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A pedra do reíno e o Principe do Sangue do Vai-e-Volta

Ariano Suassuna

"'Então é ele mesmo, eu estava certo, Doutor! Está vendo, Dinis? Está vendo, Professor Clemente? Foi ele em Canudos e foi ele na Pedra do Reino, porque aquilo ali, na Pedra do Reino, foi um despropósito, uma monarquia da gota-serena, com guerras, coroas, confusões e tudo! Além disso, no Sertão é que está enterrada a Monarquia do Brasil! É por isso que eu estava dizendo: tudo isso é uma coisa só, e a Monarquia de Dom Sebastião, do Brasil, do Sertão, de Portugal, da Africa e do Império da Pedra do Reino! Me diga uma coisa, Doutor Samuel: eu não ouvi o senhor dizer, uma vez, que Dom Sebastião lutou, e pelejou pra vencer, com a mouraria dos Ciganos, na Africa?' "Ouviu sim, Lino!' " E ele não estava montado num cavalo branco?' "'Estava, porque cederam um cavalo dessa cor a ele.' "`Oi, cederam? Quem cedeu? Quem era o dono do cavalo?' "'Era Jorge de Albuquerque Coelho, fidalgo dos engenhos, Senhor e Conde de Pernambuco!' "`Está vendo, Doutor Samuel? É o senhor mesmo quem confessa que o dono do cavalo branco se chamava Jorge e morava num Engenho, ali para os lados do Pajeó, no Sertão de Pernambuco! O que eu me admiro é que o senhor, sabendo todas essas coisas, ainda se meta a duvidar! Ave Maria, só mesmo quem quer ir para o Inferno! É claro, Doutor, que quem deu o cavalo branco ao Rei era o mesmo São Jorge que apareceu no Pajeú! É o São Sebastião que apareceu na Pedra do Reino, que é o mesmo Dom Sebastião que apareceu naquela Tróia, naquela Africa que foi o Império de Canudos!' "'Bem, por isso não, porque há quem diga que esse problemático cavalo branco de Dom Sebastião pertencia, não a Jorge de Albuquerque Coelho, e sim a Dom Antônio, Prior do Crato!', disse Clemente.

"`O quê, Doutor Clemente?', gritou Lino, dando um salto. `O senhor disse Dom António, foi? E disse que ele era do Crato, foi? Do Crato, ali no Sertão do Ceará, perto do Juazeiro do Padre Cícero? Está vendo, Doutor Samuel? Um dos Reis da Pedra do Reino chamava-se João Antonio, e terminou indo para o Crato, no Sertão do Ceará. E se esse tal Dom Antônio que deu o cavalo a Dom Sebastião era Prior do Crato, vá ver que lera ele quem estava na Batalha da Africa - o nosso Rei da Pedra do Reino, João Antonio, Prior do Crato! E é isso mesmo, porque todos esses são uma pessoa só - Dom Sebastião Barbosa, São Sebastião, Dom Antônio Galarraz, Dom João Quaderna, Dom Antonio Conselheiro, Dom Pedro I -, todo esse pessoal santo e guerreiro, as sete pessoas da Santíssima Trindade! Ali, na Africa, o pau cantou, eram os Mouros contra os Cristãos, e o cavalo branco, e as lanças da Cavalhada, e o Cordão Azul e o Encarnado... A briga foi feia, e não admira que o Prinspo mude de nome, aqui e ali, para despistar a Polícia! Cada vez que ele aparece, adota um nome diferente, de acordo com as necessidades e perigos da Guerra do Reino! É Dom Sebastião, é Dom Pedro, é Dom Pedro Sebastião, é Dom Antônio Conselheiro, é Dom Pedro Antonio, é Antonio Mariz, é Antonio Peri, é Peri-val, é Persival, é Antonio Gala-Foice, é Antônio Galarraz, é Sinésio Sebastião, filho de Dom Pedro Sebastião, e por aí vai! Quem foi que acabou com o nosso Rei Silvestre Quiou, no Rodeador, Professor Clemente?' "`Foi o Governador Luís do Rego, que enviou uma Divisão do exército régio, comandada pelo Marechal Luís Antônio Moscoso e que tinha como Ajudante principal o Major Madureira.' "'Ouvi falar, ouvi falar! Sei, de fonte segura, que esses homens malvados que acabaram com o Reino da Pedra do Rodeador foram os mesmos que botaram Dom Pedro II pra fora, foram o Marechal Floriano Moscoso e o General Deodoro Madureira! Mas o fato é que o nosso Silvestre foi passado a fio de espada, mas terminou ressuscitando, em Goiana, e aparecendo depois, de novo, na Pedra do Reino, com o nome de Dom Sebastião Barbosa!' "'Meu Jesus, que misturada mais danada!', disse Samuel, com um suspiro. `É pior do que as do Mestre dele, Quaderna! Que Dom Sebastião Barbosa que nada, Lino! Que vocé fale em Dom Sebastião como presente na Pedra do Reino, ainda vá! Mas que use, para ele, um sobrenome qualquer aí, como se ele fosse um almocreve sertanejo, isso é que me dói, porque é um disparate completo!' "Que disparate que nada, Doutor Samuel! O senhor veja que o Major Optato Cueiros é homem ilustre, Major da Polícia e' protestante, homem sério, incapaz de mentir! Lutou contra Lampião, brigou no Ceará, perto do Crato do Prior do Crato, de modos que, de maneiras tais, que está muito escolado nessas Tróias todas! Pois o Major jura, pela Hóstia e pelo cálice, que o nome do Prinspo encoberto da Pedra do Reino era Dom Sebastião Barbosa! É claro que estou falando do Rei Coberto no sacrário das pedras, porque os Reis que apareciam eram os bisavós, aqui, do nosso Dom Pedro Dinis Quaderna! E o senhor não se espante não, porque é mesmo assim que essas coisas são. É como eu dizia num verso que escrevi: "Com o C também soletro: Canudos, Cebastião, Cinésio, Çofrive, Certo, Cilvestre, Cristo e Certão.

