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A pedra do reíno e o Principe do Sangue do Vai-e-Volta

Ariano Suassuna

FOLHETO LXXIX

O Emissário do Cordão Encarnado

- Samuel e Clemente estavam curiosíssimos, profundamente excitados com a perspectiva de terem acesso ao centro, mesmo, dos acontecimentos. Ao mesmo tempo, porém, estavam com medo de ir, principalmente por terem de atravessar todo aquele Povo reunido. Informaram-se cuidadosamente com Lino Pedra-Verde sobre "as disposições em que estava aquela gente", indagando, chios de precauções, se "não havia alguma possibilidade de serem massacrados, caso aparecessem na rua, sem garantias". Lino tranqüilizou-os, aconselhando-os a se aproximarem da casa dos GarciaBarrettos pela parte de trás. Assim, poderiam passar despercebidos, porque a multidão estava toda aglomerada na parte da frente. Piolho confirmou que o Doutor Pedro Gouveia estava esperando por nós no muro do quintal, com o portão traseiro trancado mas com gente à nossa espera por trás dele. Combinamos então que Clemente e Samuel iriam, na frente, para a casa dos Garcia-Barrettos. Eu iria conversar com Arésio e Adalberto Coura, saindo depois da "Távola Redonda" diretamente para encontrá-los. Saímos então; os dois para pegar a Rua do Chafariz e eu para o fim da Chã da Bala, onde numa casa afastada, sombreada por um grande Pé-de-Tambor, ficava a minha "Estalagem à Távola Redonda". Todo mundo estava na Praça, diante da Casa dos Garcia-Barrettos, de modo que a Chã da Bala estava deserta, e eu pércorri o caminho da "Távola" sem que ninguém me perturbasse. Sempre com Lino Pedra-Verde me servindo de guia, cheguei assim à porta de casa e entrei. No primeiro momento, não vimos ninguém. A "Távola" estava deserta, com a mesa do bilhar abandonada, as cadeiras trepadas em cima das mesas e sem ninguém para atender. Nem Dina nem Maria Safira estavam lá, e o próprio Piolho tinha ido também, com o Gordo Adauto, se reunir ao Povo, depois que me dera o recado. Chegando na saleta onde ficava a escada que levava ao sótão, ouvimos duas vozes de homem, lá em cima. Só então me lembrei de que Arésio devia estar, mesmo, era fazendo companhia a Adalberto Coura na água-furtada em que este morava. Esta expressão era de Samuel, que odiava Adalberto Coura e que nos explicara que as pessoas como ele sempre moravam em águasfurtadas, lugares altamente próprios, acrescenfava Samuel, "para todos esses Lacraus e piolhos-de-cobra sediciosos, inimigos do gênero humano, esconderem seus pensamentos e projetos endemoninhados". Subi a escada, com Lino me puxando à frente, e cheguei, assim, ao quarto de Adalberto Coura, aposento dividido por tabuados, de telhado baixo, empoeirado e desarrumado. Apesar da treva em que estava mergulhado por minha recente e estranha cegueira, notei logo que, além de Adalberto Coura e Arésio, havia, no quarto, uma terceira pessoa, que só depois iríamos saber quem era. Essa pessoa estava na sombra formada pelo telhado baixo e inclinado em declive, do sótão, e Lino Pedra-Verde, como me esclareceria depois, logo viu, pelos cabelos compridos, que era uma mulher. No momento em que entrei, Adalberto Coura, falando exaltadamente como era hábito seu, dirigia-se a Arésio, num tom em que se misturavam as súplicas e as ameaças. Era um rapaz magro, alvo, com cabelos pretos, franzino, ardente, com os olhos que luziam como olhos de febre. Era bem moço ainda. Vestia calça escura, camisa branca, sem colarinho mas abotoada até o pescoço, meias e alpercatas de frade, o que lhe dava um aspecto de noviço na cela ou de jovem frade renegado.

- Muito 'bem! - interrompeu o Corregedor. - Seja, agora, o mais exato possível, porque este Adalberto Coura pode ser a chave de tudo o que aconteceu naquele dia. O que é que ele estava dizendo a seu primo Arésio? Você é capaz de repetir exatamente as palavras que ele estava dizendo quando você entrou? - Sou sim senhor, porque me lembro como se fosse hoje! Ele estava dizendo: "Vá, Arésio, não recue diante de nada! Faça tudo, mas não deixe de se apossar desse dinheiro, porque só com ele na mão é que a coisa poderá caminhar!" - Anote, Dona Margarida, isso é muito importante! - disse o Corregedor.

- Arésio retrucou assim: "E quem disse a você, Adalberto, que eu quero que a coisa caminhe?" Nesse momento, foi que ele se apercebeu da minha chegada, e falou para mim, dizendo: "Ah, Dinis, você chegou! Entre e sente-se. Ouvi dizer que você cegou! ( verdade?" "E, Arésio!', respondi.

"'Esse Dinis enxerga mais longe do que se pensa e é um sabidão!', disse ele, sem que eu entendesse bem o sentido de suas palavras. `Fique aqui, meu caro Dinis, estou precisando muito de você. O nosso Profetazinho politico, aqui, mandou me chamar para me dar um conselho do qual eu não precisava absolutamente, o de me apossar do meu dinheiro, de qualquer maneira! Fique descansado, Adalberto, porque, de minha parte, estou decidido a tudo para não perdé-lo, e quem se intrometer na minha frente para impedir isso, será esmagado como um percevejo!', concluiu ele com uma expressão sombria.

"`Sim, eu confio em sua violência e sei que você é capaz de esmagar qualquer um!', disse Adalberto com estranho fervor e com um rubor de febre subindo ao rosto pálido.

