"Então Adalberto Coura tirou de sob o colchão da cama uma pequena brochura suja, com o título de Pensamentos sobre o Estado. O livro tinha algumas indicações que fizeram Arésio sorrir, porque indicavam a extrema juventude em que ainda se achava o autor. Em primeiro lugar, na capa, anunciava-se logo que aquela era a primeira edição, indicando-se, assim, que o autor esperava tal demanda do público que logo se seguiria outra. Depois, na folha de rosto do livro, via-se escrito `Coleção Livros Eternos - 1.0 Volume'. Em terceiro lugar, a brochura era enfaticamente dedicada 'à figura indelével de meu tio, Josué Coura, vagabundo, escorraçado e revoltado nas estradas do Sertão'. Ora, Senhor Corregedor, o tio de Adalberto, Josué, filho de uma das nossas melhores e mais importantes famílias, era um excêntrico, meio doido, atacado da mania religiosa das peregrinações, um homem que vivia esmolambado e solitário, errando de estrada em estrada, ninguém sabe à procura ou à espera de quê. Finalmente, o livro tinha uma introdução, tão breve e minúscula quanto ele, mas não menos enfática, e que dizia textualmente: `Este livro está dividido em três partes. Das duas primeiras - ou seja, das partes sobre a Vida e sobre a Verdade - decorre a última, a parte sobre o Estado, a mais importante de todas, principalmente por anunciar a realização, no mundo, do verdadeiro Estado, num futuro de cuja chegada as atuais experiencias e êxitos do Socialismo são os primeiros arautos. E embora os pensamentos nele contidos não expressem com fidelidade o alto esforço mental que exigiram do autor, o leitor perceberá que eles encerram a mais elevada Filosofia'. Quando Adalberto Coura leu isso para nós, Arésio não pôde deixar de sorrir. A conversa se encarniçou então, em torno dos setenta e dois aforismos que o livrinho continha, e que, elaborados pelo 'alto esforço mental do autor', revelavam, segundo sua própria opinião, 'a mais elevada Filosofia', rival, portanto, da 'Filosofia do Penetrai', de Clemente. Aliás, os aforismos mostravam uma mistura daquelas idéias que Adalberto, muito moço aindá, ouvira de Clemente, de Samuel e do próprio Arésio, ou que bebera depois, em leituras desordenadas, feitas na nossa Biblioteca, em Campina Grande e no Recife. O ponto de partida do novo rumo tomado pela discussão, foi o título dado por Adalberto Coura as três partes do livrinho, principalmente as duas primeiras, que versavam sobre a vida e sobre a verdade. Arésio, agora com mais energia, voltava a afirmar o direito à disputa e à violência. Dizia que todas essas afirmações a respeito da bondade e da justiça eram hipocrisias e disfarces para a fraqueza. O homem era, naturalmente, cruel e ávido, e a vontade de poder era a verdadeira mola de todos os nossos atos. Adalberto, fervorosamente, concordou com ele: "'Mas eu estou de acordo com você, Arésio. A vontade de poder é a lei da vida, que é a luta para satisfazer suas necessidades o impulsos naturais! Agora, o que acontece é que o Estado deve existir, cada vez mais sólido e forte, exatamente para que todos os homens possam satisfazer, com perfeição e em segurança, suas necessidades e sua vontade de poder!' "`Pois abra o olho com seus Mestres e patrões, aviso novamente, porque essa é uma parte de seu pensamento que não será tolerada nos esquemas deles!' "Isso não e comigo! Não tenho culpa de que eles não tenham inteligência ágil para entender que nós, Latino-Americanos, não podemos pensar como os filósofos alemães do século XIX! É preciso reconhecer que nossos adversários têm razão em certas coisas. Toda alegria e toda felicidade provém da consciência de algum poder. No atual estado de coisas, é impossível uma felicidade atingir todos os indivíduos, porque o poder alcançado por um o que produz sua felicidade e sempre o poder perdido por outro. Nossos adversários viram isso, mas tomaram o caminho errado, ficando do lado da desordem. E preciso mostrar que o diagnóstico está correto, mas que o único remédio é a instauração do verdadeiro Estado, ou Estado do Futuro, onde o interesse de um será o de todos.' "E a verdade?', disse Arésio.
"Ah, a pergunta de Pilatos!', disse Adalberto sem sorrir. 'Chama-se verdade, Arésio, uma afirmação com a qual mais de um homem concorda. Quanto maior o número desses homens, maior a importância dessa verdade. O resto, é confusão e sonho dos idealistas! Assim como não existe Verdade em si, também não existe falsidade em si. Uma falsidade é somente e sempre um choque de verdades. Daí eu dizer, no meu livro, que quanto mais verdades sociais e menos verdades individuais existirem, mais haverá progresso, compreensão e felicidade entre os homens.' "'Mas então, as afirmações do seu livrinho, sendo puramente individuais, estão sujeitas a todas as contestações!', ponderou Arésio.
