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A pedra do reíno e o Principe do Sangue do Vai-e-Volta

Ariano Suassuna

"E o Frade, tirando dos bolsos as cápsulas que tinha apanhado na estrada, deixou-as cair, aos punhados, do Palanque embaixo. Vendo que tinha causado bastante efeito com a revelação desse fato, continuou ele: "'Mas será que ainda vem outro acontecimento, maior do que esses que já aconteceram? Virá? Não virá? São perguntas, essas, que inquietam a todos nós! Uma coisa, porém, repito, já é, por si, um grande sinal, um grande milagre: é o aparecimento do rapaz do cavalo branco, com sua Bandeira na mão, isto exatamente na Vigília de Pentecostes! É preciso, portanto, que todos vocês, que todos nós, nos tornemos dignos de tudo o que aconteceu e de tudo o que está ainda para vir. Estão ouvindo? O sino começou a tocar! Fui eu que mandei tocá-lo, porque está chegando a meianoite, e, com ela, estão chegando os primeiros momentos da madrugada do dia sagrado de Pentecostes! Esses toques de sino anunciam, portanto, a todos nós que, por mais escura que seja a noite, dentro de alguns instantes o Sertão vai ser alumiado e queimado pelo fogo de Pentecostes! Está lá, escrito no Evangelho, o livro santo, que não pode errar: "E quando se completavam os dias de Pentecostes, estavam os Doze todos juntos, num mesmo lugar, e, de repente, veio do Céu um estrondo, como de uma ventania que soprasse com grande violencia, enchendo toda a casa onde eles estavam assentados. Então, apareceram a eles, repartidas, umas espécies de línguas ou chamas de Fogo, que repousaram sobre cada um dos Doze, e todos ficaram cheios do Espírito Santo". Entenderam estas palavras sagradas, amados filhos em Nosso Senhor? Esta bandeira que trago aqui, comigo, e que nunca mais abandonei desde o dia em que assumi minha missão junto ao nosso Príncipe, é a Bandeira de Pentecostes, a bandeira da Coroa, do Sol e das chamas de Fogo do Divino Espírito Santo. Ela comemora o dia no qual o fogo de Pentecostes incendiou para sempre a nossa carne grosseira e o nosso sangue pagão, ferrando-nos com o sinete divino, sinal que há de lembrar, até o fim dos tempos, que é um simples desterro, um mero exílio, esta nossa passagem pela terra parda deste Sertão, por esta segre imensa que é o Mundo! O Pai veio para criar, para castigar e expulsar. O' Filho veio para remir e perdoar. O Espírito Santo vem para reinar e incendiar! O Reino do Pai se encerrou, e já estamos chegando ao fim do Reino do Filho. Vai começar o Reino do Espírito Santo, o ai daquele que for encontrado com mancha de pecado no sangue! Este Sertão nosso é o Reino sagrado e misterioso, que foi predito por um dos grandes Profetas da nossa terra, Frei Antonio do Rosário, filho da Capucha de Santo Antônio do Brasil, o qual, "vendo nas Aves do Ceo tantos exemplos de vida austera & penitente, dizia que era passam solitario, Ave do Monte & Pellicano da soledade! " É o Reino sagrado, cortado pelos rios que secam o se enchem misteriosamente, rios dos quais dizia aquele mesmo Profeta, Frei Antonio: "Rios sagrados, rios mysteriosos, por representardes os quinze rios do mar do Rosario, Rios da terra que o Ceo ameaçou com os ays do Apocalipse! Ay, ay, ay, tres vezes ay! ", gritou o Frade. E logo o Povo todo, Senhor Corregedor, começou a chorar e a se lamentar, repetindo com ele as suas lamentações, agora meio salmodiadas: "Ay, ay, ay! Ay dos pensamentos, ay das palavras, ay das obras que habitam na terra de que sou composto! Ay das tres potencias d'alma, tam mal empregadas nos moradores da terra! Ay do entendimento perdido, ay da vontade cega, ay da memoria desencaminhada, ay dos habitadores da terra que se não lembram que são terra! Quem tem pecado, se arrependa, quem tem mancha, que me procure! Estão vocês dispostos, amados filhos em Nosso Senhor, a se alistar debaixo da bandeira do Divino Espírito Santo?" "Estamos, Santo Pai, estamos! A gente não trai a Bandeira do Divino, de jeito nenhum!', foram os gritos que partiram de todos os lados, por entre os cantos, as pragas, os juramentos e as imprecações.

"Seu Frade, me desculpe eu perguntar, mas a gente precisa saber, pra se garantir!', gritou, perto de nós, o Cantador caolho, Lino Pedra-Verde. `O senhor é Frei Simão, o frade santo da Serra do Rodeador e da Pedra do Reino? O rapaz que veio com o senhor é o nosso Prinspo, o Santo do cavalo branco, que vem comandar os Sertanejos para a nossa Guerra do Reino? É verdade que ele veio para vingar o Pai, provar que é o Filho e, ao mesmo tempo, trazer o fogo do Espirito Santo para acabar com as injustiças e os sofrimentos do mundo?' "O Frade, Senhor Corregedor, vendo que o momento era bom, pegou a bandeira vermelha do Divino e aprestou-se para descer do Palanque. Já na escada, falou, respondendo à pergunta de Lino: "'Vocês perguntam se o rapaz é o Príncipe... Quem sou eu para responder? Pode ser e pode não ser! Tudo se esclarecerá, e a Justiça é quem dará a palavra definitiva e final! Será que esse rapaz é Sinésio, filho do fazendeiro degolado aqui, em 1930? Pode ser e pode não ser, e vocês mesmos avaliarão, pelo que acontecer daqui por diante, se ele é ou não é o que vocês esperam. Uma coisa, porém, eu digo e garanto a vocês, meus filhos: é que o muito tem vergonha de dar pouco e, se a justiça humana falhar, a Justiça divina absolutamente não falhará!', concluiu ele com ar majestoso e começando a descer os degraus.

