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A pedra do reíno e o Principe do Sangue do Vai-e-Volta

Ariano Suassuna

Línguas de fogo e estalos de corisco vadiaram por todo canto. As árvores mais próximas da praia, crestaram-se imediatamente, abrasadas pelo vento incendiado, parido pelas asas da Bicha e por suas ventas, fole de cem brasas! Fundiam-se pedras. E dizem, mesmo, que os meninos que tiveram a pouca sorte de nascer naquele momento, nasceram todos cegos, com os olhos queimados pela ventania de fogo demoníaco. Aí, agitando como remos as patas dianteiras e usando como velas suas asas de morcego, cobertas de pedrarias, Bruzacã nadou para a praia, emergindo ali, por inteiro, sua figura gigantesca. Pousando os cascos na areia, rompeu pelo bosque de cajueiros e correu para o Sertão num galope estralejado de animal feroz, sumindo-se no horizonte, que fumegava. Disse o Vaqueiro que, à medida que a Bicha se sumia na terra, ia sofrendo uma transformação: sua dupla natureza demoníaca ia perdendo o que tinha mais de monstro-marinho e assumindo outras partes mais felinosertanejas, como garras e corpo de Onça, ou Cachorra-Cantadeira. O Vaqueiro, cujos olhos tinham sido miraculosamente preservados, desceu então o monte e olhou para o lugar onde ela se sumira. A passagem do Monstro tinha aberto, a fogo, na Mata um rombo enorme, um túnel fumegante que dava para passar dois trens! Era como se tivesse passado um Cometa: o chão estava raso e coberto de cinzas. Mesmo mais para longe, numa distância enorme, as árvores estavam com as folhas crestadas e secas, como se tivessem sofrido dois anos de estio. As reses e animais de sua tropa estavam todos no chão, mortos, queimados, erguendo para o céu as patas reviradas! Abalado por tudo o que visageara, pesaroso pela perda do rebanho, mas ainda dando graças a Deus por ter escapado com vida, Manuel Inácio dali mesmo voltou. Agora, para os lados do Mar, tudo se acalmara. As águas, azuis aqui, verdes ali, violetas acolá, brilhavam de novo, serenas, limpas e afiançáveis. Sob o Sol de ouro e cobre, pareciam um Espelho azul e prata, um Espelho que só mostrava sua natureza de Tigre perto dos rochedos castanhos, que ele mordia e tentava despedaçar com suas garras. Na própria Terra, os mugidos tinham cessado: ouvia-se, agora, apenas um arfar incansável, que era, talvez, o sopro altivo, triste e corajoso dos humanos, debatendo-se, no Mundo, como insinuava Vicente de Carvalho, com nosso Destino cego e indecifrável. Vossa Excelência, Senhor Corregedor, me pergunta, então, como é o Diabo, se eu acredito nele, e como é que ele aparece... Não posso dizer com exatidão! Nessas horas de visagem, o sol costuma deslumbrar, encandear e cegar, fazendo o Mundo tremer em nossa vista! Ouve-se, roncando, a ventania abrasada do mundo, e a gente fica sem saber se é mesmo o vento, soprando em lufadas ardentes que nos crestam a pele e nos racham os lábios, ou se é a fornalha do Inferno que, fendendo o chão, se escancarou ali perto, dando saída à secura e à violência do fogo, assim como à tribo malfazeja dos Diabos que invadem o mundo, contribuindo para seu concerto e desconcerto com seus urros, pios e guinchos de Danados! - Quer dizer que, para o senhor, o Mar e o Sertão são as diabólicas? - É verdade, Senhor Corregedor, mas não são eles somente n§o, é o Mundo todo! E lhe digo mais: por mais temerosa que seja a Bicha Bruzacã em forma de monstro-marinho ou de Onça diçoada, alada e cantadeira das fumas sertanejas, aí pelo menos a ainda tem uma forma epopéica! Garanto ao senhor: eu tenho quito mais medo e muito mais horror ao Diabo das cidades, que cara de funcionário aposentado, que anda às vezes de bicicleta, vestido de preto, com chapéu-coco, com um ar esquerdo e maldoso, em pleno sol, sem suar nada, absolutamente nada, o que, como todo mundo sabe, é coisa do Danado! Mas, felizmente, se o Mundo essa face diabólica, possui também a divina. Mostrei ao r, como diz clemente s , "a face esburacada e demoníaca do os, no seu apecto marinho e no seu aspecto sertanejo". Mas, lado dela, existe a outra, a angélica e paradisíaca. Aliás, não eu, simples charadista e Acadêmico sertanejo quem diz isso , é gente consagrada e importante, como o Cantador e poeta ydes da Cunha. Euclydes da Cunha é, também, meu Precursor, o José de Alencar: é recusado, ao mesmo tempo, pela Direita pela Esquerda, e ainda foi membro da Academia Brasileira de ras. Com essa autoridade que o torna indiscutível ele nos nstra no seu tratado Os Sertões que o nosso Sertão tem uma de Inferno e Paraíso. Acontece, porém, que Euclydes da , por mais genial que fosse, era apenas um precursor meu: era Astrólogo e Decifrador, nem era o Gênio da Raça Brasi, de modo que não sabia que, na verdade, a face do Sertão tripla, e não dupla! É o Inferno, o Purgatório e o Paraíso; parte macha, uma macha-e-fêmea e outra somente fêmea aturnal, a Solar e a Lunar. É por isso que, depois de olhar a pada infernal, com a Furna de Bruzacã, com a ventania do erro, com os Gaviões bicando os olhos dos borregos e cabritos, assa Excelência, se quiser entender, bem mesmo, tudo isso, e limpar os olhos e ver, no tempo das águas, num ano de boas chuvas, já em junho, quando as trovoadas passaram e os tios se limparam do turvo das enchentes, uma água rasa e clara 4eslizando, como prata, sobre a areia incrustada de cristais relutes. E ainda: o fulgor das malacachetas; os seixos amarelos, 'k*ncos e vermelhos das encostas e ladeiras; os poços dos rios, já meio secos, cuja água se retém, entretanto, por entre grandes pedras, e' que nos oferecem, quando estamos caçando e com sede, o desCnso, a sombra, a carícia do vento tornado suave pela proximidade