"'Al é que você se engana, Arésio. As afirmações do meu livro - entre as quais a mais importante talvez seja essa da verdade como coisa estabelecida socialmente pela maioria - são incontestáveis, porque o testemunho de todos os homens comprova que, no tempo da selvageria, havia um número de verdades infinitamente inferior ao de agora, com a Civilização e o seu desenvolvimento. E isso era de esperar: porque é a organização econômica total e absoluta que produz a organização das verdades parciais num todo indiscutível. Será da organização e da semelhança de todas as verdades num todo comum que decorrerá a paz entre todos. Essa, aliás, é a razão do sucesso sem precedentes que o Socialismo, todo baseado no fundo econômico, vem tendo na Rússia, por mais que você zombe dela!' "`Não, eu não zombei coisa nenhuma! Estou somente verificando que sua Autocracia, sua Teocracia é bem mais violenta e unificada do que a de Filipe II, que inclusive não teve êxito! Agora, eu lhe pergunto, não por mim, mas por causa, aqui, do nosso Quaderna: e Deus? O que é que sua Teocracia vai fazer sem essa idéia central de todas as Teocracias?' "'Como tudo mais, Arésio, a existencia de Deus é relativa. Na América Latina, eu não posso deixar de examinar esse problema. Deus existe por enquanto, porque os homens Latino-Americanos, que são aqueles com os quais terei que lidar, fazem perguntas a esse respeito. Mas, de fato, são os grandes Estados que instituem as grandes verdades; só um Estado total pode nos tirar do beco sem saída das verdades particulares, cujo choque produz a desordem atual. Sim, porque se verdade é a afirmação feita por um conjunto de homens, o Estado é um conjunto organizado de verdades. Da vida, surge a verdade, e de ambas surge o Estado!' " 'Mas Adalberto, parece até que você sonha com um mundo em que todo mundo agisse e pensasse da mesma maneira!' "Sim, e por que não haveria de sonhar com isso, se as diferenças até hoje só causaram sofrimento e desordem? Aliás, todo mundo sonha com isso, mas não tem coragem de confessar! Eu tenho essa coragem! No verdadeiro Estado, não haverá nenhum enigma, nenhum mistério, e todas as perguntas filosóficas terão respostas, absolutamente idênticas por parte de todos os indivíduos. Ah, Arésio, não acredito que você não sonhe com isso, imaginando quanto será boa a vida num verdadeiro Estado, onde não exista a mais leve sombra de desordem, de oposições e choques. E vou mais longe ainda: digo-lhe que, no futuro, a concepção do Estado deverá substituir a concepção do Universo.' "E como você espera instaurar essa ordem perfeita do verdadeiro Estado? Através da violência e da desordem da Revolução?' "Sim, pelo menos no começo! A construção do verdadeiro Estado terá que ser feita pela Revolução, mas sua continuação e solidificação será tarefa da Educação, de uma Educação total. Esta será tão perfeita, que cada pessoa de uma determinada idade pensará absolutamente do mesmo modo que outra de idade semelhante.' "E os choques de geração?' "`Não ocorrerá nada disso, porque cada faixa de idade será aproveitada em setores de trabalho independente.' "E os sonhos e pensamentos extravagantes de cada indivíduo?' "Também não haverá nada disso. Todos os pensamentos de todos os indivíduos girarão em torno das coisas e interesses do Estado, uma vez que, fora disso, nada será verdadeiro. Queira você ou não queira, Arésio, o mundo marcha para o Socialismo em grau cada vez mais elevado. Vai chegar o dia em que, de uma forma ou de outra, a organização total do Estado triunfará, o próprio Capitalismo marchando também para isso. Haverá então leis para o pensamento, para as ações, para os sentimentos, para as alegrias, para os julgamentos, para as individualidades e até para as surpresas. Você está fazendo cara feia, mas foi porque eu falei em leis. Talvez você veja que eu não estou divagando, se eu substituir a palavra e disser que haverá uma conduta estabelecida e determinada para cada situação. Não é esse o sonho do homem, há tanto tempo? Por que é que existem os ritos religiosos e sociais, se não para organizar um pouco a desordem da vida? Quando morre um parente nosso, todo mundo nos dá pêsames, para ter alguma coisa a dizer. Assim acontece em tudo, e a melhor sociedade 'será aquela que não deixar nada ao acaso e à invenção individual. É inegável, portanto, que o progresso da Humanidade está na transposição das pequenas para as grandes Verdades, das verdades e interesses dos grupos para os do Estado. É por isso que eu digo, sempre, que o nome de Humanidade é dado a alguma coisa que ainda não existe. O primeiro momento de existência real da Humanidade surgirá somente quando aparecer a primeira verdade que não receba contestação de nenhum homem. Daí em diante, a verdade irá se estendendo e tudo terminará sendo integralmente aceito por todos, pois tudo o que existir será unanimemente reconhecido como sendo uma única coisa, já que o pensamento de um será o pensamento de todos, será o pensamento do Estado.'" Terminando de contar essa parte da história ao Corregedor - o que fiz valendo-me do exemplar da brochura de Adalberto Coura que tinha guardado comigo - passei-lhe esta, que ele mandou anexar aos autos do inquérito, e então comentei: - Naquele dia, Senhor Corregedor, já no escuro da noite, Adalberto disse e leu essas coisas tremendas para nós. Quando repetiu a última frase, estava, segundo disse Arésio, com uma expressão sonhosa e exaltada, no rosto pálido e magro de jovem Profeta, recém-saído da adolescência e ainda mal habituado ao desconforto em que tinha sido jogado depois que fora expulso de casa, exatamente por causa daquelas idéias que acabara de nos expor. Quando ele acabou, Arésio fez esse comentário a que acabo de me referir e então falou: "`Muito bem, meu caro Adalberto, ouvi e entendi tudo. Se não simpatizasse com