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A pedra do reíno e o Principe do Sangue do Vai-e-Volta

Ariano Suassuna

- É verdade, Senhor Corregedor, e, para falar a verdade, não teria sido necessário que ele dissesse isso, para eu -saber. Pelo acento delirante e arrebatado de sua voz, eu já tinha conhecido, desde a chegada dele, que Lino tinha tomado uma ou duas lapadas do "vinho encantado e sagrado" da Pedra do Reino. Assim, o que me espantava, não era ele "estar com a gota-serena" e com a "molesta dos cachorros", pois é assim que o Vinho sagrado nos deixa sempre. O que me admirava era ele não demonstrar nenhuma estranheza por me ver ali, cego, com o rosto todo ensangüentado. Resolvi então chamar a atenção dele para isso: -Você deve estar espantado, Lino, por me ver assim, com o rosto cheio de sangue!', disse.

-Você, Dinis? Que nada! Sua cara está limpa como o Sol!' "`O quê, Lino?', estranhei, espantado. `Que é que você está me dizendo?' -Eu é que pergunto o que você está me dizendo, Dom Pedro Dinis! Você parece que tomou, também, e mais do que eu, umas lapadas do nosso Vinho? Ou foi a aparição da pantarma do Prinspo que endoidou você? Aí, na sua cara, não tem sangue de qualidade nenhuma, Dinis!' "'E meus olhos, Lino? Não está saindo sangue deles, não?' -Está nada, meu Senhor Dom Dinis! Por que você pergunta isso?' -É que estou cego, Lino! Ceguei dos dois olhos de uma vez!' -Coitado do Rei! Coitado de Quaderna!', disse Lino, cuspindo

de banda e acrescentando, enquanto eu ouvia o som de suas

mandíbulas mastigando a `erva-moura' da Pedra do Reino, que eu

lhe ensinara a mascar: `Como foi que o senhor cegou? Faz tempo?'

-Faz muito não, Lino! Foi agora mesmo, ali, em cima do

meu Lajedo sagrado! Mas o que eu estou admirado é de meu rosto não estar cheio de sangue, porque senti perfeitamente quando o sangue escorreu dos meus olhos.' " `Ah, e o sangue correu dos seus olhos, foi, Dinis? Como foi isso? Você estuporou, foi?' "'Sei não, Lino! Sei que almocei, comi carne-de-sol com paçoca, tomei umas lapadas do Vinho Tinto da Malhada, dormi, e, quando acordei, foi com o Sol na cara e nos olhos! Com isso, comecei a avistar umas coisas esquisitas, lá por cima da casa de meu Padrinho, Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto, que a gente avista daqui, como você sabe. De repente, comecei a ouvir e ver, na Estrada, umas coisas esquisitas também - uns miados de Onça, uns esturros, uns piados de Gavião, batidas de cascos de cavalos e chiados de rodas de carreta. Aí, dois Gaviões me atacaram, esvoaçando e batendo as asas em redor da minha cabeça. Daí em diante, não sei mais o que foi que aconteceu não, Lino. Sei é que, de repente, meus. olhos começaram a esquentar, senti aquela dor desadorada, eles chocaram, estalaram, e eu ceguei!' "'Jesus, minha Nossa Senhora! Então você ouviu essas coisas passando na estrada, foi? Era ele, não era?', indagou Lino, em delírio, sem ligar muito para o que me acontecera e pensando, só, no rapaz do cavalo branco.

"'Ele, quem?', perguntei espantado, porque, com os olhos daquele jeito, a lembrança de Sinésio não me ocorrera, absolutamente, depois do aparecimento dos Gaviões.

"'Era o nosso Prinspo, Dom Sinésio, o Alumioso, que voltou, Dinis!', gritou Lino? Que é que você está dizendo?', perguntei, "`O quê, Lírio? Que é que você está dizendo?', perguntei, incrédulo, e atribuindo sua exaltação a uma doideira causada pelo Vinho da Pedra do Reino.

"`Bem que você nos dizia, meu Rei Dom Pedro Dinis Quaderna!', continuou Lino, exaltando-se cada vez mais. `Bem que você profetizou, para a era entre 35 e 38, o aparecimento do rapaz do cavalo branco, no Almanaque do Cariri! Venha, venha comigo! Vamos pra Taperoá, porque o Prinspo do Cavalo Branco ressuscitou e vai começar a tribuzana, o boi-de-fogo da Guerra do Reino do Sertão!' "'Lino, deixe de conversa!', adverti-o. `A gente está falando numa coisa e você vem com outra! Falei que apareceram umas coisas em cima da casa de meu Padrinho, mas não era sobre Sinésio que eú estava falando não! Escute o que estou lhe dizendo, homem! Estou. cego, e estou é espantado porque você não vê sangue na minhã cara! Como é que você não está vendo isso, se eu senti o gosto da água-dos-olhos misturada com sangue, na minha boca? Senti perfeitamente quando meus olhos se rasgaram, deixando escorrer para baixo a água-da-vista! Tenho certeza, porque ainda estou sentindo, inclusive, o gosto de metal enferrujado que tudo isso deixou na minha boca!' `Bem, Dom Pedro Dinis, disso aí eu não me espanto não, porque, quando eu apareci ali, naquela curva da Estrada, você estava aqui, parado no meio do tempo, feito doido, com sua faca-de-ponta atravessada na boca!' "`A faca? Na boca?', falei eu, meio apalermado.

