involuntariamente, começaram a se agitar e estremecer dentro de mim, queimando-me o sangue e a cabeça, aqueles seus versos proféticos, nos quais, já prevendo a chegada de Dom Sinésio Sebastião, o Alumioso, ao Reino pedregoso do Sertão, acompanhado de Fidalgos cangaceiros e aciganados pela estrada, Raymundo Correa cantara assim, uns quarenta anos antes do fato:

"O Sol requeima a solitária Estrada. Silêncio. Mas, além, já chega o Bando: o trom dos Cascos vem se aproximando do galopar d'A Estranha Cavalgada!

São Ciganos, fiéis da Onça-Parda: castanhos-encantados, vão passando! o as Trompas, a soar, vão agitando o aurirrubro da Tarde Ensolarada.

o a Catinga se queima e se estremece: da Cavalgada o estrépito que aumenta cega-se ao Gume e às pedras desta Serra!

o Silêncio, outra vez, Fogoso, desce: o Sol sagra, do Rei, a Voz Poenta, o O Alumioso ao sol-dos-mortos erra!" - Assim, Senhor Corregedor, encandeado como estou lhe dizendo e evocando os versos de Raymundo Correa, ouvi o tropel que passava e se afastava cada vez mais. Não tinha visto, claramente, nada, e julgava, em minha momentânea cegueira profética, que fosse algum Circo ou tribo comum de Ciganos que se dirigia para a feira, aqui na Vila. Permaneci ali, ainda algum tempo,

em cima do Lajedo, de costas para a rua e com o rosto voltado para a estrada, com as mãos colocadas sobre os olhos para fechálos, protege-los e para ver se assim o encandeamento melhorava mais depressa e eu recuperava a claridade da vista. Mas não havia jeito. Mal eu entreabria os olhos, para experimentar, voltavam as bolas de fogo, os pontos luminosos, as manchas de chumbo derre489 tido que, tornando-se insuportáveis quando eu insistia em manter os olhos abertos, permaneciam, mais atenuadas e vistas ao contrário, quando eu os fechava de novo. Deve ter sido enquanto fiquei ali, tentando melhorar meus olhos, que a cavalgada de Sinésio entrou na Vila, soltando os animais enjaulados e provocando todos aqueles acontecimentos que contei, incluindo-se entre eles a "visagem" do Profeta Nazário e de Pedro Cego.

