Aterrado, fiquei olhando para o Corregedor, sem encontrar coisa alguma para dizer. Aquela simples frase dele mostrava-me que a teia amaldiçoada da qual eu pensava já ir saindo, estava apenas começando a me enredar. Fiquei atordoado. Quando, afinal, consegui falar, perguntei com voz insegura: - O senhor recebeu alguma denúncia contra mim? - Quem tem o direito de fazer perguntas aqui sou eu, e não o senhor! Mas, fazendo uma exceção, vou responder a essa, sua. Acontece que recebi uma carta anônima que o denuncia como itñplicado em todo este caso. A carta abre uma questão muito grave, porque nela se afirma que todo o caso do fazendeiro Pedro Sebastião e de seu filho Sinésio tem estreitas ligações com a Revolução que os comunistas tentaram em 1935 e que, até agora, não desanimaram de levar adiante! A carta está aqui! - acrescentou ele, folheando seus papéis e exibindo o documento, que se absteve de me dar.
Perguntei: - Senhor Corregedor, a letra da carta é de homem ou de mulher? - É impossível saber isso! - Por quê? É letra de máquina? - perguntei, olhando de través para Margarida.
- Não, mas a pessoa que escreveu a carta imitou nela as letras maiúsculas de imprensa.
- E o que é que a carta diz, Excelência? - Ah, diz muita coisa, Dom Pedro Dinis Quaderna! Diz várias coisas que eu irei lhe perguntando e que o senhor irá me explicando, à medida que o inquérito se desenrole! Por enquanto, porém, saiba o senhor que, aqui, lhe fazem quatro acusações graves! Primeiro, dizem que a viagem que o senhor organizou, com um Circo, em 1935, depois da chegada de Sinésio aqui, tinha como fim oculto encontrar o tesouro deixado por Dom Pedro Sebastião. Segundo o denunciante, esse tesouro tinha sido amontoado por seu Padrinho como resultado dos negócios dele com "o gringo Edmundo Swendson" no ramo das pedras preciosas, de maneira que era uma fortuna incalculável, em diamantes, topázios e águasmarinhas. Diz-se também, na carta, que, além das pedras preciosas, seu Padrinho, ajudado por suas artes de Astrólogo e quiromante, tinha encontrado dois caixões enormes, abarrotados de moedas de ouro e prata, dinheiro português e espanhol, enterrado no tempo dos flamengos. Diz-se que Dom Pedro Sebastião tinha enterrado essa fortuna numa furna sertaneja que ninguém sabe onde se encontra, com exceção do senhor, pois consta textualmente da carta que "somente o dito Pedro Dinis Quaderna é capaz de dizer alguma coisa sobre o roteiro do tesouro". Ora, esse tesouro é ponto importante para a decifração do caso, porque, segundo diz a carta, quando o senhor se juntou a Sinésio, naquela viagem, o principal objetivo dos dois era encontrar o tesouro que financiaria a Revolução, em sua parte sertaneja. A segunda acusação grave que se faz aqui é que o senhor, na mesma noite em que Sinésio chegava à Vila, propiciou, na sua estalagem e casa-de-recurso, um encontro entre seu primo, Arésio Garcia-Barretto, e um tal Adalberto Coura, sujeito que morava no sótão da estalagem e que não saía nunca, porque estava escondido da Polícia. Dizem que ao mesmo tempo, o senhor enviava a Sinésio um pacote de papéis que, segundo uns, continha o roteiro do tesouro, e, segundo outros, uma porção de documentos subversivos que lhe tinham sido entregues por Adalberto Coura "da parte de um tal Antônio Villar, nome usado por Luís Carlos Prestes, chefe dos comunistas brasileiros". Finalmente, a outra acusação, a mais grave de todas, diz que o senhor foi o principal culpado do assassinato de seu Padrinho, o fazendeiro Dom Pedro Sebastião! Me diga uma coisa: essa história do tesouro e do Circo é verdade? - É, sim senhor! Havia o tesouro, e eu organizei, mesmo, um Circo para que nós todos pudéssemos viajar pelo Sertão, com Sinésio, o Alumioso, meu sobrinho, o rapaz do cavalo branco! Desde menino que eu era entusiasmado com circo, por causa do "Circo Arabela" e do "Circo Estringuine" que andavam por aqui, com moças equilibristas de coxas maravilhosas, com Onças, com fitas de Cinema e peças de Teatro. Foi num Circo que eu vi uma fita, A Carne, com aquela mulher extraordinária, Isa Lins. Foi aí que travei conhecimento com Grácia Morena, mulher de cara sexual, que aparecia com ousados decotes abertos, entre os peitos. Vi O Guarani, que depois, como A Carne, leria sob forma de romance. Vi Sangue de Irmãos, de Jota Soares, "filme de aventuras, de costumes sertanejos". Vi Reveses, de Chagas Ribeiro, que me deixou entusiasmadíssimo, porque nele apareciam cavalos e Vaqueiros, como nos romances sertanejos cavalarianos e bandeirosos. No "Circo Arabela", porém, o que mais me entusiasmava não eram propriamente os Cavaleiros, fazendo piruetas em cima de cavalos. Era a própria Arabela, mulher belíssima, de coxas nuas, com as calças aparecendo, em cima do arame ou equilibrando-se em cima dum cavalo. Vi-a fazendo um número em que ela se espichava em cima de uma Onça e depois a Onça se espichava em cima dela. Foi no Circo que vi um teatro maravilhoso, uma peça chamada O Terror da Serra Morena, com assunto tirado de um "folheto". E vi os Palhaços, com o Palhaço Sabido e o Palhaço Besta, de fofa e de gola branca. Mas, sobretudo, foi no Circo que eu e Arésio, pela primeira vez, conhecemos mulher, numa noite, depois do espetáculo. Arésio, com seu prestígio de rapazinho rico e vigoroso, conseguiu duas moças do arame, a mais bela para ele, a menos bela para mim, de modo que nós fomos iniciados nos camarins, com as luzes apagadas, separados