O Corregedor assumiu um ar esperto, astuto, desconfiado, e disse: - Ela não pode ter visto o fazendeiro fechar as duas portas, porque, depois de fechada a de baixo, não se pode mais ver a de cima! - Tem razão, Senhor Corregedor, e eu ia, já, esclarecer esse fato! Realmente, naquele dia, quando sentimos falta de meu Padrinho e começamos a procurá-lo, topamos com a porta de baixo trancada por dentro. Mas mandamos chamar um machadeiro que arrombou a porta, e foi quando subimos a escada que vimos a segunda porta, também trancada por dentro. Foi só depois de arrombar essa segunda porta que encontramos o corpo.
- Quem foi que primeiro sentiu falta de Dom Pedro Sebastião? - perguntou o Corregedor, revelando, pelo tratamento de Dom, que ele usara, já, sem se aperceber, como essas histórias de Fidalguia e monarquismo da Esquerda são contagiosas. Mas fingi não notar nada e respondi: - Quem primeiro sentiu falta de Dom Pedro Sebastião foi Arésio. Mas, antes mesmo que ele desse o alarme, minha tia, Dona Filipa Quaderna, também começou a sentir falta e nos disse! - Além do senhor e de Arésio, quem mais entrou no aposento da torre? - Está lá, também, no processo, Doutor: quem encontrou o corpo fomos eu, Arésio, Tia Filipa, o Doutor Samuel e o Professor Clemente.
- Vá anotando, Dona Margarida, tudo isso é muito importante! O senhor diz que, com as portas trancadas, o mirante era praticamente inacessível. Mas os assassinos poderiam tê-lo matado pelas seteiras, atirando de longe, através delas! - Meu Padrinho foi morto a faca, Senhor Corregedor! - Imaginemos, então, que, por fora, encostando escadas às paredes da torre da capela, tenham subido dois, três ou quatro assassinos. Nesse caso, pelas seteiras, pegando o velho fazendeiro descuidado e por todos os lados da torre de uma vez, podem tê-lo matado com chuços ou com facas de ponta amarradas fortemente a varas compridas! - Não pode ser não, Senhor Corregedor! Não havia escada nenhuma, fora! - Pode ter subido alguém pela corda do sino! - Na "Onça Malhada" fazia muitos anos que não havia missa. A corda do sino tinha caído, de velha e esfiapada, e nunca mais tinha sido substituída! - Bem, então podem ter levado as escadas, retirando-as depois! 308 - Também não pode ter sido não, Excelência! Havia vários homens trabalhando nas imediações da casa, eles teriam visto colocar as escadas! Além disso, por trás, a "Casa da Onça Malhada" é toda murada, porque fica quase a pique sobre um despenhadeiro, formado ali pelo enorme lajedo sobre o qual ela é edificada. Assim, a única parede"na qual os assassinos poderiam ter encostado uma escada era a que dá frente para o pátio pedrado e lajeado da fazenda, de modo que teria sido impossível trazer a escada e encostá-la sem que os homens vissem. Não se esqueça, também, de que mesmo esse pátio é murado, pois a torre, a capela e as duas moradias da "Casa-Forte" são afortalezadas e a torre foi construída exatamente de modo a permitir que os Garcia-Barrettos atirassem nos Arqueiros tapuias do modo mais seguro possível! Finalmente o senhor se lembre de que, em 1930, com a "Guerra de Princesa", a "Onça Malhada" estava fervilhando de gente armada, com centenas e centenas de cabras-do-rifle e cabras-do-eito armados e preparados para o que desse e viesse! - Então, foi suicídio! - A natureza dos ferimentos afastava essa possibilidade, Senhor Corregedor: naquele lugar inacessível, meu tio, cunhado e Padrinho, Dom Pedro Sebastião, foi encontrado, ainda quente e sangrando, poucos momentos depois de ter sido assassinado. Tinha levado várias cacetadas na cabeça, estava degolado, com a garganta cortada, e terrivelmente esfaqueado em todo o corpo, sendo que o ferimento que golfava mais sangue era naturalmente o da garganta. No entanto, ele estava só, e não havia, na torre, nenhum rastro, nenhum sinal dos assassinos! - Nenhum sinal? Nem um botão de camisa? Nem um fio de cabelo? O fato foi verificado? Não havia nenhum indício? - O fato foi verificado no processo, Excelência: não havia indício nenhum! Eu não já lhe disse que isto aqui é um enigma sério, um enigma de gênio, um enigma brasileiro, sertanejo e epopéico? Ora indício! Com indício, é canja, qualquer decifrador estrangeiro decifra! No caso, não havia nada: nem vela dobrada, nem disco mortífero, nem botões de camisa, nem abotoaduras de ouro, nem fios de cabelo, nem alfinete novo, nem nada dessas outras coisas que costumam fornecer pistas aos decifradores dos ridículos enigmas estrangeiros! Para o meu enigma, portanto, só um Decifrador brasileiro e de gênio! Agora, havia era um pormenor estranho, que reforça nossa convicção de que a morte de meu Padrinho só pode ter sido praticada dentro da própria torre, gastando-se no crime um tempo tal que pessoas trepadas em escadas o usando chuços através das seteiras não podem tê-lo executado de jeito nenhum: é que, na espádua esquerda de Dom Pedro Sebastião, tinham ferrado, a fogo, um ferro desconhecido e que não é nenhum dos ferros familiares de ferrar boi do Sertão da Paraíba! Eu sei, porque no nosso "Instituto Genealógico e Histórico do Sertão do Cariri" temos um arquivo e registro desses ferros, arquivo que eu organizei por sugestão do Doutor Pedro Gouveia! - Você ainda se lembra como era o ferro? - Me lembro como se fosse hoje, Excelência! Era uma espécie de lua, ou melhor, para ser mais fiel à nobre Arte da Heráldica, um crescente, com as pontas viradas para cima e encimado por uma cruz.
