Montaram. O rapaz do cavalo branco também montou. Naquele tempo, as forças da violência e as divindades subterrâneas ainda estavam adormecidas em seu sangue, pois não tinham sido despertadas pelo veneno do nosso convívio. De modo que, sonhoso o absorto, ele ignorava naquele instante quantas cenas e quantas mortes como aquela sua chegada iria causar entre nós, durante os três anos que medearam entre aquela Véspera de Pentecostes de 1935 e a Semana da Paixão, deste nosso ano de 1938. Foi também esta cena inicial da "Demanda Novelosa do Reino do Sertão" que terminou batendo com meus costados na Cadeia onde estou preso, à mercê do julgamento de Vossas Excelências.
Naquele dia porém, e mesmo com o aviso dado pela Providência com a morte de Colatino, ainda não estava rompida a descuidosa mas culposa ignorância em que estávamos todos nós que iríamos participar da terrível Desaventura do rapaz do cavalo branco. O Sol alumiava e esquentava tudo, como antes. Como se tivesse sido por ele gerado, um Ferreiro, no mato, começou a desferir seu canto metálico, semelhante ao batido dum martelo numa bigorna, canto logo seguido pelos piados, também violentos o metálicos, de um bando de cancões. O corpo de Colatino, colocado de través em címa do cavalo, foi conduzido, assim, aguardando o enterro que o Doutor ordenara para logo mais, nas imediações do histórico riacho em que, no século XVII, o Ajudante Cosme Pinto iniciara a penetração do Cariri, sob as ordens do Capitão-Mor Teodósio de Oliveira Ledo. Novamente a tropa de Cavaleiros, com a bandeira à frente, tomou o caminho de Taperoá. Agora, porém, como precaução, o rapaz, o Doutor e o Frade iam no meio dos dois cordões de Cavaleiros e todos viajavam de rifle na mão, prontos para qualquer novo ataque. Aquele, porém, seria o último incidente sério, até a chegada a Taperoá. O perigo principal passara, de modo que, como tinha previsto desde 1922 a genial J. A. Nogueira - em seu livro Sonho de Gigante, que tanta influência exerceu entre nós, Acadêmicos sertanejos - naquele instante, passando o lajedo e a emboscada, "o Peregrino do Sonho transpunha, de repente, a fronteira de dois Reinos. O Rio subterrâneo deixava de refletir as tenebrosas asperezas da região da morte: elevou-se como uma Coluna de diamantes e, arrebentando à flor da terra, espraiou-se debaixo de um Céu de meio-dia, na região pedregosa do Sol e das altitudes, que o Reabilitados da vida elegera para iluminar com sua presença de Fogo".
O Caso do Fazendeiro Degolado Pode-se dizer, nobres Senhores e belas Damas, que houve duas causas próximas para minha prisão. A primeira, foi a chegada, a Taperoá, do rapaz do cavalo branco. A segunda, estreitamente ligada a ela, foi o assassinato, por degolação, de meu tio e Padrinho, o fazendeiro Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto. Meu Padrinho foi encontrado morto, no dia 24 de Agosto de 1930, no elevado aposento de uma torre que existia na sua fazenda, a "Onça Malhada". Essa torre servia, ao mesmo tempo, de mirante à casa-forte, o de campanário à capela da fazenda, que era pegada à casa. Seu aposento superior era um quarto quadrado, sem móveis nem janelas. O chão, as grossas paredes e o teto abobadado desse aposento eram de pedra-e-cal. Por outro lado, meu Padrinho, naquele dia, entrara so no aposento e trancara-se lá em cima, dentro dele, usando, para isso, não so a chave, como a barra de ferro que a porta tinha por dentro, como tranca. Outra coisa misteriosa: no mesmo dia, Sinésio, o filho mais moço de meu Padrinho, desapareceu sem ninguém saber como. Dizia-se que fora raptado, a mando das pessoas que tinham degolado seu Pai, pessoas que odiavam o rapaz porque ele era amado pelo Povo sertanejo, que depositava nele as últimas esperanças de um enigmático Reino, semelhante àquele que meu bisavô criara. Sinésio fora raptado e, segundo se noticiou, morrera também de modo cruel e enigmático, dois anos depois, na Paraíba, o que não impedia o Povo de continuar esperando a volta e o Reino miraculoso dele.
Pergunto: e agora? Como e que meu Padrinho foi degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja porta fora trancada por dentro, por ele mesmo? Como foi que os assassinos alí penetraram, sem ter por onde? Como foi que saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está o nó! Este é o "centro de enigma e sangue" da minha história. Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte todos nós, Brasileiros, de que "os irônicos estrangeiros" vivem sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso para, então, "ridicularizar o pátrio pensamento":
"Fatal destino o dos brasílios Mestres! Fatal destino o dos brasílios Vates! Política nefanda, horrenda e negra, pestilento Bulcão abafa e matá quanto, aos olhos de irônico estrangeiro, podia honrar o pátrio pensamento! "
Ora, um dos argumentos que os "irônicos estrangeiros" mais invocam para isso é dizer que nós, Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança, uma intrincada teia, um insolúvel enredo de "romance de crime e sangue". Dizem eles que não é necessário nem um adulto dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, I os quais, tecidos por um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes ao primeiro exame, facílimos de desenredar. ~ Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia: mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barretto, aí é demais! Diz I Tobias Barre tto que no Brasil é impossível aparecer um "romance ,, de gênio", porque "a nossa vida pública e particular não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos". Lamenta que seja raro, entre nós, "um amor sincero, delirante, terrível e sanguinário", ou que, quando apareça, seja num velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido: "Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham a impressão geral da monotonia continua. Até na estatística criminal o nosso País revela-se mesquinho. O delito mais comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de cavalos".