ENCARNAÇÃO DA BICHA BRUZACÃ. PELA BALEIA QUE TAPARICA COLOCOU EMBAIXO, VE-SE A ENORME SUPERIORIDADE ATE DOS MONSTROS LATINO-AMERICANOS SOBRE OS BESTISSIMOS MONSTRINHOS ESTRANGEIROS QUE APARECEM EM OUTRAS EPOPÉIAS - SE BEM QUE O CACHALOTE AÍ REPRESENTADO SEJA BRASILEIRO, POIS FOI COPIADO POR TAPARICA DO RETRATO DE UM DESSES BICHOS, QUE SÃO FREQUENTÍSSIMOS, AQUI NA PARAÍBA, NA PRAIA DA COSTINHA.

da água; e a floração das jitiranas de campânulas roxas ou azuis; das marias-brancas puras e imaculadas, parecidas com o jasmim-cambraia; dos pingos vermelhos dos feijões-de-pombo, que aparecem comumente no descampado, mas que eu posso imaginar sob a fronde umbrosa dos angicos e baraúnas, ou mesmo sob os pés de pau-d'arco-amarelo, misturando heráldicamente seu vermelho de goles ao amarelo de ouro que chove de cima sobre nós, cobrindo nosso rosto e nossos cabelos. Entendeu agora, Excelência? Segundo eu li num artigo do Almanaque Charadístico, os antigos possuíam uma "Fonte do Cavalo", na qual os Poetas bebiam sua água e sua inspiração. Homero, se tivesse existido, teria bebido nela. Pois esta tripla face do Sertão, que lhe descrevi, com sua Chapada diabólica, seu Purgatório de chamas e com sua Fronde paradisíaca de riachos, roçados, açudes e pomares, é a minha particular, única e régia "Fonte do Cavalo Castanho": é neste Sol que queimo meu sangue, é nesta Agua que embebo meu Sol, esta é a Fonte do cavalo sertanejo que galopa no meu riso e no meu sangue, o sangue da terra de onde sai tudo o que sonho, como Visionário, Astrólogo e Profeta sertanejo que sou! - Meu caro Dom Pedro Dinis Quaderna, observei que o senhor desfiou alguns trechos do que me disse assim meio enfiado, como quem já sabe tudo decorado! - É verdade, Excelência! O fato é que, apesar do cotoco, eu tenho conseguido não escrever definitivamente mas pelo menos arrumar algumas anotações para a Epopéia e essas que o senhor notou foram algumas delas! - Mas o senhor falou em prosa! - Pretendo versificar tudo um dia, seguindo o exemplo das melhores autoridades brasileiras sobre o assunto.

- Está bem, mas, como já lhe disse, o que me interessa mais é o inquérito e os acontecimentos ligados ao rapaz do cavalo branco. Na sua opinião, aquilo tudo que sucedeu a ele no dia I de junho de 1935 foi um acontecimento saturnal, solar ou lunar? Infernal, do purgatório ou paradisíaco? - As três coisas, Senhor Corregedor! É por isso que, na minha Epopéia, quando, lá um dia, o senhor for lê-Ia, olhando com cuidado encontrará um Inferno, um Purgatório e um Paraíso - o Pai, o Diabo, o Filho, a Mulher, e o Espírito Santo - Saturno, o Sol e a Lua. É por isso que eu lhe contava como, naquele dia, além dos bichos visíveis que vinham nas carretas, a Estrada estava povoada de bichos invisíveis - Arcanjos alvos e reluzentes, como um bando de Garças ou Cisnes de fogo, e Demônios escuros e peludos como morcegos gigantescos, com corpo de Onça, encarnações invisíveis de Bruzacã que enchiam o Tabuleiro seco e Pedregoso com os ladridos diabólicos e os estalos e ridimunhos de suas asas sangrentas. Talvez fossem, mesmo, as Espadas de fogo dos Anjos e os ladridos dos Demônios - e não o Sol - que, retinindo nas pedras como uns martelos, estivessem desferindo aquelas lascas de fogo cintilante, capazes de encandear e cegar a vista. É possível, também, segundo vive dizendo Clemente em seus arrebatamentos de Filósofo sertanejo, que o próprio Mundo, diante do qual se encontrava o Donzel naquele instante, "fosse um animal monstruoso, uma Onça-Parda enigmática, que nós tivéssemos de capturar e domar, sob pena de morte". Não sei, Senhor Corregedor! O que eu sei é que, como diz o ditado, "quem tem medo de Onça não se mete a andar no mato". Agora, aqui, como Acusado, evoco aquele Donzel de linhagem sertaneja, cuja aparição desencadeou toda aquela história. E, sem eu querer, meu sangue repete aqueles versos do genial vate Antônio de Castro Alves, quando cantou em sua Viola de prata, cravejada de negro, um "joão sem direção", uma espécie de judeu-errante brasileiro e sertanejo, que não era senão o meu Donzel do cavalo branco, dizendo o poeta em seu cantar-baiano: - Nesse momento, Senhor Corregedor, chegavam os Cavaleiros a um alto, no topo de uma ladeira da Estrada, lugar de onde se descortinam os primeiros telhados e a torre da Igreja Nova da nossa Vila.