- A marca do ferro na espádua de seu Padrinho era recente? - A queimadura era recentíssima! Quando a gente entrou na torre, sentia-se ainda a catinga meio fumaçada e polvorenta de carne de bicho ferrada! ferro? elevado Nenhum, Excelência! Eu não já expliquei que no aposento da torre da capela não havia nada, a não ser o sino? - Eu digo é no mato, pelas imediações. Procuraram? - Procuramos, sim senhor! Não havia sinal de fogo nenhum, por perto da "Casa-Forte da Onça Malhada"! - Então, foi que trouxeram de longe o ferro quente! Como é que puderam conservá-lo em brasa tanto tempo, durante o caminho? - E quem sabe, Excelência? O Corregedor olhou-me durante alguns momentos, de modo fixo e com ar descontente. Depois, negaceou: - A que motivo o senhor atribui a morte de seu tio e padrinho? - Não atribuo a motivo nenhum, Senhor Corregedor, porque não tenho a menor idéia sobre isso! - Ele era muito rico, não? - Demais! Era o homem mais rico, mais fidalgo e mais poderoso do Sertão! Aliás, no caso, isso seria obrigatório: de outro modo, eu não poderia tê-lo escolhido como personagem central e Rei decaído da minha Epopéia, pois não se poderia chamar a "perfídia terrível" em que ele foi trucidado de "queda do trono, da Coroa e da monarquia do Sertão do Cariri"! - Bem, então, se ele era rico assim, o motivo do crime pode ter sido roubo.
- Mas não foi não, aí é que está! Como depois nós verificamos, não tinha havido roubo nenhum! A única falta que se notou em toda a "Casa da Onça Malhada" foi a de três objetos, aliás sem grande importância e que podem, até, ter desaparecido antes daquele dia sem que ninguém tivesse se apercebido. Eram um anel que meu Padrinho usava às vezes, uma bengala encastoada de ouro e um tinteiro de bronze.
- É verdade que Arésio, o filho mais velho, viajou repentinamente, abandonando a casa logo no dia seguinte ao do enterro de Dom Pedro Sebastião? - É verdade, o que, aliás, foi uma sorte para ele, porque do contrário poderia ter morrido no incêndio que uma mão desconhecida ateou à casa-forte na noite daquele mesmo dia 24 de Agosto de 1930.
- E o filho mais moço, Sinésio? - Aí é que está o nó, Excelência, ou melhor, aí é que está a parte mais astrológica e zodiacal do nó! Naquele dia, quando nós descemos daquela torre astrosa e fatídica, nova e terrível surpresa nos aguardava, embaixo: Sinésio, o filho mais moço, mancebo que andava então pelos vinte anos, tinha desaparecido. Parecia que "a terra se abrira e ele fora sepultado em suas entranhas"! - Senhor Quaderna, tenho observado que o senhor, de vez em quando, dá para falar difícil, o que perturba um pouco a clareza do depoimento! - É uma questão de estilo, Senhor Corregedor, uma questão epopéica! Quando eu tirar as certidões, quero encontrar o estilo da minha Obra pelo menos já encaminhado! Além disso, Samuel; segundo Clemente, adota "o estilo rapão-ranhoso de cristais e joiarias hermético-esmeráldicas da Direita". Já Clemente, segundo Samuel, adota "o estilo raso-circundante, raposo e afoscado da Esquerda". Eu fundi os dois, criando "o estilo genial, ou régio, o estilo raposo-esmeráldico e real-hermético dos Monarquistas da Esquerda". Agora, porém, quando eu afirmei que a terra se abriu e meu primo e sobrinho Sinésio foi sepultado em suas entranhas, não estava falando assim somente por uma questão de -estilo não. Usei a expressão, primeiro porque é a usada em todos os "contos" do Almanaque Charadístico, de onde a copiei. Depois, porque, no caso, ela se aplica perfeitamente à estranha Desaventura de Sinésio, o Alumioso, e à Demanda Novelosa do Reino do Sertão! - Explique-se melhor, porque o caso, aqui, não é de estilo não, é de inquérito! Como foi que o rapaz desapareceu? - Bem, Senhor Corregedor, como era de esperar, as versões que apareceram foram as mais contraditórias! As circunstâncias enigmáticas da morte de Dom Pedro Sebastião e o sumiço misterioso e inexplicável de Sinésio, impressionaram fatidicamente "a imaginação dos bárbaros e fanáticos sertanejos do Cariri", como costuma dizer Samuel. Dom Pedro Sebastião, aliado aos Dantas, da Serra do Teixeira, e ao Coronel José Pereira Lima, Senhor da Vila da Princesa Isabel - centro principal da "Guerra de Princesa" - era uma das principais colunas sertanejas da rebelião E não havia nenhum sinal do fogo onde esquentaram ocontra o Presidente João Pessoa! Começaram, então, imediatamente, a correr boatos que atribuíam a morte do velho Rei e a desaparição de seu filho, Dom Sinésio, o Alumioso, a motivos políticos.
- Eu sei, e esse é um dos motivos pelos quais resolvi estudar, pessoalmente, esse caso! Tive a honra de ser correligionário e servidor do inolvidável Presidente João Pessoa, de modo que o senhor e seus companheiros podem ficar certos de que vou apurar, bem apurada, toda essa história! Ao dizer isso, o Corregedor cerrou de repente os maxilares, como um porco-do-mato, e tomou, sem querer, uma expressão de ferocidade que me demonstrou logo que, ou eu ia com cautela, ou estava desgraçado para o resto da vida. Então falei, temeroso e solícito: - Estou pronto a ajudar o senhor do jeito que possa! Mas como eu ia dizendo: quanto a Sinésio, os boatos surgidos eram ainda mais fantásticos e desencontrados. Segundo a versão mais divulgada, enquanto, na torre, os assassinos degolavam o velho Rei do Cariri, Sinésio, que estava embaixo, adormecido em sua cama, fora raptado por um grupo de Ciganos sertanejos. Segundo os boatos, os Ciganos - que estavam, também, a serviço dos seguidores mais fanáticos do Presidente João Pessoa - tinham ministrado ao Prinspo Alumioso adormecido o chá de uma tal de "erva-moura", que deixa o sujeito como que sonhando acordado! - Senhor Quaderna, consta-me que o senhor, além de várias outras habilidades, é um grande entendido em raízes sertanejas. É verdade isso? - indagou lentamente o Corregedor, com uma expressão que me deixou frio.
