Deve ser isso! Essa seria a única causa de um Donzel tão puro e tão heráldico ter vindo buscar esse bárbaro Deserto Sertanejo! Quem sabe se ele não é "o Cavaleiro Pobre", o jovem Cavaleiro ardente, violento e casto, fanático e possuído pela Divindade, cantado pelo genial Poeta militarista, fidalgo e tradicionalista que foi Olavo Bilac? Vocês conhecem o poema de Bilac, pelo menos através da reinterpretação tapirista e ibérico-armorial que fiz dele. A história é uma maravilha: é a de um Cavaleiro que, um dia, teve uma visão dessas. Depois daí, colocou no Escudo a face da Dama Celeste, radiosa e pura. O mundo passou a lhe parecer um vasto e inútil Mausoléu. Enquanto os outros viviam, gozavam e amavam, ele vivia devorado pelo Fogo do Divino, pois somente o Divino, depois que ele o vira, seria capaz de saciá-lo e purificá-lo, mesmo que fizesse isso pelo fogo e pela Destruição. Então, depois de procurar a Morte mil vezes, nos prélios da Fé, o jovem Cavaleiro retirou-se para o Deserto, onde terminou seus dias, envelhecido, louco, com os olhos em brasa, rouco, devorado e destruido pelo Terrível que vira e por seu próprio coração incendiado. Você se lembra, Quaderna? O poema que eu fiz a partir do de Bilac é mais ou menos assim:
"Ninguém sabe quem era o Cavaleiro Pobre, que viveu solitário e morreu sem falar. Era simples e sóbrio, era valente e Nobre e pálido como o Luar.
Antes de se entregar às fadigas da Guerra dizem que um dia viu qualquer coisa do Céu: e achou tudo vazio! e pareceu-lhe a Terra
um vasto e inútil Mausoléu! Desde então, uma atroz, devoradora Chama calcinou-lhe o Desejo e o reduziu a Pó! E nunca mais o Pobre olhou uma só Dama, nem uma só! nem uma só! Conservou, desde então, a Viseira abaixada, e, fiel à Visão, e, ao seu Amor, fiel, trazia uma Inscrição de trés letras, gravada a fogo e sangue no Broquel.Foi aos prélios da Fé. Na Terra-Santa, quando, no ardor do seu guerreiro e piedoso Mister, cada filho da Cruz se batia, invocando um nome caro de Mulher, Ele, rouco, brandindo a Espada no ar, clamava: - `Lumen Coeli Regina!' - e, ao clamor desta Voz, nas hostes dos Incréus como uma Fúria entrava, irresistível e feroz! Mil vezes, sem morrer, viu a Morte de perto, mas negou-lhe o Destino essa sorte melhor! Foi viver no Deserto! e era imenso o Deserto, mas o seu Sonho era maior! E um dia, a se estorcer, só e despedaçado, louco, velho, feroz, naquela Solidão, morreu, mudo, rilhando os Dentes, devorado pelo Fogo do próprio Coração!"'
"`Quando Samuel acabou de recitar isso, Senhor Corregedor, Clemente não pôde se impedir de protestar: "'Samuel, nem esse poema foi você quem fez, nem o original e de Bilac: é de um poeta estrangeiro, não me lembro qual!' "Clemente', retrucou Samuel, `já lhe disse isso não sei quantas vezes! O poema é meu, porque eu colaborei nele! Por exemplo: ali, onde eu falo em espada, Bilac colocou pique - "brandindo o pique no ar!" Do jeito que eu botei, é muito mais bonito! Quanto à outra observação sua, quero lhe explicar que, quando um Poeta brasileiro ou português traduz uma obra estrangeira, para mim, o original fica sendo o trabalho dele. Sou nacionalista, e, podendo, pilho os estrangeiros o mais que posso! Para mim, Manoel Odorico Mendes é o autor dos originais da Ilíada e da Eneida Brasileira: Homero e Virgílio são, apenas, os tradutores grego e latino dessas obras dele! Castilho é o autor do Fausto e do Dom Quixote, assim como José Pedro Xavier Pinheiro é o verdadeiro autor da Divina Comédia que Dante traduziu para o italiano!' "`Está bem!', disse eu, interrompendo. `Entendi, mais ou menos, a posição de vocês. Cabe-me, agora, a vez de explicar a minha. A meu ver, Sinésio vai ter que organizar uma expedição para procurar o Testamento extraviado e o tesouro escondido! Sim, porque, seja na furna visageada por Nazário, ou na outra, cientificamente descoberta por Clemente, o fato é que o tesouro deixado pelo velho Rei Degolado do Cariri está enterrado por aí, numa furna sertaneja qualquer. Das pessoas que integraram a comitiva de meu Padrinho quando ele partiu para enterrar o testamento, a única ainda viva sou eu. Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto tinha me nomeado testamenteiro, e me prometera que, depois de enterrado o documento nessa furna, ele, quando se sentisse perto da morte, me revelaria o lugar. Ora, para Sinésio, a descoberta desse testamento é fundamental. Assim, o rapaz do cavalo branco o seus dois protetores - o Doutor e o Frade - terão que meter o pé no mundo, para encontrá-lo. Eu sou, portanto, pessoa indispensável à expedição, terei que ir, como guia dela. Por outro lado, essa ida é, para mim, indispensável, porque, se eu não pre520 senciar todos os acontecimentos, não poderei contá-los depois, na Epopéia. Picaresca ou de cavalaria, minha Obra terá que se passar na estrada, no oco empoeirado e aberto do Mundo, no centro da maçaranduba do Tempo, e isso só será possível se eu acompanhar Sinésio, o Doutor