- Um momento, Dom Pedro Dinis Quaderna! - interrompeu o juiz. - É nas proximidades desse - alto que existe um lajedo no qual o senhor costuma subir, ninguém sabe direito pra quê? Ah, nobres Senhores e belas Damas de peito brando! Estremeci de terror, ante a pergunta e o tom em que fora formulada! Mas como vi que ele já estava pelo menos informado de alguma coisa a esse respeito, adotei novamente a atitude de "ser sincero para mostrar inteira boa-fé". Disse: - É exatamente aí, Senhor Corregedor! E como não queria me deter no assuntó, voltei imediatamente à narração: - Naquele lugar, o Doutor do cavalo preto, o Doutor Pedro Gouveia da Câmara Pereira Monteiro, deu uma ordem rápida, e a cavalgada apressou o passo. Os cavalos, animais de Cigano, .~ados com rigor, não entraram propriamente no trote, no chouto, calvez para não quebrar a dignidade do cortejo. Apenas apressaram a pisada do "meio", numa quase "esquipação", e foi assim, nesse cesso régio, que embocaram de Vila adentro. Como todo mundo ativesse reunido na Praça para as Cavalhadas, só mesmo os maiores madraços e os mais danados moleques de rua foi que avistaram, de início, a "desfilada moura", como, depois, a batizou $amuei. Mas foi, mesmo, para a Praça que ela se dirigiu, já então acompanhada por todos os bêbados, doidos, mendigos e moleques que estavam por ali, nas beiras das calçadas da periferia. De ,peado que, para usar uma expressão do meu Mestre e precursor, .Dom José de Alencar, quando as pessoas gradas avistaram a I valgada de ciganos, foi já seguida da "república de todos os gtiopins da Vila". Posso então, agora, tirar todo o pessoal da Praça daquela situação incômoda e tensa em que o deixei. Acho que nem mesmo José de Alencar seria capaz de descrever a Wofundeza da impressão causada por aquele "comboio de malammbrados", quando, diante das autoridades, dos Fidalgos, dos burgueses e do Povo, desembocaram os Cavaleiros e as carretas ca animais enjaulados, com as bandeiras desfraldadas e o FradeCAngaceiro à frente. Parando todo mundo no centro da Praça, o Donzel do cavalo branco, sempre com uma expressão ainda sanhosa e meio alheada de tudo, tirou do cinturão uma corneta de caça, U as buzina feita de chifre e cravejada de prata, e desferiu nela Um toque surdo, grave e plangente. Como se aquilo fosse um sinal combinado, os homens que vinham com os Gaviões do cortejo tiraram as máscaras de couro e os protetores das garras dos pássaros e soltaram-nos, desapertando as 1_.-ha. que os Prendiam. Os Gaviões partiram para o alto, como flechas, dando 'pios agudos e selvagens, que pareciam tinidos de metal, e foram se distanciando em círculos cada vez mais altos, até que se perderam Aos ares. Ao mesmo tempo, alguns Cavaleiros ciganos desmontavam com grande rapidez é abriam as jaulas, libertando no meio da "Não sei quem sou. A mim, dentro do Peito, um Sol-terrível bebe o Sangue e a vida! Príncipe-Errante que, no fim da Estrada, tem uma Esfinge, numa Cruz erguida! Sou o Pau-d'Arco que, florado em Ouro, a Morte e o Cetro na Coroa encerra: Vivo - que vaga sobre o Chão da morte, Morto - entre os vivos, a vagar na Terra!"

FOLHETO LVII

Invasão e Tomada da Vila

Praça os Veados, os Pavões, as Garças, as Cobras e, sobretudo, as Onças - toda a fauna selvagem que vinha nas carretas. Foi um verdadeiro deus-nos-acuda, Senhor Corregedor! O Comendador Basílio Monteiro dizia-me depois, na redação da Gazeta de Taperoá, que "quase tivera um delíquio", comentando ainda, com uma frase habitual dele, que "uma cena daquelas só num país desgraçado, como o Brasil, porque num país organizado, na Alemanha ou nos Estados Unidos, seria rigorosamente proibida pelo Governo". A intelectual Dona Carmem Gutierrez Torres Martins, mãe aqui da nossa Margarida, afirmava, por sua vez, que descera do palanque sem saber como e, quando dera acordo de si, estava no beco da Igreja Nova, onde lhe acontecera estranho caso com um cachorro esquisito que ainda hoje ninguém sabe se também tinha vindo nas carretas ou não. O Sargento-Delegado e os outros Soldados do nosso invicto e denodado Batalhão de Segurança do Estado da Paraíba escafederam-se para São João do Cariri, deixando a cidade "nas mãos daqueles salteadores que tinham invadido a rua, ninguém sabe com que intuitos sinistros", conforme dizia o telegrama enviado, logo à noite, pelo Prefeito para o Governador. O Doutor Samuel e o Professor Clemente, sem se deterem a examinar as implicações poético-monárquicas ou comuno-filosóficas do acontecimento, sumiram-se sem que ninguém visse como. Aliás, esclareço que `não por covardia, porque os mais corajosos foram os que correram logo: os mais frouxos ficaram pregados no chão, imobilizados pelo terror, só encontrando forças para correr depois, quando o pavor aumentou tanto que venceu a paralisação que tinha causado antes. O que eu achei mais estranho porém, Senhor Corregedor, foi que os Ciganos também correram. Esporeando os cavalos, puseram-se a salvo, acampando depois, quando já passara a confusão e todos os animais tinham fugido para a Catinga, naquele mesmo Tabuleiro que fica fora da rua e perto do nosso aprazível "Cemitério da Consolação". Quanto aos simples assistentes e ao pessoal da Cavalhada, inclusive meus irmãos, esse debandou todo, assim como debandaram também os dois ilustres varões que nos governavam. De modo que, quando o pandemônio cessou, sem que tivesse havido nenhum acidente sério, só se mantinham na Praça o Doutor, o Frade, o rapaz do cavalo branco e Dom Eusébio Monturo.

