"Os outros documentos eram todos escritos no mesmo Português antigo. Decifrei tudo cuidadosamente, tirando uma cópia que é esta que apresento aqui, pela primeira vez. Havia uma carta de Dom Sebastião Garcia-Barretto, o antigo, dizendo que, tendo realizado uma entrada que partira do Pilar, se metera pelo Rio Paraíba e pelo Taperoá adentro. Dizia que o nosso antepassado, aquele Dom Sebastião Barretto que afirmavam ser o Rei Dom Sebastião, viera para o Brasil trazendo "o haver do Reino e dos Mouros". Dizia que Gabriel Soares, e Belchior Dias Moréia e Afonso de Albuquerque Maranhão tinham encontrado traços do tesouro e tinham deixado tudo em linguagem cifrada, dando pistas falsas para que pensassem que aquela fortuna incalculável se"Assento do Coronel Belchior da Fonseca Saraiva Dias Moréia, Muribeca. = No ano da graça de 1675, governando este Estado Brasil o Ilustríssimo Senhor Dom Roque da Costa Barretto, andou El-Rei Nosso Senhor a Dom Rodrigo de Castelo Branco que fizesse averiguar as Minas de Itabaiana a Itaperuá, pelas Qotícias e tradições de Belchior Dias Moréia. E foi o dito Dom Rodrigo ao Serrote Agudo, mas terminou se retirando, ambicioso das notícias que então corriam das esmeraldas, do ouro e da prata, e o mataram, deixando ele o Tenente-General seu Cunhado para ir examinar as Minas. No ano de 1675, fui eu, com Jorge Soares, uma das pessoas que Sua Alteza mandou a ver se eram de minas as Serras. Achamos um índio Cariri, velho de cem anos, que nos levou pelo campo frio, ao norte do Salitre, cortando muitas léguas de mato e Catinga, sem água nem gravará que a tivesse. Mas, com raízes de umbu e mandacaru, remediou-se a penúria da gente que abriu o caminho. O velho mostrou o caminho e o lugar onde Belchior Dias, meu bisavô, achou o que buscava. O índio disse que outro homem de sua nação fora quem levara ali a meu bisavô, dando-lhe umas Pedras que muito o tinham alegrado. Achamos sinais certíssimos de haver estado gente branca ali: foram o dito Belchior Dias e seu sobrinho Francisco Dias Dávila, o primeiro, no ano de 1628, e o segundo, depois. Mas não descobriram a Mina, porque não conheciam o que nós agora conhecemos, porque Belchior Dias lhes ordenara não mostrar nunca a branco nenhum aquele lugar, porque os Flamengos terminariam sabendo e viriam tomar a sua terra. Por isso, ele nunca quisera falar nem mostrar o caminho. Se descobrirem essa incalculável riqueza que a terra do Brasil tem sonegado há tantos anos dos olhos dos cegos, Sua Majestade porá um freio ao Turco e sopeará os potentados da Europa. Mas por não haver quem reconheça os sinais e as duas Pedras, que estão incógnitas, Deus as descobrirá quando for servido. Há o papel que o Padre Antônio Pereira da Torre deu a João, o Calhelha, e a seus irmãos, mas não deram em nada porque as serras são muitas, difíceis os sinais das Pedras e eles ignorantes de minas, roteiros e metais".
"'Havia outro documento, importantíssimo, que dizia assim:
"A Sua Excelência o Mui Alto Senhor Conde de Sabugosa, Vice-Rei do Estado no Brasil = Da parte do Coronel Pedro Barbosa Leal. = Muito alto Senhor: Nos primeiros anos da povoação, entrou pelo Rio Itaperoá o Tenente-Coronel Sebastião
contrava na Bahia. Mas não vou transcrever tudo em Português ttgo, para não dificultar a leitura. Havia o seguinte: Garcia-Barretto, ao qual, vindo naquela diligência, lhe trouxe o gentio do Sertão uma pedra cravada de ouro. O filho dele fez seu caminho até a ponta da Serra, onde fez uma Casa-Forte. O Alferes João Martins Torres, com quem falei depois no Sertão do Taperoá, homem velho e de bom crédito, me assegurou que vira a Casa-Forte e estivera assentado sobre uma peça de campanha que ali se achava. Seguiu então, aquele, a sua rota, e descobriu o que acusa o Roteiro, que é de Dom Sebastião. Foi à Pedra Furada, passou a Serra Branca. E como a este tempo se sabia já do Roteiro, resolvi entrar pelo mesmo caminho do Sertão, mas mesmo fazendo várias diligências, não descobri o tesouro. Mas é sem dúvida que a Serra é a das Pedras, porque ali esteve o Garcia-Barretto e cheguei a achar três letras de pedra postas a mão, a saber, um P, um D e um Q, e entrelaçadas com estas, um A, um V, e um S, de um lado, e do outro, um S, um G e um B, tudo a pouca distância, com uma cruz sobre uma Laje. Segui a rota, atravessando setenta léguas de Catinga em que perdi vinte e oito cavalos, mas como me faltava o Roteiro, não pude encontrar. Perto das Serras, nos campos do Coraçá, depois do Sítio do Curral do Meio, vi e passei pelo Serrote de pedras ametistas e me garantiu o Principal daqueles Cariris que, perto daquele Morro, achava-se outro, todo de pedras amarelas. A Serra é a que chamam da Pedra Furada, porque I quer dizer água, ta é pedra, e tudo significa Agua da Pedra Furada. Isto mesmo se acha na Pedra, diz-se ao Reino, porque do centro dela sai uma ribeira de água por um Canal de pedra que entra de serra adentro sem se lhe ver o começo. Mandei entrarem cinco homens com fachos de cera acesos, e entrando eles cerca de três ou quatro braças, ainda continuava aquele canal de pedra para o centro da Serra. Os sinais do Roteiro são uma grande árvore de Sucupira, as duas Pedras, o capão de canas bravas a que chamam Tabocas e a grande árvore ainda hoje cravada de balas, do tempo da Conquista. Falta descobrir a Beta que vem referida no Roteiro, pois o homem chegou a afirmar que o haver do Rei e o ouro e a prata e as pedras são tantas quanto é muito o ferro em Bilbao. Queira Deus que no tempo do governo de Vossa Excelencia se logre esta felicidade e que para dirigir e franquear este assunto, guarde Deus a Vossa Excelencia por muitos anos. Aos vinte e dois de novembro de 1725. Pedro Barbosa Leal"."'Quando terminei de ler isso, meu Padrinho me mostrou uma porção de velhas escrituras referentes às terras dos Garcia-Barrettos na Paraíba e no Pajeú de Pernambuco, todas com referencias ao Coraçá, à Pedra Furada, à Lagoa do Meio, ao Serrote Agudo da Prata, etc. Depois me disse que o problema era o Roteiro, mas que o Roteiro ele