Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  A Pedra Do Reíno E O Principe Do Sangue Do Vai-e-volta Ariano Suassuna - Página 20  Voltar

A pedra do reíno e o Principe do Sangue do Vai-e-Volta

Ariano Suassuna

"`Nada disso!', interveio Samuel. `Não há motivo nenhum para galhofa, a não ser por parte dos ignorantes de sua marca, Quaderna! O título foi muito bem escolhido e está heraldicamente correto!' * 'Pode estar correto como esteja, mas eu conheço o Povo e sei que a primeira coisa que eles vão fazer é transformar o título. Vão dizer a Vidama do Cariri, ou a Mulher-Dama do Cariri ou coisa pior ainda! Por isso, por segurança, acho melhor, ou o senhor publicar o nome como o Vidamo, ou então usar somente o nome de Condestável!' "'Magnífica idéia!', disse o Doutor Pedro, mostrando, desde logo, como era homem de acordos. `Vou usar só o título de Condestável!' "Havia porém ainda um problema que teria de ser resolvido logo, Senhor Corregedor: era o do choque entre a minha soberania e as atribuições do Doutor Pedro. Eu não era idiota para conseguir uma posição durante anos e anos de lutas e idéias e, de repente, deixar que ela me fosse arrebatada em dois minutos, de modo nenhum! Comumente, eu não falava em público das minhas realezas, nem reivindicava nada que pudesse ferir e chocar os outros, para não angariar inimigos. Entretanto, mesmo na vida dos políticos, feita de astúcias e transigencias, há uns dois ou três momentos cruciais de choque grave em que as decisões têm de ser tomadas e os caminhos escolhidos, momentos nos quais a astúcia tem de ser deixada de lado. Ali, agora, eu via que estava diante de um desses momentos decisivos. Tudo tinha qye ser resolvido de uma vez para sempre, antes que fosse tarde. Assim, preparando-me para uma luta de vida ou de morte, falei: "`Existe, porém, um outro problema, Doutor Pedro, e ele precisa ser resolvido logo, antes de passarmos adiante. E que existem, aqui no Cariri, ligadas à família Garcia-Barretto, umas certas particularidades heráldicas e monárquicas, que não sei se são do seu conhecimento...' "'O senhor se refere, naturalmente, à Ordem de Distinção do Reino do Cariri, da qual seu falecido tio, Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto, era o Grão-Mestre e o senhor o Rei d'Armas... Estou inteiramente a par disso. A par e de acordo, pois ninguém melhor do que eu reconhece a legitimidade dos seus títulos, Senhor Pedro Dinis Quaderna. Aliás, quero lhe declarar que o Senhor Arcebispo está a par também de tudo, e, de cera forma, foi a Ordem de Distinção do Reino do Cariri que inspirou a criação da Ordem do Templo de São Sebastião. Quero então, logo de início, esclarecer-lhe duas coisas: primeiro, é que a nossa Ordem é uma Ordem Arquiepiscopal e só, não se estendendo sua jurisdição absolutamente ao campo político e temporal! Eu sou Condestável, Heraldo e Rei de Armas somente dessa Ordem, e nada mais reivindico nem poderia reivindicar! A segunda é que eu não poderia nem deveria, nunca, objetar coisa alguma à Ordem de Distinção do Reino do Cariri, uma vez que todas as pretensões' do meu protegido e pupilo Dom Sinésio Sebastião Garcia-Barretto se estribam nessas legitimidades: ou o pessoal da Ordem apóia Sinésio ou ele estará só! Quero lhe dizer assim, desde logo, que, não só reconheço a legitimidade da Ordem e a qualidade de Rei de Armas do senhor, como vou reivindicar, eu mesmo, minha inscrição nela, como agraciado, nem que seja no grau mais humilde e modesto, o grau de Cavaleiro!' "Que grande homem era aquele! Com uma penada só, ele afastava todos os meus receios! Não haveria briga nenhuma dele comigo: os horizontes se aclararam e, sem eu me sentir, um largo sorriso de felicidade e beatitude se estampou no meu rosto. Era a primeira vez que um homem nobre, de nobreza tão indiscutível ou mais indiscutível do que a de Samuel - pois era reconhecida e declarada oficialmente por um Príncipe da Igreja - reconhecia publicamente minhas grandezas e monarquias! Clemente e Samuel, preocupadíssimos, olharam-me com o maior despeito deste mundo e houve um instante de grande silêncio e constrangimento. Então Samuel, não suportando mais aquilo, venceu a cerimônia que ainda tinha com o Doutor Pedro e falou: "'Mas Doutor Pedro Gouveia, a seriedade dessa Ordem Arquiepiscopal, assim como a importancia dos seus títulos, que eu reconheço, não permitem que o senhor, assim sem maiores exames - desculpe o que lhe digo - reconheça essas coisas caricatas de Quaderna como heraldicamente e fidalgamente legítimas!' "`O senhor está enganado, Doutor Samuel!', disse gravemente o Doutor Pedro Gouveia. `Estou perfeitamente informado a respeito de tudo o que se passa aqui e sobre as pessoas realmente importantes da muito nobre e leal Vila Real da Ribeira do Taperoá. É por isso que tomei informações sobre cada um e todos, sobre as famílias, sobre as qualidades de raça, etc., porque, se bem que a Ordem seja mais de natureza espiritual, raça é uma coisa importante, importantíssima! Por isso tomei informações, e posso hoje declarar, com segurança, quais serão as pessoas realmente dignas de figurar entre os agraciados por um Príncipe da Igreja como Dom Adauto! Posso também dizer que posso ter encontrado alguém a sua altura, Doutor Samuel, mas ninguém que o excedesse em títulos de linhagem e sangue!' "'O senhor se informou sobre mim também?', indagou Samuel, curioso.

"'Sobre o senhor também, é claro! Creio, mesmo, que vou revelar hoje, aqui, sobre sua ilustre família, particularidades que nem o senhor mesmo conhece!' "'O quê? É possível?', disse Samuel, espantando-se.