Morrem uns a bem dos outros: e é assim que as coisas são!" "E por isso', continuou Lino, `que eu digo que tudo isso é uma coisa só: porque, quando o nosso Santo Antônio Conselheiro de Canudos disse que a monarquia da Revolução e da Guerra do Reino ia se dar era no Sertão, é porque já sabia que Dom Sinésio Sebastião, o Alumioso, filho de Dom Sebastião, o Degolado, ia ser Prinspo da Guerra, aqui no Cariri! O Conselheiro, Doutor, esse éra homem sagrado e foi por isso que teve força para levar à frente a tribuzana macha de Canudos!' "O que não impediu que acabassem com ele e com sua guerra do Sertão, Lino!', disse Clemente, com ar pensativo.

"Não sei, Professor Clemente, não sei!', repetiu Lino, como sempre. `O senhor é quem está dizendo, mas será que o Governo acabou, mesmo, aquela guerra? Ali em Canudos foi uma tróia, um despropósito! O senhor conhece os versos que meu colega Jota Sara fez com a história de Canudos?' "Não, Lino!' "`São versos muito importantes! Quaderna tem o folheto, que eu decorei para cantar na feira. Começa assim:

"O Leitor já viu contar a história do Conselheiro? Foi um simples Penitente que assombrou o mundo inteiro: modesto, honesto e valente, que fascinou muita gente neste Sertão brasileiro!

Sua Arma era uma verga na espécie de bastão. Era o tipo de Moisés pregando pelo Sertão: imitava-o no Sinai' o o Povo o tinha por Pai o autor da Redenção! A Nação gastou dinheiro o cinco mil Oficiais! Nos pelados de Canudos estão seus restos mortais! Os ossos petrificados: veio gente dos Estados que não voltou nunca mais!

Reuniu-se aquela gente pr'o dia da Redenção, esperando o Salvador o o Rei Dom Sebastião! Gente fazia fileira: foi a Tróia Brasileira nos carrascais do Sertão!" "`Está ouvindo, Samuel?', gritou .logo Clemente, com ar triunfante. `Está ouvindo você também, Quaderna? Estão vendo a simpatia com que o Cantador fala do Povo,. opondo-o aos Oficiais do Exército? E vocês dois insistindo, um nessa porcaria da Direita, o outro nessa bosta confusa de Monarquia da Esquerda!' "`Eu nunca duvidei de que esses Cantadores e Cangaceiros sertanejos fossem da Esquerda!', retrucou Samuel. `Como podia ser de outra forma, se são da Plebe e brotados dessa sociedade bárbara de Almocreves que é a de vocês? O que eu sempre disse foi que, no dia em que o Povo brasileiro vier a conhecer seus verdadeiros Senhores, deixará essas barbaridades e fanatismos e entrará pelo caminho católico, cruzado, flamengo-ibérico e fidalgo do Brasil! De modo que você, Clemente, dirija suas críticas aí para o outro lado, porque quem adota essas misturadas de Povo sertanejo, Tróia, Canudos, soldados e monarquias da Pedra do Reino é Quaderna!'

"`Pois então Quaderna deve estar muito desgostoso, ouvindo agora, por intermédio, aqui, de seu discípulo, que o Povo sertanejo pode sofrer alguns desvios ideológicos, às vezes, mas, no fundo, é a favor da Esquerda, da Esquerda pura, da Esquerda verdadeira, e não dessa doidice de Esquerda com coroas, reinos, tronos, brasões, bandeiras, cavalos e não sei que mais!', disse Clemente, voltando-se para mim.

"Eu, que não estava para acordos, principalmente naquela hora, tão importante para nós, voltei-me para Lino Pedra-Verde e, por entre os gritos e lamentações da multidão, que continuava com seus brados e vozerios, chamando pela presença do Alumioso, disse: " 'Lino, vamos mostrar, de uma vez para sempre, a verdade a esses dois teimosos! Repita aqui, para esses dois ímpios que vivem querendo tapar o Sol com peneira, aqueles dois versos do romance de Jota Sara que falam desta República de traidores do Brasil como se fosse uma safadeza, e que elogiam o Império do Impostor Pedro II, que, apesar de usurpador, pelo menos era Rei, usava coroa e ficou a favor do Conselheiro!' "Lino, sem se fazer de rogado, cantou as seguintes estrofes:

`Denunciaram pr'o Rio ao Governo Imperial. Dom Pedro II disse: - Esse homem não faz mal! Mudaram, então, de estilo: queriam mandar pr'o Asilo, Manicômio ou Hospital.

No ano de 93 fizeram grandes asneiras: deram vivas à República, cobraram imposto nas Feiras. Era insulto ao Conselheiro! E seu Povo estava ordeiro para ser posto às carreiras!

O Conselheiro montou no seu fiel Alazão.