e o Frade em sua expedição aventurosa à procura do testamento. Aí é que surge um problema importantíssimo: como é que vamos arranjar os meios para fazer a viagem? Nessas coisas de dinheiro, nunca ninguém fala, mas, sem dinheiro, pouca coisa se faz! Pois bem: desde que cheguei à conclusão de que terei de ir, venho pensando em organizar um Circo, para empreendermos a viagem. Sempre tive vontade de ter um Circo, e a hora é essa! Nós contaríamos com a ajuda de meus irmãos, que têm, todos, algumas habilidades. Alguns deles são tocadores de rabeca o pífano: será a orquestra! Se a tropa que veio com Sinésio é mesmo de Ciganos, alguns devem saber fazer piruetas e proezas em cima de cavalos. Outros, deitarão cartas. Das partes de dramas, comédias e tragédias, eu me encarrego, com o "cavalo marinho", o "mamulengo", a "nau-catarineta", etc. Comprometo-me também a levar um "pastoril", formado com as mulheres-damas do RóiCouro que freqüentam a minha Távola Redonda. Assim, poderemos viajar de graça, divertindo-nos e, ainda por cima, tendo algum lucro, com acomodações para todo mundo e fazendo todas as expedições necessárias ao encontro do testamento. Sim, porque, na minha opinião, a história da furna do Profeta Nazário pode ter sido é uma revelação de botija referente ao tesouro e ao testamento do Rei Degolado! Agora, pergunto a vocês: caso o Doutor Pedro Gouveia me contrate para a expedição, vocês concordariam em viajar conosco, no meu Circo?' "Os olhos dos dois se acenderam, Senhor Corregedor. Mas, amarrados e seguros como eram, começaram logo a tomar precauções. Clemente falou primeiro: "`Bem, Quaderna', disse ele, `é claro que a proposta nos interessa. Mas existem vários pontos que precisam ser aclarados e estabelecidos desde já, principalmente quanto à parte financeira! Em primeiro lugar, me diga: nós seríamos convidados, como hóspedes, com todos os privilégios e honrarias, no Circo?' "`Claro que sim!' concordei, alegre, vendo que eles estavam inclinados a aceitar. `Além da amizade que tenho a vocês preciso demais dos conselhos literários e politicos dos dois!' "`Teríamos comida, bebida e dormida de graça?' "Teriam, sim! Inclusive, dentro das acomodações sempre meio precárias de um Circo, eu conseguiria o melhor possível, com camarins especiais para vocês dois!' "E, no caso de encontrarmos o Tesouro?', perguntou Samuel. `Teríamos parte na divisão dele?' "Bem, isso aí, eu só posso responder depois de conversarmos com o Doutor Pedro Gouveia. Isso, porém, não demora, tenho certeza. Modéstia à parte, desse tipo de coisas eu entendo. Posso até apostar: daqui a pouco, chega alguém, da parte do Doutor, para nos procurar!' "Então, essa parte fica para ser decidida na presença do Doutor!', disse Clemente. `Sobretudo, é preciso ver quem é, mesmo, esse rapaz do cavalo branco e quais são suas verdadeiras intenções, os verdadeiros objetivos de sua aparição, aqui. Eu e Samuel somos funcionários públicos. Mas, se houver vantagem, trataremos de conseguir licenças para seguir na viagem e acompanhar, inclusive como profissionais - eu como Advogado e ele como Promotor - o caso do testamento e da herança desse rapaz. Quanto a mim, como Filósofo, terei, ao mesmo tempo, oportunidade de realizar uma Viagem Filosófica, como aquela que o sábio brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira realizou no século XVIII, antecipando-se a todas as viagens de naturalistas estrangeiros pelo Novo Mundo!' "Pois, para mim', interveio Samuel, `essa expedição será uma viagem aventurosa e de sonho, como aquela que meu antepassado Sigmundt Wan d'Ernes realizou, em companhia do Poeta-Fidalgo e Soldado-Flamengo que foi Elias Herckman, quando viajaram ambos, no século XVII, em demanda, pelo Sertão da Paraíba, na busca desaventurosa exatamente de um Tesouro e de minas de prata, coisa que só pode, mesmo, tocar muito na imaginação de um Poeta e Fidalgo como eu!' "Eu não esclareci nada a eles, naquele momento, Senhor Corregedor, para não revelar minhas verdadeiras intenções. Mas para mim, de fato, a viagem ia ser era as duas coisas ao mesmo tempo! Seria uma Demanda novelosa e zodiacal, uma Viagem católicosertaneja e sagrada em busca da Furna do Terrível e na qual, ainda por cima, talvez tivéssemos a sorte de encontrar o Tesouro da Pedra do Reino, identificado por mim, nas minhas elucubrações botijais e filosofais, com o tesouro de El-Rei Dom Sebastião. E já estava com o coração alvoroçado de esperanças, quando, de repente, me lembrei, ne novo, da catástrofe que despedaçara meus olhos, e dei um gemido trágico: "Ai, ai de mim! Só agora me recordo! Não adianta nem eu sonhar, com o Circo e com a viagem aventurosa e desaventurosa que vocês estão planejando! Como poderei ir, se estou cego?' "`Ora, Quaderna, isso é nada!', disse Samuel, com a maior naturalidade. `Isso é nada, para um homem como você! Seja forte, seja homem, homem! Como eu estava dizendo há pouco, esse fato de estar cego, que, à primeira