- É, sim senhor! Mas, até hoje, só empreguei essa minha habilidade para o bem, juro por tudo quanto é sagrado! O que eu sei de raízes é o que aprendi no Lunário Perpétuo e nas coleções do Almanaque do Cariri que meu Pai publicava.
- Quer dizer que as habilidades de charadista, Astrólogo e raizeiro do senhor são heranças de família? - São sim senhor, eu já puxei a meu Pai! Foi dele, aliás, que eu puxei também minhas qualidades poéticas, se bem que, modéstia à parte e não faltando com o respeito filial, como Poeta eu seja mais completo do que ele foi. Como o senhor deve saber, existem seis qualidades de Poeta e a maioria deles ou pertence a uma qualidade ou a outra. Os melhores, pertencem a duas categorias ao mesmo tempo. Mas somente os maiores de todos, os grandes, os "raros do Povo", pertencem, ao mesmo tempo, às seis categorias! Meu Pai, que Deus guarde, era Poeta de sangue e de ciência. Mas eu, modéstia à parte, sou dos poucos, dos raros, dos grandes, porque sou, ao mesmo tempo, poeta de cavalgação e rei312 naço, Poeta de sangue, Poeta de ciência, Poeta de pacto, de estradas e encruzilhadas, Poeta de memória e Poeta de planeta! Mesmo porém tendo sido mais completo do que ele, grande foi a influência que recebi das qualidades de Poeta, historiador, Astrólogo e genealogista Sertanejo de meu Pai! - Quer dizer, então, que, como leitor do Lunário e do Almanaque, o senhor já conhecia a tal "erva-moura" que deram a Sinésio! - Excelência, eu não sei, com certeza, se deram a ele ou não deram o chá de erva-moura! As versões sobre o desaparecimento de Sinésio eram, como eu disse, as mais desencontradas possíveis! Num ponto, porém, todos os partidários dele concordavam: diziam que, depois de raptado, Sinésio fora levado para a Cidade da Paraíba, capital do nosso Estado, e encarcerado debaixo da terra, num subterrâneo cavado durante a "Guerra Holandesa" e que liga a Igreja de São Francisco à Fortaleza de Santa Catarina, situada em Cabedelo, a umas três ou quatro léguas de distância da Igreja! - Esse subterrâneo não existe, Senhor Quaderna! Isso é patranha! Aqui no Nordeste, em todo lugar por onde os Holandeses passaram, no século XVII, o Povo inventa que existe um subterrâneo cavado por eles! São imaginações descabidas da ralé ignorante da Paraíba! - Pode ser, Excelência, não sou eu que sustento essa história não: estou contando o que me disseram e vendendo a história ao senhor pela preço que me venderam! Aliás, esta opinião do senhor era, também, a dos adversários de Sinésio. Mas, segundo os partidários de Dom Pedro Sebastião e Sinésio, o Presidente João Pessoa, primeiro, e, depois de seu assassinato, os seus seguidores mais fanáticos - como o Interventor Antenor Navarro, por exemplo - sabiam que o Prinspo Alumioso era uma vítima e refém precioso perante os Sertanejos rebelados da gloriosa "Guerra de Princesa". Por isso, queriam conservá-lo prisioneiro, como elemento de intimidação e trunfo para a derrota dos partidários dele! Mas as pessoas que, aqui na Vila e no resto do Sertão, eram contrárias a Sinésio, isto é, os partidários do usineiro e dono de minas Antônio Noronha de Britto Moraes, esses diziam que Sinésio estava morto e bem morto, sepultado não no subterrâneo, mas sim debaixo dos clássicos e comuns sete palmos de terra que cobrem todo mundo! Como Vossa Excelência pode ver agora, em qualquer dos casos a expressão do Almanaque Charadístico se aplica perfeitamente, porque, seja no chão ou no subterrâneo, o fato é que a terra se abriu e Sinésio foi soterrado - ficou ali, soterranho, sepultado em suas entranhas! - Senhor Quaderna, tenho que fazer, agora, uma observação contrária à de ainda há pouco! Eu disse que às vezes o senhor dava para falar difícil: agora,. devo observar que, para um Epopeieta, o senhor de vez em quando dá para falar errado! Agora mesmo, o senhor disse "soterranho", em vez de "subterrâneo", e disse, também, duas vezes, "Prinspo" em vez de "Príncipe"! - Não é erro não, Excelência, é o Português pardo, leopardo, garranchento e pedregoso da Catinga, como diz o genial Gustavo Barroso! Quando falo de Dom Sinésio, o Alumioso, eu prefiro dizer "Prinspo" porque é assim que escrevia o genial E. P. Almeida, guerrilheiro do "Império do Belo Monte de Canudos", na carta que foi encontrada em seu bornal de balas, em 1897! - Está bem, mas vá adiante! - disse o Doutor Joaquim Cabeça-de-Porco com ar enfastiado, enquanto, na carreira e de acordo com suas determinações, Margarida ora se detinha ora copiava tudo, ao teleco-teco da velha máquina de escrever.
Eu continuei: - Essa dúvida sobre a "vida, paixão e morte" do Alumioso, acarretava sérios problemas no tocante à herança e ao testamento do Pai dele. Naturalmente a pessoa mais afetada por isso era seu irmão Arésio, impedido de entrar na posse integral e efetiva da "Casa-Forte da Torre da Onça Malhada". Não poderia fazê-lo enquanto Sinésio não fosse declarado morto ou ausente - expressão esquisita para os leigos mas que faz parte das coisas da Justiça e que, portanto, Vossa Excelência, como Corregedor, conhece melhor do que eu - simples Poeta-Escrivão como Pero Vaz de Caminha! E aí, entre os anos de 1930 e 1935, as notícias sobre Sinésio, o Ausente, apareciam e desapareciam, cada vez mais fantásticas, incertas e enigmáticas, e sempre ligadas às Revoluções ou tentativas de insurreição acontecidas no Brasil durante esse período. Relacionadas, principalmente, com as rebeliões e vinditas sertanejas! Como Vossa Excelência deve se lembrar, essas datas revolucionárias são: em 1930, a "Revolução Liberal"; em 1931, os primeiros tiroteios e greles comunistas que tiveram o Recife como centro; em 1932, a "Revolução Constitucionalista" de São Paulo e, aqui no Sertão, a mal estudada mas importante "Guerra do Verde e do Vermelho"; e, finalmente, em 1935, a "Revolução Comunista" cujos centros principais foram o Rio, o Recife e o Rio Grande do Norte, mas cujo episódio mais importante para a minha história, foi a "coluna sertaneja" que, partindo de Natal foi derrotada pelos Sertanejos, na Serra do Doutor, no Sertão do Seridó e que teve papel preponderante no desfecho da história de Arésio e Sinésio Garcia-Barretto.