tinha. Mostrou-me então um velho mapa do Nordeste, um daqueles mapas dos séculos XVI, XVII ou XVIII, cheio de emblemas, brasões, bandeiras, rosas-dos-ventos, serpentes marinhas, peixes com asas, onças e caravelas. No pergaminho, abaixo do mapa, havia uma espécie de explicação cifrada de tudo, escrita pelo próprio punho de meu Padrinho, Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto. Era a seguinte: "Na encruzilhada das Onças, a 32 passos, o Cavo de pedra com a Abada de ouro, ao 'poente do Poderoso. Perto do padrão de pedra que fica mais ao Sul, dentro do Penedo brocado, os dois tesouros do grande Poder. Na testa da Casa de Pedra, o boi de ouro sem armas, e a 45 passos daí, o Cavalo de prata, rompido do lado direito e cheio de moedas velhas. No pino do Sol, o belo Haver mestiço de peças de ouro. No caminho da galeria subterrânea do Castelo de Pedra, o balde de cobre cheio de medalhas e diamantes. Na torre da Casa-Forte, as palagranas do Rei, cozidas em barro negro, com as Custódias de ouro e as caixas de diamantes. Embaixo do púlpito ou Trono, o Labrusco de ferro com um número incontável de Moedas latinas. Sob o Cruzeiro, dentro do chão, no rumo da Pedra incrustada, as 12 Armaduras de ouro e o ídolo de prata dos Reis Mouros de Castela. Para o lado das Covas, as alfaias do Bispo Negro com as caixas de diamantes da Sacerdotisa vermelha. Aos pés do ninho do Gavião, a Cancela e as cainças de Ouro que vieram de Alcácer. A 21 passos do Rochedo Espalmo, no leito das Areias negras, o tabuado de madeira, e, debaixo dele a Cova cheia de moedas de prata com a efígie do Castanho. No meio dos dois Castelos, o haver de prata guardado pelo Bezerro: se quereis o haver, não toqueis no Bezerro. Perto, dentro do Leopardo de prata, estão as valias do Temível. Ao pé da Onça de Pedra da entrada, os diamantes do Antigo. A tres passos das Urtigas e do lasco dos Peranhos, a entrada para o canal de pedra e para 'as 12 salas de Ouro, lavrada por desconhecidos. No fim da galeria, na Fonte, o legado do Restaurador, todo de ouro, debaixo do cascalho, ao bater do Sol na ponta de pedra, quando chega a hora sétima. A oito passos da corrente forte, a estátua da Moura, enorme, de prata e bronze, com um peito de rubi e outro de esmeralda, e tendo no ventre baixo a caixa de topázio amarelo e pêlos de ouro: ao pé da Estátua, está o peso dela em diamantes. Ao pé do Rochedo de dois bicos, o sangue dos Guerreiros mortos. Na guarda da Porta subterrânea, os 12 homens esculpidos em pedra, com as letras púnicas no alizar do mármore. No escoamento, a Espada de copos de prata e pegadouro de brilhantes: ouvi o som, é som garcia dos barros e barrettes que af chegaram. Na sobrefinca, as riquezas da Renegada, embaixo do terceiro arco. Na canga de pedra, as 7 000 dobras de ouro: ao pino do meio-dia, bate-lhe o Sol na linha direita do Serrote Agudo. Guardai o roteiro e lembrai-vos da sua chave que está nas letras e no mapa: três do lado direito, três do lado esquerdo e a Onça no meio, no coração do coração dos três. Achada a entrada o resto será fácil: na primeira Sala da furna de pedra, está a primeira Urna de prata, e dentro dela, a Onça Malhada de ouro. Na segunda, uma Corça de prata, guardada por um enorme Gavião de ouro, com as asas de diamante. Na terceira, a Onça negra de diamante e carbúnculo, sustida pela Onça castanha de ouro. Guardai bem tudo isso, pois os dois picos de pedra guardam o todo do Terrível. Com o esconjuro do Sinal-da-Cruz e a Sagrada Pedra Cristalina. Amém." "Quando meu Padrinho terminou de me mostrar isso, eu disse que tudo me parecia cheio de sentidos ocultos, mas que me era impossível decifrá-lo. Ele me disse que ocultara, de propósito, a decifração, para que o roteiro e o tesouro não caíssem em mãos estranhas. Disse-me que, chegado o momento, me comunicaria a chave do enigma e tudo me pareceria tão claro que eu me espantaria de não ter atinado com ela no mesmo instante. E verdade que, de vez em quando, tudo aquilo me pareciam referências à Pedra do Reino e aos dois rochedos gêmeos que eram as torres do nosso Castelo. Mas como meu Padrinho me prometia a revelação de tudo para depois, conformei-me na hora e voltamos para casa. Passou 1927, passou 1928, passou 1929. Começou o terrível ano de 1930 e novamente Dom Pedro Sebastião se viu metido nas lutas políticas da Paraíba. Começou a Guerra de Princesa. Um dia, em 1930, procurei meu Padrinho e pedi-lhe que me fornecesse a chave para a decifração do roteiro, porque, com aquelas lutas, combates e emboscadas em que ele andava metido, podia morrer a qualquer momento, e Sinésio ficaria sem saber o que importava. Ele concordou. Mandou que eu trouxesse o roteiro o o mapa e ficou horas e horas olhando. Depois, espantado, olhou para mim e disse que tinha se esquecido totalmente da decifração! Simplesmente: tinha se esquecido! Aquilo que era claro como água, antes, estava emaranhado e enigmático como um labirinto! Disse, porém, que eu não desanimasse. Ele iria se esforçar e, assim que se lembrasse, me diria tudo, para que eu, como Guarda do Tesouro, fizesse chegar tudo às mãos do seu filho mais moço, Sinésio. Assim foi o tempo passando, até que chegamos ao fatídico dia 24 de Agosto de 1930. Nesse dia, pela manhã, meu Padrinho me comunicou que estava a ponto de decifrar tudo. Disse-me que subiria para a torre da CasaoForte e que desceria de lá com a chave do roteiro pronta, porque encontrara o caminho da memória o agora iria até 'o fim. Subiu para a torre, e foi a última vez que o vi vivo: porque daí a umas duas ou três horas, quando sentimos falta dele, fomos encontrá-lo degolado, daquela maneira que todos conhecem. Perto dele, estavam o mapa e essa última parte do roteiro que acabo de comunicar-lhes. Ninguém deu importância a tudo aquilo. Apanhei o papel, guardei-o e é por isso que o tenho aqui, agora!' "Exibi então, Senhor Corregedor, ao Doutor Pedro Gouveia, a Clemente e a Samuel, o mapa e o roteiro manchados do sangue do velho Rei do Cariri. Os três estavam siderados. O Doutor Pedro falou, afinal: "'E depois disso, ninguém lhe falou mais do tesouro?' "'Não! Agora, o que me impressionou hoje, demais, foram as visagens de Nazário e Pedro Cego, porque tudo indica que a furna da Onça que eles viram é a mesma do Tesouro. Seja este um tesouro ibérico de dobrões espanhóis e portugueses trazidos por Dom Sebastião - como eu acho que pensa Samuel - ou seja um tesouro fenício-tapuia como aquele que foi visto por Clemente, o fato é que o tesouro existe e eu acredito que a entrada da furna é na Pedra do Reino. Minha idéia, portanto, é que eu, o senhor, Clemente, Samuel, Frei Simão, os ciganos e, naturalmente, Sinésio, organizemos uma expedição sob forma de Circo. Iremos à Pedra do Reino, seguindo, passo a passo, os topônimos dos documentos deixados pelo velho Dom Sebastião Garcia-Barretto. São setenta léguas de Catinga desértica. No caminho, eu e o senhor iremos estudando o mapa e o roteiro, tentando encontrar a chave final da Charada enigmática que o velho Rei não pôde matar, tendo sido, talvez, assassinado por causa disso. Porque, uma coisa eu lhe digo: o tesouro é a riqueza mais incalculável que já terá sido dada a um mortal!' "'Poderíamos fazer, com ele, a Revolução, a grande revolução brasileira com que vivo sonhando!', disse Clemente, com olhar perdido e nostálgico.
"'O Brasil poderia ficar mais importante do que o Império de Filipe II, realizando nós, aqui, o Quinto Império profetizado por Antônio Vieira!', disse Samuel com o mesmo ar melancólico do outro.
"Nada disso, meus caros!', falou de lá o Doutor Pedro Gouveia, com ar prático. 'Tesouro é tesouro: não tem dono e pertence a quem o achar! Se nós acharmos o tesouro, ele será nosso, isto é, de vocês, meu e do rapaz do cavalo branco, naturalmente.
Estão de acordo?' "Estamos, sim, é claro!', ecoamos nós três, descobrindo, mais uma vez, como aquele homem era hábil e precioso.
"Pois então, ficamos de acordo!', disse ele, como se nos despedisse. 'Amanhã, vocês terão a entrevista com Sinésio. Tomarão suas decisões a respeito da Ordem e da viagem e, se Deus quiser, sairá tudo pelo melhor!' "Nós nos erguemos, Senhor Corregedor. Despedimo-nos e saímos de novo pelo portão dos fundos, onde Lino me aguardava fielmente. Com ele à frente, tomamos o caminho da Praça, onde estavam se desenrolando fatos da maior importância." - Quando nós chegamos diante do casarão dos Garcia-Barrettos, a confusão estava a maior do mundo, e nós nos misturamos à multidão. A parte da frente da casa estava completamente fechada e o Povo se mantinha ali à espera, numa atmosfera de tensão religiosa fora do comum. Notei logo que o dedo de meus irmãos bastardos andava por ali, porque na calçada, de cada lado do portão, estava uma figura esculpida em madeira por aquele que era santeiro e imaginário, Matias Quaderna. A primeira era um torso do Cristo, enorme, brutal, esculpido num só tronco de baraúna, com a cabeça coroada por raios estrelados e folhagens, e com quatro figuras entalhadas na parte de trás, como se tivessem sido geradas por seu lombo - uma onça, um touro alado, um anjo e um gavião. A outra era uma Nossa Senhora, também enorme, com chapéu de couro, estrelado de doze estrelas, à cabeça, com os pés sobre a serpente e com as duas mãos apoiadas, uma num cervo, a outra numa Onça. Pendurados ao muro e perto das gigantescas imagens de madeira, estavam dois outros objetos que me indicavam a presença, ali, de meu irmão Antônio Papacunha Quaderna, o tocador de pífano e pintor de bandeiras de todas as procissões de Taperoá. Eram dois modelos, pintados em papel, para as bandeiras de procissões recentes. O primeiro representava, no centro, uma árvore em cujos galhos viam-se umas Onças; embaixo da árvore, havia um Vaqueiro a cavalo e outro tangendo um boi. O segundo era uma representação do Cristo crucificado. O corpo do Cristo era coberto de ferimentos que reluziam e que o faziam semelhante a um Leopardo ferido, coberto de malhas sangrentas: do lado direito, montado a cavalo, estava um Vaqueiro, ainda sustendo a lança que transfixara o peito do Crucificado; do lado esquerdo da cruz, estava uma Nossa Senhora vestida de cangaceira e com o peito traspassado por sete punhaiscompridos; um enorme galho de mandacaru pendia dos braços da cruz, parecendo uma enorme ampliação da coroa de espinhos, o uma chuva de pingos de sangue caía do alto, formando, embaixo, um mar de sangue vermelho, preto e amarelo. Aliás, meus irmãos Antônio, Sílvio e Virgolino - tocadores respectivamente de rabeca, pífano e viola - estavam no meio da multidão, com outros tocadores seus companheiros e prontos para o que desse e viesse, como logo depois eu iria verificar. Por enquanto, porém, e dentro de certos limites, o Povo ainda estava sossegado, e resolvi tomar o sintoma do ambiente para auscultar as opiniões. Assim, avistando um grupo de mendigos que se mantinha meio afastado e relativamente em silêncio, no meio da multidão exaltada, pedi a Lino que me levasse até lá. Esses mendigos não moravam na rua, mas sim em tudo quanto era biboca e pé de serra, só aparecendo na Vila nos dias de feira. Usavam, todos eles, uns camisões sujos o remendados, cajados e longas barbas proféticas e grisalhas, destacando-se entre eles a figura patriarcal do velho Misael Cascão, uma espécie de chefe e Rei que sempre julguei ter vindo ao mundo sem ajuda de pai e mãe, brotado das pedras e da terra parda do Sertão. Apesar de ter querido passár ó mais despercebido possível, eu era uma figura muito conhecida e muito ligada a todos aqueles acontecimentos para não ser notado. De modo que, quando me dirigia para lá, fui descoberto, graças a Deus por pouca gente, e minha passagem, agarrado ao bastão de cego que Lino me improvisara, causou certa sensação: "E Seu Pedro Dinis Quaderna!. É o Profeta da Pedra do Reino! Bem que ele tinha profetizado a vinda do nosso Prinspo!', eram estas as frases que eu ia ouvindo à medida que me encaminhava para o grupo de mendigos." - E é verdade que você tinha profetizado tudo aquilo, Dom Pedro Dinis Quaderna? - perguntou o Corregedor.