Com mulheres e crianças foi, caminho do Sertão! A tarde, seguiu a Cruz: dando vivas ao Bom Jesus rasgaram as Leis na mão!'" " 'E!', falou Clemente, suspirando. `A gente vai ter uma certa esperança no espírito revolucionário dessa gente, termina sempre sendo traído! Esse Povo brasileiro é mesmo uma desgraça! O peste do Cantador ia até bem, no começo: mas já começou a dizer besteira!' "Besteira? Besteira uns cus!', disse Lino, com a exaltação que lhe era comunicada pelo Catolicismo Sertanejo, pelas salmodias da multidão e pelo Vinho sagrado da Pedra do Reino. `O que é importante e eu quero que me digam é o seguinte: o nome é Peri, Perival ou Persival? Dom Antônio Mariz, o homem do livro que Quaderna me emprestou, é o mesmo Dom Antônio, Prior do Crato? Onde foi a Demanda do Sangrai, feita por Dom Antônio Galarraz e Perival? Foi no Crato, perto do Juazeiro de Padre Cícero

e terra do Prior do Crato, ou foi aqui no Cariri, na Espinhara, no Pajeú e no Seridó, entre o mar do Rio Grande do Norte e o sertão do Rio São Francisco?' "`O quê, Lino? Que confusão é essa?', perguntou Samuel, espantado.

"`Confusão? Confusão, uma porra!', disse Lino, escumando pela boca. `O senhor, Doutor Samuel, conhece o Romance da Demanda do San gral, que se canta aqui na Espinhara, no Sertão da Paraíba?' "`Não!' "Pois escute! Escute, que, com essa, o senhor vai amarelar, vai ficar empenado e vendo como tudo isso é uma coisa só, porque esta, além de ser a história astrológica do rapaz do cavalo branco, é uma história da gota-serena, uma história mordida de cachorro, Dom Pedro Dinis, af, que o diga!' "E Lino, aboticando os olhos, começou a recitar os seguintes versos, que já tinha cantado diversas vezes para mim:

`São cento e cinqüenta Homens à procura do Sangrai, rubi vermelho do Sangue na esmeralda do Grial! De todos os Cavaleiros que o puderam avistar, tem . um ruim, que é Dom Gaivão, sangue negro e luz do Mal. Este monta um Corcel negro que tem nome de "Punhal" e deseja, como os outros, apossar-se do Sangrai.

Todos viram o Santo Cálice mas só um o reverá. É nosso Prinspo sagrado: seu nome, quem saberá? R Sinésio? E Galarraz? Sebastião? Persival? Por vinte anos e um dia na Catinga ele errará, montado em seu Poldro branco que se chama "Tremedal", de Gibão, chapéu e esporas - cabo de ouro em seu punhal! São três vezes sete anos pelo Sertão a vagar.

o um dia, junto a uma Pedra - a Rocha do Escalará - Dom Gaivão ataca o Príncipe e este consegue o matar.

o Prinspo vence e a vitória nunca mais se esquecerá. Porém o sangue do morto nosso Prinspo embeberá: Desde então, ferve em dois sangues: Sol do bem e luz do Mal. Desde então, tem dois Cavalos e os dois passa cavalgar: monta em "Tremedal" de dia e, de noite, no "Punhal" monta o branco sob o Sol e o negro sob o Luar.

Quem, agora, gosta dele? Que mulher o quererá? A Dama dos olhos verdes,, a cansada de sonhar! Então, na Pedra da Soçte, de tanto assim o escalar, o sangue vermelho pôde ao sangue negro limpar. E, após o dia do Fogo - Rosa, brasa, Sol-Lunar - junto à Laje da Aspersão, entre o Sertão e o Mar, clariando a escuridade o Prinspo viu o Grial, chama rubra do Sertão o chama verde do Mar, sangue vermelho do Cálice, taça de Jaspe lunar! Desde então, não mais se ouviu na Demanda se falar, nem daqueles que viviam para o Sangrai encontrar: uns dizem que se mataram pra ir o Sol habitar, outros, que eles se abrasaram no Fogo que os foi sagrar.

Quanto ao Pinspo e à Sonhosa, nada se pôde apurar! Diz um Cego que se uniram sob a Pedra a coruscar, no Reino Estranho que havia numa Furna, a se ocultar, entre Frutos capitosos o a Romã do divinal.

Porém jura um Cantador que um Anjo os veio raptar, nesse Reino consagrado do Sertão à beira-mar, entre balas, ladainhas, o espadas a flamejar, enquanto chamas e Arcanjos, em torno, vinham cantar, esvoaçando e encobrindo a Sagração do casal.

O certo é que se encantaram, na Terra do Alumiar, cavalos e Cavaleiros que buscavam o Sangrai, o o Prinspo ardente do Sol, é a Dama e garça do Mar!" O Vinho da Pedra do Reino

- Outra charada de versos enigmáticos! - comentou o Corregedor.