Ora, Senhor Corregedor, desde quando o velho Rei, Dom Pedro Sebastião, era vivo - e mais ainda depois de sua morte - os moradores da nossa Vila tinham se separado, formando dois partidos em torno dos filhos dele! Uns tomavam o partido de Arésio, filho do primeiro casamento de meu Padrinho com Dona Maria da Purificação Pereira Monteiro. Os outros, tomavam o de Sinésio, filho de minha irmã, Joana Garcia-Barretto Ferreira Quaderna. Na verdade, havia ainda um outro filho, Silvestre, nascido entre Arésio e Sinésio e no intervalo dos dois casamentos de meu tio e Padrinho. Mas o partido deste segundo filho ninguém pensava em tomar! Primeiro, porque ele próprio era partidário de Sinésio. Depois, pprque ele era bastardo e pobre. E, finalmente, porque, depois da morte de Dom Pedro Sebastião, todo mundo, de repente, passou a considerá-lo como meio idiota! - E verdade que, entre os filhos, Dom Pedro Sebastião tinha preferência especial por Sinésio? - E, sim senhor! Arésío nunca se dera muito bem com o Pai, porque ambos tinham gênio violento e estranho e, ao mesmo tempo, eram muito diferentes na maneira de exercer essa violência! Creio, aliás, que essa hostilidade existente entre Dom Pedro Sebastião e seu filho mais velho, Arésio, foi o motivo que levou o juiz da nossa Comarca a tomar, logo depois da morte do velho Rei e Capitão-Mor do Sertão do Cariri, uma decisão que a muitos pareceu estranha: a de nomear como ínventariante dos bens do Rei Degolado, não seu filho mais velho Arésio, como seria natural, e sim o maior inimigo e adversário político de meu Padrinho, Antônio Noronha de Britto Moraes. Acresce que, com a desaparição de Sinésio, o problema da sucessão do nosso Rei do Cariri se complicara. Diziam que, de acordo com a Lei brasileira, teria que decorrer o prazo de dois anos para que, legalmente, o rapaz desaparecido fosse declarado ausente. Está certo isso, Doutor? - Está, uma vez que ele não deixou, na Vila, procurador legalmente habilitado! - Era exatamente isso o que diziam os partidários de Arésio, entre os quais figurava naquele tempo, em primeiro plano e por ter sido contratado profissionalmente, o Advogado que Vossa Excelência já conhece, o Bacharel Clemente Hará de Ravasco Anvérsio, criminalista, mestre-escola e Filósofo de altos méritos. Já os partidários de Sinésio, soprados pelo Promotor e curador de ausentes,
Os Três Irmãos Sertanejos o Poeta Samuel Wan d'Ernes, lembravam que a Lei fazia, ainda, outra exigência para que, no prazo de dois anos, o ausente fosse dado como legalmente desaparecido: a de que não houvesse notícias dele durante esse tempo. Está certo isso, também, Senhor Corregedor? - Está, é isso mesmo! - "Ora, notícias dele é o que não falta!", diziam os mais exaltados Sertanejos do partido do filho mais moço. "Sinésio está preso, escondido pelo Governo e pela Polícia-Secreta deles, no subterrâneo que os Holandeses construíram da Igreja de São Francisco até o Forte de Cabedelo!" -E pode-se, lá, chamar esse boato ridículo de notícia?', retrucavam, indignados, os partidários de Arésio. `Quem é que garante a existência desse subterrâneo? Quem foi que, algum dia, já entrou nele? Ninguém! Esse subterrâneo não passa de uma invenção do Povo ignorante dessa terra infeliz que é a Paraíba!- Os partidários de Arésio tinham razão nesse ponto, como já expliquei! - falou o Corregedor.
- Sim, Excelência, mas, apesar da lógica dessa objeção, os partidários de Sinésio continuavam a acreditar no subterrâneo e a sonhar com o dia em que o jovem Prinspo Alumioso conseguiria vencer seus inimigos cruéis e desconhecidos, voltando à sua terra, para como se esperava dele desde menino - causar a perda dos poderosos e fazer a felicidade de todos os pobres, desgraçados, infelizes e deserdados da sorte no Sertão do Cariri! - Como Vossa Excelência pode ver por aí, os partidários de Arésio eram os mais razoáveis e esclarecidos! - disse eu, para lisonjear o Corregedor que manifestara aprovação ao ponto de vista deles. - Não admira, aliás, que assim acontecesse, porque eram as pessoas mais ricas e bem-situadas da Vila. É verdade que, a princípio, houvera uma cisão entre essas pessoas, ficando com Arésio os membro da Aristocracia rural, e a Burguesia urbana cerrando fileiras ao lado de Antônio Moraes e do Comendador Basílio Monteiro, que, politicamente, seguia o usineiro pernambucano. Depois, por uma circunstância que logo explicarei, essas duas facções se juntaram, de modo que o elemento mais poderoso do Sertão ficou a favor de Arésio. Já os partidários de Sinésio, eram os Almocreves, os cambiteiros, os Ciganos, as lavadeiras, os Vaqueiros, os cabras-do-eito, as Mulheres-Damas, os fazedores de chapéus de palha, os Cavalarianos, os cabras-do-rifle, as Fateiras, os Cantadores, os Cangaceiros ...