"Frei Simão, meu Povo, é Frei Simão! Só pode ser Frei Simão!', gritou Lino Pedra-Verde com ar de doido, escumando pela boca e revirando os olhos. `Vamos beijar a mão dele, meu Povo, porque é mão sagrada, é mão que esteve com Silvestre, O Enviado, com o nosso Conselheiro e com os Imperadores da Pedra do Reino!' "O Povo, Senhor Corregedor, também com ar de doido e tanto mais impressionado porque entendera muito pouco das palavras do Frade, começou a beijar as mãos e a fímbria do hábito branco de Frei Simão, que, mansamente, os afastava, dizendo com exemplar modéstia: "'Que é isso, meus filhos? Que doidice é essa? Guardem seus respeitos para Deus e para aquela criatura limpa e santa que veio conosco, montado em seu cavalo branco! Guardem seus respeitos para ele, porque eu, eu sou um pecador! Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa!' "' um santo! E um santo! E Frei Simão! É o nosso Conselheiro que voltou, para o desencantamento e a Guerra do Reino do Sertão!', gritava o Povo endoidecido.

"Vossa Excelência, Senhor Corregedor, com seu faro de Decifrador, já deve ter pressentido que estou chegando ao fim da minha narração. Há de compreender, então, que, depois disso, depois desse discurso de Frei Simão, só um milagre pode sustentar, ao mesmo tempo, a situação do rapaz do cavalo branco e um tom genial e régio que permaneça à altura de um Cantar epopéico como este. Pois, graças a Deus, foi o que aconteceu. Posso dizer que tudo começou quando eu senti dentro de mim um troço estranho, umacoisa fervendo, que era, ao mesmo tempo, uma viração e uma iluminação. O sagrado Vinho da Pedra do Reinotinha subido completamente à minha cabeça e eu recuperara, já, toda a minha visão. Aquelas visagens que, desde há pouco, dançavam no meu sangue e nos meus olhos, começaram de repente a me arrastar, a me impelir como um ridimunho. Acho que meu desejo era me dirigir também ao Póvo, como fizera Frei Simão, mas foi aí também que os acontecimentos' se precipitaram, impedindo meu impulso inicial. Quando dei acordo de mim, meus doze irmãos Cavaleiros estavam bem perto de nós, seis do Azul e seis do Encarnado, os dois da frente segurando o meu cavalo `Pedra-Lispe'. Montei nele, sustentando a Bandeira azul e vermelha, separada por um traço amarelo, bandeira que eu carregava sempre à frente das Cavalhadas. Meu chapéu de couro já estava à cabeça, o manto foi-me pendurado aos ombros. O que vou contar dagora por diante, Senhor Corregedor, é baseado no que Clemente, Samuel e Lino Pedra-Verde me narraram depois: por mim, eu não poderia contar nada com exatidão. Estava me sentindo realmente possesso, num arrebatamento divino-diabólico que eu herdara, certamente, do sangue da Pedra do Reino, mas que, agora, tinha sido despertado e exacerbado por tudo aquilo. Mas mesmo as outras pessoas eram mais ou menos confusas e contraditórias no relatar do fato milagroso, prestes a suceder daí a pouco. Por uma sorte que os incréus atribuirão ao acaso e que eu atribuo aos astros e à Providência Divina, meus irmãos tinham trazido, também, a égua vermelha de Clemente, `Coluna', e o corcel negro de Samuel, `Temerário', assim como outro cavalo selado, desocupado, que nos seria providencial daí a pouco. Mas como eu vinha dizendo: algumas pessoas que tinham estado na Praça, diziam que o milagre começara com os toques de sino. ( verdade que Frei Simão mandara tocar os sinos da Igreja Nova, mas agora era o sino da Igreja Velha, á de São Sebastião, que ficava na Praça, pegada à casa dos Garcia-Barrettos, que começava a tocar a rebate, com repiques tão violentos e misteriosos que racharam a maioria das vidraças e ecoaram no Sertão inteiro. Outros, discordavam dessa opinião, dizendo que o som de bronze só pegara uma parte do Sertão, isto é, o nosso velho e sagrado Reino do Sertão dos Cariris Velhos da Paraíba do Norte. Todos, porém, eram unânimes quanto ao resto: no mesmo instante em que o sino começava a tocar freneticamente, eletrizando a multidão, por cima da velha Casa ancestral dos Garcia-Barrettes o espaço se fendeu, revelando algo de muito grande, estranho e cheio de fogo. Por entre chamas, resplendores e estalos de raio, apareceu no Céu uma gigantesca Onça Malhada, de pêlos cor de ouro, cabeça negra e malhas vermelhas. Acima dela, via-se o enorme Gavião Real, afiando asas e criando, com isso, uma ventania de fogo, parecida com as ventanias incendiárias da Catinga. Abaixo dela, na primeira linha, estavam duas outras Onças, uma negra e outra vermelha, e, abaixo destas, sozinha, uma Corça parda. A Onça tinha o corpo ferido e resplandecente de chagas e malhas, e tudo estava