- Foi exatamente isso o que o Doutor Samuel disse a Lino naquela noite, Senhor Corregedor! - expliquei. - Quando Lino acabou de recitar esse logogrifo em forma de romance, o Fidalgo pernambucano falou: "Ah, meu Deus, essa bárbara Civilização do couro estraga tudo! Parece que é a história ibérica e nobre da Demanda do Santo Graal, mas inteiramente deturpada! Os nomes aparecem todos errados, e lá vem a Catinga, e um cavalo chamado Punhal, o um Cavaleiro vestido de gibão e chapéu de couro, e lá aparece o Sertão metido onde nunca esteve, e lá aparece uma Mulher, de olhos verdes e parecida com uma garça, estragando, com sua presença, a idéia de castidade absoluta que se deve ligar à imagem do Cavaleiro que deveria ser um misto de Guerreiro e monge... Que mau gosto desgraçado! E falta. tudo o que, na história ibérica, existe de mais belo! Falta a roupa do jovem Cavaleiro, do casto Galaaz, roupa que deveria constar de loriga, brafoneiras, elmo, guarnacha e sobre-sinais de eixâmete vermelho! Não aparece nenhum alfâmbar, nem cálices esculpidos em esmeraldas verdes e contendo o sangue precioso do Cristo! Não aparece, sobretudo, aquela espada que, retirada da bainha pelo Cavaleiro maldito, sai toda molhada de sangue, de um sangue tão quente e vermelho como se a tivessem sacado há pouco do corpo de um homem ferido de morte! De maneira, Lino, que, na sua cantiga, só existem duas coisas que se podem considerar verdadeiramente herdadas da tradição ibérico-brasileira: a presença do Cavaleiro maldito e oos cento e cinqüenta homens que empreendem a Demanda!' "'Bem, Samuel', interrompi eu. `De qualquer maneira, você mesmo reconhece que alguma coisa ficou! E, se é assim, você pode entender que a viagem que vamos empreender com o rapaz do cavalo branco é uma Demanda novelosa e fidalga! Pode nos dar o seu apoio, ganhando suas armas e seu título de Barão e, ao mesmo tempo, me ajudar, para que eu tente desencantar o tesouro o assistir aos acontecimentos, para ter assunto para minha Epopéia!' "Quaderna, sua receita literária é tão ruim, que absolutamente não tenho medo de que você passe na minha frente, na parte lítero-poética! Quanto à outra parte, a heráldica, estou de acordo: vou empenhar com o Condestável Pedro Gouveia, minha palavra de Fidalgo!' "Meus parabéns, Barão!', disse eu, imitando o Doutor Pedro. `E você, Clemente?' "'Digo o mesmo que Samuel disse, porque, quanto à parte literária, não tenho medo de nenhum dos dois. -Quanto à outra parte, também vou! Não porque tenha resolvido trair minhas idéias, mas porque é necessário não dar argumentos à Direita contra o Filósofo do Povo!' "'Pois ótimo para todos nós!', falei, contente. `Quanto a mim, verei tudo, gravarei tudo na cabeça e no sangue, e vou escrever uma Epopéia sobre a viagem do rapaz do cavalo branco!' "`Isto, Quaderna!', concordou Lino Pedra-Verde. `Vamos meter o pé na estrada e, com a guerra do Prinspo, você escreve um romance dos bons, que é para a gente imprimir e fazer um folheto! Mas não escreva coisa besta, não: quero uma história litúrgica, epopéia, lunária, astrológica, solar, risadeira, de putaria, bandeirosa e cavalariana, tendo como centro a Demanda Novelosa da Guerra do Reino, que a gente vai fazer!' "Tanto eu como meus dois Mestres, Senhor Corregedor, tínhamos, ainda, alguma coisa a falar, mas nesse momento o esvozear da multidão subiu um pouco e vimos que a porta da casa dos Garcia-Barrettos tinha se aberto, com o Doutor Pedro Gouveia da Câmara Pereira Monteiro aparecendo no limiar. De cima do velho batente de pedra, ele dominou a multidão com sua presença e falou: "'Meu Povo, meus filhos! Vão embora, por favor! O nosso Sinésio está cansado e não pode mais aparecer a votes hoje, de jeito nenhum! Fiquem descansados em suas casas, porque a nossa causa será vitoriosa! Ainda existem juízes em nossa terra, e confiamos em Deus e no nosso Direito. Mas não causem confusões com as autoridades não, porque isso pode, inclusive, nos prejudicar! Digo isso em beneficio do nosso Sinésio, do rapaz do cavalo branco, desse Esperado, tão querido, tão amado pelo Povo do Sertão do Cariri!'" O Corregedor me interrompeu, perguntando: - A seu ver, Dom Pedro Dinis, a que era que o Doutor Pedro estava se referindo quando falou nessa causa? Ao problema do testamento e da herança, ou à tal Guerra do Reino? - Não sei, Senhor Corregedor! - respondi prudentemente. - O que eu sei é que, quando ele falou nisso e disse que Sinésio era o Esperado, eu vi, mais uma vez, que aquele Doutor Pedro era um homem com quem eu iria aprender muita coisa, num campo em que, até aquele dia, eu tinha sido único, aqui na Vila. O que era ruim era aquela minha situação de cego, que me impedia de vê-lo e de ver outras coisas tão importantes para mim, agora. Queixei-me disso a Lino, que me retrucou: "'Por que você não experimenta o Vinho sagrado da Pedra do Reino pra ver se melhora da cegueira? O vinho, que já fez tantos milagres, pode até fazer mais esse!' "E mesmo, Lino! Como é que não me lembrei disso, antes? Eu, o Rei e Profeta da Pedra do Reino, não ter me lembrado, logo, das virtudes do Vinho cuja receita secreta foi encontrada por minha família! Não é danado? Chega a parecer coisa do Cão!'" - Um momento! - interrompeu o Corregedor. - Preciso saber uma coisa: esse Vinho, parece tão importante em sua vida e na história toda, que preciso de alguns esclarecimentos sobre ele. Se não me engano, de acordo com Pereira da Costa, trata-se de uma mistura de jurema e manacá, não é isso? - Existem outros ingredientes, Senhor Corregedor, mas esses outros, o senhor pode me prender, pode até mandar me matar, mas eu não revelo quais são, de jeito nenhum! - Por quê? - Primeiro, porque é segredo de família e sustentáculo principal da nossa Casa Real Sertaneja, e depois porque é ele o segredo do meu estilo genial, ou régio! Minha sorte foi que os outros escritores que escreveram antes sobre meu assunto - como Euclydes da Cunha, Antônio Attico de Souza Leite, José de Alencar e o Comendador Francisco Benício das Chagas - só descobriram, da receita integral, uma pequena parte, a da jurema e do manacá! Se algum deles tivesse descoberto o resto, teria feito e bebido o vinho, tornando-se assim o Gênio da Raça Brasileira, caso em que eu estaria perdido! Graças a Deus, porém, só descobriram aquela parte, e lascaram-se! Eu, com mais sorte e sendo da família, consegui tudo! Meu Pai era raizeiro e guardou a receita das tradições da nossa Casa. Eu herdei os cadernos astrológicos dele, e foi assim que acrescentei, à jurema e ao manacá, o cumaru, a erva-moura, a raspa de entrecasco de quixabeira, a catuaba e o resto que não posso revelar, porque foi o Vinho completo que terminou sendo minha salvação como Poeta e como homem! - Sua salvação como homem? Por quê? - E que eu, em vida de meu Pai, tinha sido destinado para Padre, como já lhe contei. Ora, para isso, eu precisava de mais inteligência, porque, em menino, minha cabeça era dura, aterrada que só cabeça de tejo! Então meu Pai, vendo que, de outra maneira, eu nunca seria aprovado nos exames do Seminário, me deu, para beber, um chá de cardina. A cardina realmente abriu minha cabeça, tornando-me uma das capacidades mais misteriosas que já passaram pelo Seminário! - Você pode me conseguir um chá desses, para que eu também possa progredir em minha carreira de Magistrado? - disse o Corregedor, sorrindo superiormente para Margarida.