"`Sim!', insistiu Lino. `Quando eu apareci, você estava mordendo a faca, feito doido! Eu lhe digo mais uma coisa: eu quase corro, com medo, porque, do jeito que você estava, de alpercatas de rabicho, roupa parda e chapéu de couro na cabeça, com a faca assim na boca, feito um cachorro da molesta, parecia uma assombração de Cangaceiro, aparecida e visageada no meio do Mundo! Deve ter sido a faca-de-ponta que lhe deu esse gosto de metal e ferrugem na boca! Você estava com ar de leso, mordendo a bicha o passando a língua nela! Quando eu fui chegando, você, certamente, sem se sentir, tirou a faca da boca e ficou com ela na mão!"' - E era verdade isso que ele dizia? - indagou o Corregedor.

- Era, sim senhor! - Anote isso, Dona Margarida, é importante! O senhor estava com a faca na mão, não foi isso que o senhor disse? - Foi, sim senhor! Só quando Lino disse aquilo foi que eu notei que estava, de fato, com a faca ainda na mão! Eu me lembrei então, vagamente, de que, quando tinha começado a descer o Lajedo, tinha tirado a faca da cintura, colocando- travessada na boca para o caso de precisar dela. Enfiadíssimo, envergonhado diante daquele meu súdito e seguidor que me surpreendera numa leseira daquela, meti de novo a faca na bainha e falei para Lino, ainda duvidoso: "`Quer dizer que meus olhos estão inteiros, Lino?' "`Estão, Dinis velho!', respondeu ele, com segurança.

