0 Terceiro Império e glorioso, recebendo outro, apenas ducal - o de Dom João Antônio, Prior do Crato (por ter ido morar nas imediações do Crato, Sertão do Ceará). Mas essas coisas de Monarquia são tão imprevisíveis, que aquilo que parecia um acontecimento funesto para a nossa Casa era apenas um desígnio secreto da Providência Divina, que desejava instaurar, no Sertão, o Terceiro Império, aquele que viria a ser, verdadeiramente, o núcleo-encantado de fogo e sangue da realeza dos Quadernas.
Acontece que meu bisavô, o Infante Dom João Ferreira-Quaderna, tinha seduzido e raptado, de uma vez só, suas duas primas, a Infanta Josefa e a Princesa Isabel, irmãs do Rei Dom João I, que abdicara. Meu bisavô era meio tarado, bastando dizer que, depois, quando já tinha sido coroado Rei, instituiu, na Pedra do Reino, um ritual Católico-Sertanejo, segundo o qual ele, Rei, era quem primeiro possuía as noivas, no dia do casamento, o que fazia, segundo explicava, "para inoculá-las com o Espírito Santo". Parece que ele só conseguia ser macho praticando, ao mesmo tempo, um sacrilégio e uma crueldade - mas, então, depois de assim despertada pelo sangue e pela maldade, não havia quem contivesse mais sua potência. Pois bem: como o Catolicismo-Sertanejo da Pedra do Reino permitia a poligamia, Dom João FerreiraQuaderna, o Execrável, chegou a ter o número sagrado de sete mulheres, entre as quais as importantes, mesmo, eram as duas Princesas irmãs, Josefa e Isabel, por serem de sangue real.
Ora, depois de seduzir as duas Infantas, meu bisavô viajara com elas para o Sertão da Paraíba, ainda no reinado de Dom João I. Aí, nas bandas de Catolé do Rocha, foi encontrá-lo, depois de sua abdicação, seu cunhado e primo, o agora Prior do Crato, Dom João Antônio, irmão das moças, o qual lhe contou todas as grandezas e cavalarias, quimeras e encantamentos, que realizara no Pajeú. Disse-lhe que, apesar de ter abdicado, deixara lá, bem plantados, os alicerces e fundamentos da Pedra do Reino do Sertão, com a Lagoa encantada dos diamantes, as minas de prata e as duas torres do Castelo, Catedral e Fortaleza da nossa Raça. Consta mesmo que ele teria dito ao cunhado: - "João! A Pedra do Reino será o fundamento do Império do Brasil! Se assim for, põe a Coroa sobre a tua cabeça, antes que outro aventureiro lance mão dela!" E então, ali mesmo, com os direitos proféticos de Prior, que tinha, sagrou, como novo Rei, seu cunhado e bisavô meu; o qual, com o nome de Dom João II, tomou suas mulheres, regressou ao Pajeú, assumiu o Trono e iniciou o Terceiro Império.
Sobre tudo isso, existe um papel do Governo, coisa oficial e portanto indiscutível. É uma carta-relatório, dirigida a Francisco do Rego Barros, Conde da Boa Vista, Governador, no tempo do Império, da Província de Pernambuco. Foi escrita pelo Prefeito de Flores, o Fidalgo sertanejo Francisco Barbosa Nogueira Paes, e registrada na Secretaria do Governo de Pernambuco, o que prova que até o falso e estrangeirado Império dos Braganças reconheceu oficialmente, através de seu Condezinho de merda, a realidade do Império da Pedra do Reino do Brasil. Nesse documento fica provado que meu bisavô, coroado Rei, foi quem teve, realmente, a idéia sagrada e gloriosa de banhar as torres do nosso Castelo de Pedra com o sangue dos inocentes. É por isso que o Terceiro Império da Pedra do Reino do Brasil. Nesse documento fica estigma indelével da realeza. Apesar de oficial, porém, e de ter instilado em mim a peçonha do "campo encantado e sagrado, banhado de sangue", a carta-relatório omite uma porção de fatos importantes ligados à política dos Quadernas. Não explica, por exemplo, que o exército d'El-Rei Dom Sebastião viria era para destruir os poderosos. Nem relata que, além das pessoas, meu bisavô mandava também degolar cachorros que, no dia da Ressurreição, deveriam voltar, transformados em dragões, para devorar todos os proprietários, repartindo-se então as terras dos finados com os pobres. Por isso, Pereira da Costa, depois de confirmar que o Rei tinha sete mulheres, diz que, "além do fanatismo religioso", transparecia também, "entre esses Visionários, um como que pensamento socialista".
O Terceiro Império durou de 1836 a 1838. Infelizmente, porém, como sempre acontece nesses casos de Monarquia trágicoepopeica, a traição emboscava o Sagrado Império da Pedra do Reino, o que aconteceu como passo a narrar.
Ocorre que, atraindo o Reino sempre novos adeptos, alguns primos nossos, da família Vieira, convidaram para que nele entrasse um nosso parente, o Conde Dom José Vieira Gomes, homem falso, traiçoeiro, lacaio, fatídico e astroso, que terminaria renegado. Era Vaqueiro do Comandante Manuel Pereira, fidalgo, rico e poderoso, pai do Barão do Pajeú. A família Pereira, a mais poderosa entre os Barões sertanejos daquela zona, era uma das mais atingidas pela pregação revolucionária da Pedra do Reino. Por isso, a traição do Conde foi, para eles, uma bênção do céu. 0 traidor, levado para a Serra do Reino, viu tudo e se aproveitou de tudo, durante vários dias. Inclusive, bebeu o Vinho encantado e sagrado, cuja receita integral só os Príncipes de sangue da nossa Casa conhecem. Assim, divinamente embriagado, viu os tesouros de prata e diamante do Reino e possuiu não sei quantas mulheres que meu bisavô generosamente lhe cedeu. Pois bem: apesar de todos esses privilégios, aquele judas, aquele cairn, foi delatar as atividades e o caminho de acesso do nosso Reino aos herodes e caifases da família Pereira.