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado, julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da América Latina "foi uma Epopéia". Vemos que somos muito maiores do que a Grécia - aquela porqueirinha de terra! - e aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças, mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna, o Astrólogo, Quaderna, o Decifrador, como tantas vezes fui chamado); eu, Poeta-Guerreiro e soberano de um Reino cujos súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro, primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível, cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes que eu o faça, o centro enigmático de
crime e sangue da minha história, isto é, a degola do meu Padrinho e a "desaparição profética" de seu filho Sinésio, o Alumioso, esperança e bandeira do Reino Sertanejo.É por causa desses dois fatos que eu dizia, há pouco, que as causas próximas da minha prisão tinham sido a morte de meu Padrinho e a chegada do rapaz do cavalo branco a Taperoá. As causas remotas, porém, foram a Cantiga de La Condessa, que incendiou meu sangue na puberdade, e os sangrentos sucessos ocorridos exatamente há um século, de 1835 a 1838, quando minha família ocupou o trono do Brasil, no Sertão da Pedra do Reino, entre o Pajeú de Pernambuco e o Piancó da Paraíba. Estes últimos, além de serem os mais remotos, são também os acontecimentos mais importantes. Foram, talvez, a causa e o começo de "todas as vicissitudes da minha atribulada existência", como dizem os contos publicados num dos meus livros-de-cabeceira, o Almanaque Charadistico e Literário Luso-Brasileiro. É por isso que, logo de entrada, devo narra-los, a fim de que Vossas Excelências possam, aos poucos, ir fazendo do meu caso a opinião mais completa possível.
Para narrar essa história, valer-me-ei o mais que possa das palavras de geniais escritores brasileiros, como o Comendador Francisco Benfcio das Chagas, o Doutor Pereira da Costa e o Doutor Antônio Attico de Souza Leite, todos eles Acadêmicos ou consagrados e, portanto, indiscutíveis: assim, ninguém poderá dizer que estou mentindo por mania de grandeza e querendo sentar de novo um Ferreira-Quaderna, eu, no trono do Brasil, pretendido também - mas sem fundamento! - pelos impostores da Casa de Bragança. Faço isso também porque assim, nas palavras dos outros, fica mais provado que a história da minha família é uma verdadeira Epopéia, escrita segundo a receita do Retórico e gramático de Dom Pedro II, o Doutor Amorico Carvalho: uma história épica, com Cavaleiros armados e montados a cavalo, com degolações e combates sangrentos, cercos ilustres, quedas de tronos, coroas e outras monarquias - o que sempre me entusiasmou, por motivos políticos e literários que logo esclarecerei.
Aliás, minto: sempre, não! A princípio, a história de minha famflia era para nós, Ferreira-Quadernas, uma espécie de estigma vergonhoso e de mancha indelével do nosso sangue. E não era para menos, quando somente meu bisavô, El-Rei Dom João Ferreira-Quaderna, o Execrável, no espaço de três dias mandou degolar cinqüenta e três pessoas, incluindo-se entre elas trinta crianças inocentes, o que aconteceu no fatídico e astroso mês de Maio de 1838. Meu Pai, Dom Pedro Justino, e minha tia Dona Filipa, Irmã dele, tinham pavor de todas aquelas mortes cometidas por nossos antepassados, e temiam que o sangue dos inocentes caísse um dia sobre nossas cabeças, como os Judeus invocaram o sangue do Cristo sobre as deles.
Apesar de todos os cuidados, porém, um dia, meu velho parente e padrinho-de-crisma, o Cantador João Melchfades Ferreira, num momento de entusiasmo pelas grandezas da famflia, contou tudo isso a mim, que era seu discípulo "na Arte da Poesia". Fiquei terrivelmente abalado, sentindo como se aquele sangue me infeccionasse o meu de uma vez para sempre. Eu teria, então, uns doze anos; e, em tudo, o que mais me impressionava era a morte de um menino, mais ou menos de minha idade, degolado por seu próprio Pai, por ordem de meu bisavô. Na hora do sacrifício, o inocente, chorando, reprochava docemente o degolados, dizendo, num queixume: - "Meu Pai, você não dizia que me queria tanto bem?" Fiquei, assim, apavorado e fulminado, por descender do sangue ferreiral e quadernesco, carregado com tantos crimes! So depois, aos poucos, unindo aqui e ali uma ou outra idéia que Samuel, Clemente e outros me forneciam, é que fui entendendo melhor as coisas e descobrindo que podia, mesmo, transformar em motivo de honras, monarquias e cavalarias gloriosas, aquilo que meu Pai escondia como mancha e estigma do sangue real dos Quadernas. O Padre Daniel foi uma dessas pessoas: lá um dia provou ele, num sermão que causou espanto, que todos os homens, e não somente os Judeus, eram os assassinos do Cristo. Ao ouvi-lo, passei a refletir assim: - "Se isso e verdade, então todas as outras pessoas, e não somente os Quadernas, são responsáveis por aquelas mortes da Pedra do Reino"! E, com isso, comecei a me libertar do peso exclusivo de toda aquela carga de sangue. Outra pessoa foi o próprio João Melchíades Ferreira. Tempos depois, ele cantou para eu ouvir um folheto q.ie escrevera, a Vida, Paixão e Morte - Sorte, Símbolo e Sinais - de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nesse folheto, João Melchíades, que ouvira o sermão do Padre Daniel, dizia Ia, a certa altura: "O Sangue que saiu dele, selou o nosso Destino.