"`Então como é que se explica que eu esteja cego, cego de guia? Não estou vendo você não! Não estou vendo nem a claridade do Sol! Quando olho para ele, só vejo é aquela bola de prata, boiando no fogo!' " `Então vá ver que o que você fez foi estuporar mesmo, como eu tinha pensado, Dinis! Também, você é doido e extravagante que só a peste! Que extravagância mais desadorada essa sua! Comer carne-de-sol, assim, tomar vinho e se espichar em cima do lajedo, o coisa conhecida, é danado pra estuporar! É morte ou cegueira certa, e cegueira dessas da gota-serena! Vou lhe dizer uma coisa, meu Rei velho de guerra: você ainda teve sorte! Podia ter estuporado por um lugar menos sadio, e aí era morte certa! Assim, estuporando pelos olhos, felizmente não morreu, só fez foi cegar! Quer que eu lhe sirva de guia até a rua?' "`Quero, Lino, me faça, esse favor!' "`Pois então chegue aqui, venha montar no "Pedra-Lispe"! Eu lhe ajudo!' "Não, espere! Deixe, primeiro, eu tirar o manto da Ordem de Distinção da Pedra do Reino!' "`Não, não!', protestou Lino. `Tirar o manto pra quê? Logo agora, numa hora dessas, quando o Prinspo Alumioso ressuscita o volta, é que o Rei quer tirar o manto? Dom Pedro Dinis, não me diga que você perdeu a fé! Não me diga que sua Profecia estava errada! Não me diga que não foi o nosso santo Alumioso que voltou!'" O Corregedor interrompeu: - Ele fez, mesmo, essa referência, clara assim, ao rapaz do cavalo branco? - Fez, sim senhor! Eu, porém, no centro da catástrofe que me ferira, não tinha dado, até ali, às palavras estranhas de Lino, a atenção que elas mereciam. O que me chegara até ao juízo, por entre a poeira e o sol do meu desgosto, eu tinha atribuído ao vinho e à erva-moura do Reino. Agora, porém, já ia, aos poucos, me acostumando à desgraça e começava a voltar, mais, à realidade. Por outro lado, ele falara, agora, de modo tão claro, que comecei a suspeitar de que alguma coisa de terrível importância estava sucedendo ou começando a acontecer. Já montado em "Pedra Lispe", que Lino segurara pelo cabresto e ia puxando, falei para ele: "'Lino, que história é essa que você está dizendo aí? Você falou na ressurreição do Príncipe do Cavalo Branco, foi? Que história é essa?' `Que história é essa? Que história é essa, uma porra! Você, Dom Pedro Dinis, você que é nosso Rei e Profeta, está duvidando? Até nem parece que foi você quem sustentou a Fé da gente, durante esses cinco anos! Olhe, Dinis, vou lhe dizer uma coisa: aconteceu hoje, aqui na Estrada, ainda agora, a coisa mais sagrada que podia nos acontecer! Eu estava em Estaca Zero. Saí para um roçado, e tive uma visagem, no caminho, uma coisa horrorosa, um Cavaleiro do Inferno que depois lhe conto! Voltei para a rua, o encontrei lá o maior cu-de-boi que se possa imaginar! Parecia que o mundo estava se acabando: era menino chorando, era grito de mulher tendo ataque, era o Diabo! Vendo que a gritaria era maior do que um estrupício comum, perguntei o que tinha acontecido. Me disseram que tinha passado uma Cavalhada, toda luzida, com um Frade e uma bandeira na frente, e com um rapaz no meio, montado num cavalo branco! Aí, Dinis, fui eu que fiquei feito doido! E não era para menos, porque isso era o que você e o Profeta Nazário tinham profetizado todo ano, desde 1930, no Almanaque do Cariri, desde que roubaram e mataram o filho mais moço do nosso Rei Degolado, Dom Pedro Sebastião! É o nosso Prinspo Alumioso do Cavalo Branco, que voltou ressuscitado, para fazer a desgraça dos ricos e a felicidade dos pobres aqui do Sertão! Ah, meu velho Dinis, você não imagina o burburinho que aquele Povo todo estava fazendo, na Estaca Zero! Estava tudo com ar de doido, e eu só ouvia era os gritos! Um dizia: "O Prinspo da Pedra do Reino voltou e passou aqui pela estrada, em procura de Taperoá! " Outro gritava: "Vou ver se tenho a sorte dele me aceitar pr'a Guerra do Reino, porque então ressuscito com ele e nunca mais morro!" O pessoal da Cavalhada do Prinspo, Dinis, tinha passado por Estaca Zero sem parar, galopando, de modo que o Povo, meio ourado, não tinha tido a idéia de seguir atrás dela. Eu, por mim, como lhe disse, tinha chegado atrasado. Assim, só quase uma hora depois que passou a Cavalhada, foi que o primeiro devoto meteu o pé na Estrada, mas, agora, já está tudo quanto é de gente vindo de Estaca Zero, a pé, por aí, de Estrada afora! Eu tive a sorte de amorcegar um caminhão, que me deixou no Cosme Pinto! Pelo pessoal do caminhão, soube que o primeiro tiroteio da Guerra do Reino já aconteceu, perto dum Lajedo, entre Cosme Pinto e Estaca Zero. Venho, por isso, na frente do pessoal da minha rua, mas de qualquer modo, me atrasei da Cavalhada do nosso Prinspo. Agora, vou chegando a Taperoá, e, se Deus quiser, a Guerra do Reino vai começar comigo já dentro dela! Agora, eu lhe pergunto uma coisa: você, que estava aqui na Estrada, viu passar por ela o nosso Prinspo? E se esse rapaz que veio por aí, montado num cavalo branco, for, mesmo, o nosso Alumioso, você conhece ele?' "`Eu sei lá, Lino Pedra-Verde! Se fosse antes, eu conhecia! Mas assim como estou, cego, sei lá!' "`É mesmo, isso é o Diabo! Isso era, lá, hora de cegar, Dom Pedro Dinis Quaderna! Sem você, sem uma pessoa filantrópica como você - que é entendido no Lunário e em outras coisas litúrgicas - o nosso Reino não vai de jeito nenhum! Só você é capaz de decifrar esse entrançado! O que foi que você disse que viu aqui na Estrada, antes de eu chegar?' "`Não posso lhe dizer direito ainda não, Lino, porque foi tudo muito confuso! O que eu posso lhe garantir é que, pouco antes de cegar, eu vi passar, ou melhor, eu ouvi passar pela Estrada, uma tropa de Cavaleiros, com as rodas das carretas chiando e com uns miados que pareciam de bichos de Circo enjaulados! Na verdade, não posso dizer que vi nada, porque estava já, naquela hora, com os olhos encandeados e magoados pelo Sol! Mas, se l não cheguei a ver, mesmo, os cavalos e os Cavaleiros, vi as imagens deles, projetadas na poeira, iluminada pelo Sol!' "`Ave Maria!', gritou Lino, entusiasmado. 'E como é que, tendo visto uma coisa dessas, você, meu Rei, ainda tem coragem de dizer que não viu nada? Viu, você viu! Viu, e vamos embora logo, para a rua, porque é ele! Ah, Seu Dom Pedro Dinis Quaderna, está esquecido daquilo que você mesmo escreveu, na Profecia do começo deste ano, no Almanaque? Vamos pra Taperoá, porque essas imagens que você viu é a lanterna-mágica do Sol, é o Cosmorama da Pantasmagoria que Frei Simão, e a Velha do Badalo profetizaram para a volta do nosso Prinspo, Dom Sinésio Sebastião, o Alumioso! "' - A Velha do Badalo? - estranhou o Corregedor. - Também é Profetisa? - É, sim senhor, se bem que seja, mais, do tipo de Profeta de folheto! O "Badalo" é uma terra que tem, aqui em Taperoá, e que só dá doido! A velha Maria Galdina é de lá, e vive cantando umas modas-antigas, umas cantigas-velhas, do tempo do ronca e de Dom Pedro Cipó-Pau! No Almanaque do Cariri do ano de 35 eu tinha publicado uma dessas cantigas, e Lino, agora, pelo que eu via, estava achando que essa cantiga se referia era à chegada de Sinésio! - Entendi! - disse o Corregedor, cortante. - Estou entendendo tudo, Dom Pedro Dinis Quaderna, e o papel que você desempenhou nisso tudo está cada vez mais claro para mim! Pode continuar! Ah, nobres Senhores e belas Damas! Eu sentia, perfeitamente, que estava me enredando cada vez mais no novelo-de-cobras que o Destino tinha fiado para mim. Mas o que é que podia fazer? Continuei: - Lino continuava falando na maior exaltação, Senhor Corregedor, já agora ligando minha cegueira à reaparição de Sinésio. Dizia ele: `Sabe duma coisa, Dinis? É bem possível que não tenha sido estuporamento! Vá ver que foi a Visão da Pantasmagoria do Prinspo que cegou você! Você, Dinis, apesar de Rei e Profeta, é homem safado e pecador! Talvez esteja com algum pecado cabeludo nessa sua consciência preta, e foi por isso que não teve o direito de avistar o nosso Prinspo Alumioso da Bandeira do Divino! Você mesmo escreveu na sua Profecia deste ano que o nosso rapaz santo teria de voltar como Criatura pura e limpa de toda mancha! Ora, é claro, claríssimo, que uma Criatura assim não pode ser avistada por um sacana como você! Mas, por outro lado, pecador ou não pecador, de consciência limpa ou podre, está escrito que o Reino só vai para o Prinspo pela mão daquele que é o Rei e o Profeta da Pedra do Reino! É por isso que, se você não foi capaz de ver o Prinspo, pôde, pelo menos ver o Cosmorama dele! E basta! Tendo visto isso, sua obrigação, Dinis, é reunir o Povo lá em Taperdá, contando para todos como vai começar a Guerra do Reino do Sertão do Brasil! Vamos embora, Dom Pedro Dinis Quaderna! Vamos, que o Sol está se chegando para o poente, e eu quero chegar na Vila com ele ainda de fora, com luz que dê para eu ver a cara alumiada do nosso Prinspo!'"

