e Nemé da Baviera, Hoel e Riol de Nantes, Reinaldo e Anselmo Fiel, mais Oton, Príncipe de Anglante.
Aí passou Carlos Magno vinte anos em campanha. Aquartelou os exércitos d'Itália, França e Alemanha. Mas lhe chega uma Embaixada: novas guerras na Espanha!" O velho João Melchíades ensinou-nos, ainda, que, entre os romances versados, havia sete tipos principais: os romances de amor; os de safadeza e putaria; os cangaceiros e cavalarianos; os de exemplo; os de espertezas, estradeirices e quengadas; os jornaleiros; e os de profecia e assombração.
Um dia, ouvi Tia Filipa e a Velha do Badalo cantarem, juntas, uma daquelas cantigas que eu achava estranhas, mas parecidas com a Cantiga de La Condessa. As duas estavam sentadas no chão, fazendo renda, e enquanto Tia Filipa manejava os bilros, cantava em diálogo com Dona Maria Galdina: "Ai Valença! Guai Valença! De fogo sejas queimada! Antes fosses pelos Mouros que pelos Cristãos tomada! Ai Valença! Guai Valença! Como estás bem assentada! Antes que sejam três dias, de Mouros serás cercada! " "Vesti-vos, vós, minha Filha, vesti-vos de Ouro e de Prata! Detende-me aquele Mouro, em palavra por palavra! Que as palavras sejam poucas, mas sejam bem rematadas, e essas poucas que lhe derdes sejam de amores tocadas! " Aí, foi a vez de eu consultar meu padrinho João Melchíades sobre essas cantigas. Ele me explicou que aquilo eram "uns romances velhos, meio desmantelados e já um pouco fora de moda". Disse que a briga entre os Cristãos e os Mouros de que a cantiga falava, eram aquelas que eu via, todo ano, entre Natal e Reis, nas representações da Nau Catarineta, com os Reis Mouros do Cordão Encarnado, e os Reis Cristãos do Cordão Azul. Ele sabia algumas daquelas cantigas velhas, que tinha decorado como obrigação de ofício, nos começos de sua carreira de Cantador. Então, cantou-me uma dessas, uma espécie de mistura de romance de amor com romance de putaria. Chamava-se Romance da Filha do Imperador do Brasil, e era assim: Sá Galdina: "0 Imperador Dom Pedro tem uma Filha bastarda, a quem quer tanto do bem que ela ficou malcriada! Queriam casar com ela Barões de capa e de espada. Ela, porém, orgulhosa, a todos que recusava: - Este, é menino! Esse é velho! Aquele, lá, não tem barba! o de cá, não tem bom pulso pra manejar uma Espada! Tia Filipa: Dom Pedro falou, se rindo: - Inda serás castigada! Não vás tu, de algum Vaqueiro, terminar apaixonada! Na fazenda de seu Pai, já no fim da madrugada, um dia, numa janela, a Infanta se debruçava. Viu passar três moradores que trabalhavam de enxada.
o mais garboso dos três era o que mais trabalhava. Tanto plantava Algodão, como do Gado cuidava. Vestia Gibão de couro, fortes sapatos calçava. N'aba do chapéu de couro, fina prata se estrelava. Pois logo, desse Vaqueiro, a Infanta se apaixonava.
o o Vaqueiro, só cavando: ele sabe o que cavava! 72 A Princesa chama a Velha em que mais se confiava: - Estás vendo aquele Vaqueiro, trabalhando, ali, de enxada? Condes, Duques, Cavaleiros, por nenhum eu o trocava! Vai chamá-lo aqui, depressa, e ninguém saiba de nada! A Velha vai ao Vaqueiro que na terra trabalhava: - Vem comigo, meu Vaqueiro! Por que essa vista baixa? Levanta os olhos, que vês a Estrela da Madrugada! Entraram pelo portão, que a Porta estava fechada. Na camarinha da Moça o Vaqueiro já chegava:
- Senhora, o que é que me manda? Eu vim por vossa chamada! - Quero saber se te atreves a queimar minha Coivara! - Atrever, me atrevo a tudo, que um homem não se acovarda! Dizei-me, porém, Senhora, onde está vossa Coivara! - É abaixo dos dois Montes, na Fonte das minhas águas, abaixo do Tabuleiro o na Furna da Pintada, na linha da Perseguida, no corte da Desejada!
Passam o dia folgando, o mais da noite passavam, o o Vaqueiro socavando: ele sabe o que cavava!
À meia-noite, a Princesa pediu tréguas, por cansada: - Basta! Basta, meu Vaqueiro! Queimaste mesmo a Coivara! Não sei se por varas morro ou com ela incendiada! E, assim, a filha do Rei do orgulho foi castigada!"
Ora, eu sabia que meu tio-bisavô, Dom Pedro I, Imperador da Pedra do Reino, não tinha filho nem filha, de modo que fiquei abismado com as mentiras desse romance. Até que, muito depois, soube que quem tinha uma filha bastarda era o outro Dom Pedro I, o falso, o impostor da Casa de Bragança. Certamente fora essa
filha a Duquesa de Goiás, que, tendo puxado às taras da Mãe, a Marquesa de Santos, terminara como personagem desse romance que meu Padrinho me cantou naquele dia.
0 Caso da Cavalhada Aos sábados, Tia Filipa me levava para a feira, e ficávamos na rua até o dia seguinte, para assistirmos à Missa do domingo. Ufia vez, terminada a feira, houve uma Cavalhada, coisa que também iria ser de importância capital na minha vida.