Foi em Maio de 1838 que se deu o "instante de fulminação" do Império da Pedra do Reino. Naquele mês, meu bisavô teve a gloriosa coragem de iniciar o grande banho-de-sangue, que deveria depois se estender numa verdadeira guerra sertaneja, a "Guerra do Reino", com a degola geral dos proprietários, indispensável, segundo Samuel e Clemente, a toda Revolução que se preza. Como a justiça, para ser boa, começa de casa, era porém entre os próprios súditos do Reino que deveria se iniciar a matança: os que se apresentassem voluntariamente para a degola, ressuscitariam daí a três dias como "Grandes do Império", belos, poderosos, eternamente jovens e imortais.
0 velho Infante, Dom José Maria Ferreira-Quaderna, meu trisavô e pai do Rei, foi o primeiro a dar o exemplo, sendo degolado, e banhando-se as pedras com o sangue dele. Seguiram-se outras mortes, a princípio voluntárias, depois não, porque isso de ser degolado, mesmo com ressurreição garantida, é incômodo como o diabo. Aí o Rei, impacientando-se, escolheu alguns carrascos, principalmente entre nossos primos Vieiras, e mandou que pegassem, à força, as vítimas que, tendo sido escolhidas, se recusassem à degola.
De um jeito ou de outro, a matança foi grande, "e o sangue foi até a junta grossa", como dizia o Regente Dom Antônio Conselheiro, em Canudos. Ora, em tais momentos, aparecem sempre os gritos, os pedidos de compaixão, as preces e as lágrimas dos escolhidos para a Morte. Pois foi sob o pretexto de compaixão, que o refalsado Conde, Dom José Vieira Gomes, aproveitando os gritos desesperados das vítimas e a confusão causada pelas degolações, fugiu por uma vereda perdida, entre cactos e unhas-de-gato, indo chamar as tropas dos Barões do Pajeú, os Pereiras, que aniquilaram o Sagrado Império da Pedra do Reino. Conta o nosso Cronista-Mor, Antônio Áttico de Souza Leite: - "Eram mais ou menos dez horas da manhã, do dia 17 de Maio de 1838. Sentado com seus irmãos Cipriano e Alexandre Pereira na frente de sua fazenda `Belém', situada cinco léguas ao poente da Serra Talhada, o Comandante Manuel Pereira praticava com eles a respeito do abandono em que estavam os gados de sua fazenda `Caiçara', depois da inesperada ausência de seu Vaqueiro, José Vieira Gomes. De repente, aproxima-se e ajoelha-se diante deles um indivíduo imundo, andrajoso, desfigurado e assustado. Era José Vieira Gomes, o vaqueiro que há mais de vinte dias desaparecera, e agora prorrompia em suplicantes vozes: - Valha-me, meu Amo, e perdoe-me pelo amor de Deus! Fazem mais de vinte dias que meu tio José Joaquim Vieira veio iludir-me na fazenda de Vossa Senhoria! Conduziu-me para a Serra Formosa, para ver muitas coisas bonitas e ajudá-lo na defesa dos tesouros e do Reino descoberto por João Antônio dos Santos, os quais contou-me que já tinham sido desencantados por outro Rei, muito sábio, João Ferreira-Quaderna, mandado por ele da Paraíba. Não sou ambicioso, mas fui ver se isso era verdade. Chegando lá, em verdade encontrei muita gente ao pé da Pedra Bonita, e o Rei, com uma grande Coroa na cabeça, trepado numa ponta de pedra, pregando, cantando e saltando, muito alegre. Quando ele findou a sua prática, o Povo deu muitos vivas a El-Rei Dom Sebastião, e meu primo Manuel Vieira, a quem chamam agora Frei Simão e que estava lá, com o Pai, a família e os irmãos, foi fazer dois casamentos, de umas moças do Piancó, entregando-as, em seguida, ao Rei, para dispensá-las (consistia esta dispensa em passar a noiva ao poder do Rei, que a restituía no outro dia, completamente dispensada). Isto feito, o Rei - a quem, em particular, também chamavam João Ferreira, e, às vezes, simplesmente Joca - deu o braço às duas noivas e seguimos todos, tocando, cantando e batendo palmas, para a Casa Santa, espécie de subterrâneo aberto por baixo de um Penedo prodigioso. Ali, todos beberam um líquido, dado pelo Rei, ao qual chamavam Vinho Encantado, certa composição de jurema e manacá: tem a propriedade do álcool e do ópio, ao mesmo tempo. E fomos fumar em cachimbos, para vermos as riquezas. Iam-se assim passando os tempos, até que nó dia 14 deste mês de Maio - oh que dia infeliz e horroroso! - o Rei, depois que deu muito vinho a todos, declarou que `El Rei Dom Sebastião estava muito desgostoso e triste com seu Povo'. - `E por quê?' - perguntaram os homens, muito aflitos, e as mulheres todas muito chorosas. - `Porque são incrédulos! Porque são fracos! Porque são falsos! E finalmente porque o perseguem, não regando o Campo Encantado e não lavando as duas torres da Catedral de seu Reino com o sangue necessário para quebrar de uma vez este cruel Encantamento!' - proferiu o Rei. Ah, meu Amo e meus Senhores! 0 que depois disso se seguiu é horrível! 0 velho José Maria Juca Ferreira-Quaderna, pai do Rei, foi o primeiro que correu, abraçando-se com as pedras e entregando o pescoço a Carlos Vieira, que o cortou cérceo, pois já lá estava para isso, com um facão afiado! As mulheres e os homens iam agarrando os filhos e vinham entrega-los a Carlos Vieira, a José Vieira e a outros, que lhes cortavam as gargantas ou quebravam-lhes as cabeças nas mesmas pedras, que assim untavam de sangue! Nessa ocasião, aproveitei-me da confusão e horror que havia e fugi sem ser visto; mas com tanto espanto e infelicidade, que andei mais de dois dias perdido!" Assim foi que o traidor fugiu da Pedra do Reino, andando extraviado e errante por ali, nos dias 15 e 16 de Maio de 1838. Só no dia 17 foi que encontrou a casa dos Pereiras, a quem, com a subserviência de todo traidor de alma de lacaio, ajoelha-se numa zumbaia indigna de um Príncipe de sangue, tratava por "Meus Amos e meus Senhores! " Ali, na fazenda "Belém", tendo delatado o Reino e se oferecido para levar os Pereiras até lá, como guia, encontrou acolhida e ajuda, começando todos juntos a preparar a repressão.
