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A pedra do reíno e o Principe do Sangue do Vai-e-Volta

Ariano Suassuna

FOLHETO LXI

O Caso do Cego Teológico Quando terminei de repetir as palavras do Profeta Nazário, o Corregedor disse, com evidente má vontade: - Pelo que o senhor me contou da aparição do tal Bicho demoníaco na praia do Rio Grande do Norte, vê-se perfeitamente quem foi que meteu essas idéias e essas palavras na cabeça desse pobre demente que o senhor não se envergonha de confessar que explorava, aproveitando-se de sua simplicidade, de sua loucura e do fato de que ele dependia de seu Padrinho! Vê-se, também, quem, foi que andou metendo na cabeça do Povo essa história da libertação das onças, no momento em que o rapaz do cavalo branco tocava a buzina! - Pois se o senhor duvida de mim, pergunte aí a Margarida! Margarida, não é verdade que soltaram umas onças aqui, no meio .do Povo, naquele dia? E não é verdade que Nazário gritou para o pessoal que tinha tido uma visagem de Onça? - E, Senhor Juiz! - disse Margarida, mais 'uma vez a contragosto. - Agora, se ele falou foi desse jeito, não sei não! Eu, por mim, já ouvi dizer muitas vezes que foi esse homem, aí, que meteu essas coisas na cabeça de Nazário! - Está vendo? - falou o Corregedor, 'vitorioso. - O mais que pode ter acontecido é que Nazário tenha ficado impressionado com a libertação das Onças que ele acabara de presenciar, sendo essa a causa dos disparos que disse no momento! Então o senhor, talvez por estilo régio, interpretou tudo a seu modo! - Foi essa, também, a opinião de Clemente, Senhor Corregedor, apesar de que o nosso Filósofo não deixou de encontrar, logo, um sentido filosófico, etnológico e subversivo para a visagem de Nazário! Mas o Povo sertanejo, incapaz dessas sutilezas, começou, logo, foi a ligar a visão da Onça Cantadeira à missão que, segundo já se espalhava entre a ralé, Sinésio viria desempenhar na "Guerra do Reino do Sertão", missão que, segundo o Povo, tinha, evidentemente, ligações ocultas e desconhecidas com as Onças que ele trouxera nas carretas e mandara libertar. Por isso, a agitação, que já estava grande, começou a fermentar. E viria a crescer ainda mais com um novo incidente, provocado logo depois da fala do Profeta Nazário pelo Cego Pedro Adeodato Sobral, aquele mesmo Pedro Cego a quem Silvestre servira de guia, durante todos aqueles anos da desaparição de . Sinésio. Naquele dia, sem que ninguém tivesse se apercebido dele antes, Pedro Cego tinha se introduzido no meio da multidão, de viola a tiracolo e conduzido por um rapaz coberto de andrajos que, de modo semelhante a seu patrão, o Cego, conduzia uma rabeca. Os dois vinham acompanhados por um cachorro sertanejo, magro, arraposado, escorropichado, amarelo e de grandes orelhas meio-negras, um cachorro que, como soubemos depois, tinha o nome de "Cangati". Vossa Excelência, com certeza, sabe que os cegos sertanejos se agrupam em duas grandes categorias, os insolentes e os teológicos. Os teológicos são humildes, submissos, resignados, religiosos e pedem esmola de joelhos, nas calçadas e portas de igreja, ficando horas o horas ao sol, nessa posição martirizaste e profundamente humilde, com um ar de sofrimento milenar, capaz de comover até o coração dos comerciantes. Cantam sextilhas como esta: "O homem que pensa bem, sabendo se dirigir, vende a Terra é compra o Céu, faz escada pra subir em cima do chão da Terra, dando esmola a quem pedir".