Havia vinte e quatro Cavaleiros. Doze deles representavam os Doze Pares de França do Cordão Azul, e os outros doze, os Doze Pares de França do Cordão Encarnado. Havia, portanto, un, Roldão do azul e outro do encarnado, de modo que, apesar de serem vinte e quatro os Cavaleiros, aqui os Doze Pares de França eram realmente doze, a saber: Roldão, Oliveiros, Guarim de Lorena, Gerardo de Mondifér, Guí de Borgonha, Ricarte de Normandia, Tietri de Dardanha, Urgel de Danoá, Bosim de Gênova, Hoel de Nantes, o Duque de Nemé e Lamberto de Bruxelas.
Ninguém pode imaginar o entusiasmo régio que me empolgou quando os Cavaleiros desfilaram pela rua, a cavalo, com os matinadores levando à frente as Bandeiras dos dois cordões, uma azul, outra encarnada. Explicaram-me que os Azuis iam disputar troféus com os Vermelhos, e que eu devia escolher para mim um dos dois partidos. Disseram-me que o Cordão Azul era a cor de Nossa Senhora, e o Encarnado, a do Cristo. Mas Tia Filipa, que, por ser devota de Nossa Senhora da Conceição, era do Azul, me disse, logo, que eu não fosse nessa conversa não, porque o Cordão Encarnado era do Diabo. Espantei-me de que uma cor só, o Vermelho, pudesse ser, ao mesmo tempo, do Cristo e do Diabo. Só depois de adulto, aprofundando meus conhecimentos religiosos e astrológicos e estudando o Catolicismo da Pedra do Reino, foi que descobri como essa noção é profunda, zodiacal e estrelar! Mas isso foi depois e fica para depois: naquele meu primeiro dia de Cavalhada, obedecendo à orientação de Tia Filipa, filiei-me ao Cordão Azul, no que fiz, aliás, muito bem, porque ele ganhou e eh quase morro de entusiasmo.
Aconteceu, porém, que os derrotados cavaleiros do Encarnado não se conformaram e pediram desforra para o sábado seguinte.
Fomos à feira de novo, eu e Tia Filipa; e quando eu, muito lampeiro, esperava a repetição da vitória do Azul, coisa que eu julgava de rotina pela proteção de Nossa Senhora contra o Diabo, ganhou o Encarnado! Encafifei! Assim, não era vantagem!. No primeiro dia, eu ficara entusiasmado com as bandeiras vermelhas, triunfais, agitadas pelo vento, tremulando desafiadoramente contra o céu azul; só não me filiara ao Cordão Encarnado, primeiro para não perder a alma, e depois porque estava certo de que o Azul, com a proteção da Virgem Santíssima, ganhava toda vez. Pensei, então, em virar a casaca para o Encarnado, indagando porém, antes, a Tia Filipa, qual era o Cordão que ganhava mais. Perplexa, ela respondeu que isso era coisa que ninguém podia saber. Então, como era que eu podia fazer minha escolha? Se ao menos houvesse uma coerência, uma garantia! Acresce que eu achava ambas as bandeiras bonitas: o Azul era tranqüilo e fraterno, mas o Vermelho era festivo e corajoso, o eu gostava era de todos dois! Só havia, portanto, uma solução e foi a que adotei: resolvi pertencer aos dois partidos de uma vez, só decidindo qual a minha facção do dia depois da corrida. Quando o Azul ganhava, eu voltava para a "Onça Malhada" dizendo: - Hoje, eu era do Azul! Tia Filipa ouvia isso enfarruscada mas calada. Quando, porém, o Encarnado vencia e eu me declarava por ele, ela rosnava: - Esse menino não tem caráter! Não sei a quem ele puxou, tão desassistido de vergonha!
Tudo isso me ajudava, aos poucos, a entender cada vez melhor a história da Pedra do Reino e a me orgulhar da realeza e cavalaria dos meus antepassados. Tornava também o mundo, aquele meu mundo sertanejo, áspero, pardo e pedregoso, um Reino Encantado, semelhante àquele que meus bisavós tinham instaurado e que ilustres Poetas-Acadêmicos tinham incendiado de uma vez para sempre em meu sangue. Minha vida, cinzenta, feia e mesquinha, de menino sertanejo reduzido à pobreza e à dependência pela ruína da fazenda do Pai, enchia-se dos galopes, das cores e bandeiras das Cavalhadas, dos heroísmos e cavalarias dos folhetos. Assim, quando agora me acontecia evocar os acontecimentos da Pedra do Reino, o que eu via eram os Pereiras, como uma espécie de Cavaleiros Cristãos do Cordão Azul, assediando e assaltando o Reino criado e defendido pelos Reis Mouros do Cordão Encarnado da família Quaderna. Sonhava em me tornar, também, um dia, Rei e Cavaleiro, como meu bisavô. Não para degolar os outros, mas para conquistar Rosa e sete Princesas, queimando sete coivaras o abrindo, ainda, a broca dos cercados dos outros, pelo direito real de "dispensar" todas as donzelas do Reino em sua primeira noite de casadas.