Livro V

A Demanda do Sangral

A Gruta Sumeriana do Deserto Sertanejo - Quando chegamos aqui à Vila, Senhor Corregedor, encontramos a rua subvertida pelo grande acontecimento! Os Burgueses e os "senhores feudais da Aristocracia rural" - como chama Clemente - certos de que a Revolução Comunista tinha começado, tinham se trancado a sete chaves e, depois, ido para a reunião com o Bispo, como já contei. Mas a rua estava cheia de gente do Povo, de modo que, à medida que eu passava, se não via nada, ia ouvindo os gritos, os choros e as imprecações "da Plebe sertaneja, suja, mal-lavada, malcheirosa e fanática", como diz Samuel. Pedi a Lino Pedra-Verde que me levasse diretamente para minha casa, aquela que é pegada à Biblioteca, e que, depois, voltasse à rua, para se informar, o mais discretamente possível, do que acontecera, para, assim, me fazer uma narração segura de tudo. Arriei na minha espreguiçadeira e Lino saiu para cumprir o meu mandado. Daí a pouco voltava ele, ainda mais excitado. Narrou-me tudo: a chegada de Sinésio, a emboscada do lajedo, o atentado da rua, a morte do "cabra", e a visagem do Profeta Nazário, devidamente completada pela de Pedro Cego. Eu vi, logo, imediatamente, que estava diante de acontecimentos decisivos para o meu Destino. Eram acontecimentos zodiacais e astrológicos, que interessavam não somente à sorte do Brasil, mas à Obra, ao Castelo Sertanejo que estava para ser edificado pelo Gênio da Raça Brasileira - o Assinalado que estava predestinado a cantar aquela sorte e aquele Prinspo. Pedi então a Lino que fosse procurar Clemente e Samuel, avisando-os da desgraça que se abatera sobre mim e solicitando a presença urgente deles, pois eu tinha gravíssimos assuntos a discutir com os dois. Lino Pedra-Verde foi encontrá-los reunidos, na casa de Clemente, que era a mais próxima, pegada à minha. Estavam agarrados numa discussão ardorosa, motivada, como não podia deixar de ser, pela reaparição milagrosa e enigmática de Sinésio, e pelas visagens que Nazário e Pedro Cego tinham comunicado à multidão, assim como, principalmente, pelo verdadeiro sentido político daquilo tudo e das repercussões que estavam tendo perante o Povo. Como a casa de Clemente era bem perto, eles não demoraram a chegar, conduzidos por Lino Pedra-Verde, para a sala da frente, pegada à Biblioteca, onde eu me encontrava. Ambos estavam, ainda, com as roupas de cerimônia com as quais tinham comparecido ao Palanque, e foi assim, de togas sobrepostas, que entraram na sala onde eu, acariciando a testa em torno dos olhos irremediavelmente despedaçados, continuava sentado na espreguiçadeira, imerso no maior desespero, na maior desolação que se possa imaginar. Meus dois Mestres estavam profundamente perturbados. Não com minha cegueira, mas com a ressurreição de Sinésio. De fato, a nossa situação diante da família de meu Padrinho levava a isso. Eu, parente, agregado e protegido, era mais velho do que Arésio somente três anos, e treze mais do que meu sobrinho e primo Sinésio. Eu, Clemente e Samuel tínhamos morado muito tempo na "Onça Malhada", na casa do velho Rei Degolado, Dom Pedro Sebastião. Clemente e Samuel, porém, eram bastante mais velhos, de modo que tinham assistido, já como adultos, o nascimento de Arésio e Sinésio, assim como o do outro filho de meu Padrinho, o bastardo Silvestre. Tinham sido, mesmo, como que os preceptores e pedagogos nossos, meu e, mais especialmente, dos três Príncipes, Arésio, o Proscrito, Silvestre, o Bastardo e Sinésio, o Alumioso. Até aquele dia, ambos tinham como certa a morte de Sinésio. Agora, de repente, daquela maneira miraculosa, aparecia o Mancebo ressuscitado, para reivindicar seus direitos à herança e à vingança do Pai. Sim, porque essa era a opinião unânime do Povo: chegara o justiceiro, o vingador esperado. O fato é que, talvez por causa disso, nem Samuel nem Clemente se dignaram dar importância à minha cegueira. Talvez fosse por causa da inumanidade que caracteriza sempre os grandes homens, que não costumam descer de suas altas preocupações para dar importância a coisas de pouca monta como a simples desgraça individual de um ser humano. Talvez fosse porque nunca me levavam realmente a sério, considerando-me um ex-discípulo que, para vergonha sua, tinha se tornado apenas um charadista e Decifrador, indigno das preocupações e da compaixão deles.

- Será que eles se aperceberam, logo, de que o senhor estava cego? - indagou o Corregedor.