Enquanto isso, ignorando ainda a traição do renegado, continuavam os nossos a promover, na Pedra do Reino, o grande evento da Restauração. Meu bisavô teria, talvez, suspendido antes as matanças: ocorre, porém, que, excitado por elas, seu desejo sexual exacerbou-se. Mandou trazer sua mulher, a Princesa Isabel, querendo possuí-Ia na frente de todos, enquanto o sangue dos degolados corria. Ela, porém, estava grávida de nove meses, pronta, já, para parir, e recusou-se. Então Dom João II, o Execrável, pegou a irmã dela, a Rainha Josefa, e, enquanto se preparava para possuí-Ia, mandou que lhe dessem dezessete facadas, o que foi feito durante a posse, alcançando ele, segundo dizia, um gozo como nunca tinha experimentado. Souza Leite, mais discreto, recusa-se a contar tudo com todos os pormenores. Mesmo assim, suas palavras são suficientemente fortes, para dar idéia daquela cena régia e sangrenta: Diz ele: "Os sacrifícios continuaram nos seguintes dias, 15 e 16 de Maio de 1838, com o mesmo, senão maior desvairamento, porquanto o monstruoso e execrável João Ferreira-Quaderna conseguira mergulhar aquela turba numa espécie de delírio ou embriaguez continuada. No auge supremo desta embriaguez, um pardo de nome João Pilé Vieira Gomes, para obter o melhor quinhão do Reino, subiu ao cume de um rochedo próximo e precipitou-se com dois netos nos braços. Em seguida, José Vieira pega um filho de dez anos, coloca-o na Pedra dos Sacrifícios e decepa-lhe o braço do primeiro golpe. A vítima, ajoelhando-se, bradava-lhe, de mãos postas: `Meu Pai, você não dizia que me queria tanto bem?' Uma viúva, de nome Francisca, alimentando a louca pretensão de ser Rainha, imola, por si mesma, seus dois filhos mais novos. Isabel, irmã de Pedro Antônio e do primeiro Rei, João Antônio, grávida do monstro, é designada para o sacrifício pelo Execrável João Ferreira-Quaderna, que respondia às suas súplicas e alegações de gravidez gritando para Carlos Vieira e José Vieira: `Imolai-a assim mesmo, para ela não sofrer duas dores, a do parto e a do encantamento!' Tão adiantado era o estado de gravidez desta infeliz que, momentos depois de ter recebido o golpe na garganta, a criança rolava pela rampa da Pedra e estendiase no chão. Finalmente Josefa, irmã de Isabel, de Pedro Antônio e do primeiro Rei, João Antônio, conhecida como Rainha Josefa, por ter se casado também com o monstro João Ferreira-Quaderna, recebe setenta e tantas facadas. Desta forma, no fim do terceiro dia de matança, tinha o Execrável João Ferreira-Quaderna conseguido lavar as bases das duas Torres de granito e inundar os terrenos adjacentes com o sangue de trinta crianças, doze homens - entre os quais seu próprio Pai - e onze mulheres, cujos corpos, bem como os esqueletos de quatorze cães, iam sendo colocados ao pé das Pedras".
Tenho perfeita consciência da má vontade de Souza Leite para com minha família. Mas isso é até bom, porque, assim, tudo o que ele diz a nosso favor é absolutamente insuspeito. Ora, o ilustre Acadêmico, com toda a sua aversão, não ocultou um fato fundamental para as monarquias e outras glórias quadernescas: meu bisavô foi visto, mesmo, na Pedra do Reino, trazendo à cabeça a sagrada Coroa de couro e prata que é a verdadeira Coroa do Brasil e que é a mesma que ainda hoje eu possuo! Infelizmente, porém, um dia tão bem começado como aquele 17 de Maio de 1838, seria o último de matança e do nosso Terceiro Império: porque na manhã desse dia, meu outro tio-bisavô, o Infante Dom Pedro Antônio, levantaria um motim contra Dom João II, o Execrável, sendo vitorioso e levando novamente ao trono o ramo Vieira-dos-Santos, no Quarto Império, que só iria durar até o dia seguinte. Conta Souza Leite: "Na manhã, porém, do dia 17 de Maio de 1838, quando 0 Monstro se dispunha a preparar o Povo para novas matanças, Pedro Antônio, indignado pela morte de suas irmãs, a Rainha Josefa e a Princesa Isabel, e julgando-se talvez com melhor direito ao poder, por ser irmão do primeiro Rei, João Antônio, antecipou-se em subir ao Trono. Dali anunciou, em voz alta, que Dom Sebastião, cercado de sua Corte, lhe aparecera na noite antecedente e reclamava a presença do Rei João Ferreira-Quaderna, única vítima que faltava para operar-se o seu completo desencantamento. - `Viva El-Rei Dom Sebastião! Viva nosso irmão Pedro Antônio!' - tal foi o brado uníssono de todos os circunstantes. Poucas horas depois, Pedro Antônio era proclamado Rei, com o nome de Dom Pedro I, e o cadáver de seu antecessor, o de Execrável Memória, era amarrado de pés e mãos em dois grossos troncos de árvore. As pessoas que estiveram no Reino são acordes em afirmar que se viram forçadas a quebrar a cabeça de João Ferreira-Quaderna, a extrair-lhe as entranhas e a atar seu cadáver, de pés e mãos, naquelas árvores, por causa dos berros, das roncarias e dos sinistros movimentos que ele, depois de morto, executava com a boca, o ventre e os braços. Por isso, e como já se não respirava ar puro no lugar, ordenou o novo Rei a transferência do acampamento para o pé de uns Umbuzeiros situados perto das Pedras e onde devia operar-se o aparecimento de El-Rei Dom Sebastião".