os insolentes, aproximam-se de nós, dão-nos, com a mão esticada, uma espécie de facada em cima do fígado, e gritam asperamente: "Me dê uma esmola!" Quando não são atendidos, dizem os maiores desaforos, arregalam os olhos com o polegar e o indicador, exibindo as chagas purulentas e vermelhas que destroçaram seus olhos, e rogam-nos uma terrível praga, desejando que nós terminemos cegos como eles. Cantam assim: "Que o Diabo lá dos Infernos seja o Deus que te conheça. Que o Urubu te persiga o que teu Sangue esmoreça! Que te encontre logo a Morte o cague na tua Sorte cu da Mula-sem-Cabeça! " - Pois bem, Senhor Corregedor: havendo essas duas qualidades de Cego, pode-se dizer que aquele, Pedro Adeodato, pertencia, ao mesmo tempo, às duas categorias, pois era um cego insolente, sujeito a acessos teológicos. Cegara já adulto, aos vinte e cinco anos, mas tinha sido, antes, úm pouco Caçador, um pouco Cangaceiro, um pouco Cantador, um pouco bêbado e arruaceiro. Naquele sábado, aparecera, também, em Taperoá, aonde não vinha há muito tempo. Não fora notado até aquele momento porque entrara na rua, vindo da Vila do Desterro, pela estrada da Vila do Teixeira, isto é, exatamente pelo lado contrário ao da estrada de Campina e de Estaca Zero, e, tendo chegado quando as Cavalhadas iam começar, o Povo tivera a atenção desviada pela chegada de Sinésio e das Onças. Agora, porém, ouvindo as palavras do Profeta Nazário, Pedro Cego foi o primeiro a falar, aproveitando o momento de estupefação geral, causado pela comunicação da visagem da Onça-Cantadeira: "'Eu sei, Nazário, eu sei!', gritou ele, reconhecendo o Profeta pela voz. 'Eu sei onde é a Furna da Onça-Cantadeira! Quando eu ainda tinha vista e era Caçador, fui muito tempo, caçador de Onça! Vocês sabem que faca, quando entra em carne de Onça, fica enganchada no sangue e nas fibras da carne da bicha, não sabem? É por isso que, em Onça, só se dá uma facada, porque a carne da bicha tem tanto azougue e se agarra na faca de um jeito, que não tem força humana que tire ela de volta! Pois bem! Um dia, numa caçada de Onça, me lembro que me perdi numa serra cheia de pedras, lá para os lados da Espinhara. Aí, por volta do meio-dia, me enrolei com uma Onça e a luta foi uma das maiores em que já me vi metido. Me lembro de ter dado dezessete facadas na barriga da bicha!"' - Oxente! - interrompeu o Corregedor. - E ele não tinha dito que facada em Onça só se dá uma, porque a carne engancha a faca? - É verdade, Senhor Corregedor, mas, aqui no Sertão, é coisa sabida que toda história de Onça tem sempre um gaguejado, um pedaço mal contado pelo meio! Tanto assim, que ninguém ligou e Pedro Cego pôde continuar. Ele seguiu contando: "'Depois das dezessete facadas e de duas horas de luta, a Onça começou a afracar, perdendo sangue, e terminou morrendo. Mas o certo é que, quando a briga acabou, eu estava completamente arriado, sem saber onde me encontrava. Andei, perdido, vagando por todo esse Sertão velho, três dias! Pra que lado eu andei? Pr'o lado do Mar? Pr'os lados do Piancó? Pr'as bandas do Pajeú? Pr'as do Seridó? Não sei! O que eu sei é que, ao cabo desses três dias, meu Compadre Nazário, eu me achei dentro de uma Serra cheia de furnas e lajedos. Pelos sinais que descrevi "Já dela, depois, todo mundo achou que era a tal da Serra da Pintada! Perdido e com sede, vendo a hora de morrer por acolá, terminei desembocando, no pino do Sol, defronte uma Furna esquisita, com uma espécie de pátio na frente, com o chão de pedra e todo cercado de lajedos. Essas pedras, em roda da Furna, eram todas pintadas com figuras de gente e de bicho. Me disseram, depois, que aqueles bichos tinham sido pintados pelos Caboclos, o que eu não sei dizer se era verdade ou não! Agora, que tinha os bichos pintados, isso tinha, eu vi com esses olhos que estão cegos e que a terra há de comer! Era tudo quanto era de bicho, o tudo na maior safadeza! Era Onça comendo Veado, era Onça fudendo com Onça, era Onça fêmea sendo fudida por Gavião macho, era Onça macho fudendo Cabocla fêmea, era Onça fêmea sendo trepada por Veado macho, era o diabo!' "`E não tinha uma Onça de pedra na entrada da Furna não, Compadre Pedro Cego?', indagou o Profeta Nazário.

"`Não me lembro direito não, Compadre Nazário, mas era capaz de ter! Eu estava tão perturbado, que sou capaz de ter visto e não me lembrar direito! Mas, agora que você está lembrando, eu estou com idéia de ter visto uma história parecida! Parece que tinha, Compadre Nazário! Tinha, era isso mesmo! Tinha lá, uma Onça de pedra, com um chifre amolado e envenenado na cabeça e um par de asas nas costas! Tinha, ora se tinha! E aí, quando eu fui me chegando pra perto da boca da Furna, comecei a sentir aquela catinga de Onça que todo caçador conhece o que não engana ninguém! E que diabo de catinga danada era aquela, que eu fui sentindo, e sentindo, e fui ficando meio doido, meio afogueado, vendo maretas, e aí comecei a ver umas faíscas de fogo faiscando pra todo lado, e na mesma hora eu comecei a ouvir a zoada do Mar e uma musga velha e cega, que parecia tocada por viola, pife e rabeca e cantada por mulher com boca fechada! E aí eu olhei pra dentro do escuro da furna, e vi foi dois olhos de fogo olhando pra mim, e a musga ia tocando, e ia me chamando, e eu sabia que, se entrasse lá, aquela Onça ia deixar eu fuder ela, e a trepada minha ia ser tão danada de cachorro da molesta que eu ia morrer e ressuscitar três vezes, não mais como eu era, mas sim igual à Onça, ajuntado com ela numa fudida só pelo resto da vida, na trepada mais comprida e gozosa do mundo, uma trepada que não se acabava mais nunca e que durava enquanto o Sol e o sol da Onça durasse! E aí, que diabo de encantação foi aquela, que começaram os estalos das asas e as faíscas de fogo, e de repente, no meio da minha encantação, eu comecei a ter medo, e a pensar que a Onça ia era beber meu sangue e comer minha carne, deixando somente os ossos brancos, debaixo do Sol! Eu queria enterrar os pés e desabar dali, correndo pra trás, mas a musga me tonteava, me chamava pra dentro e eu sentia que ia morrer! Minha sorte foi me lembrar de meu Padrinho Padre Cícero e da Oração da Pedra Cristalina de Jerusalém, que eu tinha trazido do Juazeiro e trazia sempre amarrada no pescoço, escrita num papel e enrolando uma pedra que eu-tinha trazido do chão sagrado da terra do nosso santo Padre, meu Padrinho! Segurei a pedra na mão direita, e o papel na esquerda, e fui dizendo a Oração, que, eu sabia decorada! Aí a musga foi baixando, e meus pés foram ficando menos pesados, até que ficaram maneiros, maneiros! E eu me afastei uns passos da boca da Furna, e as coisas foram melhorando, até que eu pude dar as costas para a Onça, e correr de serra abaixo! Corri como um desadorado, como se tivesse vinte e quatro cachorros da molesta correndo atrás de mim! Daí em diante, não sei mais o que foi que aconteceu não! Me lembro somente de ter topado numa pedra e caído no chão. Pensei que ia me acabar, foi me dando uma agonia, tive uma oura, fiquei ali, sem dar acordo de mim, não sei quanto tempo, e o certo é que, quando acordei, foi com uns Tangerinos que estavam junto de mim, me dando água misturada com soro de coalhada e garapa de rapadura. Eles tinham me encontrado perto de uma beira de estrada, a umas vinte léguas do lugar em que eu tinha me perdido, não sei quantos dias depois! Não houve jeito d'eu encontrar, depois de acordado, o caminho que tinha seguido, da Furna até ali, onde acordei. Aí, veio a minha cegueira, e foi quando tive de deixar de banda tudo quanto foi de Onça, caçada e tudo o mais! Mas, se essa Furna e essa Onça são importantes e sagradas como você, Compadre Nazário, acaba de dizer depois de ter visto elas numa visagem, pode ser que eu, saindo de novo para aquelas serras brabas da Espinhara, acerte a me perder pelo mesmo caminho: e aí, com você me ajudando na procura, com a visagem, quem sabe se a gente não vai bater de novo com os costados na Furna da Onça-Cantadeira?'"