- Se aperceberam, Senhor Corregedor! A princípio, imaginei que Lino não dissera nada e eles ignoravam o fato, apesar de que, como eu vim a saber depois, o Cantador caolho dera com a língua nos dentes inclusive na rua, onde a notícia logo se espalhou no meio do Povo, como uma faísca elétrica. Mas, além disso, Lino tinha contado tudo diretamente aos dois. Mesmo assim, quando pies entraram na sala, ignoraram minha catástrofe. Dirigiram-se a mim, mas foi para continuar a conversa que Lino interrompera e para comentar o estranho caso da ressurreição de Sinésio, com as profecias e tudo. O mais animado, -no momento, era Clemente. Samuel, apesar de todos os esforços que fazia para esconder isso, estava inquieto com a possibilidade de aquilo ser, mesmo, uma Coluna comunista. "Se assim for", dizia ele, "isso significará meu fuzilamento sumário pela Canalha." As dúvidas, porém, permaneciam de parte a parte, a Esquerda também estava inquieta, porque Clemente, por sua vez, não estava ainda muito seguro sobre "a verdadeira orientação ideológica" daquele estranho grupo de Ciganos. Notei, mesmo, que meus dois Mestres estavam se tratando mutuamente com grande cortesia, o que absolutamente não era comum. Depois é que eu entenderia o motivo disso: tinham feito uma espécie de pacto de garantia mútua. Se a Coluna fosse da Esquerda - como pensava o Comendador Basílio Monteiro - Clemente protegeria e esconderia Samuel, que faria o ,Mesmo com o rival, caso o grupo de Luís do Triângulo e do Cigano se revelasse como da Direita. Eu, vendo que eles, absolutamente, não tomavam conhecimento da minha desgraça, arrisquei timidamente, na primeira pausa, uma informação e uma queixa a respeito da catástrofe-trágica que introduzira a Cegueira entre os inquilinos de meus olhos, entre as minhas Paixões malévolas, "entre as vicissitudes da minha atribulada existência". Os dois mal conseguiram fingir um interesse distraído pelo fato. Samuel veio logo com as Literaturas direitistas dele, para me consolar: "`Olhe, Quaderna', disse ele, sério, `isso que, à primeira vista, parece uma desgraça, pode até ser uma coisa benéfica, pelo menos para você, que deseja ser um Poeta épico e fazedor de romances, como nos confessou hoje! Aliás, só lhe dou essas informações porque minhas idéias são outras e o fato de você fazer um romance não me causa prejuízo nenhum. Já lhe disse que, na minha opinião, a Obra da Raça Brasileira será um livro de poemas cifrados, um livro que só um Poeta, aqui, é capaz de fazer!', disse ele, com um tom presunçoso que me irritou ainda mais. E acrescentou: `Mas você tem outro pensamento, acha que deve escrever algo no gênero épico. Pois siga esse caminho. Dou-lhe, de graça, um conselho: por que você não escreve uma espécie de "romance brasileiro e medieval de cavalaria", parecido com os do- genial escritor pernambucano de Pesqueira, Zeferino Galvão, aproveitando para isso a Crônica da família Garcia-Barretto? Você deveria partir não de seu Padrinho, mas da ressurreição maravilhosa desse rapaz do cavalo branco! Mesmo pertencendo a essa Aristocracia bárbara, bastarda e corrompida do Sertão, Sinésio é um Barretto, um descendente, portanto, da ilustre estirpe pernambucana dos Morgados do Cabo. Assim, se você contar a história dele, pode, através disso, reintegrar, nela, o Brasil em seu verdadeiro caminho, no caminho ibérico-flamengo! Note que o genial Zeferino Galvão, apesar de nunca ter saído de Pesqueira, só escrevia seus romances com ação passada na Provença, dando, com isso, uma grande prova de fidelidade às raízes da nossa fidalga Raça! Ele escreveu uma trilogia chamada Heloísa d'Arlemont, composta de três obras geniais, A Corte de Provença, O Mosteiro de Nímes e A Guerra dos Camisardos. Na minha opinião, a Obra da Raça deve ser escrita em versos e por um Poeta. Mas já que você deseja ser Poeta épico, escolha, para escrever sobre o rapaz do cavalo branco, um romance de cavalaria, ibérico-flamengo e brasileiro, como os de Zeferino Galvão, ou mesmo, de certa forma, como os desse romancista para adolescentes, José de Alencar, que você tanto admira, com seus gostos de leitor de almanaques!' "Na mesma hora, Senhor Corregedor, Clemente começou a protestar, querendo levar Zeferino Galvão no ridículo, atrevimento do qual só recuou quando soube que o grande escritor da Vila de Pesqueira tinha sido membro do Instituto Arqueológico de Pernambuco e, portanto, um escritor acadêmico, consagrado e indiscutível. Mas, mesmo recuando nessa parte, continuou discordando de Samuel: "'Olhe, Samuel', disse ele, 'não quero ser indelicado com você, principalmente tendo nosso pacto em vista. Mas discordo de uma porção de coisas, aí no que você disse. Em primeiro lugar, a Obra da Raça Brasileira tem de ser um livro filosófico-revolucionário, escrito em Prosa e por um Filósofo, um homem mergulhado pelo sangue e pela cultura na realidade social do nosso País. Mas, mesmo que a Obra da Raça devesse ser épica, como pensa Quaderna, não poderia, de modo nenhum, ser um ridículo romance de cavalaria ibérico; flamengo! Deveria ser, sim, um romance picaresco, satírico e popular, como já provei hoje pela manhã, um romance sem herói individual - coisa ultrapassada e reacionária - e cujo personagem fosse um homem-povo, um símbolo da fome e da miséria, enfrentando os Poderosos pela astúcia, errante e mal-andante pelas Estradas sertanejas! Esse Zeferino Galvão, genial como fosse, era um traidor do Brasil!' "'De jeito nenhum, Clemente, desculpe o que lhe digo!', tornou Samuel, sempre procurando ser delicado, por causa do pacto. 'Acho perfeitamente legítimo que um escritor brasileiro, desgostoso com os plebeísmos e misturas que corromperam o início fidalgo da nossa Raça, escreva sobre outro tempo e outro lugar, como fazia Zeferino Galvão com a Provença do século XVII. Que culpa tinha esse pernambucano ilustre de que a realidade atual do Brasil não esteja à altura dos nossos sonhos de Poetas fidalgos? Acho que essa escolha de Zeferino Galvão é até uma prova de bom gosto, porque, quando a gente deixa a realidade mesquinha e vulgar, pode exilar das nossas Obras a vida grosseira e manchada, deixando lugar somente para a imaginação, a Legenda e o sonho!'