banhado, como na bandeira desenhada por meu irmão, por uma chuva de gotas de sangue, que eram recolhidas embaixó por um enorme cálice de ouro em forma de Taça. Circundando tudo isso, via-se tudo aquilo que o nosso Povo costumava e costuma ver sobre os paços dos Reis mais estimados - línguas de fogo, griais, esferas de ouro, cavalos, clarins, eixâmetes vermelhos, ataúdes de prata incendiada, catervas de Mouros, freires e combates de Paladinos nas alturas - o sangue e as visagens antecessoras da Pedra do Reino. A visão causava em todos, como devia ter causado, outrora, ao Cavaleiro Pobre referido por Olavo Bilac, uma sensação ao mesmo tempo de terror e plenitude, de gozo sexual perfeito - com o gosto obsceno da Morte e o gosto sumarento do fruto da Vida, uma sensação que deixou todas as pessoas que a experimentaram saciadas ali e sedentas para o resto da existência, insatisfeitas com o mundo e com a vida porque pressentiam que a vida e o mundo eram `o vasto Mausoléu calcinado' do Cavaleiro Pobre, por serem incapazes de oferecer a mesma coisa que todos, agora, estavam experimentando. E foi então que veio a segunda parte do milagre, a parte sangrenta, bandeirosa e cavalariana. Porque, enquanto todo mundo permanecia assombrado, todos olhando uns para os outros na comunicação beatificada e muda do que estavam sentindo no sangue da alma, a tropa de Cangaceiros, comandada pelo Capitão Ludugero Cobra-Preta desembocou na Praça, atirando por cima do Povo e assolando tudo a patas de cavalo. Levantou-se uma gritaria terrível, se bem que ninguém tivesse sofrido ferimentos graves naquele primeiro momento. Parece que o Capitão Ludugero, homem bravo e generoso, dera ordem a seus cabras para atirarem por cima das cabeças, apenas para causar pânico e dispersar a multidão, pois o que ele queria, mesmo, era pegar o rapaz do cavalo branco, e não atirar naquele pessoal inerme. Meus irmãos e eu estávamos desarmados de armas de fogo. Ainda assim, Malaquias e os outros puxaram os punhais de Cavalhada com que estavam, e postaram-se em torno de mim para me defender. A coisa, porém, evidentemente .não era conosco. Os Cangaceiros procuravam era afastar a multidão, para entrar na casa dos GarciaBarrettos, de onde o Doutor Pedro se sumira, ninguém vira como. Aconteceu, porém, o que o Capitão não esperara: o Povo, em vez de correr da Praça, afluiu e se concentrou todo diante da casa, formando uma barreira difícil de ser transposta. Os Cangaceiros, vendo isso, começaram a impelir os cavalos para a multidão, a fim de afugentá-la. Quando a primeira pessoa foi mais atingida pelo peito de um cavalo e caiu, um homem do Povo destacou-sedo meio dos outros e meteu um facho aceso na cara do Cangaceiro que a derrubara. Eu conhecia esse homem: chamava-se Chico Dionísio, mas era mais conhecido por Chico da Marcação. Era um sujeito enorme, vermelho de sol e louro, com os cabelos de estopa o com a testa muito grande e muito branca, no lugar em que o chapéu de couro - que ele tirava raramente - protegia a pele contra os raios do Sol. Chico Dionísio era uma onça, de valente: tinha punhos grossos e mãos enormes, cobertas de pêlos amarelos. Quando ele meteu o facho aceso na cara do Cangaceiro, deu um berro enorme, como se fosse ele, e não o outro, o ferido. Mas muito maior foi o berro do Cangaceiro, que levou as duas mãos à cara queimada e caiu do cavalo, sendo imediatamente apunhalado. Então o Capitão Ludugero puxou o revólver e atirou em Chico Dionísio. A bala pegou-o em plena testa, ele largou o facho o tombou morto. A visagem da Onça Malhada desaparecera: campeavam a violência e a chacina, e o Gavião de ouro do Divino foi substituído pelo cruel Gavião da morte, que pairou um momento sobre Chico Dionísio e o Cangaceiro que ele matara, bebendo o sangue de todos dois. Ouvi a voz do Doutor Pedro Gouveia gritando: `Calma! Calma, pessoal!' Mas a violência e o sangue tinham se desencadeado, era muito difícil que força humana fosse ainda capaz de detê-los. Eu estava farejando sangue, muito sangue por todo lado. Tiros estalavam, por entre gritos e os repiques do sino que não tinha parado de tocar. Outro homem dos nossos, Dinis Vitorino, deu uma foiçada num Cangaceiro. A foice ia atingir a cabeça do homem, mas, antes disso, foi detida por seu braço, que levou um corte terrível. Com o outro braço, porém, o Cangaceiro enfiou um longo punhal no ventre de Dinis, que caiu estripado, e ficou nó chão, nos estremeços da morte. Aí, Ludugero, contaminado pela violência, arregaçou os dentes e gritou para os seus: `Atirem pra matar, nesses cachorros!' E ele próprio tirou o mosquetão das