- Enfim, eram recrutados entre o Povo, a ralé sertaneja, não é isso? - interrompeu o Corregedor, meio impaciente.
- Vossa Excelência chame como quiser! Eu, fiel aos ensinamentos de Samuel, Clemente, Carlos Dias Fernandes, João Martins de Athayde, Gustavo Barroso e outros Mestres, considero toda essa gente, especialmente os homens que montam a cavalo e as moças que, vencendo a Desgraça e a -Fome, puderam permanecer bonitas, como Fidalgos e Princesas do Povo Brasileiro! O senhor note que, enquanto no resto do Brasil, prostituta é rapariga, aqui, no Sertão, é Mulher-Dama, o que enobrece demais essa gente, fazendo com que elas pareçam Damas de paus, copas, ouro e espada! Outra coisa, Excelência: dizia-se, ainda, na rua, que, no caso da berança do velho Rei, meu Padrinho, seria necessário que decorresse o prazo mais longo, de quatro anos, para que Arésio tivesse o direito de requerer, na justiça, a abertura da "sucessão provisória". É verdade, isso? - É verdade! - Então, foi talvez por causa dessas discussões e do caráter duvidoso de todo o caso que o Juiz da Comarca, Doutor Manuel Viana Paes, resolveu nomear um curador para os riquíssimos bens deixados por Dom Pedro Sebastião! - Não senhor, foi um ato de rotina processual! O Juiz tinha que fazer a nomeação! - Entendo, Excelência! E ele não teria causado nenhuma estranheza, talvez, se sua escolha não tivesse recaído naquele mesmo inventariante nomeado anteriormente, aquele sombrio, moreno, poderoso e enigmático Antonio Moraes, rico usineiro pernambucano que, tendo resolvido botar uma indústria na Paraíba, precisara dos minérios do Cariri e começara, lá um dia, a comprar terras aqui. Depois, fora tomando gosto pelo lugar, "onde ainda se mantinham o estilo de vida e os modos da sociedade patriarcal". E fora, aos poucos, estendendo suas garras de gavião sobre tudo, entre nós; de modo tal que, ao açambarcar o algodão, o gado e os minérios de toda a nossa zona, espalhara entre nós um terror quase supersticioso, diante de seu poder, da sua fortuna, de sua capacidade de aniquilar os rivais, de espalhar o infortúnio, de esmagar os que se interpunham entre ele e o domínio total do Cariri - este Sertão onde, até 1930, se exercera o poder, também muito grande mas muito diferente, do nosso velho Rei, Dom Pedro Sebastião GarciaBarretto! Levado pelo embalo de Epopeieta, eu tinha dado um "cochilo de Homero" como depoente, e fora mais longe do que desejara, revelando ao Corregedor certas coisas que me convinha calar. Para corrigir meu grave erro, acrescentei imediatamente, para evitar que ele mandasse Margarida copiar: - Foi aí que, exatamente no ano de 1932, uma notícia incendiou o Sertão, como uma pedra-lispe ou pedra-de-corisco que passasse sobre os carrascais empoeirados e pedregosos, queimando a terra sertaneja desde o Cariri até a Espinhara: Sinésio tinha sido finalmente encontrado, morto, na Paraíba! - Em que lugar? No subterrâneo? - Não senhor, mas ali perto, a uns duzentos metros de distância do cruzeiro da Igreja de São Francisco, aquele mesmo Cruzeiro que Carlos Dias Fernandes já vira, um dia, "fincado no meio do Adro e cercado por uma larga peanha de Pelicanos esculpidos em Pedra". Vossa Excelência conhece, por acaso, a "Casa da Pólvora", que fica na descida da Ladeira de São Francisco, na Paraíba, assim pelo lado esquerdo de quem está de frente para a Igreja? - Já ouvi falar, mas não conheço não! Não tenho nenhum interesse por velharias, de modo que nunca me interessei em descer a Ladeira por aquele lado! - Pois quando voltar à Capital, Doutor, não deixe de conhecer! Eu fui lá muitas vezes, quando estudava no Seminário, instalado no velho Convento franciscano pegado à Igreja! A "Casa da Pólvora" é uma velha edificação do século XVIII, construída quando o Reino de Portugal ainda pertencia ao Império do Brasil. Foi feita pelo Governador e Capitão-Mor da Paraíba, João da Maya da Gama, a mando d'El-Rei Dom João V, e concluída em 1710, conforme informação do genial escritor paraibano Irineu Pinto na sua Crônica epopéica Datas e Notas para a História da Paraíba. Ora, Senhor Corregedor, por uma coincidência que não deixou de impressionar violentamente as ardentes imaginações sertanejas, a Casa da Pólvora, do mesmo jeito da torre da "Onça Malhada" onde morrera o Pai, é um pesado edifício de aposento único, com uma só entrada, de tecto abobadado, e iluminado somente por seteiras. É construído "no estilo militar, pesado e austero do século XVIII brasileiro" - como nos explicou logo Samuel, discípulo predileto, para esses assuntos de gosto e Arte, do genial Carlos Dias Fernandes. Al, portanto, nessa "Casa da Pólvora", em condições muito semelhantes às do velho Rei degolado, seu Pai, encadeado à parede por uma grossa e enferrujada corrente que lhe prendia o pé pelo tornozelo, como se fosse um perigo para o mundo ou "um calceta da Existência" - para usar a expressão do genial escritor brasileiro de 1917, Henrique Stepple - foi encontrado, por uns meninos, o cadáver, já desfigurado e apodrecido, daquele verdadeiro Infante Sertanejo, o nosso Dom Sinésio Garcia-Barretto, o Alumioso, ao que parece morto de fome, maustratos, solidão e desespero. Depois de identificado por Arésio, que estava, então, na Capital, foi o corpo convenientemente sepultado,"com todas as honras que acompanham sob a terra os corpos dos Fidalgos, mesmo sertanejos, filhos-segundos, mancebos e infanções", como era o caso do nosso infortunado e alumioso Prinspo.