"'E possível, o senhor verá!', confirmou o Doutor. `Olhe, Doutor Samuel: em Pernambuco, voces têm a Nobiliarquia Pernambucana, de Borges da Fonseca. Aqui na Paraíba a nossa Nobiliarquia, o nosso Gotha, são as Datas e Notas para a História da Paraíba, de Irineu Pinto, e sobretudo os Apontamentos para a História Territorial da Paraíba, do genial João de Lyra Tavares. Sim, porque os Senhores de datas e sesmarias concedidas pelos Reis, foram, nos séculos XVI, XVII e XVIII, os troncos de nossa Aristocracia territorial e feudal. Pois bem: segundo informação de Irineu Pinto, em 1719 um certo Diogo Vandernes governou a Paraíba, formando uma Junta de homens nobres, com João de Moraes Valcáçar, Feliciano Coelho de Barros, Francisco Souto Maior, Jerônimo Coelho de Alvarenga e Eugênio Cavalcanti de Albuquerque. Ora, como o senhor sabe, nessas Juntas governativas só entrava gente da mais alta fidalguia, escolhida entre os homensbons dos da governança da terra, como dizem os vélhos documentos, o que prova, mais uma vez, a ilustração e a aristocracia do nobre sangue dos Wan d'Ernes, de Pernambuco, que são os mesmos Vandernes da Paraíba.' "'Mas como é que se escreve o sobrenome desse tal Diogo?', indagou Samuel, querendo acreditar, mas ainda cauteloso.

"'O nome dele se escreve pegado, com v no começo e s no fim, mas a famflia é a mesma, sem dúvida nenhuma! Tanto assim que, a 16 de Fevereiro de 1759, aparece um filho de Diogo, Cosme Fernandes Vandernez, requerendo, na Paraíba, terras a El-Rei. Este escreve Wan d'Ernes ainda pegado e como v, mas com z no fim. As diferenças são causadas unicamente pelo desleixo e pela ortografia arbitrária do século XVIII, principalmente no que toca a nomes próprios. De qualquer maneira, fiz minhas pesquisas e posso atestar que a família do nobre e ilustre Sigmundt Wan d'Ernes, companheiro e familiar do Conde João Maurício, Príncipe de Nassau-Siegen, deitou raízes em Pernambuco - onde seus descendentes mantiveram o nome como ele sempre usou - mas passou, depois, ã Paraíba, para onde veio um descendeñte seu, pai daquele Diogo e avô do Cosme que requereu terras em 1759. Daí para cá, não se encontram mais referências a nenhum Wan d'Ernes, o que me leva a crer que a família tenha se extinguido aqui na Paraíba!' "Bem, pode ser!', disse Samuel, lisonjeado. `Talvez esse parente nosso tenha traduzido o nome para evitar complicações políticas, quem sabe? Há, também, a possibilidade de ter sido ele um bastardo. Esses Wan d'Ernes antigos eram uns danados! Talvez algum deles tenha tido um filho bastardo, a quem não autorizou usar o nome legítimo, tendo-o traduzido e aportuguesado assim. Quem sabe? É possível! Mas o que eu quero saber é com que finalidade o senhor perdeu seu precioso tempo fazendo essas pesquisas!' "Fiz essas pesquisas porque na Ordem do Templo de São Sebastião há graus e graus de nobreza. Era preciso fazer distinções, porque, quando fôssemos inscrever os agraciados no Nobiliário, não iríamos igualar um comerciante qualquer, af, com um legítimo Wan d'Ernes!' "Quer dizer que o senhor pensa em me agraciar como Cavaleiro da Ordem?', perguntou Samuel, meio incrédulo a despeito de si.

"`Mas como, Doutor Samuel? O senhor indaga se eu penso em agraciá-lo como Cavaleiro? Não, não, seria muito pouco para um Wan d'Ernes! Se entrarmos em entendimento, o senhor será Comendador da Ordem do Templo de São Sebastião!' "Se entrarmos em entendimento? Que é que o senhor quer dizer com isso? Terei que pagar alguma coisa para entrar na Ordem?', perguntou Samuel, que, apesar de fidalgo, tinha horror a gastar dinheiro fosse com que fosse.

"'O senhor não terá que pagar nada, é claro!', tranqüilizou-o o Doutor Pedro. `Isso de pagar, fica para os comerciantes. O senhor é uma daquelas pessoas de mérito excepcional a que se refere o Decreto Arquiepiscopal, e como tal será considerado. Assim, a única dúvida que ainda tenho a seu respeito nisso tudo, é a respeito do nome das terras a que será ligado seu título de Barão!' "Barão? Eu? Eu serei Barão?', disse Samuel, quase sem voz.

"Mas é claro que será, e, nisso, nem a Arquidiocese, nem a nossa Ordem, fazem favor nenhum ao senhor, cuja nobreza absolutamente não precisa dessas coisas! A única coisa que vamos fazer é outorgar-Ihe um título de nobreza que reconhece, formal

ESCUDO DE ARMAS DO DOUTOR SAMUEL WAN D'ERNES

mente, o senhorio feudal e a linhagem ilustre do nobre sangue dos Wan d'Ernes! Que o senhor tem direito ao título de Barão e ao correspondente Escudo de Armas, que lhe será passado juntamente com a Carta de Brasão, isso é incontestável. O que quero saber é que terras escolheremos para ligar ao baronato! Isto, é o senhor quem vai decidir. Se quer ligá-lo às terras dos Wan d'Ernes na Paraíba, será Barão do Riacho do Jacu, pois essa foi a sesmaria de Cosine Vandernez. Se prefere as de Pernambuco, será Barão do Guarupá. Qual é o nome de sua preferência?' "O de Barão do Guarupá, é claro: é nome pernambucano, é o senhorio de terras mais antigo da família e finalmente não tem essa horrível conotação sertaneja e bárbara de Riacho dos Jacus!' "`E qual será o brasão de Samuel?', perguntei, despeitado, mas fazendo todos os esforços para me mostrar superior e sereno. O Doutor respondeu: "Bem, não é preciso criar nada de novo nem gastar os miolos procurando: o escudo terá que ser composto com o velho brasão dos Wan d'Ernes.' " `E os Wan d'Ernes têm brasão?', perguntei, desconfiado, porque Samuel nunca tinha nos falado disso, o que não deixava de ser estranhável.

