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Ambientalismo e Direitos Animais:
uma simbiose fraternal

Presenciamos anualmente muitas ações de organismos ambientalistas estatais (IBAMA, Ministério do Meio Ambiente, secretarias estaduais ambientais etc.) e não-governamentais (Greenpeace, WWF, Sea Shepherd etc.) direcionadas ao combate de crimes ambientais que envolvem opressão de animais não-humanos. Tais atuações vêm comprovando e apontando uma verdade essencial que se aproxima cada vez mais do óbvio dia após dia: ambientalismo e Direitos Animais são movimentos irmãos, possuem uma associação perfeita e inquebrantável, e tentar vê-los ou praticá-los de forma separada será uma encaração sempre incompleta e limitada.

Essa associação é muito rica e, mais que uma relação de causa e efeito entre a exploração animal e crimes ambientais, é uma constatação lógica e uma visão ecológica bem mais abrangente e completa. As duas causas completam-se entre si de tal modo que ações de um lado que deem menor importância ao outro serão apenas enxugamento de gelo.

O primeiro ponto principal que torna ambientalismo e Direitos Animais inseparáveis surge na convergência de ambos em zelar pela fauna. O primeiro vê os animais como parte essencial da biosfera ao lado da flora, dos micro-organismos e dos elementos abióticos e o segundo defende que sua integração à natureza como seres livres e íntegros lhes é um direito inalienável, juntando-se numa proteção excelentemente justificada.

O ambientalismo, quando livre das limitações impostas por visões naturalistas e antropocêntricas, inclui todo o Reino Animal em sua esfera de proteção, passando a abranger também os animais domésticos e os humanos, tendo nesse ponto um importantíssimo respaldo dos Direitos Animais e até fundindo-se com este.

Um movimento ambientalista que, embora pense na preservação ou restauração da integridade da biosfera e na sobrevivência e bem-estar humanos, não inclui a proteção da vida e da integração ecológica de todos os animais à natureza em suas preocupações está atuando de forma logicamente incompleta e segregadora.

O segundo grande fator de encontro das duas causas é o pensamento de que uma sociedade que explora, oprime e assassina animais não-humanos e não considera abandonar essas práticas jamais entrará em comunhão com o meio ambiente nem conseguirá alcançar a sustentabilidade.

Esse ponto é sustentado predominantemente por filosofias espirituais, que consideram impossível uma população humana que se sustenta na violência contra animais e no derramamento de sangue destes conciliar-se com uma natureza que clama por paz, preservação e equilíbrio e tratam tal exploração como uma agressão ambiental por si só.

A terceira associação fundamental entre os dois movimentos, a mais notável e cotidianamente justificada, está nas visíveis e inegáveis ligações entre o crime ambiental e a exploração e/ou matança de animais nas mais diversas situações. São pontos em que, caso a simbiose entre meio ambiente e Direitos Animais não seja levada em consideração, haverá um ativismo sempre incompleto, limitado e até contraditório.

Exploração animal e crime ambiental

Muitas são as ligações em que ora a opressão contra animais não-humanos implicam grandes degradações ambientais ora tragédias ecológicas causam mortes em massa na fauna local, regional ou mesmo global:

a) Pecuária + desmatamento e poluição:

A pecuária invariavelmente representa enormes impactos ambientais. Seja na ocupação de enormes áreas convertidas em pasto, na grande demanda de ração de origem agrícola ou no acúmulo de excreções que precisarão ser dispostas no meio ambiente de alguma forma, a criação rural de animais sempre será um fardo ambiental muito grande.

O exemplo mais célebre esteve na denúncia do Greenpeace, feita em junho de 2009, sobre o desmatamento provocado na Amazônia pela expansão da pecuária bovina. Foi escancarado em rede nacional – e até mundial – o poder destrutivo da pecuária extensiva, a qual vive pela existência de enormes áreas de pastagem, muitas das quais são áreas suprimidas de biomas por desmate.