"'Foi por acreditar nisso que você mandou me chamar?', perguntou Arésio.

"`Foi!', confirmou Adalberto. `Não me envergonho de dizer que não tenho as qualidades que você tem e que serão indispensáveis quando chegar a hora de vingar todos os escorraçados, fazendo justiça aos oprimidos!' "E quem foi que meteu na sua cabeça a idéia de que eu quero fazer justiça aos escorraçados?', perguntou Arésio, sem esconder um certo desprezo.

"Ninguém meteu isso na minha cabeça, fui eu mesmo que me convenci!', falou Adalberto. 'Você pensa que me engana, Arésio? Eu sei que você é solidário com os escorraçados porque você mesmo é um escorraçado, e tenho certeza de que como escorraçado que você se sente porque eu mesmo sou um escorraçado e sei reconhecer meus iguais! Não é vergonha ser um escorraçado, vergonha é a dos que nos escorraçaram! Vergonha nossa seria deixar que a humilhação nos corrompesse! O que é necessário é lutar, colocando nossa humilhação, nosso ressentimento, a serviço da Verdade e da Justiça!' "Bonito, a verdade e a justiça!', disse Arésio com expressão de mofa. 'O que é que eu tenho a ver com a verdade e a justiça? Foi por me julgar um apaixonado pela justiça que você me mandou chamar?' "Foi!', repetiu Adalberto com a mesma expressão de fervor.

"O Bispo morreu, Dinis?', indagou Arésio, voltando-se para mim e aparentemente sem muita ligação com o rumo da conversa.

"Não!', respondi. `Pelo menos, não tinha morrido até quando vim para cá. Dizem que ficou muito mal, desacordado, com o rosto inchado e sangrando, porque parece que houve, inclusive, uma hemorragia interna, que ficou enchendo a garganta e o nariz dele de sangue. Mas conseguiram estancar!' "Está ouvindo, Adalberto?', perguntou Arésio. 'Eu quase mato um ancião indefeso! E é a um homem desses que você vem falar em verdade e justiça?' "E, sim!', insistiu Adalberto Coura. 'Eu sei que existem homens que, sendo interiormente mansos e bondosos, têm que se esquecer disso em nome da justiça e da violência revolucionária!' "'E indo, nesse caminho, até a crueldade?', perguntou ainda Mésio.

"'Sim, indo até a crueldade, porque a crueldade é necessária! O gesto que você praticou hoje contra o Bispo teve um sentido e, para mim, foi a prova definitiva de que você tem todas as qualidades indispensáveis a um revolucionário! Acho que os outros ficaram perplexos, mas eu entendi o que você quis dizer e mandei chamá-lo para lhe dizer: cheguei, também, à conclusão de que está na hora do rompimento e da violência! Por enquanto, não existem ainda entre nós as condições para a luta revolucionária organizada. Só depois que o Sul e o Recife se levantem é que poderemos nos levantar de vez. Mas temos que criar imediatamente o ambiente de ódios e ressentimentos que hão de favorecer a insurreição, e foi isso que sua agressão ao Bispo começou!' "Você se refere aos atos de terrorismo? O assassinato, inclusive?' "'Sim, por que não? Na Rússia, não foi assim que tudo começou? Uma certa tolerância, a paz dos charcos, é programa de todos os grupos que detêm o Poder. A Paz, em certos momentos, só serve para favorecer a Ordem constituída, o que, em nosso caso, significa a manutenção da injustiça e do Mal! Por isso, é preciso começar a matar. Aliás, as mortes já começaram entre nós, com o assassinato do Sacristão, o do Padre...' " ... E o do seu irmão também!', concluiu Arésio. 'Foi você quem matou os três, por acaso?' "'Não!', disse Adalberto, ficando ainda mais pálido. 'Mas fui eu que escrevi as cartas anônimas interpretando essas mortes em seu verdadeiro sentido! No nosso caso, os assassinatos estão moralmente justificados, porque já são um revide a tudo o que os poderosos têm feito contra o fracos! Além disso, do ponto de vista tático, os atos violentos despertarão reações ainda mais violentas, e se esse ambiente perdurar por uns três anos, já teremos ressentidos e vingadores em número suficiente para dar consistência iì Revolução. Vamos aproveitar a confusão da rua: você indo comigo, terei coragem de matar o Juiz, o Prefeito e o Padre!' "E o que é que virá depois?', indagou Arésio, curioso, a despeito de si mesmo e como se estivesse simplesmente a fazer uma análise do caráter que tinha diante de si.

"O que virá depois', disse Adalberto quase delirando, 'será o banho de sangue purificador, e a instauração do sol da Justiça para todos!' Ergueu-se da cama onde se mantivera meio deitado até aí e acrescentou: 'No nosso caso particular, o que virá é mais do que isso ainda, porque só depois desse banho de sangue é que começaremos, mesmo, a ser uma Nação! Uma Nação unificada o forte, capaz de enfrentar e derrotar a Besta Loura que vive sugando o nosso sangue!' "'Ah, já estava tardando essa expressão!', disse Arésio com ironia. 'Essa você me desculpe, Adalberto, mas foi diretamente bebida nas idéias e conversas dos Mestres de todos nós, dos dois Capões, Clemente e Samuel, nossos Mestres amados e nunca esquecidos!" - Os dois Capões? Foi assim que ele se referiu ao Promotor o ao Advogado? - estranhou o Corregedor.