"'Claro que os Wan d'Ernes têm brasão!', insistiu o Doutor. `Existe até uma carta do Conde João Maurício de Nassau reconhecendo isso! O brasão é esquartelado por uma cruz de filetes de ouro. O primeiro quartel é de goles, ou vermelho, com uma cruz de lisonjas de azul coticadas de ouro. O segundo, é de verde, com cinco pombas volantes de prata, armadas de vermelho e postas em aspa, e assim os contrários. O timbre, é uma Anta, de sua cor.' "Cinco pombas volantes em campo verde?', interrompeu Clemente rindo, e achando finalmente um motivo para extravasar seu despeito, dez vezes maior do que o meu, porque o dele era complicado por questões políticas. `Está bom, o brasão, está ótimo para esse galinha-verde, esse integralista de segunda ordem, lambe-cu de Plínio Salgado! Primeiro, porque o campo é verde, e verde é a cor dos integralistas. E depois porque, quem diz cinco pombas volantes, diz cinco caralhos voadores, que é a mesma coisa!' "`Prezado Professor Clemente', disse o Doutor Pedro cortesmente mas com firmeza, `eu, se fosse o senhor, moderaria as expressões sobre a nossa Ordem e sua Heráldica! Porque se o senhor não reconhece a validade de ambas, está, ipso facto, desmoralizando a sua linhagem e os títulos de nobreza que Sua Excelência Revendíssima, o Senhor Arcebispo da Paraíba, me autorizou expressamente a lhe outorgar!' "O quê?', gaguejou Clemente. `E o Arcebispo me conhece? "'Conhece, sim, e aprovou seu nome para a Ordem!' "'Digno Antístite!', comentou Clemente. `Não sabia que ele já tinha ouvido falar de mim!' "`Quem é que, na Paraíba, não conhece o senhor, pelo menos de fama? Um Filósofo, um professor, um jurista que honra a cultura brasileira!' "'Mas Clemente é negro e comunista!', disse Samuel, desesperando-se ao ver que o cafre iria ser igualado, talvez, a ele.

"'A nossa Ordem não tem conotações políticas, Doutor Samuel!', disse o Doutor. `Mérito é mérito! Além disso, o Professor Clemente é bisneto do Visconde de Caicó' "'As noticias que correm aqui são muito diferentes!', teimou Samuel. `Consta que Clemente é bastardo. O avô dele, fazendeiro, teve sua filha raptada por um almocreve negro que, depois de seduzi-la e engravidá-la, foi capado pelos irmãos da moça!' " `Isso e verdade, mas absolutamente não invalida minhas palavras, porque esse fazendeiro, avô do Professor Clemente, era exatamente filho do Visconde de Caicó. Outra coisa: nos cartórios de Caicó, Rio Grande do Norte, encontrei documentos que provam que o avô do Professor Clemente terminou consentindo, afinal, no casamento da filha, o que torna a descendência perfeitamente legítima. Isso, porém, não seria nada se os ascendentes do Professor Clemente não estivessem no nosso Gotha Sertanejo, como fidalgos possuidores de terras. Mas estão: a 13 de Março de 1615, Pedro Hará de Ravasco requer e obtém do Rei, na Paraíba e no Rio Grande do Norte, terras da Ribeira do Curajá. Esse Pedro Hará de Ravasco é ascendente direto do Visconde de Caicó, bisavô do Professor Clemente, que, como Comendador da nossa Ordem, terá somente que escolher seu título: ou Barão do Curajá, ou Visconde de Caicó, à sua escolha!' "`Prefiro o de Visconde de Caicó!', falou Clemente para surpresa minha. Eu julgava, Senhor Corregedor, que ele ia recusar asperamente tanto o título quanto a versão de sua descendência do fazendeiro, da qual ele tinha tanta raiva e que lhe atribuía sangue branco ao lado do negro e do tapuia dos quais ele tanto se dizia orgulhoso. Mas não, o desgraçado aceitou! Seu rosto exultava: pela primeira vez ele se via colocado em pé de igualdade nobiliárquica com o Fidalgo dos engenhos pernambucanos. Havia muita diferença em ser neto de um fazendeiro comum e ser bisneto de Visconde. Para ser Visconde, ele faria o acordo, para nunca mais ter que discutir seus olhos agateados e as marcas de sangue negro que havia em todo o seu corpo. Eu, danado da vida, joguei tudo isso na cara de Clemente, exprobrando-lhe, inclusive, a traição que ele fazia ao Sertão dele e a suas idéias de tantos anos. Mas o Doutor Pedro rebateu minhas palavras, vindo em socorro de Clemente. Disse: "Não há nada de estranho em o Professor Clemente ser Visconde! Os Cavalcantis de Arbuquerque têm sangue tapuia, e o Barão de Cotejipe tinha sangue negro!' "Eu esperava que Samuel, diante disso, viesse com suas galhofas habituais sobre a nobreza bastarda, a nobreza cafre, castanha, etc. Mas ele estava tão temeroso de desmoralizar a Ordem que o ia agraciar, tão envolvido pelo Doutor Pedro Gouveia, que não se atrevia mais a criticar nada. Então eu mesmo resolvi lutar. Intervim, indagando: "E Clemente terá brasão, também?' "Sim, é claro!', respondeu o Doutor. `O brasão dele é de ouro, com os dois cachorros negros dos leais, passantes e armados de vermelho, e com uma orla de goles, carregada de sete estrelas de prata. O timbre é uma Onça vermelha, passante, com os cachorros do escudo.' "Cachorro preto, está muito bem escolhido como animal heráldico de Clemente!', não pôde se impedir de observar Samuel. `Mas veja que coincidência, Doutor: no meu brasão, existe uma Anta, e meu movimento literário é exatamente o Tapirismo; no de Clemente, existe uma Onça, e o dele é o Oncismo! Agora, tem uma coisa: nós chamamos Quaderna, comumente, de Quaderna, o Castanho! Não me diga que Quaderna também terá brasão e que no dele existe um Cavalo castanho!' "Existe, sim!', disse o Doutor Pedro, e meu coração deu um pulo no peito. `Existe um Cavalo castanho, sim. Não no escudo, propriamente, mas sim no timbre. O escudo dos Quadernas é esquartelado. No primeiro quartel, há, em campo de ouro, um veado negro vilenado, inscrito numa quaderna de quatro crescentes vermelhos. No segundo, em campo vermelho, cinco floresde-lis de ouro, postas em santor, ou aspa, e assim os contrários. O timbre é um cavalo castanho, com asas, com as patas dianteiras levantadas e as traseiras pousadas, entre chamas de fogo!' "Valha-me Deus, Doutor Pedro!', disse Samuel. `Não é possível! Existem, aqui, duas versões sobre a família de Quaderna. Segundo a primeira, Quaderna descende daqueles fanáticos, assassinos e bárbaros, que se coroaram como Reis do Brasil, na Pedra do Reino. Mas o Pai dele, Pedro Justin Quaderna, um raizeiro e parasita dos Garcia-Barrettos, vivia espalhando outra versão, segundo a qual os Quadernas eram descendentés do Rei Dom Dinis de Portugal. Não me diga que o senhor se deu ao trabalho de pesquisar, também, a genealogia de Quaderna!' "`Pesquisei, sim! Aliás, é meu intento fundar, aqui, um certo Instituto Genealógico e Histórico do Cariri, exatamente para institucionalizar e codificar essas pesquisas, ordinariamente deixadas ao acaso, aqui na Paraíba.'