você, diria três ou quatro palavras conven cionais e ficaria por aí. Como simpatizo, digo-lhe que tudo isso são lugares-comuns, é a linguagem comum do rebanho em que você anda metido. Mas isso não vem ao caso. O que me interessa, agora, é satisfazer uma curiosidade, talvez para você inesperada. É que me interessa, demais, saber a opinião que Quaderna tem de tudo isso. Você também acha que tudo isso é lugar-comum, Dinis?' "`Acho não, Arésio!', disse eu com sinceridade. `Não sei se é porque sou menos lido e menos bem-informado do que vocês, mas confesso que, pelo contrário, estou é assombrado com tanta coisa nova. Nunca pensei que essas coisas fossem nem sequer pensadas!' "`Está vendo, Adalberto? Anime-se, porque o proselitismo ainda é possível e você pode conseguir adeptos. Mas ainda quero saber uma coisa, Dinis: já que você se impressionou tanto, me diga, por favor, qual foi o pensamento, que deixou você mais espantado nisso tudo.' ""O pensamento? Mas o pensamento de quê? Você se refere ao que Adalberto disse ou ao que ele leu no livrinho?' ""A tudo.' "`Bem, de tudo, entre o que ele disse e o que nos mostrou no livrinho, o que mais me impressionou foram certas partes parecidas com as profecias do meu santo Peregrino, Santo Antônio Conselheiro de Canudos. Por exemplo: gostei muito de uma frase que está escrita no livrinho e que diz: "É impossível existir um mundo sem vida ou a vida sem mundo". Essa frase foi a que mais me impressionou. Primeiro, porque parece com aquelas do Conselheiro: "Em 1897 haverá muitos chapéus e poucas cabeças", etc. E depois, a frase me causou uma impressão danada porque eu não entendi patavina, dela!' "`Isso, gostei de ver!', disse Arésio, rindo. `Pois a mim, Adalberto, o que me impressionou mais, em tudo, foi o absolutismo de seu pensamento. Você ficou ainda mais simpático, para mim, pelo fato de se parecer mais com os Profetas que anunciaram a Revolução do que com os razoáveis de hoje, que jamais aceitariam seu sonho do verdadeiro Estado, do Estado total!' "`Quer dizer que você aceita o fundamental do meu pensamento?', perguntou Adalberto soerguendo-se de novo e com tal expressão de ansiedade que se fez um silêncio meio embaraçoso no quarto, depois que ele se calou. Arésio, porém, foi duro: "`Não, não aceito!', disse ele, com firmeza. 'Eu disse que admirava seu absolutismo, mas não que concordava com seu verdadeiro Estado.' ""E por que não concorda? Você não acha que só assim é que poderemos sonhar com a Verdade absoluta, a Justiça absoluta?' ""E quem disse a você que eu sonho com a Justiça, Adalberto? Olhe, não quero enganar você, de modo que vou lhe dizer o que resolvi, de uma vez por todas, a esse respeito. Como aconteceu com todos nós, aqui, um dia eu me vi diante dessas idéias de verdade e justiça, idéias que os dois capões não cessavam de discutir e que o Padre Renato também agitava de vez em quando, nos aecmões dele. Sim, porque, no fundo, todos eles são, entre si, mais parecidos uns com os outros do que julgam. Eles podem discordar pobre o modo de realizar a Justiça, mas estão de acordo em que a Justiça e o bem devem ser procurados e realizados. No fundo, Ho todos uns capões e hipócritas, essa é que é a verdade! Eu tenho sangue forte, Adalberto, e por isso tenho horror à hipocrisia. IA um dia, comecei a me rebelar contra todas essas teias de aranha, que se erguiam como obstáculos à satisfação dos impulsos do meu.sangue. Tive a coragem de fazer uma pergunta: Por que seria eu obrigado a procurar ser bom? Por que seria eu forçado a contrariar meu sangue, impedindo-me de ser cruel, de desejar o Poder, de exercitar minha violência, de desejar e possuir todas as mulheres que desejasse e que tivesse à minha disposição? Eu tenho ódio a esses hipócritas que se dizem partidários do bem e da justiça, da verdade e da bondade, e no entanto se envilecem no conforto, envilecendo também os filhos, que se habituam a adotar a humildade por covardia, a bondade por fraqueza, e o amor à pobreza por incapacidade de assaltar o Poder e o dinheiro! Não, Adalberto, nessa ordem de coisas, ou se é um santo ou um impostor. Eu tenho ódio à impostura e, por outro lado, meu sangue não permite que eu seja um santo - o que também confesso que não quero! Foi por isso que resolvi abandonar de vez todas essas idéias de justiça, verdade, bondade e bem, sendp pelo menos sincero com meus impulsos de maldade, desejo e violência.' "`Quer dizer que não posso contar com você?', indagou Adalberto, com a mesma ansiedade.
"Não, você não pode contar comigo para seus sonhos de justiça, revolucionária ou não! O que eu fiz com o Bispo, hoje, não foi, como você parece ter pensado, nenhum atentado terrorista, nenhum ato revolucionário, nenhum ato de reparação das injustiças feitas pelos ricos e poderosos com o Povo! Foi um ato inteiramente arbitrário e pessoal.' '"Inteiramente pessoal? Qual era seu objetivo, então?' "Não sei!', disse Arésio, desviando a vista. `Para falar a verdade, quando entrei na sala não tinha a menor idéia de dar um soco no Bispo. Dei porque, de repente, me veio essa vontade, sem que eu soubesse por quê. Por isso, é melhor que você procure outro parceiro. Já lhe aconselhei a procurar os Padres e os Soldados. Você, obsedado pelos esquemas, continua a ver neles um grupo de inimigos. Pois seja, não tenho nada a ver com seus equívocos! Mas já que você quer continuar com esses enganos, procure pelo menos o Padre Daniel, que é quase da sua idade e, sendo um Padre marginal, divisionista, é um dos seus iguais, um jovem Profeta ardente, desejoso de justiça para todos e ansioso por ser martirizado por seus ideais.' "A religião e nossa adversária, é o ópio do Povo e eu não quero aliança com padre de qualidade nenhuma!', disse Adalberto um tanto infantilmente, a se levar em conta a advertência sobre os esquemas que Arésio acabara de fazer.