FOLHETO LVIII

A Aventura da Onça Mijadeira

- Esse foi um ato, aliás, Senhor Corregedor, que me levou a admirar cada vez mais a coragem nunca desmentida daquele meu grande amigo, "O Paladino do Povo", o único verdadeiro Paladino que conheci, sempre pronto a arriscar sua preciosa vida por seus ideais e pela justiça! As pessoas que não têm conhecimento das coisas, viviam falando dele, dizendo que Eusébio tinha sido aposentado do seu lugar de funcionário público "depois de uma história de desfalque, na qual ele só não tinha sido preso em atenção a seu honrado e ilustre irmão, o Comendador Basílio Monteiro, e também porque este Brasil é um país sem jeito". Diziam que Dom Eusébio era um mentiroso terrível, "um infame maldizente, falcatrueiro e sem escrúpulos, capaz de jogar lama sobre as mais ilibadas reputações da rua". Mas eu, que tenho, cá, minhas opiniões, respondia sempre que Dom Eusébio tinha alguns defeitos, como todos nós, mas nenhum dos defeitos dele era pequeno, vulgar e mesquinho: eram todos grandes, generosos e avultados. Suas mentiras eram enormes, heróicas, urdidas com típica coragem. Até o desfalque que ele dera, não tinha sido, absolutamente, um desses desfalques mesquinhos, sujos e miúdos de funcionário público, não: fora logo um desfalque para valer, um alcance de empenar, um desfalque à altura da grande alma do nosso Paladino do Povo. Seguindo Samuel, eu explicava que "uma coisa é uma alma pura e outra é uma alma grande": Eusébio não seria, talvez, uma alma pura, mas era, sem dúvida, uma alma cheia de grandeza. E que era homem corajoso, isso não há mais quem discuta, mesmo entre as pessoas que não gostavam dele, na rua. O que acontecia é que ele era um pouco azarado em seus acessos de coragem. Em seus momentos de mau humor, Eusébio se virava por cima de mim, por causa de sua má sorte. Chamava-me "o Covarde Sortudo", e apelidava-se a si próprio de "o Valente Azarado", acrescentando que, enquanto eu "tinha sorte na covardia", ele era "azarado na coragem". Se ele tinha razão no que se referia a mim, não sei, mas, em relação a ele, era verdade. Naquele dia, por exemplo, como eu vinha dizendo, foi Dom Eusébio Monturo a única pessoa que teve coragem de ficar na Praça. Ao se ver sozinho, "cercado só de feras e de fujões acovardados", como ele me contava depois, gritou, com voz desafiadora, como era de seu costume nas ocasiões de perigo: - "Covardes! Correndo e des moralizando o Povo Sertanejo! Mas o Paladino do Povo não corre não! Onélia, traz o meu rifle!" - Anote aí, Dona Margarida, que, segundo se depreende dessas palavras, Dom Eusébio e seus amigos tinham, todos, armas em casa, isso apesar de todas as batidas que o inolvidável Presidente João Pessoa mandou realizar para apreender as armas dos Sertanejos em 1930! Para aliviar o fato, ponderei: - Senhor Corregedor, é verdade que Dom Eusébio Monturo tinha um rifle, mas isso absolutamente não ameaçava a segurança do Governo da Paraíba, porque nunca lhe sucedia estar ele com a arma, nos momentos de necessidade. Gritava então pela mulher, para que ela o trouxesse. Mas isso também não tinha resultado, porque Dona Onélia era surda como uma porta e nunca atendeu a essas ordens em momento nenhum. Isso chegou a tal ponto, que a frase "Onélia, traz o meu rifle" ficou proverbial, na rua, para os momentos de brabeza sem conseqüências. Pois bem: naquele dia, brabo que só uma Capota choca, Dom Eusébio Monturo ficou no meio da Praça, feito um pião doido ou uma cobra assanhada, virando-se para um lado e para o outro, e gritando: "Como é? Todos correm, é? Pois apareça uma Onça de coragem, para topar comigo! " Infelizmente, Senhor Corregedor, as Onças, perturbadas, também, pelo barulho, tratavam era de correr para os Tabuleiros e Catingas, procurando lugares onde houvesse furnas, pedras e mato para elas se esconderem, de maneira que não aparecia nenhuma, para topar com Eusébio. Ele insistiu: "E possível que não apareça uma Onça para eu me vingar desta tentativa de desmoralização? Não posso ficar desmoralizado de jeito nenhum! Era o que faltava, esse comboio de Onças, correndo pra cima e pra baixo no meio da rua, sem licença da Prefeitura! Apareça uma Onça, que eu mostro a ela quantos nós existem do focinho ao fiofó! " Nesse momento, Senhor Corregedor, uma velhinha, Dona Nanu, que morava na Praça, gritou para Eusébio, de dentro da casa dela: "Compadre Eusébio, me acuda, que aqui tem uma Onça! Se o que você quer é Onça pra topar, venha, que aqui tem uma, debaixo da minha cama!" Como uma fúria, o Paladino do Povo correu para lá e entrou na casa. Sem atender aos pedidos de que não se arriscasse, feitos por pessoas que tinham se acolhido à casa de Dona Nanu exatamente para fugir das Onças e agora se viam, espavoridas, encurraladas com uma, Dom Eusébio Monturo entrou na casa da comadre, parou no limiar do quarto de dormir dela e disse, com ar solene e majestoso: "Onde está esse animal felino, cruel e predatório?" Dona Nanu explicou, de longe: "Está ali, debaixo da minha cama, por trás do penico-cuba! Mas o senhor está desarmado, Compadre Eusébio? Assim, não vá não! Não vá não, que é morte certa!" Aí foi que Eusébio ficou brabo! Gritou: "Não vou, minha Comadre? Que não vou é esse? Quem é que não vai? A senhora me desculpe, mas eu vou, vou demais! Não posso ficar desmoralizado de jeito nenhum! Já imaginou? Se eu não for, essas Onças vão ficar, dagora em diante, no maior dos atrevimentos! Que é que essas pestes estão pensando, hein? Que podem entrar na minha Vila, na Vila do Paladino do Povo, assim à vontade, entrando e saindo quando querem e até tendo o atrevimento de se meterem debaixo das camas de comadres minhas? Ah, não, estão muito enganadas! Taperoá não é cu-de-mãe-joana não!" E então, Senhor Corregedor, magnífico de coragem e paladinice, Dom Eusébio Monturo entrou no quarto, abaixou-se junto da cama, pegou a Onça pelo rabo e começou a puxá-la para fora. As pessoas que estavam na casa de Dona Nanu, vendo aproximar-se a conclusão heróica daquela aventura extraordinária e notando, por outro lado, que os outros bichos já tinham desertado da Praça, acompanharam Dom Eusébio, que já transpusera a porta da rua. A Praça, também, pouco a pouco, se reenchia com os primeiros curiosos que iam voltando; de modo que foi diante desse pessoal sarapantado que Dom Eusébio Monturo apareceu triunfante, arrastando a Onça pelo rabo, como mais um troféu de sua nunca desmentida coragem. Infelizmente, porém, Senhor Corregedor, aí é que vem o azar de meu querido amigo. Pelo que se esclareceu depois, parece que todas as Onças que tinham vindo com os Ciganos eram ferozes. Todas, menos aquela, que era uma velha Onça de circo, decadente, fêmea e desdentada, mantida pelos Ciganos como chamariz de feira. Tinha sido, para o Doutor Pedro Gouveia, o ponto de partida para aquela idéia genial da entrada na Vila. Na hora do barulho, por engano, fora solta com os bichos selvagens. De modo que, quando Dom Eusébio Monturo começou a puxá-la para a Praça, diante do Povo embasbascado, a Onça começou a ganir de terror, com uns miados queixosos que pareciam o choro de um menino novo. E, o que foi a parte pior, mijou-se e cagou-se toda! Pois bem, Senhor Corregedor: a humanidade é tão ruim que, no mesmo instante, exatamente aquelas pessoas que estavam mais apavoradas e que, caso a Onça fosse mesmo feroz como pensavam, teriam sido salvas pelo gesto heróico de Dom Eusébio, foram as primeiras a cair na gargalhada. Mal o meu amigo, com um gesto sobranceiro e desdenhoso, largava o rabo da Onça, saltando também de lado para não ser atingido pelos esguichos de mijo e por algum perdido bolotinho de merda, um engraçado gritou: "A Onça mijou-se e cagou-se! Dom Eusébio Monturo é tão brabo que faz Onça se mijar!" Outro, levando a idéia adiante e aproveitando o fato do Paladino se encontrar de costas, gritou: "Eusébio Mijurético! " Dom Eusébio,furibundo, voltou-se e gritou: "Apareça um sacana, aí, que seja homem, para dizer, de frente, o que disseram comigo de costas!" Imediatamente, Senhor Corregedor, todo mundo se amoitou. Ficaram calados, mudos e acovardados. Dom Eusébio provocou-os de novo: "Estão vendo? Estão vendo que são é uns covardes, mesmo? Pois a covardes eu dou é o meu desprezo!" E, ao dizer isso, saiu. Imediatamente o coro dos desocupados começou a acompanhá-lo em surriada: "Eusébio Mijurético! Purgante de Onça! Cagão de Maracajá! " Ainda o acompanharam por alguns instantes. Mas logo, vendo que não obtinham mais a atenção dele, mesmo os mais encarniçados deixavam Dom Eusébio Monturo em paz e voltavam à Praça, curiosos de saberem quem eram aqueles três estranhos Cavaleiros que tinham chegado e o que pretendiam, afinal, em nossa Vila.