- Bem, poder, posso, mas não aconselho o senhor a tomar o chá não! - Por quê? - Porque a cardina dá, de fato, à pessoa, uma inteligência danada, mas, ao mesmo tempo, apaga a homência do sujeito! - Vote! - disse o Corregedor, que, tomado de surpresa, não tinha tido tempo de se lembrar da presença de Margarida e saiu-se com aquela vulgaridade. - E você perdeu a sua? - indagou ele, curioso.

- Perdi, sim senhor, foi o começo da minha tragédia! No começo, isso não chegou a ser um problema, porque eu ia ser Padre, e padre não precisa da chamada sustança dos países-baixos! JMas eu fui expulso do Seminário, com as artimanhas de Maria Safira. E agora, como é que ia ser, eu sem homência? Só me restava o caminho e a consolação da Poesia, que eu aprendera com oão Melchíades! Resolvi ser Poeta! Mas logo aí, surgiria outro problema. João Melchíades tinha me explicado que havia seis tipos de Poeta e que os grandes, os grandes de verdade, eram os que reuniam as seis qualidades. Poeta de ciência, eu era, sem nenhuma dúvida, por causa da cardina. Mas eu teria que ser, também e principalmente, poeta de estro. Isso me era afirmado tanto por João Melchíades, como pelo Doutor Amorico Carvalho, Retórico do Impostor Pedro II, que escrevera, na página 49 de seu livro: "A imaginação e a inspiração, tais são os dois elementos do gênio, ou estro poético. O que, sobretudo, se prefere nas produções do gênio é a criação do assunto, é o fogo da imaginação, é o sopro da inspiração". Fui ao Dicionário Prático Ilustrado, e, lá, encontrei que estro era sinônimo de "inspiração, engenho poético, fogo da imaginação, desejo sexual, cia, cavalgação e reinaço"! Não havia mais dúvida: era o Dicionário - livro consagrado, indiscutível e oficial - que me garantia que os verdadeiros Poetas-Reis, os Poetas de reinaço, eram os que possuíam, como uma coisa só, o fogo da inspiração zodiacal, a ciência do engenho poético e o cio da homência do sangue, no sol astrológico dos Planetas! Fiquei desesperado: porque, agora, além de não poder mais fazer cavalgação em cima de mulher nenhuma, não poderia mais reinar no meu Reino e Castelo sertanejo, fazendo meu romance de cavalgação, bandeiras, reinaço e cavalarias! Cheguei a pensar em dar um tiro na cabeça. Foi Lino quem me salvou, falando-me pela primeira vez do vinho que, escondido de nós, meu Pai fabricava e vendia secretamente e cuja receita deveria estar nos cadernos que ele tinha deixado. Encontrei a receita, e o vinho me restituiu minha homência, fazendo de mim, ao mesmo tempo, o único Poeta completo, genial e régio que existe no Mundo! É que, modéstia à parte, Senhor Corregedor, nosso Vinho da Pedra do Reino é a beberagem do Poder, da Fortuna, do Dom-Profético e do Amor! - Tudo isso? - Tudo isso e mais alguma coisa, Senhor Corregedor. Porque, por exemplo: essa fortuna que o vinho nos dá, não é a fortuna sem imaginação dos Burgueses ricos, nem o Dom é o simples dom dos poetas só de ciência. Também o Amor que ele dá, não é o amor lírico e fraco do qual falava Joaquim Nabuco. É, tudo, o Poder do reino e dos tesouros guerreiros, o engenho poético-fogoso e zodiacal do sangue, e o amor de cavalgação e reinaço. Meu bisavô, o Rei Dom João Ferreira-Quaderna, era através dessa beberagem que revelava os tesouros e propiciava a posse das mulheres desejadas, a si e a seus súditos! - E Euclydes da Cunha? E José de Alencar? - perguntou o Corregedor, como indagando o que é que tinham a ver corn aquilo dois consagrados escritores brasileiros.

