ROMÂNICO CAROLÍNGIO
Relativo a Carlos Magno, imperador de quase todo o ocidente, que realizou a primeira reunião de quase toda a Europa e lançou os ensinamentos da cristandade medieval.
Na seqüência das invasões bárbaras, o império romano do ocidente entrou em colapso. As regiões anteriormente sob o domínio romano foram divididas entre muitos soberanos. O estado, a justiça e a técnica sucumbiram. O nível de vida retrocedeu. O desenvolvimento das cidades estagnou.
Apenas o poder da igreja não se viu restringido. Tornou-se a mais importante depositária da cultura após a queda de Roma ocidental.
Os conventos beneditinos, primeira ordem monástica (529), tiveram um papel fundamental. Os livros antigos eram aqui compilados e traduzidos, a investigação e a instrução fomentadas nos monastérios.
Para garantirem sua base econômica, os conventos tinham terra e, desta forma, poder.
Serviam de refúgio, numa sociedade onde valia a lei do mais forte. A importância política, econômica, cultural e social da igreja cresceu no séc. VIII Pepino, rei dos francos, firma aliança com a igreja, aliança mais tarde desenvolvida por Carlos Magno. Desta forma o papa assegurou independência do imperador bizantino.
Este pacto acontece no natal de 800, com a coroação de Carlos Mano como imperador, pelo papa Leão III, em Roma.
Afora as obras executadas no ou pelo império bizantino (Ravena, p. ex.), nada foi criado e grandioso, duradouro ou suntuoso na Europa. Em concorrência com a monarquia bizantina, houve um regresso à construção monumental em pedra, com Carlos Magno. Estas construções limitamse quase exclusivamente às igrejas e mosteiros (monastérios) na aliança entre clero e coroa.
A disposição das várias funções no recinto do mosteiro é significativa :
Tudo que é temporal encontrava-se no poente
Tudo que era espiritual, estava à nascente.
O módulo era o cruzeiro, entre a nave principal e o transepto. Deste modo foram erigidos edifícios simples, quase simétricos, com naves centrais carregadas de simbolismo, dominadas pelo grupo edificado à nascente (dedicado ao Senhor) e um parcialmente idêntico, à poente, que servia ao senhor secular.
Secular = leigo, não divino
O poente também se destinava ao rei ou imperador. No lado oposto do altar-mor sentava-se o executor terreno do arcanjo São Miguel. O primeiro caso é a capela Platina, no reinado de Carlos Magno. Na maioria dos casos o imperador e sua corte, utilizavam as igrejas dos conventos para o culto divino, às quais era anexada uma capela à oeste.
No que se refere às edificações românicas, a relação entre modelo e reprodução não deve ser interpretada no sentido de cópia. O essencial era a forma base e o espírito da construção.
Fechada, sólida, maciça, severa estes conceitos são válidos na generalidade.
O termo "românico" cunhado apenas no século XIX não é exato. O românico não se difundiu apenas entre os povos de origem romana, ou seja, marcadas pela cultura de Roma antiga. Na Alemanha dos finais do séc. XIX procurou-se, por motivos nacionalistas, substituir a expressão românica por "germânica".
Em grande parte o românico parece ainda uma reação contra o período de instabilidade e decadência. As igrejas e os conventos assemelham-se a fortalezas, com muros grossos e pesados.
Há realce das linhas horizontais.
O efeito da pedra é puro, sem revestimento.
A impressão provocada pelo espaço das igrejas românicas é :
Estática
Austera
Um pouco desajeitada
As criptas aumentavam ainda mais a imagem de desequilíbrio. O edifício agrupado cria a imagem de "fortaleza celeste" ou "palácio divino"
APÓS CARLOS MAGNO
Morto Carlos Magno (724-814), o Sacro Império Romano divide-se entre seus três herdeiros. Pelo tratado de Verdun, firmado em 843, a região que se estende dos Alpes ao mar do Norte cabe a Lotário, a Germânia a Luis e a Francônia a Carlos.
A Europa atravessa uma fase difícil: invasões diversas assolam seu território em todas as direções.
Os exércitos reais não conseguem deter os árabes, que, no século IX, atacaram Roma e Campânia (na Itália) e Marselha e Arles (na França atual). Pelo Norte atacam os normandos, apoderando-se das costas setentrionais da França, de parte da península Ibérica e da Inglaterra. No século X, incursões húngaras atingem a Lombardia, parte da França e Roma. Tudo contribuía para a decomposição das instituições monárquicas.
O poder real, diminuído em sua autoridade, vai sendo substituído pelo poder dos nobres castelões: o castelo feudal era a única fortaleza que oferecia alguma resistência aos invasores, e as populações atemorizadas se organizavam em torno dele. Essa instabilidade colabora para a propagação da crença de que o mundo acabaria no ano 1000.
Os homens vivem aterrorizados com a perspectiva do juízo final pregado pela Igreja: temem o caos.
A arte reflete o apocalipse, as pinturas murais apavorantes retratam o pânico que invade a Europa ocidental.
Começou o ano 1001 e o mundo não acabou. Oto I, que reunificara a Germânia e fora coroado, pelo Papa João XII, imperador do Sacro Império Romano-Germânico (962), consegue dominar os húngaros e eslavos e expandir suas conquistas para o Norte. Ressurgem as atividades comerciais antes freadas pelas invasões, e o aumento demográfico é seguido pelo aumento de áreas cultivadas.
A Igreja fortalece seu poder temporal aumentando as extensões de terra que dominava até então: chega a possuir um terço de todo o território francês.
Crescem as ordens monásticas, e a mais importante, a ordem de Cluny, fundada em 910, na Borgonha (França atual), vai estendendo sua autoridade a ponto de congregar, no início do século XII, 10 mil monges em 1.450 mosteiros espalhados por toda a Europa. A ordem cisterciense, por sua vez, conta com 530 mosteiros sob seu controle.
A Igreja é a maior instituição desta época: ela domina, secular e culturalmente, o espírito medieval.
Nos anos que se seguiram ao ano 1000, viram-se reconstruir igrejas em quase toda a Europa cristã.
Mesmo quando isso não era necessário, cada comunidade cristã concorria em emulação para edificar santuários mais suntuosos que sua vizinha. A febre de construção que invadiu a Europa reflete o espírito da época, e o estilo românico, que caracterizou as artes desde o fim do século X até meados do século XII, sintetiza em seus traços a histórica desse período.