- Uma pergunta, Dom Pedro Dinis Quaderna! Noto que essas "visagens" do Profeta Nazário e de Pedro Cego têm estreita correlação com seu Catolicismo Sertanejo. Eles eram seus discípulos? - De certo modo, eram, Senhor Corregedor! Ouviam, todo ano, a leitura do Almanaque do Cariri, uqe eu continuava a publicar depois da morte de meu Pai, e conheciam todos os "folhetos" que eu imprimia e vendia na feira, principalmente o da Pedra do Reino, porque da divulgação dele eu fazia questão, por ser isso muito importante para o proselitismo da minha Seita! - Anote isso, Dona Margarida! É um pormenor importantíssimo para a solução do caso! Pode continuar, Dom Pedro Quaderna! - O fato, Senhor Corregedor, é que, como eu vinha dizendo, foi mais ou menos na mesma hora da libertação das Onças que eu recuperei a claridade dos olhos. Mais do que isso, aliás: como um dom sagrado mas passageiro que eu tivesse recebido e que desejasse se despedir, mais forte, no último instante em que morava em mim, minha visão não voltou, simplesmente "normal", como era antes - exceto nos momentos de "viração". De repente, fiquei dotado de uma vidência-visageira fora do comum, uma vidência profética e astrológica como nunca eu tinha tido. Ai de mim, Senhor Corregedor! Mal sabia eu, naquele momento, que essa vidência régio-zodiacal me fora dada por um instante apenas, só para que eu, imediatamente, caísse, de uma vez para sempre, nas intermitências de uma cegueira cruel, profética também, mas dura e terrível de suportar! - Uma cegueira? E o senhor cegou? Está cego? - Estou, sim senhor! Além de epilético, cego! Já viu que coisa mais dolorosa para um pobre Epopeieta? O que me consola nessa tragédia é que isso de ser cego fica muito bem para um "Gênio da Raça" como eu! Homero também era cego, o senhor sabia? - Então, o senhor está cego! - disse o Corregedor, balançando a cabeça. -- E cegou exatamente na hora em que, perto do senhor e do Lajedo onde o senhor estava, dispararam o tiro que impediu, talvez, que se apurasse essa história toda! Sabe que essa cegueira sua chegou mesmo na hora, Dom Pedro Dinis Qua490 tierna? Cego, o senhor vai me dizer que não viu nada! Cego, o senhor torna-se objeto de compaixão! Cego, o senhor não poderá identificar os assassinos, nem mesmo que nós venhamos a descobri-los! Olhe, Senhor Quaderna, não quero ser indelicado não, mas não deixa de ser estranho que o senhor tenha escolhido exatamente essa hora, para cegar! E, depois, que cegueira mais estranha é essa sua! O senhor veio aqui para a Cadeia sem guia, subiu a escada sem tatear, acertou facilmente com os degraus, sentou-se numa cadeira que lhe mostrei com um gesto há pouco, viu que eu estava vestido com uma toga negra e vermelha... Que é que ~tignifica isso? - Senhor Corregedor, de fato, é uma cegueira muito estranha, essa que me assaltou os olhos, naquele dia. A meu ver, ela é parenta próxima da epilepsia-genial que também me atacou, como lhe disse. Deixaram-me, as duas, numa espécie de vidência-penumbrosa, na qual o Mundo me aparece como um Sertão, um Desertão, o De-Sertão de que falavam os geniais escritores Manoel de Oliveira Lima e Afrânio Peixoto, repetindo velhos cronistas brasileiros do tempo dos Conquistadores, segundo me contaram Clemente e Samuel. É aí que o Sertão me aparece como o Reino da Pedra Fina do qual já lhe falei. Há pouco, quando eu vinha chegando aqui para a Cadeia, tive essa idéia-vista de que o próprio Sertão era uma Cadeia enorme, cercada de pedras e sombras, de lajedos fantásticos e solitários, parecidos com Lagartos venenosos, cinzentos e empoeirados que dormissem numa Terra Desolada. Ou então parecidos com as ruínas, os esqueletos gigantescos e queimados de uma Cidade de pedra, incendiada. Ora, acontece que eu, como discípulo de Samuel, sou Católico; mas, como aluno de Clemente, sou, também, um devoto da Mitologia NegroTapuia do Brasil. Foi, aliás, plasmando esses dois elementos que eu construí o esqueleto central do Catolicismo Sertanejo. Ora, segundo Clemente, o nosso Sertão é a terra mais antiga do Mundo, é o berço da Raça Humana. Diz ele que nós, Sertanejos, somos descendentes diretos do Tapuia, do "Homem Castanho Inicial", brotado da terra parada do Sertão num dia em que ela estava umedecida, e, depois, errante por entre os espinhos e as muralhas de pedras sertanejas. Aliás, acho essa idéia- de Clemente mais lógica do que as idéias de outras Mitologias estrangeiras. É muito mais lógico que o Homem-Castanho, emigrado daqui para a Africa, tenha se tornado negro, lá, pelo calor, tornando-se branco, pelo