"`Isso é um mal-entendido que surgiu entre vocês não sei por quê, pois, no fundo, você e o Padre Daniel querem é a mesma coisa. Você mesmo disse, aqui, que era um Latino-Americano típico. Siga, portanto, as linhas peculiares da luta política da América Latina. A meu ver, vocês que sonham ainda com a independência e a justiça na América Latina deveriam se juntar todos - padres, soldados e jovens intelectuais como você. Você acha que não: paciência! Por mim, não perco nada, porque não é com a grandeza da América Latina nem com a justiça para os pobres que eu me preocupo. Mas, já que você tem outras idéias, não se esqueça de que na Revolução de 1817, Frei Caneca e o Padre João Ribeiro, dois profetas e mártires que queriam a justiça e tiveram a coragem de morrer por ela, se aliaram a outros revolucionários que não eram padres, tentando, todos, instaurar, pela violência, o Estado justo, aquilo que para eles, naquele tempo, era o verdadeiro Estado. Está chegando novamente o tempo em que, na América Latina, vão se unir os negros de todo tipo, como você diz - os escorraçados, os humilhados, os doentes, os ressentidos - para, sob o comando de Padres sectários, marginais, divisionistas, e de ardentes revolucionários doentios como você, tentarem outra Revolução. Tenha a coragem e a astúcia de sair na frente, Adalberto! Convide o Padre Daniel e partam, vocês dois, para os atos de terrorismo. Aliás, eu tinha mais respeito a vocês dois, porque pensava que vocês já tinham entrado nisso e que essas mortes misteriosas que surgiram aqui tinham alguma coisa a ver com vocês. Sim, vocês dois já deviam ter se aliado. Que imporia que, no grupo dos revolucionários, existam alguns que tenham fé em Deus e outros não? Não é aa justiça teocrática e total, a ordem pura e o hem, que todos vocês querem instaurar? Por outro lado, você mesmo não disse que o Divino, dos religiosos, é o mesmo Humano mais elevado dos revolucionários? Quanto a mim, não gosto de imposturas, e digo aqui, claramente, que pretendo esgotar até o fim a sujeira, a glória e o sangue da vida, como qualquer revoltado. Veja bem: revoltado, e não revolucionário. Revoltado em proveito do sangue de sua própria vida, e não revolucionário pnhando com a justiça, o bem e outros ideais abstratos, os ideais elevados da Humanidade, como você diz tão infantilmente em seu livrinho!' " Mas se você tem ódio à impostura', insistiu Adalberto, "deve acompanhar-nos, porque o nosso é o único caminho para acabar com ela!' "`Não, não é, meu querido Adalberto. Seu caminho é uma impostura, como é uma impostura o caminho do Padre Renato e do Padre Daniel. E, por mais estranho que isso lhe pareça, até mesmo você é um impostor!' "`Eu? Por que você diz isso?', disse Adalberto, espantado, como se fosse aquilo uma coisa que ele nunca tivesse esperado. Arésio começou a cerrar a cara: "'Digo isso, porque você é um padreco igual aos outros. Até esse lugar que você arranjou na casa de Quaderna, cheira a padre a dez léguas de distância. E você, com esses pés finos e brancos, al metidos em alpercatas, com essa camisa sem colarinho e esse corpo fino e magro, é mesmo um fradeco hipócrita, como todo frade que se preza! Você quer ver eu provar como você é um impostor, Adalberto? Então vou lhe fazer uma pergunta: você sabe quem é essa moça que está aí e que você chamou para cá unicamente para que ela ouvisse suas conversas e visse você brilhar diante de nós?' " `É claro que sei', disse Adalberto, cada vez mais espantado. `Essa moça se chama Maria Inominata e é minha noiva!' "Ouvi falar desse noivado. Soube, mesmo, que seu noivado com ela, filha de um simples morador, foi uma das causas de sua expulsão de casa, não foi isso? Você sabe que ela morava nas terras que foram de meu Pai?' "Sei, ela me contou!', disse Adalberto.
"Mas provavelmente você não sabe por que ela saiu de lá: essas coisas, nunca ninguém diz aos interessados! Você contou a ele, Maria, por que saiu da "Onça Malhada"?' "Não!', ouvi a voz de Maria Inominata responder num sopro e logo acrescentar, de modo quase inaudível: `Pelo amor de Deus!' "Confesso, Senhor Corregedor, que meu coração se confrangeu, porque eu também sabia de tudo, e o tom de Arésio revelava que ele estava entrando'de novo naquela perigosa disposição de espírito que todos temiam nele. Indiferente ao temor e à súplica da moça, Arésio explicou então: "Ela saiu de lá, Adalberto, por minha causa! Um dia, passei diante da casa dela. Maria estava na porta e me olhou de um modo estranho! Ah, Adalberto, você tem razão quando diz, no livrinho, que o impulso sexual é um dos mais intensos! Há certos olhares que as mulheres nunca deviam lançar a homem nenhum! Maria Inominata é linda, como você também, apesar de tudo, há de ter notado! Ela é muito atraente, com essa cor morena, esses cabelos castanhos e lisos que vão até a cintura, com esse busto não muito desenvolvido de adolescente, mas com as ancas e as coxas fortes, lisas, duras e bem-feitas. Eu ia partir para possuí-la ali mesmo, porque o olhar que ela me lançara significava que eu não seria repelido. Mas, nesse momento, saiu de dentro da casa, com uma foice na mão, o irmão dela, Amaro Inominato, um sujeito que, pela cara, a gente conhece que é perigoso. Eu estava desarmado, de modo que disfarcei e continuei meu caminho. Mas Maria e Amaro, apesar de eu não ter dito nada nem chegado a esboçar nenhum gesto, tinham entendido tudo. O Pai dela, o velho Manuel Inominato, é desses moradores antigos que, não tendo lido seu livrinho, Adalberto, julgam que podem manter uma vida digna, no meio da sujeição e da submissão. Ele era muito amigo de meu Pai e, não querendo ver a filha prostituída pelo filho do dono das terras, foi pedir proteção ao nosso inimigo, Antônio Moraes. Foram todos morar lá, nos Angicos, e nunca mais eu tinha visto Maria até hoje!' "E o que é que você quer me dizer com isso?', indagou Adalberto, mais admirado e ainda não ofendido, porque se julgava na obrigação de se revelar compreensivo, por filosofia e pelas idéias progressistas que professava.