0 Quarto Império Iniciava-se, portanto, o Quarto Império que, como já disse, durou somente um dia, mas teve a vantagem de revelar ao Brasil quem foi seu verdadeiro e real Dom Pedro I, o nosso, e não aquele Português debochado da Casa de Bragança, tão valorizado pelo nosso Promotor, o Doutor Samuel Wandernes. Chegamos, então, ao trecho mais epopéico, bandeiroso e cavalariano da história da Pedra do Reino. Digo isso porque é agora que aparecem os Cavaleiros sertanejos, comandados pelo Capitão-Mor Manuel Pereira, Senhor do Pajeú, todos galopando em cavalos, armados de espadas reluzentes e arcabuzes tauxiados de prata, na sua expedição punitiva contra os Reis castanhos e Profetas da Pedra do Reino. Fazendo pacientes pesquisas, descobri que, naquele dia, a Guarda de Honra do Comandante Manuel Pereira era composta de trinta e seis Cavaleiros, entre os quais se destacavam seus nove irmãos, Antônio Simplício, João, Francisco, Vitorino, Joaquim, Sebastião, Cipriano e Alexandre. Isso mostra que ele era três vezes mais importante do que Carlos Magno, porque tinha três vezes Doze Pares de França. Era um inimigo implacável da minha casa: mas ressalto essa grandeza dele por patriotismo sertanejo e para provar também, logo de entrada, a superioridade do Sertão sobre aquele Reinozinho besta, estrangeirado e mixuruca que- é a França.
0 Comandante Manuel Pereira passou a noite de 17 de Maio reunindo sua tropa de Cavaleiros, de modo que já se achava em marcha para a "Serra do Reino", quando "a aurora do dia 18 de Maio começava a derramar sua roseada luz sobre as águas prateadas do Riacho Belém", como diz Souza Leite em seu puro estilo epopéico. E ele continua, contando como a tropa, guiada pelo traidor, descobriu o melhor caminho de acesso, galgando a Serra, passando pelos espinheiros e cactos espinhosos e por fim cruzando um altíssimo capinzal: "No momento, porém, em que os Pereiras, com os Soldados que os seguiam, se aproximavam das capoeiras e se dirigiam para aqueles Umbuzeiros, acharam-se face a face com E1-Rei Dom Pedro Antônio, o qual estava com uma grande Coroa na cabeça, acompanhado de um séquito numeroso de mulheres, meninos e de homens armados de facões e cacetes. - `Não os tememos! Acudam-nos as tropas do nosso Reino! Viva El-Rei Dom Sebastião!' - assim exclamou Pedro Antônio, agitando no ar a sua Coroa e arremessando-se furioso, com todos os seus, sobre aquele punhado de Cavaleiros. Foi horrível o que resultou do encontro das duas Forças: sobre o Campo de combate ficaram inúmeros cadáveres, sendo um o do Rei Pedro Antônio, com muitos dos seus sectários, e os de Cipriano e Alexandre Pereira. 0 Comandante Manuel Pereira seguiu pessoalmente com as mulheres e filhos dos criminosos ali apreendidos. Apenas chegou em sua fazenda `Belém', enviou os presos ao Prefeito de Flores, Francisco Barbosa Nogueira Paes. Este soltou as mulheres, distribuiu as crianças e passou os delinqüentes à disposição do juiz Criminal. Uma dessas crianças é, hoje, 1874, o digno Tabelião da Vila de Flores, Joaquim José do Nascimento Wanderley, educado pelo Padre Manuel José do Nascimento Bruno Wanderley, de quem tomou o apelido. E, entre os delinqüentes, contava-se Gonçalo José dos Santos, pai do primeiro Rei João Antônio, o qual, condenado pelo júri de Flores, acabou seus dias arrastando ferros no Presídio de Fernando de Noronha".
0 Quinto Império Foi esse o trágico fim do Quarto Império. E, apesar de sua hostilidade, o genial Souza Leite reconhece que a queda sangrenta da nossa Coroa foi "uma catástrofe, uma horripilante Tragédia que a História registrará": o que prova que nossa Casa Real não fica devendo nada às outras, em questões de prosápia e importância epopéica. Nossa Monarquia acaba, como todo Trono digno desse nome, com os campos e a Coroa banhados pelo sangue dos Reis.
Assim, resta-me somente mostrar como foi que a dupla linhagem real dos Vieiras-dos-Santos e dos Quadernas terminou se fundindo numa só e unindo na minha pessoa todo os direitos à sagrada Coroa do Sertão. Como já contei, meu bisavô casou-se, ao mesmo tempo, com duas irmãs, as duas Infantas suas primas, isto é, a Rainha Josefa e a Princesa Isabel. Não teve filhos da primeira, mas a segunda engravidou dele. Vossas Excelências viram, na Crônica, que, no momento de ser degolada, a Princesa Isabel pariu um menino, que rolou de pedra abaixo, no chão. Pois foi através desse menino que continuou a estirpe real dos Quadernas.
O corpo da minha bisavó Isabel só foi encontrado na manhã do dia seguinte, por um Vaqueiro que, indo ali por curiosidade, para ver o campo de Batalha, ouviu um débil vagido por trás das pedras. Assombrado, aproximou-se do lugar de onde vinha o choro, e viu um quadro estarrecedor. No chão, estava o corpo jovem, desnudo e moreno de uma mulher degolada. Enroladas em suas coxas, havia duas Cobras-Corais, enormes, de um tamanho como nunca se viu nessa espécie. Lambendo e farejando o corpo, estavam duas Onças-Pintadas, que correram assim que o intruso apareceu. De cada lado do corpo, havia uma cabeça de mulher, ambas cortadas pelo pescoço. As cabeças eram parecidíssimas, com a mesma beleza e os mesmos cabelos negros e compridos. E como não consta pelo menos em Crônica de historiador fidedigno, que minha bisavó tivesse duas cabeças, provavelmente uma delas era a de sua irmã, a Rainha Josefa, cujo corpo nunca foi encontrado.