Nós todos matamos Cristo: somos todos assassinos! Nós todos matamos Deus: por isso somos divinos!"
Não pude deixar de refletir de novo, dizendo-me que, se o fato de matar Deus, tinha tornado os homens divinos, o de me
/ originar de uma família de Reis, assassinos de Reis, era a maior prova da minha realeza.
Além desses testemunhos, porém, o Doutor Samuel Wandernes me disse um dia que eu, além do sangue cigano-árabe c godoflamengo, tenho, ainda, umas gotas de sangue judaico, herdadas de minha Mãe, Maria Sulpícia Garcia-Barretto. Depois daí, entendi: de qualquer modo eu estaria incluído entre os criminosos mais ilustres do mundo - aqueles que, por terem tido a coragem de matar Deus, tinham propiciado a todos os homens a possibilidade de ascender e se igualar ao Divino. Quanto ao Professor Clemente, provou-me ele, um dia, com exemplos tirados da História da Civilização, de Oliveira Lima, que todas as famílias reais do mundo são compostas de criminosos, ladroes de cavalo e assassinos, de modo que a minha não era, absolutamente, uma exceção. Depois daí, mesmo quando minha imaginação pegava fogo e eu evocava, sem querer, a degola de todas aquelas crianças, minha razão vinha em socorro da consciência, e eu opunha, ao que via, aquela outra degola dos inocentes, acontecida no Sertão da Judéia, no tempo em que Cristo era menino. Dizia-me que, apesar de ter sido o mandante daquela matança, Herodes passara à História com o nome glorioso de E1-Rei Herodes I, o Grande. E então já não me sentia mais desonrado, e sim orgulhoso, por ser bisneto de El-Rei Dom João II, o Execrável.
Mas para não me alongar muito, passo a contar logo a gloriosa e sangrenta ascensão dos Quadernas ao trono da Pedra do Reino do Sertão do Brasil.
assim, permanece de acesso difícil e penoso. É coberta de espinheiros entrançados de unhas-de-gato, malícia, favela, alastrados, urtigas, mororós e marmeleiros. Catolezeiros e cactos espinhosos rotnpletam a vegetação, e conta-se que o sangue que embebeu a terra e as pedras, durante o reinado dos Quadernas, foi tanto que, na Sexta-Feira da Paixão de cada ano, os catolezeiros começam a gemer, as pedras a refulgir no castanho e nas incrustações de prata ou malacacheta, e as coroas-de-frade começam a minar sangue, vermelho e vivo como se tivesse sido há pouco derramado.
Não é isso, porém, o elemento mais importante, ali, como fundamento de glória e sangue da minha realeza: são as duas enormes pedras castanhas a que já me referi, meio cilíndricas, meio retangulares, altas, compridas, estreitas, paralelas e mais ou menos iguais, que, saindo da terra para o céu esbraseado, numa altura de mais de vinte metros, formam as torres do meu Castelo, da Catedral èncantada que os Reis meus antepassados revelaram como pedras-angulares do nosso Império do Brasil. O genial Acadêmico sertanejo Antônio Attico de Souza Leite, nascido ali por perto, fala delas assim, na Crônica-Epopéica intitulada Memória sobre a Pedra Bonita, ou Reino Encantado, na Comarca de Vila-Bela, Província de Pernambuco, escrita em 1874 e apresentada em memorável sessão do "Instituto Arqueológico de Pernambuco": "A Pedra Bonita, ou Pedra do Reino, como lhe chamam hoje, são duas pirâmides imensas de pedra maciça, de cor férrea e de forma meio quadrangular, que, surgindo do seio da terra defronte uma da outra, elevam-se sempre à mesma distância, guardando grande semelhança com as torres de uma vasta Matriz, a uma altura de cento e cinqüenta palmos (ou seja, trinta e três metros). A que fica para o lado do Nascente, em conseqüência de uma espécie de chuvisco prateado de que está coberta, de meia altura para cima, e que parece infiltração de malacacheta, adquiriu o nome de Pedra Bonita, em completo prejuízo da companheira. Ao Poente, e logo na extremidade da segunda pirâmide, ou Torre, há uma pequena sala meio subterrânea, a que chamavam Santuário, não só por ser o lugar onde primeiro entravam os noivos, depois de casados pelo falso Sacerdote da seita, o intitulado Frei Simão, como porque era ali que o Vaticinados, o execrável Rei João Ferreira-Quaderna, afirmava, em suas práticas, que ressuscitariam gloriosamente, com El-Rei Dom Sebastião, todas as vítimas que lhe fossem oferecidas. Ao Sul desta sala, porém próximas dela, elevam-se várias pedras grandes, sobrepostas umas às outras, as quais formam uma espécie de caramanchão abobadado. Este lugar tinha o nome de Trono ou Púlpito, por ser dele que El-Rei Dom João Ferreira-Quaderna, inculcado Profeta, pregava a seus sectários. Cerca de duzentas braças ao Norte das duas Torres,