apenas por cortinas, pelas paredes de pano que serviam aos cubículos. Depois, quando me tornei adulto, tornei-me Chefe de cavalhadas, de autos de guerreiros, de bumba-meu-boi, de nau-catarineta, etc. Mas tudo isso vive parado, só aqui na Vila. Por isso, eu sonhava em me tornar dono de Circo. O Circo era o jeito que eu tinha de transformar toda essa Literatura, todo esse Teatro de rua em Literatura de estrada, isto é, uma Literatura cavaleira e epopéica, que nos tornasse, a todos nós, heróis errantes pelas estradas e catingas do Sertão, como o Valente Vilela! Por isso, com a chegada dos Ciganos .que vieram com Sinésio e que sabiam, todos, fazer piruetas em cima dos cavalos, vi que aquela era minha oportunidade, e foi assim que organizei meu Circo, combinando tudo com o Doutor Pedro Gouveia! - Quer dizer que o Doutor Pedro também entrou nessa história do Circo? - Entrou, sim senhor! O interesse dele era encontrar o testamento e o tesouro deixados por meu Padrinho. Ora, o senhor sabe que essas coisas custam dinheiro, e Sinésio não tinha dinheiro nenhum. O Circo terminou, assim, resolvendo, também, o problema dele, porque nós fazíamos as viagens que eram necessárias à busca do tesouro e a renda dos espetáculos, além de pagar as despesas, ainda me dava algum lucro; principalmente porque eu levei com a gente doze mulheres da minha casa-de-recurso, e organizei com elas um Pastoril do qual eu era o "Velho" e que foi a nossa principal fonte de renda! - Muito bem, vê-se bem que, assim como sua estalagem é uma "casa-de-recurso", o dono não fica atrás, é homem também de recursos e expedientes de toda natureza! E a história da entrevista de Arésio com Adalberto Coura? É verdadeira, também? - É, sim senhor! - E o pacote de papéis? É verdade que o senhor mandou a Sinésio, na noite de 1.0 de Junho de 1935, um pacote de documentos subversivos? - Não senhor! Eu mandei, mesmo, o pacote, mas não eram documentos subversivos não, era uma cópia manuscrita do Caminho Místico, de Santo Antônio! - Santo Antônio de Pádua, o Português? Não senhor, Santo Antônio Conselheiro de Canudos, o Sertanejo! Eu sou devoto dele e de Padre Cícero, na minha qualidade de Profeta do Catolicismo sertanejo! - Catolicismo sertanejo? - É a minha religião, Excelência! Não estando muito satisfeito com o Catolicismo romano, fundei essa outra religião para mim e para meus amigos! O pessoal aí da rua, que sempre ouve cantar o galo, mas não sabe onde, ouviu falar nesse Antônio, o Conselheiro, e pensou que eu estava me-referindo ao outro Antônio, o Villar, pseudônimo de guerra de Luís Carlos Prestes, criando-se, então, essa história de documentos subversivos! - Está bem, vou apurar tudo isso! E a outra acusação? Então o senhor foi um dos assassinos do seu Padrinho e pai-decriação, de seu benfeitor Pedro Sebastião Garcia-Barretto? - Eu? Não senhor! Deus me livre! - Então o senhor nega qualquer participação na morte dele? - Nego, sim senhor! Eu ia, lá, matar meu Padrinho, Doutor? Meu Padrinho foi, para mim, um segundo Pai! - Veja bem o que responde, porque o senhor pode se complicar! O senhor não deixou de me esclarecer nenhum indício importante sobre aquele crime de 1930? - Não senhor! - Faça o favor de levantar a mão esquerda! Um pouco atemorizado pelo tom de violência cortante que o Corregedor assumira de repente, ergui a mão à altura do rosto dele, com a palma virada em sua direção, como se quisesse, assim, deter a brutalidade da investida.
- Vire a mão! - disse ele, bruto e brusco. - Assim, está bem! Agora me diga: que anel é esse que o senhor usa no dedo anular? Onde o conseguiu? Senti que meu sangue, já perturbado pela tonteira, pelo medo e pela crueldade do interrogatório, "refluía todo para o coração", como dizem os contos do Almanaque Charadístico. Passei a mão no rosto, para ver se me recobrava um pouco. Mas, nesse momento, como olhasse casualmente para fora, pela janela, tive a impressão de que, do outro lado da rua, defronte da Cadeia, na esquina da casa de um homem nobre da rua, o Capitão Clodoveu Torres Villar, havia um par de olhos amaldiçoados, que me espreitavam há algum tempo e que, no mesmo instante, desapareceram. Eram olhos maldosos e escarninhos. Num relampo, o ar se encheu de dragões peçonhentos, de asas de morcego, que, esvoaçando em torno de mim, começaram a me entrar para o sangue, através dos meus ouvidos, que começaram, também, a ser despedaçados por batidas de martelo na bigorna do Divino. Conheci que o "mal sagrado" vinha se aproximando, e que, daí a pouco, numa fração de segundo, eu estaria espancando o chão com a cabeça, em contorções desesperadas, escumando pela boca como um danado. Os olhos malditos reapareceram, agora sem dono e fulgurantes, despedindo setas de fogo que encheram o ar de Gaviões, muito parecidos com aqueles do dia em que perdi os olhos. Senti-me sufocado, julguei que ia morrer, abri a boca, quis falar, mas aí o Sol tornou-se enceguecedor e eu, perdendo a consciência, caí no chão, deslumbrado, fulminado, com o Sol na cabeça e a tempestade no coração.
Quando acordei do "ataque", da "grande aura" que só acomete os gênios, Margarida estava sustentando minha cabeça em seu colo alvo e aristocrático, e um Soldado de Polícia esperava, impassível, que eu "tornasse", para me dar um copo d'água que ele segurava na mão, mantendo o resto do corpo em posição de sentido. Somente o Corregedor, implacável, continuava com a mesma expressão, dura e inquisitorial.