O estranho, porém, é que o menino sobrevivera e estava ali, perto do corpo de sua jovem Mãe. Como teria o recém-nascido escapado, assim? Não se sabe, e eu, como membro ilustre do nosso "Instituto Genealógico e Histórico do Cariri", não avanço hipóteses, só digo o que posso provar. Mas vá ver que são mesmo corretas as versões, correntes aqui no Cariri, de que uma daquelas Onças era fêmea e teria amamentado o inocente naquele primeiro dia de vida, no que, aliás, teria somente seguido outros exemplos ilustres da História.
De qualquer modo, o importante é que o Vaqueiro se apiedou do menino e levou-o., Sabendo, depois, que o Comandante Pereira tinha distribuído os filhos dos outros finados, conduziu o inocente a Flores, entregando-o àquele mesmo Padre Manuel José do Nascimento Wanderley, que protegeu o outro, depois Tabelião.
Esse Padre Wanderley era homem bondoso, virtuoso e prudente. Sabendo que o novo protegido era filho do Rei João Ferreira-Quaderna, teve medo de que essa fama se espalhasse, atraindo sobre a cabeça do Principezinho as marcas de sangue da família. Ocorre que meu bisavô era mais conhecido somente pelo sobrenome de Ferreira, sendo assim que ele é tratado por todos os que escrevem sobre a Pedra do Reino: eu é que, por motivos de clareza, acrescentei sempre o de Quaderna, que aparece aqui. O Padre então, aproveitando isso, quando foi batizar o inocente, omitiu o Ferreira e manteve somente o Quaderna, que quase ninguém conhecia. Foi por isso que meu avô, o Principezinho escapo à matança, foi batizado com o nome de Pedro Alexandre Quaderna, e não de Pedro Alexandre Vieira-dos-Santos FerreiraQuaderna, como teria acontecido em condições normais.
Quando o menino se tornou adulto, o virtuoso Padre Wanderley deu a ele, em casamento, uma filha natural sua, Bruna Wanderley, moça loura, conhecida no Sertão por sua beleza. E foi do casamento de Bruna com meu avô, Dom Pedro Alexandre (subido ao trono com o nome de Dom Pedro II), que nasceu Dom Pedro Justino Quaderna (ou Dom Pedro III), aquele que veio a ser meu Pai, por seu casamento com Dona Maria Sulpícia GarciaBarretto, filha bastarda do Barão do Cariri e irmã de meu tio e Padrinho, Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto, degolado daquela maneira cruel e enigmática a que já me referi, no dia 24 de Agosto de 1930, dia em que o Diabo andou solto.
Estão resumidos aí, portanto, alguns dos motivos que terminaram me fazendo considerar honrosa minha descendência quadernesca. Outro, também fundamental, foi a Cantiga de La Condessa, que me preparou, por sua vez, para receber duas terríveis influências em minha vida, a de minha Tia, Dona Filipa Quaderna, e a de meu Padrinho-de-Crisma, o Cantador João Melchíades Ferreira.
Aliás, Vossas Excelências só poderiam entender a influência que teve sobre mim essa minha Tia Filipa, se conhecessem ambos, tia e sobrinho. Digo, hoje, depois de muito refletir sobre isso, que, em menino, eu amava demais minha Mãe, a suave e bondosa Maria Sulpícia. Mas, admirar, mesmo, eu admirava era minha TiaÇFilipa, que, no dia em que estava azeitada, tomava umas quatro ou cinco lapadas, montava num cavalo brabo, atravessava a feira quebrando as louças de barro espalhadas no chão, e dava tapa até na cara dos valentes. Eu, que nascera e me criara admirando as caçadas, as cavalgadas, os tiroteios, as brigas de faca e outras cavalarias e heroísmos sertanejos, tinha a desgraça de ser mau cavaleiro, mau caçador e mau brigador. Talvez por isso, admirava minha Tia Filipa, em cuja pessoa alta, magra e esgrouviada, parecia ter se reunido a maior parte da coragem da família Quaderna.
Ora, foi Tia Filipa quem me criou, depois da morte de minha Mãe, Maria Sulpícia. Sendo o mais moço dos filhos legítimos de meu Pai, eu era o predileto de minha Tia, e muitas das coragens que me vi obrigado a praticar na vida, eu as fiz com medo dela. Não podia eu permitir que Tia Filipa descobrisse um covarde em seu sobrinho predileto, um homem sem talento e sem sustança, um sujeito que não podia montar muito tempo a cavalo sem assar a bunda e sem inchar os dois joelhos de uma vez. Não podia consentir, também, que minha Tia terminasse amargamente sabedora de que ela própria, uma mulher, tinha mais coragem do que os homens da família, o que a teria matado de desgosto. Por isso, quando surgia uma questão qualquer em que, segundo os códigos particulares dela, estava empenhada "a honra dos Quadernas", lá ia eu, apavorado, a contragosto, procurando me fazer o mais parecido possível com a imagem que ela guardava de mim.
Pois bem: depois da morte de minha Mãe, Tia Filipa tornou-se caseira da "Casa-Forte da Onça Malhada", a fazenda do meu Padrinho, Dom Pedro Sebastião. Impressionavam-me a calma, a modéstia e a energia mansa que ela conseguia conciliar com a coragem viril e os assomos cavaleiros dos dias em que estava azeitada. Nesses dias de calma cotidiana, vestindo a saia comprida e o casaco com mangas que sempre usou, punha óculos de aro de ouro e, sentando-se à almofada, fazia rendas e rendas, cantando velhas cantigas e folhetos, que sabia de cor, às dúzias. Meu Padrinho tinha, por ela, a maior admiração. De modo que assim, fazendo renda e cantando suas cantigas, ela dirigia tudo, despoticamente: desde a criadagem até a educação, o catecismo e as diversões das filhas dos moradores e Vaqueiros. A estas, ensinava ela algumas de suas velhas cantigas-de-roda, reunindo-as à noite, no pátio lajeado da fazenda, para os cantos e as danças.