Ao mesmo tempo, entregava-me furiosamente à leitura dos folhetos e romances, de que ia tomando conhecimento por intermédio de meu Padrinho e professor João Melchíades. Quando o romance era muito grande, era publicado em folhetos separados, como a História de Alonso e Marina, dividido em dois: Alonso e Marina, ou A Força do Amor e A Morte de Alonso e a Vingança de Marina. Este, era uma mistura de romance de amor com romance cavalariano de heroísmos, e eu achava maravilhosos esses títulos duplos, "isto ou aquilo". Outras vezes, o folheto trazia na primeira página, por baixo do título, uma espécie de explicação, destinada a causar "água na boca" aos que iam comprá-lo. Assim, por exemplo:
0 PRÍNCIPE JOÃO SEM MEDO E A PRINCESA DA ILHA DOS DIAMANTES ROMANCE DE PÁGINAS MISTERIOSAS, ONDE SE VÊ UM JOVEM PRÍNCIPE VIAJANTE E ERRANTE PELAS MAIS TEMEROSAS ESTRADAS, EM BUSCA DE INTRINCADOS LABIRINTOS QUE LHE CAUSASSEM MEDO, AMOR, SACRIFÍCIO E TRIUNFO! Havia romances de exemplo, como o Exemplo dos Quatro Conselhos. Havia os romances cangaceiros e cavalarianos como, por exemplo, 0 Encontro de Antônio Silvino com o Valente Nicácio. Este começava com uma reflexão que, segundo João Melchíades, era "filosófica, filantrópica e litúrgica até o osso". Era assim: "Neste Planeta terrestre, o Homem não se domina: tem que viver sob o jugo da Providência Divina. Foi feito do Pó da terra, no Pó da terra termina!
Assim, eu mostro a estrada do Passado e do Presente, Estrada onde morrem Reis ,molhados de Sangue quente! Hoje, tornados em Pó, resta a Memória, somente! "
FOLHETO DE JOÃO MELCHIADES, 0 CANTADOR DA BORBOREMA. A GRAVURA DE TAPARICA FOI FEITA A PARTIR DA CARLOS MAGNO SEGUNDO APARECE NA "HISTÓRIA DA CIVILIZAÇÃO" DO DOUTOR MANOEL DE OLIVEIRA LIMA.
Eram, ainda, os três Reis degolados da Pedra do Reino que vinham à minha imaginação, quando eu ouvia meu Padrinho cantar esses versos, "de tão profunda significação filantrópica e litúrgica". E quando, em 1930, meu tio Dom Pedro Sebastião GarciaBarretto foi degolado, foram ainda esses versos que me queimaram a memória, pegando fogo em meu sangue.
Outras vezes, a reflexão inicial do folheto vinha como uma invocação dirigida às Musas, a Apolo, a Mercúrio ou a outras figuras que, depois, quando me dediquei à Astrologia, tiveram tanta importância em minha vida. Era o caso de um romance de amores desventurados, 0 Assassino da Honra, ou A Louca do Jardim, que começava com a seguinte estrofe:
"Venha, 6 Musa, mensageira do Reino de Eloim: me traga a pena de Apolo e escreva aqui, por mim, O Assassino da Honra ou A Louca do Jardim."
Assim, Vossas Excelências já entendem por que segui esse mesmo estilo, no meu Memorial: pretendia e pretendo, com isso, predispor favoravelmente a mim não só os ânimos de Vossas Excelências como "o Povo em geral" e até as divindades divinodiabólicas que protegem os Poetas nascidos e criados no Sertão da Paraíba.
FOLHETO XIV 0 Caso do Castelo Sertanejo Um dia, tendo sido eu já iniciado nas realezas e cavalarias da História Geral do Brasil, caiu nas minhas ouças um folheto, decorado por Lino Pedra-Verde, e que começava assim:
"No Sertão da Espinhara, junto à Vila de Pombal, habitava o poderoso Barão Afonso Durval, que inda vinha a ser parente da Família Imperial".
Eu já não me sentia mais envergonhado, e sim orgulhoso, de pertencer à Casa Real da Pedra do Reino, de modo que já andava era com medo de rivais. A Espinhara e a Vila de Pombal eram aqui na Paraíba, a dois passos do nosso Cariri: daqui a pouco, se essa Literatura continuasse, os Sertanejos pensariam que tanto faziam os Imperadores da Casa dos Quadernas quanto os Impostores da Casa de Bragança, que tanto valia um Barão Afonso Durval qualquer quanto Dom Andrelino Pereira, Barão do Pajeú! Resolvi cortar o mal pela raiz: pedi a João Melchíades que, como parente dos Ferreira-Quadernas, escrevesse um romance sobre a Pedra do Reino. Ele me atendeu, e o folheto ficou uma beleza, cuidando eu logo de imprimi-lo e vendê-lo nas feiras. Começava assim: "No Reino do Pajeú morava o Rei João Ferreira. Ele era Conde e Barão: Foi o terror da ribeira! Tinha a Coroa de Prata lá no Trono da Pedreira! Havia, lá, dois Rochedos bem juntos e paralelos.
A Pedra era cor de ferro o incrustada de amarelo. Foi delas que, por grandeza, o Rei fez a Fortaleza, levantando o seu Castelo!"
Agora sim, estava honroso e como eu queria! Apenas adverti a João Melchíades que a Coroa dos nossos antepassados era de metal barato, e não de prata, e que as incrustações da Pedra do Reino eram "uma espécie de chuvisco prateado", e não de ouro amarelo, como ele escrevera no folheto. Ele me respondeu que "a rima e a Poesia obrigavam a gente a fazer essas mudanças de glória filosófica e beleza litúrgica". Conformei-me, concordei e perguntei, então, que Castelo era aquele que tinha aparecido no folheto e que não figurava nos livros de Pereira da Costa e Souza Leite. Ele retrucou que todo Rei tem um Castelo, uma Fortaleza, uma edificação de pedra e cal na qual se isola como defesa contra os inimigos e como marco de sua realeza. Todos os Cantadores, quando cantavam as façanhas dos Cangaceiros, costumavam construir, em versos, um Castelo para seu herói. 0 de Antônio Silvino, por exemplo, era descrito assim: "Meu Castelo está fincado em Pedra de grande altura.
o feita de pedra e cal sua Muralha segura! o Governo tem lutado, mas ele não foi tomado, pois a Pedra é muito dura! " Todas essas grandezas e monarquias iam, assim, tocando fogo em meu sangue, com o desejo de me sentar no Trono de meus antepassados e de me assenhorear de novo do Castelo de pedra que eles tinham levantado no Pajeú. Quando, porém, meu sonho atingia o auge de fogo, lá vinha a lembrança estarrecedora: todos os Reis da minha família tinham terminado de garganta cortada, de morte violenta tinha acabado Jesuíno Brilhante, o Rei do Sertão! Então, envergonhado, eu baixava*a cabeça, corria de enfrentar morte cruel para realizar minha realeza, e confessavá para mim que preferia ser um covarde vivo a ser uín Rei degolado.