vista, parece uma desgraça, no seu caso pode até vir a ser um bem para você, uma vez que seu sonho é se tornar um Poeta épico! Não sei se você sabe disto, mas Joaquim Nabuco considerava a cegueira e o infortúnio como ingredientes indispensáveis para o sangue de um autor de Epopéias! Ora, Nabuco era um Barretto: não um_ Barretto como você e os outros Barrettos sertanejos, que são bastardos e corrompidos, mas um Barretto da familia do Morgado do Cabo e, portanto, um legítimo e puro Fidalgo pernambucano, de modo que era da Direita e a palavra dele merece toda fé. Diz Nabuco que Camões só passou de Poeta lírico a Poeta épico depois que cegou. Acha ele, ao que parece, que, para Camões, isso foi um bem, afirmação da qual discordo, porque, como você sabe, considero os Poetas épicos como prosadores disfarçados - vulgares e enfadonhos como todos os prosadores. Mas, com as idéias que você professa, Quaderna, e com o sonho de se tornar Epopeieta, como diz você, sua opinião deve ser igual à de Nabuco: para você, Camões progrediu, quando passou de Poeta 'lírico a épico! Olhe, console-se, porque é coisa ungida e consagrada, dentro de sua ordem de idéias. Está aqui, na genial conferência que Nabuco escreveu sobre Os Lusíadas!', -disse ele, levantando-se e indo buscar, na estante, o livro a que se referira e do qual leu o seguinte trecho, que depois copiei e guardei, como documento: "Alguma indiscrição em matéria de amores, motivou a exclusão de Camões da Corte real, e, depois, o seu alistamento para combater os Mouros, na Africa, onde ele foi ferido, perdendo um olho. Esse ferimento marca uma época, na Literatura Portuguesa. Dissiparam-se, por causa dele, as esperanças de Camões como cortesão, e desfaleceu-lhe o orgulho de amante, vindo a sentir-se à mercê de quem lhe olhasse o semblante desfigurado. Sem a cegueira de Milton, o Paraíso Perdido teria sido bem outra composição. Sem o desfiguramento de Camões, de outro gênero teria sido a sua Obra poética. Foi essa disformidade que fez Camões renunciar, em desespero, ao Amor, à vida na Corte, a Lisboa, a Portugal, e desferir seu vôo rumo a Os Lusíadas. A meia-cegueira converteu-lhe o Amor, que nele foi sempre uma obsessão sensual, no sentido do Divino. Transformou-lhe a Lâmina envenenada que só Ihe servia, antes, para torturar-se a si próprio - no Cinzel que deveria talhar o Poema nacional português."'"
A Cegueira Epopeica
- Quando Samuel terminou de ler esse espantoso texto-profético - demonstrando inteira insensibilidade ante a parte humana e não-literária do meu sofrimento, eu gemi queixoso: "Mas é possível que vocês ainda não tenham se apercebido da extensão da minha desgraça? Estou cego, cego de guia. Clemente! A gente cego, e Samuel vindo com Literatura!' "Coitado de você, Quaderna!', disse Clemente, tentando parecer menos insensível do que o rival. `Capaz de você perder o emprego na Biblioteca, ou de ser aposentado co~n vencimentos ínfimos! Em qualquer caso, porém, seja você demitido ou aposentado, isso será muito menos prejudicial para você do que para mim e para Samuel! Olhe que pode vir, para a Biblioteca, um Diretor novo, que não tenha, conosco, as mesmas deferências que você tem! Além disso as tertúlias literárias da nossa Aleserpa se realizam na Biblioteca e vão ser muito prejudicadas com isso!'" -- Aleserpa? - disse o Corregedor. - Que é isso? Que é a Aleserpa? Alguma associação comunista, na certa! - Não senhor! Aleserpa é o endereço telegráfico do nosso sodalício sertanejo, a Academia de Letras dos Emparedados do Sertão da Paraíba que nós fundamos e que tem sede aqui em Taperoá, na Biblioteca! - Ah, bem! E quantos são os Acadêmicos? - Três: eu, Clemente e Samuel! - Está bem, pode continuar.
- Ouvindo Clemente falar daquela maneira, eu não queria acreditar que estava ouvindo certo. Seria possível alguém ser tão egoísta? E manifestei nl~nha estranheza: "Como é, Clemente? Você tem coragem de achar que minha cegueira prejudica vocês mais do que a mim?' "`É isso mesmo, e não se admire não', insistiu o Filósofo. `Você, sendo um Charadista, um Decifrador profissional, um homem que se dedica a resolver e armar Enigmas e logogrifos, será até beneficiado pela cegueira! Lembre-se de que o patrono do Suplemento anual do Almanaque Charadistico e Literário LusoBrasileiro é Édipo, que terminou seus dias cego. Sendo assim, você não pode se queixar de que o mesmo tenha acontecido com você, obrigado, agora, a seguir os passos trôpegos de seu Patrono pela estrada da cegueira. Como cego, quem sabe se você não irá, agora, receber, como compensação, a lucidez de Édipo? Édipo, tendo decifrado o "enigma do homem ante a Esfinge", tornou-se, depois de cego, um Decifrador tão eficiente, que teve a honra de ser escolhido como Patrono de todos os Charadistas do mundo. Pelo que me contou, aqui, o nosso Cantador caolho, Lino Pedra-Verde, foram dois Gaviões, um macho e outro fêmea, que cegaram você, não é verdade?' "E!', respondi de má cara.
