A pedra do reíno e o Principe do Sangue do Vai-e-Volta

Ariano Suassuna

- Que negócio é esse, Senhor Quaderna? - estranhou o Corregedor.

- Excelência, é coisa sabida! Os figurantes das Cavalhadas sertanejas são vinte e quatro Cavaleiros armados de lanças e representando os Doze Pares de França do Cordão Azul e os Doze do Cordão Encarnado! Os Azuis são os Cavaleiros cruzados e cristãos, o os Encarnados são os Cavaleiros mouros e muçulmanos. E o mais bonito, para mim, é que, representando os Vermelhos o partido dos Mouros, ainda assim tenham nomes iguais aos dos azuis, havendo, por exemplo, um Roldão e um Oliveiros azuis e cristãos, o outros Roldão e Oliveiros mouros e encarnados! E assim por diante, até completar os vinte e quatro Cavaleiros, com um nome de Par de França para cada par de dois! Foi por isso que eu destaquei doze prediletos, entre os meus irmãos bastardos, fazendo com que eles assumissem, nas Cavalhadas, o papel de Guarda-deHonra minha! - Uma curiosidade minha, Bibliotecário Quaderna: você colocou seus irmãos no Cordão Azul ou no Encarnado? - Senhor Corregedor, acho que, com o que já lhe esclareci sobre minha posição política, a resposta é clara! Se eu fosse Samuel, teria colocado todos doze no Cordão Azul, e se fosse Clemente, no Encarnado. Mas eu, fiel à minha orientação monarquista-daesquerda, coloquei seis no Cordão Azul e seis no Encarnado. Tive, porém, o cuidado de que não houvesse repetição de papel na família Quaderna: com isso, garantia um título de Par-de-FrançaSertanejo para cada um deles, e, ao mesmo tempo, organizava, com os doze juntos, o Destacamento azul-vermelho da minha Guarda-Real! Eu falava demais, novamente, cego pelo orgulho que depois me perdeu. Mas, no momento, não me apercebi, e continuei no embalo da honra: - Meus doze irmãos formam, aliás, Senhor Corregedor, um lote de Guerreiros que orgulharia qualquer Rei! Num certo dia, importantíssimo para mim, eu chegara à conclusão de que, legítimos ou bastardos, todos os Quadernas eram Fidalgos, e decidi jamais consentir que nenhum de nós exercesse "qualquer profissão vil de Burguês", como diz Samuel. Lembrei-me de que todos nós, filhos de meu Pai, éramos um pouco Vaqueiros caçadores, Cantadores, etc. Podíamos, portanto, nos manter, todos, meio ociosos, meio criminosos, meio vagabundos e donos das nossas ventas, como todos os Fidalgos e Cavaleiros que se ~rezam! Era o único jeito de nos mantermos à altura da nossa linhagem, numa sociedade em que sobram poucas profissões-nobres, na estreita margem de atividades que a propriedade rural deixa. Foi por causa dessa decisão minha, Excelência, que nenhum Quaderna trabalha para filho-da-puta nenhum! Proibidos pelo consuetudinário-fidalgo da família, nenhum Quaderna tem patrão nenhum que exija de nós as obrigações e os trabalhos que têm os industriais, os comerciantes o outros desgraçados e danados Burgueses com vocação de burro de carga! Todos nós só temos profissões livres, ociosas e marginais de Fidalgos! - Como assim? - objetou o Corregedor. - O senhor e alguns de seus irmãos não trabalham na Gazeta de Taperoá, o jornal do Comendador Basílio Monteiro? - Ah, mas em condições muito especiais! Um dia, procurei o Comendador e sugeri a ele que introduzisse, no jornal, uma página literária, charadística e zodiacal. Eu queria dirigi-la, para ter prestígio e força perante os intelectuais da Vila. O Comendador já estava querendo tirar o corpo de fora, quando eu disse que tinha uma exigência: era que ele não pagaria nem um tostão nem a mim nem a meus irmãos! Eu dirigiria a página como se fosse um jornal à parte. O trabalho extra seria todo feito por meus irmãos, como tipógrafos, riscadores e cortadores de madeira. Com isso, o jornal dele ganharia mais leitores e mais dinheiro, porque nós manteríamos, na página, uma seção de horóscopos e um consultório sentimental. A única coisa que eu queria em troca disso, era a permissão de, trabalhando à noite, fora do expediente normal, eu e meus irmãos imprimirmos folhetos e romances que Lino Pedra-Verde venderia na feira, rachando todos nós o lucro. Vendo a possibilidade de melhorar o jornal sem gastar nada, o Comendador concordou imediatamente. Foi assim que começamos a trabalhar na Gazeta. Eu não estou, de fato, trabalhando para o Comendador, e sim para mim mesmo, porque a página é um suplemento separado e independente do jornal e eu sou o Diretor soberano dela. Por seu lado, meus irmãos trabalham é para mim, o não para o Comendador. É por isso que aumentei o meu prestígio de intelectual e Acadêmico sem arranhar, sequer, meus privilégios de Fidalgo! - Bem, mas me disseram, ainda, que a Prefeitura paga ao senhor as Cavalhadas, organizadas e corridas pelos Quadernas! - E Vossa Excelência quer coisa mais fidalga do que isso? Primeiro, mesmo que trabalhássemos para o Estado, seria coisa perfeitamente compatível com a nobreza-de-toga! Mas não é propriamente trabalhar para a Prefeitura, o que fazemos! Nós não somos propriamente funcionários não, é esporadicamente que somos chamados. De fato, nós fazemos as Cavalhadas é somente para nos divertir ociosamente, fidalgamente, e para imprimir na imaginação do Povo taperoaense as nossas imagens gloriosas de Cavaleiros do Sertão. Agora, se a Prefeitura, por conta dela, ainda por cima resolve pagar nossa fidalga diversão, ótimo! Más, todo Fidalgo é estipendiado! Fidalguia sem tenças, bolsas, comendas e estipêndios, não tem graça nenhuma! Era por' isso então que ali, naquele sábado, dia 1.0 de Junho de 1935, estavam os meus doze irmãos prediletos ganhando o dinheiro da Prefeitura. Não porém para trabalhar, com obrigações plebéias de Burgueses, e sim para se divertirem numa Cavalhada ociosa, gloriosa e guerreira de Fidalgossertanejos, com bandeira e tudo! E para que o Corregedor fosse logo travando conhecimento com os meus gloriosos Doze Pares de França do Sertão, desfiei, perante ele, a seguinte lista:

BANDEIRA DO ANJO QUE VINHA NA CAVALGADA DO RAPAZ DO CAVALO BRANCO.