Também ocorre a liberação de grandes quantidades de gases-estufa, especialmente metano, pela flatulência animal, sendo a criação rural fonte de cerca de 15% do metano, 17% do óxido nitroso e 44% da amônia que são liberados à atmosfera por todas as ações humanas no planeta. (Fonte: FAO)

Vem-se tentando criar métodos “orgânicos” de pecuária, em que os animais receberiam tratamento menos violento, incluindo um abate pretensamente “humanitário” e o convívio harmônico com áreas florestadas. Não é, no entanto, uma medida viável para casos de grande demanda nacional ou mundial nem promete a manutenção de lucros satisfatórios para o agronegócio, sendo praticada hoje mais para atender consumidores que exigem alimentação sem contaminação medicamentosa e com o mínimo de sofrimento animal.

A pecuária intensiva também tem um peso ambiental imenso, uma vez que demanda o plantio de enormes áreas de predominantemente soja e milho – quase sempre também ligado a momentos de desmatamento massivo, conforme o próprio Greenpeace já alertou em 2006 – para alimentação dos animais aprisionados e tem que lidar com a enorme carga de excrementos gerados, em processos que muitas vezes geram severa poluição de corpos d’água e contaminação do solo ou subsolo onde os dejetos são dispostos.

A pecuária, além de promover sofrimento e morte aos animais criados, também é um elemento a gerar forte onerosidade no meio ambiente.

b) Aprisionamento, tratamento proprietário e comercialização de animais + tráfico de animais silvestres:

Nesse caso, há uma ligação ainda mais óbvia que na pecuária entre o tratamento indigno de animais e a criminalidade ambiental. Pode-se observar isso por uma constatação lógica: só existe tráfico de animais silvestres porque existem pessoas interessadas em criá-los presos e dispostas a pagar por eles, e esse tipo de crime só é interessantemente lucrativo porque existe toda uma cultura de tratamento de bichos como mercadorias, como objetos valoráveis em dinheiro, como propriedade.

O comportamento cultural de desejar ter “posse” sobre animais para fins de estimação e ornamentação, ainda mais de espécies exóticas, e a falta de consciência ambiental e respeito à vida animal estimulam fundamentalmente esse comércio criminoso.

Não é preciso muito esforço para ligar os pontos: se nossa sociedade passasse a tratar os bichos como os seres sencientes que são, necessitados de liberdade e dignos de respeito íntegro, e abandonasse a cultura de vê-los como ornamentos e/ou servos afetivos, mercantilizá-los e tratá-los como propriedade, a venda de animais selvagens seria totalmente inviabilizada por falta de demanda e de lucratividade.

Com uma cultura consciente respeitando os animais, o tráfico deixaria de existir; a polícia ambiental, o Ibama e outras entidades seriam poupadas do cansativo esforço de apreendê-los e dar-lhes uma triagem decente; e os ecossistemas não perderiam mais animais para sequestradores interessados em lucrar pela venda de suas vítimas.

c) Escravização de animais selvagens em circos:

Assim como no caso do tráfico de animais silvestres, só existe a supressão da liberdade de bichos selvagens e a consequente “mutilação” do meio ambiente porque há um interesse cultural por trás e uma ausência de valores dedicados ao respeito pela dignidade animal. Donos de circos que exploram animais não-humanos sabem que a plateia gosta de ver bichos exóticos fazendo proezas incomuns para sua espécie e fazem desse gosto um respaldo para o sequestro e adestramento – este quase sempre baseado em acorrentamento, espancamento e humilhação – deles.

A revelação dos maus tratos contra bichos explorados em circos, a subsequente aprovação de leis proibindo a exploração circense dos mesmos e a introdução de uma cultura de respeito à liberdade animal não-humana são providências imprescindíveis para que a natureza deixe de perder tantos de seus habitantes por sequestro.

d) Obtenção de “produtos” de origem animal + dizimação de populações de muitas espécies animais:

O extrativismo animal é inegavelmente uma das maiores causas da ameaça de extinção (ou da própria extinção) da imensa maioria das espécies de animais vertebrados.