frio, na Europa, e permanecendo castanho no Egito ou na índia. Outra coisa que irrita Clemente é a preferência inteiramente arbitrária que dão, no Mundo, ao que ele chama "a Mitologia biológica inglesa". Ele indaga, indignado: "Por que afirmar que o homem descende do Macaco? É muito mais lógico que tenha sido de outros bichos, principalmente a Onça!" Isso, ele diz nos momentos de raiva. Mas, nos momentos de maior calma, explica que o Homem não descende de bicho nenhum e que a Mitologia Negro-Tapuia está muito mais perto da verdade científica do que essas outras Mitologias saxônias, tão arbitrárias quanto qualquer outra e com o agravante de serem pretensiosas. Olhe, Senhor Corregedor, sempre que vou dizer alguma coisa sobre a Catinga sertaneja, valho-me de três geniais escritores brasileiros, o General Dantas Barretto, o Tenente-Coronel Durval de Aguiar e o Capitão Euclydes da Cunha - este, segundo Samuel, useiro e vezeiro em plagiar os dois anteriores. Dou sempre preferência ao General Dantas Barretto, primeiro por ser o mais graduado de todos, na hierarquia militar, depois por ser escritor tão admirável que só chamava o trem de "a rugidora Serpente mecânica". Aqui, porém, para o que tenho a dizer, devo lançar mão do Tenente-Coronel Durval de Aguiar. O senhor já leu alguma coisa dele? - Não, nem nunca, nem ao menos, ouvi falar desse escritor! - É pena! Ele e o General Dantas Barretto exerceram, em relação a Euclydes da Cunha, o mesmo papel que Samuel e Clemente exerceram em relação a mim! Descrevendo a Pedra do Reino do Sertão, diz o Tenente-Coronel Durval de Aguiar que essa terra é constituída, toda, de "serras de pedra, naturalmente sobrepostas, formando Fortalezas e redutos inexpugnáveis". Euclydes da Cunha, plagiando o Tenente-Coronel, descreve também o Sertão e fala em "alinhamentos de penedias, caprichosamente repartidos", que semelham, "de fato, grandes cidades mortas", cidades ante as quais o Sertanejo passa "sem desfitar a espora dos ilhais do cavalo em disparada, imaginando lá dentro uma população silenciosa e trágica de almas do outro mundo". E é aí que eu vejo que Euclydes da Cunha absolutamente não pode ter sido o "Gênio da Raça Brasileira". Veja que leviandade, a dele! "Imaginando!" Imaginando, uma porra! Tem, mesmo! Essa população de almas do outro mundo, existe, mesmo, aqui, em nossas pedras, de noite, de dia e no pino do meio-dia! Bastariam as Onças, os Gaviões, os Carcarás, os Veados, os Bodes, as Cobras o os Morcegos sertanejos, para provar que o nosso Reino amuralhado de pedras está povoado de Deuses e Demônios, de Anjos o Divindades! Como me explicou Clemente, Senhor Corregedor, foi das trepadas das Divindades solares entre si que nasceram a Terra e a Agua, mijadas por eles. Depois, daí em diante, o mais foi fácil: pingos de gala de Deuses machos ou pingos de boi de Deusas fêmeas que caiam no barro da Terra, fazem nascer ou bichos ou plantas. Se um Deus qualquer, depois daí, trepa com uma Veada, ou se uma Deusa se deixa cobrir por um Pavão ou um Gavião, nasce um homem ou uma mulher, conforme o Foi, portanto, dessas trepadas das Divindades tapuias com Onças, os Gaviões, os Bodes, as Cabras, os Veados e outros tichos, que nasceram os Tapuios castanhos, antepassados diretos s Sertanejos e indiretos de todos os outros homens. É por isso ,fie o Sertão, nos meus momentos de maior cegueira profética, me aparece como esse Reino pedregoso-de que lhe falei, Reino por onde erro eu, agora, como o Valente Vilela, mas também destroçado, processado, vagabundo, perdido, extraviado e cego, incapaz de ver outra coisa a não ser esses Lajedos, essas Catingas espinhosas, esses morros descalvados, essa Raça Sertaneja e esses os, semelhantes aos que, às vezes, aparecem em nossos pesadelos. Minha sorte, porém, é que a cegueira que me assaltou ,,4s olhos é intermitente! Cego como estou, às vezes, quando menos Opero, sem qualquer prenúncio que me avise, um raio fende p, escuro-penumbroso em que vivo mergulhado, e então eu vejo, a' que atribuo, também, ao "mal sagrado" dos Gênios, de que acabo de ser acometido em sua presença. Aí, nesses momentos, eu vejo mesmo, vejo pra valer! O que eu avisto, o que eu enxergo etttão, nesses momentos de "raio de pedra-lispe" e de "corisco e fulminação", é visto em zonas interrompidas, mas deslumbrantes, de claridade enceguecedora, é visto como nenhuma coisa foi vista até agora pelo comum dos mortais! - Pelo comum dos mortais? E o que é o senhor? Algum iluminado, ou alguma Divindade tapuio-sertaneja, por acaso? - disse o Corregedor, irônico.