"`Olhe, Samuel', objetou Clemente, `entenda que minha crítica não é feita por Zeferino Galvão ter saído das fronteiras convencionais do Brasil, não! O que eu critico é que, ao sair dessas fronteiras, ele não tenha seguido o caminho mouro e etiópico, caminho que, este sim, reconduziria o Brasil a suas verdadeiras raízes!'

"'Nada disso!', insistiu Samuel. 'Zeferino Galvão só não acertou inteiramente porque, ao deixar essa terra de Cafres e gaforinhas em que se tornou o Brasil, escolheu a Provença, terra que, sendo ainda meio ibérica, é ainda meio morena! De gente moreno-ibérica, já nos bastam o sangue português e o espanhol, que vieram a princípio mas que, depois, com a negralhada que se meteu, foi se perdendo e abastardando. O que é necessário agora, para recuperarmos o sangue da Raça, é um bom contingente de sangue nórdico, para fundir assim, no nobre cadinho brasileiro, a raça de Fidalgos brasileiros dos nossos sonhos!"' O Corregedor interrompeu, observando: - Noto, Dom Pedro Dinis Quaderna, que havia certa semelhança de idéias e de palavras entre o Doutor Samuel e Gustavo Moraes.

- É verdade, Senhor Corregedor. Para ser justo, devo dizer que Samuel já tinha muitas dessas idéias, esboçadas há muito tempo. Mas depois que Plínio Salgado passou aqui, no Sertão do Cariri, e principalmente depois que Gustavo Moraes veio do Recife para cá, essas idéias receberam grande impulso e uma nova formulação. Havia, aqui na Paraíba, no grupo do jornal A União, três escritores que influenciavam Samuel nessas fidalguias ibéricas, isso antes do Integralismo: eram Carlos Dias Fernandes, Eudes Barros e Ademar Vidal. Pois foi na linha de tudo isso que ele concluiu, naquele dia, dizendo: "Zeferino Galvão, a meu ver, deveria ter escolhido a Flandres, ou talvez, melhor, a Borgonha, que, ficando a meio caminho entre a Ibéria e a Flandres e tendo tido um mestiço de nórdico-português, Carlos, o Temerário, como seu último Duque, serviria melhor para auscultar os ritmos do sangue da nossa Raça, o que digo de dentro do problema e por experiência própria, porque, como legítimo Wan d'Ernes que sou, ! sou um legítimo Fidalgo ibérico-flamengo e brasileiro Assim falou Samuel, Senhor Corregedor, e meu sonho de ser o Gênio da Raça Brasileira me tornava de tal modo possesso da Literatura, que, a despeito de toda a minha desgraça, aquelas conversas estavam, já, começando a incendiar minha cabeça. Meu objetivo secreto era erguer, eu mesmo, o meu Castelo, conciliando aquelas opiniões, irredutivelmente contrárias e incompletas, de Samuel e Clemente. Eu escreveria uma Obra em prosa, como queria Clemente. Mas essa Obra em prosa seria animada pelo fogo subterrâneo da Poesia o pelo galope do Sonho, como queria Samuel. Seria escrita por um Poeta de sangue, de ciência e de planeta, toda entremeada de versos e nela se uniriam, pela primeira vez, a Literatura sertaneja de beira-de-estrada - na linha do Compêndio Narrativo do Peregrino da América Latina - e a Literatura fidalga da Zona da Mata - na linha de A Corte de Provença, de Zeferino Galvão. Por isso, já começando a me esquecer um pouco da cegueira e também sem abrir muito meu jogo para não esclarecer meus rivais, falei: `Olhem, para mim, o problema não será, propriamente, descobrir como escrever a história de Sinésio. Para mim, o que é, mesmo, indispensável, é assistir a todos os acontecimentos, até o fim, para, assim, saber de tudo e ter o que escrever! Como vocês já me provaram muitas vezes, não tenho imaginação para inventar, só sei contar o que vi. Ora, sei tudo o que se passou cóm os Garcia-Barrettos até o dia de hoje. Daqui por diante, nessa questão o nessa guerra que, pelo visto, vai se travar entre Arésio e Sinésio, o problema fundamental é o do Testamento e o do Tesouro que o Pai deles deixou. Pelo que estou entendendo, o Advogado do rapaz do cavalo branco, esse tal Doutor Pedro Gouveia da Câmara Pereira Monteiro, sabe disso melhor do que nós. Assim, será à busca do Testamento e do Tesouro que ele encaminhará Sinésio. Pois bem: nessa história toda, houve um acontecimento que, a meu ver, precisa ser bem interpretado, porque pode ser a chave de muita coisa que já aconteceu e ainda vai acontecer daqui por diante. Sabem o que é? É essa visagem que o Profeta Nazário teve o que Pedro Cego completou. Você ouviu a história deles, Clemente?' "`Ouvi!', disse o Filósofo, com olhos acesos.

"`Qual é sua opinião sobre a visagem? Acha que é coisa de pouca importância?' "`Vamos em termos e por partes!', disse Clemente, cauteloso. `Acho, com você, que a visagem do Profeta Nazário é coisa da mais alta importância. O que ela não é, é visagem! Nada daquilo foi inventado, Quaderna. Nazário e Pedro Cego devem ter visto alguma coisa que pareceu a eles tão estranha, que eles falam disso em tom místico, reacionário e obscurantista. Me digam uma coisa: eu já contei a vocês a aventura que me sucedeu, certa vez, numa Catinga sertaneja e no decorrer da qual fiz uma descoberta arqueológica da mais alta importância para o Brasil?' "'Não!', disse eu, acendendo, por minha vez, olhos rebrilhantes de curiosidade.