- Todo mundo esperava, Senhor Corregedor, que, com a notícia da morte de Sinésio, cessassem as controvérsias e discussões o Arésio entrasse em juízo, naquele mesmo ano de 1932, com uma ação que reivindicasse seus direitos. Mas isso não aconteceu. Parecia até que Arésio, contrariando seu gênio violento, se resignara com o infortúnio que se abatera de vez sobre toda a "Casa Real da Onça Malhada". Alguns opinavam que Arésio, não querendo abrir duas frentes de luta - uma com o riquíssimo curador de seus bens, Antônio Moraes, outra com a sombra ausente, mas ainda poderosa, do irmão norto - aguardava, talvez, que chegássemos ao ano de 1934, quando se completaria o prazo dos quatro anos da morte do Pai e do desaparecimento de-Sinésio. Poderia, assim, mais resguardado pela Lei, reivindicar seus direitos, sem entrar em choque frontal com Dom Antônio Moraes.. De fato, como sucede sempre nas quedas das grandes Monarquias sertanejas, a desgraça penetrara de vez na "Casa da Onça Malhada". Dom Pedro Sebastião, tragicamente viúvo pela segunda vez, morrera degolado. Sinésio, primeiro fora raptado, preso e sepultado debaixo da terra, morrendo finalmente dessa maneira terrível e dolorosa que acabo de descrever. Silvestre, o segundo filho, o bastardo, entrou por uma enorme decadência, em comparação com a vida que levara conosco na "Onça Malhada" durante a vida de seu Pai. Passou a errar no abandono, por Vila, ribeiras, estradas e povoados do Sertão do Cariri. Dizia-se que se tornara idiota, mergulhado numa espécie de "estoporamento do juízo", pela sucessão de tragédias que se abatera sobre o Pai e sobre o irmão mais moço, com quem ele fora sempre muito pegado. Contava-se que Silvestre tinha chegado ao extremo de se tornar guia de cego. O cego a quem ele se arrimara como "espoleta" - Pedro Adeodato, Pedro Cego de alcunha - era daqui da Vila. Era um meio-termo de cego, Cantador, beato e Cangaceiro aposentado. Vivia errante e pedinte, de lugar em lugar, vestido com um velho casacão militar, pardo o remendado, que ninguém sabia onde e quando ele obtivera - se bem que alguns de nós desconfiássemos que fossem dados a ele por meu Padrinho de crisma, João Melchíades Ferreira, o Cantador da Borborema. Cantava, esmolava, rezava em altos brados o dizia desaforos a Deus e ao mundo, por tudo quanto era de feira no Sertão. Corriam histórias dos maus-tratos que ele infligia a Silvestre, o qual, apesar disso, era-lhe fiel e dedicado, na idiotice que lhe acabara, de vez, com qualquer resto de dignidade.
- E Arésio? - Senhor Corregedor, entre 1930 e 1934, Arésio entregou-se a uma vida completamente desordenada. Aparecia e desaparecia aqui e ali, sem explicar a ninguém os motivos dessas idas e vindas a Patos, a Campina Grande, à Cidade da Paraíba, à Vila do Martins, ao Pajeú, ao Seridó, a Natal, ao Recife. Dom Antônio Moraes, atendendo a telegramas ou recados seus, enviava-lhe, sem discussão e para onde ele ordenava, as mesadas que o juiz determinara. De modo que Arésio, sendo solteiro, podia perfeitamente Chanter a vida dissipada que escandalizava, aqui, as pessoas de bem da Vila. De vez em quando chegavam até nós os ecos de suas orgias, de seus atos violentos e desabusados, inesperados, inexplicáveis, meio insanos, mesmo. Mas como ele ficava por lá, e aqui só chegavam os ecos, muita coisa de sua vida durante esse tempo ficou obscura, até para aqueles que, como eu, Clemente e Samuel, tínhamos vivido, desde a meninice dele, em estreita ligação com os seus e com a sua Casa. Arésio teria ficado, talvez, um pouco esquecido aqui, se não fosse. sua participação na "Guerra do Verde e do Vermelho", em 1932, e, nos fins de 1934, sua estranha reaparição entre nós.
- Estranha? Estranha por quê? - Estranha porque nesse fim de ano Arésio voltou e, para surpresa e escândalo do Povo, hospedou-se na casa do figadal inimigo de seu Pai, Antônio Moraes. Desprezou a velha casa que os Garcia-Barrettos tinham na Vila e lá ficou morando com os Moraes, no aguardo, talvez, das providências legais para a herança. O pessoal mais pobre, que não gostava dele e era partidário de Sinésio, não deixou de verberar violentamente contra "o procedimento daquele filho desnaturado, daquele condenado, que traía, daquela maneira, o sangue de seu Pai". Já nos meios da Burguesia urbana da Vila, foram muito louvadas "a prudência e compreensão de Arésio que, com aquele gesto, encerrava um desgraçado malentendido que nunca deveria ter separado as duas maiores fortunas do Sertão, os Garcia-Barrettos e os Moraes". Falava-se, mesmo, na rua, que até o problema sério, o problema da herança da "Onça Malhada", seria solucionado entre os Moraes e os GarciaBarrettos, pois, ao que tudo indicava, Arésio ia se casar com Genoveva Moraes, única filha moça do velho inimigo de Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto. Fosse como fosse, e resolvido de vez o problema sério, o da herança, com esse casamento e com a morte-escura do Prinspo Alumioso, foi nesse estado de coisas que entramos no ano de 1935. Chegava, afinal, o momento em que Arésio ia entrar no domínio e posse integrais de sua enorme fortuna - do algodão, das inumeráveis cabeças de Gado cavalar, vacum, ovelhum e cabrum, do dinheiro acumulado durante todos aqueles anos através da exportação de couros e de pedras preciosas, das terras e pastagens imensas da "Onça Malhada", e sobretudo da grande fortuna em ouro, prata e pedras preciosas que Dom Pedro Sebastião deixara.
- É verdade que todo o dinheiro em prata deixado por seu Padrinho ficou sob sua guarda? - É, sim senhor. Mesmo com meu Padrinho vivo, eu era uma espécie de Guarda do Selo e do Tesouro da Onça Malhada, de modo que, quando ele morreu, eu estava com todos os baús atulhados de prata.