"Quero lhe falar disso para lhe mostrar sua impostura!', disse Arésio, cada vez mais cheio de dureza. `Você, mesmo sabendo, talvez, o que se passara comigo e ela, resolveu noivar com Maria, primeiro para exibir seu senso de igualdade; depois, para reparar a honra de Maria, que você julgava ofendida; e finalmente porque, no fundo, você tinha consciência de que só de uma moça como ela, inferior a você socialmente, é que você teria coragem de se acercar. Os covardes e fracos como você, Adalberto, sentem-se mais seguros assim: ficam certos de ser aceitos por gratidão. No seu caso, quaisquer que fossem suas poucas qualidades viris, de homem, você poderia estar seguro de que iria deslumbrar Maria, pelo fato de um rapaz pertencente à classe superior desejá-la, não para amante, e sim para mulher! Mas, mesmo assim, tudo isso não bastou: você quis que hoje, aqui, ela visse você brilhando, como professor, diante de mim e de Quaderna! É por isso que lhe dou razão quando você escreveu no livrinho que todo desinteresse aparente é, no fundo, um interesse real, e que a pessoa só consente em diminuir seu poderio, ou em troca de um prazer, ou julgando que o está fazendo crescer. Pois bem, Adalberto, vou aceitar seu jogo: vou competir com você diante de Maria e usando ss mesmas armas. Em primeiro lugar, quero também brilhar como ofessor diante dela, de você e de Quaderna. Digo a você que !do existe unidade nenhuma em seu pensamento. Se o ponto de tida dele foram, como você disse, aquelas idéias sobre o Povo, o Brasil, a América Latina, a India e a Africa, não vejo como ligar tudo isso ao verdadeiro Estado, ao Estado total dos seus fonhos. Para lhe ser franco, seu pensamento me deu a impressão de um monstro de duas cabeças, uma bela e outra demoníaca, não precisando dizer que a cabeça demoníaca, feia e monstruosa é a Bo verdadeiro Estado, e a bela é a da Rainha do Meio-Dia, como diziam os capões. A cabeça monstruosa surgiu quando eu menos esperava, não como uma conclusão harmoniosa, mas sim como úm reverso monstruoso da medalha da outra. Para mim, isso não tem a menor importância, porque, coma lhe disse, estou ainda ao estágio primitivo, aquele no qual, como diz seu livrinho, bem o que satisfaz os impulsos do meu sangue, e mal é o que os ioapede. Mas você quer realizar a justiça, é um homem dedicado aos outros e não a si mesmo. Cuidado, então, com as contradições do seu pensamento. Cuidado para que sua exaltação do humano, féita a partir dos Povos negros do mundo, não caia numa espécie de negação total do nosso humanismo Latino-Americano, do nosso amor quase pagão pela vida, do nosso modo de fruir do mundo como se soubéssemos que a nossa vida e o mundo foram feitos para ser dissipados!' "'Você está querendo me ofender, Arésio, mas não julgue que está falando com uma pessoa comum!', disse Adalberto, numa voz surda que desmentia um pouco suas palavras. `Eu já tinha conhecimento de que a família de Maria saíra da "Onça Malhada" por sua causa! Que é que me importa isso, se nao houve nada entre você e ela? Quanto ao que você disse sobre meu pensamento, acusando-me de criar um monstro de duas cabeças, você está completamente errado! Eu tive o cuidado de pensar em tudo, Arésio. Foi por isso que falei, de propósito, na Autocracia teocrática e total de Filipe II, que nos governou. A tradição LatinoAmericana em política é exatamente essa, a de um Governo poderoso governando súditos ferozmente livres. Como pessoas, nós, os Negros do mundo, não damos grande importância ao Governo, porque, sendo todos nós verdadeiras comunidades de Fidalgos cobertos de andrajos, sabemos ser ferozmente livres e felizes de modo selvagem e independente! O verdadeiro Estado, então, cuidará de que não haja injustiça nem fome. Oprimirá e esmagará, até que os burgueses, envilecidos pelo conforto e pela traição, não tenham mais ambiente para continuar sugando sua riqueza e seu poder às custas da miséria e da doença do Povo. Quanto ao mais, o nosso próprio Povo se encarregará de faze-lo. Sua imagem do monstro de duas cabeças também precisa ser retificada, porque, atualmente, o monstro que nos rodeia tem três cabeças, e não duas. A primeira, é a cabeça de ouro dos ricos, a segunda é a do Poder armado, e a terceira é a do Povo, a da miséria extrema. As duas primeiras são aliadas, porque os comerciantes montaram seu aparelho de repressão armada, juntando-se, para isso, aos Soldados. É preciso que o Povo, rebelando-se, corte a cabeça de ouro, porque aí o Monstro deixará de ser monstro. -Das duas cabeças de ignomínia, a dos comerciantes