FOLHETO LXII

O Atentado Misterioso - Essas duas falas, Senhor Corregedor, contribuíram demais para aumentar, no Povo, a impressão causada por aquela sucessão de acontecimentos extraordinários. Foi isso, talvez, o que impediu os Sertanejos de ter, logo no primeiro momento, reconhecido no Guia do cego, no homem da rabeca coberto de andrajos, no companheiro e dono do cachorro "Cangati", ninguém mais, ninguém menos, do que o irmão bastardo do Sinésio, Silvestre. Este, por sua vez, só tendo chegado depois à casa do Juiz, não tinha ouvido a declaração do Doutor Pedro Gouveia sobre a identidade do rapaz do cavalo branco. O Frade, porém, ouvindo tudo o que Nazário o Pedro Cego tinham dito, ficou, de repente, com um ar grave o inspirado. E, do alto do seu cavalo, dirigiu-se, um pouco a Nazário, um pouco a Pedro Cego e um pouco para o Povo todo, dizendo: "`Meus filhos, quantas coisas sagradas e importantes foram pronunciadas aqui, agora! Tudo isso é coisa divina e misteriosa, de modo que vocês devem, antes de tudo, ouvir a palavra da Igreja, representada por mim! O nosso Príncipe do Cavalo Branco vai descansar um pouco na casa que foi de seu Pai. E eu, como homem de Deus que sou, vou para a Igreja, a fim de me preparar espiritualmente na Vigília para o dia sagrado de Pentecostes, que será amanhã. Depois de assim preparado pela oração, voltarei para este lugar, daqui a pouco, porque tenho a revelar ao nosso bom e querido Povo coisas da maior importância sobre o nosso Destino, tanto o destino da terra quanto o do céu!' "Enquanto o Frade dizia essas palavras, o Doutor Pedro Gouveia tinha montado novamente, juntando-se a ele e a Sinésio; o os três, esporeando os cavalos, começaram a caminhar em direção à velha casa que pertencia aos Garcia-Barrettos, aquela mesma casa que Arésio desprezara, ao regressar, e que permanecera fechada desde 1930, após a morte de El-Rei Dom Pedro Sebastião. Como logo se soube por informação do Doutor Pedro, Sinésio, 'ao contrário do irmão ruim, e mantendo-se fiel ao sangue de seu Pai', fazia questão absoluta de ficar morando na velha casa, atitude que logo predispôs ainda mais o Povo em seu favor. Ora, além da velha Casa-Forte da fazenda - moradia primitiva e mais antiga do primeiro Garcia-Barretto sertanejo - a família tinha, realmente, aquela outra, na rua. Os Garcia-Barrettos tinham doado uma parte das suas imensas terras para constituir o patrimônio da primitiva paróquia de Taperoá. Antes disso, porém, tinham separado outro pedaço de terras para a Igreja, erguendo ali, logo, uma Capela dedicada a São Sebastião, que, como sabemos, era o Santo de devoção particular da família, e construindo, também, uma casa pegada à Capela. Nesta casa se hospedaria o santo Padre Ibiapina, nas suas passagens de missionário pelas terras do Cariri. Tudo isso se dera durante o reinado de Dona Maria I, a Louca, avó do Impostor Dom Pedro I, sendo Governador e Capitão-Mor da Paraíba Dom Fernando Delgado Freire de Castilho. Em torno dessa casa e da Capela de São Sebastião é que tinha se edificado a nossa Vila. Os Garcia-Barrettos continuavam a morar na velha casa de Dom José Sebastião, a antiga 'Casa-Forte da Torre da Onça Malhada'. O casarão da rua era, apenas, moradia eventual da família, quando seus chefes vinham a rua para comparecer às feiras, às Missas, ou para cumprir suas obrigações monárquicas, isto é, para desfilar sob pálios, nas Procissões, para subir aos palanques nas posses dos Prefeitos, seus prepostos, para o dia Sete de Setembro, para as Cavalhadas, para as coroações dos Imperadores do Divino e outras realezas grandiosas do mesmo tipo. Pois era para esse casarão da rua que Sinésio, o Frade e o Doutor iam se encaminhando naquele momento quando, na Rua Grande, sob o portal do chamado `Casarão das Pinhas', avistaram um mendigo que, sentado na calçada, parecia alheio a tudo o que acontecera, e ali estava, com o rosto quase inteiramente coberto por um grande chapéu de palha de abas largas e caídas, o com o corpo inteiramente envolvido por uma espécie de cobertor ou manta colorida, que o cobria até os pés, como se ele estivesse com frio ou adoentado. Sinésio, que fora, ao que parece, o único dos três a dar importância ao mendigo, esbarrou seu belo cavalo branco - que, segundo soubemos depois, tinha o nome terrível de `Tremedal' - e, junto da calçada, falou com ele." - Seja o mais preciso que lhe for possível agora, Dom Pedro Dinis Quaderna! - falou o Corregedor. - Deixe de lado, um. pouco, o estilo régio, porque esse pormenor é importantíssimo para a elucidação do assassinato de Dom Pedro Sebastião, da morte o ressurreição de Sinésio, e de toda essa história da - como é que o senhor chama? - da desaventura novelosa e guerreira da tal "Guerra do Reino". Que foi que o rapaz do cavalo branco disse ao mendigo? O assunto era perigoso, de modo que procurei tergiversar e falei vagamente: - Excelência, isso tudo aconteceu há três anos, e até hoje ninguém chegou verdadeiramente a um acordo sobre quais teriam sido exatamente as palavras trocadas entre os dois. Uns dizem que Sinésio apenas ofereceu uma esmola, que teria sido recusada pelo mendigo. Outros dizem que ele falou no Testamento e no Tesouro, ambos deixados por Dom Pedro Sebastião, indagando alguma coisa sobre o Roteiro perdido desse Tesouro. E, finalmente, a maioria diz que Sinésio teria feito alusões misteriosas ao Reino e à sua Missão, o que não deixa de ser estranho, diante da aparente insignificância daquele mendigo.