- Não foi nada não, já estou me sentindo melhor! - disse eu, fracamente, mas já experimentando uma indizível sensação de bem-estar, não só porque é assim que me sinto depois dos meus ataques, como porque estava começando a me dar muito bem no calorzinho e na maciez do colo de Margarida.
Ela, porém, não sei se notando que eu estava começando a me aproveitar, soergueu um pouco minha cabeça e fez menção de se levantar. Para evitar isso, falei mais depressa: - Foi o calor da sala e a impressão de mal-estar que comecei a sentir, depois que passei pela cela dos presos, lá embaixo! Obrigado, Margarida, Deus lhe pague sua bondade e sua gentileza! Margarida fez, logo, uma cara ruim, de novo, e o Corregedor falou: - O senhor, se quiser, pode se sentar nesta cadeira! - Não senhor, obrigado! - disse eu, ficando de pé. - Se eu me sentar, isso pode incomodar o cotoco e prejudicar a Epopéia! Peço, aliás, que todos dois me desculpem o espetáculo constrangedor que devo ter dado, com esse ataque esquisito! - Não, não houve ataque esquisito nenhum! O senhor somente sentiu-se mal e teve um ligeiro desmaio, é mais ou menos de se esperar! - disse o juiz.
- Não, Senhor Corregedor! - insisti. - Não tenha constrangimento de me envergonhar não! Sei, muito bem, que não foi um simples desmaio! Não fiquem constrangidos por terem visto isso; deve ter sido horrível de assistir, mas acreditem que é pior para quem vê do que para quem tem! Eu deveria, de fato, ter vergonha desses ataques, mas li, a respeito deles, umas palavras de Baptista Pereira - aquele distinto escritor brasileiro que, por ser genro do Conselheiro Ruy Barbosa, contraiu a genialidade do sogro. Segundo essas palavras, a epilepsia é a "grande aura", o "mal sagrado" que só acomete os verdadeiros gênios. Assim, nem percam tempo tentando disfarçar de mim o que viram porque, para ser sincero, eu me sinto até orgulhoso de ser epilético! É mais uma prova de que sou predestinado, pela Providência Divina e pelos Astros, a ser o "Gênio da Raça Brasileira"! - E o senhor é epilético? - perguntou, frio, o Corregedor.
- Garantir, mesmo, que sou, não posso não, Senhor Corregedor, porque nunca fui a um médico para verificar isso, com medo de que ele, por acaso, me curasse e me tirasse, assim, essa característica da genialidade. Mas tenho quase certeza de que sou, pelo motivo que passo a lhe expor. Depois que li aquelas palavras do genial genro de Ruy Barbosa, fiz uma promessa a Santo Antônio Conselheiro para ficar epilético e me tornar gênio. Pois bem: daí a três dias - prazo que eu tinha dado ao Santo sertanejo - fui para cima do meu lajedo, virei-me para o lado do Pajeú e de Canudos, ajoelhei-me e fiquei assim, uma porção de tempo. De repente, minha cabeça deu "um estalo do Padre Vieira" e tive o meu primeiro ataque. Daí em diante, fiquei assim! De vez em quando, caio no chão, escumando pela boca e mordido de cachorro da molesta! Mas, como já disse, não tenham vergonha por mim, não, porque isso é até motivo de orgulho, uma vez que é o mesmo "mal sagrado" de um Príncipe de sangue brasileiro, o Impostor Dom Pedro I, e de um Poeta genial, Dom Joaquim Maria Machado de Assis! - Pois Dom Pedro Dinis Quaderna, com todo o seu "gênio" e a sua "fidalguia", lamento comunicar-lhe que o senhor está em maus lençóis! - disse o Corregedor, respirando fundo e atirando a flecha envenenada que guardara para o fim. - A carta que recebi é extensa e faz cerca de sessenta acusações contra o senhor. Entre estas, duas muito importantes! A primeira, diz que o senhor descende daqueles fanáticos execráveis que, na Pedra do Reino, de 1835 a 1838, subverteram o Sertão com uma "seita" sanguinária, degolando mulheres, crianças e cachorros. Diz a carta que o senhor mesmo se encarregou de lembrar isso à ralé sertaneja daqui, conseguindo, assim, por mais estranho que pareça, assumir uma certa ascendência sobre ela. Dizem que o senhor fez isso, a princípio, apenas para explorar o Povo, inclusive em dinheiro; mas que, depois, com a chegada de Sinésio, foi por causa disso que pôde aliciar tanta gente para a expedição do tal rapaz do cavalo branco. Segundo a carta, o fato de pertencer àquela família sanguinária e subversiva é o motivo da sua ascendência sobre os Cangaceiros, Cantadores, Vaqueiros e mais toda essa ralé sertaneja de fateiras, prostitutas, tangerinos e contrabandistas de cachaça. Finalmente a carta revel um outro fato, gravíssimo: é que esse anel que o senhor usa, é mesmo anel que foi retirado do dedo do fazendeiro Dom Pedro S astião Garcia-Barretto, momentos depois de ter sido ele degolado or seus assassinos.Pronto, nobres Senhores e belas Damas de peitos macios! Estava descoberto o meu grande crime, aquela culpa que eu vinha procurando ocultar tão cuidadosamente, desde que se iniciara o depoimento. Tive a sensação de que há muito tempo eu pressentia uma acusação dessas, na minha vida. Era esse o motivo real das minhas apreensões. Não só das que experimentara há pouco, quando vinha para a Cadeia, mas da apreensão geral, muito mais antiga, surgida com o Sol do meu sangue, quando, sem motivo palpável nenhum, eu já me sentia culpado sem ninguém me acusar diretamente, sem que suspeita nenhuma de Juiz nenhum tivesse sido soprada a meu sangue, o qual, porém, já se sentia enfermo, infeccionado por uma culpa que me perseguia e me envenenava.