- Eu não chegaria a dizer tanto, por modéstia e humildade cristã! No máximo, o que me aconteceu foi um decreto insondável da Providência Divina, que não podia permitir que o "Gênio da Raça Brasileira" fosse inferior, em nada, ao "gênio da raça grega"! Minha cegueira seria muito parecida com a cegueira poética e profética de Homero, caso tivesse existido, mesmo, esse mavioso e distinto Poeta, autor das traduções gregas da Ilíada e da Odisséia - o que digo porque, como Samuel já provou, o autor, de fato, dos originais brasileiros dessas duas obras foi o genial Bardo nordestino, Doutor Manoel Odorico Mendes. Acredito, também, que foi mais ou menos no estado de cegueira e iluminação em que me encontro que Ezequiel, o renomado Poeta judaico-sertanejo de que lhe falei há pouco, teve aquela sua "visagem do campo de ossos" e aquela outra, precursora da Mitologia Negro-Tapuia, na qual lhe apareceram umas águias, uns grifos e uns touros, sustentando o trono do Divino, visagem que eu tive logo o cuidado de assertanejar mais, transformando as águias em Gaviões, os grifos em cruzamentos de Onça com Seriema, e o leão do Divino na Onça do Divino! - O senhor, com coisas tão estranhas no pensamento, deve ter uma cabeça bastante aperreada do juízo, Dom Pedro Dinis Quaderna! - disse o Corregedor, falando como se fosse para mim, mas, de fato, para ser apreciado por Margarida.