- Para falar a verdade, Senhor Corregedor, desde 1930 que eu esperava e profetizava, todo ano, a volta do meu sobrinho e primo Sinésio. Naquele dia, porém, esquecida de todos os anos em que eu errara a profecia, aquela gente só se lembrava da última, a que eu tinha publicado no Almanaque do Cariri para 1935. De qualquer modo, com certa dificuldade, consegui chegar junto ao velho Misael Cascão, no momento exato em que, também com certa sensação, o Povo começou a notar a chegada de Samuel e Clemente, que tinham vindo comigo e que estavam ainda com roupas de cerimônia, de toga e tudo. Os mendigos estavam sentados na calçada, formando um meio-círculo, no meio do qual, sentada também na calçada, mas encostada com as costas à parede da casa dos Garcia-Barrettos, estava a Velha do Badalo, com seu rosto de bronze e pedra, engelhado e roído pelo tempo. Somente então entendi por qual motivo os mendigos .se mantinham como que alheados ao esvozear da Praça, num silencio atento e fascinado. É que a Velha não se calava um só instante, desde várias horas - ao que me disseram - falando e dizendo coisas estranhas, num murmúrio contínuo que só podia -ser decifrado com grande dificuldade. Qual seria o teor desses murmúrios eu pude avaliar pelo que se seguiu. Porque, assim que cheguei à roda, ela de repente começou a cantar, com uma voz que parecia sair do bronze e da pedra do seu corpo e de seu sangue. Cantou uma daquelas cantigas velhas e sepultadas, que somente ela e Tia Filipa ainda conheciam, na Vila. A música, a solfa dessa cantiga, nunca mais me saiu da cabeça, Senhor Corregedor, porque, assim que ela começou a cantar, eu me lembrei de que Tia Filipa também cantava aquilo às vezes, me botando pra dormir. Era assim: "Nosso Prinspo se perdeu nas terras do Malpassar. Deitam sortes à Ventura quem o havia de buscar. O Cavaleiro escolhido não se cansa de chorar: vai andando, vai andando, sem nunca desanimar, até que encontrou um Mouro num Areal, a velar.
- Por Deus te peço, bom Mouro, me digas, sem me enganar, Cavaleiro de armas brancas se o viste aqui passar. - Desse Cavaleiro, amigo, dite-me, lá, os sinais. - Brancas eram suas Armas, seu cavalo é `Tremedal'. Na ponta de sua Lança levava um branco Senda! que lhe bordou sua Noiva, bordado a ponto real. - Esse Cavaleiro, amigo, morto está, neste Praga!, com as pernas dentro d'água e o corpo no Areal. Sete feridas no peito, cada uma mais mortal: por uma, lhe entra o Sol, por outra, entra o Luar, pela mais pequena delas um Gavião a voar! Mas é mentira do Mouro, seu desejo é me enganar: o nosso Prinspo encantou-se nas terras do Malpassar e, um dia, no seu Cavalo, ao Sertão há de voltar!" - Quando a Velha do Badalo terminou de cantar esse romance, meio-cavalariano, meio-profético - inclusive porque já trazia uma referência ao nome do cavalo de Sinésio - um homem que estava no meio do Povo me avistou e gritou de lá: "`Seu Quaderna, é verdade que esse rapaz do cavalo branco veio para começar a Guerra do Reino? Ele é, mesmo, o nosso Prinspo Dom Sinésio Sebastião, o alumioso que apareceu de novo pra fazer a felicidade de nós?' "Não sei!', respondi com a voz soturna que a cegueira agora me emprestava. `Como é que eu posso saber isso, se estou cego? De tarde, eu estava bonzinho dos meus olhos, ali perto da estrada de Campina, sentado em cima de uma pedra. Estava bonzinho, com os olhos perfeitos que Deus me deu e que eu sempre tive! De repente, passou pela estrada a tropa de Cavaleiros e carretas que vinha com o rapaz do cavalo branco: na mesma hora, dois Gaviões desceram do Sol e me cegaram! Estou ceguinho, cego de guia!' "`Valha-me Deus! Ave Maria! Nossa Senhora!', gritou a mesma voz que tinha falado antes. `Já vi que o rapaz do cavalo branco é nosso Prinspo, mesmo! Vocês estão vendo o que eu dizia? É verdade ou não é? Cadê aquele cego que estava aqui, ainda agora?' "Que cego? Pedro-Cego?', indagaram algumas vozes.
"Não, o outro que chegou depois e ficou por aqui, com a gente!' " 'Estão dizendo, por aí, que ele foi curado da cegueira, por milagre!', explicou outra voz. `Depois que atiraram no rapaz do cavalo branco, dizem que o cego chegou pra perto do nosso Prinspo, tocou na roupa dele e ficou bom da vista!' "Pois ele ficou bom na mesma hora em que eu ceguei!', disse eu, assombrado.
"Meu Jesus Cristo! Minha Nossa Senhora!', gritou, de novo, a mesma voz que falara primeiro. `Acho que foi por isso que o cego daqui ficou curado! Na certa, tem sempre a mesma conta de cegos, no mundo: como o daqui foi curado por ter tocado na roupa do Prinspo, Seu Quaderna ficou cego no lugar dele!' "Ai, meu Deus!', gritou uma mulher ainda jovem, sobrinha da Velha do Badalo e tão doida quanto ela, caindo redondamente no chão, torcendo-se e escumando pela boca como se tivesse sido mordida de cachorro da molesta.
"Meu Jesus! Minha Nossa Senhora!', começou a gritar a multidão, tocada pela faísca, pelo raio de corisco e pedra-lispe que sempre lhe dá nesses momentos.