costas, dando o primeiro tiro, para abrir caminho em direção à casa. O pessoal dele começou a atirar indiscriminadamente contra a multidão, que urrava. Abriam-se claros, vários corpos já estavam caídos, embebendo de sangue a poeira da Praça. Ouviam-se gritos, pragas e imprecações. Um homem fortíssimo, chamado Marino Quelê Pimenta, que fora da Guarda dos Doze de meu Padrinho e que fizera prodígios na Guerra da Coluna, pôde chegar junto dum Cangaceiro montado. Pegando-o pelos braços, conseguiu puxá-lo da sela. Derrubou-o no chão, agarrou-o pela garganta e estrarígulou-o brutalmente. Aí, no meio do tumulto, ouvi alguém se dirigir a mim, de bem perto, dizendo: `Quaderna, vamos para o Tabuleiro que fica perto do Cemitério!' Era o Doutor Pedro Gouveia, a pé, ali a dois passos, e acompanhado por uma pessoa a cavalo em quem tive dificuldade de reconhecer Frei Simão, pois ele tirara o hábito para não ser distinguido. 'E o rapaz do cavalo branco?', perguntei ao Doutor Pedro, espantado de que ele abandonasse assim aquele que era o centro e motivo de todo o barulho. Mas eu estava subestimando o Doutor, que, montando lestamente o cavalo que meus irmãos tinham trazido, disse-me calmamente: 'O rapaz está lá, no Tabuleiro, com o Cigano Praxedes e Luís do Triângulo! Eu, com medo de alguma traição, como esta, mandei que ele saísse pelos fundos da casa, escondido, e fosse dormir numa tenda do acampamento!' Vi, então, que o melhor era seguir sua sugestão. Disse a Lino que, assim que partíssemos, ele, aos poucos, espalhasse entre o Povo a ordem de reunião no Tabuleiro do Cemitério. Gritei, então, para meus irmãos: 'Vamos, todos, para o acampamento dos Ciganos! Protejam Clemente e Samuel!' Esta última recomendação era, aliás, desnecessária, pois meus dois Mestres, lentos em todos os momentos de ação, eram rapidíssimos nas fugas. Estavam já montados, abraçados aos pescoços dos cavalos, tão encolhidos, tão unidos aos corpos dos animais que montavam que era difícil dizer ali quem era gente o quem era cavalo. Começamos, assim, a sair da Praça: nem muito devagar, para não nos arriscarmos muito, nem muito depressa, para não chamar atenção. Mas os Cangaceiros não nos impediram, julgando que aquele movimento nosso era uma retirada que facilitaria a tomada da casa. Assim, pudemos sair e tomamos o caminho do alto e pedregoso Tabuleiro, já agora com o Doutor Pedro à frente, para não sermos detidos ou feridos pelas sentinelas, dispostas desde a saída da rua até o alto. Era, portanto, o próprio Destino que nos impelia a todos, obrigando-nos a tomar partido ao lado do rapaz do cavalo branco. Chegando ao acampamento, fomos acolhidos a tendas especiais que os Ciganos tinham preparado para os dois Chefes, Frei Simão e o Doutor Pedro. Vi então que todas as disposições guerreiras estavam tomadas: as tropas de Luís do Triângulo estavam disseminadas por trás de tudo quanto era pedra o grota que havia no Tabuleiro, prontas para o que desse e viesse. Mas os Cangaceiros não vieram naquela noite. Depois é que soubemos o que houvera na Praça: o Povo, guiado por Lino PedraVerde e vendo que nós nos encaminhávamos para o alto Tabuleiro situado fora da Vila, compreendeu, instintivamente, que para lá é que se deviam dirigir todos os que fossem partidários do rapaz do cavalo branco. Assim, afastaram-se da casa dos Garcia-Barrettos, abrindo passagem aos Cangaceiros, que, encontrando aberta a porta que assim fora deixada pelo Doutor Pedro Gouveia, entraram, varejaram tudo e, não encontrando ninguém, saíram e abandonaram a Vila, conduzindo seus mortos e feridos. O mesmo fez o Povo que, conduzindo os corpos dos companheiros que tinham ficado estendidos na Praça, começou a subir o Tabuleiro, indo se juntar a nós. Assim 'passamos a noite.: de vez em quando, chegava um homem do Povo, armado de foice, de espingarda e querendo alistar-se debaixo da Bandeira do Divino. Da minha tenda, eu ouvia gritos de desafio, por entre os cantos das excelências rezadas pelos que tinham morrido. Assim, eu via que, quisesse ou não quisesse, ia, mais uma vez, me ver envolvido nas lutas da família do velho Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto. Estavam já delimitados os dois campos, com os partidários de Arésio na rua, e os de Sinésio no alto Tabuleiro que dominava a Vila. Ia se travar a luta. Houvera a primeira fase, cuja crispação mais sangrenta fora o assassinato do velho e austero Rei, morto por degola. Surgia, agora, outra fase, a daquele enigmático Valete de Copas brotado do sangue dele e que abria a nova rodada do jogo. Encerrava-se a fase do Crime, ia começar a da Vingança implacável."