Estavam as coisas nesse pé, quando, um dia, ouvi Tia Filipa e a Velha do Badalo cantarem, juntas, o Desafio de Francisco Romano com Inácio da Catingueira. Tia Filipa cantava as estrofes atribuídas ao primeiro Cantador e Sá Maria Galdina as do segundo. De repente, feriu minha atenção um trecho em que Romano, sabedor do fato de que Inácio "tinha um Castelo", ameaçava-o assim: Romano: Inácio: "Inácio, tu me conheces e sabes bem quem eu sou! eu posso te garantir que à Catingueira inda vou: vou derrubar teu Castelo que nunca se derrubou!" "A parede do Castelo tem cem metros de largura! Tem ainda um Alicerce com bem trinta de fundura, e, do nível para cima, mais de uma légua de altura! " Romano: As glosas eram assim: "Pra tudo o que lá tiveres tenho trabalho de sobra: eu dou veneno ao Cachorro, meto o cacete na Cobra! Derrubo-te a Fortaleza, escangalho a tua Obra!" Intrigado, fui procurar meu Padrinho, João Melchíades, e ele me fez, então, aquela que seria, talvez, a maior revelação para a minha carreira. É que os Cantadores, assim como faziam Fortalezas para os Cangaceiros, construíam também, com palavras e a golpes de versos, Castelos para eles próprios, uns lugares pedregosos, belos, inacessíveis, amuralhados, onde os donos se isolavam orgulhosamente, coroando-se Reis, e que os outros Cantadores, nos desafios, tinham obrigação de assediar, tentando destruí-los palmo a palmo, à força de audácia e de fogo poético. Os Castelos dos poetas e Cantadores chamavam-se, também, indiferentemente, Fortalezas, Marcos e Obras.
Foi um grande momento em minha vida. Era a solução para o beco sem saída em que me via! Era me tornando Cantador que eu poderia reerguer, na pedra do Verso, o Castelo do meu Reino, reinstalando os Quadernas no Trono do Brasil, sem arriscar a garganta e sem me meter em cavalarias, para as quais não tinha nem tempo nem disposição, montando mal como monto e atirando pior ainda! Assim firmou-se para mim a importância definitiva da Poesia, única coisa que, ao mesmo tempo, poderia me tornar Rei sem risco e exalçar minha existência de Decifrador. Anexei às raízes do sangue aquela fundamental aquisição do Castelo literário, e continuei a refletir e sonhar, errante pelo mundo dos folhetos. Um dos tipos que eu mais apreciava eram os de safadeza, subdivididos em dois grupos, os de putaria e os de quengadas e estradeirices. Dos primeiros, o que mais me entusiasmava eram umas "décimas" do Cantador Leandro Gomes de Barros, glosadas sobre o "mote" "Qual será o beco estreito que três não podem cruzar? Só entra um, ficam dois, ajudando a trabalhar!" "Frei Bedegueba dizia a Frei Manzapo, em disputa: - Existe uma certa Gruta onde hei de ter moradia. Hei de conhecê-la um dia, embora quebre o Preceito. Vou penetrá-la direito, para a verdade saber, pois preciso conhecer qual será o beco estreito.
Dizem que tem pouca altura e fica no pé dum Monte. A entrada é uma Fonte: vou medir sua largura! Para saber-lhe a fundura vou lá dentro mergulhar. Para me certificar, não podendo entrar os três, só entra o Cabo-Pedrês, que três não podem cruzar.
Um Padre já me contou que foi dar uma caçada e, nessa Mata fechada, viu um Bicho e não matou! De dentro, uma Voz gritou: - Padre, dizei-me quem sois! Podereis entrar depois, respondendo ao que pergunto: mas, dos três que vejo juntos, só entra um, ficam dois! Um Monge, de lisa fronte, também já contou a mim: - Já brinquei nesse Capim, já ressonei nesse Monte! Quase sempre a essa Fonte venho eu e mais um Par: os dois não podendo entrar, por serem moles e bambos, eu entro só, ficam ambos ajudando a trabalhar!"
Ora, Leandro Gomes de Barros era o autor de Alonso e Marina, ou A Força do Amor, e eu me admirava de que ele, sendo, assim, esfarinhado, em questões de safadeza e porcaria, contasse de maneira tão casta o casamento de Alonso com a feroz e apaixonada Marina. João Melchíades me explicou, porém, que, se Leandro descrevesse desavergonhadamente a noite de núpcias de Marina, era capaz de ser preso. Objetei que tinha lido um folheto, intitulado Histórias de um Velho que Brigou 72 Horas com um Cabaço sem Chegar no Fundo e sem Lascar as Beiras, safadfssimo e, no entanto, publicado. João Melchíades disse que eu reparasse direito: o folheto sobre o Velho não era assinado, para não dar com o autor na Cadeia.Passei a prestar atenção e vi que, de fato, os romances de putaria nunca eram assinados. Eu os lia furiosamente e logo passava a compará-los com outros, desrimados, dos quais começava a tomar conhecimento, por intermédio de Lino Pedra-Verde. A medida que crescíamos, Lino ia se tornando Cantador. Cantador, mesmo: não nas horas vagas, como eu, mas Cantador alugado, de carreira, como João Melchíades. Com isso, começou a viajar, inclusive para Campina Grande, de onde começou a trazer, para revendê-los na feira, uns romances desversados, imoralíssimos. A perturbação que senti, lendo o primeiro, foi terrível. Sentia-me fascinado e, ao mesmo tempo, aterrorizado, pensando comigo mesmo: - "Esse pessoal não tem medo não? Terminam indo todos para a Cadeia e para o Inferno, e me levando também, com eles!" Havia um chamado o Homem da Rua do Fogo. Outro, A Prostituta do Céu. Mas o melhor de todos era A Afilhada de Monsenhor Agnelo, ou o Castelo do Amor, que lamentei não conhecer já, quando daquela noite com Rosa, porque então tudo teria ido até o fim, executando eu, com ela, tudo aquilo que o romance agora me ensinava.