tucionalizar e codificar essas pesquisas, ordinariamente deixadas ao acaso, aqui na Paraíba.'

" `Você teria razão, meu caro Quaderna, se o veado não fosse vilenado como é! Você sabe o que significa vilenado, em Heráldica?' "Sei não!', confessei.

'"Vilenado quer dizer com o sexo à mostra e de esmalte diferente do resto do corpo do animal. O veado de seu escudo é negro, mas tem o sexo à mostra e pintado de vermelho!' " `Bem, se é assim, a coisa muda de figura!', falei. `Se o veado do meu brasão tem o pau vermelho à mostra, eu posso provar a quem vier com graças que o nosso é um veado sério, um veado macho, e não aveadado, como poderia parecer. Entretanto, por segurança, e já que cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, vamos mudar, no meu escudo, o veado negro por uma Onça-Preta, macha e vilenada de vermelho. Ou pode ser, também, a Onça castanha e a quaderna de crescentes pretos. Sei não, depois a gente decide! Agora, outra coisa, Doutor: mesmo que o senhor me dé esse direito, eu não quero ser Comendador, não. Prefiro ser Cavaleiro!' "Deixe de ser burro, Quaderna!', falou Samuel. `O título de Comendador é muito mais importante!' " `Mas o de Cavaleiro é mais bonito!', teimei. `Sempre desejei ser declarado oficialmente, episcopalmente, regiamente, Cavaleiro, e minha oportunidade é essa: não quero ser Comendador não, quero ser é Cavaleiro!' "Pois será Cavaleiro da Ordem do Templo de São Sebastião!', disse o Doutor Pedro Gouveia, com solenidade que me arrepiou. `E seu título? Não tem curiosidade de saber alguma coisa a esse respeito não?' "Fiquei numa entaladela, Senhor Corregedor. Tudo indicava que meu título deveria ser o de Conde da Pedra do Reino. Mas, se eu aceitasse esse título não estaria renunciando, implicitamente, à Coroa real? Cóm as maiores cautelas do mundo indaguei isso, como se se tratasse de uma consulta inteiramente impessoal. A Providência Divina e os astros estavam, porém, decididamente a meu favor, nisso: o Doutor Pedro me deu informações seguras que me garantiam eu poder assumir, sem riscos, o belíssimo título de Décimo Segundo Conde e Sétimo Rei da Pedra do Reino. Até os números, 12 e 7, eram fatídicos, astrosos e gloriosos, e fiquei um momento a sonhar, com as mais exaltadas esperanças. Logo, porém, o Doutor Pedro nos chamava de volta à realidade. Disse: "Bem, senhores, as cartas estão na mesa e o que vamos decidir agora é se o jogo se trava e continua, mesmo, ou tem que ser interrompido definitivamente, de uma vez por todas! Nós não somos crianças e todos já devem ter entendido que, se eu aceno com possibilidades tão honrosas, é que tenho que pedir alguma coisa em troca. Como já expliquei, no caso de vocês três não se trata das exigências que seriam feitas às pessoas comuns. O que quero, dos três, é o apoio decidido e total à causa de Sinésio Garcia-Barretto, causa que hoje se inicia aqui!' qp"Bem, Doutor Pedro, vamos examinar tudo cuidadosamente!', disse Samuel. 'O problema não é tão fácil como o senhor parece ensar. A grande dúvida é: será que o rapaz do cavalo branco ue chegou hoje aqui com o senhor é o mesmo Sinésio Garcia-Baritetto desaparecido em 1930? Se é, como foi que ele ressuscitou? E preciso ve-lo, é preciso provar que ele não morreu, etc.' " `Tudo isso será provado e esclarecido a seu tempo!', disse o Doutor Pedro com firmeza. 'Mas também não vou fazer a exigência absurda de que tomem uma decisão imediata. Hoje, infelizmente, o rapaz do cavalo branco não pode se deixar ver. Amanhã, porém, garanto que facilitarei um encontro dele com os três. Assim, a questão do agraciamento e das cartas de brasão fica em suspenso pté a decisão de vocês. Uma coisa, porém, eu digo logo: o ponto fundamental de toda a questão é o problema do testamento e dos bens deixados por Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto. Algum dos presentes poderia me dar as informações iniciais a esse respeito?' "Eu posso!', avancei. 'Vou revelar agora, ao senhor, o que nunca revelei a ninguém a esse respeito. Faço isso porque, de minha parte, já tomei minha decisão, Doutor Pedro. Meu sangue me garante que o rapaz do cavalo branco é Sinésio, meu primo e sobrinho, o Príncipe Aluminoso da Bandeira do Divino do Sertão. Estou do lado dele, para o que der e vier!' "Dou-lhe os meus parabéns, nobre Conde da Pedra do Reino!', disse o Doutor Pedro passando imediatamente a me tratar por meu título. 'Dou-lhe os meus parabéns, porque a decisão que o senhor tomou foi nobre e acertada, o senhor não se arrependerá! Amanhã combinaremos o que falta sobre seu brasão, e o senhor receberá o pergaminho e a carta que lhe reconhecem o título que acaba de conquistar neste momento, o de Cavaleiro professo na Ordem do Templo de São Sebastião e Conde da Pedra do Reino!' "Registro e agradeço!' disse eu, modéstia à parte com alguma majestade. `Agora, vou então comunicar ao senhor tudo o que sei sobre o testamento e o tesouro!" - Comecei então a contar ao Doutor Pedro Gouveia tudo o que sabia a esse respeito. Meu Padrinho fora casado com Dona Maria da Purificação, mãe de Arésio, sob o regime de separação de bens, e com minha irmã, Joana Quaderna, sob o de comunhão. Além disso, sabia-se como certo que ele deixara um testamento do tudo aquilo de que podia dispor a Sinésio. Assim, Arésio ia praticamente reduzido à miséria, caso se achasse o testa to e se provasse que o rapaz do cavalo branco era, mesmo,