Eu, me fazendo de inocente, concordei: - É verdade, e tenho mesmo, Excelência! Durante toda a vida, sofri a influência da Esquerda clementina, influência que é clássica e despojada, por ser luz-matinal, popular, do rubi, celeste e do Sol. Sofri, também, por outro lado, a da Direita samuélica, que é romântica, por ser noturna, lunar-satúrnica, fidalga, da esmeralda, inférnica, verde-lodo e da Lua. Somando-se o elemento clementino ao samuélico, temos o quadernesco. É por isso que eu, sendo da tarde, do topázio, do purgatório, de mercúrio e do Sol, sou, ao mesmo tempo, clássico e romântico, isto é, "completo, genial, modelar e régio". Eu, Senhor Corregedor, tendo nascido com dois olhos sertanejos, solares e clássicos, sofri depois, no Seminário, a influência romântica e profética do genial Bardo alagoano e judaico, o Padre Ferreira de Andrade, ficando daí em diante, no mundo, com um olho cego - queimado pela demência romântica do Deserto judaico e sertanejo assim como pela asa de fogo e navalha da Musa do genial Poeta paraibano Augusto dos Anjos. O outro olho permaneceu clássico e popular, como nascera. O que é mais curioso, porém, é que o olho romântico e queimado, que é o direito, depende do olho clássico e vidente, que é o esquerdo! E vice-versa! Porque, se o Gavião romântico e fogosodesértico não tivesse queimado e despedaçado um dos meus olhos, o outro não teria obtido o privilégio de ver, na realidade parda o afoscada, essas Cavalhadas e batalhas, cheias de bandeiras, essas Estrelas e moedas que vejo de vez em quando coroando as frontes dos Cavaleiros sertanejos. Também, se eu não gastasse toda a prata e todo o Sol do meu sangue com o olho clássico e vidente, o outro não seria capaz de enxergar o sofrimento e a miséria, a feiúra desdentada e barriguda das pessoas, os morcegos, os urubus o as corujas das Furnas sertanejas, onde moram as Divindades infernais, satúrnicas e subterrâneas do meu Mundo astrológico e zodiacal! - Entendi! Continue, então, a narrar os acontecimentos do dia 1 de junho de 1935, em cima do seu Lajedo.