- No Cordão Encarnado, meu irmão Virgolino Pinagé Quaderna, que, na vida civil, é Cantador, fazia o papel de Roldão. Sílvio Junco-Brabo Quaderna, que é Vaqueiro e rabequista, fazia o papel de Oliveiros. Bento Guará-Vieira Quaderna, que é Tangeria e boiadeiro, era Gui de Borgonha. Euclides Seriema Quaderna, Almocreve, era Ricarte da Normandia. Matias Maciel Carnaúba Quaderna, Santeiro e Imaginário, era Urgel de Danoá. E Gregorio Camaçari Quaderna, fotógrafo e Poeta, era Guarim de Lorena. No Cordão Azul, Joaquim Braz Quaderna, tipógrafo do meu suplemento, era Bosim de Gênova. Augusto Maracajá Quaderna, Cavalariano, era Tietri de Dardanha. Antônio Papacunha Quaderna, tocador de pífano e Pintor das bandeiras e santos das procissões, era o Duque de Nemé. Rubião Timbira-Tejo Quaderna, fazedor de fogos e Fogueteiro, era Hoel de Nantes. Taparica Pajeú-Quaderna, cortador de madeira, Riscador e tipógrafo-ajudante, era Gerardo de Mondifer. E finalmente, último mas não derradeiro na minha admiração, vinha o predileto entre os meus prediletos, Malaquias Nicolau Pavão Quaderna, aguardenteiro, conquistador, folheteiro e Cambiteiro, no papel guerreiro e heróico de Lamberto de Bruxelas! Não se esqueça, Senhor Corregedor, de que todos nós éramos atiradores, Caçadores, montadores e trocadores de cavalos, de modo que mesmo os mais sedentários de nós, os meus tipógrafos, por exemplo, tomavam parte, com os outros, nas caçadas, nas cavalarias, nas "entradas" ociosas e fidalgas que eu organizava o que eram expedições guerreiras à altura do nosso sangue e da nossa estirpe! Se Vossa Excelência visse, naquele sábado, todo o meu pessoal preparado para a Cavalhada, ficaria entusiasmado, mesmo não sendo Sertanejo! Os Doze Pares de França do Azul vestiam calções azuis e saio de belbutina amarela caindo sobre botas de couro que vinham até o joelho. Usavam esporas longas e longos punhais de cabo de prata, capacete de flandre, e, amarrada ao pescoço, caindo para trás, uma capa azul com cruz de ouro. Os sendais que enfeitavam suas lanças eram azuis, assim como eram as mantas-de-anca, gualdrapas e peitorais que enfeitavam as selas e os cavalos. Já nos Doze Pares do Cordão Encarnado, os calções eram vermelhos e vermelhas eram as estrelas que salpicavam os saios overdes. As capas encarnadas ostentavam, em vez de cruz, duas filas verticais de três crescentes cor de ouro, sendo também vermelhos os sendais das lanças, os peitorais, gualdrapas e mantasde-sela dos cavalos. O matinador do Azul conduzia, presa à haste de uma comprida lança, uma Bandeira azul com esfera de Ouro no centro. O do Encarnado, uma Bandeira vermelha tendo ao centro um Crescente branco.

- Um o quê? - exclamou o Corregedor, dando uma espécie de bote para o meu lado.

Eu, pegado de surpresa e sem saber o motivo daquele salto, repeti mais alto: - Um crescente branco! - Você não disse que, na capa dos Cavaleiros do Azul, havia uma cruz? - Disse, sim senhor! - Que forma o senhor disse que tinha a marca, queimada a ferro em brasa na espádua de Dom Pedro Sebastião? - A forma de um crescente, encimado por uma cruz! - disse eu, esmagado.

- Pois eu lhe pergunto, Senhor Quaderna: se fosse o senhor que estivesse investigando o crime, não acharia estranha essa coincidência não? - Senhor Corregedor, toda Cavalhada sertaneja tem esses emblemas! - Acredito! Mas, por um motivo de pura rotina processual, convém anotar esse fato confessado pelo depoente, Dona Margarida. Anotou? - Anotei, Doutor! - ótimo! Agora, pode continuar, Senhor Pedro Dinis Quaderna! O nó de lacraias começava a me enredar cada vez mais, nobres Senhores e belas Damas de peito macio. De modo que foi sentindo aumentar a sensação de aperto no estômago e fazendo um enorme esforço para que o Corregedor não notasse a minha perturbação que continuei a narração dos acontecimentos daquele terrível dia: - Para assistir à entrada dos Cavaleiros na rua, Senhor Corregedor, tinham vindo à Praça quase todos os moradores da nossa Vila. A Aristocracia rural e a Nobreza de toga tinham se distribuído num palanque, previamente armado para isso. A Burguesia urbana sentava-se em cadeiras de braço e cadeiras de balanço, espalhadas pelas calçadas da Praça. Quanto ao Povo, como diziam Clemente e Dom Eusébio Monturo, "estava, como sempre,-a pé e na poeira do chão". No palanque, estava, portanto, o que havia de melhor entre nós, quanto a Damas e varões de alta linhagem: sendo que, logo ao lado do Prefeito e do Presidente do Conselho, destacavam-se, flamejantes, as figuras dos meus dois Mestres, Clemente e Samuel, esses dois homens subversivos e perigosos mas sem dúvida geniais, a quem devo a maior parte da minha formação. Clemente trajava agora, ali no palanque, sua indefectível roupa de brim branco, imaculada, engomada cuidadosamente por sua mulher, Dona Iolanda Gázia. Trazia colete do mesmo pano e gravata cor de pérola, com um enorme rubi fincado nela, a modo de broche. Colocada sobre tudo isso, pusera a toga negro-vermelha que costuma usar nos grandes dias de júri, quando faz reluzir suas qualidades de jurista e Filósofo, diante dos Sertanejos embasbacados. Samuel usava sua inseparável roupa de casimira preta, colete castanho, gravata verde com esmeralda, e uma toga que tinha sido desenhada por meu irmão Antônio Papacunha Quaderna, o pintor de bandeiras, sob a orientação e supervisão do próprio poeta Wan d'Ernes. Essa toga sempre causava ao nosso Promotor alguns problemas com os juízes novos da nossa Comarca.

