A conceituação do que seja arte islâmica já traz uma certa complexidade ao se tentar estabelecer uma definição geopolítica, racial, cultural ou religiosa. Egípcios, árabes, iraquianos, todos esses povos e muitos outros mais, se confundem dentro desse conceito de arte, embora sejam tão diferentes e eventualmente tenham posturas diametralmente opostas.
A arte islâmica está na Espanha e Portugal e também está na Índia e nas Filipinas. É uma vastíssima região do mundo. Vamos estabelecer aqui que o termo arte islâmica não tem unicamente a conotação religiosa mas uma certa unidade estética que distingue e caracteriza esse conjunto. Definitivamente, é uma coisa complexa e não estou conseguindo simplificar como gostaria.


Arabescos em um cálice feito em cerâmica e no cofre em marfim
- desenhos complexos
A primeira, e talvez a mais forte maneira de expressão artística ligada ao islamismo é a caligrafia árabe. Segundo o Alcorão, Deus falou aos homens em árabe e a escrita passou então a ser a maneira de expressar a palavra de Deus. Essa missão de difundir a palavra de Deus através da escrita é bem representativa do espírito muçulmano. CyberArtes já publicou, há bastante tempo, uma matéria sobre Escrita Árabe e outra sobre Arte Celta, uma seguida pela outra (edições 38 e 39 que continuam disponíveis), e até hoje continuamos recebendo um bom número de correspondências vindas de todos os lugares sobre os dois assuntos. Já estamos na edição 78 e as correspondências continuam. Por esse motivo, vamos deixar de lado o alfabeto árabe nessa matéria, tanto quanto for possível, e enfatizar outros aspectos da arte islâmica.
Na arte islâmica é marcante a importância da cerâmica e da preparação de azulejos. Empregando motivos encontrados na natureza, como flores, frutos, folhagens e animais, e até mesmo desenhos geométricos, os artesãos elaboram um amarfanhado de figuras, retas, curvas e letras para formar motivos de decoração, ao mesmo tempo em que registram mensagens ou conceitos. Esses ornamentos são empregados na decoração de prédios, tanto no interior como no exterior, além de usados na fabricação de objetos de qualquer tipo. São os arabescos. De certa maneira é possível ler, nesses objetos.


Azulejos são empregados na decoração de interiores e
exteriores nas mesquitas, como a Mesquita Azul, em Istambul (foto à
direita) - proporções gigantescas
A cerâmica é de suma importância para os muçulmanos. Eles empregam algumas substâncias metálicas misturadas ao esmalte com que pintam o barro e louça. O resultado, quando ocorre a queima, é uma película metálica de grande brilho e fosforescência. A complexidade dos desenhos é outra característica facilmente encontrada: vidro, madeira, metais, marfim, tudo é trabalhado com desenhos complexos e detalhados.


Harmonia, colorido e grandiosidade na cúpula da mesquita no Egito e
na Kaaba, em Meca, Arábia Saudita - a Arte Islâmica é
marcada pela religiosidade e está em uma vasta região do planeta
A arte islâmica é colorida. Tanto o interior dos prédios como o exterior são freqüentemente decorados com azulejos ou com mosaicos feitos com azulejos em muitas cores. O efeito é belíssimo em alguns casos e impressiona pela grandiosidade e pelo cuidado nos detalhes. O mundo tem muitos exemplos de enormes templos dedicados a orações ou ao louvor: isso é verdade no Cristianismo, no Budismo e em praticamente todas as religiões; no Islamismo não é diferente. Os azulejos datam de 5000 a.C. conforme foram encontrados em escavações no Egito. Naquela época já se faziam murais e foram encontradas as cores Azul Turquesa e Verde Nilo, produzidas pelos primeiros alquimistas. Apesar da aridez dos desertos que tanto caracterizam muitas das regiões dominadas pelo islamismo, a arte islâmica procurou lidar com todas as cores do arco íris e as suas inesgotáveis variações desde o início.

Minaretes, no Egito e na Espanha - variedade de formas e de quantidade de
acordo com cada região
As mesquitas, locais preparados para as orações, eram inicialmente uma imitação da casa de Maomé, em Medina. Havia um pátio quadrado com uma porta voltada para o sul. Haviam galerias feitas com troncos de palmeira e fontes para a ablução. Essa simplicidade foi sendo perdida na medida em que se procurava fazer da mesquita um lugar magnífico e transcendental entre essa vida e a outra vida. Três elementos caracterizam as mesquitas: a harmonia das formas, o emprego das luzes e a caligrafia que existe em todos os lugares representando a palavra de Deus. Toda Mesquita tem um Minarete, uma espécie de torre de onde se sinaliza avisando as horas das orações. A forma, o estilo decorativo e até a quantidade de minaretes em uma mesquita, varia de acordo com o local, sendo de uma maneira na Turquia, de outra no Egito, na Espanha, no Irã e assim sucessivamente. O mundo islâmico é muito vasto e formado por paises que muitas vezes se antagonizam e etnias sem possibilidade de convivência. A cúpula que cobre os templos, os arcos que caracterizam quase todas as mesquitas, tudo isso tem tantas e variadas formas como imenso é o mundo islâmico. Descrever tudo detalhadamente aqui faria do texto muito maior do que o padrão definido por CyberArtes.
O Islamismo é uma religião concebida inicialmente por Maomé, a partir do século VII. Recebeu influência, como não poderia deixar de ser, das forças religiosas dominantes na época, o judaísmo e o cristianismo, mas é uma religião original, no sentido de que veio para responder aos desejos do povo árabe - tanto os nômades como aos pertencentes as poderosas dinastias existentes. Na mesma região onde os cristãos e judeus estabeleceram templos e lugares sagrados, os islâmicos também marcaram presença com suas mesquitas. Igrejas, mesquitas e sinagogas: essa mistura nunca teve uma convivência pacífica e harmoniosa. Não deveria ser assim, mas é!
A pintura islâmica não foi usada, como no cristianismo, para decorar os edifícios religiosos. Empregava-se unicamente nas residências e alguns prédios públicos. Foram feitos afrescos mas pouca coisa foi conservada até hoje. O estilo é estático e sem profundidade. De fato, a pintura nem de longe tem a importância que se da a caligrafia e a cerâmica. A arte da tapeçaria também foi importante, mas vamos deixar isso para um outra ocasião. Foi à partir dos desenhos sem significado aparente dos tapetes persas que se deu origem à moderna arte abstrata.

Cores vivas e figuras estáticas marcaram a pintura - mais importância
para a caligrafia
A arte islâmica está longe de ser a arte de um pais. À partir da dominação árabe em uma vasta região do mundo, todos esses povos reunidos pelo islamismo receberam uma forte e variada influência dos povos conquistados e oponentes. Esse o motivo de tanta variação mesmo nos elementos mais padronizados e característicos. Não há uma unidade rígida, mas uma influência tão complexa como um arabesco. Para nós, ocidentais, a postura islâmica é muitas vezes incompreensível em seu desprezo pela vida terrena e pela constante exaltação da vida transcendental. A arte, entretanto, facilmente atinge o nosso coração.
Fonte: www.cyberartes.com.br