- O que foi que o senhor fez desse dinheiro? - Entreguei aq juiz daqui, que mandou colocá-lo sob a guarda de Dom Antônio Moraes.
- E é verdade que Dom Pedro Sebastião ainda tinha escondido uma grande fortuna em ouro, prata e pedras preciosas numa certa furna do Sertão? - É, sim senhor! - É verdade que ele deixou um roteiro, um mapa desse tesouro, com o senhor? - Senhor Corregedor, eu não sei se aquilo pode ser, de fato, chamado de mapa, mas, na verdade, ele deixou comigo um papel que ninguém entendia e que diziam ser o mapa do tesouro.
- Diziam? E o senhor, o que é que diz? O senhor acha que era o mapa? - Acho que não, Excelência.
- Então por que é que se recusava a mostrar esse mapa a qualquer pessoa? Por que não entregou esse papel ao juiz, também? - Primeiro porque nunca considerei que aquilo fosse, mesmo, o mapa. Depois por uma questão de respeito à memória de meu Padrinho. Um dia, meu Padrinho me procurou e me deu aquele papel, dizendo-me que, quando começasse a sentir que a morte estava se aproximando, ele me comunicaria sua decifração, que era muito importante para mim e para Sinésio. Mas, depois de 1926, não sei se o senhor sabe que meu Padrinho ficou meio de miolo mole ...
- Ouvi falar, como ouvi falar que foi o senhor a pessoa que mais contribuiu para isso, com as histórias de coroar seu Padrinho como Imperador do Divino e outras coisas desse tipo.
- Isso é uma injustiça, Senhor Corregedor, é calúnia desse pessoal! Eu já coroava meu Padrinho era a pedido dele, porque desde 1920 e desde a passagem da "Coluna Prestes" que meu Padrinho estava ficando assim, de juízo virado. Pois bem: um dia, vendo que estava chegando o tempo, procurei meu Padrinho para falar com ele sobre o papel. Já naquele tempo começavam a correr boatos sobre o tesouro e uma versão de que o papel seria o roteiro desse tesouro. Procurei meu Padrinho e fiz a ele uma pergunta direta sobre o assunto. Ele, com umas palavras meio esquisitas, confirmou a existência do tesouro mas me disse que tinha escondido tudo tão bem que agora era incapaz de encontrar a fabulosa fortuna que tinha enterrado na furna. Lembrei então a ele o papel que me dera. Ficou muito contente, exaltado, com os olhos fuzilantes. Mas, quando pegou o papel, vi que, ou o papel não tinha sentido nenhum ou então meu Padrinho se esquecera da decifração dele, porque ele foi absolutamente incapaz de encontrar o sentido das palavras enigmáticas que tinha escrito.
- Foi por isso que você não se julgou obrigado a entregar o papel ao juiz? - Foi! - E onde está o papel? - Isso eu conto ao senhor, já, já! Por enquanto, fique anotado aí, nos papéis de Margarida, que corriam notícias de que meu Padrinho tinha deixado um tesouro de prata, ouro e pedras preciosas, uma fortuna incalculável, enterrada e perdida numa furna desse Sertão velho e pedregoso de meu Deus, e que todo o sangue derramado na "Casa da Onça Malhada" se originou disso. E foi quando, exatamente naquele memorável sábado, Véspera de Pentecostes de 1935, sucedeu aquele grande acontecimento sensacional que novamente complicou a história "de sangue e ouro" da herança dos Garcia-Barrettos.
Meus Doze Pares de França - Naquele dia, Senhor Corregedor, a Vila estava cheia de gente que era um despropósito. Nos dias comuns de feira já desemboca, aqui na rua, uma boa multidão de "beiradeiros", saídos Deus sabe donde. Mas aquele era um Sábado todo especial, de modo que a Vila parecia um formigueiro assanhado. Acontece que os Sertanejos tinham ganho, recentemente, uma pendência surgida entre eles e o Prefeito, que transferira as feiras de Taperoá, realizadas desde os tempos do Império, aos Sábados, passando-as para as Quintas-Feiras. O barulho fora grande, mas terminara com a remoção do Prefeito e com a nomeação daqueles dois ínclitos varões a que já me referi, o Prefeito Abdias Campos e o Presidente do Conselho, Alípio da Costa Villar. Estes, mal se viram no Poder, fizeram retornar aos Sábados as nossas feiras, e este era o motivo principal das festividades daquele dia. O Bispo de Cajazeiras tinha sido convidado, porque as novas autoridades queriam brindar o Povo com uma festa "litúrgica" e outra "guerreira", isto é, a Missa do Domingo de Pentecostes, celebrada pelo Bispo, em roupagens suntuosas, e as Cavalhadas, marcadas para a tarde do Sábado, quando o rebuliço da feira começasse a amainar. O Bispo telegrafara que só chegaria no Sábado à noite, de modo que não contaríamos com sua presença na Cavalhada, da qual participariam os melhores Cavaleiros do nosso Cariri. De qualquer modo, naquele Sábado, tinha se juntado aos feireiros habituais e comuns uma sertanejada formigante, saída de tudo quanto era biboca e pé-de-serra, todos atraídos pelas Cavalhadas e dispostos a pernoitar na Vila, a fim de assistir à Missa do amanhecer do dia seguinte, Domingo de Pentecostes.
- Na sua opinião, o Prefeito e o Presidente do Conselho já tinham alguma notícia do fato que veio a acontecer depois, naquela tarde? - Tinham não senhor, e a surpresa deles foi enorme, vendo reaparecerem os destroços daquela história de amores alumiosos, de crimes inexpiáveis, de sc nho e sangue, a história que formará, depois do meu depoimento, o centro-enigmático do meu Romance e Castelo! - A que horas iam se realizar as Cavalhadas? - De duas para as duas e meia da tarde, Excelência. - O senhor esteve presente a elas? - Não senhor! - O senhor não é o Chefe e organizador de todas as festas desse tipo, aqui na Vila? - Sou, Excelência, mas naquele dia, depois de deixar tudo pronto e determinado, eu tinha saído da Vila, por acaso! - Por acaso? As informações que tenho são outras! Para onde o senhor saiu? - De manhã, fui dar um passeio com Clemente e Samuel, para olharmos uns quadros ibéricos de uma Capela descoberta no mato, e uns desenhos tapuias gravados nas pedras do Olho-d'Água da Gruta do Pedro.