Eu, à medida que me punha taludo e me iniciava com as cabras de minha Tia - de um modo que contarei melhor, depois - começava a deixar de lado as caçadas de balieira e badoque, e a me chegar mais, de noite, para a roda das mocinhas e meninas, antes desprezadas como indignas do interesse de um homem. De repente, dei para rondá-las toda noite, a fim de me aproveitar do contato de uma ou outra menina mais despachada, com os peitos já se arredondando e disposta a me acompanhar disfarçadamente para fora do pátio, para lugares mais escuros e cobertos de mato, mais propícios, portanto, à brincadeira e às alegrias. Quando éramos surpreendidos, eu levava uns cascudos e Tia Filipa sublinhava-os comentando: - Menino safado! Menino maligno! Vai ficar igualzinho ao Pai! É que Tia Filipa não perdoava a meu Pai a vida desregrada que valeu a ele o apelido de "0 Pai-d 'Égua do Cariri", saído num jornal de Campina que fazia oposição a meu Padrinho, e que nos valeu a ruína, com a nossa terra dividida pelos bastardos.
Um dia, de noite, Tia Filipa ensinou às meninas uma cantiga de roda que, entre outras coisas, precisava de um menino-homem para tomar parte no diálogo cantado. Eu já estava um pouco grande, mas disputei ferozmente o lugar, sem me incomodar com as galhofas dirigidas contra mim pelos filhos de moradores meus companheiros, Lino Pedra-Verde, Severino Putrião, Marcolino Arapuá e outros vadios. É que eu andava de olho, há muitos dias, na filha de um Vaqueiro, Rosa, menina morena, de cabelos lisos, já moça e interessada demais no que ainda não sabia.
Tia Filipa consentiu que eu entrasse na roda. Explicou que eu ia fazer o papel de Cavaleiro. Elisa, uma menina, filha de Comadre Teresa, o de La Condessa. Elisa ficava de lá, com todas as meninas de mãos dadas, formando uma fila e de cara para mim. As meninas eram as filhas de La Condessa, a quem eu me dirigia, puxando o canto e dialogando com ela:
- "La Condessa, La Condessa! - Que queres com La Condessa? - Quero uma dessas Moças para com ela casar! - Eu não tiro as minhas filhas do Mosteiro em que elas 'tão, nem por Ouro, nem por Prata, nem por sangue de Aragão! - Tão contente que eu vinha! Tão triste que vou voltando! - Volta, volta, Cavaleiro! Vem e escolhe a que quiseres! - Esta fede e esta cheira! Esta, come o pão da feira! Esta é a que eu queria pra ser minha Companheira!"
Para que se entenda bem o estado de exaltação em que fiquei, brincando isso, devo acrescentar que fazia uma noite fria e enluarada, dessas noites sertanejas em que o céu come estrelas e nas quais o mato que cercava a "Onça Malhada" ficava o mais bonito e cheiroso do mundo. Tudo isto, juntamente com o desejo que eu sentia por Rosa, que foi minha escolhida, é claro, criou em mim uma exaltação que me jogou para o alto e para além de mim mesmo. 0 sonho e o sangue se misturavam num fogo só, incen65 diado pelo desejo, pela beleza da mocinha, pelos cantos, pela noite, pela lua e pelas estrelas. As palavras do canto marcavam-me mais ainda porque seu sentido era obscuro e estranho. Impressionado com o ouro, a prata, o mosteiro, o sangue, imediatamente tudo aquilo se tornava sagrado para mim, sacralizado pela luz da lua, que me parecia, ela também, uma bola de ouro, molhada pelo sangue de aragão que pingava da noite no mato, à poeira de prata de sua luz.
Então, vieram chamar Tia Filipa para resolver, lá dentro, um problema da casa. Saí do pátio e, cruzando o portão, cheguei até a orla do mato, que fiquei olhando, sonhando nem sei bem com quê. Logo, ouvia uns passos cautelosos e suaves atrás de mim: e antes mesmo de me voltar, eu já sabia que era Rosa.
Só depois, mais tarde, é que eu iria conhecer mulher, na noite memorável em que Arésio e eu fomos ao "Circo Estringuine", depois do espetáculo. Mas a primeira experiência de amor que senti com Rosa, naquela noite, foi muito mais importante. Ela deixou que eu a beijasse, o que fiz desajeitadamente, ignorantemente, afetuosamente, num beijo que apenas aflorou a pele macia e cheirosa dos lábios dela. Em compensação, beijei-lhe os cabelos, que tinham sido lavados mas estavam, já, enxutos e cheirosos, e, sentindo o cheiro capitoso que se desprendia de seu corpo, ergui instintivamente a mão e passei-a suavemente por seu busto, tocando nos dois seios.
Nesse momento, ouvi a voz de Tia Filipa que gritava por mim, no pátio. -Disse a Rosa qúe desse a volta pelo muro, a fim de dar a impressão de que voltava de dentro da casa, e voltei sozinho pelo portão de entrada. Apesar de todas essas precauções, porém, Tia Filipa estava desconfiadíssima. Cheguei para perto dela, acariciei-a, lisonjeei sua vaidade elogiando uma gola de rendas que ela mesma tinha feito e estava usando. Ao mesmo tempo, a sensação de felicidade que eu experimentara prolongava-se de tal modo que parecia tornar o mundo melhor, em torno de mim. Eu estava ansioso para ir para a cama, a fim de sonhar melhor meu desejo e minha exaltação. Sentia, porém, ainda, necessidade de esclarecer algumas coisas que me tinham intrigado e fascinado na Cantiga de La Condessa. Perguntei a Tia Filipa o que era uma Condessa e o que significava um Cavaleiro.