¿sio. Constava que o testamento estava em poder do gringo m Edmundo Swendson, pai de Clara e Heliana. Dizia-se que teu Padrinho confiara ao gringo o testamento, que estava na maleza de São Joaquim da Pedra, trancado a sete chaves, e que ta de ser encontrado e retomado à força, uma vez que Dom undo Swendson, tendo rompido com meu Padrinho, era agora do dos Moraes, e tinha interesse, portanto, em favorecer Arésio, prestes a oficializar seu noivado com Genoveva. O mais impor * nte, porém, em tudo, ainda não era o testamento: era o tesouro,

que, se fosse encontrado pelo pessoal de Sinésio, daria o poder ao

rapaz do cavalo branco com ou sem testamento, com legitimidade

ou ilegitimidade de suas pretensões a filho de meu Padrinho.

Desfiei, então, como vinha dizendo, tudo isso perante o Doutor

redro Gouveia, que ia anotando as informações mais importantes

enquanto eu falava. Aí, terminada essa primeira parte referente

sio testamento, comecei minha narrativa sobre o tesouro. Disse: "Foi entre 1920 e 1930 que ouvi falar com mais exatidão sobre esse fabuloso tesouro dos Garcia-Barrettos. Vou contar, primeiro, a parte que o pessoal considera mais real e de fato, e depois a parte da legenda, que, a meu ver, é mais segura do que a primeira. Ocorre que, desde 1907 ou 1908, o comportamento de meu Padrinho começou a ficar meio estranho. Ele sempre fora um homem trancado, ríspido e autoritário, austero e religioso. De repente, deu para ficar meio fanático, atacado de mania religiosa, o que coméçou a perturbar suas relações com a primeira mulher. Passou a freqüentar as procissões da Vila, não normalmente, como tinham feito seu Pai, seu Avô e ele mesmo, a principio, mas sim vestido de opa roxa e de balandrau à mão. Na Quaresma, deu para cobrir a cabeça com sacos, polvilhando-se inteiramente de cinza dos pés à cabeça. Entregava-se então a terríveis jejuns o penitências. Começou, também, a preparar o túmulo no qual pretendia ser sepultado. Escolhera, para isso, não o Cemitério da nossa Vila, mas um lajedo enorme que ele mandou escavar e no qual começaram a trabalhar todos os canteiros daqui, homens habituados a lidar com a construção das amuralhadas cercas-depedra sertanejas. Depois, comecei a freqüentar o Seminário. Habituei-me então a organizar aqui as festas anuais dedicadas ao Divino Espírito Santo. Meu Padrinho consentiu em aparecer nessas festas para ser coroado Imperador do Divino. Comparecia a elas acompanhado por seu filho mais moço, Sinésio, que, muito novo ainda, era coroado Príncipe no mesmo palanque que o Pai. Seguiam-se Cavalhadas, desfiles, Naus-Catarinetas, cortejos, Procissoes, tudo ao som da Música de rabecas, violas, pífanos e tambores. Parece que tudo isso ia subindo à cabeça de Dom Pedro Sebastião sem que nós suspeitássemos de nada. E o tempo foi passando. Morreu Dona Maria da Purificação, veio 1912 com todos os aperreies e inquietações da Guerra de Doze. Em 1921 ou 22, mais ou menos, Dom Pedro Sebastião começou a empregar uma fortuna na compra de terras na Maturéia, em Itapetim, Brejinho, Piancó, Princesa, Monteiro e Picuí, isto é, em todos os lugares em que constava haver ouro ou prata, na Paraíba. Aí, começaram a correr aqui as mais estranhas notícias. Como o ouro e a prata extraídos por meu Padrinho não apareciam, começaram a espalhar, aos cochichos, que as enormes quantidades encontradas por ele desses metais preciosos estavam sendo fundidas em barras que eram enterradas numa furna de pedra que só meu Padrinho sabia onde se encontrava. Dizia-se que as pessoas que conduziam as barras eram, depois, assassinadas para não revelarem o segredo. Por outro' lado, como Dom Pedro Sebastião começasse também a trabalhar nas minas de topázio e água-marinha de Picuí, começou a correr o boato de que pedras preciosas e diamantes estavam também sendo enterrados com o ouro e a prata. Corria também a notícia de que aquele antepassado de meu Padrinho, aquele velho Dom Sebastião Garcia-Barretto que morrera flechado pelos Tapuias, viera ao Sertão, pela primeira vez, para enterrar um tesouro, o Tesouro do Reino, caixas e caixas de madeira atulhadas de ducados e dobrões de ouro e de prata. Falava-se ainda numa versão estranha: esse mesmo velho antepassado nosso, o segundo Dom Sebastião, achara a decifração do velho enigma das Minas de Prata, que tantos Conquistadores e sertanistas antigos tinham procurado em vão. Deixara a