- Foi, Excelência! - expliquei. - Era sempre assim que Arésio se referia aos nossos Mestres. Adalberto, como todos nós, tinha sofrido a influência deles, e era disso que Arésio agora escarnecia. Mas o ardoroso e doentio revolucionário não se desconcertou. Disse, com a mesma veemência: "'E que importância tem que minhas expressões venham da influência dos dois Capões, como você chama, se pelo menos nisso eles estão certos? É preciso somente ajustar e radicalizar o que eles vivem papagueando inconscientemente e inofensivamente para os Poderosos, para aqueles que é preciso esmagar! E você mesmo, Arésio, apesar de escarnecer assim dessa influência, já sustentou também tudo isso, ensinado e entusiasmado por eles!' "Sim!', disse Arésio, em tom evocativo. 'Era aí por 1924 ou 1925, quando começaram a chegar aqui uns livros nacionalistas, vindos de São Paulo! Samuel enchia nossas cabeças com eles, e eu e Dinis sonhávamos com a fundação da Falange Nacionalista Latino-Americana, ampliando nossos sonhos para o Continente inteiro, que nós queríamos ver unido num País só, o Ariel Ibérico sonhado pelo uruguaio Rodó e que nós queríamos levar ainda mais adiante dos seus sonhos! Lembra-se, Dinis? Tudo isso são velhas idéias! Eu ainda não me tinha posto inteiramente adulto o não sabia ainda, com a cabeça, o que queria, se bem que, na ação e com o sangue, eu já praticasse tudo o que desejava. Como era o nome daquele livro que Samuel lia para nós naquele tempo, Dinis?' "'Não sei, ele lia tantos! Seria o Sonho de Gigante, Arésio?', sugeri.

"'Sim, Sonho de Gigante, era isso! O "Gigante" era, naturalmente, o Brasil, País fatídico ao qual estava confiado o papel vertiginoso de organizador da União Latino-Americana! Dinis, coitado, sonhava tanto, que chegou a criar, na cabeça, o Partido político que iria realizar esse sonho. Era a Falange Nacionalista da América Latina - FANAL -, nome bem escolhido, porque dava idéia de farol luzindo nas trevas, dizia ele. Como, de fato, nessas coisas, ele se interessa, mesmo, é pelas insígnias, chegou até a imaginar, junto com o irmão pintor, uma camisa para o Partido, camisa azul com uma Onça de ouro, malhada de pingos negros e vermelhos, a Onça ou Leopardo ibérico com as malhas simbolizando o sangue dos Negros e Indios!' "'Isso cheira a Fascismo italiano, Integralismo português e Falange espanhola!', disse Adalberto. 'Além disso, tudo não passa de sonho!' "E é proibido sonhar?', protestei logo. 'Antes de ser uma Nação, o Brasil foi um sonho na cabeça de uma porção de gente. Assim, deixem-me sonhar, desde agora, com uma das maiores Nações do mundo, pegando do México à Patagônia! E quem sabe se daqui a muitos anos a Etiópia, a Angola, a Africa, a India, Portugal e a Espanha não vão querer se juntar a nós, realizando, do Mundo, o sonho da Rainha do Meio-Dia?' "'Sim!', confirmou Arésio. 'Nós, os Latino-Americanos, "católicos e cavalheirescos, amigos da pompa e da Arte, seduzidos por todas as belezas - desde a plástica sensual até as mais elevadas manifestações do ritmo moral", como dizia o livro, seríamos os legítimos herdeiros do espírito mediterrâneo. Por isso, seríamos o Povo indicado para se opor à sacrílega, subalterna e desumana Cruzada industrial dos Americanos, herdeiros da brutalidade fanática e puritana dos Nórdicos, do egoísmo e do apego ao dinheiro dos anglo-saxoes. Mas, como eu lhe dizia, tudo isso passou. Hoje, essa é uma idéia que pode seduzir o capão Samuel Wan d'Ernes, o capão Gustavo Moraes e o patrono de todos eles, o capão Joaquim Nabuco! Para mim, esses sonhos são insuficientes, não matam a sede do meu sangue! Sabe por quê, Adalberto? Porque a solução apresentada por esse pessoal todo é a solução do espírito, o que é o mesmo que dizer a solução dos castrados! O tal J. A. Nogueira chegava a dizer, se não me engano, que o Brasil terminaria ganhando a luta surda, já travada entre ele e os anglo-saxoes do Norte, porque a vitória final cabe sempre, não aos mais fortes, como Aquiles, porém sim aos mais cultos, aos mais espirituais e sagazes como Ulisses!' "Para mim, que sou um Decifrador, isso não está mal!', confessei.

"Pois eu concordo é com Arésio!', disse Adalberto, exaltandose cada vez mais. 'Eu, Arésio, talvez não passe de um fraco, de um espiritual e sagaz, como você diz. É por isso, exatamente, que preciso de você!' "Para que eu sirva de braço ao sopro do Espírito?', perguntou Arésio.

"'Exatamente! Você é corajoso e violento e, se se encaminhar no rumo certo, poderá colocar a violência de seu sangue a serviço da Justiça. E por isso que, se eu confesso que preciso de você, você precisa entender que precisa também de mim!' "'Para quê?', disse Arésio, rebelando-se um pouco.