O curioso, porém, é que esses romances eram, todos, escritos o assinados por um certo Visconde de Montalvão, na certa parente do Marquês de Montalvão, personagem da "História do Brasil", parece que até Vice-Rei nosso. Seria o Visconde filho do Marquês? Interroguei Lino, que achou graça: - Que Visconde que nada, Dinis! Esses romances são escritos em Campina, mesmo, por um tal de José de Santa Rita Pinheiro Nogueira, amigo meu! Ele pega uns livros que compra no Recife, escreve de novo, ajeita, corta, aumenta, assina com o nome de Visconde de Montalvão para não ser preso, imprime e vende! Tem um lucro danado, porque todo mundo gosta de ler safadeza! - Mas se ele for pegado, vai preso, Lino! Primeiro, pela safadeza, depois pelo plágio! - Ah não, isso não! Esse negócio de plágio pode valer para os outros, para nós, Cantadores, não! Você não vê João Melchíades mandando a gente plagiar, em verso, A Donzela Teodora, Roberto do Diabo, a História de Carlos Magno e outras? - É mesmo! - disse, vendo que Lino tinha razão.
Depois daí, nunca mais tive escrúpulos de me apropriar do que os outros tinham escrito, suprindo, assim, "a falta de imaginação e de autoridade" que Samuel e Clemente vivem passando na minha cara de "charadista e intelectual de segunda ordem".
Reassegurado, mergulhava com avidez na leitura dos romances de José de Santa Rita Pinheiro Nogueira, Visconde de Montalvão. Meu preferido era, mesmo, A Afilhada de Monsenhor Agnelo, porque, além das putarias, tinha, ainda, aquele elemento heróico do Castelo do Amor. Isto me indicava que a Fortaleza de um Rei, poeta e Cantador como eu, além dos heroísmos e cavalarias das estradas e catingas, devia ter, também, camarinhas e alcovas para o amor e as safadezas. Era o que acontecera com o Castelo da Pedra do Reino, onde meu bisavô Dom João II instituíra heroísmos sangrentos no Campo Encantado e safadezas amorosas na Sala Soterranha, onde ele dispensava as donzelas.
Acresce que o danado do Visconde escrevia talvez melhor ainda do que Antônio Áttico de Souza Leite. Convenci-me, de vez, que o plágio seria indispensável à minha vocação de Poeta, porque, sozinho, eu jamais teria inteligência para escrever como aqueles dois Mestres. 0 livro dele começava assim "Se o amável Leitor não conheceu Teresa, a afilhada órfã do lúbrico Monsenhor Agnelo, procure-a no meu Castelo! Ela mora aí, no repertório literário que tenho, depositado, a cargo da Mulher que amo! Neste régio Castelo, erguido a golpes de escopro de meu Cálamo de ouro, o egrégio Leitor encontrará uma Aia prisca, não decrépita mas trôpega, que o receberá com pouca lisura mas com muita habilidade". 0 Visconde contava, então, como a mãe de Teresa, morrendo, deixara a menina aos cuidados do Monsenhor Agnelo, "padre sensual e sem escrúpulos", que, à medida que a afilhada se punha moça, começava a seduzi-la, aproveitando a circunstância de ela ser "inocente e brejeira, ingênua e voluptuosa". Depois do almoço, Monsenhor Agnelo costumava sentar-se numa espreguiçadeira ou deitar-se na cama, para fazer a sesta. Era o momento escolhido para as safadezas, que me abstenho de transcrever, com medo do Inferno. Conto apenas que, num certo dia, depois de várias escaramuças com Teresa, Monsenhor Agnelo, descobrindo que o fruto estava maduro, pensava: - "Agora é necessário aplicar-lhe um pouco de óleo sensual que lhe sirva de antídoto, fazendo-a expelir as matérias envenenadas de seus filamentos nervosos, ao mesmo tempo que se lhe crava nas entranhas o dardo subentendido". Aí, havia ainda umas três ou quatro escaramuças, e o Visconde concluía, dizendo que "logo o problema se resolvia, e o atrevido soldado de capacete vermelho, encontrando a relva umedecida, rasgava docemente as barreiras e penetrava inteiramente a gruta negra e vermelha, plantada no centro do Castelo do Amor!" Como se vê, nossos pobres folhetos sertanejos não podiam, mesmo, nem de longe, competir com os romances do Visconde. A safadeza dos nossos era, mais, uma sem-vergonhice risadeira, que só fazia era a gente achar graça. Eram bons, mesmo, era nas estradeirices e quengadas, nas astúcias e molecagens dos quengos. Esses quengos-estradeiros, isto é, pessoas de bom quengo para enganar os outros, eram popularíssimos, entre nós. Os mais conhecidos eram Pedro Malasarte, João Malasarte - neto dele e morador no Rio Grande do Norte - Pedro Quengo, João Grilo e Cancão de Fogo, este um sertanejo, paraibano como eu, cuja vida era narrada num romance de dois folhetos. A história de João Malasarte acontecia nas três Províncias que formam "o coração do Brasil", a Paraíba, o Rio Grande do Norte e Pernambuco, acontecendo os casos no Cariri, no Piancó, no Pajeú e no Seridó. As aventuras do Pajeú, passavam-se exatamente em Serra Talhada, no mesmo local, portanto, onde tinha, realmente, começado o Reinado glorioso e sangrento da minha Casa. Mas a parte mais engraçada era a do Seridó, no Rio Grande do Norte, quando João Malasarte encontrava, na estrada, um Português leso e o enrolava da seguinte maneira: "Chegou no Seridó, liso: não tendo de que viver, arranjou umas pimentas e foi p'ra Feira vender. Porém, no caminho, fez um Português se morder.