seus descendentes uma caixa contendo velhos pergaminhos, mapas e roteiros. Essa caixa, deixada ao abandono durante muito tempo, fora encontrada por Dom Pedro Sebastião, e era este o motivo de ter sido ele o Garcia-Barretto destinado a tocar na fabulosa fortuna. Dizia-se que o motivo principal de todos aqueles que tinham procurado as fabulosas Minas de Prata de Robério Dias terem errado o roteiro fora o fato de que eles interpretavam mal certos topônimos fundamentais, o que os levara a pensar que a prata, o ouro e os diamantes estavam na Bahia. Dom Sebastião Garcia-Barretto decifrara certas inscrições e legendas tapuio-fenícias e chegara a conclusão de que o tesouro se encontrava era na Paraíba. Por exemplo: certos velhos documentos, conhecidos de todos, falavam em Itabaiana e no Serrote da Prata. O pessoal pensava que a referência era feita a Itabaiana de Sergipe. Ora, todo mundo sabe que existe uma Itabaiana na Paraíba, e que, no nosso município de Monteiro, existe um lugar chamado o Serrote Agudo da Prata. Falava-se ainda em florins holandesesresultantes' do apresamento e naufrágio de uma frota e em velhas moedas portuguesas e espanholas. E começaram a se misturar essas Qersóes todas, como sempre acontece nestes casos. Começou a correr um boato de que a furna do tesouro era a mesma do jazigo de Dom Pedro Sebastião, do túmulo cavado no interior do lajedo e que formava, segundo as notícias, uma enorme cova subterrânea. O ouro, a prata, as moedas e as pedras preciosas estariam sendo carreados em segredo, a noite, em lombos de burros, e trancados ho jazigo de pedra para serem sepultados com o dono. Esse seria o motivo, diziam, de Dom Pedro Sebastião manter sempre, em torno de seu futuro túmulo, uma porção de cabras armados. Aí, chegou 1926. Aconteceram os combates, emboscadas, correrias e tiroteios da "Guerra da Coluna". Durante essa guerra, meu Padrinho ficou muito agitado. Ele tomou parte ativa nela, de modo que toda aquela agitação meio febril dele me parecia, um pouco, resultado da paixão política. Mas era que seu caráter já se encaminhava aos poucos da excentricidade para a demência. Deu para sair às vezes da "Onça Malhada" a noite, inesperadamente, só, passando dias e dias fora de casa. Ao voltar, não falava com ninguém sobre a viagem, nem permitia a ninguém nenhuma referência sobre ela. De uma feita, chamou um grupo de homens de sua confiança, ordenando a eles e a mim que o acompanhássemos. Partimos de madrugada, com meu Padrinho a frente e armados até os dentes, como ele recomendara. Galopamos até as nove horas da manhã, mais ou menos, indo acampar finalmente perto de umas pedras que ficam mais ou menos a meio caminho entre Taperoá e Teixeira. Dom Pedro Sebastião mandou que nós nos escondêssemos, em grupos de dois ou três, por trás das pedras, lajedos e serrotes que margeiam a estrada. Eu, covarde como sempre fui, estava aterrorizado, julgando que se reacendera a "Guerra da Coluna" e que íamos agora era emboscar alguma tropa inimiga que passaria por ali. Maldisse a minha pouca sorte, que, depois de ter permitido que eu escapasse das empreitadas da Guerra, ia agora me lançar noutra, inteiramente inesperada. Pensei em correr, em desertar, como tinha visto tanta gente fazer em 1912 e 1926. Mas, se eu tinha medo da guerra, tinha ainda mais de meu Padrinho, de modo que fiz das tripas coração e fiquei. Esperamos, esperamos e nada. O suor corria em bicas da minha testa. Ao meio-dia, o Rei do Cariri permitiu que comêssemos alguma coisa. E ali ficamos até as seis horas da'noite, quando ele nos ordenou que voltássemos para casa, o que fizemos com ele a frente, num mutismo absoluto. E foi a partir daí que tudo começou a se agravar. Deixo de contar tudo com pormenores porque, para mim, tudo aquilo era de uma tristeza terrível. Conto apenas, porque é mais importante, que lá um dia, ele convocou aquele grupo de doze Cavaleiros que ele chamava de os Doze Cavaleiros de Doze...'" - Dom Pedro Dinis Quaderna - interrompeu o Corregedor - consta, aqui, que foi o senhor o principal responsável pela loucura religiosa e monárquica de seu Padrinho. Dizem, inclusive, que foi o senhor quem meteu na cabeça dele essa história dos Doze Cavaleiros que tinham tomado parte na tal "Guerra de Doze", e que formariam, para ele, uma espécie de Guarda de Honra, de Doze Pares de França. Pelo que já sei do senhor, vê-se que é verdade. O senhor confirma