"Para iluminar seu caminho com o fogo do espírito, porque isso eu tenho! Você, com as idéias do Doutor Samuel e do Professor Clemente, só viu a primeira metade da estrada, é preciso ver a segunda, Arésio! A primeira parte, consiste, realmente, em enxergar o inimigo, a Besta Loura Calibã que precisamos enfrentar e derrotar, aqui! Para isso, todos nós estamos de acordo em realizar a união da América Latina! Entretanto, mesmo entre nós que pensamos assim, existe, e deve se acentuar mais ainda, uma cisão, duas facções opostas, representadas, no século XIX brasileiro, por Joaquim Nabuco, de um lado, e Sylvio Romero, do outro, como o livro de J. A. Nogueira, aliás, explicava, mas tomando o partido errado, o de Nabuco! Para Joaquim Nabuco e seus seguidores, o Brasil é, e deve se esforçar por ser cada vez mais, um prolongamento da Península Ibérica. No fundo, todos esses são traidores da nossa luta, saudosos da Europa, exilados e desenraizados aqui! Nosso caminho deve ser outro. Temos que aprofundar e ampliar a picada aberta por Sylvio Romero e Euclydes da Cunha. Sim, Arésio, na luta que inevitavelmente se vai travar entre os Latinos e os Nórdicos, deveremos ficar, primeiro, fiéis a nossas raízes ibéricas. É o primeiro passo, com o qual estamos todos de acordo. Mas não devemos esquecer, também, que todos os Povos submetidos e explorados do mundo são Negros, qualquer que seja a sua cor. Daí, a solidariedade que deve haver entre nós, Latino-americanos, os Negros e os Asiáticos!' "'Olhe, Adalberto', disse Arésio, pondo-se sério de repente, 'não tenho nada a ver com sua vida, mas de uma coisa preciso adverti-lo. Ou melhor, de duas! A primeira, é que essa última parte de suas idéias vem do capão Clemente. Por isso, como acontece com todas as idéias de capão, está cheia de lugares-comuns o fórmulas. Para Clemente, que nisso tem uma viseira, tudo se passa de acordo com esquemas preestabelecidos. Um desses, é que o Povo brasileiro, descendente de Negros e Indios e pobre, terá sempre um inimigo na casta dos Senhores, esta representada sempre pelos proprietários de terra e pelos Soldados. Quem sabe se o caminho da América Latina não surpreenderá todo mundo? Uma das idiotices do capão Clemente é subestimar o papel das Forças Armadas e da Igreja, na América Latina. A outra advertência que tenho a lhe fazer é esta: cuidado com os Mestres e Senhores que ocupam a cúpula de seu Partido. Talvez eles não aprovem suas idéias, e podem entregar sua cabeça à Polícia com a maior sem-cerimônia! Você morrendo, representará, para eles, uma dupla vantagem: livram-se de um correligionário heterodoxo e perigoso, e criam um mártir para a luta!' "'Eu não tenho nem Mestres, nem Senhores, Arésio!', disse Adalberto. 'Na minha luta, não conto com ninguém! E com quem eu poderia contar? Mais ainda: com qúem nós poderíamos contar, nós, Latino-Americanos, Negros e Asiáticos? Com os Russos? Os Russos já desempenharam seu papel e não nos entenderão. Veja esse problema do qual eu falava há pouco: na Revolução, os Russos se aproveitaram de todas as cargas de ódios e ressentimentos surgidos pelos assassinatos, pelas bombas, pelas punhaladas, pelas execuções e fuzilamentos, e assim podem se dar hoje ao luxo de condenar o terrorismo. A mesma coisa eles farão no plano mais amplo, não reconhecendo, na luta travada pelos Povos negros do mundo, uma luta parecida com a deles em 1917! Quanto à minha cabeça, não me incomodo se a cortarem! Pode ser que, assim, minha família se torne ressentida e queira vingar a minha morte, nem que seja por espírito de vingança sertaneja. Aí, serão mais trinta ou quarenta ressentidos vivos em troca de um só morto, trinta ou quarenta ressentidos que serão trinta ou quarenta revolucionários em potencial!' "Está bem!', disse Arésio. 'Mas eu tenho, ainda, uma objeção a fazer a suas palavras. Você falou como se fosse um igual dos Negros e pobres do mundo. Mas você tem que reconhecer que, queira ou não queira, é branco e de família poderosa!' "'Eu sei, e você é igual a mim. Eu não teria fé nenhuma, nem em mim nem em você, se não tivesse ocorrido conosco o mesmo incidente - a expulsão realizada pela família, a velha história do Pai, do filho, do homem, do anjo e da espada à porta! Isso nos tornou proscritos, expulsos, escorraçados e ressentidos, aproximando-nos dos Negros e pobres do mundo pela humilhação. Olhe, Arésio: no Brasil, a situação é a mesma de toda a América Latina, porque, como dizia o livrinho de Nogueira, os Andes não separam duas culturas diversas e todos nós somos herdeiros da Península Ibérica. De modo que eu só penso em termos de América Latina, porque nosso caminho é o da união. Ora, acontece que, entre nós, os Conquistadores ibéricos dominaram os Povos negros o vermelhos, e foi sobre o extermínio ou sobre a escravatura que se fundaram esses arremedos de Nações que somos nós. Veja como o problema é grave: separadamente, nenhum de nós é ainda um País, e só unidos é que seremos, no Mundo, a Nação que temos o direito de ser. Mas vamos adiante: dentro de cada um dos nossos arremedos de Nação, qualquer que seja a cor de um Brasileiro ou Mexicano pobre, ele é um Negro, submetido e escravizado. Por mais estranho que lhe pareça, nosso destino peculiar de herdeiros dos Ibéricos só poderá se realizar na medida em que caminharmos na direção do Povo, isto é, dos Negros! Sim, porque os descendentes dos Conquistadores ibéricos que não fizerem isso, terminarão traindo. Subornados pela riqueza e pela tentação vulgar do conforto, fazem o jogo da Besta Loura e escravizam o Povo, vendendo a Nação em troca de uma pequena participação nos despojos, participação humilhantemente consentida por seus patrões da Besta Loura! O Brasil só será uma Nação quando reparar essa injustiça, acabando essa dualidade. Só assim, Arésio: acabando, pelo banho de sangue da pureza revolucionária, essa separação entre Brancos-Ricos e Negros-Pobres, e tornando-nos, todos nós, orgulhosamente Negros, Vermelhos e Brasileiros!' "'A Onça amarela, com malhas negras e vermelhas, a Onça Castanha de Quaderna!', disse Arésio sorrindo.