FOLHETO LXXXV

A Sagração do Gênio Brasileiro Desconhecido

Como Vossas Excelências podem ver pelo tom das minhas palavras finais, nobres Senhores e belas Damas de peitos macios, eu chegara ao fim do meu depoimento. Falara durante quatro horas seguidas. O Corregedor notou isso de repente e, vendo que a noite tinha caído, sentiu-se com o direito de ficar cansado. Estirou-se, torceu os braços, bocejou, sorriu, pediu desculpas a Margarida e disse: - Muito bem, a noite já começou! Já está escuro e é melhor ficarmos por aqui! - É verdade, Excelência! - concordei. - Além do mais, creio que já falei o suficiente para demonstrar minha inocência, de modo que peço ao senhor que me libere de outras sessões de depoimento, principalmente tendo em vista o meu estado de saúde, que, como o senhor viu, não é dos melhores.

- O quê, Dom Pedro Dinis Quaderna? - admirou-se o Corregedor, com ar falso e num tom exagerado de propósito. - É possível? O senhor quer me deixar, assim, de vez? Nós não concordamos absolutamente com isso, não é, Dona Margarida? Logo agora, que tudo está ficando realmente interessante, é que o senhor quer nos deixar? Coloque o caso em si, Dom Pedro Dinis Qua632 derna! Suponha que você fosse o Juiz e eu o depoente e acusado.

o senhor chega aqui na Cadeia e ve-se diante da história de um homem que foi degolado perto de mim. Eu sou um dos herdeiros desse homem e servi de Conselheiro a ele durante toda a sua vida. No mesmo dia da morte dele, seu filho mais moço desaparece e depois é encontrado morto. Desde então, eu passo a profetizar, todo ano, a ressurreição e a volta desse rapaz, meu primo e sobrinho. Nas vésperas da Revolução comunista de 1935, aparece, aqui na Vila, uma coluna de Ciganos, chefiada por dois homens estranhos, que vêm trazendo de volta um rapaz que eles encontraram na estrada, meio esquecido das coisas, e que, segundo esses homens, é o filho mais moço daquele homem, filho agora ressuscitado, como eu tinha predito. Alguém tenta matar o rapaz. O tiro falha, e o capanga é assassinado, com outro tiro, partido do lugar em que eu me encontro no momento. Aí, eu volto para a cidade. A luta entre o rapaz e o irmão mais velho começa, e eu tomo o partido do ressuscitado: no meio de um tiroteio violento, saio com os Chefes da coluna para o acampamento de suas tropas, momento que, segundo minhas próprias palavras, encerra a fase do Crime e inicia a da Vingança. Me diga uma coisa: o que é que o senhor faria num caso como esse? Fale francamente, Dom Pedro Dinis Quaderna! Você encerraria o caso, permitindo que eu abandonasse, aí, o depoimento, ou quereria ouvir ó resto? - Não sei, Senhor Corregedor! - disse eu, baixando a cabeça, intimidado. - Eu nunca fui Juiz! Por isso, sou capaz de achar que podia ficar tudo como está, porque talvez fosse melhor para todos nós! - Ah, não! Que é isso? Coragem, Dom Pedro Dinis Quaderna! Quer encerrar os depoimentos antes de terminar a história? Veja que, assim, sem as certidões e por causa do cotoso, você nunca conseguirá escrever sua Epopéia! - Isso não significaria grande coisa não, Senhor Corregedor! o até uma tradição dos Romances epopéicos sertanejos, isso de ficarem incompletos! Na obra de meu precursor José de Alencar, por exemplo, é assim que acontece com as Epopéias! O Sertanejo termina sem acabar, com o mistério da vida do velho Jó sem conclusão e sem se resolver o amor de Arnaldo Louredo por Dona Flor. O autor, aliás, está consciente disso, porque termina dizendo assim: "Aqui termina a história a que dei o título de O Sertanejo.

o mistério que envolve o passado de Jó só depois veio a revelar-se.