- Alguns problemas? Por quê? - Porque era meio diferente das togas comuns. Era amarela, com orlas e emblemas verdes debruando tudo, o que Samuel encomendara a meu irmão por motivos de fidelidade integralista à cor verde! - Veja a senhora, Dona Margarida, o radicalismo dessa gente! - disse o Corregedor, abismado. - Até nas togas esses homens introduzem o radicalismo político! Isso aqui está tudo minado pela agitação! Para atenuar tudo, observei: - Aliás, Senhor Corregedor, acho que era por causa disso mesmo que os Juízes estranhavam! Mas Samuel esclarecia sempre a eles que não via nada de estranho no fato de sua toga "ostentar as cores nacionais", argumento que sempre fazia com que os Magistrados recuassem, temerosos de desrespeitar a Nação! Depois, eles terminavam por se acostumar e até, às vezes, por aplaudir o nosso Promotor, ao conhecê-lo melhor. E quanto a essas questões de uniformes politicamente radicais, creio que aqui a nossa jovem Margarida vai ter que dar ao senhor algumas explicações, porque, naquele dia, estava lá também, no palanque, a mãe dela, Dona Carmem Gutierrez Torres Martins. Esta, Senhor Corregedor, é uma figura que Vossa Excelência precisa conhecer e cultivar! - falei, passando um rabo de olho para Margarida, que me atravessava, com olhos fuzilantes. - Dona Carmem é uma mulher intelectual, viúva de um velhinho muito mais velho do que ela e que ainda era vivo naquele tempo. É uma senhora magra, distinta, simpaticíssima e que, não sei por qual motivo, é detestada pela filha! Naquele tempo, ainda se poderia, talvez, encontrar um motivo para essa aversão, porque, segundo as más-línguas da Vila, Dona Carmem mantinha, há vários anos, uma "amizade intelectual" com o nosso Anjo decaído e promotorial, o Doutor Samuel Wan d'Ernes, seu companheiro de canto no coro da nossa Igreja! Mas hoje isso não se explica mais, porque, segundo ficou provado depois, essa amizade intelectual, se existia, não podia ser senão "um romance platônico", mal interpretado na rua pela maldade humana. Dona Carmern era Presidenta Perpétua das "Virtuosas Damas do Cálice Sagrado", organização radical que existe aqui e da qual Vossa Excelência precisa ir tomando conhecimento, porque é ligada à "Ordem dos Cavaleiros da Esfera Armilar", grupo extremista da Direita, fundado pelo Doutor Samuel Wan d'Ernes e Gustavo Moraes, o filho do usineiro Antônio Moraes. Como Vossa Excelência já deve ter sabido, consta que os Integralistas tentaram um golpe armado contra o Governo, na noite de 10 de Março passado. O chefe principal desse golpe foi o Contra-Almirante Frederico Villar, cuja família é, aqui em Taperoá, uma das mais poderosas! O Corregedor interrompeu: - Deixe de lado a parte das "Virtuosas Damas do Cálice Sagrado"! Deixe, também, de lado suas análises pessoais da Política nacional, porque a interpretação dessas coisas fica por minha própria conta! Não preciso de esclarecimentos -seus sobre assuntos gerais; quero saber é sobre o caso concreto e os acontecimentos ligados a seu Padrinho e ao rapaz do cavalo branco! Continue, portanto, a narração sobre aquele dia.

- Sim senhor! Dona Carmem, como eu vinha dizendo, na qualidade de Presidenta da "Vida-Casta", usava, naquele sábado, sobre o vestido verde, de mangas compridas, uma espécie de túnica ou estola branca, com cruz azul às costas, assim como ostentava à cabeça um chapéu, igualzinho àquele com que Joaquim Nabuco aparece na Crestomatia - um chapéu com borla pendurada e formado, em cima, por uma tampa quadrada de papelão. No dela, o forro exterior era de seda azul, enfeitado com duas largas fitas de gorgorão cor de couro, passadas por cima da tampa, em forma de cruz. Ao lado de Dona Carmem, estava o Comendador Basílio Monteiro, que não pertencia à Aristocracia rural mas que estava no palanque, com sua opa roxa e seu barandão, na qualidade de Presidente da Irmandade das Almas. Estava o Coronel Severo Martins Torres, o velhinho marido de Dona Carmem e Pai, aqui, da nossa Margarida: estava com sua farda amarelo-esverdeada de Comandante da Guarda Nacional, com dragonas de ouro, espada o tudo. Olhava para tudo com desinteresse e impaciência, aguardando o momento em que, "acabadas aquelas besteiras de cavalos, lanças e argolinhas, começasse a parte realmente importante da festa", quando então ele, Severo, pelo seu bom comportamento no palanque, seria premiado por Dona Carmem, que lhe permitiria comer bolos à vontade, na festa que estava pronta para receber o Bispo.

- Já lhe disse que deixasse essas coisas de lado! - disse o Corregedor que notara o constrangimento de Margarida, e falou com ar duro.