FOLHETO LIX

O Grande Pretendente

- Ao voltarem, porém, aperceberam-se de que os três já tinham se sumido da Praça. Porque, Senhor Corregedor, a maior sensação daquela tarde memorável ainda estava para acontecer. Nem foi, propriamente, a entrada sensacional dos Cavaleiros, nem a libertação dos bichos, nem a aventura, azarada mas paladínica, de Dom Eusébio Monturo. Foi que o Frade, o rapaz do cavalo branco e o Doutor, tendo se dirigido, assim que a Praça se esvaziou, para o cartório de Seu Belo Gusmão, inteiraram-se, lá, de que essa modelar repartição já fechara suas portas desde o meio-dia. Encaminharam-se, então, à casa do Juiz da nossa Comarca, o Licenciado Doutor Manuel Viana Paes. E, esbarrando os cavalos à sua porta, interpelaram o Magistrado pela voz do Doutor: "Temos a honra de falar ao Doutor Manuel Viana Paes, Excelentíssimo Senhor juiz de Direito da Comarca de Taperoá?" De cima de um armário onde tinha se encarapitado com medo, o juiz respondeu com voz insegura: "Sou o Doutor Manuel Viana, mas se Vossa Senhoria ainda tem alguma Onça aí, peço-lhe que me evite a companhia dela! É contra meus princípios ser devorado por felinos!" Esclareço a Vossa Excelência, Senhor Corregedor, que, apesar de formado e esclarecido, o Doutor Manuel Viana Paes é um sertanejo, da Ribeira do Sertão do Rio do Peixe, de modo que não deixava de acreditar nuns certos rumores que correm, por aqui, a respeito de quem é comido por uma Onça - ou devorado por um jaguar, para ser mais tapirista e epopéico. Segundo certos adeptos do Catolicismo sertanejo, quem tem a desgraça de ser comido por uma Onça, não ressuscita no último dia não, quem ressuscita é a Onça! Por isso, meio cismado, o Doutor Viana, sempre de cima do armário, indagou ainda, cauteloso: "Quem é o senhor? Algum cigano? O Rei dos Ciganos?" O Doutor retrucou: "Qual cigano nem Rei nenhum, Senhor juiz! Sou o Doutor Pedro Gouveia da Câmara Pereira Monteiro. Bacharel em Direito e Advogado! Vim aqui para defender os direitos espoliados do meu constituinte aqui presente, porque este mancebo é, ninguém mais, ninguém menos, do que Sinésio Garcia-Barretto, filho do fazendeiro Pedro Sebastião Garcia-Barretto, assassinado nesta Comarca em 1930! Este é o rapaz que foi raptado no mesmo dia da morte de seu Pai, sumindo-se daqui até o dia de. hoje, quando reaparece para reivindicar seus direitos a seu nome e à sua herança!" - Senhor Corregedor, quando o Doutor Pedro Gouveia pronunciou essa frase tremenda, foi como se um corisco de pedralispe tivesse caído aos pés do Juiz e dentro da Vila, por onde a notícia logo se espalhou como um incêndio, causando sensação maior do que a libertação das Onças. "Então", dizia o Povo, terrivelmente abalado, "esse rapaz do cavalo branco é aquele mesmo Sinésio Garcia-Barretto, raptado em 1930, morto em 1932 e ressuscitado agora, milagrosamente, nesta Véspera de Pentecostes de 1935!" Lembro a Vossa Excelência que estávamos, então, naqueles dias de grande agitação política que antecederam a Revolução Comunista de 1935. 0 Povo acreditara, sempre, que Sinésio retornaria a qualquer momento para chefiar uma vaga Revolução Sertaneja que ninguém sabia realmente o que era. Assim não admira que estes tenham sido os acontecimentos que terminaram me obrigando a comparecer como acusado neste inquérito aberto agora por Vossa Excelência. De qualquer modo, estou de consciência tranqüila e, de certo modo, não tenho de que me queixar, porque, um dia, os acontecimentos daquele dia memorável, abrirão caminho à minha modesta pessoa para que eu me torne o Gênio da Raça Brasileira! - O senhor pretende ser o Gênio da Raça Brasileira? - indagou, irônico, o Corregedor.

- De fato, mesmo, já o sou, mas pretendo sê-lo também de direito, oficialmente declarado pela Academia Brasileira de Letras! Se eu for condenado neste Processo, mandarei tirar duas cópias de meus depoimentos, mandando uma para o Supremo Tribunal, como Apelação, e outra para a Academia, a fim de que os Imortais me dêem, oficialmente, o título, nem que seja por levar em conta que eu criei um gênero literário novo, o "Romance heróico-brasileiro, ibero-aventureiro, criminológico-dialético e tapuio-enigmático de galhofa e safadeza, de amor legendário e de cavalaria épico-sertaneja"! - Dom Pedro Dinis Quaderna, nem eu, nem a nossa Dona Margarida, aqui presente, queremos desanimá-lo, não é, Dona Margarida? Mas o senhor acha, mesmo, que tem condições para que á Academia Brasileira lhe outorgue, oficialmente, esse título? - Ah, tenho, Senhor Corregedor! Primeiro, porque sou o mais autêntico representante da nossa Raça! Samuel é somente godo-ibérico, como diz ele. Clemente é apenas negro-tapuia. Ora, eles dois, num dia em que estavam examinando minha genealogia, chegaram à conclusão de que eu tinha tudo quanto era de sangue, inclusive umas gotas de sangue negro e de sangue cigano! Vossa Excelência me provou, ainda agora, que eu tenho sangue judaico, como Paraibano de cotoco que sou! Assim, sou o único escritor e Escrivão-Brasileiro a ter integralmente correndo em suas veias o sangue árabe, godo, negro, judeu, malgaxe, suevo, berbere, fenício, latino, ibérico, cartaginês, troiano e cário-tapuia da Raça do Brasil! Finalmente, tendo estudado cuidadosamente, com auxílio do Almanaque Charadístico e das Postilas de Retórica, a receita das Obras de gênio, cheguei à conclusão de que a única história realmente indecifrável e completa, a única que possui todos os ingredientes de Obra da Raça, é a terrível desaventura que aconteceu a Sinésio, o Alumioso. Depois de pronto e devidamente versado, o meu será portanto, no mundo, o único Romance-Acastelado, cangaceiroestradício e cavalariano-bandeiroso escrito por um Poeta ao mesmo tempo de pacto, de memória, de estro, de sangue, de ciência e de planeta. Ora, Sinésio, morto e desaparecido da maneira que lhe disse, mas também ressuscitado naquele dia, nas Catingas e estradas sertanejas, foi uma espécie de "João-sem-Direção", personagem guerreiro, principesco e errante do Cantador nordestino Natanael de Lima. Por isso, ninguém pode realmente contar a história de Sinésio, ninguém sabe qual foi, mesmo, sua verdadeira direção e seu verdadeiro destino, de modo que ninguém, exceto eu, pode contá-la e ninguém, portanto, exceto eu, pode vir a ser o verdadeiro Gênio da Raça do Brasil! - Muito bem, acredito! O senhor disse, aí, que somente o senhor é quem pode contar a história: registro e aceito essa declaração! Foi exatamente esse, aliás, o motivo que me levou a intimálo! O senhor portanto, Dom Pedro Dinis Quaderna, vai me contar essa história tintim por tintim! Vamos voltar, então, ao inquérito e aos acontecimentos daquele dia 1.0 de Junho de 1935!