- E qual é sua opinião pessoal sobre essas três versões? - Excelência, eu não tenho opinião nenhuma, e, na dúvida, passo a história adiante pelo preço que me venderam! Dizem que as palavras que Sinésio proferiu foram as seguintes: "Meu Velho, posso fazer alguma coisa para ajudar você? Vim por causa do Crime, da Herança e do Reino! Você sabe alguma coisa sobre o Caminho e o Roteiro? Onde é que eu posso falar com Antônio Villar? " - Como? - disse o Corregedor, quase pulando, de novo, da cadeira. - Antônio Villar? Ele perguntou por Antônio Villar? Anote, Dona Margarida, esse pormenor é importantíssimo! O senhor sabia, Dom Pedro Dinis Quaderna, que Luís Carlos Prestes, o Chefe dos comunistas brasileiros, mais ou menos por esse tempo estava entrando no Brasil secretamente, vestido de Padre, e adotando exatamente esse falso nome de Antônio Villar? - Naquele momento, eu ainda não sabia disso não, Senhor Corregedor, mas soube logo mais, à noite, por intermédio do Comendador Basílio Monteiro! Mas, no caso de Sinésio, permanece uma dúvida. A maior parte das pessoas, aqui, acredita que não foi a Luís Carlos Prestes que ele se referiu, não, porque existe também, aqui na Vila, um Fazendeiro com esse nome, pertencente à mesma família do Contra-Almirante Frederico Villar.

- Está bem, tudo isso será apurado! E que foi que o mendigo respondeu a Sinésio? - Dizem que ele respondeu assim: "Não senhor, não sei onde é que o senhor pode encontrar esse homem não, nem tenho o Dinheiro nem nada! Perdoe!" É estranho, não? - disse o Corregedor. - Primeiro, se fosse do fazendeiro que Sinésio tinha falado, o mendigo saberia dar a informação, porque esse Antônio Villar, o daqui, é conhecido de todo mundo. Depois, comumente, são os mendigos que nos pedem dinheiro e nós é que respondemos: "Não tenho agora não, perdoe!" - Pois se não aconteceu assim, foi assim que me contaram essa parte, Senhor Corregedor! Dizem ainda que, então, Sinésio olhou demoradamente o mendigo, sem dizer mais nada, porém. Após um momento, esporeou o "Tremedal", muito levemente, com grande delicadeza, como sempre fazia para não feri-lo, segundo soubemos depois. Ele, o Frade e o Doutor tomaram, de novo, o caminho do casarão dos Garcia-Barrettos, que ficava ali perto, pegado à Capela (hoje Igreja de São Sebastião). No momento, porém, em que os três iam chegando na esquina da Rua Grande com a Praça onde teria se realizado a Cavalhada, o mendigo com quem ele acabara de falar ergueu-se sobre um joelho, puxou, de dentro da manta que o cobria, um rifle, já engatilhado, e atirou no rapaz do cavalo branco. Poucos segundos antes, no entanto, o cavalo "Tremedal" tinha topado ligeiramente numa pedra, baixando e reerguendo logo a cabeça, por causa da topada. Sinésio curvara-se para afagar o pescoço do animal, significando-lhe, assim, que aquela topada involuntária dada por ele em nada prejudicara seu dono: foi esse gesto de afeição ao belo animal que salvou a vida de Sinésio, sobre cuja cabeça a bala passou zunindo, indo se cravar adiante, na fachada da Capela.