Não me dei por achado e respondi: - Euclydes da Cunha fala da jurema como sendo a árvore predileta dos Sertanejos, por ser o seu haxixe capitoso, que lhes fornece inestimável beberagem que os revigora, feito um filtro mágico. Quanto a José de Alencar, é num bosque de juremas que Iracema dá a Martim umas gotas de estranho e verde licor que era exatamente o vinho verde de jurema - um dos ingredientes do Vinho total. Pois bem: mesmo com a receita incompletíssima de José de Alencar e Euclydes da Cunha, só por beberem eles essa parte do Vinho, entre Martim e Iracema as safadezas que grassam são as maiores do mundo! Diz José de Alencar que, depois de beber vinho de jurema, Iracema começou a ficar feito uma Onça no cio, desejando abrigar Martim contra todos os perigos e recolhê-lo em si como num asilo impenetrável. Mas, se Iracema era, mesmo, um asilo impenetrável, era para os outros, porque, para Martim, ela era mais do que penetrável, era penetrabilíssima! Martim é que parece que era meio afracado, meio arriado dos quartos, como eu no tempo da cardina. Iracema, já completamente tarada pelo vinho, vê que o jeito é dar o licor a Martim também. Então, Martim bebe o licor verde de jurema. A coisa melhora e conta lá o nosso fidalguíssimo cearense: "Os braços de Iracema cingiam a cabeça do Guerreiro e a apertavam ao seio. O Cristão sorri, a Virgem palpita. Como o saí fascinado pela serpente, ela vai declinando o lascivo talhe, que se debruça enfim sobre o peito do Guerreiro. Já o estrangeiro a preme ao seio e o lábio ávido busca o lábio que o espera, para celebrar nesse Adito agreste, reservado aos mistérios do Rito bárbaro, o himeneu do Amor. Martim libou as gotas do verde e amargo licor. Agora, podia viver com Iracema e colher em seus lábios o beijo que ali viçava entre sorrisos, como o fruto na corola da flor. Podia amá-la, o sugar desse amor o mel e o perfume. O gozo era vida, pois o sentia mais forte e intenso. A juriti que divaga pela Catinga, ouve o terno arrulho do macho: bate as asas e voa, a conchegar-se ao tépido ninho. Assim a virgem do Sertão aninhou-se nos braços do Guerreiro. Quando veio a manhã, ainda achou Iracema ali debruçada, qual borboleta que dormiu no seio de formoso Cacto". Está vendo, Senhor Corregedor? - Estou vendo, o quê? - O que eu quero mostrar é que, por esse trecho, a gente vê que, tanto Euclydes da Cunha como José de Alencar não se limitaram a falar, somente, do Vinho de jurema: ambos devem tê-lo bebido! Se não fosse assim, eles não escreveriam como escreveram - meio bêbados, escumando pela boca e vendo visagens como esta, umas safadas, como as de Iracema, outras heróicas, como as de Canudos! A gente vê, perfeitamente, que é José de Alencar que, sob o disfarce de Martim, entra no bosque sagrado de Iracema, suga o mel da corola da flor e depois faz penetrar a cobra no tépido ninho-de-juriti dela! E é assim mesmo que acontece, Senhor Corregedor. Quem toma meu Vinho, mesmo na receita incompleta dos outros escritores, consegue, na vida, a fortuna, o poder e o amor, e, na Poesia, aquela mistura de zodíaco e real que é o gênio. E tem outra vantagem, mais: os filtros mágicos comuns conseguem essas coisas boas para nós, mas perdem infalivelmente a nossa alma. O Vinho da Pedra do Reino, não: sendo completo, arranja tudo e ainda salva a alma, permitindo que a gente, ainda vivo e aqui no mundo, circule dentro do sangue da visagem felina do Divino - aquela mesma que meus antepassados reais mostravam a seus devotos, momentos antes de cortarem suas gargantas. Todo escritor, portanto, que queira escrever sobre o Reino sagrado do Sertão - único assunto digno do gênio, como provou Fagundes Varela - tem que beber desse Vinho, nem que seja na fórmula incompleta de Alencar, Euclydes da Cunha e Antônio Attico deSouza Leite. Quando um não bebe e se mete a escrever, a gente conhece logo: ele não escreve escumando, e tudo o que sai de sua pena é falso, infiel às pedras, aos espinhos o ao sangue do Sertão! Quanto às qualidades de cio, cavalgação o reinaço do vinho, também são indiscutíveis, porque são afiançadas por outro genial escritor brasileiro, o qual, além de Acadêmico, era um grande Médico, perfeitamente autorizado, portanto, para fornecer esse tipo de atestados! - Quem era ele? - Afrânio Peixoto. Conta ele, num romance que fez, que um rapaz e uma donzela, que não se amavam, tomaram desse vinho juntos, sem saberem do que se tratava. Na mesma hora, a Urtiga sangrenta, venenosa, espinhenta e deleitosa do amor envolveu os dois e eles ficaram enredados de paixão para o resto da vida. Isso me interessa muito, Senhor Corregedor, porque foi a mesma coisa que sucedeu, depois, entre Sinésio e sua jovem Dama, a bela Heliana, a moça sonhosa dos olhos verdes. Sim, porque o nosso Vinho e realmente assim: se o senhor o beber sozinho, pensando numa mulher, ela se entrega, na visagem, e o senhor pode gozá-la como quiser. A coisa não passa disso e, quando o senhor acorda, está livre e desimpedido - a mulher não sofreu nada nem soube de nada também. Mas se um homem o uma mulher bebem o Vinho juntos, af ficam eternamente enredados, de um amor terrível, um amor ao mesmo tempo espiritual e sensual, sexual e divino, que passa a alimentar com o sangue dos dois amantes o sarçal de Urtigas e favelas do Terrível, floridas mas causticantes, as Urtigas espinhentas e queimosas do Amor. Diz Afránio Peixoto que, assim que os dois beberam o vinho, pareceu ao rapaz que um arbusto de espinhos agudos e flores odorantes aprofundara as raízes no sangue do seu coração, e ele, com os braços fortes, se enlaçava ao belo corpo de sua amada, ao mesmo tempo que o sarçal enleava os dois para sempre, seu corpo, seu pensamento, seu sangue e seu desejo. Por isso, eu nunca bebi meu vinho junto com mulher nenhuma, porque não quero me enredar definitivamente com mulher nenhuma. Mas já o bebi sozinho várias vezes, botando o sentido da minha homéncia nas moças aqui da Vila. Assim, consegui ter minhas visagens amorosas com todas as que desejei. Principalmente com as louras e pertencentes à nossa Aristocracia, porque eu, sendo moreno e tendo essa cara enafrruscada que parece feita de pedra, sou tarado por galegas alouradas! Ao dizer isso, olhei para Margarida, que, sendo loura e da Aristocracia, aumentou a cara de aversão que fazia sempre para meu lado. Mas ela se mantece calada, para não me dar liberdade e eu continuei, falando para o Corregedor: - Posso garantir a Vossa Excelência que, na mesma hora em que a gente bebe o Vinho da Pedra do Reino, entra num bosque, sertanejo, sagrado e deleitoso, feito de juremas, angicos, braúnas, urtigas e favelas. Ah, o licor verde-vermelho pinga de todas as frondes, como gotas de esmeralda e rubi incendiadas pelo topázio do Sol. É um bosque cheio de mel e abelhas cor de ouro, espanejando luz e pólen fecundante. Um bosque onde esvoaçam concrizes aurinegros e saíras que parecem jóias. Um bosque povoado de cascavéis e cobras-corais, assim como de mulheres de longos cabelos. Em todo canto, há corolas vermelhas e odorantes, cactos e urtigas, lianas coleantes e cheias de espinhos, favelas eriçadas de folhas causticantes e espinhosas, coralinas e mulungus de flores vermelhas, canafístulas e paus-d'arco de flores amarelas.