desaparecerá, cortada, e a do Povo perderá sua feiúra e sua humilhação, saindo da miséria. Com isso, o Exército passará a ser uma Milícia ligada ao Povo, identificada com o Povo. O Monstro será transformado num animal harmonioso, com duas cabeças, não mais contraditórias e sim aliadas num perfeito entendimento, a do Povo livre e feliz, e a do Poder armado total, livre das imposturas da democracia dos comerciantes e colocada a serviço da justiça! É por isso que eu acredito ser o Brasil, a América Latina, o País destinado a realizar a mais bela forma de Socialismo já surgida no mundo! Viu agora, Arésio, como o verdadeiro Estado é a conclusão lógica, e não a contradição, das nossas idéias sobre a América Latina e os outros Povos negros. do mundo?' "`Não, mas não vou perder mais tempo discutindo, não, porque parece que, nessa história de lógica, você ganha, mesmo, para mim, meu querido Professor de justiça!', disse Arésio, com uma violência cada vez mais concentrada. `Mas você se esquece de que, em mim, a parte mais importante é a outra, a do sangue! Eu nunca renuncio a um prazer do sangue. Naquele dia, fui impedido, mas, agora, vou levar Maria Inominata comigo, porque Amaro está longe e você, como homem, não representa nem um décimo dele! Quero ver se você ainda quererá Maria depois, por filosofia, ou se é um impostor como eu estou julgando!' "`Arésio, não faça isso não, sou eu quem lhe peço!', intervim eu, aterrorizado e confrangido, sabendo quanto sofrimento aquilo iria causar a tantas pessoas, inclusive a ele mesmo, mas sabendo também, de antemão, que era inútil qualquer pedido.
"`Eu estou desarmado!', disse Adalberto, como se isso tivesse algum efeito sobre o inexistente senso de lealdade de Arésio em tais ocasiões.
"'Tanto melhor para mim, porque, quanto a mim, eu estou armado!', disse ele erguendo-se e marchando para Maria, a quem segurou pelo braço.
"`Largue Maria!', gritou Adalberto, aproximando-se dele e com um furor inusitado na voz.
"Aí, Senhor Corregedor, tudo se precipitou. Arésio, puxando o revólver, deu com ele uma pancada violenta na cabeça de Adalberto, que caiu tonteado. A outra mão dele continuava fechada, como um anel de ferro, em torno do braço de Maria Inominata. Com uma torção, ele a impeliu em direção à escada, enquanto guardava o revólver na bainha. Ao chegar junto de mim, tirou a carteira cheia de dinheiro e me entregou tudo, dizendo: "Olhe aí, dono de pensão: esse dinheiro é pelo aluguel do quarto onde consegui essa moça. Quando o professorzinho acordar, lembre a ele aquelas palavras de Santo Agostinho que o capão Samuel leu para nós, um dia. Você ainda se lembra? Os rapazes pagãos violavam as moças e mulheres cristãs que, habituadas à morna castidade dos maridos e noivos, também cristãos, ficavam terrivelmente perturbadas diante daquela sensualidade poderosa e brutal, tão cheia de novidades e tão sem escrúpulos. Iam, então, depois de violadas e possuídas de todos os modos, procurar o Santo, com remorso por terem gozado daquela maneira nunca antes experimentada e nunca tão intensa. Santo Agostinho absolvia todas elas, dizendo que não tinham culpa de que o corpo estremecesse involuntariamente e barbaramente ao ser solicitado, de modo tão violento e acariciador, no que tinha de mais íntimo. Pois você diga isso ao professorzinho. Hoje, a noiva dele talvez não chegue a sentir muito o que confessar, porque o sofrimento da primeira vez talvez impeça o prazer, se bem que eu esteja disposto a fazer tudo para que isso não aconteça. Mas como pretendo guarda-la comigo ainda por uma semana, telegrafarei depois a ele, para que Santo Adalberto absolva Maria de seus estremeços!' "Então, Senhor Corregedor, Arésio desceu a escada, impelindo Maria Inominata na frente dele e desaparecendo das nossas vistas. Assim que ele saiu, eu e Lino corremos para junto de Adalberto. Lino Pedra-Verde pegou uma quartinha d'água que estava em cima da mesa-de-cabeceira, e, molhando um lenço, começou a passá-lo na testa de Adalberto, que continuava de olhos fechados. Eu também me ajoelhara junto dele, e, tanto eu como Lino, julgávamos que o rapaz continuava desmaiado. De repente, com uma sensação misturada de constrangimento e compaixão, nós dois notamos, ao mesmo tempo, que Adalberto estava chorando. `Vão-se embora, pelo amor de Deus!', disse ele, com ambas as mãos cobrindo o rosto. Nós vimos que, no momento, era o que havia de melhor a fazer. E como tínhamos combinado ir ao encontro de Samuel e Clemente para a entrevista com o Doutor Pedro Gouveia, descemos a escada e saímos também."