- Isso são coisas antigas, Dinis! - disse ela. - É melhor você perguntar a seu Pai, que é homem mais ilustre do que eu! Acho que uma Condessa é uma Princesa, filha de um fazendeiro rico, de um Rei como Dom Pedro I ou Dom Sebastião! - E um Cavaleiro? - insisti, depois de anotar, em meu sangue, aquela noção de Princesa, misturada para sempre, agora, ao cheiro e aos seios de Rosa.
- Um Cavaleiro - explicou Tia Filipa - é um homem que tem um cavalo e monta nele, para brigar de faca com os outros e casar com a filha do Rei! Foi então por isso, nobres Senhores e belas Damas, que a Cantiga de La Condessa contribuiu danadamente para que eu me entusiasmasse quando, depois, soube a história da Pedra do Reino, com os Pereiras, Barões do Pajeú, montados a cavalo e comandando a tropa de Cavaleiros que iria acabar, a faca, com o Trono real dos Quadernas. Preparou-me, também, para entender o que, de fato, significava o rapaz do cavalo branco. É que, desde aquela noite com Rosa e a cantiga, toda vez que eu, via um Vaqueiro montado a cavalo, com seu gibão, seu chapéu de couro e os arreios do cavalo enfeitados de estrelas de metal, eu fingia que aquele metal era prata e dizia para mim mesmo: - "Lá vai um Cavaleiro montado em seu cavalo! Vai furtar Rosa, a filha mais bonita de La Condessa e do Rei Dom Pedro I, para levá-la para o mato, beijar seus cabelos cheirosos e acariciar os peitos dela, enquanto a bola de ouro da lua se molha no sangue de aragão que pinga da noite, em sua luz de moeda de prata!" 0 Reino da Poesia Aí, à medida que eu ia crescendo, essas idéias iam cada vez mais se enraizando no meu sangue. Eu ouvia, decorava e cantava inúmeros folhetos e romances que me eram ensinados por Tia Filipa, por meu Padrinho-de-Crisma João Melchíades Ferreira e pela velha Maria Galdina, uma velha meio despilotada do juízo, que nos freqüentava.
João Melchíades era um Cantador conhecido em todo o Sertão. Para assinar seus folhetos, adotava o orgulhoso cognome de "0 Cantador da Borborema", em homenagem à serra sagrada da Paraíba. Tinha sido soldado na "Guerra dos Canudos", em 1897, lutando sob as ordens do então Tenente-Coronel Dantas Barretto. Depois, fizera parte das tropas que tinham ido ocupar o Acre, conquistado pelas tropas irregulares de nordestinos de Plácido de Castro. Fora, depois, reformado no posto de Cabo, voltando então para a Paraíba, terra sua, e acolhendo-se à proteção do homem poderoso do Cariri, meu Padrinho, Dom Pedro Sebastião. Este deu morada ao velho Cantador perto da casa da fazenda, onde João Melchíades não tinha obrigações, vivendo do soldo de Cabo e da renda dos seus folhetos e cantadas.
Logo ele se tornaria célebre, com um romance que escreveu sobre a "Guerra de Canudos" e também pelos inúmeros folhetos que escreveu contra os Protestantes, os nova-seitas, que já começavam a aparecer, no Sertão, "com seus evangelhos, cizânias e pregações proselitistas", como dizia, indignado, o nosso Padre Renato.
Já a velha Maria Galdina era conhecida por três apelidos: Sá Maria Galdina, Galdina Gato e Sá Maria do Badalo, pelo fato de ser da família Gato e de morar no "Badalo", uma região do nosso município onde só dá doido. Ela tinha horror a ouvir isso. Aparecia às vezes na "Onça Malhada", para vender ovos, coentro e galinhas. Tia Filipa comprava tudo, sem precisar. E como só a chamava respeitosamente de Dona Maria Galdina, não ligando para sua sandice, a velha era louca por ela. Braba com todo mundo, com Tia Filipa era um cordeiro. Nunca vinha à "Onça Malhada" sem lhe trazer pequenos presentes, molhos de maxixe, ovos, e, mesmo, no tempo de inverno, uma ou duas braçadas de rosas do seu terreiro.
Ora, a amizade entre minha tia e a Velha do Badalo estreitouse ainda mais quando elas descobriram que ambas gostavam dumas velhas cantigas que somente elas ainda sabiam. Depois daí, quando Sá Maria Galdina ia lá em casa, sentava-se no chão, perto da almofada onde Tia Filipa fazia renda, e começavam a cantar, uma ajudando a outra, uns romances esquisitos, ao mesmo tempo diferentes e parecidos com os do velho João Melchíades. Mas sabiam também romances e cantigas de Cangaceiros, tendo grande estima pelo Abecê de Jesuíno Brilhante. Ambas admiravam muito esse Cangaceiro, a quem consideravam "o mais corajoso e cavaleiro do Sertão, um Cangaceiro muito diferente desses Cangaceiros safados de hoje em dia, que não respeitam mais as famílias", como dizia a Velha do Badalo, com plena concordância de Tia Filipa.
Eu, o que mais admirava em Jesuíno Brilhante e nos outros Cangaceiros, era a coragem que todos eles tinham de enfrentar morte cruel e sangrenta. Impressionado pelas mortes dos Reis meus antepassados, no Pajeú, sentia-me, ao mesmo tempo, fascinado o apavorado com elas. Desejava imitá-los na grandeza real que tinham mantido na vida e na morte, mas sabia que não tinha coragem suficiente para isso. Eu ouvia aquele tropel de Cavaleiros o barões sertanejos, montados a cavalo, armados de bacamartes o espadas, seguindo para a Pedra do Reino. Ouvia o entrechoque dos ferros, na Batalha. Via as gargantas cortadas, com o sangue dos Reis e das Princesas esguichando e embebendo o ardente chão sertanejo. De modo que, quando lá um dia, Dona Maria cujoe Galdina e Tia Filipa cantaram um certo romance que conheciam assunto era, também, Jesuíno Brilhante, aquilo tudo de iepente pegou fogo em minha cabeça. Lembro-me bem de que havia uma estrofe que dizia:
"Jesuíno já morreu! Morreu o Rei do Sertão! Morreu no campo da honra, não entregou-se à prisão, por causa de uma desfeita que fizeram a seu irmão!"