"Acresce, Senhor Corregedor, que, como acabo de lhe dizer, por entre aquela sertanejada toda, reunida, tinham aparecido tocadores de viola, de rabeca, de pífanos e tambores, todos vindos para a Cavalhada e agora ajuntados ali como se tivesse havido uma combinação entre meus irmãos e eles. Logo quando foi da nossa chegada, segundo nos disse Samuel, algumas pessoas, junto dele, tinham começado `a tocar e cantar uns hinos bárbaros, umas músicas arrepiadoras, algumas sem letra, outras cujas palavras enigmáticas disparatadas parece que viviam no sangue daquela doida gente sertaneja'. Uma dessas músicas eu a conhecia bem, era O Piado do Cachorro, uma música que se tocava em rabecas e pífanos, com tambores acompanhando. De repente, Lino PedraVerde, enervado pela erva-moura e pelo vinho-sagrado da Pedra do Reino, gritou para o Povo: "`Minha gente, vamos cantar o nosso sagrado Hino da Santa Pedra do Reino!', e ele mesmo, por conta própria, começou a entoar a música, com a voz fanhosa, insistente e áspera dos Cantadores. Além de meus irmãos, havia, na Praça, vários músicos que eram da nossa Ordem dos Cavaleiros da Pedra do Reino. Esses, conheciam perfeitamente o bino e logo começaram a acompanhar o canto de Lino Pedra-Verde com seus instrumentos." - Um pormenor, Dom Pedro Dinis Quaderna! - interrompeu, de novo, o Corregedor. - O senhor também cantou? - Não senhor! Sempre me abstive, prudentemente, de fazer essas coisas em público! - Por quê? - Em primeiro lugar, por acanhamento, e depois para não ser mal interpretado pelas autoridades constituídas! Porque, repito mais uma vez a Vossa Excelencia, minha política monárquica da Pedra do Reino sempre foi inteiramente pacífica e inocente! Mas como eu ia dizendo: então os inumeráveis Cavaleiros da Pedra do Reino que estavam por ali, maltrapilhos mas fidalgos, disseminados entre a multidão da qual faziam parte, todos eles começaram a cantar, repetindo várias vezes as duas estrofes do nosso Hino, de modo que, daí a pouco, todo o Povo, impressionado e magnetizado, cantava também! - Anote a senhora aí, Dona Margarida, que o nosso Dom Pedro Dinis Quaderna confessa que, naquele ano de 1935, os seus adeptos já eram inumeráveis, e que, no dia da chegada do rapaz do cavalo branco, todo o Povo cantava o tal Hino da Pedra do Reino! Margarida anotou mais aquele fato terrivelmente comprometedor que eu deixara escapar, nobres Senhores e belas Damas. Quando ela terminou de anotar, o Corregedor voltou-se de novo para mim, dizendo: - Agora, repita hem devagar, para que Dona Margarida também anote, as palavras textuais do_ Hino da Pedra do Reino! - É fácil, Senhor Corregedor - disse eu. - É fácil, porque ainda agora, aqui neste momento, já passados três anos, parece que eu estou vendo a cara que Lino Pedra-Verde fazia naquela noite, enquanto cantava! - Vendo? - espantou-se o Corregedor. - E o senhor não estava cego? Aliás, quero lhe dizer que notei várias contradições a esse respeito em suas palavras, e só deixei passar todas elas porque queria que ficasse tudo registrado e documentado no inquérito! O senhor, além de ter visto várias coisas no quarto de Adalberto Coura, avistou as esculturas e quadros de seus irmãos o o grupo de mendigos na calçada, reunido em torno da Velha do Badalo! - Sim, é verdade, não deixa de ser verdade! - disse eu, balbuciando. - Mas Vossa Excelência não se esqueça de que minha cegueira logo iria se revelar como uma cegueira toda especial, criada pela Providência exclusivamente para favorecer o Gênio da Raça Brasileira em seu cotejo com Homero! Depois, estou apenas usando uma imagem, como outra que Samuel usa freqüentemente: assim como ele diz muitas vezes que foi assassinado moralmente pela calúnia, eu estava vendo tudo naquele momento era com os olhos da alma! Mas continuo: Lino Pedra-Verde, com o ar mordido que o vinho sagrado tinha dado a ele, cantou, impressionando terrivelmente a multidão: "A Onça, por ser esperta, já começa o seu caminho. Fez da sua Furna o ninho o esturra que está alerta! Será a Cadeia aberta! Quanto ao Porco, é muito certo: fugirá para o Deserto, o a Onça, com seu bramido, libertará O Ferido, o nosso Prinspo-Encoberto! - Como lhe disse, Senhor Corregedor, depois da quarta ou quinta vez que Lino e os outros Cavaleiros da Pedra do Reino cantaram isso, a multidão, como se um sopro de insânia sagrada tivesse passado por ali, começou a repetir as estrofes, dizendo as palavras trocadas, estropiadas e do jeito que Deus era servido. Era uma coisa tão impressionante que eu mesmo comecei a ficar arrepiado. Mas Samuel e Clemente, aqueles homens incréus e ímpios, mesmo com as novas disposições em que se encontravam por causa da Ordem do Templo de São Sebastião, permaneciam frios. Samuel, aproveitando um momento em que Lino, cansado, parara de cantar um pouco, interrogou-o: * 'Lino, que disparates mais descabelados são esses? É terra do Malpassar, é onça, é porco, e prinspo, é espora! Que diabo de confusão é tudo isso?' "E o senhor não sabe o que são essas coisas não?', perguntou Lino, espantado de que ainda houvesse, no mundo, gente capaz de ignorar fatos tão importantes e claros. `Tá, Doutor Samuel, eu me admiro é que o senhor, um homem tão filantrópico e litúrgico, como diz o nosso Mestre, João Melchfades, um homem formado, que vive tão perto do nosso Dom Pedro Dinis Quaderna, ainda não tenha entendido a história toda, acontecida desde o começo, com o nosso Prinspo do cavalo branco! Quaderna é homem monárquico, profético e astrológico, e pode muito bem explicar ao senhor que o nosso Donzelo da pedra sagrada é o mesmo Prinspo da Bandeira do Divino e da Pedra do Reino do Sertão. Eu mesmo ouvi Vossas Senhorias falando sobre isso, A Onça vai esturrando atrás do Porco-Selvagem: matá-lo-á na passagem, com nosso Prinspo ajudando! o Rei vai ressuscitando no Prinspo, sua Criança.