isso? - A parte dos Cavaleiros é verdade, foi idéia minha. Mas o resto, não; eu me limitava a cumprir as ordens que meu Padrinho mesmo me dava. Mas naquele dia, ninguém me interrompeu, e continuei a contar a história do tesouro ao Doutor Pedro Gouveia. Falei: "Meu Padrinho convocou os Doze Cavaleiros, que se reuniram na grande sala da frente da Casa-Forte da Onça Malhada. Dom Pedro Sebastião estava com Sinésio ao lado, porque Arésio se retirara em sinal de protesto. Arésio detestava as fantásticas estranhezas do Pai, pressentindo, com seu orgulho, que elas atraíam desconsiderações para toda a família Garcia-Barretto, desconsideração que a maioria dos próprios Doze Cavaleiros mal podia disfarçar. O homem que, nos bons tempos da Onça Malhada, era o encarregado de reunir os cachorros para as caçadas, tocou na buzina de chifre. Selaram-se os cavalos e partimos todos, em demanda, para uma serra que havia no meio das terras dos GarciaBarrettos, um lugar ermo e áspero, no qual se subia aos poucos, levando, porém, para um serrote pedregoso de onde o chão caía a pique sobre a planície da Espinhara, lá embaixo. Esqueci-me de dizer que meu Padrinho e Sinésio estavam todos dois de gibão. Meu Padrinho tinha ganho, dado por um Presidente sertanejo que estava então no governo da Paraíba, um gibão de honra e boniteza, feito de duas qualidades de couro - couro castanho de vaqueta e couro amarelo de veado. Amedalhara-se também o gibão com moedas de prata, e Dom Pedro Sebastião mandara fazer um igual para Sinésio, que estava, então, com dezesseis anos e, ao contrário de Arésio, acompanhava o Pai em tudo. Caminhamos uma porção de tempo, com meu Padrinho e Sinésio à frente. Os cavalos começaram a subir com mais dificuldade a encosta que, suave a princípio, ia se tornando cada vez mais íngreme e pedregosa. Finalmente, depois de horas de caminhada difícil, por entre enormes blocos de pedra que pareciam ter sido despedaçados dos enormes lajedos de cima por raios ou pelo Sol, chegamos ao topo da serra, encimado pelo grande serrote. A um sinal de Dom edro Sebastião, nós nos detivemos a uma certa distancia, disponnos em semicírculo. Quanto ao Senhor da Onça Malhada, meteu cavalo mais para cima, ladeando, com risco de vida, um despedeiro de quase cem metros de pedra a pique. Sempre acornado por Sinésio, grimpou, montado, a parte inferior do grande serrote. Daí se descortinava quase toda a chapada que vai de lTaperoá até o Pico do Jabre, no Teixeira. Meu Padrinho ficou urante uma boa porção de tempo montado, olhando a nua e bela sagem, embaixo. Depois, puxou da cintura a buzina de chifre que tinha pedido ao homem dos cachorros, desferindo, nela, um toque áspero, belo, rouco e castanho como o som deste meu Canto. Sinésio olhava tudo isso sem dizer palavra. Quando o som morreu nas quebradas da serra, Dom Pedro Sebastião colocou a mão direita em concha no ouvido, como se esperasse ouvir uma resposta, enquanto seus olhos esquadrinhavam o vasto Tabuleiro que se perdia em sua vista, lá embaixo. Depois de repetir isso várias vezes, pareceu, de repente, que ele obtivera o resultado que aguardava, pois seu rosto se iluminou. Gritou para nós que, embaixo, o olhávamos espantados mas silenciosos, sem ousar fazer nenhum comentário: "É ele, é ele! Eu não disse?" E, cravando na terra deserta e nua, no chapadão coberto de cactos e pedras que cintilavam ao sol violento do me;o-dia, seus olhos de visionário, gritou para lá: "Deus o salve, meu Senhor, Deus o salve!" Quem seria? O terrível Senhor de todas as coisas? O Rei? Nunca se soube! O olhar dele pareceu acompanhar a passagem de Alguém que cruzava, a cavalo, a chapada, lá embaixo. Digo a cavalo porque pela rapidez com que seus olhos acompanhavam o Cavaleiro invisível, não podia ser pessoa que estivesse passando a pé. O Lato é que, quando o Cavaleiro já se perdia no horizonte, nós ouvimos Dom Pedro Sebastião dizer ainda, como numa bénção ou numa despedida: "Deus o leve e o traga de novo, em paz!" Então, persignou-se e voltamos todos para a "Onça Malhada". Eu me lembrava daqueles versos de Alvares de Azevedo que dizem: "Cavaleiro das armas brilhantes, onde vais, nos Sertões chamejantes, com a Espada Sangrenta na mão? Por que brilham teus Olhos ardentes e esses Gritos nos lábios frementes vertem Fogo do teu Coração? Cavaleiro, quem és? O Remorso? Do Corcel te debruças no dorso e galopas, chapada através.