Primeira Notícia dos Quadernas e da Pedra do Reino A Pedra do Reino situa-se numa serra áspera e pedregosa do Sertão do Pajeú, fronteira da Paraíba com Pernambuco, serra que, depois dos terríveis acontecimentos de 18 de Maio de 1838, passou a ser conhecida como "Serra do Reino". Dela descem águas que, através dos rios Pajeú, Piancó e Piranhas, são ligadas a três dos "sete Rios sagrados" e três dos sete Reinos do meu Império. Hoje, a Serra está menos áspera e impenetrável do que no tempo do meu bisavô Dom João Ferreira-Quaderna. Ainda existe um Penedo colossal, cuja concavidade natural, na inferior, formava um grande esconderijo que, aumentado por profunda escavação que ali fizeram os Sebastianistas, adquiriu porções para comportar o número de duzentas pessoas. Este 1 é conhecido pelo nome de Casa-Santa, por ser ali que o peru e execrável Rei João Ferreira-Quaderna recolhia e embriagav seus associados, ministrando-lhes beberagens, todas as vezes pretendia vítimas voluntárias para o Reino".
Este, nobres Senhores e belas Damas, foi um dos trecho Crônica-Epopéica que mais influência exerceram na minha fo cão político-literária. Foi ele que me convenceu, de uma vez todas, que havia alguma coisa de sagrado, escondida e aprisio nas grades de granito de tudo quanto é pedra sertaneja po afora. Foi ele que tornou para sempre sagradas em meu sa as palavras torre, pedra, prata, chuvisco prateado, Profeta, tr sebastianismo, penedo, pedras de cor férrea, brilho de malacac Catedral, Reino e Vaticinados.
Ocorre, ainda, que eu tinha lido, no jornal do Govern Paraíba, A União, um artigo, publicado em 1924, pelo extra nário Ademar Vidal, escritor paraibano tão importante que che até, a ser Delegado de Polícia. Nesse artigo, contava ele viagem que tinha feito pelo Sertão, e dizia que as pedras e laj do nosso sagrado Cariri encontram-se, às vezes, em aglomer que parecem Fortalezas ou Castelos arruinados. A partir daí, vez que eu me lembrava dos dois rochedos gêmeos da Pedra Reino, era como se eles fossem, além da Catedral Soterranha Os Reis, meus antepassados, tinham revelado, a Fortaleza Castelo onde se fundamenta a realeza do nosso sangue.
Em 1838, o Padre Francisco José Corres de Albuque fez um desenho representando as duas Pedras Encantadas do n Reino, desenho que Pereira da Costa e Souza Leite publica Levei meu irmão Taparica à nossa Biblioteca e pedi-lhe copiasse a estampa do Padre, cortando-a, depois, na madeira, ser impressa num "folheto" que eu pensava publicar, tendo c assunto o nosso Reino. Taparica, a princípio, fez cara feia. que, no desenho do Padre, tudo era miúdo demais, e que, daq jeito, dava muito trabalho para cortar. Retruquei que ele modificar o desenho a seu modo. Então concordou, e fez a gra que vai anexada, também, aos Autos desta Apelação, para pro cionar a Vossas Excelências todos os elementos necessários estudo da questão.
Como se vê por essa simples amostra, os acontecimentos da edra do Reino foram suficientemente astrosos e fatídicos para arcar para sempre meu sangue de realeza. De fato, porém, nossa gia história começa antes, noutra Pedra sagrada, a "Serra do odeador", onde, em 1819, aparecem três Infantes sertanejos. O cimeiro, Dom Silvestre José dos Santos, que morreu sem desndência, foi o primeiro varão de minha família a subir ao trono, m o nome de Dom Silvestre I, o Rei do Rodeador. O segundo ra seu irmão, Dom Gonçalo José Vieira dos Santos. O terceiro t meu trisavô, Dom José Maria Ferreira-Quaderna, primo-legímo e cunhado dos outros dois, por ter se casado com a irmã eles, a Infanta Dona Maria Vieira dos Santos, em cujo ventre na gerado meu bisavô, Dom João Ferreira-Quaderna, o Exeável.