"Pois você pode ficar certo, Quaderna, de que, dagora em diante, você vai ser o único homem, no Mundo, capaz, ao mesmo tempo, de ver as coisas machamente e ferreamente, o que, sem dúvida, é uma grande vantagem para o Decifrador e Epopeieta que você sempre quis ser! Na minha opinião, Édipo, quando moço e bom dos olhos, avistava coisas demais, motivo pelo qual não via nada! Só depois de cego foi que ele recebeu a lucidez esfingética e pôde se aperceber de que o Mundo e a vida são, como dizia o genial Tobias Barretto, "uma integridade espantosa". Creio que é por isso que os Professores alemães de Filosofia costumam afirmar que Édipo, como cego, tinha um olho a mais!' "E claro que tinha, era o olho do cu!', disse eu, que, a essa altura, já estava encolerizado por ver as filosofias com que aqueles sujeitos encaravam a desgraça no meu couro. E acrescentei: `E eu acho que é por isso que os Professores brasileiros de Filosofia aqui da rua dizem que pimenta no cu dos outros é refresco!' "`Não seja vulgar, Quaderna, não seja mesquinho!', disse Clemente, severo. `Como é que você pode se preocupar com essas questões de cegueira ou não-cegueira sua, uma questão meramente pessoal e de importância secundária, quando acontecimentos talvez de grande importância para o Brasil estão tendo início, como é o caso da chegada dessa Coluna, comandada pelo rapaz do cavalo branco? Nesse momento, a verdadeira questão, aquela que deve merecer o melhor de nossos pensamentos e das nossas ações, é essa! Quem sabe se esse acontecimento não marca o início da Revolução que vai estabelecer a República Popular do Brasil, a primeira da América Latina?" - Anote esse pormenor, é muito importante, Dona Margarida! - disse o Corregedor.
Margarida obedeceu, e o Corregedor voltou-se de novo para mim; - Muito bem! E o que foi que o Professor Clemente disse mais? Ainda falou nessa Revolução? - Parece que ele ainda ia falar, Senhor Corregedor. Mas, aí, foi interrompido por Lino Pedra-Verde, que tinha sido meu colega na escola da "Onça Malhada" e também aluno de João Melchíades, de modo que conhecia vários versos "de caráter fatídico e político", todos muito populares "entre a puerícia e a juventude das escolas brasileiras". Lino continuava mascando a erva-moura, de modo que tinha baixado, nele, o espírito da profecia e da sapiência. Em tais momentos, ele dava para falar difícil, mania que pegara com João Melchíades, e foi assim que se dirigiu a nós: "`Senhores Doutores, desculpem eu me intrometer na conversa de pessoas tão esfilantrópicas, mas tudo isso que estão dizendo me impressionou demais, porque tudo o que disseram é verdade e muito importante, de uma importancia cachorra da molesta! Não pensem que eu, por não ser pessoa formada, por ser um ignorante, seja aí um berdoega ou um filho da puta qualquer! Dom Pedro Dinis Quaderna, aí, me conhece, e pode me fornecer um atestado de conduta, dado pela autoridade! Além disso, fui aluno de Vossas Senhorias. Deixei os estudos e passei afastado muito tempo de Vossas Mercês, mas não por sacanagem e falta de caráter! De modos que, de maneiras tais que entendi tudo o que Vossas Excelências disseram! Apesar de ser apenasmente um simples Cantador de fama nacional, conheço muito bém o distinto Poeta português Luís de Camões, autor dos "Lusíadas de Luís de Camões!" Aliás, Camões usava três palavras que eu também gosto de usar muito nos meus folhetos - porém, carregada e todavia! Por isso entendi o que disseram sobre o olho cego de Camões: é tudo verdade, verdade da boa! E tanto é verdade que Portugal e o Brasil são muito maiores e mais importantes do que a França e a Turquia juntas. Daí, a gente recitar, como recitava no tempo da escola: "Camões, poeta Caolho, grande Vate português, enxergava mais com um olho do que nós todos com três.