Tudo isso nos impele, rendidos e embriagados, para o seio e o ninho de mulheres viçosas, macias e enleantes, mulheres cujo corpo é, ele mesmo, como um bosque, com as colinas rijas e suaves dos peitos, e o escuro concriz negro-vermelho pregado de asas abertas na entrada da fonte, com a casa-das-abelhas e o mel e a corola - mulheres que nós possuímos na sombra verde e umbrosa das árvores e moitas, salpicados como estamos pelo orvalho, deitados na areia fina e cheia de cristais, ouvindo o som da água que corre sobre os seixos e vendo em cima, nas frondes agitadas suavemente pela verde ventania, pomos e pomas que reluzem, à brasa incendiada e coada entre os ramos da luz do Sol! Quando terminei de dizer isso, tanto o Corregedor como Margarida estavam meio estatelados, respirando forte e com os olhos aboticados pra minha banda. Infelizmente, porém, essa era uma das partes que eu tinha escrito e decorado de antemão, para, depois, versá-la e incluí-la em minha Epopéia. O trecho decorado terminava aí, de modo que minha eloqüência se esgotou. Os dois sacudiram-se, como para afastar o quebranto, e o Doutor Joaquim Cabeça-de-Porco voltou à sua perigosa impassibilidade habitual: - Dom Pedro Dinis Quaderna - falou ele, já de novo com seu jeito cortante - me diga então uma coisa: os ataques que o senhor tem e que atribui ao mal sagrado dos gênios, não terão alguma coisa a ver com esse vinho não? - Pode ser, Senhor Corregedor! Não posso lhe responder assim com segurança porque nunca fiz investigações científicas maiores a esse respeito! - disse eu com o tom mais cándido e honesto que pude arranjar.

- Antes de vir para cá, você não terá, por acaso, bebido o vinho? - Bebi, sim senhor! Tomei umas duas ou três lapadas, para tomar coragem e melhorar a vista! - Está bem, anote tudo isso, Dona Margarida! Agora, continue a narração dos acontecimentos daquela noite, no dia da chegada de Sinésio! - O senhor escolhe um bom momento, do ponto de vista literário, Doutor! As Postilas de Gramática e Retórica recomendam, sempre, um certo encadeamento, nas Epopéias. Ora, estávamos falando do vinho: pois foi exatamente naquela noite que eu, graças a Lino Pedra-Verde, descobri que o vinho exercia uma forte ação modificadora na minha cegueira, o que foi de grande conforto para mim! Lino estava com o pichel de couro amarrado na cintura, e me aconselhou a tomar umas talagadas, o que fiz imediatamente, tomando uns dez ou vinte goles. Imediatamente, meu sangue começou a correr melhor, da cabeça aos . pés, e uma certa claridade alumiou, um pouco, o campo de visagem diante de meus olhos. Vi, então, que a noite já ia alta, mas que o Povo improvisara tochas e lanternas, que se juntavam à pouca luz da nossa gloriosa Vila, dando à reunião da Praça, como disse Samuel, "um aspecto de reunião de catacumbas e de marcha flamejante". Enquanto eu bebia, porém, o Doutor Pedro Gouveia continuava a responder às indagações ansiosas e ardentes que algumas pessoas do Povo lhe faziam sobre Sinésio. Voltei-me na direção dele, tentando avistá-lo melhor, por entre as névoas incandescidas que ainda emaranhavam minha visão, ou, melhor, "por entre a névoa que a pupila trêmula embaciava", como dizia aquele genial folheto que é A Última Corrida de Toiros em SalvaTerra. Nesse momento exato, alguém gritou para o Bacharel Pedro Gouveia: "'Doutor Pedro, é verdade que o senhor encontrou o rapaz do cavalo branco, nuzinho, andando por uma estrada, sem se lembrar de ninguém, sem saber de onde tinha vindo e sem saber até mesmo como era o nome dele?' "`Por que você pergunta isso, meu filho?', indagou o Doutor Pedro, que não batia prego sem estopa nem andava sem saber onde estava pisando.