O reinado de Dom Silvestre I, no Rodeador, foi curto, mas tinha todas as características tradicionais da nossa Dinastia. u trono era uma Pedra sertaneja, Catedral, Fortaleza e Castelo. ali, ele pregava também a ressurreição daquele Rei antigo, sanem,, casto e sem mancha, que foi Dom Sebastião, o Desejado.
gava também a Revolução, com a degola dos poderosos e a tauração de novo Reino, com o Povo no poder. O consagrado adémico pernambucano, Doutor Pereira da Costa, fez sua Crôca, que não transcrevo por economia retórica. Limito-me a inrmar que, temerosos os proprietários das redondezas pela proagação de Reino tão revolucionário, fizeram apelo ao Governador ufs do Rego, que mandou para lá uma tropa, comandada pelo arechal Luís Antônio Salazar Moscoso. Incendiaram o Arraial, orrendo nas chamas mulheres e crianças, enquanto os homens ue escaparam ao incêndio e à fuzilaria foram passados a fio de pada.
A Crônica-Epopéica de Pereira da Costa aumentou danadaente o número de minhas palavras sagradas, com séquito, ressurição, El-Rei, tesouro, templo, revelação, quimeras, prodígios, enntamentos, encantação, desencantação, jóia, agraciado, confrade, enitente, abóbada, liturgia, desafio, armas, beberagem, gado, /0 go, raiai, carnificina, assalto povoação, chamas, espadas e fuzilarias. oda vez que eu evocava esse primeiro reinado, o Primeiro Império a minha família, via todo aquele sangue derramado no Rodeador nes flan de tent mai de lida Cler tóri~ do r sino Dep evoc razã* aque no t sido com já ni de F e sar do S FO] Prir e da E Sertãc que, c passos águas a três Impér no tel existe um Penedo colossal, cuja concavidade natural, na parte inferior, formava um grande esconderijo que, aumentado por uma profunda escavação que ali fizeram os Sebastianistas, adquiriu proporçôes para comportar o número de duzentas pessoas. Este lugar é conhecido pelo nome de Casa-Santa, por ser ali que o perverso e execrável Rei João Ferreira-Quaderna recolhia e embriagava os seus associados, ministrando-lhes beberagens, todas as vezes que pretendia vítimas voluntárias para o Reino".
Este, nobres Senhores e belas Damas, foi um dos trechos de Crônica-Epopéica que mais influência exerceram na minha formação político-literária. Foi ele que me convenceu, de uma vez por todas, que havia alguma coisa de sagrado, escondida e aprisionada nas grades de granito de tudo quanto é pedra sertaneja por at afora. Foi ele que tornou para sempre sagradas em meu sangue as palavras torre, pedra, prata, chuvisco prateado, Profeta, trono, sebastianismo, penedo, pedras de cor férrea, brilho de malacacheta, Catedral, Reino e Vaticinados.
Ocorre, ainda, que eu tinha lido, no jornal do Governo da Paraíba, A União, um artigo, publicado em 1924, pelo extraordinário Ademar Vidal, escritor paraibano tão importante que chegou, até, a ser Delegado de Policia. Nesse artigo, contava ele uma viagem que tinha feito pelo Sertão, e dizia que as pedras e lajedos do nosso sagrado Cariri encontram-se, às vezes, em aglomerados que parecem Fortalezas ou Castelos arruinados. A partir daí, toda vez que eu me lembrava dos dois rochedos gêmeos da Pedra do Reino, era como se eles fossem, além da Catedral Soterranha que os Reis, meus antepassados, tinham revelado, a Fortaleza e o Castelo onde se fundamenta a realeza do nosso sangue.
Em 1838, o Padre Francisco José Corres de Albuquerque fez um desenho representando as duas Pedras Encantadas do nosso Reino, desenho que Pereira da Costa e Souza Leite publicaram. Levei meu irmão Taparica à nossa Biblioteca e pedi-lhe qu copiasse a estampa do Padre, cortando-a, depois, na madeira, para ser impressa num "folheto" que eu pensava publicar, tendo como assunto o nosso Reino. Taparica, a princípio, fez cara feia. Dizia que, no desenho do Padre, tudo era miúdo demais, e que, daquele jeito, dava muito trabalho para cortar. Retruquei que ele podia modificar o desenho a seu modo. Então concordou, e fez a gravura que vai anexada, também, aos Autos desta Apelação, para propor cionar a Vossas Excelências todos os elementos necessários a estudo da questão.
Como se vê por essa simples amostra, os acontecimentos da pedra do Reino foram suficientemente astrosos e fatídicos para marcar para sempre meu sangue de realeza. De fato, porém, nossa régia história começa antes, noutra Pedra sagrada, a "Serra do Rodeador", onde, em 1819, aparecem três Infantes sertanejos. O primeiro, Dom Silvestre José dos Santos, que morreu sem descendência, foi o primeiro varão de minha família a subir ao trono, com o nome de Dom Silvestre I, o Rei do Rodeador. O segundo era seu irmão, Dom Gonçalo José Vieira dos Santos. O terceiro foi meu trisavô, Dom José Maria Ferreira-Quaderna, primo-legítimo e cunhado dos outros dois, por ter se casado com a irmã deles, a Infanta Dona Maria Vieira dos Santos, em cujo ventre seria gerado meu bisavô, Dom João Ferreira-Quaderna, o Execrável.