Na França, tudo é errado, na França, tudo anda a esmo, na França, pescoço é cu, no Brasil, cu é cu mesmo!" " 'Está vendo, Quaderna?', indagou Clemente, escarninho. `Ouça a voz da sabedoria, aqui representada por esse digno Bardo de chapéu de couro, seu condiscípulo e correligionário. Ouça e console-se de sua cegueira! Édipo, enquanto teve vista, foi apenas um tirante, igual a muitos outros, na Grécia. Mas, depois
de cego, tornou-se um Decifrador, como você, Lino Pedra-Verde e Euclydes Villar. Camões, enquanto tinha dois olhos, era apenasum Poeta lírico, chorão e cortesão. Cegando de um olho, tornou-se Epopeieta, e só foi épico de segunda grandeza, imitador de Virgílio, por ser apenas meio-cego e não cego inteiro. Chega-se à conclusão de que o Gênio de um Epopeieta é tanto maior quanto mais olhos cegos ele tenha, sendo essa, provavelmente, a causa profunda de Homero ser considerado o maior de todos pelo Doutor Amorico Carvalho, Retórico de Dom Pedro II. Coragem, portanto, Quaderna! Quem sabe se agora você, cego dos dois olhos e com este magnífico Rapsodo e vate sertanejo lhe servindo de guia, não virá a ser o Camões da charada sertaneja, ou, melhor ainda, o Homero do Enigma Brasileiro?' "O senhor acredite, Senhor Corregedor: apesar da maldade e das ironias que me apunhalavam nas palavras de Clemente, aquilo foi o começo do meu consolo. Para ser o Gênio da Raça Brasileira, eu era capaz de fazer qualquer acordo e se o preço era a cegueira eu o pagaria com gosto. Se o fato de não ser cego significava alguma desvantagem em relação ao desgraçado do Grego Homero, a inferioridade estava, agora, sanada, graças às divindades de rapina da Morte Caetana. A contagem de pontos até subira muito em meu favor, porque Homero era cego, mas não existira nem tinha sido completo. Eu, além de existir e ser completo, genial e régio, agora não deixara mais um flanco sequer aberto a meu adversário, pois até cego dos dois olhos conseguira me tornar! A ardente alegria que começava a experimentar por minha cegueira não me tirou, porém, o rancor contra Clemente e Samuel. Resolvi fazer aos dois algumas ameaças, coisa de que só lançava mão em casos extremos e que sempre surtia efeito. Por causa das vicissitudes que eu tinha passado sempre em minha `atribulada existência', eu era muito relacionado entre o Povo - cabras-dorifle, Cangaceiros, tangerinos, Vaqueiros, Mulheres-Damas, Cantadores, etc. Aqueles dois, apesar de viverem falando e filosofando sobre o Povo, viviam eternamente fechados entre o mofo das suas respectivas casas, a poeira e as teias de aranha da Biblioteca, enfim, no "mofo dos capões intelectuais", como costumava dizer meu primo Arésio Garcia-Barretto. Não sabiam nem como falar com a gente do Povo e tinham um secreto pavor e um secreto mal-estar diante de tudo o que ao Povo era ligado. Parecia, até, que eram separados por uma linha invisível, linha que eu tinha cruzado à força, muitos anos antes, quando, por várias circunstancias, tinha sido expulso do meio em que tinha vivido desde pequeno. Além disso, meus irmãos bastardos, que viviam do outro lado da linha, eram um elemento de ligação valioso, que eu não deixava de aproveitar. Era por isso que, de vez em quando, Samuell e Clemente me davam indiretas, falando nos `parentes desclassificados e acangaceirados de Quaderna'. Pelo mesmo motivo, davam-se ao luxo de me fazer certas picuinhas, mas mantinham sempre uma boa margem de recuo, porque, nem sabiam nunca como eu iria reagir, nem tinham desejo nenhum de renunciar à possível proteção que eu lhes daria em caso de perigo, com eles eventualmente ameaçados pelo pessoal `do outro lado da linha'. E, finalmente, como eu, a despeito de mim mesmo e dentro das minhas aventuras de `Covarde Sortudo', tinha participado das correrias, emboscadas, guerras e tiroteios desencadeados pela vida de meu Padrinho, Dom Pedro Sebastião - eu, dizia, apesar de covarde, tinha granjeado, na rua e principalmente para meus antigos Mestres, uma certa reputação de "malvado e assassino" que não deixava de me ser útil em certas ocasiões. Naquele dia, foi disso que me vali, dizendo: "'e, vocês dois estão af, fazendo galhofa com a minha cegueira! A esperança de cada um é que essa Coluna e o rapaz do cavalo branco tenham vindo favorecer a Esquerda ou a Direita! O fato, porém, é que a Polícia fugiu, e a nossa Vila está à mercê da Coluna! Vocês não se esqueçam de que Sinésio, a.ém de Garcia-Barretto é um Quaderna! É meu primo e meu sobrinho, de modo que, da Esquerda ou da Direita, contra mim é que a Coluna dele não vai ficar! Não se esqueçam também de que Sinésio, sendo um Quaderna, é descendente, como eu, da família que, além de dominar o Sertão na Serra do Rodeador e na Pedra do Reino, fez, no espaço de três dias, uma carnificina das mais eficazes, o que, afinal, não deve preocupar vocês dois, porque são, ambos, partidários do banho de sangue! Vocês já viram como o Povo está assanhado? Já, e todos dois babem como o Povo sertanejo é imprevisível nessas coisas: pode tomar o lado da Aristocracia rural e pode tomar outro rumo, completamente oposto! Agora, eu pergunto a vocês: e se a "Guerra do Reino" começar, mesmo, com Sinésio ordenando, agora de noite ou amanhã de manhã, o fuzilamento de tudo quanto é gente poderosa, aqui? Vocês pensam que, sem uma palavra minha, o Advogado e o Promotor da nossa Vila vão escapar ao fuzil?" - Um momento, Dom Pedro Dinis Quaderna! - disse o Corregedor, jubiloso. - Pare, porque tudo isso é importantíssimo! Anote, Dona Margarida! Isto! Agora, o senhor pode continuar! Novamente