"`Vá lá, se você prefere chamar assim!', disse Adalberto erguendo os ombros.

"Olhe, Adalberto, não nego que tenha simpatia por você!', disse Arésio, pesando bem suas palavras, como se temesse mentir involuntariamente. `Acontece, porém, que, como eu disse, para mim, tudo isso são idéias mortas e passadas! Veja bem que não digo idéias erradas ou mortas para todo mundo. Mas são idéias mortas para mim, porque, há muito tempo, deixei de me interessar pelo que pode ser certo ou que pode ser errado. Acho que essa busca incessante para distinguir o certo e o errado é coisa do espírito e não do sangue. Mas, de qualquer modo, a título de informação para você, vou lhe dizer uma idéia que me h correu, a mim que tenho muito poucas. É que eu, nós, nada temos a ver com a sorte do Povo. A questão não é de justiça, não, é de Poder. Se o Povo puder conquistar o poder, conquiste. Por enquanto, só existem dois tipos de Governo: o dos opressores do Povo e o dos exploradores do Povo. O primeiro, é o dos Tiranos, o segundo é o dos Comerciantes. No primeiro tipo, o Povo é submetido e esmagado em nome da grandeza; no segundo é explorado em nome da Liberdade. Pois bem: ao contrário de vocês, que colocam suas opções em termos abstratos de Justiça, Verdade, Liberdade, etc., eu coloco as minhas num plano puramente pessoal e concreto, o plano do Poder. Não nego que, em outros tempos, eu tenha me deixado seduzir por esses problemas que os dois capões colocavam diante de nós, a respeito do Brasil, do Povo brasileiro, da União Latino-Americana, da Cultura Ibérica e de todas 'essas palavras sonoras que eles são mestres em inventar! Mas mesmo quando eu fazia isso, era por um motivo puramente pessoal: era por ter nascido aqui, por ser também, como diz você, um Ibérico transplantado, um meio-negro, de modo que, de certa forma, esse era o caminho para que eu, inconscientemente, aumentasse meu valor e poder pessoal de homem! Por isso, interessava-me indiretamente a grandeza da América Latina, para que eu mesmo também crescesse, porque sou também um de vocês, com tudo o que isso implica de qualidades e defeitos, e orgulhando-me tanto das qualidades quanto dos defeitos!' "'Sim!', concordou Adalberto. `E eu me lembro de um dia em que você teve, comigo, uma conversa importantíssima, e me disse algumas palavras que, para mim, foram o começo de tudo! Eu era quase um menino, e estava muito orgulhoso de você conversar comigo daquela maneira. Depois, quando você já tinha ido embora, eu não conseguia dormir. Peguei um caderno, e reproduzi o que você tinha me dito. Guardo sempre comigo a cópia dessas palavras, Arésio, e vou repeti-las para você. Eu copiei tudo à noite, depressa, com o pensamento correndo adiante da mão, pois estava com medo de me esquecer de alguma coisa mais importante. Posso ter cometido algum engano quanto às palavras, mas o pensamento, a essência do que você disse, creio que está aí, inteiramente fiel. E mesmo as palavras, acredito que sejam as suas. Eu ouvia você com tal fervor, que acho muito difícil ter me esquecido de alguma coisa. Em todo caso, ouça e seja você mesmo o juiz!', concluiu ele, tirando um papel do bolso e lendo as seguintes palavras, das quais lhe pedi cópia e que anexo, agora, ao inquérito, porque é uma peça importante para esclarecimento do caso: ""'Ah, esses negociantes e usurários do mundo! Querem nos moldar à imagem deles, a nós, Povos morenos dos países quentes, nós, os ardentes, os que ainda temos a capacidade de ser felizes, de fruir a vida, num mundo em que isso vai ficando cada vez mais raro! Eu gostaria que eles nos deixassem fruir da nossa Vida, que eles consideram suja, e enfrentar a nossa Morte, que consideram irracional! Ficassem para lá, com sua riqueza amontoada por séculos de trabalho estúpido e tenaz, com seu poderio acumulado em máquinas e dinheiro, com seus ideais puritanos de higiene e virtude! Mas não! Eles precisam nos vender seus produtos, para acumular mais dinheiro! Então, procuram nos corromper para nos dominar, sob o pretexto de que somos uns adolescentes bárbaros, encantadores mas irresponsáveis, que é preciso conter e domar com rédea curta, senão atrapalham e sujam a ordem do Mundo! A prova que apresentam disso é que nós, principalmente os do Povo, os mais pobres, os que mais deviam pensar no dia de amanhã, somos incapazes de amealhar. Deixamo-nos comer, de bom grado, pela fome e pelas doenças, contanto que possamos cantar e dançar imprevidentemente sob o Sol violento das nossas terras quentes e iluminadas. Então, a pretexto de salvar-nos dessa vida de ignomínia e dessa morte desonrosa, vêm nos corromper e nos