Mudei de assunto: - O irmão do Comendador Basílio Monteiro, Eusébio, conhecido na rua pelo apelido de Dom Eusébio Monturo, o que devia à sua língua de prata e a seu bocão desabusado, não estava no palanque, porque, além de inimigo do irmão, era radical em Política "e não consentiria, de modo nenhum, em aparecer, de público, juntamente com a plutocracia sertaneja". Anticlerical e ateu, considerava-se "O Paladino do Povo", e acharia uma traição de sua parte colocar-se no palanque, ao lado da Aristocracia, em vez de no chão, "perto dos nossos irmãos sofredores, os pés-rapados da poeira". Estava agora, pois, ali, no chão, perto do palanque, com sua alta estatura, seus ombros meio curvados, seus olhos vesgos, seus longos cabelos e bigodes caídos, embranquecidos "nas lutas populares e nas revoluções libertárias", segundo ele mesmo declarava. De braços cruzados sobre o peito, mantinha um ar soberbo e desdenhoso, com o qual desejava demonstrar à Aristocracia taperoaense que ele, o Paladino do Povo, era superior a todas aquelas palhaçadas; que ele poderia ter subido ao palanque, mas não quisera; que estava na Praça por pura condescendência e assim por diante. De vez em quando, Dom Eusébio Monturo voltava para o palanque uns olhos fuzilantes, detendo-os principalmente sobre o Professor Clemente que, sustentando idéias próximas das dele, "traía o Povo e a Revolução para se exibir, como um lacaio, ao lado dos senhores-feudais do Sertão". O fato, porém, é que o pessoal do palanque absolutamente não estava ligando para os desdéns nem para os furores de Dom Eusébio Monturo. Estavam, ali, "todas as pessoas de pró da Vila". Com exceção, é claro, da família do riquíssimo e poderoso Dom Antônio Moraes: excessivamente orgulhosos, não davam acesso a ninguém da rua à casa deles e não compareciam, também, a nenhuma das nossas festividades. Bastaria isso para mostrar como o Senhor Antônio Moraes era diferente do nosso velho Rei Degolado, meu padrinho Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto, que comparecia a todas, prestigiando mesmo, liturgicamente, a realização de algumas delas, o que deu origem a essa calúnia que me fizeram perante o senhor, de que eu teria contribuído para a demência final dele. Arésio, por seu lado, "muito feliz da vida, de cama e mesa na casa do arquiinimigo de seu Pai", também não tinha aparecido para as festas. Aliás, também em vida de seu Pai, Arésio detestava "as palhaçadas a que ele se submetia", de modo que era sempre Sinésio quem comparecia ao lado do nosso Rei do Cariri e Imperador do Divino, sendo este um dos motivos da popularidade do filho mais moço e da impopularidade de Arésio, perante o Povo de nossa Vila. Agora, ao contrário do que acontecia com Dom Eusébio Monturo, as ausências e os desdéns dos Moraes e de Arésio eram sentidos por todos os moradores da rua. Sentíamos que eles se consideravam como pertencentes a uma esfera infinitamente superior e que esse era o motivo de permanecerem lá, na sua casa-grande do "Alto dos Borrotes", dominando toda a Vila, solitários, cheios de si, fruindo, isolados e altivos, suas grandezas, seu bom gosto e também sua vida familiar enigmática e meio inconfessável de Fidalgos superiores ao nosso meio, emigrados das usinas de Pernambuco para as minas, o algodão e o couro do Sertão da Paraíba.

- Do lado direito do palanque, eu ordenara que se dispusessem os "Caboclos de Lança" da minha "Tribo Coroada dos Panatis", e do lado esquerdo, minha "Nação Cabinda do Reisado Sudanés". Sabedor, por experiência, de como são necessárias todas as cautelas nessas coisas de monarquias - pois há sempre um pretendente qualquer à espreita, sequioso de poder e louco para tomar nossos tronos - eu disseminara por entre os membros de ambas as Nações os meus irmãos bastardos que não estavam na Cavalhada. Tivera, é claro, o cuidado de colocar os mais acaboclados na "Tribo Panati" e os mais escuros no "Reisado Sudanés". Escolhera, além disso, dois dos mais bem apessoados, fazendo, de um, "Rei Caboclo e Cacique", e do outro, "Rei Negro". Assim, minha família estaria a postos em torno do meu Trono, e todos os Quadernas teriam a seu dispor os lugares dignos de sua qualidade e hierarquia, como Príncipes de sangue do Reino do Sertão e do Império do Brasil! - O senhor falou aí em seu trono, foi? - perguntou o Corregedor, com expressão falsamente descuidosa. - Quer dizer que o senhor também é Rei, como Dom Pedro Sebastião era? Ave Maria! No meu orgulho, eu tinha ido de novo muito longe! Estava arriscando a cabeça, porque se aquele implacável Corregedor descobrisse meu sangue real paterno eu estaria perdido! Então, tergiversei: - Senhor Corregedor, estas questões de monarquia são muito complicadas, de modo que levam um pouco de tempo para entender! Do ponto de vista político e guerreiro, Dom Pedro Sebastião e seus três filhos é que constituem a "Casa Real do Cariri". Eu e meus irmãos somos apenas Príncipes e Guerreiros dessas coisas de Cavalhadas, tribos, Naus Catarinetas e outras fidalguias literárias e espetaculosas! - De qualquer modo, porém, sendo o senhor, pelo lado materno, um Garcia-Barretto, mesmo bastardo, é Príncipe, motivo pelo qual creio que tem direito, também, ao tratamento de Dom! - Bem, de certo modo, é verdade! - confessei, lisonjeado. - E se eu não tinha dito isso, ainda, ao senhor, foi por pura modéstia! - Desculpe então a nossa falha, até agora, e queira continuar, Dom Pedro Dinis Quaderna! - Obrigado! - disse eu, fingindo não ter notado a inflexão especial que ele tinha usado.

E continuei: - Os Panatis, que na minha vida real e principesca eram a tropa de Arqueiros do meu Exército particular, usavam mantos de pano enfeitado com vidrilhos e longas Coroas ou cocares de penas, que, pregadas a uma manta amarela e verde, pendiam-lhes até os ombros. Seus corpos tinham sido pintados com listras largas e horizontais, negras e vermelhas. Vestindo apenas a tanga ritual, traziam a cintura e os tornozelos enfeitados com penas de Gavião. Com seus companheiros, os Negros da esquerda, estavam ali, prontos a encher os intervalos da Cavalhada com suas danças de "Auto dos Guerreiros". Alguns traziam maracás, feitos de cabaços. Outros, tacapes. Outros, lanças compridas. A maioria, porém, estava armada com longos arcos de madeira, cujas flechas eram também enfeitadas com penas e que eles meneavam em gestos felinos de Onça-Parda, o que me fazia recordar sempre a introdução mitológica negro-tapuia da famosa Filosofia do Penetral, de Clemente. Segundo essa introdução, sendo o Sol macho-e-fêmea do Divino e gerador de tudo, os homens primitivos descendiam do cruzamento de um deus com um bicho ou pássaro, sendo que, como Clemente afirma sempre, "o animal mítico e gerador por excelência da Raça humana foi a Onça". Naquele dia, ladeado por dois Príncipes Pardos, meu irmão Tabajara Peba Quaderna estava à frente da Tribo, como Rei Caboclo. Seu traje era semelhante ao dos Arqueiros de suas fileiras, mas tinha algo a mais; a modo de insígnia real, trazia ele à cabeça um capacete de flandre, enfeitado de penas e com um certo jeito de elmo, o que, apesar de ter causado grande indignação a Samuel, lhe dava uma dignidade toda especial. Do lado dos Negros, quem estava à frente da Nação era Feliciano Nonato, o mais escuro de todos os Quadernas. Ladeado também por dois Príncipes, trazia capacete enfeitado de plumas, saio azul e calção vermelho. No peito, ostentava crescentes de prata e outras incrustações de vidrilho cor de ouro, o que, espero, Vossa Excelência não levará a mal, pois acontece em todo grupo mouro de Festas do Divino. Colete mourisco, colares de búzios, calções debruados e meias ajustilhadas cor de creme completavam sua régia roupagem. Nos pés, trazia sapatos de couro de Gato-Maracajá. Seus guerreiros vestiam de modo semelhante se bem que sempre mais modesto, para marcar bem as hierarquias. Assim, Senhor Corregedor, tudo estava preparado para começar. Os Cavaleiros Azuis e os Encarnados entraram na Praça, dispostos em duas filas paralelas, e dirigiram-se ao palanque. Eu tinha proibido que meus irmãos fizessem qualquer salamaleque ao Prefeito que, além de republicano, era simples membro da Burguesia urbana - apesar de casado com uma ilustre Dama pertencente à Aristocracia rural. E mesmo que ele fosse Fidalgo, o caso é que nunca se soube que os Príncipes de sangue fizessem saudações aos simples Gentis-homens de suas antecâmaras! Por isso foi que, chegando diante do palanque, em vez de saudarem o Prefeito e o Presidente do Conselho, o Rei Mouro do Encarnado o o Rei Cruzado do Azul trocaram uma saudação entre si e depois fizeram, um ao outro, as ameaças tradicionais. O Rei Mouro regougou, com voz forte: "Se tens a Força capaz, lutemos de peito a peito: vou brigar de qualquer jeito, sou Onça negra e voraz! Aqui, ninguém entra mais! Vamos, os dois, lutar sós! Não atendo à sua Voz, fogo de minh'Arma sai: vamos ver quem é que cai, quem ganha a Luta feroz!" "Esta é a nossa Batalha, sangrenta, macha e tirana! Minha espada, a Durindana, não amostra uma só falha! Na forja desta Fornalha eu ganharei a Vitória! Mas ficarão na Memória meus malfeitos e perigos, e os Cantadores antigos cantarão a minha Glória!"