o a Espora da remonstrança, Pedra do Reino e da Prata, no sangue desta Escarlata, no sertão desta Vingança!" inda agora, e é por isso que me admiro que o senhor agora esteja estranhando tanta coisa! Nosso Prinspo apareceu na Serra do Rodeador, no tempo do ronca, no tempo de Dom João Pamparra o de Dom Pedro Cipó-Pau. Estava escondido na Casa da Pedra de onde a Santa falava, no soterranho! O nome do nosso Prinspo varia, ora é Dom Sebastião, ora é São Sebastião, conforme a necessidade! Ali, na Serra do Rodeador, mataram o nosso Prinspo o mataram também o Profeta dele, Silvestre José dos Santos, o homem dos santos, também chamado dè Mestre Quiou, o Enviado. Era o Profeta montado em seii alazão, e o Prinspo no cavalo branco! Mas o Prinspo ressuscitou, e apareceu de novo, na Pedra do Reino do Pajeú, sustentado pelos quatro Reis, os bisavós, aqui, do nosso Rei e Profeta atual, Dom Pedro Dinis Quaderna. Tem gente que fala em três Reis, mas eu sei, de fonte segura, que eram quatro: Dom João I, chamado também Dom João Antônio; Dom Pedro I, ou Dom Pedro Antônio; Dom João II, ou Dom João Ferreira-Quaderna, casado com a Princesa Isabel; o Dom Sebastião Barbosa, que era o mesmo Rei Dom Sebastião, escondido e encoberto na pedra, como sempre!' "O qué, Lino?', interrompi eu, pois esse quarto Rei era novidade até para mim mesmo. `E havia um quarto Rei, chamado Dom Sebastião Barbosa, na Pedra do Reino?' "Havia, sim! É coisa segura, porque este ainda chegou a ser conhecido pelo Major Optato Gueiros, da Polícia de Pernambuco! Que valha a palavra dele, já que eu sou um ignaro e, comparado com Vossas Senhorias, não passo de um batráquio contemplando as três estrelas do Escorpião! Mas o certo é que, ignaro ou não ignaro, tenho também alguns estudos filantrópicos que fiz com João Melchíades e aqui com meu companheiro na Arte da Poesia, Dom Pedro Dinis Quaderna, o Decifrador! Eu li o Lunário Perpétuo e o Chernovix, assim como o Taro Adivinhaticio, de modo que conheço certas coisas bastante misteriosas o capacitárias, coisas que dão pr'o gasto! Por exemplo: eu sei, de fonte segura, que na Pedra do Reino mataram de novo o nosso Prinspo, que estava no sacrário, trancado, escondido e encoberto pelo encantamento! O folheto que o nosso Quaderna, aqui, publicou sobre o assunto explica tudo: dessa vez, foram os Pereiras, a família de Sinhô Pereira! Não sei se Vossas Senhorias conheceram Sinhô Pereira, mas eu e Quaderna chegamos a conhecer: era um homem de família ilustre, um homem forte, valente como uma Onça e brabo que só uma Caninana! O nome dele era nome sagrado, porque Dom Sebastião. Pereira era como ele se chamava! Foi por isso que, na força do nome dele, os Pereiras conseguiram vencer os quatro Imperadores da Pedra do Reino! E sabem quem era o pai de Sinhô Pereira? Era oBarão do Pajeú! O Barão tinha filhos legítimos, como Sinhô, e a um filho-da-puta, filho dele e de uma Cigana, o tal do Cigano Pereira! Esse pessoal todo, junto, deu um fogo na Pedra xr do Reino! Atiraram no sacrilégio das Torres encantadas, e, para vencer o sangue, cobriram a terra de sãngue - sangue que ficou iii, vermelho, ensopando a poeira e queimado pelo Sol! Aí, o nosso Prinspo morreu de novo. Mas ressuscitou outra vez, agora no Império do Belo-Monte de Canudos, em 1897, já no tempo do reinado do nosso Dom Pedro III, mais conhecido como Pedro ustino Quaderna, pai aqui do nosso Dom Pedro IV! É por isso que, no Belo-Monte de Canudos, o nosso santo Conselheiro dizia: "Quem não sabe que o digno Príncipe, o Senhor Dom Pedro III, tem poder legitimamente constituído por Deus para governar o Brasil?" O pessoal pensava que ele estava falando era do filho de Dom Pedro II, mas como podia ser . isso, se Dom Pedro II não tinha filho? 1 claro: o Conselheiro estava falando era do nosso Dom Pedro Justin Quaderna, porque no Reino é sempre assim que as coisas se passam: é um Rei castanho, no seu alazão, servindo de Profeta e sustança para o Prinspo do Cavalo Branco! E o fato é que ali em Canudos foi aquela guerra desadorada, aquela Tróia, tudo quanto foi de Polícia e Exército de todas as Turquias do mundo, lutando contra o sagrado Império do BeloMonte! Para despistar, eles diziam que a raiva deles era contra o pessoal guerreiro que apareceu brigando na Guerra. Mas era mentira! A luta daqueles turcos do Diabo não era nem contra o Conselheiro, nem contra Pajeú, nem contra Pedrão, nem contra o Major Sariema, nem contra nenhum daqueles Chefes guerreiros de Canudos! Toda aquela guerra, foi porque o Governo de turcos tem medo e raiva do nosso Prinspo, do Príncipe do Povo! Sim, porque ele estava lá, como sempre, trancado no Sacrário. O pessoal de fora, cego, só via Aquele que aparecia, o Descoberto, o nosso Santo Peregrino Antônio Conselheiro. Mas está aí o nosso Quaderna, que é bisneto dos Imperadores da Pedra do Reino e que sabe disso muito melhor do que eu. O que o Conselheiro fazia era somente cumprir as ordens do Prinspo, que vivia escondido o encoberto, dentro do Santuário, por trás de um véu bordado com o Sol, a Lua e as estrelas! Aí, pressentindo o perigo, mandaram para lá um Herodes, o Corta-Cabeças que tinha sido Imperador de Roma, o Coronel Moreira César, o mesmo César que tinha mandado as onças comerem os Cristãos no circo de Roma e que lá, na Roma deles, tinha também mandado matar São Sebastião. E aí é que se vê, mesmo, o motivo do medo deles: é que São Sebastião é o mesmo São Jorge montado no cavalo branco e matando o Dragão, e e o mesmo Dom Sebastião, que liberta a Onça castanha o manda ela matar o Porco branco que vem do estrangeiro! E é o mesmo Dom Pedro