"Pergunto isso, Doutor, porque a discussão sobre isso, aqui na rua, está a maior do mundo! Uns dizem que o rapaz foi encontrado nu, e, outros, que ele vinha vestido numa espécie de camisolão branco, tendo na mão esquerda duas flores - uma amarela e outra encarnada - e segurando, na mão direita, uma bandeira! Qual é a história verdadeira, Doutor?' "`Todas duas, meu filho!', explicou solenemente o Doutor, e eu, mais uma vez, vi que tinha muito a aprender com aquele homem. `As duas versões são verdadeiras, não criem divisões entre os nossos! Eu encontrei Sinésio perdido, extraviado, nu como Deus o criou, coitado, e trazendo, como você disse, numa mão as duas flores - a amarela e a vermelha - e na outra mão a bandeira do Divino! Sem uma roupa para dar a ele naquela hora, improvisamos, com um lençol, a túnica branca da qual voces ouviram falar! Ele estava, além disso, um pouco perturbado pelos sofrimentos que passou. Mas, com todo cuidado, nós tratamos de reeducá-lo e de lembrar a ele os fatos mais importantes de sua vida, de modo que ele, hoje, já está quase inteiramente recuperado! Mas amanhã é que tudo isso será melhor esclarecido, para conhecimento de todos! Vão embora, saiam, vão para suas casas! Dispersem-se, que, amanhã, eu prometo que o nosso Sinésio falará com todos voces e até os olhos dos cegos se esclarecerão!', concluiu ele."

FOLHETO LXXXIV

O Enviado do Divino

- Eram já quase onze horas da noite, Senhor Corregedor, e meus olhos se clareavam cada vez mais. Pedi novamente a Lino Pedra-Verde a borracha-de-couro e tomei outra Tapada de Vinho, maior ainda do que a primeira. A terrível e milagreira bebedice da Pedra do Reino começou a me subir, de vez, do sangue para a cabeça. Visagens de coroas e coriscos dançavam nos meus olhos, misturadas com tudo o que eu tinha visto e ouvido desde a manhã. Então, como eu olhasse casualmente para os lados da Rua Grande, vi que, por ali, vinha chegando o Frade do burel branco, vestido ainda daquela maneira que tinha impressionado tanto a sertanejada. Trazia, na mão, a bandeira do Divino e vinha a cavalo, regressando da Igreja Nova onde se mantivera rezando durante todo aquele tempo, sempre de mosquetão cruzado nas costas pela correia à bandoleira. Chegando na entrada da Praça, o Frade apeou-se do cavalo e encaminhou-se para o Palanque, que não fora desarmado. Contornou-o, subiu por uma das escadas laterais e passeou, de cima, o olhar pela multidão. O Povo, porém, de costas para ele e de olhos fixos no casarão onde devia estar Sinésio, não tinha se apercebido de sua chegada nem de sua subida ao Palanque. Somente eu o olhava e, para mim, era visível que o Frade queria se dirigir ao pessoal. Logo ele confirmou minha impressão, porque, curvando um pouco o torso hercúleo e encostando a bandeira do Divino a uma das colunas, apoiou-se com ambas as mãos na balaustrada. Assim, projetou-se um pouco para a frente e gritou: "`Amados filhos em Nosso Senhor Jesus Cristo!' "O Povo, porém, sempre fascinado pela casa dos GarciaBarrettos, não deu a menor atenção ao apelo. Aliás, mesmo que quisesse ter dado, ninguém poderia tê-lo ouvido, porque, após a intervenção do Doutor Pedro Gouveia alguém tinha tido a magnífica idéia de puxar uma ladainha, que, agora, estava sendo rezada por uns e cantada por outros, mas, de modo geral, gritada por todos. Irritado, o Frade tirou o mosquetão das costas, deu um tiro para o ar, e, no silêncio que se seguiu imediatamente ao tiro, gritou com voz trovejante: "`Silêncio, cambada de filhos da puta! Não estão ouvindo o ministro do Senhor falar não?' "Imediatamente, todos se voltaram para o Palanque, e um silêncio tumular reinou na Praça. Al o Frade, voltando ao apostólico tom anterior, falou assim: "Amados filhos em Nosso Senhor Jesus Cristo! Vocês estão todos reunidos aqui, como que à espera de um grande acontecimento! E têm razão de proceder assim, porque tudo o que é ligado à Fé é grande. Ora, essa atitude de vocês vem da Fé: logo, tem grandeza e é um grande acontecimento. Assim, voces não precisam mais procurar e esperar, porque o grande acontecimento já sucedeu. A nossa chegada, o fato miraculoso de termos escapado à emboscada que pessoas de coração mau nos armaram na estrada, o milagre de ter falhado o tiro que foi disparado contra o rapaz do cavalo branco, tudo isso são acontecimentos por demais sagrados para serem explicados sem a intervenção de Deus! Na emboscada, amados filhos em Nosso Senhor, vários tiros foram disparados contra mim: miraculosamente, as balas batiam no meu hábito branco e, por causa da proteção do Divino Coração de Jesus, calam inofensivamente dentro do cano das minhas botas e nos bolsos da batina. Olhem!'

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