- Após essas saudações e ameaças rituais, Senhor Corregedor, os dois Reis espicaçaram os cavalos e puseram-se, de novo, à frente das duas filas de Cavaleiros, que, então, se dirigiram para os lugares antes determinados. Uma girândola de foguetões estralejou no ar, e a banda de música, conhecida popularmente como "Sinhá-Zefinha", clarinou um dobrado marcial, o Dobrado Euclydes da Cunha, composto, especialmente para a festa, por nosso genial Mestre-deMúsica e Mestre-de-Capela, Jovelino Maciel, o mesmo que ensaiava as músicas do coro da Igreja, para o Doutor Samuel e Dona Carmem Gutierrez Torres Martins. Os cavalos, excitados pelos gritos o assobios do poviléu, pela música e pelos tiros de foguetões, pisavam nervosamente o chão, ansiosos para correr. O Rei-de-Armas o Passavante, que era também um irmão meu, ia baixar a Bandeira azul-vermelha que autorizaria o início do primeiro páreo, de modo que tudo prenunciva uma Cavalhada brilhante, alegre, ordeira e animada, muito superior àquela que inicia As Minas de Prata, obra genial de meu precursor, Dom José de Alencar. Infelizmente, porém, Senhor Corregedor, eu tenho que pedir a toda essa gente que se imobilize aí, nessa atitude, meu irmão com o braço no ar, o pessoal de olhos aboticados e de boca aberta, a bandeira contra o céu, etc., porque tenho, agora, que passar à Estrada que nos liga à Vila da Estaca Zero e contar algo de importância fundamental que estava acontecendo por ali.

O Rei Cristão retrucou:

FOLHETO LV

De Novo a Cavalgada - E que, sem que as pessoas da Praça nem sequer desconfiassem, por essa Estrada de Estaca Zero vinha se aproximando de nós, naquele instante, uma outra Cavalgada que iria mudar inteiramente o rumo dos acontecimentos e o destino de muitas das pessoas mais importantes do lugar, incluindo-se entre estas, apesar de minha humildade, o modesto Cronista-Fidalgo, Poeta-Escrivão o Rei d'Armas da Casa Real do Sertão do Cariri que está lhe falando aqui, agora. Não vou descrever essa Cavalgada com pormenores, pois o senhor já conhece, mais ou menos, meu estilo régio. Basta que lhe diga que era composta quase toda de Ciganos, vestidos de gibões medalhados e cravejados. Vinham, nela, onças, veados, gaviões e cobras, trazidos em carretas ou caixões. Ela vinha precedida por duas bandeiras, uma com onças e contra-arminhos, outra com coroas e chamas de ouro em campo vermelho. Havia quatro homens que pareciam os mais importantes, os chefes e pessoas de pró dela: um frade-cangaceiro, Frei Simão de nome, o Doutor Pedro Gouveia da Câmara Pereira Monteiro, Luís Pereira de Souza (mais conhecido como Luís do Triângulo) e o rapaz do cavalo branco. Essa cavalgada caíra, há poucos momentos, numa emboscada que lhe fora armada pelo grupo do Capitão Ludugero Cobra-Preta, tendo perdido, na luta, um dos seus porta-bandeiras, o Alferes José Colatino Leite. Agora vinha ali, já bem perto de Taperoá. As bandeiras já mencionadas tinham acrescentado mais quatro, uma representando um Touro com asas, outra uma Onça, outra um Anjo de quatro cabeças e outra um Gavião.