Duas perguntas são suficientes para fazer cair a ficha dessa questão:

1) Por que tantas espécies de elefantes, ursos, pandas, tigres, jacarés, raposas, baleias, tubarões, golfinhos, tartarugas, focas etc. estão entrando em extinção? – resposta: em grande parte porque são vítimas de caçadores que procuram extrair a carne de seu corpo ou de parte dele, suas peles, seus marfins, seus chifres, seus dentes, seus ovos, alguns de seus órgãos, algumas de suas secreções...

2) Por que eles extraem carne, pele, órgãos etc. de animais ameaçados de extinção? – resposta: porque há pessoas interessadas em pagar por esses elementos e consumi-los in natura ou em forma processada.

Se não houvesse sociedades cegas aos Direitos Animais apreciando todos esses produtos de origem animal, os caçadores não teriam para quem vender os frutos de seus assassinatos. Se o vegetarianismo pelos animais fosse generalizadamente adotado, as carnes de tubarão, de baleia, de tartaruga e de tantas outras espécies ameaçadas, além dos ovos, não teriam mais valor econômico. Se o veganismo fosse largamente adotado, acabaria a demanda por peles naturais, marfim, secreções animais e qualquer outra matéria-prima dessa origem.

e) Pesca e aquicultura insustentáveis + dizimação de populações aquáticas e ecossistemas litorâneos:

A pesca em grande escala vem se mostrando o pior inimigo dos ecossistemas aquáticos ao lado da acidificação dos oceanos. A população de diversas espécies de peixes em vastas regiões está encolhendo de forma preocupante, como no caso dos bacalhaus do Mar do Norte.

Já se foi o tempo em que a pesca tanto não tinha alternativas alimentícias como não ameaçava o equilíbrio ecológico local. Hoje pensar numa “pesca sustentável” aproxima-se cada vez mais do impraticável, dada a grande demanda mundial por uma carne altamente propagandeada como “saudável”, “nutritiva” e “favorável ao bem-estar e à longevidade”.

De forma diferente mas não menos onerosa ao meio ambiente, a aquicultura também tem um alto custo para a natureza, predominantemente o desmatamento de ecossistemas costeiros e o aterramento de terras desmatadas. A devastação de manguezais e estuários, sendo estes berçários de parte da vida marinha e fluvial, também é um notável contribuinte do esvaziamento da fauna aquática.

Numa visão realista, apenas uma solução é plausível para que o massacre pesqueiro e aquicultor deixe de ameaçar a vida dos rios, lagos, estuários, oceanos e biomas costeiros: o consumo médio de “frutos-do-mar” teria que diminuir muito, sendo a adoção difundida da alimentação vegetariana – solução dada pelo movimento dos Direitos Animais –, providência mais simples e realizável que uma diminuição generalizada do peso da carne individualmente consumida – alternativa que inevitavelmente se chocaria contra a preocupação dos onívoros com a “boa saúde” prometida pela indústria de pescado.

Desastres ambientais e consequências na vida animal

Da mesma forma que a assimilação dos Direitos Animais se fazem imprescindíveis para um ambientalismo mais lógico, consistente e abrangente, a encaração de fatores ambientais também potencializa a preocupação com o Reino Animal. Assim como problemas sociais como a miséria e a violência comprometem os Direitos Humanos, tragédias ecológicas também atentam contra os Direitos Animais.

Dois pontos são mais notórios na relação entre a luta contra males ambientais e a defesa da integridade animal:

a) Poluição de corpos d’água + mortandade de animais:

A poluição industrial e naval causa invariavelmente incontáveis mortes de animais, predominantemente aquáticos. Nesse ponto, o ambientalismo “injeta” nos Direitos Animais uma preocupação mais apegada à ecologia, tornando-os um movimento mais abrangente e completo. A compreensão das duas causas como inseparavelmente integradas deverá tornar mais acentuadas as preocupações sobre esse tipo de desastre e, consequentemente, potencializar as exigências por providências contra a poluição de corpos d’água com a adesão dos movimentos de defesa animal a tal cobrança.