- Vossa Excelência manda! Lá vai tempo! - falei, para disfarçar meu terror, que aumentava cada vez mais. E continuei:

FOLHETO LX

A Furna Misteriosa - Como eu vinha dizendo, estávamos às vésperas da Revolução Comunista. de 1935. Ora, Sinésio concentrava em torno dele, durante todos aqueles anos, as esperanças de justiça da ralé sertaneja, como o senhor chamou há pouco. O Povo nunca perdera a fé na sua volta, quando ele, ressurreto, realizaria a Restauração, ou instauração de não sei que Reino, um Reino sertanejo no qual os proprietários seriam devorados por dragões e todos os Pobres, aleijados, cegos, infelizes e doentes ficariam de repente poderosos, perfeitos, venturosos, belos e imortais. Por isso, naquele Sábado, com a chegada epopéica do rapaz do cavalo branco, as duas idéias logo se juntavam num boato só. Sinésio viera para instaurar o Reino, e a guarda de Ciganos que o acompanhava não era senão a guarda-avançada de uma nova Coluna que o Fidalgo e Guerreiro-Brasileiro, o Capitão Prestes, enviara ao Sertão para rebelá-lo e subvertê-lo, como já tinha feito em 1926, com a célebre "Coluna Prestes"! - Anote, Dona Margarida, esse pormenor é importantíssimo! - disse o Corregedor.