- Me diga uma coisa, Dom Pedro Dinis Quaderna: na sua opinião, o pessoal que mandou emboscar o rapaz na estrada foi o mesmo que mandou o mendigo atirar nele na rua? - O Povo por aqui acha que foi a mesma gente, Senhor Corregedor! - E quem foram os mandantes? - Dizem que foi o rico e poderoso Dom Antônio Moraes, acrescentando alguns que ele ordenou tudo por inspiração do filho dele, Gustavo Moraes, e com o consentimento de Arésio GarciaBarretto, irmão de Sinésio! Mas nada disso ficou bem esclarecido, Senhor Corregedor, de modo que volto aos acontecimentos provados o sucedidos diante de todo mundo. O falso mendigo, vendo que falhara no primeiro tiro, pôs-se rapidamente de pé. Viu-se, então, que ele não tinha nada de velho: era um rapaz moço, forte e mal-encarado. Manejando o rifle, que era um Cruzeta casca-de-banda, levou de novo a arma à cara e correu na direção de Sinésio, que parara o cavalo e se voltara para o lugar onde tinha soado o estampido. Mas enquanto o rifle era manejado, o Doutor Pedro e o Frade já tinham tomado as primeiras providências para defender o pupilo. O Doutor Pedro puxou uma pistola e esporeou o cavalo para cima do Cabra. O Frade, não conseguindo desafivelar logo o mosquetão que trazia às costas, compreendeu, porém, a intenção que movia o outro e impeliu também seu cavalo, a fim de, atropelando o homem do rifle, atrapalhar o segundo tiro. E foi o que aconteceu: perturbado com aquele tropel dos cavalos que vinham em sua direção ameaçando pisá-lo, o homem, que parecia visar somente Sinésio em sua tentativa, errou também o segundo tiro. Então, com velocidade surpreendente, o Cabra aumentou a carreira em que vinha,, livrou-se agilmente dos cavalos e, cruzando com o Doutor e o Frade, correu na direção de Sinésio. No aperto em que se encontrava, não pudera colocar terceira bala na agulha, o tudo indicava que sua intenção era lançar-se sobre Sinésio, agora para esfaqueá-lo. O Doutor Pedro, porém, esbarrando o cavalo, voltou-se e disparou a pistola sobre o Cabra. Este apercebeu-se, então, de que não havia mais jeito: a tentativa falhara de vez, porque ele fora ferido, se bem que levemente, e agora os dois vinham de novo sobre ele. Jogando fora o rifle para poder fugir mais velozmente, correu ele então pelo Beco da Igreja, na direção da Rua da Usina. Enquanto isso, o Frade conseguira finalmente desafivelar o mosquetão, e estava mirando o cabra que corria, quando o Doutor Pedro gritou: "Frei Simão, não atire não! Vamos pegar o Cabra vivo, para ele revelar por quem foi mandado!" O Corregedor interrompeu de novo, com aquela mesma expressão aguda e cortante: - Um momento, Senhor Dom Pedro Quaderna! O senhor tem certeza de que foi pelo nome de 'Frei Simão que o Doutor Pedro Gouveia tratou o tal Frade? Ah, nobres Senhores e belas Damas! Vossas Excelências, que conhecem a história da Pedra do Reino, bem sabem o que este nome de Frei Simão significava para todos nós, pois Frei Simão era o nome sagrado e profético do nosso parente Manuel Vieira, o Moço, aquele mesmo que, em 1838, tinha presidido, como sacerdote, às degolações ordenadas por meu bisavô, Dom João II, o Execrável! Esfriei de novo, sem saber até que ponto o Corregedor conhecia o que esse nome de Frei Simão significava para nós. Mas, do jeito que ele falara, parecia que ele quisera, apenas, documentar o fato para que Margarida o anotasse. Assim, resolvi não entrar em maiores esclarecimentos; limitei-me a responder: - É verdade, Senhor Corregedor: foi pelo nome de Frei Simão que o Doutor Pedro chamou o Frade. A narração dos acontecimentos que se seguiram então é, também, mais ou menos contraditória. Num ponto, porém, todos estão de acordo: foi nesse momento que, lá de longe, do Tabuleiro que fica entre o leito seco do Rio Taperoá e a Estrada de Estaca Zero, começaram a aparecer uns sinais luminosos, acendendo e apagando em direção à Rua da Usina. Pareciam sinais feitos com um espelhinho que alguém manejasse no meio do Tabuleiro, escondido entre as pedras e os xiquexiques, acendendo e apagando o sol do espelho com a mão.

- Muito bem, Dom Pedro Dinis, veja agora o que vai me dizer, porque esse ponto é muito importante! Se da Rua da Usina se vê essa parte do Tabuleiro, é lógico que, de lá, se vê a Rua da Usina, não é verdade? - É, sim senhor! - Pois me diga outra coisa: o tal lajedo, que o senhor freqüenta, não fica entre o Tabuleiro e a Estrada, dominando a Vila a cavaleiro? - Fica, sim senhor! - Muito bem! Dona Margarida, anote essa confissão do depoente, ela é importante para a elucidação de tudo! Novamente a boca do meu estômago se contraiu, apertando mais o nó. Foi com dificuldade que continuei: - Quando os sinais de sol começaram a se acender e se apagar no meio do Tabuleiro, o Cabra, que já tinha atingido a Rua da Usina e parecia ter a intenção de correr para os lados do Chafariz, margeando a areia do Rio, mudou subitamente de intenção, e, descendo o Cais, começou a descer para o leito do Rio Taperoá, como se quisesse ir para o Tabuleiro, ao encontro da pessoa que manejava o espelho. O Doutor Pedro e Frei Simão iam chegando já à Rua da Usina, quando, de repente, o Cabra pareceu tropeçar na carreira em que ia e caiu de bruços na areia do Rio. Frei Simão e o Doutor Pedro apearam-se junto do Cais e começaram a descer cautelosamente, com as armas apontadas para o Cabra, como se temessem uma cilada de sua parte. Mas, quando chegaram perto, viram que o homem estava em convulsões, com uma perna que se estirava e se encolhia, enquanto o sangue saía, às golfadas, pelo buraco que uma bala lhe abrira mesmo em cima do fígado. Foi aí que se verificou que a bala do tiro do Doutor Pedro tinha pegado somente o ombro dele, por trás.

- E o tiro que matou o Cabra, tinha vindo de longe? - É o que tudo indica, Senhor Corregedor, porque ninguém ouviu o tiro na rua. Devem ter atirado nele provavelmente com um fuzil munido de luneta, porque o tiro foi acertado com grande precisão. Quanto à pessoa que tinha atirado, deve ter fugido logo, com grande rapidez, porque as pessoas que correram para as proximidades do lugar de onde tinham vindo os sinais luminosos não encontraram ninguém.