0 Roteiro do Tesouro - Um esclarecimento só, antes de contar o resto, Dom Pedro Dinis Quaderna! - disse o Corregedor. - O senhor aceitou o dinheiro que Arésio Garcia-Barretto lhe deu naquela noite? - Aceitei, Senhor Corregedor! Em primeiro lugar, eu precisava e ainda preciso viver. Depois, o que é que adiantaria a Adalberto ou a Maria Inominata que eu recusasse o dinheiro? - Está bem: anote esse pormenor, Dona Margarida! Agora, pode continuar! - Ao chegar embaixo, tomamos o caminho da Rua do Chafariz, encaminhando-nos para a parte dos fundos do casarão dos Garcia-Barrettos: ali se daria a minha entrevista com o Doutor Pedro Gouveia, a mais decisiva, talvez, em todo aquele dia. Aproveitando o mais possível o escuro da rua, passamos despercebidos e chegamos ao portão traseiro que procurávamos e diante do qual não havia ninguém, pois todo mundo estava aglomerado diante da parte da frente da casa, na Praça. Bati discretamente e de fato, segundo o que fora combinado, o portão foi aberto imediatamente. Vimo-nos diante de um dos Ciganos que tinham vindo na comitiva de Sinésio, um rapagote que, segundo soubemos depois, chamava-se Manuel Briante. Estava armado de rifle e perguntou quem éramos. Ao ouvir meu nome, deixou que passássemos. Recomendei porém a Lino que me esperasse fora, porque pressentia que, para o Doutor Pedro, quanto menos pessoas houvesse na entrevista, melhor. Eu era velho familiar também daquela casa, de modo que ninguém precisava me guiar. Cruzei o quintal, o terraço traseiro que ladeava a cozinha, entrei na sala de jantar e, passando pelo corredor, cheguei à sala de visitas onde estavam Samuel, Clemente o o Doutor Pedro Gouveia. Não estavam lá nem Frei Simão, nem Sinésio, e eu imaginei que os dois estavam no pavimento superior: o Doutor Pedro Gouveia só nos deixaria ter uma entrevista com Sinésio depois de tudo estabelecido entre nós, disso eu tinha certeza. Agora, eu iria travar conhecimento imediato, pela primeira vez, era com as astúcias e cortesias do Doutor Pedro Gouveia, o homem mais gentil e cheio de habilidades que eu tive oportunidade de conhecer, Senhor Corregedor. Acho que, de todas as pessoas que conheci, a convivência com o Doutor Pedro Gouveia foi, para mim, a mais proveitosa e cheia de ensini'mentos úteis.
- Mais do que a do Professor Clemente e a do Doutor Samuel? - No que se refere a coisas práticas, sim, Senhor Corregedor! A influência de Clemente e Samuel foi mais lítero-política, mas s convivência com o Doutor Pedro iria, por um lado, me confirmar t certas descobertas de astúcias que eu já fizera sozinho, e por outro me abrir inúmeras perspectivas novas - chaves e caminhos que iriam me pondo ao alcance um número cada vez maior de Ardis e defesas novas, coisas de valor inestimável para a vida prática! Assim que eu entrei, ele se levantou, pressuroso mas sem espalhafato. E falou, dando-me a primeira lição: "'Este é um dos grandes momentos da minha vida, o dia em que travo conhecimento com três dos mais distintos intelectuais o acadêmicos residentes na Paraíba, três grandes homens dos quais um é sertanejo de Taperoá e os outros dois, vindos de fora, foram desapropriados para nós, de modo que os três, hoje, honram a nossa pequena e heróica Paraíba. Senhor Pedro Dinis Quaderna: com o Doutor Samuel Wan d'Ernes e com o Professor Clemente Hará de Ravasco Anvérsio já travei conhecimento há alguns instantes. Agora, tenho a honra de conhecê-lo. Estava esperando o momento de sua chegada para iniciar nossa conversa, entrando no assunto principal que me levou a ter a ousadia de pedir que viessem aqui. Mas sente-se, sente-se. Precisamos conversar!' "O Doutor Pedro Gouveia, Quaderna', explicou Samuel, `tem um assunto da mais alta importância para conversar conosco.' "'Para ser mais exato, dois assuntos!', acrescentou o Doutor Pedro. `Mas esses dois assuntos se entrelaçam de tal maneira que terminam sendo um só. A primeira coisa que devo comunicar para começar nossa conversa é que o Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Arcebispo da Paraíba fez-me a honra de me nomear Vidama do Cariri, Condestável e Rei d'Armas da Venerável Ordem do Templo de São Sebastião.' "Como é?', indaguei, espantado, e já enxergando o perigo que aquele homem' bem-educado, e ainda por cima Doutor, representava para minhas grandezas e monarquias.
"Não me admira o seu espanto!', disse o Doutor Pedro. `Não me admira, porque eu mesmo me espantei a princípio. O senhor sabe o que é um Vidama?' "`Não!' "O Vidama é o representante temporal e senhor dos feudos hereditários de um Bispado. O Vidama, além disso, comanda eventualmente as tropas armadas que o Bispo porventura mantenha. Sendo assim, o Senhor Arcebispo da Parafba deu-me a grande e imerecida honra de me escolher para Vidama do Cariri, isto é, para encarregado dos bens temporais e Comandante das tropas do Arcebispado aqui no Cariri da Paraíba.' "Ah, quer dizer que esses Cangaceiros ciganos que vieram com o senhor são as tropas armadas do Arcebispo da Paraíba?', perguntei, cada vez mais inquieto.