Sebastião, pai de Dom Sinésio Sebastião e que foi degolado! Todos esses são uma pessoa só, a Onça da Ressurreição! É por isso que, na Pedra do Reino, o nosso Rei Dom João Ferreira-Quaderna ensinava que, além dos meninos e das mulheres, era preciso degolar os cachorros, que terminariam ressuscitados sob o comando da Onça, para acabar com os que maltratam o Povo! Então o Governo adivinhou que o nosso Prinspo estava vivo de novo, e mandaram o Coronel César, Imperador de Roma, para acabar a Guerra do Reino que o Povo sertanejo ia ganhar de vez, revirando essa merda toda numa tribuzana macha! O certo é que, ganha aqui, fode-se ali, terminaram matando de novo o nosso Prinspo! Mas aí chegava o nosso tempo e a vez desse Cariri velho do inferno das pedras! E apareceu o nosso velho Rei, Dom Pedro Sebastião, e lá ele mandava chamar para morar com ele o nosso Dom Pedro III! E lá Dom Pedro Justino se casava com Dona Maria Sulpfcia, e lá nascia o nosso Dinis, o nosso Dom Pedro IV! E era tudo esperando o nascimento do Prinspo, porque, como Dom Pedro III tinha explicado no Almanaque do Cariri, Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto era o mesmo Dom Sebastião da Pedra do Reino, era o mesmo que matou o Porco para libertar a Onça, na Africa! Primeiro, nasceu o primeiro Prinspo, Arésio, que era contra o Povo. Era preciso, então, que o velho Rei emprenhasse outras mulheres, pra ver se nascia o Desejado! Ele emprenhou Maria Todo-Mundo, e lá nasceu, ressuscitado, o nosso Silvestre, ou melhor, Mestre Quiou, o Enviado, Profeta da Serrado Rodeador. Aí, Dom Pedro Sebastião casou com Joana, filha de Dom Pedro III, porque era preciso que o Prinspo tivesse o sangue do pessoal Quaderna, da Pedra do Reino! Tudo isso foi sendo explicado aos poucos, no Almanaque! E aí, em 1910, nascia o nosso Prinspo, vindo do Sol, montado num cavalo de . asas e trazido pelo cometa! Era, afinal, o nosso Dom Sinésio Sebastião, o filho de São Sebastião - santo do cavalo branco. E lá começou, de novo, a tribuzana da Guerra do Reino! Primeiro, foi em 1912, com a Guerra de Doze, com o nosso Rei Dom Pedro Sebastião montado no cavalo alazão dele, com o Negro Vicente, com Seu Hino, Germano, Severino, Miezinha e aquela cangaceirada toda! E veio a Guerra do Santo Pad e do Juazeiro em 1913, e a Guerra da Coluna, em 1926, com Luís Carlos Prestes e a Guarda dos Doze que tinha ficado da outra guerra! E aí, em 1930, veio a Guerra de Trinta, a Guerra de Princesa, com o Governo já de novo pressentindo o perigo. Sabiam que o Povo ia terminar ganhando a briga, atrás do cavalo alazão do Rei e do cavalo branco do Prinspo! Aí, para que isso não acontecesse, mataram o nosso Rei Dom Pedro Sebastião, que foi degolado pelo Corta-Cabeças da Roma de Canudos, aquele desaçado! No mesmo dia, roubaram o filho dele, o rapaz santo e tem mancha, o Prinspo do Povo. Enterraram o coitado com uma Xorrente amarrada no pé, lá longe, perto da Turquia, já perto da beira do Mundo e pra lá do inferno das quengas três dias de viagem! Aí, no buraco debaixo da terra, deixaram o Prinspo morrer de fome, pra ver se, assim, ele ficava sepultado de uma vez e nunca mais ressuscitava! E ele morreu mesmo, coitado, de fome e desespero, sem Pai, sem Mãe e sem ninguém para punir por ele, sofrendo tudo quanto foi de maltrato e judiaria sem dizer malcriação nenhuma contra aqueles homens ruins! Mas não adiantou nada, essa maldade: porque, assim que se passou o prazo de um ano e um dia, o nosso Prinspo ressuscitou e reapareceu, tendo achado numa estrada por Frei Simão. Vinha vestido de uma túnica branca, com uma corda prendendo a cintura e com duas flores na mão, uma de Pau-D'arco amarelo e outra de Coralina encarnada - o Ouro e o Sangue! Estava esquecido de tudo, pelos sofrimentos que tinha passado, mas Frei Simão e o Doutor Pedro ensinaram tudo de novo a ele! Ele montou no cavalo branco e voltou para o Cariri, para fazer a felicidade do Povo sertanejo! Como foi que ele apareceu, saindo de novo de debaixo da terra? Ninguém sabe! O que se sabe é que ele apareceu e entrou hoje aqui, porque Dom Sinésio, o Alumioso, Prinspo da Bandeira do Divino, é o filho de São Sebastião, Rei do Brasil e da Pedra do Reino do Sertão!' "Quando Lino Pedra-Verde terminou essa magistral explicação, Senhor Corregedor, estava com os olhos cheios de lágrimas, um pouco pela emoção e um pouco por embriaguez. Julguei que aqueles dois homens empedernidos iriam se abalar e finalmente, abandonando a vida ímpia que tinham levado até então, se converter à nossa santa Fé católico-sertaneja! Mas qual! Continuaram na mesma obstinação, na mesma quizila de sempre, duvidando de tudo o que é sagrado, e, o que é pior ainda, tentando explicar a chegada de Sinésio e dos Cavaleiros que o acompanhavam como um episódio dos movimentos subversivos de cada um dos dois. Samuel veio logo com as implicâncias direitistas dele contra o Sertão. Disse: "`Olhe, Lino, tudo isso que você está dizendo é uma confusão terrível, que só podia partir, mesmo, da cabeça de um Cantador sertanejo instruído por Quaderna, como você! Não nego que, de certa forma, até simpatizo, em bloco, com o que você diz, mas é preciso esclarecer tudo bem direitinho, senão o resultado é péssimo! Confundir, por exemplo, um Rei cruzado, católico e cavaleiresco, um Rei fatídico como foi Dom Sebastião, com essas barbaridades sertanejas da Pedra do Reino e de Canudos,Mé coisa que devia ser proibida na Constituição! O Sebastianismo, Lino, foi a coroa e a rosa da Raça Latina! Foi fruto do sangue português e superior a tudo o que a própria Espanha pôde conceber nessa linha, porque Dom Sebastião foi uma pessoa que existiu mesmo e se transcendeu em Mito; enquanto que na Espanha, o máximo que se conseguiu, no mesmo estilo, foi uma criação meramente literária. E espúria, ainda por cima, porque foi saída não do sonho da Cavalaria, mas do escárnio, do "carnaval fantástico da Cavalaria", como disse Tobias Barretto num de seus poucos acessos de inteligência! E outra coisa, Lino: não confunda São Sebastião, o santo que foi morto em Roma, com Dom Sebastião, o Rei de Portugal que morreu na Africa, na Batalha de AlcácerQuibir! São Sebastião foi um, Dom Sebastião foi outro!' "Não sei, Doutor, não sei!', disse Lino, com ar duvidoso o cético, coçando a cabeça ante a necessidade em que se via de discordar de uma pessoa formada como Samuel. 