O reinado de Dom Silvestre I, no Rodeador, foi curto, mas já tinha todas as características tradicionais da nossa Dinastia. Seu trono era uma Pedra sertaneja, Catedral, Fortaleza e Castelo. Dali, ele pregava também a ressurreição daquele Rei antigo, sangrento, casto e sem mancha, que foi Dom Sebastião, o Desejado. Pregava também a Revolução, com a degola dos poderosos e a instauração de novo Reino, com o Povo no poder. O consagrado Acadêmico pernambucano, Doutor Pereira da Costa, fez sua Crônica, que não transcrevo por economia retórica. Limito-me a informar que, temerosos os proprietários das redondezas pela propagação de Reino tão revolucionário, fizeram apelo ao Governador Luís do Rego, que mandou para lá uma tropa, comandada pelo Marechal Luís Antônio Salazar Moscoso. Incendiaram o Arraial, morrendo nas chamas mulheres e crianças, enquanto os homens que escaparam ao incêndio e à fuzilaria foram passados a fio de espada.
A Crônica-Epopéica de Pereira da Costa aumentou danadamente o número de minhas palavras sagradas, com séquito, ressurreição, El-Rei, tesouro, templo, revelação, quimeras, prodigios, encantamentos, enc-antação, desencantação, jóia, agraciado, confrade, penitente, abóbada, liturgia, desafio, armas, beberagem, gado, fogo, arraial, carpi ficina, assalto, povoação, chamas, espadas e fuzilarias. Toda vez que eu evocava esse primeiro reinado, o Primeiro Império da minha família, via todo aquele sangue derramado no Rodeador
O Primeiro Império existe um Penedo colossal, cuja concavidade natural, na parte inferior, formava um grande esconderijo que, aumentado por uma profunda escavação que ali fizeram os Sebastianistas, adquiriu proporções para comportar o número de duzentas pessoas. Este lugar é conhecido pelo nome de Casa-Santa, por ser ali que o perverso e execrável Rei João Ferreira-Quaderna recolhia e embriagava os seus associados, ministrando-lhes beberagens, todas as vezes que pretendia vítimas voluntárias para o Reino".
Este, nobres Senhores e belas Damas, foi um dos trechos de Crônica-Epopéica que mais influência exerceram na minha formação político-literária. Foi ele que me convenceu, de uma vez por todas, que havia alguma coisa de sagrado, escondida e aprisionada nas grades de granito de tudo quanto é pedra sertaneja por at afora. Foi ele que tornou para sempre sagradas em meu sangue as palavras torre, pedra, prata, chuvisco prateado, Profeta, trono, sebastianismo, penedo, pedras de cor férrea, brilho de malacacheta, Catedral, Reino e Vaticinados.
Ocorre, ainda, que eu tinha lido, no jornal do Governo da Paraíba, A União, um artigo, publicado em 1924, pelo extraordinário Ademar Vidal, escritor paraibano tão importante que chegou, até, a ser Delegado de Polícia. Nesse artigo, contava ele uma viagem que tinha feito pelo Sertão, e dizia que as pedras e lajedos do nosso sagrado Cariri encontram-se, às vezes, em aglomerados que parecem Fortalezas ou Castelos arruinados. A partir daí, toda vez que eu me lembrava dos dois rochedos gêmeos da Pedra do Reino, era como se eles fossem, além da Catedral Soterranha que os Reis, meus antepassados, tinham revelado, a Fortaleza e o Castelo onde se fundamenta a realeza do nosso sangue.
Em 1838, o Padre Francisco José Corres de Albuquerque fez um desenho representando as duas Pedras Encantadas do nosso Reino, desenho que Pereira da Costa e Souza Leite publicaram. Levei meu irmão Taparica à nossa Biblioteca e pedi-lhe que copiasse a estampa do Padre, cortando-a, depois, na madeira, para ser impressa num "folheto" que eu pensava publicar, tendo como assunto o nosso Reino. Taparica, a princípio, fez cara feia. Dizia que, no desenho do Padre, tudo era miúdo demais, e que, daquele jeito, dava muito trabalho para cortar. Retruquei que ele podia modificar o desenho a seu modo. Então concordou, e fez a gravur que vai anexada, também, aos Autos desta Apelação, para propor cionar a Vossas Excelências todos os elementos necessários a estudo da questão.
Como se vê por essa simples amostra, os acontecimentos da pedra do Reino foram suficientemente astrosos e fatídicos para marcar para sempre meu sangue de realeza. De fato, porém, nossa régia história começa antes, noutra Pedra sagrada, a "Serra do Rodeador", onde, em 1819, aparecem três Infantes sertanejos. O primeiro, Dom Silvestre José dos Santos, que morreu sem descendência, foi o primeiro varão de minha família a subir ao trono, com o nome de Dom Silvestre I, o Rei do Rodeador. O segundo era seu irmão, Dom Gonçalo José Vieira dos Santos. O terceiro foi meu trisavô, Dom José Maria Ferreira-Quaderna, primo-legítimo e cunhado dos outros dois, por ter se casado com a irmã deles, a Infanta Dona Maria Vieira dos Santos, em cujo ventre seria gerado meu bisavô, Dom João Ferreira-Quaderna, o Execrável.