"`É verdade! Estou falando disso pela primeira vez, porque, dada a importância da descoberta, eu queria guardá-la para o meu Tratado da Filosofia do Penetra[. Mas, com os acontecimentos de hoje, vou revelar tudo, desde que vocês me garantam segredo absoluto sobre o que vão ouvir. Vocês garantem?' "`Garantimos, Clemente!', dissemos eu e Samuel ao mesmo tempo.

"`Vocês já ouviram, alguma vez, alguma referência à legendária Cidade cário-asteca, fenício-incaica e egípcio-tapuia, soterrada aqui e ali no Sertão brasileiro?' "'Já ouvi algumas referências vagas!', disse Samuel. 'Sempre pensei, porém, que essas histórias de inscrições petrográficas fenecias, aqui, fossem intrujices de desocupados.' q"'Pois você está enganado, Samuel!', falou Clemente com ar grave. 'Estudei detidamente o assunto e posso lhe .garantir, hoje, ue os cário-troianos, os astecas, os incas, os tapuias, os sumerianos, os egípcios, os fenícios e os ciganos, tudo isso é uma coisa só! Aí por 1924 ou 1925, não me lembro direito, passou aqui pelo Sertão da Paraíba, um sábio estrangeiro a quem os Sertanejos chamavam Ludovico Chovenágua. Ele foi recomendado a nós pelo próprio Presidente daquele tempo e eu tive oportunidade de lhe servir de guia, dando-lhe várias informações que ele considerou preciosas e que transcreveu em seu livro, o safado, sem comunicar a fonte em que bebera. Vou dar algumas indicações que vão fazer vocês ficarem de queixo caído. Primeiro: vocês sabem que as inscrições e desenhos petrográficos brasileiros e sertanejos são feitos com "letras do alfabeto fenício e da escrita demócrita do Egito?" Sabiam que existem, aqui no Sertão, inscrições com "caracteres da antiga escrita babilônica, chamada sumeriana?" Temos, também, alguns "escritos com hieróglifos egípcios", outros cretenses, alguns da Cária - povo aliado dos Troianos, na Guerra de Tróia - da Ibéria e da Etrúria. Um antigo funcionário da Comissão Brasileira Demarcadora de Limites, encontrou, no Sertão, ruínas de uma Cidade, que julgou "ser de origem fenícia". E existem outros dados. Os Fenícios, quando andaram por aqui, construíram vários estaleiros, alguns com aterros e subterrâneos, e a maior parte deles no Litoral do Estado do Rio Grande do Norte - em Maracu, no Lago Verde e no Açu, assim como um, perto de Touros. Varnhagen conta como os Cários e os Troianos, depois de derrotados pelos Gregos, na "Guerra de Tróia", emigraram para o Brasil, e cita inúmeras palavras comuns aos Tapuias, Egípcios,Sumerianos e Cário-Troianos. Aliás, depois da "Guerra de Tróia", os povos aliados e confederados contra os Gregos, fundaram várias cidades em homenagem a Tróia. Assim, houve uma Tróia, perto de Veneza, outra no Lácio; houve uma Tróia etrusca, outra na costa atlântica da Ibéria. A nós, porém, interessa mais é o resto: à medida que todos esses Povos contornavam a Africa e se dirigiam para o Brasil, não faziam mais do que sentir o fascínio das origens e o desejo de regresso às raízes Tapuias de que se originavam. Foi assim que se fundaram duas Tróias no litoral brasileiro, uma no Rio Grande do Norte - cujo nome virou, depois, Touros - e outra na Bahia - que virou Torre. Os Cários, por sua vez, fundavam, no Sertão, a cidade de Carnatum, cujo nome, com o decorrer do tempo, se corrompeu em Canudos. Sim, porque foi no Nordeste, segundo afirma Ludovico Chovenágua, entre os Rios Tocantins e São Francisco, que os Cários se estabeleceram. Vejam quantas coincidências estranhas! Os Fenícios tiveram estaleiros no Litoral do Rio Grande do Norte, sendo essa, talvez, a origem dos subterrâneos e aterros que o gringo Edmundo Swendson encontrou na Fortaleza de São Joaquim. Por outro lado, Canudos, o local da "Tróia Sertaneja", foi fundada pelos Cário-Troianos! Não é uma coisa maravilhosa? Pois bem: mais maravilhoso ainda é o que me aconteceu. Durante as minhas investigações arqueológicas e paleográficas, eu me perdi, um dia, na Catinga sertaneja do Seridó, do Rio Grande do Norte. Vocês sabem que essas inscrições o ruínas encontram-se sempre em grandes aglomerados de pedras o lajedos. Pois bem. Extraviado, encontrei, de repente, um amontoado de pedras com um buraco, que parecia a entrada de uma gruta. Havia morcegos e maribondos, que espantei, fazendo um facho de marmeleiro. Com essa tocha me servindo de lanterna, entrei nó buraco, cheguei ao fundo, segui por um corredor lateral que era, evidentemente, construído pela mão do homem, e assim, cheguei ao fim do corredor, onde me encontrei numa vasta sala escavada na pedra. As paredes eram recobertas por murais, com guerreiros sumerianos, sacerdotes astecas, reis incas, sacerdotisas cárias nuas - estas com os peitos desnudos pintados de amarelo, com o ventre, os braços e o rosto pintados de vermelho. O mais estranho é que havia uma semelhança completa, não só nos tipos físicos representados, como nos ornamentos e roupas dos personagens. Da sala, saíam corredores e compartimentos menores. Num deles, encontrei diversas múmias, deitadas no chão, arrumadas umas ao lado das outras. Perto delas, havia enormes discos de pedra, divididos em doze setores uns, em dezesseis, outros, cada setor com um signo particular. Todos tinham semelhança com os chamados "relógios astecas" a que Alexandre Borghine depois fez referência em seu livro, publicado em 1923. O mais importante, porém, é que havia, numa sala cujas paredes de pedra eram decoradas com animais - Onças, corças, Gaviões, seriemas, emas, etc. - um tesouro incalculável, de cintos, colares, coroas e jóias, tudo incrustado de diamantes, topázios e águas-marinhas!' "E você tirou alguma coisa, Clemente?', perguntei de ventas e olhos acesos de excitação, apesar de sentir nas palavras graves do Filósofo um cheiro de intrujice muito meu conhecido.