- Seus dois amigos e mestres, Samuel e Clemente, almoçaram na rua? - Almoçaram, sim senhor! - E você? - Eu, não! Samuel e Clemente assistiram às Cavalhadas mas o Quaderna, aqui, estava ausente, fora do lugar dos acontecimentos! - E não havia nenhum Quaderna representando o Chefe nas corridas da Cavalhada? Pelo ar envenenado da cara de cobra, vi logo que Sua Excelência estava mais bem informado do que eu julgara a princípio, de modo que julguei de bom alvitre falar a verdade, para mostrar "a tranqüilidade dos inocentes". Disse: - Não senhor, meus doze irmãos bastardos estavam lá, na Praça, representando a família e o Chefe! Mas isso tinha que ser, era indispensável, porque, modéstia à parte, eles são tidos e havidos como os melhores Cavaleiros do Sertão do Cariri! Margarida cochichou de novo com o Corregedor, que me encarou com seus olhos peçonhentos de Cascavel: - Dona Margarida afirma que o senhor tinha quatro irmãos legítimos. Mas diz que os bastardos são mais de vinte, e não doze como o senhor está dizendo! Ah, Senhor Corregedor, se é assim, não posso contar mais nada não! Se é para eu contar a história só com os sonhos do estilo rapão-ranhoso da Direita, ou somente com a exatidão mesquinha do estilo raso da Esquerna, não vai, de jeito nenhum! Eu só sei contar as coisas no meu estilo, o estilo genial ou régio dos Monarquistas da Esquerda! Mas já que interromperam e me cortaram o fio, vá lá essa última explicação! É verdade: meu Pai, qualquer moça-donzela que facilitava as coisas para o lado dele era passada nos peitos, motivo pelo qual foi a primeira pessoa da família, neste século, a sair no jornal! O Correio de Campina publicou um retrato dele, com uma narração sucinta de sua vida amorosa, e deixando documentado para a posteridade que ele era conhecido como "O Pai-d 'Égua do Cariri"! Esse foi, aliás, o motivo que nos levou à ruína econômica, com a fragmentação da nossa terra "As Maravilhas". É verdade, então, que meus irmãos bastardos são mais de vinte, e se não falei nisso foi porque, para a Epopéia, os que interessam, mesmo, são esses doze, que são meus Doze Pares de França! - Como é? - disse o Corregedor, mais uma vez espantado.
- É isso mesmo, Excelência! Como meu Pai nos deixasse arruinados, vi que tinha de tomar certas providências para salvaguardar a fidalguia da família Quaderna! Não sendo rico, descobri, por exemplo, que meus irmãos mais moços, os bastardos, eram o único jeito que eu tinha de manter, de graça e ainda com lucro, uma escolta de Cavaleiros, semelhante àquela com a qual Dom Pedro I aparece em O Grito do I piranga, quadro do genial pintor paraibano Pedro Américo de Figueiredo e Mello, Grande do Império do Brasil! Nós, os Quadernas, somos também GarciaBarrettos, de modo que...
Margarida falou baixo, de novo, e o Corregedor dirigiu-se a mim, com ar meio embaraçado: - Senhor Quaderna, perdoe que eu entre em pormenores íntimos sobre sua vida, mas preciso esclarecer tudo e Dona Margarida está me informando, aqui, que o senhor, de fato, é parente dos Garcia-Barrettos, mas - como direi? - é um GarciaBarretto...
- Pode dizer, Excelência! Eu absolutamente não me incomodo mais de ser filho-da-puta! Ou melhor, de ser neto-da-puta, porque minha Mãe, coitada, é que era filha-da-puta, filha bastarda do Barão do Cariri e portanto irmã por vias travessas de Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto.. Antes, eu ficava danado da vida quando alguém falava nessa filho-da-putice nossa. Mas lá um dia, numa discussão, Samuel declarou que isso de bastardia não tem a menor importância nessas coisas de fidalguia e linhagens reais, tanto assim que os Braganças, descendentes de Dom João I e Nuno Alvares Pereira, são várias vezes bastardos e netos de padre! Depois daí, fiquei descansado e perdi a vergonha! - Quer dizer que o senhor também é de linhagem real sertaneja? Fiquei apavorado, com medo de que ele já tivesse ouvido falar na minha ascendência real paterna, vinda diretamente dos Reis da Casa da Pedra Bonita. Sim, porque de fato, como sabem, eu pertenço é a duas linhagens reais de uma vez. Mas a dos Garcia-Barrettos, a de minha Mãe, apesar de bastarda é de ouro e Azul e confessável, enquanto a de meu Pai, a dos Quadernas, é negra e Vermelha, e é o estigma de crime e culpa da minha vida, se bem que seja, também, todo o fundamento da glória e do orgulho do meu sangue. Será que eu já estava descoberto? Se estivesse, estaria perdido. Assim, arrisquei na primeira hipótese: - É verdade, Senhor Corregedor! Apesar de bastardo, por via materna eu sou um Garcia-Barretto, e portanto posso dizer, sem jactância, que pertenço à Casa Real do Sertão do Cariri! É nessa qualidade que esses meus doze irmãos bastardos me servem de Guarda-de-Honra, quando, por acaso, preciso fazer alguma cavalgada heróica, semelhante às de Dom Antônio de Mariz ou às do Capitão-Mor Gonçalo Pires Campelo, aqueles dois Carlos Magnos de Dom José de Alencar! E se o senhor duvida, peça, aí, o testemunho de Margarida, que no caso é insuspeita porque é minha inimiga e é uma "virtuosa dama do cálice sagrado de Taperoá"! Margarida, diga aqui ao Doutor: não é verdade que meus irmãos são Pares de França das minhas cavalhadas? Vendo que o Corregedor, talvez a despeito de si, esperava a resposta, Margarida viu que era o jeito e confirmou: - É verdade, Doutor Juiz!