o como esses acontecimentos se prendem intimamente à vida de Arnaldo, guardo-me para referi-los mais tarde, quando escrever o fim do destemido sertanejo, cujas proezas foram, por muitos anos, naqueles gerais, o entretenimento dos Vaqueiros, nos longos serões passados ao relento, durante as noites de inverno". Mas José de Alencar morreu antes de contar essa parte que prometia: nem por isso O Sertanejo deixou de ficar valendo. Ora, Vossa Excelência há de se lembrar de que o velho Jó era um típico Profeta sertanejo, barbado e meio doido, como meu Padrinho, enquanto que Arnaldo Louredo era um perfeito Príncipe sertanejo - jovem, valente e vestido de gibão, como Sinésio. Assim, não vejo nada de mais no fato de eu alinhar todos estes acontecimentos que lhe narrei numa ordem epopéica e depois parar aqui, sem contar o desfecho do amor de Sinésio e Heliana, a decifração do Crime inexpiável de que foi vítima o velho Rei Degolado, e a épica Demanda novelosa que empreendemos, afrontando os perigos e as incertezas do Mar e as emboscadas e vinditas da áspera e pedregosa Catinga sertaneja. Lembre-se, também, de que, com O Guarani, sucede coisa parecida: a história termina com Peri e Ceci agarrados numa palmeira que desce o rio aos trambolhóes, flutuando ao sabor de uma correnteza furiosa e que se some no horizonte. Muitas vezes refleti sobre esse fim de romance-epopéico, perguntando a mim mesmo, aflito: os dois escaparam? Morreram afogados? Depois pensei melhor e vi que estava colocando mal o problema. Se o caso fosse de estilo raso, Peri e Ceci morreram de qualquer modo. Se não morreram ali, na hora, afógados, já estão mortos e enterrados, de velhos, agora, pois a história deles se passa no século XVI e não tem quem viva tanto, no mundo. Eles morreram, então, velhos, feios e desdentados, coisa com a qual não me conformo de jeito nenhum. Mas se o caso é de estilo régio, então eles não morreram, nem lá, nem depois. Consumaram aquele amor meio espiritual e meio tarado que tinham um pelo outro, e permanecem ali, possuindo-se um ao outro no embalo da palmeira, num amor de divindades, vivos para sempre e eternamente jovens, imortalizados naquele epopéico momento de romance que é sempre o mesmo, sempre renovado a cada leitura. Ora, uma vez, li no Almanaque Charadístico que, entre outras qualidades, o gênio deve ter a da originalidade. O senhor não vai negar que haveria certa originalidade em eu propor tudo isso que propus com minha narração, em colocar o pessoal todo naquela expectativa, com a brigada iniciada, os partidários de Sinésio dum lado, os de Arésio noutro, e depois deixar tudo aí, em suspenso, como no fim dos romances de José de Alencar. Outra coisa: já que o senhor mandou que eu supusesse ser o Juiz, peço ao senhor, também, para supor que eu morra por acaso, antes de lhe dar outro depoimento. Não haveria nada de estranhável nisso: José de Alencar não morreu antes de contar o resto da sua história? Meu depoimento teria que ficar encerrado aqui, mas nem por isso o senhor deixaria de utilizá-lo no inquérito, não e isso? Quanto à Epopéia, ficaria, como eu disse, uma história pelo menos original, com essa história toda iniciada, mas sem conclusão nenhuma, como sucedeu com a história de Peri e Ceci e como sucede sempre, aliás, na vida! O Corregedor olhou-me com seus astutos olhos de porco. Quando falou, foi para me dar um bote seguro, pegando-me pelo meu fraco: - Sim - disse ele - mas aí é que entraria, mesmo, o senhor, com suas obrigações de Epopeieta, Gênio da Raça Brasileira e Gênio Máximo da Humanidade! Se o senhor não for adiante de José de Alencar e de Homero, que foram geniais mas incompletos, não poderá ultrapassá-los! Que é isso? Está arricando? Quer perder a briga para esses dois? Veja que você mesmo foi quem disse que uma Obra, para ser de gênio, precisa ser régia, modelar, de primeira classe e, sobretudo, completa! Se o senhor não contar o resto, não poderá obter certidões sobre tudo, e sua Epopéia ficará original, é certo, mas incompleta! Aquele homem era mesmo que o Cão! Eu estava encostado à parede. Falei: - O senhor tem razão; mas é que estou vendo, Senhor Corregedor, que, para contar tudo, eu vou terminar arriscando o pescoço! - O destino dos gênios é esse mesmo, Dom Pedro Dinis Quaderna! A História está cheia da narração dos infortúnios deles! São, todos, uns infortunados! Principalmente os que carregam a História de suas pátrias no sangue e nos ombros, como uma cruz. Aliás, a própria História não passa de uma narrativa sombria, enigmática e sangrenta, para usar as palavras que o senhor usou em relação à morte do velho Rei e à vida de seu sobrinho Sinésio, o rapaz do cavalo branco! Passe uma vista pela História do Brasil: são massacres, infortúnios, incestos, morticínios, guerras, calamidades e desgraças de todo tipo! Toda coroa é manchada de sangue, como o senhor mesmo disse. E se você aspira, mesmo, a essa coroa de Poeta nacional do Brasil, tem de jogar sua sorte, e arriscar sua cabeça, juntamente com a sorte do Brasil! - Está bem! - disse eu, resignado, e, ao mesmo tempo, fatidicamente impressionado com aquelas palavras agoureiras que o Corregedor ia alinhavando com ironia, imitando, aqui e ali, meu tom de voz e posando assim de arguto e espirituoso para Margarida. - Vossa Excelência exige que eu volte... Se eu não morrer, como José de Alencar morreu, voltarei! - ótimo! Teremos, então, oportunidade de continuar, aqui, esta nossa conversa, tão interessante, tão cheia de sugestões e revelações! O inquérito continua aberto e em suspenso, de modo que, pelo menos por enquanto, sua Obra ficará assim, em suspenso e aberta, dependendo sempre de novos depoimentos que o senhor nos prestar. Talvez, até, ela dure o resto de sua vida e nunca chegue a terminar, de acordo com o teor do que o senhor tiver para nos dizer! - disse ele com um sorriso cruel, que me deixou terrificado. - Até amanhã, então! Espero o senhor aqui, na mesma hora! E, para seu próprio bem, não fale nada do que eu lhe perguntei, nem do que o senhor me disse, a pessoa nenhuma! Escute o que estou lhe dizendo: se eu souber que você, de qualquer maneira que seja, delatou qualquer coisa do que se passou aqui, o senhor será imediatamente demitido e preso! Até amanhã! - Até amanhã, Senhor Corregedor! Até amanhã, Margarida! - despedi-me eu, com ar terno, da moça, que não se dignou responder-me.