roubar. Vendem-nos, ao mesmo tempo, os produtos para a nossa higiene e os ideais de um mundo organizado à base da poupança burguesa, da mealha, do trabalho duro, desumano e organizado. Mas tudo o que eles possuem e querem nos passar são os frutos apodrecidos da impotência para o prazer, para a alegria, para a felicidade animal e selvagem. Esses Povos de comerciantes, os mais tristes do mundo, nascidos e criados entre o frio, o escuro o a severa infelicidade dos ideais puritanos, querem impingir suas receitas de vida a nós, Povos morenos, criados ao Sol! Como é que poderão, nunca, nos entender? Esse Negro que se veste de Rei no Auto dos Guerreiros sabe que gastou quase tudo o que possuía para comprar o Manto e a Coroa, mas acha que a alegria de vesti-lo é compensação muito maior do que o preço pago. Aquele Caboclo, cassaco da cana-de-açúcar, sabe que o rio, contaminado, está cheio de doenças mortais que vão inchá-lo por fora o comer suas entranhas por dentro, entupindo seu coração de depósitos calcários de bichos estranhos ao sangue humano. Ele sabe de tudo isso, porque, todo dia, vé seus companheiros inchando e morrendo assim. Mas acha que, na sua vida miserável o sem perspectivas, primeiro só acha o que comer entrando no rio; e depois sabe que tem poucas alegrias iguais ao puro e selvagem prazer do banho de rio ao meio-dia, estando ele cansado o suado do calor do Sol. Aquele outro, que é Sertanejo, sabe que será morto, se escolher a vida livre das Catingas, as correrias do Cangaço. Mas sabe, também, que, enfrentando essa vida incerta o essa morte certa, terá direito ao que nunca teve: uma vida sem dono, uma vida de Senhor e sem trabalho escravo. Por isso nao se importa de viver perseguido como um cachorro mordido. Sabe que esse é o preço que terá de pagar para poder possuir mulheres com as quais, antes, não poderia nem sonhar, as filhas da gente poderosa, lindas e orgulhosas, que passeavam os olhos por ele sem nem ao menos o avistarem, como se ele não existisse, e que agora o vêem, com espanto, terror e perturbação, vestido com sua Armadura de couro e com as insígnias de prata de sua realeza, aparecendo diante delas não mais como um ser ignorado e desprezado, mas como o temeroso Senhor da sua honra e de seu destino, o Emissário de uma vida cruel, selvagem, errante e guerreira, fascinadora e terrificante. Todos esses são homens de Raça fidalga, degredados e degradados numa vida de ignominia, inferior a eles. Quem teria o direito de acusá-los e incriminá-los, se se revoltam o procuram uma outra vida, mais de acordo com os impulsos e a raça do seu sangue? Quem teria o direito de reprovar a escolha que eles fazem, condenando-os em nome dos ideais desses Povos tristes e duros de Burgueses dominicais, apavorados pelos Pastores, pela opinião, pela filantropia das sociedades protetoras de animais o pela higiene? Como é que esses paroquianos podem entender a selvagem alegria de uma briga de touros ou de galos, com o prazer e o encanto da luta, das apostas, do jogo, da festa, da sagração da vida inocente e cruel? Eles jamais entenderão que a morte cruel de um touro ou de um galo vale a alegria de um punhado de homens; não aceitam isso porque prezam mais suas regras e fórmulas filantrópicas do que a alegria dos homens. Nós não precisaremos nunca de inventar uma imagem falsa da Vida para poder amá-la. Porque, na dureza e sob o Sol, nós aprendemos à força a amá-la, com o que ela tem de ardente e glorioso, mas também com o que possui de degradado, sangrento e sujo. O que é cruel e sujo também faz parte da vida, e terá que ser enfrentado com as armas do sangue, do riso, e da luta, com a valente tenacidade do homem diante do que a Vida tem de mais desordenado - o sofrimento, a humilhação e a Morte"." - Quando Adalberto terminou de ler essas palavras, Senhor Corregedor, Arésio falou com uma estranha e inesperada entonação de melancolia na voz: "Sim', disse ele, `era assim que eu falava naquele tempo!' "Eu não lhe disse?', falou Adalberto. `Lembro-me de tudo! Eu escutei atentamente! No outro dia, viajei para o Recife, e foi a partir dessas palavras suas e da minha viagem que se iniciou aquilo que você, há pouco, antes de Quaderna chegar, chamou ironicamente de minha instrução revolucionária. Agora, eu lhe pergunto: você acreditava, mesmo, em tudo aquilo que me disse?' "`Acreditava sim, Adalberto! E acredite que, se falei com alguma ironia quando me referi à sua instrução revolucionária, a ironia foi mais dirigida contra mim do que contra você!' "Então, por que é que se recusa a iniciar sua instrução revolucionária, assim como a apoiar e ajudar a minha?' "Creio