- E é verdade tudo isso? Todas essas roupas fidalgas, essas bandeiras, essas onças, esses acontecimentos estranhos, tudo isso é verdade ou é "estilo régio"? - Bem, se o senhor quiser, pode imaginar somente uns cavalos pequenos, magros e feios, uma porção de gente suja, magra, faminta e empoeirada, arrastando por aquela estranha Estrada uma porção de velhos animais de Circo, famélicos e desdentados, numa tropa pobre e amontoada. Para mim, porém, somente o facho sagrado da Poesia régia é capaz de dar a medida daquele evento extraordinário, de caráter epopéico! De fato, Senhor Corregedor, somente vendo esse pedaço de estrada por onde eles vinham agora é que a gente pode imaginar bem a cena! Da banda direita dos Cavaleiros ciganos, essa estrada, ali, é ladeada por um despenha338 deiro que eles vinham beirando já há uns cinco minutos em sua caminhada. Amparavam-se, porém, do abismo através de uma cerca de pedra que, segundo vi no Dicionário Prático Ilustrado que é meu outro livro-de-cabeceira, os Portugueses chamavam castro, umas trincheiras de pedra que eles herdaram dos Latinos, e nós, Sertanejos, herdamos dos Portugueses e Espanhóis. Nas pedras da cerca, o sol enceguecedor faiscava, centelhando em seu granito, incrustado de quartzo e malacacheta. Do lado esquerdo dos Ciganos, o morro pedregoso, que fora cortado a dinamite em 1924 para abrir lugar à estrada, subia quase a pino, descobrindo, por entre pedaços o camada de terra dura e seca, trechos espaçados do enorme lajedo, bruto e violáceo, que o constituía quase inteiramente, por baixo. Os pedaços de lajeiro que afloravam então, apresentavam-se cobertos de coroas-de-frade e macambiras, rubras, amarelas ou roxas, às vezes com maravilhosas flores escarlates luzindo entre as folhas espinhosas, mas sempre selvagens, incendiadas pelo sol, como se fossem enormes tochas, ou lampadários, entre os quais errassem, solitárias e ferozes, Onças-Vermelhas ou fulvo-pardas - os Leopardos sertanejos. Tudo isto, para cumprir o que profetizara o minha Epopéia um excelso Vate brasileiro, quando cantou assim: "As Pedras desabrocham solitárias, de Arquitetura esplêndida e fantástica: são-lhe, Bromélias, rubros Lampadários. E, por vida inda dar-vos, Leopardos, vivo-escarlates e indolentemente, os Guarases, à luz do Sol, traçaram a Coroa do Sangue Espadanante".

- Entremeando tudo isso, Senhor Corregedor, a Catinga, o carrascal áspero e pardo, queimado pelo Sol. Este, às duas e tanto o tarde, era tão violento que a vista se encandeava em suas cintilações. Nesse momentos, os Cavaleiros, meio cegos pelo Sol, que os impedia de ver o resto das Catingas e Tabuleiros, tinham a impressão de que estavam caminhando por uma estrada, perdida nos ares ardentes e iluminosos, uma estrada que não tocava o chão, como as outras, mas sim pairava suspensa, pendurada da panela emborcada e fervente-azul do céu pelos raios de cobre do Sol. O vento incendiário da Catinga, o "Sertão" abrasador, roncava por espaços no Tabuleiro, levantando, em ridimunho, colunas de folhas secas e gravetos, a mais de trinta metros de altura, o que aumentava a impressão da tribo de GuerreirosVagabundos de que estavam caminhando, numa viagem de iluminação ou numa demanda novelosa, por uma estrada que conduzia "à terra-estranha da morte". O senhor já ouviu falar, por acaso, do Cantador Pedro Ventania? - Não, nunca me deram essa honra não! - Pois ele foi engolido por uma Cobra, Senhor Corregedor, e foi pensando nele que eu falei, há pouco, na terra-estranha da Morte! Ventania estava na Catinga, caçando raposas, quando, de trás de um lajedo, uma enorme Cobra-de-Veado deu-lhe um bote e começou a engoli-lo, primeiro os pés, depois as pernas, o bucho, o pescoço e a cabeça de olhos aboticados! Os companheiros de caça dele, paralisados pelo terror e meio tonteados pelo bafo da jibóia, me contaram depois, que, quando Ventania já ia desembandeirando de cabeça abaixo para dentro da Cobra (ou melhor, de goela e de bucho abaixo), gritou, com uma voz meio engolida e já ressoando nas entranhas do chamado Bicho-Cobra, sua última frase neste mundo, e que foi: "Adeus, minha gente, que eu já vou em terra estranha!" Pois este nosso Sertão velho, Senhor Corregedor, talvez seja mesmo a terra-estranha da Morte, dominada pelos dentes das Onças, pelo veneno das Cobras, das Lacraias e de outros bichos - a terra na qual, ao contrário do que seria de esperar, aquele Donzel errante que era o rapaz do cavalo branco cada vez se adentrava mais naquele instante, sonhosamente em busca da sua vida, destroçada e perdida, sem que ele soubesse por quê. Por ali chegava ele, agora. E fora talvez já pensando na aparição desse sonhoso e angélico Donzel em minha Epopéia, que o genial Bardo brasileiro, Alvares de Azevedo, escrevera aqueles versos proféticos que dizem:

"Criatura de Deus, se peregrina invisível na Terra, restaurando a justiça aos que sofrem, certamente que é um Anjo de Deus!"

O Corregedor cortou, com ar incrédulo e irônico: - Quer dizer que, na sua opinião, aquele rapaz do cavalo branco era uma espécie de Anjo de candura, inocente e inofensivo! - Não, Senhor Corregedor! Um Anjo é uma coisa muito diferente do que as pessoas pensam! O senhor, não tendo sido discípulo de Samuel e Clemente, não pode conhecer a tríplice natureza da Onça do Divino, dividida em quatro partes: a OnçaPintada, a Onça-Negra, a Onça-Parda e o Gavião-de-Ouro. Ou, em outras palavras, a esmeralda, a Granada Negra, o Rubi e o Topázio. Os Anjos, sendo ligados, ao Pai, à Onça Malhada, ao sopro do Sertão - o vento incendiário do Deserto - e à Sarça Ardente da Pedra Lispe, são seres de fogo, armados de espada e terrivelmente perigosos!

- Então, o senhor acha que o rapaz do cavalo branco era perigoso! - Bem, Senhor Corregedor, quanto a isso estamos de pleno acordo! Não tenho a menor dúvida de que o rapaz do cavalo branco era perigoso, e basta ver tudo o que aconteceu depois da chegada dele para entender isso! Anote essa declaração, Dona Margarida, ela é fundamental para o inquérito.

- Eu acho, aliás, que foi por isso que o grande Bardo paraibano, Augusto dos Anjos, vendo em seus sonhos de Iluminado sertanejo, aquela Estrada legendária e fatídica por onde o rapaz do cavalo branco apareceu, viu-a como "uma imensa e rutilante Cobra, de epiderme finíssima de areia", povoada de Anjos e Demônios, e atribuiu ao Donzel aquela imprecação cifrada e enigmática que diz assim:

"Quem foi que viu a minha Dor chorando? Saio. Minha Alma sai, agoniada! Andam Monstros sombrios pela Estrada, e, pela Estrada, entre esses Monstros ando!"