Então, nobres Senhores e belas Damas, sal da Cadeia, encaminhando-me para casa. Com os olhos ainda dotados da estranha vidência que o Vinho da Pedra do Reino me dera, olhei para os lados da casa do Capitão Clodoveu Torres Villar, para ver se descobria o dono ou a dona dos olhos amaldiçoados que tinham causado minha vertigem. Mas não vi ninguém. Teria sido uma visagem minha? Era impossível descobrir com certeza.

As sombras da noite caíam sobre nossa heróica Vila, trazendo uma ventania que refrescava cada vez mais e que, daí a pouco, esfriaria o mundo com o sopro noturno do cariri. Por isso, um cheiro de jasmins e bogaris já embalsamava o ar, diante dos jardins, das grades e dos portões por onde eu ia passando, ouvindo vozes o murmúrios no interior das casas, vendo luzes que se acendiam e barulhos de pratos e talheres, todos esses rumores familiares que, nessa hora do anoitecer, sempre me dão um sentimento de exílio o nostalgia. Por outro lado, apesar de tudo o que me acontecera, de todos os perigos que me ameaçavam, de tudo o que eu contara de comprometedor, tanta é a força das confissões que eu estava me sentindo descarregado e purificado - e tudo isso, junto, me dava uma sensação de solene e nostálgica melancolia.

Como eu não quisesse falar com meus dois rivais e mestres, em vez de vir diretamente pela Rua Grande, cruzei o Beco dos Villares, de modo a entrar em minha casa pelo fundo do quintal, que dava para o Chafariz. Também não fui para a "Estalagem à Távola Redonda", onde poderia ter uma refeição melhor, preparada por Maria Safira, mas onde ficaria muito exposto ao convívio o às perguntagens dos outros: eu queria ficar só, para pensar melhor em tudo o que me acontecera.

Consegui passar despercebido e entrar em casa sem ser notado. Chegando, fui logo para o armário. Peguei uma garrafa do meu Vinho tinto da Malhada, um bom pedaço de pão, manteiga "de gado" e queijo de coalho do Cariri, o melhor queijo de cabra quepexiste no mundo, como todos sabem. Então, assim provido, sentei-me numa espreguiçadeira e fiquei a repassar muitas coisas na cabeça. Eram lembranças poéticas e legendárias, que me traziam uma estranha saudade. Todos aqueles sonhosos acontecimentos - meus amores, os combates e andanças sertanejas em que me vira metido durante tanto tempo ao lado do velho Rei demente e degolado da Legenda Ensangüentada do Sertão - desfilavam diante de mim. Eu via, principalmente, toda a Desaventura novelosa, a Demanda guerreira e enigmática que tínhamos empreendido, por terra e por mar, seguindo Sinésio, o Alumioso, e que terminara acabando daquela maneira cruel e terrível que todo o Sertão conhece. Pensava também, inquieto, no estranho Processo no qual estava mais uma vez envolvido. Parecia que meu destino era ser sempre implicado nos casos de crime e herança daquela minha ilustre e poderosa família materna dos Garcia-Barrettos. Era como se a Justiça, sem ter condições de envolver em suas malhas os membros mais importantes daquela Casa real sertaneja, resolvesse se encarniçar sobre o outro, o legítimo, o Quaderna, o verdadeiro Rei e Profeta, por saber que eu, arruinado, não tinha condições para me defender, isto apesar de meus méritos de Poeta, Astrólogo e Decifrador, e apesar da Raça real do meu sangue da dra do Reino.

Imperceptivelmente, sem que eu quisesse ou notasse isso, o aspecto real e político de todos aqueles acontecimentos foi ficando de lado e cedendo passo ao aspecto poético-literário, muito mais real e embandeirado do que o outro. Coisas grandiosas, guerreiras e cavalarianas misturavam-se, insensivelmente, com amores - poéticos e legendários no caso solar de Sinésio e Heliana, esverdeados e lunares no de Gustavo e Clara, tigrinos, satúrnicos e subterrâneos no de Arésio e Genoveva. Na minha cabeça e no meu sangue, amalgamava-se tudo aquilo, de modo cada vez mais confuso, belo e glorioso. A agradável sensação do queijo, do pão com manteiga e do vinho - que eu ia engolindo em grandes nacos e goles - espalhava-se em minhas veias, causando-me um calor, um torpor e um formigamento no corpo, o que era tanto mais gostoso porquanto, por fora, eu começava a ser envolvido, já, pelo frio da noite do velho Sertão do Cariri.

Foi nesse momento que devo ter adormecido, pois a última sensação mais ou menos lógica que me lembro de ter experimentado foi a de avistar, em torno da luz baça, da lâmpada suja de poeira e de teias de aranha, algumas mariposas que esvoaçavam. "Vai chover amanhã, e o inverno, este ano, parece que vai ser bom!", pensei comigo mesmo. E então, adormeci na espreguiçadeira.