que a explicação disso está nas minhas palavras, que você guardou e repetiu tão bem. Você, seduzido por uma parte, parece que deixou de prestar atenção à outra. Acho que você não anotou isso af, devidamente, porque, sem querer, guardou mais o que correspondia a seus sonhos e seus desejos. Creio que seus amigos, mestres e companheiros do Recife não aceitam, de modo nenhum, minhas idéias. Não falo nem dessas de hoje, mas das daquele tempo, mesmo! Todos eles pensam por esquemas, e como as minhas idéias não cabem nos esquemas preestabelecidos por eles, nem sequer as examinam. Por exemplo: seus amigos são incapazes de ver que o Exército e a Igreja são, na América Latina, os únicos Partidos organizados, disciplinados e verdadeiramente existentes. São incapazes de ver que a hostilidade com que eles tratam esse dois Partidos é uma estupidez, que só favorece os nossos inimigos de fora. Sim, porque enquanto nós nos dilaceramos aqui em divisões estéreis, eles vão entrando, corrompendo, furtando e se apossando à vontade de tudo o que desejam. A união da América Latina tem que se fazer através dos nossos Exércitos, e para isso, temos que forjar um pensamento novo, uma nova Teoria do Poder, original, resultante das nossas qualidades e defeitos, das nossas peculiaridades e singularidades. Mas vocês ficam papagueando as idéias feitas que nos vêm de fora. O liberalismo é uma delas. Vocês não vêem que o liberalismo só interessa, aqui, aos que querem nos roubar? É por isso que, lá fora, de vez em quando, começam a sair ataques contra o que os galegos chamam o caudilhismo latino-americano, o militarismo latino-americano, os golpes latino-americanos, as ditaduras militares latino-americanas. Os galegos sabem, muito bem, que se aparecer um verdadeiro Soldado, que reúna as qualidades do Caudilho e do Rei, nós levantaremos a cabeça. O Brasil primeiro, porque é maior; depois toda a América Latina, que formará um País de duzentos milhões de habitantes. É isso o que eles não querem, e vem daí toda a propaganda que fazem para nos impingir, de cima e por fora, o regime da Inglaterra vitoriana ou dos Estados Unidos puritanos, cruéis e avarentos. Pronto, já falei demais: af está uma idéia de capão, que ofereço a você e a Dinis, para se aproveitarem dela como quiserem. Mas tenho que lhe lembrar, ainda, algumas coisas que eu dizia, mesmo naqueles meus tempos de entusiasmo. Não sei se você se lembra, mas eu dizia, também, que não poderia nunca aceitar a igualdade como ideal, porque, sendo também filho desse sangue LatinoAmericano, do sangue que dá os Cangaceiros, profetas e Caudilhos, eu sei que cada um de nós tem de realizar a seu modo a glória ardente da sua Vida, e enfrentar, também a seu modo, a sujeira e o sangue da Morte, ambas diante do Sol. Sim, porque diante dessas coisas, a Vida e a Morte, cada um tem de se atar sozinho, pois ficamos sempre inteiramente sós diante delas!' "`Sim!', insistiu Adalberto, como se teimasse em só ouvir uma parte das palavras de Arésio. `Sim, eu sei! É preciso corrigir e ajustar o que existe ainda de desviado em seu pensamento, porque você dá alguns erros graves de interpretação. Há pouco, por exemplo, você disse que só existiram até hoje, no mundo, dois tipos de Governo, o dos comerciantes que exploram o Povo, e o dos tiranos que oprimem o Povo. Dou certa razão a você. Quanto ao Governo dos comerciantes, estou inteiramente de acordo. Acho, mesmo, que uma das tarefas do pensamento Latino-Americano é desmascarar as imposturas da Democracia liberal-burguesa, o regime dos comerciantes, como você chama. Aliás, nós temos tudo para isso, porque nossa tradição política não é essa, da Democracia burguesa. Entenda bem o que estou dizendo, para não torcer meu pensamento depois, Quaderna! Eu pessoalmente, talvez pelo fato de termos sido súditos de Filipe II, tenho mais simpatia por aquela Autocracia total que, no século XVI, determinava até o modo de vestir dos vassalos, do que pela impostura da Democracia dos comerciantes ingleses, que nos foi imposta artificialmente, por ideais superpostos, que não correspondem à nossa vida e à nossa formação. No século XVI, Arésio, a opção era entre a Autocracia coroada e meio teocrática de Filipe II e a República de comerciantes, da Holanda ou da Inglaterra. Hoje em dià, os Estados Unidos são uma espécie de Holanda em ponto grande - um Povo de comerciantes farisaicos e puritanos - organizado na mais poderosa das imposturas que já se fizeram em torno do Bezerro de Ouro!' "E qual será, hoje, a Autocracia total e meio-teocrática que se opõe aos Estados Unidos? A Rússia?', indagou Arésio, novamente irônico.