- De onde o senhor acha que partiu o tiro? - Dizem, aqui na rua, que foi do meio do Tabuleiro, do mesmo lugar de onde vinham os sinais do espelho. O senhor, o que é que acha? - Eu não acho nada, estou somente investigando o caso. Continue! - O que eu tenho a narrar dagora em diante é pouca coisa, Senhor Corregedor! Esses, que já contei, foram os acontecimentos principais que marcaram, entre nós, o reaparecimento de Dom Sinésio, o Alumioso. O Povo, que tinha acorrido todo para a Rua da Usina, esperava, silencioso, a volta do Doutor Pedro e de Frei Simão, como que aguardando uma explicação ou uma palavra de ordem que desse sentido a todos aqueles acontecimentos. O Doutor Pedro Gouveia, que parecia homem dotado para essas situações, não se negou a isso. E, do alto do seu cavalo, falou, com certa imponência: "`Povo de Taperoá! Aquele rapaz, desaparecido daqui em 1930, maltratado por seus cruéis inimigos, que mataram seu Pai o o raptaram no mesmo dia; aquele rapaz, tão querido por todos os Pobres do nosso Sertão, voltou hoje aqui para reivindicar seus direitos sagrados! Há interesses poderosos, aliados contra ele e contra seus direitos! Como vocês viram, mal ele vai chegando à terra que para ele se tornou sagrada por causa do sangue de seu Pai, tentam matá-lo, para impedir o Moço do cavalo branco de fazer a felicidade da Pobreza! Sozinho contra todos, raptado, perseguido, encarcerado, maltratado, órfão, agora ameaçado de morte, com quem poderia ele contar, senão com o Povo, esse Povo bom, sofredor e pobre, do Sertão? Foi sempre ao lado desse Povo que ele esteve, foi sempre a seu lado que ele apareceu, o é isso que os seus inimigos não perdoam! Por isso, eu e Frei Simão, protetores e amigos do rapaz do cavalo branco, pedimos a ajuda do Povo Sertanejo para Sinésio Garcia-Barretto!'" FOLHETO LXIII O Encontro de Dois Irmãos - Sem que ninguém se apercebesse, Senhor Corregedor, Sinésio - que se apeara do cavalo junto à Igreja - tinha se aproximado e ficara por trás do Povo, segurando "Tremedal" pela rédea, ao mesmo tempo que o abraçava pelo pescoço. O Doutor Pedro que o vira chegar enquanto falava, resolveu então causar efeito sobre o Povo: e, ao pronunciar suas últimas palavras, apontou, com gesto magnífico, sua mão espalmada em direção ao pupilo o protegido. Todo mundo se voltou para o rapaz, e foi enorme a sensação causada pela peroração do Doutor. Foi nesse momento que, do meio do Povo, surdiu Silvestre, o irmão bastardo de Sinésio, acompanhado por Pedro Cego e "Cangati". Ele ouvira, finalmente, a revelação do fato espantoso e, vendo o Doutor apontar seu irmão mais moço, precipitou-se para ele, puxando o Cego, que o acompanhava como podia, ambos às quedas e tropeções.