João achou o Português com um Jumento acuado, carregado de panelas, lá no caminho, parado, com o Português dando nele, porém o burro emperrado.
João lhe disse: - Camarada, eu tenho um remédio aqui! Deu-lhe as pimentas, dizendo: - Como este, eu nunca vi! Esfregue no fundo dele que ele sai logo daí! o besta passou as bichas no lugar que João mandou: o jumento deu um coice que a cangalha revirou! As panelas se quebraram o o burro desembestou! João disse pr'o Português: - Seu jumento já correu! Com o remédio no f loto, ele desapareceu! o você só pega ele se passar também no seu! o pobre do Português, para pegar o jumento, passou a pimenta ardosa no lugar de sair vento.
João gritou: - Ou cabra besta! Desgraçaste o fedorento! Quando o Português sentiu o ardor no f io f ó, puxou a Faca da cinta o João gritou: - Fique só! Dessa carreira que deu, foi parar em Mossoró!" Aí, andando ao léu pela estrada, João vai bater numa Fazenda, onde pede ao dono que lhe arranje emprego pela comida, pela roupa e um pequeno salário. 0 Fazendeiro emprega-o, João trabalha uma porção de tempo, com grande eficiência, até ganhar a confiança do patrão. Aí arma outro laço que o folheto contava assim: "E João ficou manobrando aquela propriedade. Passou dois anos quieto, sem usar perversidade, conquistando, do Patrão, confiança e intimidade.
Porém Satanás, um dia, manifestou-se em João e ele armou uma Cilada para a filha do Patrão. Ela, por ser inocente, caiu no laço do Cão!
João lhe disse: - Madalena, seu Pai, por ser meu amigo, mandou dizer que você dormisse um sono comigo! Ela foi, porque pensou: - Pai mandou, não há perigo!
Ainda estavam deitados quando o Pai dela chegou. A Moça gritou, do quarto: - Com João aqui eu estou, cumprindo com meu dever, como Papai ordenou!
O velho conheceu logo que havia uma traição: deu um pontapé na porta que a porta rolou no chão! João desabou, de cueca, o a Moça, de camisão!
O Velho pegou João o deu-lhe um soco, direto! João ficou tonto e caiu, mas disse: - Seu Anacleto, não me mate, que se atola! Tenho que criar seu neto! A Velha disse: - Meu Velho, é mesmo! Não mate João, senão nossa filha fica perdida e sem cotação! João falou: - E eu só me caso porque comi do Pirão!" Eu ria com essas astúcias, praticadas nos caminhos empoeirados do Sertão, e me lembrava também, orgulhoso, de que, na Pedra do Reino, a parte das degolações e da batalha era um
romance cangaceiro e cavalariano. Mas a primeira, começo de tudo, fora uma "quengada" de meu tio-bisavô, o primeiro Rei, João Antônio, que armara um laço tão genial quanto os de João Malasarte, tendo, como material, somente duas pedrinhas e um folheto com a profecia sobre El-Rei Dom Sebastião, e erguendo, sobre alicerces tão pobres, todas aquelas grandezas e monarquias.
Assim, aos poucos, ia se formando no meu sangue o projeto de eu mesmo erguer, de novo, poeticamente, meu Castelo pedregoso o amuralhado. Tirando daqui e dali, juntando o que acontecera com o que ia sonhando, :terminaria com um Castelo afortalezado, de pedra, com as duas torres centradas no coração do meu Império. Este, espinhoso e meio adesertado, era integrado astrologicamente por sete Reinos: o dos Cariris Velhos, o da Espinhara, o do Seridó, o do Pajeú, o de Canudos, o dos Cariris Novos e o do Sertão do Ipanema. Era o Quinto Império, profetizado por tantos Profetas brasileiros e sertanejos e cortado por sete Rios sagrados: o São Francisco-Moxotó, o Vaza-Barris, o Ipanema, o Pajeú, o TaperoáParaíba, o Piancó-Piranhas e o Jaguaribe. Ali eu reergueria, sem perigo de vida, as Torres de lajedo do meu Castelo, para que ele me servisse de trono, de pedra-de-ara, de ninho de gaviões, onde eu pudesse respirar os ares das grandes alturas. Seria um Reino literário, poderoso e sertanejo, um Marco, uma Obra cheia de estradas empoeiradas, catingas e tabuleiros espinhosos, serras e serrotes pedreguentos, cruzada por Vaqueiros e Cangaceiros, que disputavam belas mulheres, montados a cavalo e vestidos de armaduras de couro. Um Reino varrido a cada instante pelo sopro sangrento do infortúnio, dos amores desventurados, poéticos e sensuais, e, ao mesmo tempo, pelo riso violento e desembandeirado, pelo pipocar dos rifles estralando guerras, vinditas e emboscadas, ao tropel dos cascos de cavalo, tudo isso batido pelas duas ventanias guerreiras do Sertão: o cariri, vento frio e áspero das noites de serra, e o espinhara, o vento queimoso e abrasador das tardes incendiadas. Nas serras, nas catingas e nas estradas, apareceriam as partes cangaceiras e bandeirosas da história, guardando-se as partes de galhofa e estradeirice para os pátios, cozinhas e veredas, o as partes de amor e safadeza para os quartos e camarinhas do Castelo, que era o Marco central do Reino inteiro.