O Corregedor, vendo que eu não dizia nada, insistiu: - Então? O que é que me diz? As duas afirmações são verdadeiras? - São, sim senhor! Minha descendência da Casa Real da Pedra do Reino é verdadeira, e é verdade também que eu, no dia 24 de Agosto de 1930, tirei o anel do dedo do meu Padrinho e fiquei com ele! - Alguém viu o senhor tirar o anel? - Não senhor! O senhor não disse que havia outras pessoas com o senhor, quando acharam o corpo? - Disse! - Quer dizer que o senhor tirou o anel escondido? - De certa maneira, foi! - Por que o senhor fez isso? - Senhor Corregedor, foi uma dessas coisas que a gente faz sem nem ao menos saber por quê. Pensei em pedir licença a Arésio, como filho de meu Padrinho, para ficar com aquela lembrança. Mas a confusão estava enorme. Tirei o anel e coloquei-o no bolso, pensando em comunicar o fato mais tarde. Mas aí comecei a ficar envergonhado, porque ia parecer que eu o tirara de má-fé, ia parecer um furto. Aí, deixei que as coisas ficassem como estavam.
- O senhor veja que ocultou fatos importantíssimos para a elucidação do caso todo! Por que não disse que estava no lajedo perto do qual dispararam o tiro? Por que não me contou nada sobre as ligações que estabeleceu, no espírito dos Sertanejos ignorantes, entre a seita da Pedra do Reino a expedição sediciosa de seu primo e sobrinho, Sinésio, o Alumio ? E, sobretudo, por que escondeu de mim a história do anel de s Padrinho? - Confesso meu erro, Senhor Co regedor! Em tudo, tive medo de me complicar com a justiça e c lei a boca! Pois o senhor está complicado é gora e, francamente, sua situação é grave! Como é que eu posso, dagora em diante, confiar no senhor? - Vou ver se dou um jeito, contando tudo o que sei, desde o começo, tintim por tintim! Por onde Vossa Excelência quer começar a ouvir? - Pela história da Pedra do Reino, já que, segundo a denúncia, foi isso que fez os Sertanejos ignorantes irem atrás de suas conversas para a expedição de Sinésio! - Muito bem então, Excelência! Vou dizer! Escute!
De Novo a Pedra do Reino Comecei então, nobres Senhores e belas Damas, a épica e famosa "Crônica dos Reis da Pedra Bonita", nos seguintes termos: - Não tenho dificuldade em contar essa história a Vossa Excelência, porque colecionei cuidadosamente uma porção de textos de geniais escritores paraibanos e pernambucanos sobre ela. Alguns desses textos, devidamente "versados", serão incluídos na minha Epopéia. Por isso, trago sempre comigo a cópia manuscrita que fiz deles, desde que Gustavo Moraes doou à nossa Biblioteca uma coleção da Revista do Instituto Arqueológico de Pernambuco e outra da Revista do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba. Não sei se Vossa Excelência sabe, mas Samuel e Clemente já provaram que a História é da Direita e a Sociologia é da Esquerda. Temos, aliás, uma prova disso, porque o patrono da História brasileira, Varnhagen, é "de sangue godo, lambe-cu do Impostor Dom Pedro II, católico e Visconde", enquanto que o da nossa Sociologia, Sylvio Romero, era "católico-sertanejo, rebelde e socialista". Ora, Gustavo Moraes era integralista e participante, no Recife, do Movimento da revista Fronteira, ligada a Manuel Lubambo e ao Padre Antônio Fernandes. Foi por isso que, entre nós, reforçou o interesse pela História e pela Genealogia, com algumas idéias que tinha bebido no Recife e que terminou difundindo entre nós, nas memoráveis sessões do nosso "Instituto Genealógico e Histórico do Sertão do Cariri". Confesso que, até o dia em que li essas revistas e outras obras doadas por ele à Biblioteca, eu escondia minha descendência régia como se fosse um crime e uma mancha. Mas depois, um dia, caiu nas minhas mãos um livro do genial escritor pernambucano, o Doutor Francisco Augusto da Costa. Foi um des lumbramento para mim, Senhor Corregedor! Como, certamente, já explicaram a Vossa Excelência na infame carta anônima, a linhagem real dos Quadernas tinha dois ramos principais, o dos Vieirados-Santos e o dos Ferreira-Quadernas. Mas o Rei principal, mesmo, foi meu bisavô, Dom João II, o Execrável! - Dom João II, o Execrável? Que diabo de confusão é essa? - Não se espante não, Excelência! O nome dele, mesmo, era João Ferreira-Quaderna, assim como o nome de Dom Pedro I, o Cavaleiro, era Pedro de Alcântara de Bragança. Mas todos os escritores que escrevem sobre a Pedra do Reino só chamam meu bisavô de "o execrável João Ferreira"! Ora, eu aprendi, pela leitura da História da Civilização de Oliveira Lima e da História Geral do Brasil, de Varnhagen, que nossos Reis e Imperadores têm sempre um Dom antes do nome e um cognome depois. Reis do Brasil e de Portugal, por exemplo, foram Dom Manuel I, o Venturoso, e Dom Sebastião, o Desejado! No estrangeiro, é a mesma coisa, tirando-sè o Dom. Na França, houve um que, a se tirar pelo nome, era viciado em passarinhar: chamava-se Henrique, o Passarinheiro! Dizem que ele não podia ver um passarinho: caga-sibito que passasse na frente dele estava lascado, ele matava! Na Alemanha, houve outro Rei que me fez levar, um dia, uma vaia terrível de Clemente e Samuel! Quem foi? - Frederico, o Grande! Eu, ouvindo um dia uma discussão dos dois, achei o nome dele safadíssimo! - Não entendo! Por quê? - Eu não estava vendo o nome escrito não, estava somente ouvindo, de modo que pensei que ele se chamava Frederi CuGrande! Assim, vendo que ilustres escritores pernambucanos chamavam meu bisavô de "o execrável João Ferreira-Quaderna", vi logo que aquilo era uma coisa régia e grandiosa e que o nome monárquico dele devia ser Dom João II, o Execrável! - Mas isso é um nome pejorativo! - disse o Corregedor que, naquele dia, apesar de todas as minhas lições, ainda estava meio cru nessas questões de Monarquia.