- Depois de me manter, um bom pedaço, com os olhos fechados, como contei a Vossa Excelência, achei que já passara tempo suficiente para me recuperar e abri os olhos. Eu tinha me voltado, novamente, para o lado da Vila, de modo que os telhados da rua me apareceram subitamente diante de mim. O que é curioso é que eu via tudo, agora, mais nitidamente do que antes. Três casas se destacavam na minha visagem profética: o antigo ao da família Villar, mais perto de mim do que as outras; a dos Garcia-Barrettos e o casarão das pinhas, perto do qual

va o "cabra" que atirou em Sinésio. Ora, essas eram aquelas onde se encontravam, como já disse, personagens dos mais rtantes, no caso. E acredite Vossa- Excelência que eu "vi"

aquilo num repente, como nunca antes vira coisa alguma,

minha vida! Parecia que o Mundo me revelava, pelo menos sua parte sertaneja, "não suas aparências, mas sew próprio e, suas entranhas pardas, a alma felina e estranha que gerou a", como diz Clemente sempre que me explica a "Introdução lógica Negro-Tapuia" de sua célebre "Filosofia do Penetral".

aquilo foi só um instante, Senhor Corregedor! Primeiro,

parque a enorme bola de chumbo derretido que o Sol imprimira pa minha visão não tinha propriamente se desvanecido. Parecia, ~as, ter se destacado dos meus olhos e adquirido vida própria,

Pois começou a boiar à meia altura, no horizonte, entre o Lajedo e a Vila. Depois, porque foi então que sucedeu, mesmo, a catástrofe irreparável e definitiva: essa mesma bola incandescente de chumbo, rme, mais alta do que um homem, fendeu-se pelo meio, sur¡indo de dentro dela dois Gaviões, um macho e outro fêmea, os quais, como duas flechas, cortaram os ares na direção do meu o, desferindo seus piados, ásperos como um som de metal. Gaviões seriam esses, Senhor Corregedor? Seriam dois daqueque tinham vindo com Sinésio e que estavam sendo, naquele ~te, soltos na Praça? Seriam Gaviões comuns, do Sertão, apappridos ali por acaso? Seriam os dois Gaviões pertencentes à Moça Lana, a jovem e cruel Divindade negro-vermelha da morte setaneja? Seriam enviados da Fatalidade astrosa, resolvidos a ~r minha fronte com aquilo que o genial Poeta brasileiro Fagundes Varela chamava "o sigilo do Gênio"? Não sei! Eu pensava que, assim que eles me avistassem, iriam se desviar do Lajedo e de mim, como normalmente acontece com os Gaviões, de modo que não tomei precaução nenhuma para me proteger; e foi isso o que me desgraçou, Excelência, porque foram eles que me cegaram, despedaçando e ferindo meus olhos para sempre! - Dom Pedro Dinis Quaderna, não vou discutir se o senhor está cego ou não. Mas uma coisa eu garanto, porque estou vendo: teus olhos não estão despedaçados não, estão aí, inteiros e limpos que fazem gosto! - Pode ser, Senhor Corregedor! Para falar com exatidão, não lei, realmente, como foi que os Gaviões agiram! Não sei se eles usaram o bico, as garras, ou ,se, apenas, se limitaram a encostar nos meus olhos, um em cada olho, o eu de cada um, incendiado e flamejante! O que eu sei, porque ainda cheguei a ver isso, é que eles fenderam os ares em minha direção e, aproximando-se