FOLHETO LVI

A Visagem da Bicha Bruzacã - Uma pergunta, Dom Pedro Dinis Quaderna: o senhor acredita no Diabo? - Como é que posso não acreditar, Senhor Corregedor? Ainda agora, quando eu vinha para cá, ele apareceu ao irmão do Comendador Basílio Monteiro, ali, no monturo da areia do rio, perto do Chafariz! Eugênio Monteiro estava me lembrando quantas vezes, aqui no Sertão, a gente encontra, nessas chapadas nuas e pedregosas, seres alados e perigosos, cruéis e sujos, bicando os olhos dos borregos e cabritos! Quem são eles? Gaviões? Urubus? Dragões? Acho que tudo isso ao mesmo tempo, porque todos eles são encarnações do Bicho Bruzacã, a Ipupriapa macha-e-fêmea, a Bicha que resume tudo o que existe de perigoso e demoníaco no mundo! O senhor já viu a Bicha Bruzacã alguma vez? - Não! - Nem nunca ouviu falar dela? - Também não! - Pois eu me admiro muito, porque é a Bicha mais horrorosa e conhecida por todo esse mundo velho por aí afora! É coisa sabida, Senhor Corregedor: ela é o Mal, o Enigma, a Desordem! Passa no Mar os seis meses do tempo de chuva. Durante esse tempo, tem duas ocupações: causa as tempestades e fica esperando, perto da Costinha, aqui na Paraíba, a chegada das Baleias, que ela sangra e devora como se fossem traíras ou Curimatãs. Aí, quando vem chegando Setembro, ela sai do Mar, soprando fogo pelas ventas, e vem para uma Furna de pedra perdida no Sertão. O fogo soprado pela respiração dela é que faz a seca! E ela aparece com muitas formas! Aliás, se o senhor não acredita em mim, veja a História do Brasil, de Frei Vicente do Salvador, que era homem fidalgo e frade, de modo que sua palavra merece respeito! Naquele tempo, a Bicha Bruzacã era conhecida pelos índios como a Ipupriapa, ou Hipupiara. Ela apareceu na praia, a um tal Baltazar Ferreira, donzel fidalgo, pois era filho de Capitão-Mor. Nesse dia, apareceu com cara de Cachorro, peitos de mulher, corpo e garras de Onça Malhada, motivo pelo qual eu acho que era um dos dias em que ela já vinha para o Sertão: dizem que nessas horas sempre ela tem alguma coisa de Onça! Baltazar Ferreira conseguiu feri-la a faca! Se conseguiu, além disso, molhar a boca com sangue dela, ele se tornou imortal! De qualquer maneira, eu ainda conheci um descendente dele que é Tabelião numa vilazinha do Litoral, lá para os lados do Rio Grande do Norte! É um velho meio doido; e como ele tem o mesmo nome do ascendente, Baltazar Ferreira, tem gente que jura que ainda é o mesmo! Ele vivia impressionado com a história da Ipupriapa Bruzacã, e foi por isso que terminou se metendo, comigo e com o rapaz do cavalo branco, na Odisséia marítima que nós empreendemos com o Mestre Romão, na grande barcaça A Estrela-da-Manhã, viajando do Rio Grande do Norte até o Rio São Francisco, entre Alagoas e Sergipe! - Ah, e a aventura do rapaz do cavalo branco teve também uma parte marítima? - Teve sim senhor! Constou primeiro de uma "ilíada sertaneja e terrestre", e depois de uma "odisséia marítima e do litoral", motivo pelo qual meu Castelo sertanejo fará de mim um Epopeieta que, numa Obra só, será mais completo do que Homero teria sido, caso existisse! - átimo! Mas continue o que você vinha dizendo sobre esse Bicho diabólico, isso me interessa muito! Desculpe, Dona Margarida, mas isso é tão interessante como expressão da psicologia dessa gente, que não posso me furtar a esclarecer mesmo isso! - E tem razão, Excelência! - disse eu. - Talvez não convença, assim, à primeira vista, mas o fato é que tudo isso foi importantíssimo para toda a nossa Desaventura! Olhe aqui: pedi a meu irmão Taparica, que é desenhista e gravador, que copiasse a figura que Samuel tinha me mostrado no livro de Frei Vicente do Salvador! Peço ao senhor que anexe a figura da Hipupiara ao meu depoimento! O senhor sabia que meu objetivo secreto e enigmático, quando acompanhei o rapaz do cavalo branco, era encontrar a Bicha Bruzacã, feri-la, beber-lhe o sangue e me tornar astrologicamente imortal? - As informações que eu tenho são muito diferentes, sobre o senhor e principalmente sobre ele, o rapaz do cavalo branco! - disse o Corregedor com uma expressão que me deixou trêmulo.

Então, para convence-lo de vez da qualidade principal de "viagem filosófica e profética" da Demanda novelosa que tínhamos empreendido em 1935 e que terminara há poucos dias, de modo tão terrível, voltei a insistir sobre o assunto: Vossa Excelência tem o direito de pensar assim, mas isso só acontece porque o senhor nunca ouviu falar nas aparições desse Demônio marinho e sertanejo! Sem se falar em mim, conheci três pessoas que viram Bruzacã, e nunca mais desinfeccionaram o sangue da picada peçonhenta que ela dá! - E o senhor mesmo viu o Demônio? - Vi, mas minha visagem vai ser contada ao senhor depois, por uma questão de ordem epopéica! Os outros três foram o velho Baltazar Ferreira, o Tabelião de quem já lhe falei, Mestre Romão, o velho Capitão da barcaça A Estrela-da-Manhã, e o vaqueiro Manuel Inácio, cabra do Seridó, que avistou a Bicha no Mar, perto da Praia de Touros, no Rio Grande do Norte. O senhor conhece a Praia de Touros? - Não! - disse o Corregedor, meio enfastiado.