Tudo o que eu vinha pensando na minha doce embriaguez se juntou, então, num sonho só. Eu terminara minha Epopéia, minha Obra de pedra e cal, edificando, no meio do Reino, o Castelo e Marco sertanejo que tinha sido o sonho de toda a minha vida. O Reino do Sertão se estendia, agora, sob um Sol acobreado de crepúsculo, esbraseado, cercado de nuvens cor de chumbo e orladas de fogo, um Sol que dourava as pedras e muralhas do Chapadão pedregoso, áspero e solitário, formigante de Peões, bispos, Rainhas, Reis, torres, cavalos e Cavaleiros - rudes Cavaleiros vestidos com armaduras de couro medalhadas, gibões, guardapeitos e chapéus de couro estrelados, e acompanhados pelas belas Damas de copas e espadas que os amavam. No meio do Reino, fincada sobre uma serra pedregosa e situada entre os dois rochedos iguais que lhe servia n de torres, a Catedral e castelo da minha Raça reluzia seus muros afortalezados, a que o Sol dava também reflexos acobreados, batendo nas pedras esquadrejadas, unidas com a argamassa do meu sangue.

A obra estava finda, motivo pelo qual ia haver uma cerimônia régia. A Academia Brasileira de Letras, que não era senão uma espécie de meu Conselho da Coroa, era formada por Doze Pares do Cordão Encarnado e outros Doze do Cordão Azul, conforme sua Literatura fosse mais aproximada ou mais afastada do Povo. Integrava ela, assim, aquele grupo zodiacal e astrológico de vinte e quatro Anciões, que meu velho e demente companheiro, o Cantador judaico-sertanejo João de Patmos, tinha visageado na sua Epopéia-Enigmática e logogrífica, vulgarmente conhecida como "O Apocalipse". Era o dia da minha coroação, e lembro-me bem de que a minha maior alegria era causada pela vitória alcançada sobre meus dois rivais, o Doutor Samuel Wan d'Ernes e o Bacharel Clemente Hará de Ravasco Anvérsio. Meus méritos e minha superioridade eram, agora, indiscutíveis. Saíra da minha condição inferior de charadista, passando a respirar os ares puros do alto daquela Serra pedregosa, escarpada e sagrada, que só os gênios são capazes de escalar e dominar. Eles veriam agora, pela primeira vez em sua real importáncia, as dimensões e o significado desta Onça, desta Cobra-Coral que eles tinham caído na tolice de criar, aguçando meu sangue e meu veneno com suas conversas, suas idéias, seus sonhos, seus remoques e seus desafios.

E chegava a última Embaixada que ainda estavam aguardando, a delegação de Doze membros do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, os quais, vestidos de Embaixadores mouros da "Nau Catarineta" e chefiados por Carlos Dias Fernandes e José Rodrigues de Carvalho, tinham solicitado a honra de, como conterrâneos, me levarem, como Guarda de Honra, ao recinto do Conselho da Coroa, onde o Arcebispo da Paraíba iria me coroar. Magnificamente ves638 tido de Rei do "Auto dos Guerreiros", eu me punha à frente dos Doze Pares do Reino da Paraíba, e era assim que fazia minha entrada triunfal na Academia, onde já estavam os vinte e quatro Anciões, vestidos de Príncipes do "Bomba-meu-Boi". O Arcebispo o Paraíba, com um enorme chapéu de Guerreiro - um chapéu que parecia um templo asiático e era todo enfeitado de espelhos e de bolas de vidro coloridas -.- vestia uma Opa amarela, semeada o cruzes azuis e sobre a qual pendia, para suas costas, um manto vermelho, com Cruz e crescentes de ouro. Ele pegava uma Coroa de louros, cujas folhas eram de prata. Ia me coroar com ela, quando Rodrigues de Carvalho e Sylvio Romero - que eram estranhamente parecidos com João Melchíades e Lino Pedra-Verde - interrompiam, dizendo: - Em nome dos Cantadores e do Reino, conjuro todos a coroar o nosso Rei com a Coroa de couro e prata do Sertão, trançada de espinhos de mandacaru e medalhada com folhas de ouro de Angico, Braúna e Pau-Brasil! O Arcebispo da Paraíba consultava o Mestre-de-Cerimônias, que não era outro senão Joaquim Nabuco, sempre amaneirado, diplomatado e~entendido nessas coisas cortesãs. Joaquim Nabuco, um pouco a contragosto e contrariado em seu cosmopolitismo, tinha que concordar, "porque essa fora, também, a vontade manifestada pelo Rei". Então, acolitado por Dom José de Alencar - Fidalgo sertanejo da Direita - e por Dom Euclydes da Cunha - Fidalgo sertanejo da Esquerda - o Arcebispo da Paraíba me coroava finalmente como Rei da Távola Redonda da Literatura do Brasil, ante a alegria delirante do Povo Brasileiro e ao som de uma Música sertaneja de tambores, pífanos, triângulos, violas e rabecas. Eram galopes e repentes-esporeados; o principal chamavase A Pedra do Reino e era estranhamente parecido com aquele áspero Piado do Cachorro que tinham tocado no dia da chegada de Sinésio. Todos os Condes e fidalgos ali reunidos cantavam, com essa música, uns versos de autoria do genial Vate paraibano Antônio da Cruz Cordeiro Júnior, versos nos quais, já antevendo a minha Coroação, ele escrevera, no século XIX:

"De onde vem esse Bardo Peregrino o esse Canto de fogo e do Divino, de Arcanjos, pedra e Luz? Ante o Genio da Raça o Povo anseia O a grande Pátria sua Vóz alteia pois o Gênio reluz! Quaderna, perdoa! Esse delírio quer dizer que teu Genio, aí do Empíreo, adeja sobre nós!

Fonte: www.4shared.com

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