com terrível rapidez, logo chegavam junto à minha cabeça, em torno da qual começaram a esvoejar, como sempre acontece nos meus ataques do "mal sagrado". Apavorado, ouvi os estalos, os golpes secos das suas asas que me arrodeavam a cabeça, cada vez girando com mais velocidade. Tonteei, senti um calor estranho cercando minha cabeça e a testa. Os olhos começaram a esquentar o doer, de modo insuportável. Uma ventania de fogo soprou na minha cara. E alguma coisa eles devem ter feito, porque, de repente, meus olhos estalaram, como milho no fogo, ou como se tivessem sido chocados pela fornalha do Inferno. Foi a derradeira coisa que enxerguei, Senhor Corregedor: ceguei imediatamente, com o sangue e as lágrimas escorrendo, misturadas ao humor vital o salgado dos meus olhos despedaçados!

FOLHETO LXXV

O Ajudante de Profeta Com um grito de dor e desespero, ajoelhei-me na Pedra o fiquei por ali, durante um bom pedaço de tempo, acariciando com as duas mãos, do modo mais suave que me era possível, a região que cercava meus pobres olhos dilacerados. Minha sensação era de desespero total, convencido como estava de que meus olhos estavam irremediavelmente cegos. E a influência dos Poetas brasileiros, principalmente a dos Acadêmicos, é tão poderosa em mim que, na minha desgraça, as palavras que me ocorriam para nomeá-la eram aqueles célebres versos do genial pernambucano Eustáquio Gomes, que dizem: "A Cegueira é o Inquilino dos Olhos, como a Ignorância é o locatário de todas as Paixões malévolas".

- Bonito! - disse o Corregedor.

- Também acho! - concordei. - Mas, mesmo assim, minha preocupação era terrível! Seria que, cego, iria me tornar um ignorante, com a Ignorância, locatária das Paixões malévolas, tornada inquilina da minha cabeça através dos olhos inúteis? Será que isso não iria me impossibilitar, burrificando-me, de ver realizado o grande sonho da minha vida, o de me tornar "Gênio da Raça Brasileira"? Eu sentia na boca um gosto estranho de metal salgado, que devia ser o gosto ferrujoso do sangue e do sal das lágrimas

a escorrer dos olhos para a boca. Esse gosto fazia-me entender, ,,agora, o motivo pelo qual os olhos dos Cegos sempre me tinham parecido, até então, como que feitos de prata cegada ao Sol. É que eu sentia agora, em minha própria Face cega, que meus olhos tinham sido transformados, pela Ave de rapina do Sol sagrado, em dois globos de Prata derretida, globos que logo se endureceriam, tornando-se opacos para sempre. Eu sabia, agora, que aquela bola de chumbo derretido que povoara meus últimos instantes de visão, e que acompanhava atualmente minha cegueira singular, nunca mais me abandonaria, permanecendo comigo, pelo contrário, até o fim da minha vida.