eu tinha me deixado levar pelo entusiasmo cavaleiroso e régio, nobres Senhores da Academia e do Supremo, e nobres Damas de peito brando! Minha situação tornava-se cada vez mais perigosa. Mas como o que já acontecera era irreversível e o mal praticado quase irremediável, joguei-me para a frente e continuei: - Quando eu disse aquilo, Senhor Corregedor, Samuel e Clemente empalideceram. Lino Pedra-Verde, porém, saltou, como se tivesse sido atingido por um raio: "O Rodeador? Você falou af, Dinis, foi na Serra do Rodeador e na Pedra do Reino? Isso sim, é importante! O resto do que vocês disseram é bom, mas importante mesmo foi e é a Guerra do Reino! Sim, é isso! Doutor Samuel e Professor Clemente, o que é que os senhores me dizem disso?' "'Não sei, Lino!', respondeu Samuel pelos dois. `Não me recuso a tratar do assunto porque Varnhagen era um grande historiador brasileiro da Direita e falou sobre esses movimentos sertanejos, pelo menos em sua primeira fase, a da Serra do Rodeador. Mas, depois, surgiram tantas invencionices a esse respeito, que o assunto perdeu a seriedade. Aliás, parece que Varnhagen já previa que isso ia acontecer porque disse: "O acontecimento não deixará, no futuro, de prestar fértil e curioso assunto à imaginação de Poetas e romancistas"."Foi a minha vez de saltar, Senhor Corregedor, porque aquilo me tocava demais no meu sonho de ser Gênio da Raça escrevendo um romance-epopéico sobre minha família. Além do mais, Varnhagen, sendo Visconde e católico, trazia uma boa contribuição monárquica para minhas idéias e minha genealogia. Por isso perguntei a Samuel: "'Mas Samuel, como é que você sabe de uma coisa honrosa dessas e não me avisa, durante todos esses anos?' "'Quaderna, você já é tão pretensioso sem isso, que avalio como não vai ficar depois que eu lhe mostrar na História Geral do Brasil uma referência expressa a sua família! Mas, de qualquer modo, está lá e eu vou lhe mostrar onde. Diz Varnhagen: "Dediquemos um parágrafo a dar uma sucinta Notícia de certa ocorrência que teve lugar na Serra do Rodeador, no distrito do Sertão de Bonito, Província de Pernambuco em princípios de 1820. Da crença de que no alto desta Serra havia um Lajedo, de baixo do qual saiam Vozes, se aproveitou um certo Silvestre José dos Santos para contar muitos Prodígios, espalhando Revelações feitas por Imagens aparecidas entre Luzes, prometendo constante Vitória e muitas Fortunas aos que se alistassem por elas. Movidos por curiosidade e superstição uns, levados outros por ambição e cobiça, se foram aí ajuntando dentro de pouco tempo umas quatrocentas pessoas. Mandados dissipar, não obedeceram. Pelo contrário: resistiram valorosamente aos primeiros Milicianos armados. Mas, por fim, foram submetidos pela Tropa, caindo prisioneiros muitos, aos quais El-Rei perdoou como a Ilusos, mandando-os restituir a seus lares".
"Assim que Samuel leu isso, Clemente, apesar de toda a perturbação em que se encontrava pelos acontecimentos recentes, sentiu ferver seu sangue esquerdista. Jogou fora o constrangimento causado pelo pacto, e, pulando da cadeira, gritou: "Ve-se logo, e bem, a reacionarice e safadeza desse Visconde direitista, cheira-cu de Dom Pedro II! Em primeiro lugar, Varnhagen omite o significado de reivindicação política e econômica que houve no movimento da Serra do Rodeador! Depois, deixa de se referir, propositadamente, ao massacre que as tropas do Rei Dom João VI, a mando do Governador reacionário Luís do Rego, fizeram contra aqueles pobres Camponeses indefesos e iludidos pelo obscurantismo demente dos parentes de Quaderna! Está vendo como são as coisas, Quaderna? E é Samuel, esse Fidalgo de merda, que vive, aí, arrotando patrioteirismo, quem subscreve as palavras de Varnhagen, desrespeitando a Independência do Brasil!' "Eu?', protestou Samuel, espantado. `Em que foi que eu desrespeitei a Independência do Brasil? O que é que os parentes fanáticos de Quaderna, sejam os da Serra do Rodeador, sejam os da Pedra do Reino, têm a ver com a Independência d9 Brasil?' "Olhe, Samuel', explicou Clemente, `você sabe que eu faço restrições serüssimas a esses movimentos sem qualquer coerência e conteúdo ideológico. Mas, mesmo assim, você em vez de estar aí, espalhando as interpretações reacionárias de Varnhagen, devia ler eram as palavras do Comendador Francisco Benício das Chagas, escritor muito mais sério e genial do que Varnhagen! É verdade que o Comendador, não sendo iniciado na minha Filosofia do Penetra!, não tinha suficiente lucidez política para saber que a "independência do Brasil", a farsa de 7 de setembro de 1822, foi uma impostura. O Brasil só será de fato independente quando derrotar o imperialismo, lá fora, e a reação, aqui dentro! De qualquer modo, porém, o Comendador ouviu cantar o galo, nesse assunto. E até o sem-vergonha do nosso primeiro Imperador, Dom Pedro I, chegou a se referir ao significado politico do episódio, dizendo, no seu "Manifesto aos Brasileiros": "Lembrai-vos das fogueiras do Sertão do Bonito!" Com isso, Dom Pedro I mostrou, não só que estava a par dos movimentos sertanejos, mas que tinha consciência dos desígnios políticos implícitos neles, apesar de todas as incoerências!' "Mas o quê, Professor Clemente!', interrompeu Lino, novamente estupefato. `É verdade, isso que o senhor está dizendo aí? O Imperador Dom Pedro I tinha noticias da Serra do Rodeador, da Pedra do Reino e das tribuzanas todas da família de Dom Pedro Dinis Quaderna? Chegou a falar nisso, por escrito, coisa documentada, garantida e do Governo?' "E verdade, Lino!', confirmou Clemente.