Também será perceptível que uma empresa que adota valores de respeito aos Direitos Animais e assim se preocupa com a vida e integridade da fauna que é afetada por suas atividades terá mais pressa em adotar um sistema de gestão ambiental que interrompa o lançamento de poluentes.

b) Aquecimento global + extinções em massa:

O aquecimento global, segundo os noticiários de todo o mundo, vem extinguindo populações de numerosas espécies de bichos e ameaçando a existência de tantas outras. Uma visão que combine ambientalismo e Direitos Animais irá, assim como na visão da poluição de massas d’água, encarar de forma mais exigente e empenhada as providências destinadas à minimização das desastrosas consequências.

A integração da defesa animal à cobrança por soluções destinadas à detenção do aumento da temperatura atmosférica também irá minimizar as visões ambientais antropocêntricas que enfocam a preocupação das pessoas com as mudanças climáticas nas consequências a serem sentidas pela humanidade e diminuem a importância do que a biosfera está e estará sentindo.

Muito embora seja praticamente uma questão de lógica enxergar a associação entre fatores ambientais e a integridade dos animais não-humanos, essa visão ainda vem sendo insistentemente ignorada pela maioria das organizações de proteção ambiental mais importantes do Brasil e do mundo, como Greenpeace, WWF e IBAMA.

Ainda se insiste tanto em aconselhar uma atitude ambiental sem a abrangência de mudanças significativas ou abandono de hábitos-chave como o consumo de produtos de origem animal como em promover repressão policial sem uma política paralela de conscientização por mudança de valores culturais.

É o que se vê quando, por exemplo:

O Greenpeace, mesmo numa cruzada contra a bovinocultura amazônica ilegal, ainda aconselha apenas uma compra mais seletiva de carne bovina – uma atitude que corre o risco de estimular a expansão da pecuária e consequente degradação ambiental em outras regiões brasileiras – em vez de recomendar a interrupção total do seu consumo;

A mesma ONG e a WWF, mesmo enxergando a pecuária, a pesca e a aquicultura como potenciais inimigas do meio ambiente de todo o planeta, ignoram o veg(etari)anismo como uma contribuição individual excelente ao combate e oposição às degradações por elas causadas e, ao invés, continuam aconselhando um “consumo responsável” de derivados animais;

O Sea Shepherd hesita em exortar a população a adotar um hábito de consumo livre de derivados de origem animal como providência válida para todas as campanhas contra a matança de qualquer espécie de qualquer lugar do mundo e, ao invés, recomenda apenas o boicote temporário de produtos extraídos de animais de determinadas espécies assassinados em específicas localizações e períodos;

O IBAMA, junto a alguma polícia ambiental, apreende animais silvestres tantas vezes num ano e não vê que a raiz do mal do tráfico está na cultura que trata a vida animal não-humana como um objeto ornamental, possuível e valorável em dinheiro e cria demanda para o comércio criminoso.

Casos como esses mostram que uma visão ambientalista desassociada dos Direitos Animais promove uma luta incompleta e de eficácia limitada e faz apenas enxugamento de gelo.

Da mesma forma, é necessário que entidades de proteção animal incluam entre suas reivindicações o combate a males ambientais, como poluição, para evitar mortandades, sob pena de sua defesa também ser menos que completa.

Está cada vez mais difícil de ignorar que o ambientalismo e os Direitos Animais são movimentos inseparáveis e mantêm uma associação lógica. Um ambientalismo completo faltará com lógica se não defender todos os animais ao lado das vidas silvestres e humanas. Hábitos violentos tornam uma sociedade incompatível com a sustentabilidade e o equilíbrio ecológico. Agressões contra animais levam a crimes ambientais e desastres ecológicos provocam tragédias animais.

Ou a sociedade e as organizações que lideram sua conscientização fazem esse ajuste tão necessário em seus fundamentos ou correrão o risco de estar promovendo sempre uma luta com limitações e contradições e até de não ser bem-sucedidas na construção do mundo melhor que defendem.

Robson Fernando

Fonte: www.artigos.com

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