0 Sonho do Casteló Verdadeiro Era um sonho grandioso, um sonho à altura da estirpe dos Quadernas. No fundo, porém, lá bem longe e bem dentro do meu sangue, reprimido pela covardia, vigiava ainda o desejo de reconquistar o Castelo real, o da Pedra do Reino. Não o de erguer um Castelo poético, como o dos Cantadores; mas o de ir ao Pajeú e retomar, a patas de cavalo, ponta de punhal e tiros de rifle, o Castelo de pedra que era meu e que os Pereiras tinham conquistado. Só assim eu poderia ser, também, Rei do Sertão, como Jesuíno Brilhante e meu bisavô. Só assim eu seria, de fato, o Cavaleiro que, encarnando o Brasil, seria estimado e honrado pelos amigos, temido pelos inimigos e amado pelas mulheres, belas Princesas parecidas com Rosa, a da "Onça Malhada", e com Marina, a do folheto. Gozaria de todas a meu prazer, tendo as primícias das donzelas e podendo até degolá-las, caso isso me desse na veneta, como tinha dado na do meu bisavô, "o Execrável".
Ora, em 1930, meu tio e Padrinho, Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto, tomara parte na "Guerra de Princesa", ao lado de Dom José Pereira Lima, contra o Governo e a Polícia do Presidente João Pessoa. Quando Dom José Pereira, nessa guerra, proclamou a independência da Vila da Princesa Isabel, outorgando-lhe Constituição, hino e bandeira, fiz dele, secretamente, Rei da Espinhara, fazendo da Vila de Princesa a capital desse Reino. 0 nome de Vila Real da Princesa Isabel só podia ser resultado de um desígnio da Providência: algum lambe-cu e cheira-peito dos Braganças tinha querido colocar esse nome em nossa muito nobre e leal Vila para bajular a falsa Princesa Isabel, a da Casa de Bragança, a filha do Impostor Dom Pedro II. Agora, porém, ficava claro que a Princesa Isabel que dava nome à Capital do meu Reino da Espinhara era a verdadeira, a da Casa dos Quadernas, minha bisavó. Só não comuniquei tudo isso a Dom José Pereira Lima porque ele, julgando-me um simples agregado e parente pobre de meu Padrinho, estranharia um pouco minhas grandezas. Foi, portanto, em segredo que o sagrei como Rei da Espinhara. E como, apesar de todos os esforços, o Governo não conseguiu derrotá-lo, dei-lhe o tratamento de Dom José I, o Invencível, assim como já tinha ungido meu Padrinho Dom Pedro Sebastião como Rei do Cariri, o que, depois de sua morte, lhe valeu passar à Crônica sertaneja com o nome de Dom Pedro Sebastião, o Degolado.
Como se recorda, o Condestável do Reino de Princesa, em 1930, era Luís Pereira de Sousa, ou Luís do Triângulo, o mesmo que comandava, incógnito, as tropas do rapaz do cavalo branco. Eu, recadeiro e homem de confiança de meu Padrinho, fui várias vezes a Princesa, em 1930, acompanhado por meu irmão bastardo, Malaquias Nicolau Pavão-Quaderna, em missões e embaixadas secretas de Dom Pedro Sebastião para Dom José Pereira. Ninguém pode, assim, imaginar o sobressalto que experimentei, na primeira dessas viagens, quando conheci Luís do Triângulo, em Princesa, e soube que ele, sendo descendente do Comandante Manuel Pereira e do Barão do Pajeú, era o dono atual das terras onde ficavam as torres de pedra do nosso Castelo, sagrado, soterrado e encantado. Só podia ter sido outro desígnio da Providência que, exatamente a Serra do Reino, tivesse ido cair na mão daquele homem, de família inimiga, mas, atualmente, amigo e aliado nosso.
Resolvi imediatamente ir à Serra, para conhecer meu Castelo. 0 tempo não era propício, porque, em 1930, eu estava em missão de guerras e cavalarias, e as estradas, cortadas de Soldados e eriçadas de piquetes, eram perigosíssimas para nós, soldados extraviados daquela aventura guerrilheira. Apesar disso, porém, deliberadamente procurei cativar, e terminei amigo de Luís do Triângulo, que prometeu convidar-me depois, se ambos escapássemos com vida. Eu me calara a respeito da Pedra do Reino: apesar de meu amigo, Luís do Triângulo era um Pereira de pura raça, e bem podia resolver liquidar esta vergôntea da Raça real dos Quadernas.
0 fato é que passou a "Guerra de Princesa". Meu padrinho morreu, degolado por causa dela; mas eu escapei e Luís do Triângulo também. Passaram os anos de 1931, 32 e 33. Entrou 1934, e aproximava-se 1935, ano importantíssimo, porque marcava o início daquilo que inúmeras profecias sertanejas chamavam "0 Século do Reino Encantado", uma vez que o Reinado realmente importante da minha família durara de 1835 a 1838. Então, quando chegávamos ao fim de 1934, escrevi a Luís do Triângulo cobrando a promessa dele e declarando-me disposto a viajar para Serra Talhada em janeiro, caso ele pudesse cumprir o que prometera.