O reinado de Dom Silvestre I, no Rodeador, foi curto, mas já tinha todas as características tradicionais da nossa Dinastia. Seu trono era uma Pedra sertaneja, Catedral, Fortaleza e Castelo. Dali, ele pregava também a ressurreição daquele Rei antigo, sangrento, casto e sem mancha, que foi Dom Sebastião, o Desejado. Pregava também a Revolução, com a degola dos poderosos e a instauração de novo Reino, com o Povo no poder. O consagrado Acadêmico pernambucano, Doutor Pereira da Costa, fez sua Crônica, que não transcrevo por economia retórica. Limito-me a informar que, temerosos os proprietários das redondezas pela propagação de Reino tão revolucionário, fizeram apelo ao Governador Luís do Rego, que mandou para lá uma tropa, comandada pelo Marechal Luis Antônio Salazar Moscoso. Incendiaram o Arraial, morrendo nas chamas mulheres e crianças, enquanto os homens que escaparam ao incêndio e à fuzilaria foram passados a fio de espada.
A Crônica-Epopéica de Pereira da Costa aumentou danadamente o número de minhas palavras sagradas, com séquito, ressurreição, El-Rei, tesouro, templo, revelação, quimeras, prodígios, encantamentos, encantação, desencantação, jóia, agraciado, confrade, penitente, abóbada, liturgia, desafio, armas, beberagem, gado, fogo, arraial, carnificina, assalto, povoação, chamas, espadas e fuzilarias. Toda vez que eu evocava esse primeiro reinado, o Primeiro Império da minha família, via todo aquele sangue derramado no Rodeador
Q Primeiro Impériopingando sobre uma Coroa de Prata. Via as espadas luzindo por entre chamas gloriosas, ao pipocar da fuzilaria. Via meus parentes, tingindo os dentes e escumando de raiva sagrada, lutando na defesa do Arraial incendiado, por entre fogaréus, quimeras, prodfgios e revelações.
Era assim que, aos poucos, o Trono da minha família ia mpeçonhando e glorificando meu sangue, até que eu chegasse a ser "o prodígio e encantamento" que sou hoje; e foi por isso que, quando o rapaz do cavalo branco reapareceu miraculosamente entre nós, meu sangue estava preparado e eu ousei me meter, apesar de toda a minha covardia, em sua terrível Desaventura.
Outra coisa importante é que, como diz Pereira da Costa, a tradição da minha família é sempre a fundação de um Reino junto a uma Pedra, dentro da qual, prisioneiro e encantado, está E1-Rei Dom Sebastião, o Desejado. No Reino, domina um Catolicismo meio-maçônico e sertanejo, baseado no qual nossa família começa a assaltar os gados, as terras, as fazendas, as pastagens e os dinheiros dos proprietários ricos, para distribuí-los com os súditos pobres e fiéis do Reino, juntamente com Cartas-Patentes e Cartas-de-Brasão. Tudo isso ia sendo pacientemente estudado e entendido por mim que, à medida que me punha adulto, ia guardando tudo isso em meu coração, para quando se completasse, de 1935 a 1938, o Século da Pedra do Reino, abrindo-se caminho para que um Ferreira-Quaderna se sentasse novamente no Trono do Sertão do Brasil.
GRAVURA DE TAPARICA, BASEADA NO DESENHO DO PADRE E REPRESENTANDO AS PEDRAS DO REINO. VE-SE, A DIREITA, COM CETRO E MANTO, MEU BISAVO DOM JOAO FERREIRA-QUADERNA, O EXECRÁVEL, E, A ESQUERDA, MINHA BISAVO, A PRINCESA ISABEL, SENDO DEGOLADA. EMBAIXO DA PEDRA, O RECÉM-NASCIDO QUE ELA PARIU NOS ESTREME ÇOS DA MORTE E QUE, DEPOIS, FOI MEU AVO, DOM PEDRO ALEXANDRE.
O Segundo Império O Primeiro Reinado de minha família terminou, portanto, com a queda gloriosa e fatídica da Pedra do Rodeador, por entre
chamas, com o Rei Dom Silvestre I degolado a fio de espada.
Seu irmão, sua irmã e o marido desta, porém, escaparam à chacina. Vendo o perigo que corriam se ficassem por ali, emigra ram para o Sertão do Pajeú, fixando-se em terras daquela que seria, depois, a Serra do Reino. Era um decreto da Providência
Divina, que desejava fixar os Ferreira-Quadernas exatamente na fronteira das duas Províncias niais sagradas do Império do Brasil, a Paraíba e Pernambuco, às quais somente o Rio Grande do Norte pode ser ajuntado em absoluto pé. de igualdade. Delineavam-se assim, aos poucos, as fronteiras do nosso Império da Pedra do Reino, cortado pelos sete Rios sagrados e integrado por seus sete Reinos tributários.
