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O Santo e a Porca

Ariano Suassuna

SEGUNDO ATO

Mesma sala. Entram CAROBA, MARGARIDA e DODÓ.

CAROBA — Mas que jeito eu podia dar? Ele queria a entrevista, eu estava precisando agradá-lo para ele confiar em mim, o jeito foi marcar! DODÓ — Que jeito que nada! O que há é que você se acostumou a agradar meu pai e ficou contra mim! CAROBA — Deixe de ser ingrato, Seu Dodó. Eu estou tentando arranjar seu casamento e o senhor vem dizer isso! MARGARIDA — É, meu amor, que mal faz? Eu vou, e, se achar um modo de afastar seu pai sem mágoa, afasto.

DODÓ — E ainda por cima, o perigo que você nos fez correr! Imagine se Margarida não visse o gesto que você fez! Era capaz de deitar tudo a perder.

CAROBA — Que é que eu podia fazer? Era preciso que eu pai acreditasse que a noiva era ela. Agora, que já está encaminhado, o senhor fica aí dando jeito em tudo.

queria ver era na hora, inventar tudo isso de repente, noivar seu pai com Dona Benona, quando ele pensava que era com Dona Margarida, noivar Dona Benona no pedido da sobrinha, fazer Seu Euricão acreditar que o candidato a genro queria ser cunhado... O senhor acha pouco? MARGARIDA — É, meu bem, Caroba já fez demais! Por que você não concorda com essa tolice de entrevista? DODÓ — Não concordo porque não gosto de ver você metida nisso! MARGARIDA — Mas meu bem, trata-se de seu pai! DODÓ — Não tenho nada com isso, agora é candidato a se casar com você.

CAROBA — A entrevista é que vai resolver tudo, Seu Dodó! DODÓ — Resolver tudo o quê? Ela vai é complicar tudo, isso sim! Na hora, papai pode entender a história de repente e a gente está desgraçado. Porque, se Seu Euricão descobrir que papai quer casar é com Margarida, desfaz o noivado de Dona Benona na mesma hora e faz o que meu pai quer! Seu Euricão faz qualquer acordo, contanto que não perca o dinheiro de meu pai! MARGARIDA — Não, isso também não é direito não, meu bem! Você, zombar da pobreza de meu pai? Ele e pobre mas não vê nada no mundo além de mim! DODÓ — (Duvidoso.) Eu sei! MARGARIDA — Você é quem parece de repente cheio de dureza para com ele! Você não já sabia como ele era? Por que, então, esses modos, de repente? Parece é que você quer me deixar de lado e está procurando um pretexto! DODÓ — E você? Parece estar ansiosa por essa entrevista! Pois vá! Vá, siga os conselhos de Caroba e, quando estiver de volta, jogue fora a aliança que lhe dei. Não quero casar com uma moça que marca entrevista com outro! (Sai, MARGARIDA chora.) CAROBA — Não chore não, Dona Margarida. Quando Seu Dodó chegar à conclusão de que tudo está bem, acaba com essa besteira.

MARGARIDA — Eu sei lá, eu sei lá, Caroba! Que complicação, meu Deus! E essa trapalhada de entrevista... Não vou, Caroba, não vou de jeito nenhum. Afinal de contas, quem marcou a entrevista? CAROBA — Eu! MARGARIDA — Pois vá você, está ouvindo? Você foi Quem marcou, você é quem vai.

CAROBA — Mas Dona Margarida, eu quero lhe explicar que...

MARGARIDA — Vai! Vai e não adianta discutir! CAROBA — Mas Dona Margarida, eu...

MARGARIDA — Eu lhe dou um vestido meu e você vai em meu lugar! Você é mais ou menos de meu tipo: com meu vestido, de noite, no escuro, pode passar por mim, perfeitamente! CAROBA — Tem que ser um vestido que Seu Eudoro conheça, senão não dá certo! MARGARIDA — Eu lhe dou este, antes da hora! CAROBA — Sim, Dona Margarida, mas...

MARGARIDA — Não admito discussão! É isso e é isso mesmo. Prepare-se, porque na hora eu lhe dou o vestido e você vai à entrevista! (Vai saindo.) CAROBA — Mas é claro que vou à entrevista, se meu plano todo era esse! MARGARIDA tem saído. PINHÃO, que vem entrando, ouve a frase.

PINHÃO — Que história é essa, Caroba? É a entrevista que o patrão marcou com Dona Margarida? CAROBA — É, eu vou no lugar dela! PINHÃO — Eu não quero você com o patrão aqui, de jeito nenhum! Aquilo é um viúvo sonso dos seiscentos diabos.

CAROBA — Espere lá, Pinhão, você não entendeu nada! PINHÃO — Não entendi, nem quero entender, está ouvindo? Você foi ao hotel falar com ele? CAROBA — Fui, e então? Precisava esclarecer certas coisas e fui! PINHÃO — E por que não me disse que ia? CAROBA — Ainda mais essa! PINHÃO — Você foi para falar sobre a entrevista? CAROBA — Fui! PINHÃO — E vai a essa entrevista com ele, de noite? CAROBA — Vou! PINHÃO — Vai como? CAROBA — Vou do jeito que entender! PINHÃO — Pois quero lhe dizer logo que é essa entrevista ou eu, está ouvindo? Trate de escolher! CAROBA — Já escolhi! PINHÃO — Quem ganhou? CAROBA — A entrevista! Você quer mandar em mim, é, Pinhão? Que desconfiança é essa, se nunca lhe dei motivo? Vou e é quer você queria, quer não! PINHÃO — Pois adeus, Caroba. Quem gosta de dormente é o trem. (Sai.

CAROBA chora, mas logo enxuga as lágrimas.) CAROBA — Essa é boa, ninguém deixa eu falar e haja todo mundo contra mim! Entra BENONA.

BENONA — Caroba, estava precisando falar com você. Que é isso? Que é que você tem? CAROBA — Cada um sabe de si e de suas agonias, Dona Benona! BENONA — É verdade, Caroba. Eu mesma, tão contente que estava e começo a ficar inquieta.

CAROBA — Inquieta? Por quê? BENONA — É Eudoro, Caroba! Achei Eudoro tão esquisito para uma pessoa que veio reatar um noivado interrompido! CAROBA — É o tempo que passou, Dona Benona! BENONA — Você acha? CAROBA — Não tenha dúvida, ele continua no mesmo entusiasmo! Chegou até a pedir que eu arranjasse uma entrevista dele com a senhora! BENONA — Uma entrevista? Quando? CAROBA — À noite, quando o povo estiver dormindo.

BENONA — Eurico vai estranhar.

CAROBA — Para estranhar, ele vai ter que saber, e Seu Euricão não vai saber de nada.

BENONA — E se alguém acordar? CAROBA — A senhora vem disfarçada. Veste um vestido de Dona Margarida. Se alguém acordar, a senhora faz que é ela, que veio rezar, e ninguém desconfia. De noite, é fácil.

BENONA — E como é que eu vou arranjar o vestido de Margarida? CAROBA — Pode deixar que disso eu me encarrego. Depois do jantar, deixo a porta destrancada e Seu Eudoro vem. Quando tudo estiver preparado, canto como gia, entrego o vestido e a senhora fala com ele.

BENONA — Foi Eudoro quem pediu isso? CAROBA — Foi.

BENONA — Então eu vou.

CAROBA — Mas não vá falar com ele sobre isso antes, não! Alguém pode ouvir e vai tudo d'água abaixo.

BENONA — Não tenha cuidado, ninguém vai entender nada! Pinhão encomendou o jantar? CAROBA — Encomendou, já chegaram alguns dos Pratos.

BENONA — Então vamos ajeitar tudo, porque o noivo chega já.

Saem. PINHÃO e DODÓ entram, vindos de lados opostos, ambos arrependidos.

DODÓ — Margarida... Pinhão! Que há? PINHÃO — Nada, Seu Dodó. Fui eu que peguei uma briga com Caroba e vinha fazer as pazes.

DODÓ — Eu também peguei uma com Margarida e vinha para isso mesmo, Pinhão! PINHÃO — Terá sido um negócio de uma entrevista, Seu Dodó? DODÓ — Foi, Pinhão.

PINHÃO — Eu fiquei danado porque Caroba disse que ia no lugar de Dona Margarida.

DODÓ — Como, se Margarida me disse, aqui, que ia à entrevista? PINHÃO — Pois então já vi que seu pai marcou entrevista foi com as duas, Seu Dodó.

DODÓ — Você o que acha dessa entrevista, Pinhão? PINHÃO — Seu Dodó, de sua noiva quem sabe é o senhor, mas a minha, eu não quero que vá de jeito nenhum.

DODÓ — Aí há alguma coisa, Pinhão. Todas duas deram de repente para querer ir à entrevista. Que será? PINHÃO — Eu sei lá, Seu Dodó! DODÓ — Não custa nada esclarecer, não é? Vamos fazer o seguinte: quando Caroba abrir a porta, a gente vem antes e se esconde aqui. Assim, assiste-se à entrevista e pode-se saber, afinal de contas, o que é isso. Está certo? PINHÃO — Está, Seu Dodó.

DODÓ — E o jantar? Você arranjou tudo? PINHÃO — Arranjei, os pratos começaram a chegar.

DODÓ — Chegaram uns homens aí fora.

PINHÃO — São os dois empregados do hotel, certamente vêm com a porca.

Arranjei uma porca assada para nós.

DODÓ — Então, pelo menos, hoje se tira a barriga da miséria! Estou aqui há dois meses, é a segunda vez que vou comer de noite. Vá receber a porca.

PINHÃO — (Gritando para fora, enquanto sai.) É a porca? Levem lá para trás, nossa alegria hoje é essa porca. É a porca? (Sai. EURICÃO cruza a cena, transtornado.) EURICÃO — Ai, a porca! Pega, pega o ladrão! Sai no encalço de PINHÃO. Ouvem-se gritos, som de pancadas, imprecações. PINHÃO entra correndo, com EURICÃO atrás, ameaçador, EURICÃO vai investir sobre PINHÃO, que puxa uma faca.

EURICÃO — Pega, pega o ladrão! Assassino, ladrão! DODÓ — O que é isso, Seu Eurico? Que é isso, Pinhão? Guarde essa faca imediatamente.

EURICÃO — Não, deixe ele assim, quero mesmo que a polícia veja! Pega, pega o ladrão! Vou denunciá-lo à polícia! PINHÃO —Porquê? EURICÃO — Porque você anda com uma faca.

PINHÃO — Aqui todo mundo anda! EURICÃO — Mas você me ameaçou.

PINHÃO — Ameacei para não apanhar, Seu Dodó é testemunha.

EURICÃO — Dodó não é testemunha de coisa nenhuma, que o patrão dele sou eu! PINHÃO — Por que o senhor deu em mim? EURICÃO — Ainda pergunta? Quer mais? PINHÃO — Venha! EURICÃO — (Avançando para PINHÃO, que recua.) Que é que você veio fazer em minha casa sem minha ordem? PINHÃO — (Mesmo tom, mesmo ritmo, com EURICÃO recuando.) Vim trazer o jantar que o senhor encomendou EURICÃO — (Idem.) E é de sua conta que se coma ou não se coma em minha casa? Você é meu pai? PINHÃO — (Idem.) O que eu quero saber é se é para trazer o jantar ou não.

EURICÃO — (Idem.) E eu, o que quero saber é se minha casa se salvará.

PINHÃO — (Idem.) E eu, o que quero é me salvar com minha porca.

EURICÃO — Com a porca? Ai, ai, minha porca! Ai minha porca, pelo amor de Deus! Santo Antônio, Santo Antônio! Saiam, saiam daqui imediatamente. Entrem aí que eu vou trancar vocês dois, seus ladrões! Seus criminosos! Entrem já. (Vai trancá-los no porão, mas de repente, aterrorizado, lembra-se de que a porca está lá.) EURICÃO — Não, não entra ninguém! Fiquem de costas, todos dois. Tapem os olhos com as mãos. Já! Se tirarem as mãos, denuncio vocês dois ao Delegado como ladrões de cavalo. Fiquem aí. Não se virem. Olhe a denúncia, boto todos dois na cadeia. Você se virou, Dodó? DODÓ — Não, Seu Eurico.

EURICÃO — E você, ladrão? PINHÃO — Sou eu, é? EURICÃO — Quem mais havia de ser? Você se virou? PINHÃO — Eu não! EURICÃO — Fiquem como estavam, não se virem.

Entra de novo no quarto e volta rapidamente, aliviado.

EURICÃO — Está bem, podem se virar. Que foi que houve aqui? DODÓ — Nada! EURICÃO — Ouvi esse tal de Pinhão gritar.

PINHÃO — E eu gritei mesmo, Seu Euricão.

EURICÃO — O que foi que você gritou? PINHÃO — Gritei pela porca! EURICÃO — Está vendo, ladrão? É um ladrão, um criminoso, um bandido que quer sugar meu sangue. O que é que você quer com minha porca? PINHÃO — Quero comer, Seu Euricão! EURICÃO — Comer? PINHÃO — Sim, comer, a porca que Seu Dadá mandou para o jantar e que chegou agora! EURICÃO — A porca? O jantar (Entendendo e disfarçando.) Ah, sim, naturalmente, a porca! Assada ou cozida, Pinhão? PINHÃO — Eu sei lá! EURICÃO — Está bem, o certo é que é preciso cuidado! Todo cuidado é pouco, Santo Antônio, todo cuidado é pouco! E antes que me enganem, é melhor eu me certificar. Saiam. Se não existir essa porca mesmo, vou fazer a denúncia e o Delegado Cabo Rangel prende você como ladrão de cavalo. (Sai.) PINHÃO, desconfiado, vai até a porta e fica olhando o quarto, pensativo.

PINHÃO — O senhor entendeu alguma coisa, Seu Dodó? DODÓ — Isso é um louco! Você não imagina até onde vai a avareza dele. Desde que estou aqui, só se comeu à noite uma vez. E ele exige que a gente pague a refeição, porque acha que mais de uma refeição por dia é luxo! PINHÃO — E quem não tem para pagar, como Caroba? DODÓ — De quem não paga, ele desconta o preço no ordenado.

PINHÃO — Aí é que quero saber como! Ela me disse que desde que chegou aqui ainda não recebeu um tostão! DODÓ — O golpe dele é esse! Deu o primeiro jantar, cobrou o preço. Caroba não pôde pagar porque não tinha recebido o ordenado. Agora, quando Caroba cobra o ordenado, ele diz que ela primeiro pague o jantar. Como Caroba não tem o dinheiro, não paga. Assim, por conta do jantar que ele dá cada mês, economiza o salário dos empregados.

PINHÃO — Que ladrão! DODÓ — Não é ladrão não, Pinhão, é louco.

PINHÃO — Seu Dodó, eu só acredito que uma pessoa é doida quando ela começa a rasgar dinheiro. Com fama de doido, Zé Sabido enriqueceu.

DODÓ — A felicidade nossa é que deixei um rapaz no Recife recebendo a mesada que meu pai me manda e ele remete o dinheiro pelo correio. É assim que vamos passando, eu e Caroba. Mas já estou ficando cansado de ter que suportar a loucura desse arábe, esses fingimentos, essas mentiras, estes disfarces... Sabe de uma coisa, Pinhão? Não estou mais disposto a suportar isso e vou descobrir tudo! PINHÃO — Seu Dodó! DODÓ tira os disfarces e se endireita. Entram CAROBA e MARGARIDA, conduzindo EUDORO VICENTE.

CAROBA — Venha por aqui, Seu Eudoro.

PINHÃO acena para CAROBA, mostrando DODÓ sem os disfarces, mas ela não entende e dá-lhe as costas, zangada. DODÓ volta-se para ela, com EUDORO no limiar.

DODÓ — Margarida...

CAROBA — Ai! Um ladrão! DODÓ — Um ladrão? EUDORO — Um ladrão? CAROBA — (Agarrando-se com ele.) Um ladrão, Seu Eudoro! Ai, o ladrão! (Empurra EUDORO, saindo de cena com ele.) DODÓ — Pega! Pega o ladrão! PINHÃO — (Avisando.) Seu Dodó! Seu Dodó! Sai correndo atrás de DODÓ, este sem o disfarce.

PINHÃO e MARGARIDA dão a volta à casa e regressam à cena, cada qual por um lado.

PINHÃO — Onde estão eles?

MARGARIDA — Não sei. Ave Maria, Pinhão, veja se pega Dodó e avisa a ele! PINHÃO — E a senhora, veja se leva Seu Eudoro para a outra sala! MARGARIDA — Está bem, vá por lá que eu vou por cá.

Saem. Aparecem DODÓ e EUDORO, cada um por um lado, com jeito de quem procura. Os dois caminham um para o outro e vão se encontrar, mas na hora exata, cada um vira o rosto para o lado oposto e por um triz não se vêem. Vão ao limiar da cena, tendo se cruzado, e param ambos.

EUDORO — Escondeu-se! Será que está por aqui? DODÓ — Não vi nada, é melhor voltar! (Os dois se voltam, dão-se um encontrão e um grito de susto.) EUDORO — Ai, o ladrão! DODÓ — Ai! (EUDORO agarra DODÓ pelo pescoço, por trás, e este cobre o rosto com as mãos.) EUDORO — Caroba! Pinhão! Agarrei! Peguei o ladrão! Os dois acorrem, com MARGARIDA. CAROBA imediatamente dá um salto, escancha-se no lombo de EUDORO, e PINHÃO agarra-o. BENONA — que ouviu os gritos e entrou — agarra-se com EUDORO.

PINHÃO — Ah, ladrão safado! MARGARIDA — Ah, bandido! Bote a barba, Dodó! PINHÃO — Ladrão da peste! MARGARIDA — Ah, ladrão safado! CAROBA — (Aos sopapos com EUDORO.) Ladrão, ladrão safado! BENONA — Que é isso, Caroba? Que é isso? EUDORO — Espere aí, sou eu, Caroba! CAROBA — Eu o quê, safado! Roubando a casa do meu patrão! (Dá-lhe umas tapas na cara.) BENONA — Caroba, você está doida? CAROBA — É o ladrão, Dona Benona! Ah, ladrão safado! (DODÓ põe os disfarces.) EUDORO — Caroba! Sou eu, Caroba! DODÓ — Esperem, sou eu! Que ladrão, que nada! PINHÃO — Era o senhor, Seu Dodó? CAROBA — Espere, é o senhor, Seu Eudoro? EUDORO — Claro que sou eu, criatura! Você está doida? Que confusão é essa? CAROBA — É Seu Dodó Boca-da-Noite com essa cara de fantasma, assombrando a gente! Fui entrando, pensei que era um ladrão! EUDORO — Pois trate de olhar em quem dá, está ouvindo? Está me achando com cara de ladrão? BENONA — Ladrão pode não ser, mas é um atrevidinho, um bandido! EUDORO — Eu? BENONA — Sim, depois de certas coisas que ouvi, estou considerando você um ladrãozinho bem perigoso.

EUDORO — Eu, Benona? BENONA — Sim, você, atrevido! Seu atrevidinho, seu moleque audacioso! EUDORO — Minha senhora...

BENONA — Minha senhora o quê, malandro! Planeja suas histórias e depois vem com fingimento! Mas eu concordei de todo coração e quero que você saiba que a noiva estará presente.

EUDORO — (Inocente.) Estará presente onde? BENONA — Olhe a inocência dele! Que fingido, que malandro! EUDORO — Malandro, eu? Por quê? BENONA — Ora por quê! Marca suas entrevistas, vem com suas audácias e depois ainda se admira quando a gente o chama de malandro! EUDORO — Ai, e você sabe? CAROBA — Sabe, Seu Eudoro, ela sabe de tudo, mas felizmente fez uma exceção e está inteiramente de acordo, eu consegui convencê-la, não foi, Dona Benona? BENONA — Foi, ora se foi! CAROBA — Vamos saindo para o jantar? EUDORO — Mas tinham me dito que você era tão severa! BENONA — Com os outros, com você nunca mais! Quero recuperar...

MARGARIDA — Pega o ladrão! PINHÃO — Pega! Pega o ladrão! BENONA — Ai, socorro, Eudoro! (Abraça-se com ele.) EUDORO — Não vejo ladrão nenhum, que negócio é esse? Vocês estão loucos? Quem foi que gritou? MARGARIDA — Eu, mas não estava gritando por ladrão nenhum! Estava somente me lembrando de ainda agora! Foi tão engraçado! CAROBA — Eu vinha entrando, vi Seu Dodó e de repente gritei "Pega o ladrão!".

Foi tão engraçado! EUDORO permanece de cara enfarruscada diante de todos os outros, que vão desfilando diante dele e repetindo a frase, para desanuviá-lo.

PINHÃO — Foi! Caroba vinha entrando, viu Seu Dodó e gritou "Pega o ladrão!".

Foi tão engraçado! DODÓ — Eu vinha entrando, Caroba me viu e gritou "Pega o ladrão!". Foi tão engraçado! BENONA — Que coisa! Caroba vinha entrando, avistou Dodó e gritou "Pega o ladrão!". Foi tão engraçado! (Somente então EUDORO ri.) CAROBA— "Pega o ladrão!" Foi tão engraçado! Vamos? Ai, meu Deus, eu hoje estufo de tanto rir! (Sai empurrando todo mundo e todo mundo rindo. PINHÃO porém fica pensativo, olhando toda a sala.) VOZ DE EURICÃO — Ai, ai, meu Deus! Pega, pega o ladrão! Estão me roubando! PINHÃO se esconde e EURICÃO entra, aterrorizado.

EURICÃO — Ai, gritaram "Pega o ladrão!". Quem foi? Onde está? Pega, pega! Santo Antônio, Santo Antônio, que diabo de proteção é essa? Ouvi gritar "Pega o ladrão!". Ai, a porca, ai meu sangue, ai minha vida, ai minha porquinha do coração! Levaram, roubaram! Ai, não, está lá, graças a Deus! Que terá havido, minha Nossa Senhora? Terão desconfiado porque tirei a porca do lugar? Deve ter sido isso, desconfiaram e começaram a rondar para furtá-la! É melhor deixá-la aqui mesmo, à vista de todos, assim ninguém lhe dará importância! Ou não? Que é que eu faço, Santo Antônio? Deixo a porca lá, ou trago-a para aqui, sob sua proteção? Desde que ela saiu daqui que começaram as ameaças! É melhor trazê-la. Com a capa, porque alguém pode aparecer. Santo Antônio, faça com que não apareça ninguém! Não deixe ninguém entrar aqui. Vou buscar minha porquinha, mas não quero ninguém aqui.

Entra no socavão e volta com a porca. EUDORO VICENTE entra e EURICÃO imediatamente cobre a porca com a capa, que colocou nos ombros para a eventualidade.

EURICÃO — Santo Antônio, que safadeza é essa? Isso é coisa que se faça? EUDORO se aproxima de EURICÃO e começa a olhá-lo, examinando-o com um misto de curiosidade, desgosto e compaixão. Chega mesmo a tocar na roupa de EURICÃO para inspecioná-la. EURICÃO, desconfiado, vai se afastando dele, aos arrancões, mas sem querer sair para não despertar suspeitas.

EUDORO — Euricão, não repare eu dizer isso, mas você podia ter se vestido melhor para o jantar.

EURICÃO — A aparência depende da fortuna e a fortuna depende do que se tem.

Eu não tenho nada. Os ricos, como você, é que têm essas obrigações. Os pobres, como eu, não! EUDORO — Nada, não há quem me convença de que você é tão pobre como vive dizendo! Vá ver que com essa cara e com essa modéstia, tem, no mínimo, uma botija escondida.

EURICÃO — Ai! EUDORO — Que é? EURICÃO — Ora o que é? Você vem com suas insinuações e depois se admira! EUDORO — Mas foi uma brincadeira, Eurico! EURICÃO — Não gosto dessa qualidade de brincadeira! EUDORO — Está bem, desculpe. Afinal de contas, eu vou entrar na família e posso me permitir certas intimidades! EURICÃO — Por falar nisso, você pode me emprestar logo os vinte contos de que lhe falei! Preciso deles para fazer a festa, porque sozinho não vou poder enfrentar essa despesa! EUDORO — Está bem, no jantar, trataremos disso.

EURICÃO — No jantar, não! No jantar a gente começa a comer, a beber, o coração afraca, a vontade se abranda, o tempo vai passando, daqui a pouco a oportunidade tem passado! Você quer casar ou não quer? EUDORO — Quero! EURICÃO — Com festa ou sem festa? EUDORO — Bem, alguns amigos daqui a gente tem de convidar! EURICÃO — Então passe os vinte contos. Agora! Já! EUDORO — E quem lhe disse que eu tenho os vinte contos aqui? EURICÃO — Você pode me dar um vale e eu vou receber o dinheiro no armazém que compra seu algodão! EUDORO — Mas Eurico...

EURICÃO — Tem papel e caneta aí! Faça o vale! EUDORO — Eu... Está bem, vou fazer. Está aí.

EURICÃO — Obrigado, obrigado, obrigado! Agora sinto-me seguro! Grande coisa é o dinheiro! EUDORO — É verdade. Que é isso? EURICÃO — Isso o quê? EUDORO — Você está com alguma coisa embaixo da capa? EURICÃO — Saia daí! EUDORO — Meu Deus, que homem mais esquisito! EURICÃO — Você não tem nada que me cutucar, atrás do que eu carrego! EUDORO — E eu sabia lá que era segredo? EURICÃO — Segredo o quê? Quem vive escondendo o que tem são os ricos, como você. O que eu trago aqui é somente uma cervejinha para o jantar.

EUDORO — Ah, Eurico, que delicadeza a sua! Uma cervejinha agora, depois dessa caminhada! Está gelada? EURICÃO — Ai! Vá pra lá! EUDORO — Que é isso, homem? Quero somente ver a cerveja! EURICÃO — Vá pra lá, vá pra lá, pelo amor de Deus! Tenho horror a mostrar a cerveja que vou beber! EUDORO — Por que, homem de Deus? EURICÃO — Porque não gosto, pronto! E uma esquisitice minha! Não gosto de mostrar cerveja! É proibido ter esquisitice, é? EUDORO — Não! EURICÃO — Então, pronto, vá esperar o jantar na sala! EUDORO — Está bem. Que homem mais esquisito, minha Nossa Senhora! (Sai.) EURICÃO — Foi-se, com todos os diabos! Pronto, a porca fica aqui, agora! Aqui, Santo Antônio, servindo de suporte à sua imagem. Fica sob sua proteção, meu santo, estou arrependido de tudo o que disse! Ai, meu Deus, o santo ou a porca? Os dois! Não há necessidade de escolher, fico com os dois! Ouvi dizer que você, Santo Antônio, era cabo do exército brasileiro: fique aí como cabo-de-dia, guardando o que é meu.

Vou lhe confiar o que não confiaria mais nem a minha mãe. Mas veja como corresponde a esta confiança! Está aí, confiei em você: retribua agora essa confiança, dandome toda a sua proteção. (Sai. PINHÃO sai do esconderijo.) PINHÃO — Ah, Santo Antônio, não dê mais proteção a ele do que a mim! O que é que há aqui? É essa porca que ele defende com tanta raiva? Por que esse cuidado todo? Quero apurar tudo isso direitinho, Santo Antônio, porque essa peste não pode ter esse amor todo por uma porca só porque ela pertenceu ao avô dele! Esclareça tudo, Santo Antônio! Esclareça que eu... (Vendo EURICÃO, que se aproxima cuidadosamente)... Se o senhor me esclarecer... Ai, esclareça, meu Santo Antônio, esclareça um pobre pecador, um órfão que não tem ninguém por ele! Quero aproveitar e rezar pela segurança e pela salvação de todas as pessoas que me protegem e protegem Caroba! Seu Eudoro Vicente, aquele santo, Seu Euricão Arábe, aquele outro santo, a irmã de Seu Euricão, aquela santa, a filha de Seu Euricão, aquela santinha...

EURICÃO — Pra fora! Pra fora daqui, conversador! Que devoção foi essa que lhe deu de repente? Você pensa que me engana, mas eu sei quem você é! E agora você me paga! (Agarra-o pelo pescoço.) PINHÃO — Mas afinal, que diabo é isso? A todo instante é pancada, esbregue, bofete, o diabo! Que diabo o senhor tem? EURICÃO — O que é que tenho, é? E o que é que você tem com isso, seu ladrão? PINHÃO — Mas ladrão por quê? O que foi que eu roubei?

EURICÃO — Bote já aí, ponha já aí! PINHÃO — O senhor pensa que eu sou alguma galinha? O que é que eu posso botar, o que é que eu posso pôr, o que é que o senhor quer? EURICÃO — (Irônico.) Você não sabe! PINHÃO — Como é que eu posso saber, se não tirei nada? EURICÃO — Você não tirou porque não pôde. Mas tenho certeza de que você tem. Que é isso? Está com as mãos para trás? Mostre a mão direita! PINHÃO — Veja.

EURICÃO — Agora, a esquerda.

PINHÃO — Veja.

EURICÃO — Mostrou a primeira? PINHÃO — Mostrei.

EURICÃO — E a segunda? PINHÃO — Mostrei.

EURICÃO — Mostre a terceira.

PINHÃO — O senhor está é doido! EURICÃO — Estou mesmo, porque o que eu devia era ter lhe dado um tiro! E é o que hei de fazer se você não confessar! PINHÃO — Mas confessar o quê? EURICÃO — Que foi que você tirou daqui? PINHÃO — Santo Antônio me cegue se eu tirei alguma coisa! EURICÃO — Sacuda o paletó.

PINHÃO — À vontade.

EURICÃO — E capaz de estar no fundo das calças.

PINHÃO — Quer ver? EURICÃO — É, você está rindo para eu pensar que você é de confiança, cheio de boas intenções. Mas eu conheço suas manhas. Mostre outra vez a mão direita.

PINHÃO — Tome.

EURICÃO — Agora a esquerda.

PINHÃO — Veja logo as duas.

EURICÃO — Agora me dê aquilo.

PINHÃO — Aquilo o quê? EURICÃO — Ra, ra! Você gosta de brincar, mas tenho certeza de que você tem.

PINHÃO — Eu tenho? Tenho o quê? EURICÃO — Ah, isso é o que eu não digo. Queria saber, hein? Está bem, saia. Afinal de contas, já o revistei todo. Fora daqui! E que Santo Antônio lhe cegue os olhos e lhe dê paralisia nos dois braços e nas duas pernas duma vez.

PINHÃO — É muita bondade sua! EURICÃO — Fora, fora daqui! (Faz que sai por um lado, PINHÃO faz o mesmo pelo outro lado e os dois voltam ao mesmo tempo.) EURICÃO — (Cruzando os braços.) Vai ou não? PINHÃO — (Dando meia-volta rápida e saindo.) Vou! (Mesmo movimento anterior de ambos.) EURICÃO — Não quero mais vê-lo! Saem, sendo que PINHÃO na carreira. Ele dá uma volta por fora da cena; subentende-se que ele rodeou a casa; então, pula uma janela, novamente para dentro de cena, e esconde-se. EURICÃO volta por onde saiu.

EURICÃO — Ah, agora estou só. Estará escondido? O quarto está vazio. E aqui? Ninguém. Agora, nós, Santo Antônio! Isso é coisa que se faça? Pensei que podia confiar em sua proteção mas ela me traiu! Você, que dizem ser o santo mais achador! É isso, Santo Antônio é achador e esta ajudando a achar minha porca! Eu devia ter me pegado era com um santo perdedor! Agora não deixo mais meu dinheiro aqui de jeito nenhum. O cemitério da igreja! É aqui perto e é lugar seguro. Entre o túmulo de minha mulher e o muro, há um socavão: é lá que guardarei meu tesouro. Prefiro a companhia dos mortos à dos vivos, e ali minha porca ficará em segurança. Com medo dos mortos, os vivos não irão lá e os mortos, ah, os mortos não desejam mais nada, não têm mais nenhum sonho a realizar, nenhuma desgraça a remediar. Ao cemitério! Escondo a porca no socavão e à noite, quando todos estiverem dormindo, cavo a terra e hei de enterrá-la o mais fundo que puder. E você, Santo Antônio, fiquese aí com sua proteção e seu poder de encontrar. Lá, meu ouro, meu sangue, estará em segurança: o mundo dos mortos é mais tranqüilo, e, digam o que disserem os idiotas, lá é o lugar em que se perde tudo e não se acha nada! Pega a porca, coloca-a sob a capa e, quando vai saindo, encontra CAROBA que vem entrando.

EURICÃO imediatamente volta-se de costas.

EURICÃO — Não é possível, assim também é demais, Deus! CAROBA — Ah, está aí, hein, Seu Euricão? Procurei-o Por toda parte. O jantar demorou, mas agora vai sair. O senhor deve estar com fome, hein? Coitado, chega está de barriga vazia! (Bate com a mão na barriga dele, que vai se livrando para evitar que ela descubra a porca.) EURICÃO — Isso é que é um azar da peste! CAROBA — Mas não se incomode não, essa barriga hoje se enche, mais ainda! EURICÃO — Ai! Vá pra lá! Diabo de mulher enxerida! CAROBA — Que é isso, Seu Euricão? Parece até que o senhor andou engolindo cobra! EURICÃO — Engole-Cobra é a mãe! Vá pra lá! CAROBA — Calma, calma! Que é que há por aqui? De capa, todo misterioso, antes do jantar? Para onde é que se bota? EURICÃO — Para a casa da mãe! CAROBA — Ra, ra! Que é que o senhor está escondendo aí nesse bucho? EURICÃO — Ai, ai, ladrona, assassina! Ai! (Sai na carreira.) CAROBA — Está doido, o diabo do velho! (PINHÃO sai do quarto.) PINHÃO — Doido, é? E você, que intimidade com ele é essa? Estava disposto a lhe pedir desculpas, mas agora mantenho o que disse. Que diabo de intimidade com o velho é essa? CAROBA — Mas Pinhão, um velho daquele! PINHÃO — É! É um velho mas não gosto de mulher que bate no bucho dos outros não! Boa romaria faz quem em sua casa fica em paz! CAROBA — Não me venha com ditado agora! PINHÃO — É, não me venha com ditado, mas seguro morreu de velho e desconfiado ainda está vivo. Vivo e de testa limpa! CAROBA — Você quer saber do que mais, Pinhão? Vá se danar! Eu comecei a lhe dar muito valor, você ficou convencido demais. Dê o fora! Eu também ia lhe explicar tudo sobre a entrevista, mas se você vem com essa desconfiança de minuto em minuto, pode se danar! Dou-lhe somente uma explicação: brinco com o velho Euricão porque gosto dele, está ouvindo? Com toda a avareza, com toda a ruindade e as manias, é um dos homens mais sofredores que conheço. Nada na vida dele deu certo, casou-se, a mulher o deixou e toda a esperança dele agora é essa filha que nós lhe vamos tirar. Por isso e muitas coisas mais, tenho pena do velho Euricão, de quem ninguém gosta! Queria lhe dizer isso. Mas não para me justificar, pode ir para o inferno, com sua mania de mandar e sua desconfiança! PINHÃO — Mas Caroba...

CAROBA — Vá se danar, Pinhão.

PINHÃO — Está bem, depois não se arrependa. Você não sabe o que está perdendo, principalmente agora.

CAROBA — Por que principalmente agora? PINHÃO — Por causa de tudo o que eu agora sei, dos lugares, dos planos, dos sonhos e dos desejos desse velho com quem você está estragando sua compaixão.

CAROBA — Que é que você quer dizer? PINHÃO — Nada.

CAROBA — Que é que você sabe? PINHÃO — Nada.

CAROBA — Ai, Pinhão, me diga! PINHÃO — Não posso, estou sem tempo e sem vontade.

CAROBA — O que é que você vai fazer, Pinhão? PINHÃO — Vou me danar, Caroba. Adeus! (Sai CAROBA.) Pois sim! Disse o velho que o sangue dele está em segurança e o mundo dos mortos é um mundo tranqüilo! Mas não há sangue que não se possa derramar e há mortos que ressuscitam! Ao cemitério! Desta vez eu enriqueço, nem que seja à custa de minha caveira! (Sai.)

FIM DO SEGUNDO ATO

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