'Mas, como o senhor é pessoa ilustre, até que pode ser que tenha razão! Mas uma coisa eu lhe digo, Doutor Samuel: ande com cuidado, porque todos esses assuntos são muito misteriosos. Não pense que o senhor, por ser formado, resolve todos eles assim, com uma penada só, não! A gente fala assim de oitiva dessas coisas, mas o fato é que o Prinspo Alumioso e a Guerra do Reino do Sertão são coisas sérias demais, Doutor! O senhor falou, aí, em São Sebastião, não foi? Pois me diga uma coisa: o que é que o senhor sabe sobre a morte dele? Não quero saber coisa ouvida de oitiva não, quero é coisa garantida, coisa litúrgica e séria, aprendida nos livros! Como foi que São Sebastião morreu?' "Olhe, Lino', disse Samuel, hesitante, 'é muito difícil dizer somente coisas sérias, aprendidas nos livros, sobre um assunto como esse! Para mim, porém, para mim que acredito no Sonho e na Legenda, para mim, derradeiro Fidalgo desta pátria prosaica, a Legenda e o Real são uma coisa só! Assim, posso lhe dizer que foi o Imperador quem mandou flechar São Sebastião.' "O Imperador?', disse Lino, aboticando os olhos. 'Oi, foi o Imperador? Que Imperador? César?' "Bem, tanto faz dizer César como dizer o Imperador.' "Ah, tanto faz, e? E então por que é que o senhor vem com conversa fiada pra meu lado, dizendo que tudo o que eu disse está errado? Esse Imperador não morava em Roma? O nome dele não era Moreira César? Ele não era Coronel do Exército? Não era amigo do Marechal Floriano Peixoto? Não foi ele quem jurou que ia cortar a cabeça do Prinspo do Cavalo Branco, em Canudos?' "Lino, tenha paciência, mas Canudos foi outra coisa! A morte de São Sebastião, ordenada pelo Imperador, foi em Roma o aconteceu há muito tempo!' "Doutor Samuel, tenha paciência também, mas por isso não! Por isso não, porque a Tróia do Conselheiro também aconteceu há muito tempo, e tanto faz Roma como Canudos, tudo aquilo foi uma Tróia só, está aí Dom Pedro Dinis Quaderna que o diga! Está lá tudo isso, escrito no folheto de Jota Sara! E tem mais: o senhor não disse, aí, que flecharan São Sebastião?' "Flecharam, sim, mas dizem que ele não chegou a morrer com essas flechadas! Foi deixado no mato, como morto, mas sobreviveu e foi encontrado por umas santas mulheres, que o levaram para Byblus e ungiram o corpo dele, estancando o sangue das feridas, de modo que ele sobreviveu e escapou!' "Está vendo?', disse Lino, vitorioso: 'E o senhor ainda vem duvidar! Queriam matar São Sebastião, mas ele escapou e ressuscitou. E não sou eu quem diz isso não, é o senhor mesmo, pessoa formada e ilustre! Então, está provado: o Coronel Moreira César, Imperador de Roma, do Marechal Floriano Peixoto e do General Deodoro da Fonseca, quis matar São Sebastião, mas ele escapou, o tudo isso se passou foi em Canudos, aquela Tróia! O senhor disse, aí, que ele foi deixado como morto mas que, de fato, estava vivo. Está certo, eu até compreendo que o senhor faça assim: o senhor é homem formado e fica com vergonha de acreditar em certas coisas. Mas eu, que sou homem ignaro, tenho direito de não ter vergonha de acreditar na verdade. Por isso lhe digo: quando essas mulheres encontraram São Sebastião ele estava era morto mesmo - morto, ungido e consagrado! Agora, o que acontece é que o Prinspo do Cavalo Branco é um despropósito, para ressuscitar: o Governo facilitou, ele ressuscita! E me diga outra coisa, Doutor Samuel: depois que São Sebastião morreu das flechadas e ressuscitou, ficou vivo de vez ou morreu de novo?' "'Olhe, Lino, o que vou lhe dizer é o que li no Missal: o Imperador mandou prendé-lo de novo, em Byblus. Arrancaram-no da mão das santas mulheres e o mataram a cacetadas. As mulheres, em pranto, colocaram-no num catafalco de ébano e ouro, e assim ele foi enterrado!' "Não sei, Doutor Samuel, não sei!', disse Lino com o mesmo ar duvidoso. 'Mas se o senhor garante que leu isso no Missal, deve ser verdade! Esse tal de Seu Missal deve ser pessoa sagrada o litúrgica. Mas eu confesso ao senhor que as notícias que tenho são muito outras, e foram dadas por pessoas tão filantrópicas quanto o senhor e Seu Missal! O senhor tem certeza de que o caixão onde enterraram o santo era de ouro? Ouvi falar que era de pedra e que é por isso que São Sebastião foi sepultado nas duas torres de pedra da Catedral da Pedra do Reino, no Sertão do Pajeú! Mas me conte, aí, mais cinco tostões dessa história! Me diga uma coisa: antes dessa morte por flechadas, não houve, com São Sebastião, umas tribuzanas brabas, uns barulhos danados de guerra na Africa? Não foi uma batalha contra os turcos? E São Sebastião não estava na batalha, montado no cavalo branco de São Jorge?' "Lino, pelo amor de Deus, entenda!', disse Samuel, já impaciente. `Aí, agora, nessa batalha, já era, mesmo, Dom Sebastião, Rei de Portugal! É aquele Rei que queria transferir a sede da monarquia portuguesa para o Brasil!'