Chegaram, pois, aqueles Príncipes, errantes, retirantes e malandantes, pelas estradas e descaminhos do Sertão, até a Serra Talhada, onde, ocultando a linhagem principesca de seu sangue, acolheram-se à proteção daquela simples família de Barões sertanejos, os poderosos e façanhudos Pereiras - família que, em nosso tempo, daria aquele magnífico Luís do Triângulo, Condestável do Reino de Princesa e chefe da tropa do rapaz do cavalo branco.
Pouco iria durar, porém, a tranqüilidade plebéia que meus antepassados afetavam na Vila Bela da Serra Talhada, porque vocação de Rei é mesmo que o Diabo para atentar o sangue da minha família! Lá um dia, o Infante Dom João Antônio Vieira dos Santos, filho de Dom Gonçalo José, sabendo a gloriosa história vivida por seu tio, EI-Rei Dom Silvestre I, inflamou-se também da sagrada ambição do Trono e do dom escumante da Profecia, e, proclamando-se Rei, iniciou o Segundo Império, com nova pregação do Reino-Encantado e subindo ao trono com o nome de Dom João I, o Precursor. Conta, lá, o genial Antônio Áttico de Souza Leite: "Tempestuoso e medonho, corria o ano de 1835. A comarca de Flores, retalhada por partidos, era teatro de constantes desordens e conflitos. Daí para os começos de 1836, um mameluco de nome Joãò Antônio dos Santos, morador no termo de Vila Bela da Serra Talhada, munido de duas pedrinhas mais ou menos formosas que ele mostrava misteriosamente, dizia aos incautos habitantes daquele lugar serem elas dois brilhantes finíssimos, tirados por ele próprio de uma Mina encantada que lhe fora revelada. Inspirado num velho folheto, do qual nunca se apartava, e que encerrava um desses contos ou lendas, que andavam muito em voga, acerca do misterioso desaparecimento de El-Rei Dom Sebastião, na Batalha de Alcácer-Quibir, em Africa, e de sua esperada e quase infalível ressurreição, tratou de propalar pela população daquele e dos vizinhos distritos, que estava sendo conduzido todos os dias, por EI-Rei Dom Sebastião, a um sítio pouco distante do lugar de sua residência, no qual mostrava-lhe EI-Rei, além de uma Lagoa encantada, de cujas margens extraíra ele aqueles e outros brilhantes, duas belíssimas Torres, de um Templo já meio visível, que seria, por certo, a Catedral do Reino, na época pouco distante da sua Restauração. Assim discorrendo, e nunca se esquecendo de mostrar, entre outros, um tópico do folheto em que o Visionário escritor, improvisado em Profeta, ensinava que quando João se casasse com Maria, aquele Reino se desencantaria, conseguiu ele, graças à ignorância da população e à bem conhecida tendência que o espírito humano tem para abraçar o maravilhoso e o fantástico, não só realizar o seu casamento com uma interessante rapariga de nome Maria - que sempre, até ali, lhe fora negada - como obter, por empréstimo, de muitos Fazendeiros do lugar, bois, cavalos e dinheiro, em porção não pequena, com a onerosa condição de restituir tudo em muitos dobros, logo que se operasse o pretenso desencantamento do misterioso Reino. Desde o começo de sua prédica, auxiliavam-tio seu próprio Pai, Gonçalo José Vieira dos Santos, seu irmão Pedro Antônio, seus tios e parentes José Joaquim Vieira, Manuel Vieira, José Vieira, Carlos Vieira, José-Maria Ferreira-Quaderna e João Pilé Vieira Gomes, os quais, constituindo, por assim dizer, o seu Apostolado, iam dar testemunho das suas riquezas e fazer repercutir os seus engenhosos embustes no meio das populações ignorantes do Piancó, do Cariri, Riacho do Navio e margens do Rio São Francisco. Seus esforços e os dos seus mais ardentes sectários iam engrossando gradualmente a seita com multiplicadas conquistas feitas nas últimas camadas da sociedade. Essas e outras considerações moveram o Padre Antônio Gonçalves de Lima a reclamar a presença do missionário Padre Francisco José Correa de Albuquerque naquele distrito. 0 incansável apóstolo, apesar de sua idade setuagenária e falta de saúde, não se fez esperar. Instruído de tudo quanto havia, seguiu para a fazenda `Cachoeira', pertencente ao Capitão Simplício Pereira, onde, felizmente, compareceu o impostor, ainda durante as Missões, perante o admirável Levita. Depois de entregar-lhe as duas pedras - que estavam longe de ser brilhantes - e de publicamente confessar os seus embustes, prometeu-lhe retirar-se do lugar, o que pôs logo em execução, procurando os lados do Rio do Peixe, Sertão da Paraíba, e passando dali aos do Sertão dos Inhamuns, no Ceará".
Como se vê, a tradição do nosso Reino continuava. E teria ido logo muito longe, se não fosse a intervenção indébita desse Padre, que convenceu meu tio-bisavô, Dom João I, a abdicar, o que mostra como o Catolicismo puramente romano, ortodoxo e oficial, é funesto para a sagrada Coroa do Sertão. Foi por ter ido nessa conversa que meu tio Dom João I perdeu esse nome, tão régio