"Tá, af só dizendo como , nosso Mestre João Melchfades: que coisa filantrópica! Que coisa mais litúrgica para a família do nosso Rei, não é, Dinis? O senhor pode me dizer, Professor Clemente, onde é que estão as palavras desse tal Comendador?' "Posso, pois não, Lino!', disse Clemente, satisfeito por estar acertando a conversar com um homem do Povo. `Olhe aqui!', acrescentou ele, tirando o volume da estante e lendo para nós o seguinte trecho do genial escritor pernambucano, Comendador Francisco Benício das Chagas: J"`áOs tristes e lamentáveis acontecimentos dados na Pedra do Rodeador, pelos fins de 1819, mediando entre a Revolução de 1817 - que fora sufocada pelo Poder Absoluto - e a de 1821, que vingou na invicta Vila de Goiana, foram como que o prenúncio da nossa Independência, que se proclamou no memorável dia 7 de Setembro de 1822. Mostram eles, bem claramente, que a reunião dos Povos, na Pedra do Rodeador, nesses tempos calamitosos, tinha fins verdadeiramente políticos. O Chefe do tal movimento, Silvestre osé dos Santos - Dom Silvestre I - alcunhado Mestre Quiou, que quer dizer o Maioral, na língua dos Indios, não era um simples aventureiro, um impostor e salteador, como se propalou então, durante o Governo violento e despótico do General Luís do Rego Barretto. Silvestre não era um impostor, quando ensinava aos Reunidos que uma Santa ia falar, da Pedra, para mostrar-lhes o que convinha adotar para melhorar a sorte de um Povo sofredor. Foi isso explicado, depois da Independência, pelos Patriotas bonitenses que estiveram em maior contato com o mesmo Silvestre. E qual era essa Santa que ia falar, apontando muitas coisas úteis que o Povo sofredor devia adotar? Era, certamente, a Santa Liberdade, era a Independência do Brasil! A reunião de gente na Pedra do Rodeador deu-se da seguinte maneira: pelo meio do ano até o fim de 1819, apareceu naquele lugar um Misterioso, dizendo ser seu nome Silvestre, e cuja Missão era escolher um Sitio..."' "O quê?', gritou Lino, escumando pela boca e esbugalhando os olhos. 'Al está escrito assim mesmo, Doutor? Diz um Misterioso, é? É assim que está aí?' "E, Lino!', disse Clemente, meio surpreso. 'Deve ter sido erro de tipografia! Provavelmente o que o Comendador escreveu foi um homem misterioso!' "Isso é sua opinião, isso diz o senhor!', comentou Lino. `Mas deve ter sido é um Misterioso, mesmo, que o Doutor escreveu! Porque essas pessoas da Santíssima Trindade sertaneja, essas pessas pessoas como Padre Cícero e Silvestre, são sempre umas capacidades danadas de misteriosas! E como é que fala, aí, da Missão que Silvestre Quiou, o Enviado, tinha? Diz aí que ele tinha de escolher um sitio, é? Me diga uma coisa: o que é um sítio? Não é um cerco, como o que houve em 1930, na Guerra de Princesa? E, eu sei que é, porque vi no jornal, e está escrito também assim no Almanaque do Cariri, publicado aqui pelo nosso Rei, Dom Pedro Dinis Quaderna! Hoje eu sei perfeitamente que Princesa, Canudos, a Serra do Rodeador, a Pedra do Reino, tudo aquilo foi um sítio da molesta, um cerco danado, uma Tróia só!' "`Sim, Lino, mas sítio, além de cerco, significa também, lugar, local!', explicou Clemente que, na sua qualidade de homem de Esquerda, achava-se sempre na obrigação de esclarecer o Povo. `Mas vamos continuar a leitura do texto do Comendador: "`"Dias depois, soube-se no Povoado que esse Silvestre escolhera um Rochedo conhecido por Pedra do Rodeãdor, e aí estava reunindo gente para que, em tempo oportuno, ouvisse a uma Santa que ia falar, indicando o bom caminho que o Povo devia seguir. Dentro de vinte dias, o número dos Reunidos aumentou consideravelmente. O Comandante do Destacamento Policial ordenou, por um Ofício dirigido ao Chefe Silvestre, que fizesse dispersar aquela gente sem perda de tempo, pois que, se não o fizesse, por ele, Comandante, seria tomada a providencia necessária, a fim de ser desmanchada aquela ilícita reunião. Nenhum efeito produ~au, no ânimo de Silvestre, a intimativa, e o número de pessoas do Povo crescia de mais a mais, a ponto tal de formar um Arraial. Silvestre, não dispondo de recursos para sustentar as pessoas pobres que o acompanhavam, mandou intimar aos Proprietários que lhe mandassem Gado, farinha, milho, feijão, etc., sob pena