Abadia de Murbach Alsácia, França

Basílica da Borgonha Borgonha, França

Catedral de Roskilde Sjaelland, Dinamarca
O feudalismo era a nova ordem da sociedade então, enquanto o Sacro Império ia se firmando politicamente.
Até esse momento, a arquitetura não diferenciava formalmente palácios de igrejas, devido ao fato de o imperador, de alguma forma, representar tanto o poder religioso quanto o temporal. Os beneditinos, logo após as primeiras reformas monacais, foram os primeiros a propor em suas construções as formas originais do românico.
Surge assim uma arquitetura abobadada, de paredes sólidas e delicadas colunas terminadas em capitéis cúbicos, que se distancia dos rústicos castelos de pedra que davam seqüência à linha pós-romana.
A Igreja é o único edifício onde se reúne a população, e parte importante da vida social se desenrola no seu interior. As ricas ordens monásticas e os nobres poderosos procuram elevar em louvor a Deus os testemunhos de sua fé.
Por isso, o estilo românico encontrará sua expressão maior na arquitetura.
Considerada "arte sacra", ela está voltada à construção de igrejas, monastérios, abadias e mosteiros - as "fortalezas sagradas".

Igreja Saint-Benoit-sur-Loire Loiret, França

Igreja de Santa Maria de Ripoll Gerona

Igreja de São Martinho Frómista, Palência
A arte românica, cuja representação típica são as basílicas de pedra com duas apses e torres redondas repletas de arcadas, estendeu-se do século XI à primeira metade do século XIII. Seu cenário foi quase toda a Europa, exceto a França, que já a partir do século XII produzia arte gótica. Apesar da barbárie e do primitivismo que reinaram durante essa época, pode-se dizer que o românico estabeleceu as bases para a cultura européia da Idade Média.