De certo modo, o que eu queria era mesmo enfastiá-lo, para diminuir o perigo do assunto, de modo que continuei: - É uma praia histórica: segundo me contou Samuel, foi ali que a Esquadra brasileira, comandada pelo Almirante Conde da Torre, deixou, no século XVII, depois de uma batalha naval que durou vários dias, o pequeno exército, comandado por André Vidal de Negreiros, Luís Barbalho Felpa de Barbuda, Antônio Felipe Camarão, Henrique Dias e outros - Exército que realizou uma das mais belas "retiradas ilustres" da nossa História! É por isso que ali, no litoral do Rio Grande do Norte, dizem que, de vez em quando, à noite, por cima dos arrecifes, passeiam as almas dos danados Holandeses e também o Conde da Torre, fantasma recoberto de topázios, procurando levantar velas batidas, rotas e molhadas e reunir velhas Caravelas desarvoradas. Não sei se o senhor já reparou, mas o Litoral nordestino tem umas praias rasas, brancas, de areia fina e reluzente que range em nossos pés des calços, e outras pedregosas, altas, empinadas, feitas de rochas cor de ferrugem. O Cabo de Santo Agostinho e a Fortaleza de São Joaquim, praias onde o gringo Edmundo Swendson tinha terras, eram ambas deste último tipo, com um monte pedregoso, a pique sobre o Mar e tendo, perto, embaixo, uma enseada de praia rasa, tranqüila e serena, perto da barra de um rio. Ora, Senhor Corregedor, segundo afiança o genial Poeta brasileiro Vicente de Carvalho, o mar, "o belo Mar selvagem", é um "Tigre a que o vento do largo eriça o pêlo", um estranho animal felino. É, também, um Velho de barba azul, "condenado ao cárcere das Rochas que o cingem". Por outro lado, deve existir, no Mar, alguma coisa profundamente ligada àquilo que Clemente chamá "o Destino do rebanho humano", porque Vicente de Carvalho afirma, ainda, que, quando se põe diante do Mar, ergue imprecações, clamores e blasfêmias contra a Mão desconhecida que traçou nosso Destino: "Crime absurdo o crime de nascer", diz ele. - "Foi o meu Crime, o eu o expio vivendo". Pois como eu vinha contando: o vaqueiro Manuel Inácio vinha viajando com um gado que iria vender em Macau. Além do gado, levava, também, alguns burros carregados de couros, que deixaria lá em troca de Sal para o Sertão. Tomou, por acaso, o caminho da Fortaleza de São Joaquim, e seguiu uma estrada velha que beirava o Mar. Era o dia 24 de Agosto de 1919. Naquela data, perto do meio-dia, Manuel Inácio, sufocado de sol o calor, chegou a um bosque de cajueiros, onde corria um riacho. Fez uma parada, tirou a carga dos burros, botou os animais para beber no riacho, almoçou, e aproveitou os momentos em que o gado pastava para descansar um pouco. Espichado sob um cajueiro, notou, por mal de seus pecados, que ali, à sua frente, a terra se elevava suavemente formando um morro pedregoso que caía a pique no Mar, a uma altura enorme. Com o deslumbramento de todo sertanejo pela visão do Mar, resolveu subir o monte para ampliá-la. Ao chegar lá, ficou um momento, na certa como Vicente de Carvalho, pensando sobre o Destino do rebanho humano, sobre o número incontável de pessoas que tinham nascido, vivido, envelhecido e morrido sempre diante daquele mesmo velho Tigre de barbas azuis. De repente, segundo me contou depois o Tabelião Baltazar Ferreira (que foi quem me narrou essa história), o Vaqueiro começou a ouvir uns mugidos estranhos e poderosos. Pensou, a princípio, que fosse o seu gado, agitado lá longe por algum acontecimento fora do comum, mas logo mudou de opinião porque, como ele contava, "rês nenhuma do mundo daria urros como aqueles". Aí, olhando para os lados do Mar, ele viu, sobre a dura o brilhante superficie verde e azul, iluminada cruamente pelo violento sol do meio-dia, uma Nuvem negra, cercada por uma orla brilhante da Coroa solar. Segundo contava o Vaqueiro a Baltazar Ferreira, foi somente aí que ele começou a perceber que a Terra é que tinha se crispado, há pouco, dando aqueles mugidos que o tinham aterrorizado. Não sei, também, se o senhor sabe, mas os Vaqueiros sertanejos descobriram, há muito tempo já, que a Terra é uma Vaca, "uma vaca enorme, arcangélica e esquisita, que vive mijando rios para o mar", como ' explicava muito bem o nosso Profeta Nazário. Dizem eles que, num certo lugar da Terra, existe uma enorme Gruta, cuja entrada é comprida e estreita em relação à largura, uma Fenda cuja entrada é feita de rã coberta de musgo verde e veludoso. O Mar, Tigre verde-azul, foi parido pela Vaca arcangélica da Terra através dessa Gruta verde, o é por isso que às vezes a Terra dá esses poderosos mugidos, chamando o filho estranho e felino, de cabelos verdes, nos momentos de perigo. Naquele dia, à medida que a nuvem estranha baixava, e se dirigia para a costa, as águas, embaixo dela, inchavam o se intumesciam. Começaram também a ferver, batendo com mais fúria ainda contra os Rochedos castanhos do morro. De repente, aquela inchação gigantesca das águas se fendeu, e Bruzacã fez ltpaiecer no ar, surgindo das águas revolvidas e ferventes, sua maldita cabeça coroada! Ah, só quem já viu Bruzacã é que pode imaginar como são poderosas e aterrorizantes as formas que ela tema! São sete Chifres turvos e amolados, o Focinho peludo, a Corcova cerúlea! No cabelouro espesso, uma Cabeleira de serpentes e conchas entrançadas! O olhar de Cobra e o corpo feito à semelhança de um corpo enorme de Touro branco! Era a Besta marinha, *rtejada pelos lombos diabólicos e sagrados do Mar! Seu olhar chamejava, ora amarelo, ora azul como um aço de Martelo! Ao fogo dó sopro das suas Ventas, ferviam as águas em borbulhas de Enxofre envenenado. O peito era coberto pelo musgo nojento que suja e mancha as paredes do Inferno alumiado! As espáduas eram cobertas de malhas feridentas cor de ferrugem e em cada uma das suas ancas verdes luzia uma estrela amarela, brilhando entre sargaços e a salsugem, entre ostras pegadas ao tronco, anoso e velho como um velho Rochedo extraviado! O Vaqueiro ouvia seu próprio sangue latindo, pedindo, suplicando que ele corresse e se afastasse dco Bicho amaldiçoado. Ao mesmo tempo, porém, que ele sentia o horror, sentia também o fascínio do Bicho e da Desordem desmedida, obrigando-o a procurar ver, ver sempre mais, pois é destino sem fim, nosso, querer, como diz Clemente, "decifrar todo o Bicho deste Mundo". Aí, Senhor Corregedor, aquela nuvem negra, ou cor de sangue escuro, coroada pela rebrilhante orla solar, pareceu se curvar para perto das orelhas e da barba azul do Mar. Como se fossem dois Diabos invencíveis, a Nuvem e o Mar trocaram seus segredos indizíveis. As asas da Bicha Bruzacã se agitaram, causando um repelão nas águas e um estremeço na terra.