Eu, compadecido dele, expliquei pacientemente: - Nessas questões de linhagem real, Senhor Corregedor, essas coisas pejorativas não têm a menor importância! Filipe, o Belo, da França, falsificava dinheiro, motivo pelo qual passou à História com o nome comprido mas bonito de Filipe, o Belo, o Moedeiro Falso! Ora, eu pensei assim: "Se esse Rei da França falsificava dinheiro, que é que tem que meus antepassados, Reis do Povo Brasileiro, degolassem mulheres, meninos e cachorros? Crime por crime, os da minha família foram muito menos chinfrins, porque degolar pessoas é muito mais monárquico do que passar dinheiro falso!" Está vendo, Excelência? Esse negócio de Rei é assim mesmo! Dom João li, o Príncipe Perfeito, que foi Rei de Portugal, cometeu um desses crimes régios, parecidos com os do meu bisavô: deu uma facada no cunhado, o Duque de Viseu, que, ali mesmo, na hora, esticou a canela!
- Quer dizer que o senhor, além de pertencer, pelo lado materno, "à linhagem real sertaneja dos Garcia-Barrettos", ainda pertence, pelo lado paterno, à "linhagem real da Pedra do Reino"? Os Quadernas são também, na verdade, como diz a carta, de linhagem real? - São, sim senhor! E não sou eu, um Quaderna, quem diz isso não, é um verdadeiro "Príncipe da Literatura Brasileira", o genial Pereira da Costa! Foi por causa do que ele escreveu que eu me convenci, de uma vez por todas, primeiro de que era Rei, depois que tinha de ser Monarquista da Esquerda! Está aqui o texto dele, ando sempre com o papel em minha pasta. Escute! Li então para o Corregedor e Margarida, aquelas palavras sacramentais de unção e consagração que tinham exercido -papel tão importante em minha vida, aquelas palavras de Pereira da Costa que começam assim: "Foi na Pedra Bonita que se firmou a reunião desses novos Sebastianistas, e nos subterrâneos dos seus rochedos foi o Templo de seus falsos Sacerdotes e o Sólio-Real dessa imaginária e caricata Monarquia". Quando eu acabei de ler, o Corregedor sorriu: . - Falsos sacerdotes! Monarquia caricata e imaginária! E o senhor recebe isso não só resignado, como até orgulhoso, segundo parece? - É isso mesmo, Excelência! Pereira da Costa era um escritor oficial e consagrado, membro do "Instituto Arqueológico de Pernambuco", de modo que a palavra dele é palavra de Príncipe, não voltaria atrás nem que ele depois, arrependido, quisesse se desdizer! Se ele consagrou meus antepassados como Reis do Brasil, mesmo que considere caricata a nossa Monarquia nós estamos consagrados e acabou-se, nem Deus agora dá jeito! Quanto ao fato dele considerar caricata e imaginária uma Monarquia sertaneja tão gloriosa e cavalariana quanto a da Pedra do Reino, isso é problema dele! Não tenho culpa de Pereira da Costa, com todo o seu gênio, ser burro desse jeito! Depois, acontece que todas as monarquias são imaginárias e caricatas! - E o senhor, mesmo pensando assim, é monarquista? - Sou, sim senhor! Sou da Esquerda régia, ou, se Vossa Excelência prefere, um Monarquista da Esquerda! - Por que essa contradição? - Porque acho Monarquia bonito, com aquelas Coroas, tronos, cetros, Brasões, desfiles a cavalo, bandeiras, punhais, Cavaleiros e Princesas, como no folheto de Carlos Magno e os Doze Pares de França! É por isso que meu parente Dom Silvestre José dos Santos foi Rei do Brasil, na Serra do Rodeador, em Pernambuco, com o nome de Dom Silvestre I, o Enviado. Na Pedra do Reino, estiveram juntos, reinando, os dois ramos da família, os Vieira-dos-Santos e os Ferreira-Quadernas. Os Vieira-dos-Santos eram os quatro filhos do velho Príncipe Dom Gonçalo José dos Santos: João Antônio, Pedro Antônio, Isabel e Josefa; ou melhor, Dom João I, o Precursor, Dom Pedro I, o Astucioso, a Princesa Isabel e a Rainha Josefa. Do ramo dos Quadernas, estavam lá o velho Príncipe Dom José Maria Ferreira-Quaderna, meu trisavô o pai do meu bisavô, Dom João Ferreira-Quaderna, subido ao Trono sertanejo do Brasil com o nome de Dom João II, o Execrável. Mas os dois ramos terminaram se unificando, porque meu bisavô casou-se com as duas irmãs, primas dele, a Rainha Josefa o a Princesa Isabel! - Casou-se com as duas irmãs de uma vez? - Senhor Corregedor, Vossa Excelência já deve ter notado que o Catolicismo Sertanejo tem suas leis e seus mandamentos próprios! A poligamia, o pensamento socialista-sertanejo e monárquico, a devora dos proprietários por Cachorros degolados e ressuscitados como Dragões eram alguns dos itens do nosso credo da Pedra do Reino! - Veja, Dona Margarida, que fim de mundo! - disse o Corregedor. - Eu sabia que aquela gente tinha sido cruel e fanática; mas nunca pensei que fossem, também, tão perigosos e subversivos! E veja como isso vai se ligando aos poucos, para a explicação de tudo o que aconteceu, aqui! Sinésio, sendo filho de sua irmã, Senhor Pedro Dinis Quaderna, era, também, descendente desse pessoal, não era? - Era, sim senhor! Eu e Sinésio somos descendentes de Dom João II, o Execrável e da prima e segunda-mulher dele, a Princesa Isabel, degolada por ordem do marido, no dia 16 de Maio de 1838, juntamente com a outra Rainha, minha tia-bisavó Dona Josefa! - Que horror! Que monstruosidade, a do seu bisavô! - disse o juiz.