- E o senhor ficou no Lajedo até a noite? - Não senhor! Enfim, ficar ali é que não resolveria meu problema! Melhor, seria tentar regressar aqui à Vila, para procurar o médico. Assim, tateando e arrastando-me, queimando-me de novo nas Urtigas e ferindo-me nas arestas da minha Pedra sagrada, comecei a descer o Lajedo, a fim de empreender meu primeiro caminho de Cego, de volta para casa. Arranhando-me, magoandome de todas as maneiras imagináveis, gemendo, imprecando em brados enfurecidos contra a catástrofe divina e diabólica que desabara sobre mim, consegui, finalmente, descer a Pedra, cruzar o pedaço de Tabuleiro ladeiroso que fica entre ela e a estrada, e chegar, depois, ao lugar onde se encontrava meu fiel cavalo "Pedra-Lispe". Assaltava-me uma terrível sensação de insegurança, agora que conseguira descer do Lajedo, mas estava ali, inerme, no Tabuleiro. Era como se todos os perigos do Mato sertanejo me rondassem. Tinha medo de encontrar uma Onça, uma Cobra grande que me engolisse como engoliu Pedro Ventania, algum Novilho desgarrado, selvagem e enfurecido que despedaçasse minhas tripas com as pontas aceradas de suas aspas, ou alguma CobraCoral que, picando-me o tornozelo, conseguisse injetar o sangue da Moça Caetana na corrente do meu sangue real, através da figura, também real e mortal, dos Cristais de seu veneno. Ouvi, então, "Pedra-Lispe" dar o ligeiro nitrido com que sempre saúda minha aproximação. Seguindo a direção desse som, consegui chegar até ele, abraçando-me então com o nobre animal, em cujo pescoço, chorando, encostei a testa escaldante, ainda furnegosa do fogo gaviônico que me cegara. Aí, Senhor Corregedor, minha Divindade sertaneja deu-me um sinal, indicando que começava a se amercear de mim. Ouvi uma voz que se aproximava, cantando pela Estrada, como quem vinha da Vila de Estaca Zero para a Ribeira do Taperoaá. A voz era fanhosa, rouca e áspera, e pareceu-me logo familiar. O que mais me impressionou, porém, foi que ela vinha acompanhada pelos toques prateados de uma Viola. Foram, novamente, os Cegos sertanejos que vieram à minha imaginação, Senhor Corregedor. Agora, eu sabia, não por fora, mas de dentro mesmo do sangue, por que é que a voz e a Viola das pessoas que são cegas sempre me pareciam mais "de Prata" do que as dos Cantadores comuns. Aí, já próxima a voz deu um grito-de-guerra, dizendo: "Corre, meu Povo! Corre que o Alumioso chegou e a Guerra do Reino vai começar!" E então entoou uma estrofe corrida, que não me deixou mais nenhuma dúvida sobre quem era o Cantador que vinha chegando. Os versos eram os seguintes: "Eu sou Lino Pedra-Verde, sou Besouro de ferrão, eu sou a Tirana-Bóia, perigo deste Sertão. Pra brigar no Ferro frio, não sirvo, não presto não. Mas, solto aqui nesta Terra, com uma Viola-na mão, eu sou Onça comedeira, Tigre e Rei do meu Brasão, sou Punhal, bala de Prata, sangue de Cobra e Leão!" - Muito bem, Dom Pedro Dinis Quaderna! - comentou o Corregedor. - De todas as suas charadas em verso, esta é a mais fácil de decifrar, pelo menos para nós, não é, Dona Margarida? Pelos versos, entendo que o Cantador que vinha chegando era o tal do Lino Pedra-Verde, não é isso? - É isso mesmo, Excelência, e dou ao senhor os meus parabéns pela familiaridade que está começando a ter com meu estilo enigmático e régio! - O senhor sabe que, segundo todo mundo fala, aqui na rua, esse Lino Pedra-Verde, além de intermediário seu em vários negócios escusos, é o elemento de ligação entre o senhor e os fanáticos, tolos e ignorantes que o senhor conseguiu aliciar para a tal Ordem da Pedra do Reino? Sabe disso? - Sei, sim senhor! - E o senhor, sabendo disso, confessa que teve um encontro com Lino Pedra-Verde na mesma hora em que mataram o "cabra", a dois passos do lugar de onde partiu o tiro? - Confesso, sim senhor, porque é a pura verdade e eu sou incapaz de mentir, mesmo que isso me prejudique! - O encontro do senhor com ele foi, mesmo, casual, como você deu a entender? Ou será que houve alguma combinação prévia entre o senhor e Lino? - O encontro foi casual, Senhor Corregedor! - Foi mesmo? Me diga uma coisa: o senhor sabia que Lino Pedra-Verde devia vir à Vila, naquele Sábado? - Sabia, sim senhor, porque ele não perde feira, aqui, e ora dia de feira! - E sabia, também, que a Estrada por onde ele devia vir era aquela? - Sabia, sim senhor! - Muito bem! Anote tudo isso, Dona Margarida, é um dado fundamental para a decifração do caso! Pode continuar, Dom Pedro Dinis Quaderna! - Os passos de Lino se aproximaram, Senhor Corregedor. Eu não via nada, extraviado na cegueira! Aí, Lino parou, o que sei porque-seus passos pararam, e houve um momento de silêncio, durante o qual imagino que ele ficou me olhando estupefato, aterrorizado pelo aspecto, na certa terrivelmente impressionador, do meu rosto manchado pelo sangue e pelos humores que escorriam dos meus olhos dilacerados. Então, após esse momento de silêncio e espanto, Lino Pedra-Verde falou: "'Dom Pedro Dinis Quaderna, meu Rei e meu Senhor! Que é que você está fazendo aí, sozinho, parado no meio da Estrada? Estás querendo dar parte de doido, Dinis?'" - Senhor Quaderna, quando fizer a sua Epopéia, tenha cuidado com os pronomes de tratamento. Agora mesmo, aí na frase de Lino, o senhor usou um tratamento todo solene no começo, depois passou para "você" e finalmente para "tu"! Cuidado, porque isso é um descuido grave, num Epopeieta! - Não senhor, não foi descuido não, o senhor está enganado! Os pronomes de tratamento que venho empregando são escolhidos com todo cuidado! Para que o senhor entenda bem certas particularidades que Lino usava no seu tratamento para comigo, é preciso que eu lhe explique certas coisas. Primeiro, eu tinha procurado ensinar aos Cavaleiros da Ordem da Pedra do Reino algumas fórmulas cerimoniosas tiradas dos romances de José de Alencar e de Zeferino Galvão, este sendo um genial escritor pernambucano e sertanejo, da Vila de Pesqueira, autor de O Mosteiro de Nimes e de Heloísa d'Arlemont. Aquele "Dom Pedro Dinis Quaderna, meu Rei e meu Senhor" que Lino me dera no começo vinha daí. Mas, ao mesmo tempo, meus familiares 'me tratavam por Dinis. Ora, Lino tinha sido meu companheiro na "Onça Malhada" e meu colega na "Escola de Cantoria" de João Melchfades, de modo que, ora usava o tom cerimonioso e régio, ora o familiar. Aliás, essa mistura de tratamentos era e é tradição da nossa Casa. Na Pedra do Reino, os súditos de meu bisavô Dom João II, o Execrável, ora o tratavam de "Rei e Majestade", ora o chamavam "simplesmente de Joca", segundo está escrito na Crônica epopéica de Antônio Áttico de Souza Leite. Assim, quando Lino se dirigiu a mim daquele modo, perguntando se eu estava doido, absolutamente não estranhei a familiaridade dele. Limitei-me a responder:-Você pergunta o que eu estou fazendo aqui, só, parado na estrada? Estou aqui, me arrastando como posso, Lino, tentando voltar para casa. É Lino, mesmo, que está aí, não é?"`É ele mesmo, Dom Pedro Dinis Quaderna!', disse Lino, convicto. `Estou indo aqui, em demanda do Taperoá, porque vai haver lá, a maior confusão. Vai se abrir um boi-de-fogo danado, lá, agora, e eu quero estar na rua para entrar de cu-de-boi adentro! Quero logo lhe avisar que estou com a gota-serena, ouviu?' " - Com a gota-serena? - estranhou o Corregedor.

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