Margarida obedeceu e ele indagou: - É verdade que o Comandante das tropas revoltadas de Princesa em 1930, Luís do Triângulo, vinha acompanhando o rapaz do cavalo branco? - É, sim senhor! - Quer dizer que a Coluna do rapaz do cavalo branco, no fundo, era uma fusão de remanescentes rebeldes da "Coluna Prestes" e do Exército daquele caricato "Território Livre de Princesa" que, em 1930, ousou levantar-se contra o Governo do Presidente João Pessoa, chegando aos extremos ridículos de proclamar a independência, forjando hino, bandeira, Constituição, etc.? - Senhor Corregedor, é difícil dizer isso com segurançá, porque, aqui no Sertão, depois que esse pessoal sertanejo entra num movimento desses, todo mundo, depois, troca de nome, para escapar aos inquéritos e denúncias. Se havia gente da "Coluna Prestes" ou que lutou, contra a "Coluna Prestes" nas tropas do rapaz do cavalo branco, eu não sei. Agora, Luís do Triângulo, esse tinha lutado no "Reino de Princesa" e vinha na Coluna do rapaz do cavalo branco: disso eu tenho certeza, porque Luís do Triângulo era meu amigo e eu estive com ele naquele mesmo dia! De um modo ou de outro, essas foram as razões pelas quais as pessoas mais ricas de Taperoá imediatamente se trancaram em suas casas, apavoradas, enquanto, pelo contrário, as ruas começavam a fervilhar de novo com aquela multidão de pobres e pedintes que, pouco antes, esperava tranqüilamente a Cavalhada. Foi então que sucedeu um acontecimento ao mesmo tempo inesperado e importantíssimo, um acontecimento que Vossa Excelência só poderá entender bem depois que eu lhe der algumas explicações. Eu já disse ao senhor que Dom Pedro Sebastião, Rei do Cariri, era o parente mais parente que eu tinha, sendo meu Tio, meu cunhado e meu Padrinho. Meu Pai, que era uma espécie de agregado, Conselheiro e Astrólogo particular seu, tornou-o para meu Padrinho de batismo, dando-me, por causa disso, o nome de Pedro - o outro nome, o Dinis, me veio de Dom Dinis, o Lavrador, Rei de Portugal, de quem nós, como todos os nordestinos que se prezam, modéstia à parte descendemos. Ora, com todos estes parentescos, e tendo sido, ainda, Dom Pedro Sebastião, meu protetor e pai de criação, não admira que, durante sua vida, eu tenha feito todos os esforços para aumentar o prestígio e o poder que ele tinha, no Cariri. Disseram ao senhor que fiz isso com má intenção, mas é mentira! Modéstia à parte, foi por bondade e devoção quase filial que eu tive a idéia de aproveitar a religiosidade sertaneja e meio fanática de meu Padrinho para, fazendo-o desfilar nas Procissões, descalço, vestido de sacos de estopa e com a cabeça cheia de cinza, de opa roxa e com cajado de Peregrino à mão, impressionar o Povo com o espetáculo daquele homem poderoso que, voluntariamente, se humilhava assim, diante de todos! Fui eu, também, que convenci meu Padrinho a figurar como Imperador do Divino Espírito Santo, entre Natal e Reis, quando nós, com nosso "Auto de Guerreiros", dançávamos diante dele. Com essas coisas, o Povo Sertanejo, que já considerava meu Padrinho como seu Chefe espiritual, passaria, como passou, a ver nele um Rei, que impressionava os Pobres com as roupagens, mantos e Coroas que eu inventava para ele nessas coroações e cerimônias das Folias do Divino Espírito Santo! Lá um dia, porém, Senhor Corregedor, eu comecei a me aperceber de que a imagem de Profeta e Rei que eu estava, aos poucos, forjando para meu Padrinho - com grande desgosto para a Aristocracia, os Burgueses e os intelectuais da nossa Vila - era sempre prejudicada numa parte importante. Para Rei, Dom Pedro Sebastião se prestava demais, mas faltava-lhe alguma coisa para Profeta. De fato, meu Padrinho tinha todas as qualidades imperiais de Rei Sertanejo, pois era rico, poderoso; barbado, enigmático, imprevisível e Cavaleiro. Para Profeta, era, ainda, maravilhosamente meio doido, meio fanático e piedoso: faltava-lhe, porém, para que fosse um perfeito e acabado Profeta sertanejo, a condição de "pobre e perseguido pela justiça, pelo Governo e pela Polícia". Esta última parte ainda veio a ser corrigida, se bem que tarde, quando, em 1929, ele começou a ser hostilizado pelo governo do Presidente João Pessoa. Mas pobre, isso ele nunca foi. Percebi imediatamente que, ao primeiro Profeta que aparecesse, meio doido e barbudo como ele, mas ainda por cima pobre e perseguido pelos poderosos, a posição de Chefe espiritual conseguida por mim para meu Padrinho com tanto esforço, poderia ser arrebatada, o que não me interessava de jeito nenhum, porque, sendo seu sobrinho, minha sorte e minha linhagem monárquica se identificavam de certo modo com a Monarquia e com a sorte dele! Novamente levado pelo orgulho eu ia longe demais! Cego, porém, pelas sertanejíssimas divindades gaviônicas, não