"`Sinésio?', indagou ele, esgazeado. `O senhor disse Sinésio? Pelo amor de Jesus Cristo e de Nossa Senhora! Você é Sinésio? É Sinésio, mesmo? Eu sou Silvestre! Sou Silvestre, seu irmão!' "Ao ouvir essas palavras, Senhor Corregedor, dizem que Sinésio, profundamente emocionado, deu um passo -para o irmão, o que foi suficiente para que os dois ficassem face a face. Silvestre parou e sua imobilidade era tanto maior quanto tinham sido grandes os tropeções e carreiras até ali. Dizem que, colocando as duas mãos nos ombros de Silvestre, Sinésio disse algumas palavras em voz baixa e com os lábios trêmulos... " O Corregedor interrompeu: - Já ouvi outra versão, segundo a qual esse rapaz do cavalo branco não disse nada, nesse momento! Dizem que ele teria ficado imóvel, emocionado, com as mãos nos ombros do outro e olhando seus olhos, isso durante uma boa porção de tempo, até que o tal do Frei Simão interrompeu a cena! - É, tem umas pessoas por aí que contam assim! - expliquei. - Mas pessoas outras, pessoas fidedignas, me contaram que, pelo contrário, Sinésio falou, dizendo: "Então, Silvestre, ainda me conhece? Sou Sinésio! Sou eu, meu irmão! " E os dois se abraçaram, chorando. É verdade que, logo no dia seguinte, surgiram várias versões do acontecido, dizendo logo os partidários de Arésio que as palavras não tinham sido exatamente essas! - Há quem diga, mesmo, que, em vez de Silvestre, o rapaz do cavalo branco teria chamado seu pretenso irmão de Silvério! - É, mas muita gente, também, diz que ele acertou e chamou o irmão foi de Silvestre, mesmo! E mesmo que não tivesse acertado, Senhor Corregedor, os sofrimentos que ele passou podem tê-lo perturbado um pouco, causando o erro! O senhor pensa que ver o Pai assassinado, ser raptado no mesmo dia, ser preso sem culpa nenhuma, ser soterrado, morrer de fome, solidão e desespero, e, ainda por cima, ressuscitar numa estrada sertaneja, é alguma brincadeira? De qualquer modo, sei que Silvestre, abraçado ao pescoço do irmão, dizia: "Meu Deus, será verdade mesmo? Será que Sinésio está vivo? Sim, é ele, meu coração me diz que é! " Só no outro dia é que começaram a aparecer outras versões! Naquele momento inicial, porém, ninguém cuidava de saber exatamente o que se dissera ou não: o Povo já estava, também, todo em prantos, conduzido por Frei Simão e pelo Doutor Pedro, os quais, assim que tinham visto os dois irmãos se abraçarem, tinham puxado os lenços e, cobrindo o rosto, haviam começado a chorar convulsivamente, numa emoção que imediatamente contagiou todo mundo! - É verdade que Frei Simão, ao ouvir o nome de Silvestre, teria dito umas coisas estranhas, que ninguém entendeu direito, mas que tiveram uma repercussão enorme perante o Povo? Esfriei de novo, aterrorizado, porque aquilo era, novamente, ligado ao grande crime, ao grande segredo da minha vida - minha linhagem real paterna. Pegado de surpresa, fiquei, durante um momento, olhando o Corregedor, sem nada responder. Ele insistiu: - O que foi que Frei Simão disse? - Sei não, Excelência! - falei, tentando escapar. - Também não entendi direito aquelas doidices não! O que posso fazer é vender tudo ao senhor pelo preço que comprei! Dizem que, depois de ter chorado em quantidade suficiente para emocionar e abalar o Povo, Frei Simão conseguiu se dominar! Aí, chegando seu cavalo para junto dos dois irmãos, apeou-se e caminhou para eles. Dizem que Sinésio, tomando o irmão pelo braço, apresentou-o ao Frade, dizendo: "Frei Simão, este aqui é meu irmão, o segundo, aquele que era pegado comigo e que eu lhe disse que ficaria do nosso lado, de qualquer jeito! É Silvestre! " Dando mostras de um espanto visível para todos, Frei Simão arregalou os olhos e gritou: "O quê? Como foi que você disse? Você disse, aí, Silvestre, foi, Sinésio? Rapaz, você se chama Silvestre? Pergunto porque, se você se chama, mesmo, Silvestre, o Doutor Pedro precisa saber disso imediatamente! " E então, excitado, talando alto para que o Povo também ouvisse, o gigantesco Frei Simão gritou para o companheiro que se aproximava: "Doutor Pedro, chegue aqui pelo amor de Deus! Veja se o nosso Sinésio não é, de fato, uma criatura de Deus! Veja se tudo isso não é coisa divina, coisa do Divino Espírito Santo! Olhe, veja quem está aqui, ressuscitado: Silvestre, o Guia, aquele mesmo Rei e Profeta da Serra do Rodeador! É o nosso Silvestre Quiou, o Enviado!" O Doutor Pedro Gouveia, ouvindo que aquele rapaz, moço daquele jeito, era o mesmo Profeta aparecido na."Guerra da Serra do Rodeador", abriu a boca, arregalou os olhos e persignou-se, murmurando: "Ave Maria! Minha Nossa Senhora! É coisa do Divino Espírito Santo, isso não tem pra onde!" Depois disso, sem dizer mais nada, ficou olhando o Povo assombrado, enquanto brincava, de modo aparentemente casual e descuidoso, com a Cruz meio episcopal que lhe pendia do pescoço, amarrada a uma larga fita amarela e branca. Quanto a Silvestre, sem ligar importância ao que o Frade e o Doutor estavam dizendo, limitava-se a repetir mais ou menos o que tinha dito: "Mas meu Deus, será verdade mesmo? É verdade, tudo me diz que é verdade! Sinésio ressuscitou, e ressuscitou, com ele, o sangue de meu Pai! Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Sinésio ressuscitou, ressuscitou o Prinspo da Bandeira do Divino do Sertão! Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!" "Para sempre seja louvado!", começavam, já, a repetir, em coro, os Sertanejos, sempre meio dispostos a uma boa ladainha. Então, Senhor Corregedor, sucedeu um outro fato mais ou menos inesperado. De repente, Silvestre, certamente impressionado com tudo o que acontecera, ajoelhou-se na poeira do chão e beijou a mão do ressuscitado, o que terminou por desgarrar, de vez, tudo quanto era fanatismo sertanejo represado. Tudo poderia, aliás, ter continuado assim, nesse tom régio, o que me permitiria, logo de início, manter o timbre heróico, trágico e epopéico da minha história. Infelizmente, porém, devo ser verídico, e, naquele momento, Pedro Cego interveio, atrapalhando o final da cena com um daqueles "ataques de insolência" que, nele, costumavam sempre alternar-se com os teológicos. Mal Silvestre se erguia, o terrível Cego lhe caía em cima, dando-lhe, com a ponta do cajado, uma estocada nas costelas: "Que é que você está fazendo aí, seu safado, se esfregando na poeira, como um jumento, e obrigando essas pessoas ilustres a perder tempo? Venha logo, aqui, cantar um negócio comigo, peste! Quer ganhar a vida sem trabalhar, é? Pra que é que eu pago a você, hein, seu corno? Chegue, vamos cantar, aqui, uma toada, que é pra esse Doutor, aí, me dar uma esmola!" Pegando então na viola, Senhor Corregedor, ele deu em suas cordas uma vigorosa batida de ponteado, logo seguida de um pinicado bem marcado e forte. Ouvindo isso, e como se nada tivesse acontecido, Silvestre retirou a rabeca das costas. De seu rosto, tinham-se apagado completamente todos os sinais de emoção epopeica, motivo pelo qual esse final de cena talvez seja cortado da minha Obra. Foi já rindo que ele desferiu, também, nas tripas de gato de sua rabeca sertaneja, um toque violento, áspero e fanhoso. Então, sem que ninguém tivesse previsto - mas também sem espanto nenhum de ninguém - os dois iniciaram, depois de breve confabulação, a desafio-de-memória e em homenagem a Sinésio, o seguinte romance de loa, em estilo narrativo: "Quem quiser ter seu sossego, deixe a minha Companhia, pois minha Mãe me pariu numa áspera Catinga! Armas, rifles e Cavalos, serra abaixo, serra acima, e os Ciganos me furtaram em terras de Mouraria! Quatrocentos me matavam, quatrocentos defendiam, até que me sepultaram numa Cadeia que havia! Um Gavião me educou, um Cervo me salvaria, sete anos bebi leite da feroz Onça parida, outros sete comi Pão, sete, o Vinho da bebida! Três vezes sete, vinte e um, e eis que o Morto volta à vida! Por sete anos fui preso e ainda lá estaria, não fosse o sangue do Rei que me ressuscitaria! "

FOLHETO LXIV

A Cachorra Cantadeira e o Anel Misterioso Quando eu acabei de recitar esse enigmático "romance", o Corregedor falou: - Dom Pedro Dinis Quaderna, eu, se fosse o senhor, cortava essa versalhada da sua futura Epopéia, porque ela parece- uma charada, uma espécie de logogrifo em verso! - Pois é exatamente por isso que ela deve entrar, Senhor Corregedor! Essa palavra que o senhor usou, "grifo", é exatamente a prova de que esses versos são indispensáveis à minha Epopéia! - Por quê? - perguntou ele, espantado.