Uns vinte dias depois, recebi a resposta do Condestável de Princesa. Dizia ele que teria grande honra em receber seu amigo e aliado de 1930. Estava perfeitamente lembrado da promessa: que eu viajasse em janeiro, ou quando quisesse, porque ele e os outros Pereiras estavam de braços abertos para me receber. Aconselhavame a seguir a mesma rota das minhas viagens de 1930: Taperoá, Desterro, Teixeira, Imaculada, Água-Branca, Tavares, Princesa. Daí, cruzando a fronteira, entrasse eu em Pernambuco e seguisse, por Flores, até Serra Talhada. Indagava se eu ainda estava lembrado do Chefe atual da família Pereira, Manuel Pereira Lins, mais conhecido como Né da Carnaúba. Comunicava-me que entrara em entendimento com ele, que me receberia., como hóspede, em Serra Talhada. Daí, eu seria finalmente encaminhado para a Vila de Bernardo Vieira, antiga Sítios Novos, onde ele, Luís do Triângulo, estaria me esperando.
Eu me recordava perfeitamente do velho Fidalgo, Dom Manuel Pereira, Senhor da Carnaúba. Como membro do Estado-Maior do Rei Dom José Pereira, tinha sido um dos Doze Pares e um dos Grandes do Reino de Princesa. Era um homem guerreiro e perigoso em tempo de brigas, mas hospitaleiro e manso em tempo de paz. Aliado e parente do Rei da Espinhara, levara um troço dos seus inumeráveis cabras-de-guerra para integrar o invicto Exército de Princesa. Com essas coisas ardendo na cabeça, passei a noite de ano-novo de 1934 na mais tensa expectativa. Iam começar os anos do Século do Reino e eu ia ver, pela primeira vez, a Pedra do Reino. Sem me sentir, ia transformando a carta de Luís do Triângulo numa Crônica-Epopeica, escrita no estilo monárquico que eu aprendera lendo as histórias de Souza Leite. Dizia para mim mesmo: "Partindo da Vila Real da Ribeira do Taperoá, farei dois pousos principais. 0 primeiro, ainda dentro do meu Reino do Cariri, na Vila Real da Serra do Teixeira. 0 segundo, na Vila Real da Princesa Isabel, Capital do meu Reino da Espinhara. Daí, cruzando a fronteira, entrarei no meu Reino do Pajeú, e entrarei triunfalmente a cavalo, como todo Cavaleiro que se preza, na Capital dele, minha muito nobre e leal Vila Bela da Serra Talhada!" Passei então um telegrama a Luís do Triângulo, avisando-o de que partia, e comecei os preparativos da viagem. Resolvera levar comigo meu irmão predileto, Malaquias, e um amigo, o fidalgo Euclydes Villar, intelectual e Poeta famoso da nossa Vila, homem que além de Mestre em charadas e logogrifos, era fotógrafo respeitado, instalado com oficina, primeiro em Taperoá, terra sua, depois na antiga Vila Nova da Rainha de Campina Grande.
A presença de Malaquias era-me indispensável porque ele, ao contrário do que acontece comigo, é corajoso, bom Cavaleiro, bom atirador e bom caçador. Os Quadernas são altos, mas Malaquias é o mais alto, robusto e bem-proporcionado de todos. Creio que, em todo o Cariri, só havia dois homens capazes de derrotar Malaquias numa luta corpo a corpo. 0 primeiro, era Marino Quelê Pimenta, pela descomunal força, física. 0 outro, era meu primo Arésio Garcia-Barretto, filho mais velho de meu Padrinho: não porque fosse muito mais forte, mas porque, na luta, Malaquias combateria pela alegria do combate, enquanto que Arésio, moreno e cerrado, depois de receber os primeiros golpes, não poderia impedir que irrompesse de dentro dele aquela violência obscura e cega que morava nos recessos de seu sangue e que foi a causa de tantos infortúnios para nós e para ele mesmo. Meu irmão Malaquias, porém, era um desses homens que, sem esforço nenhum, atraem risonhamente as mulheres, coisa que sempre me causou a maior inveja. Muitas vezes eu passara pela decepção de levar meses e meses fazendo prodígios de habilidade para atrair a atenção de uma mulher, isto para ver Malaquias, de volta de uma das suas viagens de cambiteiro, conseguir, sem levantar um dedo e no mesmo instante, aquilo que eu tentara em vão, a força de mérito e por tanto tempo. Restava-me somente o consolo de ser o Chefe e irmão predileto do próprio Malaquias e dos outros bastardos, que não se davam bem com meus irmãos legítimos, Manuel, Francisco, Antônio e Alfredo.
Assim, a ida de Malaquias destinava-sé a fazer brilhar a família Quaderna diante dos aguerridos e façanhosos Pereiras. Em Serra Talhada, das charadas, das conversas de guerra's e caçadas, da Astrologia e de tudo o mais que se liga à Literatura, poderia eu me encarregar, como Poeta, ex-seminarista e Acadêmico que sou. Mas se fosse para lá sozinho, seria derrotado infalivelmente pelos Pereiras, na parte dos heroísmos e cavalarias.
Quanto a Euclydes Villar, eu jurara secretamente que, chegando ao Pajeú, acharia um meio de fazer com que os próprios Pereiras me levassem à Pedra do Reino. Seria uma vitória que eles conduzissem para lá aquele que, tomado como simples Escrivão, ex-seminarista e Bibliotecário, era, de fato, o Rei do Quinto Império, Dom Pedro Dinis Quaderna, o Astrólogo, ou Dom Pedro IV, o Decifrador, como sou mais conhecido. Euclydes Villar era quem se encarregaria de documentar isso, fotografando os lances principais da viagem. Eu teria o cuidado de me fazer retratar junto das pedras, com as torres absolutamente iguais, reluzindo gloriosamente ao sol o chuvisco prateado que as recobria e que formavam, no meu sonho, o Castelo de pedra e prata do meu sangue.