me apercebi de nada, e continuei, enredando-me cada vez mais nas teias da cegueira, do orgulho e do processo: - Lembrei-me então, Senhor Corregedor, de que, num pé-deserra situado dentro das terras da "Onça Malhada", morava, há uma porção de anos, uma figura estranha, o Velho Nazário Moura, um sujeito que enviuvara, ficando na companhia de sua única filha, uma moça chamada Esmeralda Moura, mas conhecida pelo apelido de Dina-Me-Dói. Depois que sua mulher morrera, o Velho Nazário ficara paralítico e dera para raizeiro, principalmente nas noites de lua, quando disparatava e dava para visagear e dizer coisas descabeladas. O Velho Nazário apareceu-me, logo, como a oportunidade que nós tínhamos de cortar o mal pela raiz, no que se referia à qualidade de Profeta de meu tio Dom Pedro Sebastião. Ele era pobre, raizeiro e meio doido. Por outro lado, não tendo astúcia, nem ambição, nem grandeza, não poderia, nunca, ameaçar a posição de meu Padrinho. Convenci então Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto a mandar buscar o Velho Nazário Moura para a "Casa-Forte da Onça Malhada". Daí em diante, cada ano, quando eu editava o nosso apreciado e famoso Almanaque do Cariri - tradição que vinha de meu Pai - publicava as Profecias e Eficazes Orações do Profeta Nazário, para quem edificamos uma casinha, pegada a uma Capela que logo começou a virar local de peregrinações e consultas para os Sertanejos. Nas Festas mais importantes, eu não deixava de convencer meu Padrinho a comparecer a essa Capela. E como o Profeta Nazário, na qualidade de morador grato, dava a Dom Pedro Sebastião as mostras de um respeito quase religioso, o prestígio de meu Padrinho se firmou definitivamente entre o Povo. Chegamos ao ponto de aquela desvantagem inicial se tornar um atributo profético a mais: o Povo começou a considerar Dom Pedro Sebastião como uma espécie de divindade superior, terrível e distante, a quem até os Profetas prestavam tributo e vassalagem! Pois bem, Senhor Corregedor: naquele dia, exatamente no instante em que o Doutor Pedro Gouveia comunicava ao juiz que aquele rapaz do cavalo branco era o mesmo Sinésio Garcia-Barretto, morto em 1932 e ressuscitado agora daquela maneira abandeirada e cavalariana - naquele mesmo instante o Profeta Nazário surdiu de um beco, meio deitado e meio sentado, em seu carrinho de madeira, barbado, paralítico, sujo, esmolambado, fedorento, grisalho, revirando os olhos e com todos os demais atributos de um verdadeiro Profeta sertanejo. Vinha empurrado por sua filha Dina, e dando grandes brados para o Povo. O Doutor Pedro Garcia Gouveia que desmontara do cavalo, entregara ao juiz Manuel Viana uma procuração, na qual Sinésio o constituíra Advogado, e uma petição que deveria ser anexada aos autos do inventário da herança deixada por Dom Pedro Sebastião. Sinésio e o Frade tinham permanecido montados; e foi quando o Doutor Pedro voltava para junto deles que o Profeta Nazário, empurrado em seu carrinho, desembocou do beco defronte da casa do juiz, gritando assim: "Meu Povo, eu vi! Eu vi a Furna da Onça-Pintada, com a Onça de Pedra na entrada, e outra Onça, viva, dentro dela! Eu vi, eu juro que vi! Na entrada da furna estavam as Coisas todas, pintadas na Pedra: a Onça, o Veado, o Gavião de um lado, e, do outro, a Traíra, o Bode, a Carneira e as Lamparinas de barro, tudo pintado no Preto e no Vermelho! E a Onça estava lá, dentro da Furna, com os olhos de brasa cercada de coriscos amarelos e zelações azuis, e um bocado de pedras-líspes encarnadas despencando do céu! Era uma Onça Malhada Cantadeira! Tinha um olho de Pedra-Verde e outro de Pedra-Encarnada, e, além da cabeça de Canguçu, ela tinha asas e duas cabeças de Gavião! Tinha pau e caceta de Onça-Macho e uma carreira de peitos de Bicha-Fêmea no bucho, porque ela era a Onça sagrada do Macho-e-Fêmea! Cheguei a ver, de perto, os bicos dos peitos dela, que eram peitos de tarraxa, cada um formado por uma pedra preciosa amarela! Eu vi, eu tive a Visão! Na testa ela tinha uma Coroa, um Diamante enorme, cercado por um cordão de Pedras-Verdes e por outro de Pedras-Vermelhas! As asas dela eram de navalha enferrujada e o Sol brilhava nelas! O rabo era uma Cobra-Coral, e tanto as pedras dos olhos como as pedras dos peitos tinham poder e azougue. Por isso, se a gente conseguir pegar essa Onça, a gente vai ser tudo feliz, rico, bonito, poderoso e imortal, bebendo o sangue do Sa362 grado e o Sol de aço das navalhas das Asas dela! Ela me dizia: `Venha, Nazário! Chame o Povo e metam o pé na Estrada, que, se vocês acharem a minha Furna, vão encontrar o Ouro, a Prata e os Diamantes! Ganham a Coroa da Pedra Cristalina, e eu, ainda por cima, faço a felicidade de vocês-!"

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