- Por causa de Homero, Excelência! Não quero, nem devo, esconder a Vossa Excelência que, depois de conseguir da Academia Brasileira de Letras o título de "Gênio da Raça Brasileira", pretendo disputar, no vasto Império da Literatura Universal, o cargo, também ainda vago, de "Gênio Máximo da Humanidade"! Ora, assim como fiquei com uma certa "cisma" com o Conselheiro Ruy Barbosa em relação ao primeiro título, tive também, a princípio, uns certos sobressaltos com Homero, para o segundo: foi quando li nas Postilas de Retórica e Gramática, publicadas em 1879 pelo Doutor Amorico Carvalho, que, de todos os Poetas, "o primeiro, no tempo e na glória, é Homero". Esse Doutor foi "retórico" do Imperador Dom Pedro II. Mesmo sendo Pedro II um impostor e usurpador, essas coisas de monarquia são muito sérias, de modo que o cargo de "Retórico Imperial" é venerável e a palavra do Doutor Amorim de Carvalho não é brincadeira! Por isso, quando li isso, fiquei meio cego de terror, com medo de que aquele peste de grego tivesse se antecipado e me tomado o cargo. Mas Clemente e Samuel me tranqüilizaram um dia, provandome, primeiro que Homero não existiu - opinião de Clemente - e, depois, que tinha mau gosto e era incompleto - opinião de Samuel. É evidente que, para uma pessoa ser nomeada "Gênio Máximo da Humanidade" precisa, primeiro, existir! Depois, segundo o Doutor Amorim Carvalho, uma Obra, para ser clássica, precisa ser completa, sem o que nem é modelar nem de primeira classe! Homero, além de não ter existido, era incompleto: como pode, portanto, ser o "Gênio Máximo da Humanidade"? Apesar disso, porém, Senhor Corregedor, resolvi tomar certas precauções contra ele, e a presença, em minha Epopéia, do "enigma grifo-esfingético em versos" que lhe recitei é uma delas! - A senhora está entendendo, Dona Margarida? Eu estou tendo alguma dificuldade! - disse o Corregedor.

- Pois explico tudo em dois minutos! - disse eu, com boa vontade. - O suplemento anual do Almanaque chama-se "Édipo". O primeiro número dele, explicando a razão do título, contou o mais famoso enigma do povo de Homero, os Gregos - aquela charada que a Esfinge propôs a Édipo, Rei de Tebas. A tal da Esfinge era um cruzamento de grifo com leoa. Ou, melhor, em termos sertanejos, um cruzamento de Onça, Cavalo e Gavião! Devia ser meio mordida de cachorro da molesta, porque só mordida é que uma bicha podia ser faminta daquele jeito, Senhor Corregedor! Ela devia ter alguma cobra esfomeada na raiz do sangue, ou então tinha comido canário doido em pequena, troço que, como o senhor sabe, é a coisa que dá mais fome canina no mundo! A Esfinge perguntava a quem passava perto dela: "Qual é o bicho que, quando é pequeno, tem quatro pés, depois tem dois, e morre com três?" Quem não respondia, ela comia, com osso e tudo! Quando chegou a vez de Édipo, ele respondeu, tornando-se, desde então, patrono dos charadistas e decifradores: "Esse bicho é o homem, que, quando é pequeno, engatinha de quatro pés, depois passa a andar com dois, e finalmente, já velho, apóia-se numa bengala que passa a ser seu terceiro pé". A Esfinge, vendo decifrado seu logogrifo, teve uma raiva tão da gota-serena que estourou o alferes-queiroz lá dela, teve um infausto-do-leocádio e morreu! Ora, Senhor Corregedor, pra mim, esse grande enigma dos gregos e de Homero é uma merda completa! Primeiro, nem todo velho anda de bengala! Aqui mesmo, em Taperoá, conheço o Coronel Chico Bezerra que nunca precisou de bengala e anda teso, duro, espigado, como se tivesse engolido uma! Depois, nem todo homem adulto anda com dois pés: existe o "perneta" que anda com uma perna só, e existe o chamado "cotó" que não anda com perna nenhuma! Finalmente, nem todo menino engatinha de quatro pés: já vi muito menino por aí que começa a vida engatinhando de bunda, arrastando o zebescuefe no chão! É por isso que, modéstia à parte, minha charada epopéica, o logogrifo em versos que vai iniciar minha Epopéia, é muito superior ao enigma-mor dos Gregos, povo de Homero!- E qual é a decifração do seu enigma? - indagou o Corregedor.

- Excelência, a meu ver o logogrifo que Pedro Cego e Silvestre cantaram e a própria história de Sinésio, o Alumioso! Acho que isso é claro para qualquer bom decifrador! - Claro? - protestou o juiz. - Sua charada é ainda mais mal-armada do que a da Esfinge! Quer ver uma coisa? Nos versos, fala-se em quatrocentos Ciganos, e os que trouxeram o rapaz do cavalo branco eram quarenta! - Por isso não, Excelência! Esses aumentos fazem parte do próprio estilo epopéico! Homero, mesmo, aumenta extraordinariamente o número de Cangaceiros gregos comandados pelos Reis lá dele, e, em Canudos, Euclydes da Cunha faz o mesmo, tanto para o lado do Exército quanto para o lado dos Sertanejos! - Está bem, vá lá! Mas, no seu Enigma, tem coisa ainda pior! Me diga uma coisa: como é aquela parte que f ala nos anos em que Sinésio esteve sumido? - "Três vezes sete, vinte e um,/e eis que o Morto volta à vida! " - Em que ano nasceu Sinésio? - Em 1910, veio com o cometa! - Então, em 1935, ele estava com vinte e cinco anos, e não com vinte e um! Eu, que, sentindo minha angústia aumentar, estava já doido para ir-me embora, aproveitei para ver se terminava meu depoimento e disse: - Mas Senhor Corregedor, que vocação extraordinária de decifrador é a sua! O senhor tem toda razão, e vou é desistir desse enigma besta, na minha Epopéia! De qualquer modo, agradeço a colaboração que o senhor me deu, e aqui me despeço, porque já lhe contei o que aconteceu de mais importante, na chegada de Sinésio a Taperoá! - Já mesmo, Dom Pedro Dinis Quaderna? - disse o juiz com ar venenoso. - Tem certeza? O senhor já contou tudo, tudo mesmo? Não escondeu nenhum dado fundamental? - Não senhor! Do que eu me lembro, assim, já contei tudo! O Corregedor respirou fundo e atirou: - Pois aqui na Vila houve gente de coração mais aberto do que o seu, gente que me disse, entre outras coisas, que o senhor, naquela hora em que aconteceu tudo, estava justamente no tal Lajedo de onde se avista a Rua da Usina e o rio, e de cujas proximidades partiu o tiro que matou o "cabra"!

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