- Excelência, nessa questão de degolar as esposas, meu bisavô não era nada, comparado com o rei Henrique VIII, da Inglaterra! Além disso, depois eu descobri que todos os Reis cujas vidas são narradas na História da Civilização tinham historiadores que escreviam sobre as vidas deles umas espécies de Epopéias chamadas "Crônicas" e onde vinha a relação de tudo quanto era crime e safadeza que eles tinham praticado. Foi assim que fiquei de novo orgulhosíssimo, vendo que os Reis sertanejos, antepassados meus e de Sinésio, tinham tido Cronistas nas pessoas de seis geniais escritores brasileiros - Varnhagen, Pereira da Costa, Sebastião de Vasconcelos Galvão, Antônio Áttico de Souza Leite, Euclydes da Cunha e o Comendador Francisco Benício das Chagas! - E todos esses se ocuparam, mesmo, da Monarquia sertaneja da Pedra do Reino? - Se ocuparam, sim senhor! Mas, para mim, o melhor foi o genial Antônio Áttico de Souza Leite, porque fez uma Epopéia, com cavalos e Cavaleiros, combates sanguinolentos, Reis assassinados, Rainhas e Princesas degoladas e tudo! Espero, um dia, "versar" tudo o que ele escreveu, metendo o resultado na minha Obra, no meu Castelo sertanejo! Mas como, antes disso, eu já pretendia fazer um certo proselitismo entre os Sertanejos, mandei imprimir na tipografia da Gazeta uma cópia "revista e melhorada" da Epopéia em prosa do genial Souza Leite. Na capa, vinha o título: Memória sobre A Pedra do Reino, ou Reino Encantado, na Comarca da Vila Bela da Serra Talhada, Província de Pernambuco. Debaixo do título, eu coloquei a gravura que meu irmão Taparica Pajeú tinha riscado e cortado em madeira. Publiquei, também, um folheto em versos sobre o mesmo assunto, escrito por meu velho primo João Melchíades, ilustrando sua capa com a mesma gravura de Taparica. A gravura foi feita de acordo com o desenho que o Padre Francisco José Correa de Albuquerque fez do lugar sagrado da Pedra do Reino. Vossa Excelência conhece esse desenho? - Não! - Pois procure a revista do "Instituto Arqueológico" e veja, porque é uma beleza! É um anfiteatro grande, com o esqueleto do meu bisavô amarrado em dois troncos de árvore, com um bocado, mais, de caveiras de gente e de cachorro, pedras, pés de pau, subterrâneos encantados, o diabo! Mas, como no folheto não cabia tudo o que existia no desenho, eu mandei Taparica tirar as coisas mais desonrosas na primeira cópia: o esqueleto de meu bisavô foi uma! Depois, na segunda gravura, ele copiou somente as duas grandes pedras cilíndricas e paralelas que, segundo os Reis meus antepassados, eram as duas torres da Catedral soterrada e encantada dos Sertanejos. No meio delas, Taparica colocou um retrato do nosso bisavô, com Coroa na cabeça, para impressionar! Olhe, Senhor Corregedor, eu tenho aqui, na minha pasta, exemplares dos dois folhetos, de modo que posso dar ao senhor uma cópia de cada um, para serem anexadas ao processo!
Li então para o Corregedor toda aquela história que Vossas Excelências já conhecem, nobres Senhores e belas Damas. Quando acabei, entreguei a ele os exemplares dos folhetos, que foram passados a Margarida e anexados ao inquérito. Então o Corregedor falou: - Dom Pedro Dinis Quaderna, agora tudo começa a se esclarecer! Só não entendo é como, a partir daí, o senhor pode provar que é, mesmo, descendente, em linha masculina e direta, desse pessoal da Pedra do Reino! - É fácil, Senhor Corregedor! Antônio Attico de Souza Leite não foi muito claro porque ele só escreveu sobre a Pedra do Reino, mesmo, deixando de lado o que aconteceu depois. Acontece porém que minha bisavó, a Princesa Isabel, no momento de ser degolada, pariu, como o senhor deve se lembrar, um menino que rolou pela pedra abaixo. Esse menino foi meu avô, Dom Pedro Alexandre, criado pelo Padre Manuel José do Nascimento Bruno Wanderley. Quando ele cresceu, o Padre Wanderley casou-o com uma filha natural sua, Bruna Wanderley, minha avó. É por isso que os Quadernas ora nascem morenos como eu, puxando ao sangue mouro-mameluco dos Vieira-dos-Santos e dos Quadernas, ora nascem louros, como era o caso de minha irmã Joana Quaderna, puxando ao sangue godo-flamengo de minha avó Bruna, filha do Padre Wanderley.
- Quer dizer que a linhagem real da Pedra do Reino continuou através de uma filha de padre ...
- É, sim senhor, o que não quer dizer nada, porque a dos Braganças também descende de um filho de Bispo! Dom Pedro Alexandre, meu avô, casou com a filha do Padre Wanderley; ela emprenhou e pariu meu Pai, Dom Jedro Justino, a quem eu, Dom Pedro Dinis, sucedi, com o nome de Dom Pedro IV! Ave Maria, nobres Senhores e belas Damas! Quando eu vi, já tinha dito isso e não havia mais jeito de voltar atrás! O Corregedor partiu como uma fera: - Quer dizer que o senhor é que é o verdadeiro Rei do Brasil? Afinal de contas, quem era o Rei, mesmo, daqui? O senhor ou seu Padrinho, Dom Pedro Sebastião? Vi que minha situação estava ficando cada vez mais perigosa, mas como não havia mais jeito, continuei a confessar: - De fato, Senhor Corregedor, o Rei, por direito e por sangue, sou eu! Ou melhor, eu é que sou o Imperador, dominando sobre todo o vasto Quinto Império do Escorpião! Meu Padrinho era somente Rei do Cariri, um dos sete Reinos integrantes do Império todo! Outro desses Reis vassalos e tributários meus, foi Dom José Pereira Lima, o invencível guerrilheiro de Princesa! - Ah, quer dizer que o senhor reconhece, formalmente, que a insurreição de Princesa seria, para o senhor, um novo episódio da Pedra do Reino! E provavelmente, quando Sinésio apareceu por aqui, montado em seu cavalo branco, era tudo isso que o senhor tinha em mente, procurando unir os Sertanejos para nova sedição contra as autoridades...