de, à força de Armas, serem satisfeitas suas requisições. Com isso, conseguiu ser atendido. Esse fato chegou ao conhecimento do Governador Luís do Rego, pois o mesmo Governador mandou, tendo como Chefe da diligencia, o Tenente-Coronel Madureira, uma Força para dar um assalto à Pedra do Rodeador. Madureira, saindo do Recife à frente de um corpo de linha, chegou a Vitória de Santo Antão, e aí recebeu outro corpo de Milicianos, declarando que seu destino era Pajeú de Flores. A tropa saiu como se fosse para lá, mas, ao aproximar-se de Bonito, Madureira fez uma negaça. Munido de bons guias, internou-se pelos matos em direção à Pedra do Rodeador, onde chegou às tres horas e meia da madrugada, dividindo a tropa em dois corpos, um de linha, sob seu comando, e outro dos Milicianos de Vitória de Santo Antão, comandado por um Capitão. Um destes corpos entrou pelo lado oriental do Rochedo, e o outro pelo lado ocidental, nas quebradas do qual estava o Arraial fortificado do Rei e Profeta Silvestre. O Chefe miliciano chegou ao Arraial primeiro que Madureira. Houve grande tiroteio, ao qual, acudindo o Tenente-Coronel a passo de marchemarche e intervindo no conflito, houve grande carnificina. A grande população não teria sofrido tanto se os Soldados não tivessem incendiado as habitações do Arraial, fazendo vitimas das chamas muitos homens, mulheres e crianças, aprisionando e conduzindo para o Recife as mulheres e os meninos que escaparam e que foram soltos depois, porque se reconheceu não haver neles crime algum. O Chefe Silvestre foi, depois, visto em Goiana, fazendo parte do Exército dos Independentes, que tinham seus Chefes na cidade do Recife e em outros pontos. Silvestre era de cor morena, representando uns quarenta anos de idade. Sabia ler e escrever, era ativo, perspicaz e severo em suas deliberações. Nunca disse a ninguém onde nascera, que profissão tinha nem do que vivia"." - Acho, Senhor Corregedor, que Lino Pedra-Verde ia comentar qualquer coisa a respeito dessas últimas palavras, tão proféticas, do Comendador. Mas, nesse momento exato, fomos interrompidos pela entrada de Piolho, uma figura que morava na "Távola Redonda" - onde era meu assalariado - e que é personagem muito importante da minha história. Moreno, magro, de estatura mais ou menos média, com os cabelos imundos, crescidos e encaracolados, vestia sempre uma velha e esburacada camisa de meia, preta e encarnada, com listras horizontais largas. Tinha um amigo e companheiro inseparável, o gordo Adauto, tão sujo quanto ele, mas cuja camisa, também velha e esburacada, era de listras horizontais azuis e amarelas. Eram as camisas dos dois Clubes de futebol da nossa Vila, o "Taperoá Futebol Clube" e o "Esporte Clube Nordeste", esquadrões famosos no Sertão e heróis de de jornadas heróicas que, a seu tempo, serão contadas. Piolho era noivo oficial, constante e eterno de Dina-me-Dói, filha do Profeta Nazário e Dama de companhia de Maria Sátira ,assim como o noivo era meu Pajem e estribeiro. Ele entrou, dirigindo-se a mim: "'Seu Quaderna, tenho dois recados pr'o senhor. Um, é do tal Doutor Pedro Gouveia, que veio com o rapaz do cavalo branco: ele quer falar com o senhor, com o Doutor Samuel e com o Professor Clemente. Disse que os senhores fossem lá no casarão dos Garcia-Barrettos, que ele quer ter um particular com os tres. Mas eu, se fosse o senhor, atendia primeiro era ao outro recado. Este, é para o senhor, só: Seu Arésio está lá na Tava, conversando com Seu Adalberto Coura, e mandou dizer que o senhor desse um pulo lá que ele tem um negócio urgente para falar com o senhor!' "`Piolho', disse eu, meio severo, `eu já lhe ensinei, não sei quantas vezes, como se dirigir a nós, e voce não toma jeito! Não custa nada você me tratar por Dom Pedro Dinis Quaderna, e Arésio por Dom Arésio Garcia-Barretto! Esse negócio de Seu é feio pra burro! E, além disso, o nome é Távola Redonda, e não Tava, como vote diz!' " 'Está certo, Seu Quaderna, mas nem o senhor é Bispo, pra eu estar chamando o senhor de Dom, e tanto faz dizer Tava como Tava! Mesmo eu falando desse jeito, o senhor não me entende? Então, é melhor o senhor deixar dessas conversas semiconfláuticas e vir logo pr'a Tava, porque aquele Seu Arésio, do jeito que está, é um perigo!"'