Preparado pelos acontecimentos da Pedra do Reino, impressionado com as palavras Rei e campo (tanto fazia "campo da honra" como "campo encantado embebido de sangue"), eu começava a misturar Jesuíno Brilhante com meu bisavô, Dom João Ferreira-Quaderna. Aprendi, então, a solfa da "Cantiga de Jesuíno", e quando chegava nos versos que acabo de citar, substituía as palavras assim: "Dom João Quaderna morreu, morreu o Rei do Sertão! Morreu no Campo Encantado, sofrendo a degolação! Pedro Antônio assassinou-o, subiu ao Trono do irmão!" Tudo isso, porém, era a princípio apenas uma raiz do sangue, uma peçonha confusa que fincava dentro de mim suas raízes profundas e inarrancáveis. Só depois é que tudo iria se aclarando o se espalhando diante dos meus olhos, graças, principalmente, às lições de meu Padrinho, João Melchíades Ferreira. É que ele, seguindo o exemplo de seu antigo Mestre, o grande Francisco Romano, da Vila do Teixeira, instalara na "Onça Malhada" uma Escola de cantoria, onde procurava nos ensinar "a Arte, a memória o o estro da Poesia". Procurava, entre nós, os que ouviam com mais interesse seus romances e folhetos, verificava se "tinham vocação para a Arte", e então tornava-os discípulos seus. Terminou escolhendo quatro entre os melhores: eu, Marcolino, Arapuá, Severino Putrião e Lino Pedra-Verde.
Começou ensinando-os que havia dois tipos de romance: o "versado e rimado", ou em poesia; e o "desversado e desrimado", ou em prosa. Era, mesmo, um exercício que nos obrigava a fazer: pegar um romance desrimado qualquer e "versá-lo", contando em verso o que era contado em prosa. Lia para nós a História de Carlos Magno e os Doze Pares de França, um "romance desversado" que nos encantava pelo heroismo de suas cavalarias, aquelas histórias de Coroas e batalhas, que eu, por causa da Pedra do Reino, via logo, com Princesas amorosas e desventuradas que, ou eram degoladas ou desonradas, mas disputadas sempre por Cavaleiros, em duelos mortais, travados a punhal, junto a enormes pedras e num Campo encantado, embebido de sangue inocente. Inúmeros Cantadores e Poetas sertanejos tinham, já, versado esse romance do Imperador Carlos Magno. Nós preferíamos as versões rimadas, não só porque eram mais fáceis de decorar, como porque a gente podia cantar os versos, acompanhando a solfa com o baião da viola, coisa que João Melchíades também não se descuidou de nos ensinar. Uma dessas versões dizia:
"Depois que o Rei Carlos Magno venceu a grande Campanha, fez a Igreja de Sant'Iago, padroeiro da Espanha, e a de Nossa Senhora, em Aquisgrã, na Alemanha.
Tomou dezesseis Cidades, da Guerra saiu feliz! Deu muitas graças a Deus por conquistar um País: Foi visitar a Alemanha, daí tornou a Paris.
Acompanhado dos Pares Reinaldo de Montalvão, de Gui, Duque de Borgonha, de Oliveiros e Roldão, Guarim, Duque de Lorena, o do Conde Galalão; de Lamberto de Bruxelas, Frisa, Rei de Gardená, Tietri, Duque de Dardanha, Gerardo e Urgel Danoá, de Bosim, Duque de Gênova, homens-bons no guerrear;
o o Duque de Regnér, mais Engelo de Almirante, O que me impressionava, nisso, eram os nomes dos lugares o o fato de, na lista, os Doze Pares de França serem vinte. Um dia, perguntei a Tia Filipa onde eram todos aqueles lugares maravilhosos, chamados Lorena, Alemanha, Baviera, Gênova e Bruxelas. Ela respondeu: - Não sei direito não, Dinis, mas deve ser longe como o diabo, ali por perto da Turquia, já quase na beira do mundo! Em Serra Talhada, existe uma família Lorena: portanto esses lugares devem ser pra lá do Sertão do Pajeú, de Serra Talhada pra cima, mais de sessenta léguas! Ou então, é pr'os lados do Piauí, entre a Turquia e a Alemanha! A guerra do Doutor Santa Cruz contra o Governo da Paraíba, parece que foi pr'aquelas bandas, em 1912: mas o que eu me admiro é que uns chamam ela de "A Guerra de Doze", e outros de "A Guerra de Catorze", o a gente fica sem saber quantos Reis se meteram nela, se foram doze ou catorze! Meteram-se nela um tal de Togo do Japão, o Caisalamão, Antônio Silvino, os Pereiras, Dom Sebastião, Carlos Magno, os Viriatos, esse pessoal guerreiro todo! Digo isso porque, naquele tempo, eu perguntei a seu Pai: - "Justino, sabe me dizer se a Paraíba está metida nessa guerra que está havendo por aí?" Ele respondeu: - "Filipa, a Paraíba é do Brasil, e o Brasil está! " Aí, eu perguntei: - "A favor ou contra a Alemanha?" Aí ele disse: - "Contra o Caisalamão!" Eu perguntei de novo: - "Contra o quê?" Seu Pai disse: - "Contra a Alemanha! 0 Caisalamão é o Rei da Alemanha!" Aí eu perguntei: - "E se a Alemanha ganhar a guerra, você acha que vão tomar as terras do nosso Compadre Pedro Sebastião?" Justino respondeu: - "Essa gente de Governo é tão ruim, que são capazes de tomar!" Eu, com raiva, falei: - "Tá, é da vez que eu largo esse Brasil velho o vou me embora pr'o Ceará! "