- Senhor Corregedor, o que eu queria mesmo, confesso, era ser Imperador do Sertão e do Brasil,-para me tornar Gênio da Raça Brasileira. Agora, que para isso eu queria unir o movimento da Pedra do Reino com a Revolução de Princesa e a Demanda Novelosa que empreendemos com. Sinésio, isso eu queria! - Muito bem! Anote essa confissão do acusado, Dona Margarida! Agora, uma pergunta que lhe faço por curiosidade, Dom Pedro Dinis Quaderna! Me diga uma coisa: seus irmãos legítimos não eram, todos, mais velhos do que o senhor? - Eram, sim senhor! - Então como é que se explica que o senhor tenha sido o herdeiro do Trono? - Eu redigi um papel pelo qual eles abdicavam desse direito, e todos quatro o assinaram.
- Sem opor dificuldade? - Sem opor dificuldade! A princípio, julgando que se tratava de renúncia a alguma herança de terras, ficaram hesitando. Mas depois que viram o que era, assinaram tudo, até achando graça! Manuel, o mais velho, chegou a dizer para os outros: "Esse Dinis tem cada coisa! Eu estou lá ligando pra essas coisas do tempo do ronca, do tempo de Dom João Pamparra e de Dom Pedro Cipó-Pau!" Agora, o que acontece é que eu nunca ousei assumir, de fato, o Trono! - menti. - Eu descobrira que as pessoas que realmente encarnam os Países, os chamados "Gênios das Raças", são sempre Poetas, e não Reis! Assim, para que diabo ia me meter nessas empreitadas arriscando-me a morrer degolado, como meu Padrinho? Por isso, limitei-me a desempenhar, junto a Dom Pedro Sebastião, as funções de Astrólogo, Conselheiro, Rei de Armas, Guarda do Selo e dos Tesouros do Cariri. Quando Sinésio apareceu depois, em 1935, foi a mesma coisa: ele era o Príncipe do Cavalo Branco e eu desempenhava, junto a ele, as mesmas funções que tinha exercido junto a seu Pai! - O senhor confessa, então, que tomou o partido de Sinésio contra Arésio? - Confesso, sim senhor! Aliás, era uma questão de sangue e parentesco! Sinésio, além de ser meu primo pelo lado dos GarciaBarrettos, era meu sobrinho, por parte da minha irmã Joana! Arésio era somente primo, porque era Garcia-Barretto, mas não era Quaderna! Mas, apesar de tomar o partido de Sinésio, eu via perfeitamente que ele ia arriscar a garganta, que seu destino provável era acabar como o Pai, degolado. Resolvi, então, deixar ver como corriam as coisas: ficaria ao lado de Sinésio, como Astrólogo e Rei de Armas. Se as coisas corressem bem com ele e com a expedição, minha situação seria ótima. Se corressem mal, eu não -teria me comprometido diretamente na Revolução da "Guerra do Reino". Poderia, então, tendo visto tudo, escrever a minha Crônica epopéica, A Desaventura de Sinésio, o Alumioso, começando-a com a história de meu Padrinho, continuando com a de Sinésio e tornando-me, com ela, "Gênio da Raça Brasileira", oficialmente reconhecido como tal pela Academia Brasileira de Letras! - Quer dizer então que o Chefe guerreiro da tal viagem revolucionária e sediciosa que vocês fizeram foi, mesmo, o rapaz do cavalo branco?
- Foi, sim senhor!
- Anote, Dona Margarida! Vamos então voltar ao dia da chegada de Sinésio, Dom Pedro Dinis Quaderna! Preciso de informações exatas sobre todos os personagens que tinham mais interesse na vida ou na morte do rapaz do cavalo branco. O senhor vai, portanto, fazer um esforço para recordar onde estavam e que faziam essas pessoas, no momento em que o Doutor Pedro Gouveia declarou ao juiz da Comarca que o rapaz do cavalo branco era Sinésio. A seu ver, quem eram as pessoas mais afetadas pela reaparição do rapaz? - Acho que eram, em primeiro lugar, Arésio, irmão dele, por causa da herança; o usineiro Antônio Moraes, com seu filho Gustavo e sua filha Genoveva; e finalmente as duas filhas do antigo sócio de meu Padrinho, o gringo Edmundo Swendson, isto é, a moça Clara, que era a mais velha, e a caçula, Dona Heliana, a que tinha os olhos verdes! Vou então, conforme seu pedido, ver se consigo me lembrar e contar onde estavam e o que faziam todos esses, no momento em que Sinésio, ressuscitado, reapareceu aqui!
A Filha Noiva do Pai, ou Amor, Culpa e Perdão - Enquanto, na rua, se apresentavam as Cavalhadas, sucedia na Casa de Dom Antônio Moraes um episódio importantíssimo para a nossa história. Devo esclarecer que, além da casa da fazenda "Angicos", Dom Antônio Moraes tinha aquela, que fica naquele alto e que Vossa Excelência pode avistar, daqui desta janela. É urna casa de fazenda que pertenceu ao Coronel Deusdedit Villar, homem da mesma família do Contra Almirante, Senhor Corregedor. Como o senhor poderá ver se vier até aqui, hoje ela está abandonada e meio derruída. Caíram os telhados que cobriam a calçada de Pedra que rodeia a casa, e que, formava, assim, o copiar. Caiu o velho cruzeiro de madeira, plantado sobre uma base de pedra-e-cal e que era tão caro ao "esteta Gustavo Moraes", como dizia Samuel. Caiu o muro de pedra que os Moraes tinham mandado construir e que separava oo pátio da casa dos marmeleiros do alto do Tabuleiro. Foi derrubada a torre que Gustavo Moraes mandara erguer, um pouco à imitação da velha "Casa-Forte da Onça Malhada"; de fato, esta era bastante mais antiga, mais severa e forte, e Gustavo Moraes não perdoava isso à família GarciaBarretto, inimiga e rival da sua: por isso, numa revolta contra o tempo e contra os fatos, procurara suprir artificialmente e quanto possível as diferenças, tentando ficar em pé de igualdade com a família do meu Padrinho. Mas o certo é que, abandonada, arruinada e solitária, a casa ainda está ali, e Vossa Excelência, se quiser, pode ir lá, em diligência para o nosso inquérito. Naquele ano, estava restaurada e perfeita, abrigando o esplendor e a fortuna com que os Moraes nos deslumbravam, as idéias novas, o luxo e as novidades que traziam do Recife. Naquele dia da chegada de Sinésio, estavam lá Antônio Moraes, seu filho mais moço, Miguel, e sua filha Genoveva, aquela que exerceu um papel tão terrível na vida de Arésio Garcia-Barretto. Não estavam, no momento, nem o filho mais velho, Gustavo, nem Arésio que, como já disse, estava morando lá, como hóspede. Arésio, com seu gênio sombrio, estranho e violento, desaparecia às vezes durante dois ou três dias, sem dar explicações a ninguém sobre isso. Aquele era um desses dias. Desde a véspera, Sexta-Feira à noite, que ele se ausentara da casa dos Moraes, de modo que no momento em que Sinésio foi dado a conhecer, ninguém ali sabia onde se encontrava seu irmão mais velho. Aliás, Senhor Corregedor, acho que muita coisa da minha história ficará logo esclarecida, se eu disser a Vossa Excelência que se trata de uma história de casas arruinadas. Em ruínas, está, como lhe disse, a velha e grande casa do "Alto dos Borrotes", comprada por Dom Antônio Moraes aos herdeiros do Fidalgo Dom Deusdedit Villar, Coronel de Milícias e Capitão-Mor do Sertão do Taperoá. Em ruínas está a velha casa, edificada por Dom Edmundo Swendson, pai de Clara e Heliana, perto da Fortaleza do Nazaré do Cabo, a cavaleiro sobre a barra do Rio Suape, no litoral de Pernambuco. Em ruínas está a casa-forte da "Onça Malhada", incendiada na noite do dia 24 de Agosto de 1930. E finalmente está em ruínas a antiga "Fortaleza de São Joaquim da Pedra", situada no litoral do Rio Grande do Norte e pertencente, também, ao pai de Clara e Heliana, as duas moças que, por um equívoco ao mesmo tempo funesto e alumioso, terminaram efetuando o "cruzamento de amor e sangue" que encruzilhou e crucificou o destino de Sinésio. Mas, como eu vinha dizendo: o primeiro acontecimento importante daquela tarde, sucedeu na casa do usineiro e dono de minas Antônio Moraes.. Foi-me comunicado, logo na noite daquele Sábado memorável, por um pedreiro, Teodoro Barba-de-Bode, que era meu discípulo e membro mais ou menos influente da "Ordem dos Cavaleiros da Pedra do Reino".
- Ah, quer dizer que o senhor confessa que fundou essa Ordem? - Confesso, sim senhor! Como Vossa Excelência deve se lembrar pela narração de Antônio Áttico de Souza Leite, isso de fundar uma seita para cobrar jóias em dinheiro é uma tradição da minha família - e também, aliás, de toda Monarquia que se preza. Pois bem: Teodoro Barba-de-Bode tinha sido contratado, uns vinte dias antes, para executar uns trabalhos de pedreiro na velha casa dos Moraes. Gustavo, filho mais velho, dirigira as reformas da velha casa, introduzindo nela várias modificações ditadas pelas novas idéias que ele trouxera do Recife. Como nos explicara o Doutor Samuel, Gustavo bebera essas idéias junto a um estranho grupo de intelectuais recifenses da Direita, grupo congregado em torno de um Padre jesuíta mais estranho ainda, o Padre Antônio Fernandes. Esse Padre era um hindu-português de Goa, homem enigmático e político, que adquirira renome no Recife, principalmente depois da acirrada polêmica que mantivera com um Filósofo francês. Conseguira reunir, em volta de si, Poetas, jornalistas e políticos, jovens e ardorosos. Alguns deles estavam entrando, como eminências-pardas, no Poder do Estado, em Pernambuco. Outros tinham fundado uma revista de Arte e Literatura, Fronteira; e fora ao contato do grupo esteticista e belamente reacionário de Fronteira - como dizia Samuel - que Gustavo Moraes adquirira as idéias com as quais, primeiro nos chocara, e depois nos deslumbrara a todos nós, intelectuais sertanejos de Taperoá. Esse grupo de intelectuais recifenses da Direita "pusera em moda o estilo Barroco brasileiro; o despojamento monacal dos Mosteiros e das Casas-de-Missões jesuíticas; os espelhos, os cristais, as pratarias; a Aristocracia dos Engenhos; o Catolicismo meio inquisitorial dos Ibéricos; o gosto pela arquitetura dos velhos sobrados de azulejos; das velhas Igrejas - com suas esculturas em madeira, seus retábulos e painéis pintados a óleo sobre tábuas de cedro - assim como pela arquitetura das velhas Fortalezas brasileiras dos séculos XVI, XVII e XVIII", o que, tudo, soubemos ainda pelo Doutor Samuel Wan d'Ernes. Assim, de acordo com essas "boas e velhas idéias tradicionais", Gustavo Moraes rasgara de aberturas as paredes da casa da família Villar - comprada por dinheiro muito acima de seu valor - enchendo-a de nichos e santuários, nos quais colocara santos de barro cozido ou de madeira, comprados por tudo quanto era de sacristia e igreja velha da Paraíba e de Pernambuco.