"'Sim, é a Rússia, por que não?', retrucou Adalberto, com o mesmo fervor de antes. `É a Rússia, com tudo o que o Comunismo tem de teocrático e de apocalíptico, de inquisitorial e escatológico, o que digo, não de modo pejorativo, e sim como LatinoAmericano e herdeiro da tradição autocrática de Filipe II! Mas o que eu ia dizer, mesmo, era que você esqueceu, nas suas palavras, de fazer uma distinção importante: existem, de fato, somente dois tipos de governo, o dos que exploram e o dos que oprimem o Povo. Mas, entre os que oprimem, existem, também, dois tipos: os que oprimem em nome da grandeza, como Filipe II, e os que oprimem para realizar a justiça, como Lénin!' "'E qual é a diferença, para o Povo que é oprimido?', indagou Arésio, meio impaciente.

"'A diferença é que os que oprimem em nome da justiça esperam instaurar a felicidade para todos!', disse Adalberto no mesmo tom de fervor doentio.

"'Ah, a felicidade!', disse Arésio, com desprezo. `Esse é um ideal mesquinho, no plano individual, e um sonho de capões quando passa para o coletivo!' "`Um ideal mesquinho?', disse Adalberto, admirado. `Não, é o ideal de todos! Todo mundo procura a felicidade, a tranqüilidade, a alegria e a paz!' Todo mundo?', insistiu Arésio. `Todo mundo, não! Das pessoas que estão aqui, quantas procuram a felicidade? Você, procura o sofrimento e um castigo, que, não sei por quê, deseja, desde que o conheci!' "`Isto são frases!', rebateu Adalberto. `E mesmo que fosse verdade a meu respeito, Quaderna é alegre e procura a felicidade! Talvez até já tenha achado a tranqüilidade, a paz e a alegria, se bem que eu não concorde com os métodos que ele empregou para isso!' "A verdadeira alegria, Adalberto, a alegria ardorosa e pura que nós somente pressentimos, é impossível para o homem, assim como a paz e a felicidade são os ideais mesquinhos dos frívolos, covardes e superficiais. Isso, no plano individual, como eu dizia. Se você pensa em todos os homens, esse ideal mesquinho de felicidade e paz se amplia, em tamanho e estupidez, no ideal da justiça. O mais que o homem verdadeiro procura, em seu conflito com o mundo, é colocar uma precária ordem em sua vida e um certo estilo em sua melancolia, em seu destino, que é, por natureza, despedaçado, triste, falhado, enigmático e trágico. Para isso, o homem tem duas fontes, duas raízes de defesa - o choro e o riso. Mas o choro e o riso verdadeiros, aqueles fincados profundamente o cujo ritmo se alimenta de sangue e de subterrâneo. Dinis Quaderna não é alegre, Adalberto. Quem passou o que ele passou e viu o que ele viu, não pode ser alegre. Os subterrâneos do sangue dele são como os meus, povoados de mortos sangrentos que flutuam no rio da desordem. Apenas, enquanto eu resolvo meu conflito pelo choro e pelo suor do sangue e da violência, ele resolve o seu pelo riso; mas eu não sei qual o mais despedaçado, se o meu sangue ou se o riso dele!' "Pois reajam!', gritou Adalberto. `Reajam e lutem, porque, como eu estava dizendo, existem os que oprimem de início, sonhando com uma justiça mais alta, com uma sociedade nova, com uma vida em que ninguém, principalmente os pobres que estão sós, tenha que enfrentar mais, sozinho, a sujeira e a desordem da vida! É por isso que eu acredito na América Latina! Quando nós não nos envergonharmos mais da nossa tendência para o caudilhismo, a guerrilha e o cangaço, quando nós provarmos que a nossa vocação autocrática pode ser orientada e inclinada para a organização de um verdadeiro Estado, aí sim, teremos todas as qualidades do nosso Povo retificadas e unificadas pela verdade. Ficará claro que só num verdadeiro Estado, organizado à base da verdade e da justiça, é que o homem pode realizar sua inclinação natural para o bem, a mansidão, a fraternidade, a generosidade, o tudo mais que nos afasta da animalidade, do egoísmo e da crueldade. Suas idéias, Arésio, deixarão de ser uma faca de dois gumes, e os mansos e misericordiosos não terão mais que se dilacerar na violência justa e na crueldade necessária, porque, pela primeira vez na História, a justiça e a misericórdia estarão reunidas o unificadas numa coisa só!' "E um belo sonho!', disse Arésio. `Infelizmente, nosso tempo não permite mais esses sonhos! O nosso tempo estala, Adalberto, é um tempo trágico!' "O mais trágico, nele, Arésio, não é que o vício e a maldade tenham aumentado, como dizem os superficiais, que acham, sempre, que, no tempo passado, no tempo deles, tudo ia melhor. O pior, agora, é que a ordem e as virtudes antigas não são mais suficientes. É por isso que, entre outras coisas, a noção de liberdade e de justiça das democracias liberais perderam a força de ação e reivindicação que possuíam no século XVIII. A tal ponto, que, hoje, essas noções não entusiasmam mais ninguém, a não ser os membros das Academias e dos clubes filantrópicos de comerciantes. Hoje, todos nós estamos exigindo, pedidas por nosso sangue e formuladas por nosso pensamento, uma liberdade mais violenta e uma justiça implacável, para que o homem abra seu caminho em direção àquilo que os religiosos chamam o Divino e que nós chamamos o mais elevado e o mais nobre do humano!' "`Meu caro Adalberto', disse Arésio, `você é, e será sempre, um professor! Abra o olho, senão termina ficando como os dois capões! Isso é, aliás, a mesma coisa que eu vivo dizendo aqui ao nosso Dom Pedro Dinis Quaderna! Mas Quaderna, sendo meu primo, tem um pouco do meu sangue e é, pelo menos, um Poeta a cavalo, como diz o Padrinho dele, João Melchíades. Quaderna caça, anda e corre a cavalo pelas estradas, enquanto você fica aqui, trancado entre essas quatro paredes, pensando, sonhando e falando só! Cuidado com o mofo e as teias de aranha!' "Eu sei que estou correndo esse perigo, Arésio!', concordou Adalberto. `Foi por isso, aliás, que mandei chamá-lo aqui: tenho confiança em você, assim como, de certa forma, também ainda espero alguma coisa de Quaderna! Mas como é que poderemos agir indiscriminadamente, agir sem pensar? E como pensar sem nos isolarmos entre quatro paredes? É ainda a injustiça, a desordem do mundo em que nasci, que está me tornando um monstro mental e moral, como transforma em monstros físicos os barrigudos, inchados de vermes e amarelos de fome, que você viu na Zona da Mata e dos quais falávamos há pouco! Pois bem: aceito sua crítica a respeito do meu mofo e recebo de bom grado as suas ironias, contanto que você me ouça também, refletindo e pesando suas decisões. Talvez você até vá sentir desprezo pelo que vou lhe dizer agora, mas vou ainda mais longe nas minhas confissões. Você estava falando há pouco, em tom de zombaria, do livro de J. A. Nogueira. Pois olhe, está aqui: eu também fiz essa coisa ridícula, escrevi um livro, que mandei imprimir por minha conta, em Campina, e que contém o fruto dos meus pensamentos. Ou, se você preferir, que contém as teias de aranha e o mofo dos sonhos que sonhei durante os cinco anos em que estive ausente daqui. Você terá paciência de ouvir o resumo do que escrevi?' "Claro, estou até curioso, dependendo do assunto. E você, Dinis?' "Eu concordei que também queria ouvir, Senhor Corregedor.'

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