Oh! da Estrada acordando as poeiras não escutas luzirem Caveiras e o Profeta da Pedra a teus pés? Onde vais na Catinga flamante, Cavaleiro das armas brilhantes, doido e ardente, qual Morto na tumba? Não escutas? Na Pétrea Montanha meu tropel teu Galope acompanha e um clamor de Vingança retumba! Cavaleiro, quem és? Que mistério? Quem te força, na Morte, no Império, pela Tarde assombrada a vagar? - Sou o Sonho da tua Esperança, tua Febre que nunca descansa, o Delírio que te há de matar! " "A essa primeira saída, seguiram-se outras, sempre com as mesmas vestes de Vaqueiro, as mesmas armas, os mesmos toques da buzina de chifre, as mesmas palavras e a mesma passagem do Cavaleiro no chapadão, enquanto nós, na serra, nada víamos. Entretanto, impressionáveis como são os Sertanejos, apareceram logo algumas pessoas declarando que, realmente não viam nada, mas ouviam o galope do cavalo, primeiro chegando, cruzando a chapada e perdendo-se depois, na distância. Um dia, ousei fazer perguntas a meu Padrinho sobre sua visagem, sobre a identidade do Cavaleiro e sobre o sentido que tudo aquilo tinha para ele. Dom Pedro Sebastião fechou a cara, mas disse: "É um Cavaleiro que eu vou encontrar e que vejo na chapada, lá embaixo". "E quem é ele?", indaguei. "Não sei! ", cortou meu Padrinho, com o ar obstinado de quem se recusa a passar adiante num assunto pessoal. Insisti: "Mas ele passa, mesmo, a cavalo, como estão dizendo? Alguns dos nossos já estão começando a ouvir o galope de um cavalo!" "Ah, já estão ouvindo!", comentou Dom Pedro Sebastião entre irônico e vitorioso. "Pois têm toda razão, porque é mesmo a cavalo que ele passa! Sim, a cavalo pela chapada, entre os raios do Sol e nuvens de fogo, coberto de mantos e pedrarias, epilético e generoso, por entre os bodes e as pedras, que ele roça com suas esporas, tirando faíscas nelas. No dia em que ele vem, eu já acordo com o ouvido fino de quem foi mordido de cobra. Quando ele vem muito longe, ainda, muito antes de todos, começo a ouvir os cascos de seu cavalo, tirando fogo nas pedras. É então que me visto, pego as armas e convoco os Doze Cavaleiros com a buzina que antes me servia para a caça e agora serve para tocarcom suas esporas, tirando faíscas nelas. No dia em que ele vem, eu já acordo com o ouvido fino de quem foi mordido de cobra. Quando ele vem muito longe, ainda, muito antes de todos, começo a ouvir os cascos de seu cavalo, tirando fogo nas pedras. É então que me visto, pego as armas e convoco os Doze Cavaleiros com a buzina que antes me servia para a caça e agora serve para tocar- "Um dia, porém", continuei, "meu Padrinho se vestiu do mesmo jeito, e, sem convocar os Doze nem Sinésio, me mandou que o acompanhasse. Era, para mim, uma honra inaudita. O Barão do Guarupá e o Visconde de Caicó, aqui presentes, já tinham se insinuado várias vezes para conseguir um convite desses, tendo porém esbarrado sempre com a taciturnidade glacial de Dom Pedro Sebastião, que cortava toda vez as insinuações. Ele me entregou, e mandou que eu conduzisse, um velhíssimo e pequeno baú de couro, todo tauxiado e que eu nunca vira. Montou no seu cavalo, o alazão chamado `Medalha', e partimos em direção a serra. Desta vez, porém, não houve nem buzina nem passagem do Cavaleiro. Quando chegamos lá, meu Padrinho desceu do cavalo e mandou que eu fizesse o mesmo. Ficou durante alguns momentos olhando a planície áspera e quente, lá embaixo, murmurando, aqui e ali algumas palavras inaudíveis. Depois, voltando-se bruscamente para mim, disse: `Não trouxe Sinésio para não arriscá-lo, você é quem vai ser o Guarda do Selo dos Tesouros. O tesouro! Eles falam, falam, mas não sabem da missa nem a metade! É Belchior Moréia, é Robério Dias, é Dom Sebastião, é a Bahia... Nada disso, é a Paraíba, é Taperoá, é a Pedra do Reino e a Onça Malhada, com a data dó Coraçá! Vou lhe dizer uma coisa: do jeito que as coisas vão com o tesouro, antes a sociedade com o homem dos navios na Fortaleza de São Joaquim da Pedra! Os navios! Você devia vê-los, Dinis! São enormes, bonitos, pintados de amarelo e de vermelho, com serpentes, dragôes e cabeças de cavalo e cachorro nas proas. Tem o "Narciso", o "Upanema", o "Pedra Verde", o "Garça Cor-de-Rosa", mas o mais bonito de todos é o "Estrela-da-Manhã". As velas são brancas, mas quando eles passam em Penedo, nas Alagoas, desviam-se da coroa de areia vermelha onde estão os martins-pescadores flechando peixes, e onde está o rio todo cheio de barcaças com velas coloridas - azuis, vermelhas, amarelas, pretas com listras de ouro, etc. Eles carregam açúcar, carvão, sal de Macau e sobretudo carregam pedras - o topázio, a esmeralda, o sol, a lua; sim, porque existe a pedra chamada olho-de-gato, e outra chamada olho-de-tigre, e a pedrada-lua e a pedra-do-sol, e tudo isso vai sendo encontrado e sepultado na pedra, com o ouro e a prata que servirá para os engastes. Você vai com Sinésio ver os navios: são muitos, viajam do Sertão para o Mar, e depois de deixarem o São Francisco e o Sertão das Piranhas, bordejam a costa pelo Mar, passando na Fortaleza de Nazaré do Cabo, em Pernambuco, e vindo até a de São Joaquim da Pedra. Vocês vão lá e não se arrependerão, porque é bonito e bom de ver!', disse ele, passando a mão pelo rosto e pela barba, como para dissipar um pouco o emaranhado dos sonhos. Depois, com ar mais razoável, disse: `Tome aqui essa chave e abra o baú!' Eu obedeci, com os olhos reluzindo e as mãos tremendo de curiosidade. Havia, lá, uma porção de velhos pergaminhos, muito estragados pelo tempo, escritos num Português bastante antigo. Naquele dia, meu Padrinho me deu tudo aquilo. O primeiro estava escrito assim: "Instrucção q. deo o Padre Antonio Pereyra o da Torre de Garcia d'Avila a João Calhelha do anuo da Graça de N. Sñor. Jesu Christo de hum mil seis centos & cincoenta & sinquo annos.

Na Serra &tc. na mais alta das Pontas delia pondose hum homem da banda do Sul ahi está o Haver & a ponta vae inclinada ao Leste o& debaxo desta Ponta ao Leste bem abaxo quãdo faz grandes ynvernadas leva hurra Beta & e se esta enorme Beta he de Prata ou de Ouro Deos o sabe & quando forem ao Taboleiro em sima, pondose da parte do Sul, hão de achar muytos Crystaes & da banda do Sul para o Norte outras Pedras e muytas q. me parecem de consideração & donde morreo Gabriel Soares está hurra Serra por nome Itaiuperá q. he de Xumbo mas anuncia o haver do Tesouro & tomem a Ribeyra donde nasce o rio chamado em tapuia Ubatuba & corram por ela abaxo & não fique Grota q. não vejam".

voltar 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 avançar
Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal