CAROBA aponta a MARGARIDA um lugar qualquer onde ela deve se esconder. MARGARIDA assente com a cabeça e se esconde. Então CAROBA joga um pacote que deverá conter o vestido, de que depois ela virá a precisar, atrás de um móvel qualquer.
Um barulho de fim de jantar e vozes que se aproximam. CAROBA se esconde no mesmo lugar com MARGARIDA. Entram EURICÃO, BENONA e EUDORO.
— Muito, Eurico, muito. Se não fosse pelo jantar, a companhia...
BENONA — Sempre delicado! EURICÃO — Infelizmente tenho que me recolher. Não tome isso como uma desatenção, é um velho hábito.
EUDORO — Desatenção nenhuma, Eurico, eu também durmo cedo. E, mesmo, Benona está aqui.
EURICÃO — Ah, é assim, hein? Você tem razão, ela fará as honras da casa muito melhor do que eu. Mas vocês não demorem muito tempo aqui.
BENONA — Não seja tão severo, Eurico.
EURICÃO — Todo cuidado é pouco, todo cuidado é pouco! EUDORO — Mas sendo eu noivo...
EURICÃO — Mesmo assim, Eudoro, mesmo assim! Até amanhã! Euricão Arábe dorme hoje tranqüilo, finalmente livre da tirania desse santo sem confiança, que ia causando minha perdição.
BENONA — Não diga isso, meu irmão! EURICÃO — Digo, minha irmã, digo porque é verdade! Eu vou esperá-la, venha arrumar meus lençóis, como sempre fez desde que minha mulher... desde que comecei a precisar de Santo Antônio. Não demore muito, eu a chamarei. Boa noite, Eudoro.
EUDORO — Boa noite, Eurico. (Sai EURICÃO.) EUDORO — O que foi que ele quis dizer? Quando disse que começou a precisar de Santo Antônio? BENONA — Foi quando a mulher dele nos deixou. Você ainda se lembra dela? EUDORO — Quando comecei a freqüentar sua casa ela já tinha fugido.
BENONA — É verdade, foi no começo do nosso namoro.
EUDORO — Para que falar mais nisso? Você mesma não disse que tudo estava enterrado? BENONA — É verdade, mas com o que aconteceu hoje...
EUDORO — Muitas voltas o mundo dá! BENONA — Mas é por isso mesmo que não me incomodo de tocar nessas coisas.
Em outras circunstâncias, era um assunto muito doloroso para mim. Mas agora...
EUDORO — É, talvez você tenha razão. É melhor do que ficar com essa história pendendo eternamente entre nós. Se as circunstâncias tivessem sido outras...
BENONA — Reconheço que a maior parte da culpa foi minha. Mas eu era tão moça, tão sem conhecimento das coisas, Eudoro! Você se lembra da noite que passei em sua fazenda com Eurico? EUDORO — Como havia de não me lembrar? Foi desde aquele dia que você me deixou. Por que foi aquilo, Benona? Eu nunca pude me conformar com aquele silêncio, de repente, sem uma explicação! BENONA — Eu era muito moça, Eudoro. Eurico não me deixava sair para lugar nenhum, eu não conhecia o mundo, não conhecia você direito, nada! Bem, naquela noite em sua casa... Você sabe o que foi, fiquei com medo de você.
EUDORO — Mas Benona, foi só por causa daquilo? E você, por tão pouco, estragar nosso casamento! Se eu soubesse, teria vindo e falado de tal maneira, que você me perdoaria e teria talvez casado comigo.
BENONA — Ah, Eudoro, é verdade? EUDORO — E você não me dar uma explicação, me deixar no engano de que era algum empecilho de sua parte, mesmo! VOZ DE EURICÃO — Benona! BENONA — É Eurico, tenho que ir. Até mais tarde, Eudoro.
EUDORO — Até amanhã, Benona.
BENONA — Até amanhã? É verdade, você tem razão, é mais prudente dizer assim.
VOZ DE EURICÃO — Benona! Benona! BENONA — Já vou! Até amanhã, então, fingido! (Sai.) CAROBA sai do esconderijo, pelas costas de EUDORO, e fala de uma porta, como se tivesse entrado por ela.
CAROBA — Seu Eudoro! EUDORO — Caroba! Eu já vou! Está combinado? Margarida sabe de tudo? CAROBA — Sabe e está de acordo.
VOZ DE EURICÃO — Caroba, tranque as portas, a rua está cheia de ladrões! CAROBA — Está certo, Seu Euricão, vou trancar tudo. Vou trancar as portas e depois destrancar uma, é por essa que o senhor volta.
EUDORO — Você esperará também? CAROBA — Eu? Por que eu? Quem vai esperá-lo é gente muito melhor do que eu.
Por aqui, Seu Eudoro. Volte e não tenha cuidado, que tudo vai dar mais certo do que o senhor imagina! Sai EUDORO, MARGARIDA sai do esconderijo.
MARGARIDA — Por que você não aproveitou a deixa da desistência, mulher? CAROBA — Mas logo agora que tudo vai dar certo? MARGARIDA — Não suporto mais essas agonias de jeito nenhum. Que jantar mais angustiado! De vez em quando Tia Benona dizia uma frase perigosa, papai outra... Eu via a hora de se descobrir tudo. Será que esta história vai dar certo, Caroba? CAROBA — O casamento de Seu Eudoro com Dona Benona dando, o resto vem na esteira, o seu com Seu Dodó, e até o meu com o moleque do Pinhão.
MARGARIDA — Você gosta muito dele, não, Caroba? CAROBA — Gosto, Dona Margarida! Agora, por que, não sei, porque aquilo é safado que fede! Mas hoje ele vai me pagar o novo e o velho. A senhora trouxe o vestido? MARGARIDA — Trouxe, tome. Tome e assuma a responsabilidade. Se essa confusão toda acabar meu casamento, você me paga! Eu me vingo de você! CAROBA — Danou-se, Dona Margarida! MARGARIDA — Depois não diga que não avisei, está ouvindo? Passe bem, Caroba. Espero que tudo dê certo, tanto no meu interesse como no seu.
CAROBA — Espere, Dona Margarida! É melhor eu trancá-la. Não tenho confiança em homem nenhum nesse mundo e muito menos em Seu Eudoro. A senhora não viu o que ia acontecendo com Dona Benona? Entre que eu trancarei a porta.
MARGARIDA — Está bem.
Entra no quarto e CAROBA tranca a porta, guardando a chave.
CAROBA — O negócio começa a caminhar. Mas, meu Deus, a confusão vai ser a maior do mundo. O vestido, aqui. (Esconde o vestido que recebeu de MARGARIDA.) Falta alguma coisa, meu Deus! Ah, sim, a vítima! Dona Benona! Crote, crote, crote! Dona Benona! Entra BENONA.
BENONA — Caroba! Ouvi o sinal! Então? CAROBA — Está tudo combinado. E Seu Euricão? BENONA — Dormindo como uma pedra.
CAROBA — Dona Margarida também já se deitou.
BENONA — Você conseguiu o vestido dela? CAROBA — Ainda não, estava esperando exatamente que todo mundo adormecesse.
BENONA — Qual foi a combinação com Eudoro? CAROBA — A senhora fica em seu quarto. Eu vou escutar na porta de Seu Euricão, depois na de Dona Margarida. Se eles estiverem agarrados no sono, eu tiro o vestido de Dona Margarida e vou entregá-lo à senhora. Aí destranco a porta de entrada e fico esperando Seu Eudoro. Quando ele vier, canto como gia, chamo a senhora e desapareço.
BENONA — Mas não desapareça para muito longe não, está ouvindo, Caroba? CAROBA — Estou, Dona Benona, eu fico por perto. Se precisar, grite, que eu venho. Entre, se embeleze, trate Seu Eudoro com carinho e deixe o resto que eu garanto.
BENONA — Então eu vou. E que Santo Antônio nos proteja, Caroba! CAROBA — Amém, Dona Benona.
Sai BENONA.
CAROBA — Amém, Dona Benona, porque bem precisadas andamos disso. O que eu não sei é se Santo Antônio vai querer se meter numa história dessa! Entra atrás de algum móvel, ou biombo, e veste o vestido de MARGARIDA, se possível por cima do seu, para tornar possíveis mudanças rápidas. Ela abaixa as luzes, ajeita o cabelo, tudo isso enquanto vai falando e mudando a roupa.
CAROBA — Será que vai, meu santo? Acho que vai dar bem. Com a luz assim, com o cabelo ajeitado, estou uma Dona Margarida bem apreciável. E agora, meu Deus? (Destranca a porta e escuta no quarto do velho.) Até já, Santo Antônio, e veja lá o que pode fazer por nós. Não estou metendo o senhor em molecagem não! Assim que Seu Eudoro entrar no quarto de Dona Benona, eu dou o alarma e ele se compromete, a simples entrada no quarto basta. De modo leve isso em conta e trate de me ajudar. (Sai.) Entra PINHÃO, com um grande saco de estopa, velho e sujo, no qual carrega a porca.
PINHÃO — Ô lírio, ô lírio, ô lírio, ô lírio como é? Bom almoço, boa janta, boa ceia e bom café, da roseira eu quero o galho, do craveiro eu quero o pé.
Agora, é assim, Santo Antônio, meu velho, "bom almoço, boa janta, boa ceia e bom café". Mas ali onde diz "da roseira eu quero o galho, do craveiro eu quero o pé", agora é assim: "da porquinha eu quero as tripas, quero pá, cabeça e pé". Sou o homem mais rico do mundo, Santo Antônio, trate de me agradar de hoje em diante. Não há como um dia atrás do outro e uma noite no meio. O velho Engole-Cobra, de tanto engolir cobra, terminou achando uma que o engolisse. Ra, ra! Plantou o roçadinho dele, mas quem arrancou o milho foi Pinhão.
VOZ DO DODÓ — (Fora.) Pinhão, é você? PINHÃO — (Trancando rapidamente a porta.) Calma lá, Seu Dodó! Deve ser Seu Dodó! Seu Dodó o quê? Deve ser Dodó, Dodó Boca-da-Noite! Agora é assim! Espere lá, Dodó Boca-da-Noite! É melhor guardar o saco! (Beija a Porca e esconde-a no socavão.) DODÓ — (Fora.) Pinhão! PINHÃO — Já vou, já vou, Dodó! Por causa de pressa, morreu zé apressado. Você não perde por esperar. (Destranca a porta. Entra DODÓ.) DODÓ — Então? PINHÃO — Então o quê? DODÓ — Vai tudo bem, Pinhão? PINHÃO — Vai tudo ótimo, Dodó.
DODÓ — Margarida apareceu? PINHÃO — Ai, e ela agora deu para aparecer, feito alma, foi? DODÓ — Deixe de brincadeira, viu? Cadê Margarida? Onde está Caroba? PINHÃO — Eu vou lá perder meu tempo com o que essas mulheres andam fazendo! DODÓ — O que é que você está dizendo, Pinhão? PINHÃO — Isso que você está ouvindo, Dodó! DODÓ — Você bebeu? PINHÃO — Não, mas comi! DODÓ — Comeu o quê? PINHÃO — Porca! DODÓ — Deve ter lhe feito mal, Pinhão! PINHÃO — Pelo contrário, fez um bem danado, Dodó! DODÓ — Você pode me dizer o que foi que meteu na cabeça? PINHÃO — E você pode me dizer o que é que tem a ver com isso? DODÓ — Você vai... Chi, ouvi um barulho! Esconda-se, é o velho! (Tranca a porta de entrada.) Entra EURICÃO, de camisão, com um candeeiro e uma pá.
EURICÃO — Ai, terá sido pesadelo? Acordei com os fantasmas puxando meu pé, meu santo! Mas é preciso ir de qualquer modo, tenho que enterrar a porca. (Sai.) Voltam DODÓ e PINHÃO.
DODÓ — Entendeu alguma coisa? PINHÃO — Eu não lhe disse que esse velho era maluco? DODÓ — Sair a essas horas, de camisão, para o cemitério, atrás de uma porca! Que diabo de porca será essa? PINHÃO — Alguma porca que fugiu daí do quintal.
DODÓ — E o velho Euricão tem lá nada para fugir, homem? PINHÃO — Então é capaz dele estar dormindo ainda. Além de todas as qualidades ruins que possui, esse peste ainda deve ser sonâmbulo! DODÓ — Pinhão, sinceramente, estou certo de que você tem alguma coisa! Você está doente! PINHÃO — Agora sou eu quem digo: Cuidado! Vem gente aí e parece que é sua noiva. Ou melhor, sua madrasta. Candidata a madrasta, noiva de seu pai! DODÓ — Esconda-se, idiota! (Escondem-se.) Entra CAROBA, vestida de MARGARIDA.
CAROBA — Tudo pronto. Agora, só falta o noivo.
DODÓ — O noivo está aqui.
CAROBA — Seu Eudoro?
DODÓ — Não, sou eu, Margarida! Sou eu, que vim me certificar de sua traição! CAROBA — (Trancando a porta.) Mas Seu Dodó...
DODÓ — Não me chame assim, pelo amor de Deus! CAROBA — O senhor não sabe de nada e veio foi atrapalhar tudo! DODÓ — Tudo está esclarecido.
VOZ DE EUDORO — (Fora.) Margarida! CAROBA — Meu Deus, é seu pai. Que é que eu faço agora, meu Deus? Com esta eu não contava! Entre aqui neste quarto, é o jeito.
DODÓ — Nunca! Vou ficar e contar tudo a meu pai! CAROBA — Homem, quer saber do que mais? Entre e não converse mais não! (Empurra DODÓ no quarto de MARGARIDA e tranca a porta. Enquanto fala, tira o vestido de MARGARIDA.) CAROBA — Santo Antônio, o senhor vai me desculpar, mas foi um imprevisto! No quarto de Dona Benona é que eu não podia empurrá-lo. Mas eu destranco já a porta! VOZ DE EUDORO — Margarida! CAROBA — Já vou, espere um pouco! Diabo de homem mais apressado! (Bate no quarto de BENONA, cantando como gia.) CAROBA — Tia Benona! Tia Benona! Crote, crote, crote, tia Benona! BENONA — (Saindo.) Ave Maria, estive em tempo de me acabar de medo! CAROBA — Não perca tempo, que o homem está aí! BENONA — Meu Deus! CAROBA — Tome o vestido! Me dê o seu! Logo, mulher! VOZ DE EUDORO — Margarida! CAROBA — Já vou! Isto, agora, fique aí e espere. Me dê a chave do quarto.
BENONA — Pra quê? CAROBA — Não discuta mais, mulher de Deus! Vou abrir! BENONA — Está bem, mas não saia daí! (Entra no quarto e CAROBA tranca-a, vestindo rapidamente o vestido dela.) CAROBA — Nossa Senhora, eu hoje estufo de tanto mudar vestido! VOZ DE EUDORO — (Impaciente.) Como é, Margarida? CAROBA — Espere, homem, espere! (Destranca a porta, com o vestido de BENONA.) EUDORO — Eu... Benona, é você? CAROBA — (Imitando a voz e os gestos de BENONA.) Sou, Eudoro.
EUDORO — Margarida...
CAROBA — Margarida está dormindo. Dorme o sono profundo de sua juventude, Eudoro. E eu vim esperá-lo, como fiz tantas vezes, no tempo em que ainda nos amávamos! EUDORO — Mas Benona, isso não fica bem! CAROBA — Não fica bem, por quê? Você está esquecido de tudo o que aconteceu? EUDORO — Você mesma disse que tudo aquilo estava morto e enterrado.
CAROBA — Você acha, Eudoro? Então um amor como aquele pode morrer? Você pensa que eu não vi como estava preocupado quando saiu daqui? Eu também saí com o coração sangrando, Eudoro.
EUDORO — Mas Benona... Mesmo que estivéssemos sentindo isso, agora seria tarde. Estou noivo de sua sobrinha. Por que você não me disse tudo? Agora, Margarida...
CAROBA — Deixe lá Margarida, homem de Deus! Você não vê o ridículo em que vai cair? Ela podia ser filha sua, podia ser sua nora! EUDORO — Pensei nisso, Benona, mas você não sabe como eu me sentia solitário! Agora, estou noivo! CAROBA — Que noivo que nada! Para mim, o que existe é nosso amor! Entre neste quarto! EUDORO — Benona! CAROBA — Que Benona que nada, entre e deixe de conversa! EUDORO — Mas Benona, podem falar de nós! CAROBA — Falar o quê? Que é que você está pensando? Que eu vou tentar contra você o que você tentou contra mim, é? Eu sou uma mulher séria, Eudoro, incapaz de atentar contra os viúvos honestos! EUDORO — Você é incomparável, Benona, como você nunca existirá outra! CAROBA — Então entre. Entre e tudo se explicará! (Dá uma pancada nele, com o próprio traseiro, empurrando-o.) EUDORO entra, CAROBA fecha a porta.
CAROBA — Pronto, agora é chamar o velho. Do jeito que as coisas estão, ele terá que fazer os dois casamentos. E vamos logo, Santo Antônio, antes que seja tarde e aconteça alguma coisa, senão eu estou complicada com Nosso Senhor! (Sai. PINHÃO sai do esconderijo.) PINHÃO — Que confusão mais danada é essa, meu santo? Dona Margarida e Dona Benona a trancar homens nos quartos! Aqui há alguma coisa. Vou tirar as chaves e ver se me aproveito da situação! Epa, vem gente! (Esconde-se.) Entra CAROBA, ainda com o vestido de BENONA.
CAROBA — Onde diabo o velho se meteu? Vou abrir! Ai meu Deus, onde estão as chaves? Que é que faço, meu Santo Antônio? O jeito é gritar que tem incêndio! O povo corre e o velho vai ter que fazer os casamentos! Vou gritar, é o jeito! Ou é melhor tocar fogo nas cortinas? (PINHÃO sai do esconderijo.) PINHÃO — Dona Benona, eu...
CAROBA — Você o que, safado! Que é que está fazendo em minha casa, espionando, de noite? PINHÃO — Alto lá, veja como fala! Pensa que eu não ouvi sua conversa aqui com Seu Eudoro não, é? Então a senhora se vira quando o povo dorme, hein? CAROBA — O que, moleque? PINHÃO — É isso mesmo, Dona Benona! Mas não precisa se zangar não, eu sou de toda confiança! Pode confiar em mim, por esta boca ninguém saberá de nada! Acho perfeitamente natural que a senhora, que é livre e independente, queira se divertir um pouco! E se Dona Benona não reparasse, eu até lhe dizia uma coisa! CAROBA — Não reparo não, Pinhão, pode dizer! PINHÃO — A senhora pode já ter passado a primeira mocidade, mas eu lhe digo uma coisa, Dona Benona, é nesse tempo que eu acho as mulheres mais bonitas! E a senhora pode não ser mais muito moça, mas é enxuta que faz gosto! CAROBA— (À parte.) Ah, safado! PINHÃO — A senhora não estava procurando as chaves? CAROBA — Estava! PINHÃO — Eu tirei todas duas! Pelo que a senhora disse, elas são muito importantes. Assim, a gente podia fazer um acordo. Eu lhe dava as chaves e... A senhora não repare não, mas já que estamos aqui e Seu Eudoro dormiu no ponto, a gente bem que podia entrar num acordo e fazer um amorzinho, para passar o tempo! CAROBA — Você está muito enganado! Eu estava deixando você falar, para ver até onde ia seu atrevimento! Mas vou gritar! Vou gritar e você vai se arrepender da graça! PINHÃO — Ai, a porca! Não grite não, Dona Benona! Não grite não, que eu retiro o que disse! Tome as chaves, Dona Benona! CAROBA — As chaves? Ah, não, agora quem não quer as chaves sou eu! Vou chamar o Delegado! Vou gritar! PINHÃO — Pelo amor de Deus, não grite não, Dona Benona! CAROBA — Então venha para cá! Quero lhe dar uma surra por seu atrevimento! PINHÃO — Mas Dona Benona, a senhora me interpretou mal! CAROBA — Vou gritar! PINHÃO — Ai não, eu vou! CAROBA — Ajoelhe-se! Isto! Agora, tome! Tome, tome, e tome! Tome, para deixar de ser safado! Um sujeito como você, que devia dar graças a Deus por ter uma noiva como Caroba, com essas molecagens para as senhoras de respeito! Tome, safado! PINHÃO — Ai, ai, ai! Ai, Dona Benona! CAROBA — Vou parar! Mas vou por causa de Caroba, está ouvindo? Aquilo é uma santa, gosto tanto dela! PINHÃO — Eu também, Dona Benona! CAROBA — Devia gostar mais, safado! Você devia beijar os pés de Caroba todo dia, porque aquilo é uma santa! Agora, fique aí. Eu vou chamá-la.
PINHÃO — Mas Dona Benona, o que é que a senhora vai dizer a Caroba? CAROBA — Não tenha medo, sua sujeira fica em segredo! Você acha que eu iria magoar aquela moça maravilhosa que gosta de você não sei mesmo por quê? Fique aí.
Senão eu descubro tudo! PINHÃO — Pode ficar descansada, eu daqui não saio.
CAROBA — Pois então eu vou chamar Caroba, aquela santa! (Com PINHÃO de costas, entra atrás do biombo, já tirando o vestido.) PINHÃO — (Só.) Ah, arábe miserável! Em que diabo fui me meter, meu Deus? Ia perdendo a porca, por causa da mulher! Mas ela bem que valia a pena, sabe? Pode não ser mais muito moça, mas que está enxuta, isso está! CAROBA — (Chegando para perto.) Muito bem, senhor meu noivo! PINHÃO — Quem é? É Caroba? CAROBA — E quem mais havia de ser, canalha? Peste, miserável, traidor! Olhe o cinismo dele! Moleque, canalha! Ouvi tudo, bandido! Eu estava aqui e vi tudo, sua molecagem com Dona Benona Arábe, seus enxerimentos, sua traição! E se ao menos tivesse coragem! Mas não, levou uma surra da arábe na minha frente! Essa você me paga! PINHÃO — Mas Caroba, eu...
CAROBA — Cale a boca, bem caladinha, está ouvindo? Porque agora você vai levar umas tapas! PINHÃO — Eu? Mas Caroba! CAROBA — Vai e sou eu que dou! PINHÃO — Mas eu não já levei a surra de Dona Benona? CAROBA — Aquela foi a dela, agora se prepare que lá vai a minha! (Dá-lhe algumas tapas.) PINHÃO — Ai, Caroba, ai Carobinha, ai Carobinha do meu coração! (Consegue beijá-la por entre as tapas, abraça-a, CAROBA vai diminuindo as tapas, retribui o beijo, depois o abraço.) CAROBA — Safado! PINHÃO — Beleza! CAROBA — Pinhão! PINHÃO — Caroba! Agora, podemos casar! Vamos casar amanhã e você vai ser a mulher mais rica daqui! CAROBA — Mentiroso! Ai, as chaves! (Destranca os dois quartos e entra, abraçada com PINHÃO, num terceiro quarto. DODÓ e MARGARIDA saem do quarto.) MARGARIDA — Está vendo? Está aberta! Graças a Deus! Você está zangado comigo, meu amor? DODÓ — Não, pelo contrário, você estava certa e eu fui quem perdi a cabeça.
MARGARIDA — E não vai me desprezar porque eu o repeli? DODÓ — Pelo contrário, cada vez aprendo a respeitá-la mais. Eu é que devo pedir perdão a você por ter me descontrolado.
MARGARIDA — Cuidado, vem alguém. Entre no quarto, ninguém deve vê-lo.
DODÓ entra no quarto. Entra PINHÃO, que tira a porca do socavão e volta com ela para o quarto.
MARGARIDA vê quando ele passa. Entra no porão e MARGARIDA se esconde. PINHÃO volta e entra no quarto em que estava com CAROBA, de saco às costas. Volta DODÓ.
DODÓ — Quem era? MARGARIDA — Era Pinhão, carregando um troço nas costas. Que é que ele terá vindo fazer aqui a essas horas? DODÓ — Veio comigo, vigiar Caroba. Eu e ele, com ciúme, combinamos vir, quando Caroba destrancasse a porta! VOZ DE EURICÃO — (Fora.) Ai, ai! DODÓ — Quem é? Veja na janela! MARGARIDA — É papai! Meu Deus, ele viu tudo! DODÓ — Por que você diz isso? MARGARIDA — Está com a cabeça encostada na janela de meu quarto, chorando! Certamente viu você no meu quarto! Meu Deus, estou perdida! DODÓ — Acalme-se, meu amor! Entre aqui comigo. Vamos ver se é possível apurar o que ele viu. Depois a gente sai, fala com ele e explica tudo! {MARGARIDA e DODÓ se escondem. Entra EURICÃO.) EURICÃO — Ai, ai! Estou perdido, estou morto, fui assassinado! Para onde correr? Para onde não correr? Pega, pega! Mas pegar a quem? Não vejo nada, estou cego. Não sei mais para onde vou, não sei mais onde estou, não sei mais quem sou! Ah, dia infeliz, dia funesto, dia desgraçado! Que fazer agora da vida, tendo perdido aquilo que eu guardava com tanto cuidado? Roubei-me a mim próprio, furtei a minha alma! Agora outros gozam com ela, para meu desgosto e prejuízo! Não, é demais para mim! (Cai desfalecido, chorando. Entram DODÓ e MARGARIDA.) DODÓ — Seu Eurico! EURICÃO — Quem me fala? DODÓ — Um desgraçado! EURICÃO — Pois está falando com outro! Eu me tornei desgraçado por causa de um acidente funesto.
DODÓ — Console-se.
EURICÃO — Consolar-me? Como? DODÓ — A culpa foi minha, fui eu que causei sua desgraça e vim confessar tudo! EURICÃO — O quê? Quem é? Dodó? Que é que você está me dizendo? DODÓ — A verdade! EURICÃO — Você! Foi você, cachorro, canalha, cobra que eu guardava em minha casa para me assassinar! Que mal tinha eu lhe feito para você me tratar assim? DODÓ — Foi ao mesmo tempo um acaso e uma necessidade, Seu Euricão! EURICÃO — Acaso e necessidade! Isso pode lá justificar um ato como esse, assassino? DODÓ — Agi mal, confesso, minha falta é grave mas vim exatamente pedir que me perdoe.
EURICÃO — Como é que você teve coragem de tocar naquilo que não lhe pertencia? DODÓ — Espere aí! Apesar das circunstâncias serem um tanto esquisitas, o que aconteceu foi coisa sem importância! O que eu toquei nela foi muito pouco! EURICÃO — O que, canalha? Tanto assim que se você tocasse em meu tesouro, seria um crime inominável! Com que direito você foi tocar naquilo que era meu? DODÓ — A culpa foi das circunstâncias. E eu não já vim pedir desculpas? EURICÃO — Não gosto desses criminosos que prejudicam os outros e depois vêm pedir desculpas! Você sabia que ela não era sua, não devia ter tocado nela! DODÓ — Mas eu não já disse que o que aconteceu foi coisa tola? EURICÃO — Coisa tola o quê? Você não veio confessar? E depois, de repente, começa a se desdizer, dizendo que não tocou nela! Como é, tocou ou não tocou? DODÓ — Bem, tocar, toquei, mas não foi nada que pudesse ofendê-la. Mas já que o senhor considera essa tolice um crime, por que não aceita os fatos e não me dá de vez esse tesouro? EURICÃO — Como é, assassino? Você quer ficar com meu tesouro? Contra minha vontade? DODÓ — Eu não estou lhe pedindo? A coisa que eu mais desejo no mundo é ficar com ela! EURICÃO — Você? Ficar com ela? DODÓ — Sim.
EURICÃO — Ah, não, você tem que devolver! DODÓ — Devolver? Eu não já disse que não tirei nada? Devolver o quê? EURICÃO — Aquilo que me pertencia e que você tirou! DODÓ — Que eu tirei? De onde? Afinal, o que é que você quer? EURICÃO — (Irônico, amargo.) Você não sabe? DODÓ — Você não diz! EURICÃO — O que eu quero é minha porca que você confessou ter roubado! MAGARIDA —Ai, meu Deus, por que o senhor me insulta? DODÓ — Isso é coisa que o senhor diga? Porca por quê? Sua filha é a mais pura das moças, portou-se com toda a prudência e o senhor a trata com essa grosseria! EURICÃO — Minha filha? Que é que minha filha tem a ver com isso? Que é que você está fazendo aqui, Margarida? MARGARIDA — Mas papai, eu não...
DODÓ — Não é ela que o senhor está reclamando? EURICÃO — Olhe a inocência do ladrão! O que eu quero é minha porca, cheia de dinheiro, que você confessou ter roubado! DODÓ — Uma porca? MARGARIDA — A porca? DODÓ — Cheia de dinheiro? Que diabo de confusão é essa? Eu seria lá capaz de roubar ninguém! Que é que o senhor está pensando? EURICÃO — Ah, então nega! DODÓ — Claro que nego! Nunca imaginei que o senhor guardasse dinheiro dentro de porca nenhuma! EURICÃO — (Súplice.) Me dê minha porquinha que você tirou do cemitério da igreja! Você a roubou, mas eu não o denunciarei e lhe dou a metade do dinheiro que ela tem dentro! A metade não, seria uma injustiça, afinal de contas, quem juntou o dinheiro fui eu, não é? Um terço é muito, você leva um quarto e me devolve o meio, como comissão por eu ter tido o trabalho. Faça o que quiser, mas me dê minha porquinha! DODÓ — Como é que eu posso lhe dar a porca se não sei onde está? EURICÃO — Está bem, quem gosta de você é a polícia. Vou gritar! Acordem! Acordem! Acordem todos! Pega, pega o ladrão! CAROBA e PINHÃO saem do quarto.
PINHÃO — Que é isso? CAROBA — Que é isso, Seu Euricão? EURICÃO — Foi esse ladrão, foi esse ladrão que entrou na minha casa para me roubar! DODÓ — Mas para roubá-lo como, se não sei nem notícia de sua porca! EURICÃO — Não sabe o que, safado! Você mesmo não disse que tinha sido a causa de minha desgraça? CAROBA — Um momento, Seu Euricão, eu sei o que foi que ele quis dizer.
EURICÃO — Que foi? CAROBA — Ele disse que foi a causa de sua desgraça porque comprometeu sua filha para o resto da vida. Esse tal de Seu Dodó entrou aqui, nas caladas da noite, iludiu Dona Margarida não sei de que jeito, e trancou-se com ela aí nesse quarto. Eu vi tudo! EURICÃO — Ai! É verdade? MARGARIDA — É, papai, mas...
EURICÃO — Era isso que você estava confessando? DODÓ — Era.
EURICÃO — Ainda mais essa! Por cima de queda, coice! Canalha, safado, por que você não disse logo? Por que deixou que eu confessasse meu segredo? DODÓ — A culpa foi sua, era eu falando da filha e o senhor pensando na porca! EURICÃO — Ai, a porca! Juntei dinheiro a vida inteira, para a velhice, e agora perco, num dia só, a porca e a filha! CAROBA — E vá logo se preparando para perder a irmã também porque a situação de Dona Benona é muito difícil! EURICÃO — Benona? Que há? CAROBA — Seu Eudoro resolveu matar saudades e está aí, trancado nesse quarto, com ela. Eu vou sair desta casa, porque para falar com franqueza, nunca pensei em ver tanto escândalo num dia só! EURICÃO — Não é possível! Eudoro e Benona aqui! Entram EUDORO e BENONA.
EUDORO — É verdade, Eurico. E se você não se ofendesse, eu queria lhe pedir a mão de Benona em casamento.
EURICÃO — E você não já pediu? EUDORO — Não! EURICÃO — Quer me levar ao ridículo, é, Eudoro? Faz uma coisa dessa, compromete minha irmã e ainda vem com pilhérias, logo agora que ela foi roubada! BENONA — Quem, eu? EURICÃO — Não, a porca! Ai, a porca! EUDORO — Mas Eurico, eu...
CAROBA — Um momento, um momento, quem fala sou eu. O senhor já se explicou com Dona Benona, não foi? EUDORO — Foi.
CAROBA — A senhora também já entendeu tudo, não foi? BENONA — Já! CAROBA — Entendeu o noivado, a confusão, laralá, laralá, tudo? BENONA — O noivado, a confusão, laralá, laralá, tudo! CAROBA — Então, viva! O senhor consente no casamento de Seu Eudoro com Dona Benona, não é, Seu Euricão? EURICÃO — Consinto, não! Exijo! Agora, ou ele casa, ou morre! Ai, Santo Antônio, ela está perdida! BENONA — Eu? EURICÃO — A porca! Mas vocês dois agora casam, e tem que ser já! CAROBA — Pois então, eles casam amanhã. O senhor ganhou um grande cunhado, Seu Euricão! EURICÃO — Mas perdi a porca! Ai, a porca! Ai, a porca! E ainda por cima o que aconteceu com meu patrimônio! PINHÃO — Seu patrimônio? Qual? A porca? EURICÃO — Não, Margarida! Benona está garantida, mas essa aí me arranjou um genro corcunda e de boca torta, um miserável que não tem nem onde cair morto! Mas ele me paga! Mato esse miserável, quebro-lhe a cara! Tome, safado, tome! Que é isso? A barba! EUDORO — Dodó! Você aqui? DODÓ — Sou eu, meu pai. Peço-lhe que me perdoe, mas deixei o estudo. Não havia outro jeito, eu estava apaixonado por Margarida, o senhor não queria que eu me casasse. Por outro lado, Seu Euricão só queria casá-la com um homem rico. O jeito foi esse.
EUDORO — Você deixou de estudar? DODÓ — Deixei. Ajudado por Caroba, entrei aqui, disfarçado, como empregado de Seu Euricão. Ganhei a confiança dele, fingindo que era avarento, e fui ficando até que Margarida correspondeu a meu amor e jurou casar comigo. E agora, tenho que casar, papai, porque apesar de não ter acontecido nada de mais entre nós, ninguém vai acreditar nisso.
EUDORO — Mas esse casamento assim, meu filho! MARGARIDA — Esse casamento assim o quê? É igual ao do senhor com tia Benona! EUDORO — Você precisa terminar seu estudo! DODÓ — Meu pai, eu só gosto no mundo de criar boi. É a única coisa que me dá gosto. Deixe eu me casar! Se eu não casar amanhã, todo mundo vai saber a história e Margarida fica comprometida! EUDORO — Mas ninguém vai saber de nada, meu filho! Nenhum de nós vai espalhar essa história, que eu sei! CAROBA — Quem não vai espalhar? O senhor está muito enganado, eu vou espalhar tudinho! Vi tudo, assisti tudo e não estou pronta para sofrer essas humilhações, não! Casa em que eu trabalho, tem que ser casa de respeito, nessas coisas eu sou dura! EUDORO — Mas Caroba...
CAROBA — Vou começar e é agora! Meu povo...
EUDORO — Você tem razão, é melhor que ele case. Você fica trabalhando comigo na fazenda e eu faço uma casa para você.
DODÓ — Meu pai, o senhor concorda! EUDORO — Concordo. Pensando bem, vejo que tudo terminou pelo melhor, eu com Benona, você com Margarida.
EURICÃO — Isso é o que você diz, mas o fato é que ela está perdida.
MARGARIDA — Eu, meu pai? EURICÃO — A porca! Ora bolas, não já disse que é a porca? Você está aí, sua tia está aí, quando eu digo ela, só pode ser a minha porquinha! Serei cego, por acaso? Estou vendo vocês, mas agora pergunto: e minha porquinha, onde é que está? MARGARIDA — Espere, meu pai, eu sei quem é que tem sua porca.
EURICÃO — Você? Sabe? Ave Maria, valha-me Deus! Quem é? Quem é? Quem é o ladrão, o assassino que roubou minha porquinha? MARGARIDA — É Pinhão, papai! PINHÃO — Eu? EURICÃO — Ah, bandido, criminoso, assassino! Agora você me paga! Onde está minha porquinha? (Agarra PINHÃO pelo pescoço.) PINHÃO — Seu Euricão, eu...
EURICÃO — Diz ou não diz? PINHÃO — Eu não sei nem que porca é essa! EURICÃO — Então vou apertá-lo até sua alma sair pelo fiofó! Diz ou não diz? CAROBA — Mas afinal de contas, o que é isso? Pinhão roubou uma porca, foi? MARGARIDA — Foi.
CAROBA — Pois se o barulho todo é esse, a gente paga a porca! EURICÃO — E aquilo é porca que se pague, danada? DODÓ — Era aquela porca velha de madeira, Caroba! Estava cheia de dinheiro! EURICÃO agarra PINHÃO de novo.
PINHÃO — Um momento, me solte! Vá pra lá! Eu confesso que furtei essa porca, mas o senhor não ganha nada mandando me entregar à polícia. Eu morro e não digo onde ela está! Todo mundo fala em furto, em roubo, e só se lembra da porca! Está bem, eu furtei a porca! Sou católico, li o catecismo e sei que isso não se faz! Mas onde está o salário de todos estes anos em que trabalhamos, eu, meu pai, meu avô, todos na terra de sua família, Seu Eudoro? Onde está o salário da família de Caroba, na mesma terra, Seu Eudoro? Não resta nada! Onde está o salário de Caroba durante o tempo em que ela trabalhou aqui, Seu Euricão? Seu Euricão Engole-Cobra? EURICÃO — Engole-Cobra é a mãe! PINHÃO — Nós não temos nada! A coisa que a gente mais deseja na vida, eu e ela, é casar! Até agora, não pudemos. Onde está a minha porca? Ninguém diz nada! Pois bem, proponho um acordo a todos. Seu Eudoro não emprestou vinte contos a Seu Euricão? Eu entrego a porca por esses vinte contos.
EURICÃO — Não dou, os vinte contos são meus! PINHÃO — Então pode chamar a polícia, porque eu não entrego a porca de jeito nenhum. Ela tem cem vezes isso. Com os vinte contos posso comprar uma terrinha.
Junto com a do padrinho de Seu Dodó, caso e vou fazer minha vidinha com Caroba.
MARGARIDA — Ceda, papai! Nós devemos tanto a Caroba! Deixe pelos vinte contos! Já que não tem outro jeito e a porca vale mais.
EURICÃO — Está bem, vocês querem assistir à minha morte, a meu assassinato! Pois assistam! O vale está aqui. Agora vá buscar minha porquinha, pelo amor de Deus.
PINHÃO — Não precisa ir buscar, ela está aqui.
EURICÃO — Aqui? PINHÃO — Claro, era o último lugar do mundo de que vocês desconfiariam! Está aqui perto, no quarto, atrás de uma mala velha! (Entra no quarto.) DODÓ — E eu que pensava que Pinhão era idiota! CAROBA — Idiota por quê? DODÓ — Porque ele só vivia dizendo ditados.
CAROBA — Pois aprenda a conhecer com quem vive, senão o senhor está desgraçado. Uma pessoa capaz de me enrolar como ele pode lá ser idiota, Seu Dodó? Volta PINHÃO com o saco.
EURICÃO — Ah, Santo Antônio poderoso! Até que enfim você se compadeceu de seu velhinho, de seu devoto de todos os momentos e de todas as horas! Pensei que estava obrigado a escolher entre o santo e a porca! Mas Santo Antônio não podia me exigir esse absurdo! Ai, minha porquinha, que alegria apertá-la de novo contra o meu coração! Que alegria beijá-la! Ó minha esperança, ó minha vida! Agora que a encontrei não a largarei um só instante! Afastem-se, saiam de perto de mim! Agora é assim, minha porca e eu! Afastam-se todos, A cena deve dar idéia da solidão de EURICÃO, solidão que vai crescendo até o fim.
EUDORO — Mas espere...
EURICÃO — Afaste-se! Saia de junto de mim! EUDORO — Eurico, você guardou esse dinheiro muito tempo, não foi? EURICÃO — Guardei, toda a minha vida! Quase toda a minha vida! Desde que minha mulher me deixou! Agora, posso falar nisso, pois tudo perdeu a importância diante da porca! EUDORO — Eurico, o dinheiro não é tudo neste mundo. Você tem sua filha, tem a todos nós que agora somos sua família. Deixe de depositar toda a sua vida nesse dinheiro! Não dê tanta importância ao que não vale nada! Porque...
EURICÃO — Por que o quê? Que é que você quer dizer? Diga, termine! EUDORO — Será melhor dizer mesmo, Eurico? EURICÃO — Dizer o quê? Diga logo, é melhor do que me esconder alguma coisa grave. Que é? EUDORO — Esse dinheiro está todo recolhido, Eurico! Tudo o que você tem aí não vale nem um tostão! EURICÃO — Nossa Senhora, Santo Antônio! Você jura pelos ossos de sua mãe como é verdade? EUDORO — Juro.
EURICÃO — Está bem, eu acredito. Foi uma cilada de Santo Antônio, para eu ficar novamente com ele. Vou então ficar sozinho, novamente. E já que tem de ser assim, quero ficar aqui. Trancarei a porta e não a abrirei mais para ninguém. Porque não quero mais ficar num mundo em que acontecem estas coisas impossíveis de prever.
EUDORO — Eurico, o mundo não se acabou por causa disso. Você perdeu seu dinheiro, mas ganhou uma experiência e uma família! Acabe com essa idéia de se enterrar vivo! EURICÃO — Você pensa que está melhor do que eu? A única diferença entre mim e você, Eudoro, é que sua porca ainda está diante de seus olhos. Não, eu estou farto! MARGARIDA — Seu Eudoro tem razão, papai, o mundo não se acabou. Tudo pode recomeçar, o senhor vende esta casa e vai morar conosco.
EURICÃO — Você não está entendendo nada! E como ficaria eu? Você casa com Dodó, Benona com Eudoro, Caroba com Pinhão. Não vê que eu fico só? No meio disso tudo, com quem casaria eu? CAROBA — Com a porca. E, se ela não serve mais, com Santo Antônio! EURICÃO — Estão ouvindo? É a voz da sabedoria, da justiça popular. Tomem seus destinos, eu quero ficar só. Aqui hei de ficar até tomar uma decisão. Mas agora sei novamente que posso morrer, estou novamente colocado diante da morte e de todos os absurdos, nesta terra a que cheguei como estrangeiro e como estrangeiro vou deixar. Mas minha condição não é pior nem melhor do que a de vocês. Se isso aconteceu comigo, pode acontecer com todos, e se aconteceu uma vez pode acontecer a qualquer instante. Um golpe do acaso abriu meus olhos, vocês continuam cegos! Agora vão, quero ficar só! EUDORO — Adeus, Eurico.
BENONA — Adeus, Eurico.
EURICÃO — Adeus, escravos! MARGARIDA — Adeus, meu pai.
EURICÃO — Adeus, escravos. Saiam. Saiam todos, escravos! CAROBA — Adeus, Seu Euricão.
EURICÃO — Adeus, escravos! Saem todos, menos EURICÃO.
EURICÃO — Bem, e agora começa a pergunta. Que sentido tem toda essa conjuração que se abate sobre nós? Será que tudo isso tem sentido? Será que tudo tem sentido? Que quer dizer isso, Santo António? Será que só você tem a resposta? Que diabo quer dizer tudo isso, Santo Antônio?
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