"Não, estava tudo encaixotado, em caixotes pesadíssimos! Por outro lado, eu estava apavorado, com medo de me perder. Voltei na carreira, sal da Furna, e voltei para o campo raso, a fim de procurar, de novo, o caminho de volta. No outro dia, sem dizer nada a ninguém, voltei com um Vaqueiro experimentado ao local em que pensava ter me perdido, mas não houve jeito de achar mais a entrada. Todos os aglomerados de pedra se pareciam uns com os outros, de modo que terminei desistindo. Enfim, o importante é que, de fato, Nazário e Pedro Cego podem ter achado ou esse lugar ou outro parecido, deixado, também, pelos Cário-Tapuias e Fenícios. A maneira como eles contaram a história, é meio mística e reacionária. Mas, de fato, se nós conseguíssemos reencontrar uma Furna dessas, o achado e a revelação do Tesouro podem ser da mais alta importância, tanto para minha visão-filosófica do Mundo, como para a nossa Cultura e, sobretudo, para os fundamentos da Revolução Brasileira!'" - Quando Clemente concluiu a narração de sua aventura extraordinária, voltei-me para Samuel e indaguei: "E você, Samuel? Nas suas aventuras e desaventuras de Fidalgo, andando pelos Engenhos pernambucanos, fez alguma descoberta sonhosa e legendária dessas? '"Quaderna', disse o Fidalgo, `eu não preciso ter um dia fora do comum para viver essas coisas, porque toda a minha vida foi e é, a cada instante, um Sonho e uma Legenda gloriosa! Eu, derradeiro varão da minha Casa, vivo eternamente numa Gruta Encantada, muito superior, em sonhos e tesouros, à que esses dois Profetas sertanejos, Nazário e Clemente, viram!', disse ele, sorrindo superiormente e já meio esquecido do pacto. E acrescentou: `Vocês sabem que eu tenho horror a esse fúnebre Poeta paraibanoaqui de vocês, Augusto dos Anjos. Mas, no meio de toda a obra dele, há um só poema que me toca. Com ele eu posso repetir: "Meu Coração tem catedrais imensas, templos de priscas e longínquas datas, onde um Nume de amor, em serenatas, canta a Aleluia virginal das Crenças.

Na ogiva fúlgida e nas Colunatas vertem Lustrais radiações intensas cintilações de Lâmpadas suspensas e as Ametistas, e os Florões e as Pratas."

"'Sim, Samuel!', falei. `Mas vocé acha que a visagem de Nazário tem algum fundamento? Isso é o que importa saber, agora! Que é que você acha? O que foi que Nazário viu?' "`O que Nazário teve, Quaderna, foi uma visão graálica, de natureza poético-extática, um pouco bárbara, como tudo o que é do Sertão, mas que, bem interpretada e corrigida por um verdadeiro Poeta, bem pode ser encaminhada a seu verdadeiro sentido: o do Quinto Império, sonhado por todos os nossos visionários, Profetas e iluminados, desde Antônio Vieira até Gustavo Barroso! Agora, que entusiasmo eu posso ter por uma visão comunicada, aí, no meio dessa canalha sertaneja, maltrapilha e malcheirosa, numa cena tipicamente plebéia, oncística e Clementina? A única coisa que me encanta nisso tudo é o aparecimento desse Donzel, quem quer que seja ele, montado num cavalo branco! Ah se isso tivesse acontecido na Zona da Mata! Aí, não haveria dúvida: saberíamos logo que era o jovem Fidalgo, signo e insignia da Raça, ardente, puro e casto, o nosso Encoberto, o nosso Encantado, predestinado a realizar o novo Império da Ibéria, o eldorado e cordiforme Brasão da América Latina!' "'Está bem, Samuel!', disse eu, `concordo e aceito. Menos numa afirmativa sua, aí! Vocé disse que o rapaz do cavalo branco era puro e casto. Pois, se é, será de maneira bem diferente da castidade do Rei Dom Sebastião, porque, segundo Lino me contou, ele vinha, na estrada, com o retrato de uma Moça no escudo!' "`Isso não indica nada contra a castidade dele!', retrucou Samuel. `Em primeiro lugar, aquela pode ser, apenas, a figura mítica da Dama que os Cavaleiros sempre têm. Mas, provavelmente, o que aquele retrato é, mesmo, é uma alusão à Rainha e Luz do Céu, à Lumen Coeli Regina. Quem sabe o que terá acontecido, mesmo, ao rapaz do cavalo branco? Talvez ele tenha visto a Senhora do Céu num éxtase místico e guerreiro, votando-se, daí por diante, à busca do Divino e à solidão do Deserto! Sim, é isso!

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