"`Não exatamente, se bem que, de certa forma, se possa entender assim! Mas as verdadeiras tropas do Senhor Arcebispo serão organizadas proximamente aqui na Paraíba, num sentido mais espiritual do que temporal e de uma forma que os senhores logo entenderão. Acontece que o Senhor Arcebispo está empenhado numa campanha para a reforma ou construção de templos em todas as cidades principais do Estado. Para isso, precisa angariar fundos, e instituiu três Ordens honoríficas na Paraíba, sendo que a do Cariri foi colocada sob a invocação de São Sebastião. No nosso caso, dadas as ligações de São Sebastião e d'El-Rei Dom Sebastião com a família Garcia-Barretto, acho que essa coincidéncia teve algo de verdadeiramente miraculoso!', disse ele, mostrando-se cada vez mais bem informado. E continuou: `Existe uma Ordem para o Litoral e o Brejo, uma para o Cariri e outra para o Alto Sertão, os sertões da Espinhara e do Rio do Peixe. É claro que o GrãoMestre de todas elas é o Senhor Arcebispo, mas ele houve por bem me conceder plenos poderes no Cariri, sendo este o motivo de minha humilde pessoa carregar hoje, esta Cruz aqui, pendurada ao meu pescoço pelo colar. Mas, para encurtar a conversa e para que não haja dúvidas sobre meus títulos e minhas atribuições, aqui está o pergaminho da minha nomeação.' "Então, Senhor Corregedor, diante de nós todos, que estávamos ali fascinados, com os olhos reluzindo, o Doutor exibiu-nos um pergaminho, cuja cópia peço que seja anexada aos autos e que era assim: `Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques, Arcebispo da Paraíba, usando das atribuições que lhe confere o Direito Canônico, invocando o Espírito Santo e as bénçãos de Deus para todos os que contribuam, de alguma forma, para a reforma e a construção de Templos dignos das nossas tradições de Fé, resolve: Artigo 1.0 - Fica instituída a Venerável Ordem do Templo de São Sebastião, que se destina a perpetuar nossa gratidão a todos aqueles que prestarem relevante colaboração para a construção de templos na Paraíba.
Artigo 2° - Cada Ordem terá jurisdição sobre determinada parte do Estado, sendo este, em particular, o regimento da Venerável Ordem do Templo de São Sebastião do Cariri.
Artigo 3o0 - A insígnia da Ordem será uma Cruz semelhante à da Ordem de Cristo, que foi como que uma insígnia gloriosa de fé nos tempos do Descobrimento e da Conquista do Brasil. Para diferençá-la, porém, da Cruz da Ordem de Cristo, os esmaltes serão gravados em ouro e goles.
Artigo 4.° - A Ordem conferirá condecorações, que se distribuem nos graus de Grã-Cruz, Comendador e Cavaleiro.
Artigo 5° - A Grã-Cruz será pendente de uma fita amarela o branca - as cores de Sua Santidade o Papa - pendente, em linha direita, do pescoço para o peito, e será usada, nas ocasiões solenes, com uma faixa das mesmas cores, passada a tiracolo, da direita para a esquerda.
Artigo 6° - Para cada uma das Ordens, é nomeado um Vidama e Condestável, sendo as nomeações lavradas por Decreto nosso, em nossa qualidade de Grão-Mestre.
Artigo 7 ° - Mediante proposta encaminhada pelo Conselho das Ordens, havemos por bem nomear Vidama e Condestável da Venerável Ordem do Templo de São Sebastião do Cariri ao Doutor Pedro Gouveia da Câmara Pereira Monteiro, a quem agraciamos desde já com a Grã-Cruz da Ordem.
Artigo 8.° - Ao Vidama e Condestável compete distribuir títulos e condecorações por serviços prestados, sendo os nomes dos agraciados inscritos no Livro de Ouro e Nobiliário da Ordem, livro que, depois de aprovado e encerrado, será recolhido aos arquivos da Arquidiocese ad perpetuam rei memoriam.
Artigo 9 ° - O lançamento no Nobiliário será feito em ordem cronológica, dele constando, além do nome do agraciado, sua nacionalidade, profissão, dados biográficos, títulos e condecorações.
Artigo 10° - O Vidama e Condestável está autorizado, além disso, a mandar fazer pergaminhos contendo as Cartas Patentes e de Agraciamento, o que deve ser feito de modo artístico e seguindo o padrão anexo.
Artigo 11° - Em casos especiais, o Vidama e Condestável está autorizado a agraciar e passar pergaminhos gratuitamente, considerando os méritos e serviços relevantes de pessoas escolhidas.
Artigo 12° - Os casos omissos serão resolvidos pelo Vidama o Condestável e comunicados ao Arcebispo para sanção, rogando-se aqui aos Senhores Párocos e Vigários que seja dada toda assistência o ajuda ao Condestável e membros da Ordem.
Dado e passado neste Paço Arquiepiscopal da Paraíba, a 20 de janeiro de 1935, dia do glorioso mártir São Sebastião.
Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques, Conde Romano o Arcebispo da Paraíba." - Tal era o extraordinário documento, diante do qual, Senhor Corregedor, nossa imaginação imediatamente pegou fogo. Pelo menos a minha pegou, e tenho certeza de que a de Samuel também. O Arcebispo Dom Adauto, além de Príncipe da Igreja, era de uma das famílias mais fidalgas da Paraíba. Samuel lembrou imediatamente que, em 1757, o Rei Dom José I tinha enviado para cá uma Carta Patente na qual se dizia que, atendendo aos serviços e merecimentos de Francisco Xavier de Miranda Henriques, Cavaleiro professo da Ordem de Cristo e Moço Fidalgo da Casa de Sua Majestade, era ele nomeado Capitão-Mor da Capitania da Paraíba. O nosso Arcebispo e toda a grei dos Miranda Henriques descendiam desse antepassado ilustre, o que conferia uma autoridade fidalga toda especial à Ordem agora instituída. Eu, porém, apesar de tão fascinado quanto Samuel, estava muito cismado com aquela história toda, assim como achando horrível aquele título de Vidama. Foi o meu pretexto para abrir as hostilidades. Falei: "'Está tudo muito bom, Doutor, mas uma coisa eu lhe digo: esse negócio de seu título ser de Vidama vai dar em galhofa, aqui em Taperoá!'